quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Espírito natalino

Tia Neuza sempre detestou os natais.

Lhe recordava a infância.

Sem presentes, sem ceia, sem infância.


  *   *   *

A piscina, os camarões, os pés de seriguela.

As cervejas, o vinho e o churrasco.

As mangueiras e os cavalos.

  *   *   *

O vento arrastou a poeira dos vivos e dos mortos.

Apenas o rio segue idêntico a si mesmo.

Indiferente a tudo e a todos.

  *   *   *

Meus pais morreram nas vésperas das vésperas do natal.

Ian morreu na véspera das vésperas da véspera do natal.

Comemos, rezamos e dormimos antes de assistir o menino e a garça

  *   *   *

Tio Edson morreu dois dias depois do natal.

Na mesma data em que, todos os anos, o ônibus da Itapemirim lhe levava ao Ceará.

Tia Neuza tinha toda razão de odiar o papai Noel.

  *   *   *

A vida é triste, como uma rã saltando no charco.

Apesar da alegria do som do óleo quente fritando as rabanadas.

E sim, tia Neuza tinha todas as razões de detestar as celebrações natalinas.

nuno g.
Toróró, 25 de dezembro de 2024.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Tudo aqui é antigo III

Os furúnculos que atormentam os suicidas

O sol que incendeia o juízo

A torpeza que paralisa os débeis

A insanidade que reluz os delírios dos gênios

O som do ventilador na madrugada

A delicadeza das flores selvagens

E a esperança que esse esquimó pousado sobre meu ombro esquerdo

Revelará a qualquer instante o sentido exato de sua presença

Tudo aqui é antigo

O amor o amor o amor e as trevas de onde brota todo amor

A suavidade a suavidade a suavidade e o engano onde arde tudo que é suave

E essa estrela vermelha carregada por um condor machucado

À espreita de um passo em falso

Ou de um súbito instante de iluminação

Tudo aqui é antigo

Essa memória primitiva que nos protege de nós mesmos 

E a permanente saudade de tudo que não chegamos a viver...


nuno g.

Ioróró, 18/12/24

Tudo aqui é antigo II

Tudo aqui é antigo

O corpo de Hart Crane se dissolvendo no mar

E as luzes dos vaga-lumes no cio

Os beija-flores que entram pela janela

O choro dos bebês

A sede e a fome de mistério

Tudo aqui é antigo

Os vitrais que sobreviveram aos terremotos

As pílulas que o andarilho leva ao bolso

E o mormaço que acompanha nossos passos

Tudo aqui é antigo

As velas que nossas mãos trêmulas insistem em acender

A procissão de eguns que dançam em torno à árvore de nossas mirações

E a insônia que nos protege de nossos próprios espantos

Tudo aqui é antigo

Como o vento dos mitos mais antigos

Como a tempestade que aguarda a hora de desabar sobre nossas cabeças

Como os cabelos de Andrômeda, a princesa etíope

Tudo aqui é antigo

Tudo aqui é memória de um coração forasteiro

Tudo aqui é marulho e arrebentação

Como o fogo que em cinza transmuta todas as coisas 

Tudo aqui é antigo movimento de um velho ferrorama

Vagando perpetuamente do Nada ao Nada

Até que nos trilhos não haja memória alguma das ruínas do mar

Nem dos ossos das tempestades


nuno g.

Toróró, 18 de dezembro de 2024. 

Tudo aqui é antigo

Tudo aqui é antigo

Esses cacos de cristos de cerâmica e parafina 

Que encantam arqueólogos

Que enfeitiçam antiquários

Que mergulham em estado cataléptico toda sorte de alquimistas e falsários

Tudo aqui é antigo

Tudo aqui são ruínas ossos e ruínas

Essas cartas de baralho esbranquiçadas pelo sal dos mares

Esses mapas de céus imaginários com suas constelações de medos e fúrias

Esses transeuntes de passos desajeitados e sobressaltados

Tudo aqui é antigo

Essas sombras, essas águas, esse trem em meus sonhos

E essa biblioteca que não termina de incendiar

Tudo aqui é ornamento à base de luzes arcaicas

Como essas fotografias de Pedro Juan num puteiro de São Paulo ou da Barra do Ceará

Como essas árvores e esses presépios e nossas mãos sujas tentando tocar a promessa

Tudo aqui é antigo

Essa lua cheia, essa chuva de meteoros, essas palavras ciganas

Essa quentura, esse bolor, essa atmosfera de fascismo e impunidade

Tudo aqui é antigo

Como o som dos carapanãs de Iquitos

O cheiro de sexo escorrendo pelas paredes

Gotejando entre as frestas do telhado

Enquanto o anjo Azul segue sobrevoando a noite em que nos afogamos...


nuno g.

Toróró, 17 de dezembro de 2024.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

colar de âmbar

estávamos no supermercado são paulo, na sessão de queijos, frios, embutidos e defumados

quando o colar arrebentou e entendemos que estávamos crescendo

                                           e entendemos que mais um ano estava findando
                                        
                                           e entendemos tudo que havia para entender naquele instante

faz tempo, muito tempo

que o colar de âmbar arrebentou e exigiu de nós a estranha firmeza dos dezembros

       apesar de não ser dezembro, apesar de nada recordar o natal
       
       apesar de toda a vice-reinal burocracia que sustenta o mundo

       apesar da infernal burocracia que se interpõe entre o ser e o vir-a-ser

faz tempo, muito tempo

que o colar de âmbar arrebentou

recolhemos cada pedra, fizemos a feira, compramos guloseimas

comemos churrasquinho na porta do super

com farofa e vinagrete

    e foi como se comêssemos nuvens de algodão e minerais

    e foi como se talhássemos o futuro

    e tudo o mais que teríamos que atravessar até que dezembro se tornasse passado

com todos os seus mortos e todas suas memórias de mortos

estávamos no supermercado são paulo

compramos pães, carne, cuscuz e tapioca

você andava num carrinho acoplado ao carro do supermercado

do outro lado da rua a casa da cultura

no céu um sol de ferver miolos
         
           um sol de cozinhar o juízo

           um sol de rachar o crâneo

estávamos bem e contentes

paramos no parquinho à saída da cidade

você brincou brincou e brincou

até ficar exausta

você comeu seu batom garoto do dia

e seguimos

com nosso automóvel de asas e sonhos

com nossas certezas de que estávamos seguindo o caminho certo

    e sem saber que anos depois voltaríamos a ter um colar de âmbar entre os dedos

    e sem saber que Ian morreria no mesmo dia em que nascera

    e sem saber que os fascistas dominariam o horizonte

    e sem saber que seguiríamos sorrindo e caminhando pelas estradas

sua boca suja de batom garoto e farofa e esperança

arrancamos pela estrada, cruzamos a ponte:

eia Cachoeira!

paramos no jardim grande

você brincou e brincou e brincou

seguimos pro Curiaxito

comemos paçoquinhas de amendoim na dona Rita

guardamos as pedras de âmbar em algum lugar que nunca voltamos a encontrar

enterramos Jabuticaba nas águas do rio

junto à tartaruga de pelúcia que saltou das suas mãos quando cruzávamos a ponte

anos depois recebemos outro colar de âmbar

que algum dia se partirá também

faz tempo, muito tempo

que é e não é dezembro

que é e não é natal

que tudo acaba e recomeça e tornar a acabar

girando girando girando

como as estrelas acesas no céu que nos protege...


nuno g.
Toróró, 10 de dezembro de 2024.




sexta-feira, 29 de novembro de 2024

a feiticeira das águas roxas

      Em queda perpétua, se apresentou assim: Jezabel, senhora das insistências e de tudo que é turvo e irremediável. Em queda perpétua, contínuo estado de ausência de si, silhueta em permanente estado de cintilância, cigana. Jezabel, senhora detentora do saber amar o que em si é detestável e de tudo que é queda, ruína e sofreguidão: assim se apresentou. Antes, muito antes, do nascimento de Tempo, seu filho. Jezabel, a que com plumas fere e que em sonhos firma os pontos do Destino e de toda cisma inexorável. Em queda perpétua, a que traça círculos concêntricos e comanda desde sua casa de lama toda devoração, a que amplifica e faz ecoar todos os vestígios de tudo que por qualquer razão tenha sido condenado ao esquecimento. Em queda perpétua, assim partiu. E nenhuma coincidência há que o tenha feito na mesma forma em que chegou. Os encantados animais de fogo e a noite sobre a qual reina são testemunhas vivas de sua dança que, embora breve, foi suficientemente capaz de restaurar a memória de como chegamos ao caos e de como nasceram as enfermidades, os ódios e todas as fúrias. Jezabel - a criança que chora e te acompanha aninha o que resta de sagrado no desespero; onde tudo é sombra sua queda se revela como condição de possibilidade de alguma luz: ainda que uma luz frágil, trêmula, quebradiça e exausta ante a recorrente palidez estampada à face dos que a ti recorrem: palidez que denuncia o peso do medo e o absurdo do espanto que os movem a prostrar-se à serena ansiedade dos teus pés.


nuno g.

Toróró, 29 de novembro de 2024.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Mucuripe

         Vá comer merda! - disse Judite antes. Quando no sol ainda não ardia o fogo e a Serpente não havia separado as cores e definido os limites, os contornos, as fronteiras precisas de cada uma delas. Em sombra e penumbra, as palavras de Judite reverberaram inaugurando o mundo dos sons e abriram caminho à dissipação da névoa e da neblina. Estreito rastro apenas iluminado por tênues e frágeis fagulhas. Seu eco atingiu Alzira e uma certa ciência de que todo futuro antes de ser futuro é, de alguma forma sinuosa e sutil, passado, a permitiu antever uma tarde de pôr-do-sol, bistecas fritas, cervejas geladas e mágoas acesas à beira-mar.


nuno g.

Toróró, 28 de novembro de 2024.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

estudo fino sobre o Azul

Assucena brincou com as águas.

Bel vaticinou: lembranças do passado.

Anjos existem, delicadezas também.

Apesar de tudo parecer indicar o contrário.

Ontem choveu e um arco-íris se fez ver no céu.

Alice ensaia mais uma peça.

Malu canta Raul aos quatro ventos.

A palavra no poema sempre flecha um alvo distinto ao esperado.

A palavra poema conserva do mundo aquilo que o cotidiano teima em esvaziar.

Vai comer inhame com a gente?

Apesar de tudo anjos e delicadezas seguem existindo.

E muitas vezes para vê-los basta estar aqui plenamente.



nuno g.
Toróró, 25 de novembro de 2024.

sábado, 23 de novembro de 2024

o caminho amarelo

       Soubemos por um telefonema. Uma vez mais a vida me recordando das coisas que são maiores, imensamente maiores, que nós. Arrumamos as coisas e fomos à capital. Recordo o gramado verde e um imenso deserto amarelo se abrindo diante de meus olhos. Neste deserto nós brincávamos, crescíamos, abandonávamos todas as coisas perecíveis e seguíamos por uma estrada repleta de pequenos animais saltitantes. Olhávamos as estrelas, fazíamos fogueiras, celebrávamos rituais em línguas desconhecidas e dançávamos músicas que em nada recordavam o lugar de onde havíamos vindo. Encontrávamos vários peregrinos no caminho e com eles dividíamos os alimentos, as vestes, a lama e o lodo. Depois que o caixão desceu à terra o deserto amarelo foi engolindo tudo. Até minhas pupilas foram invadidas por aquela cor. Arrumamos outra vez as coisas e regressamos ao sertão. Guardei em meu coração a memória daquele caminho e a certeza de que onde quer que ele me levasse meus passos seriam sempre insuficientes: não havia mais sequer mínima diferença entre estar só ou habitar a multidão. Havia apenas o amarelo mais intenso que conheci e a incômoda sensação de que a danação eterna era algo mais que uma desgastada metáfora entre as cáries das beatas da igreja.


nuno g.

Toróró, 23 de novembro de 2024.

travessa professor aprígio número sessenta

       Estive por séculos subindo e descendo aquela rua estreita. Entre o calor e as flores minhas esperanças de reencontrar meu avô e minha infância tornavam sempre a se renovar. A voz do tio Edson no púlpito da matriz pedindo a deus que me desse força para entender o que não poderia ser entendido. As lágrimas sem-fim de minha avó escorrendo pelos meus cabelos e o cântico perturbador e exausto das onças agônicas me acompanhando, me protegendo, me forçando a empunhar outra vez a pá de areia e enterrar entes queridos. Naquele vai-e-vem sem-sentido fui entendendo que felicidade e paz eram palavras tão inúteis quanto as palavras das aulas de catecismo. Nada acontecia naquele livro de memórias fragmentadas onde estive aprisionado por séculos. As fúrias ressuscitadas, o gavião real e o jaguar encantado apenas me exigiam paciência e rigor. Severas eram suas maneiras de ensinar e pouco-a-pouco fui entendendo como se gestam distâncias, como opera a violência do silêncio e como em sementes já habitam árvores. Raras vezes me ausentei de refazer a diário aquele caminho: o que entre fantasmas vive estranha em tudo essa displicência e arbitrariedade que em todos os lados se apresenta como vida e cotidiano. Na guerra em que cresci a febre, os calafrios e a insônia eram irmãos gêmeos e o lugar mais aprazível era o sótão onde, por sorte, conheci esse morcego que me apascenta o inviolável desejo de nunca mais estar aqui outra vez.


nuno g.

Toróró, 23 de novembro de 2024

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

pergunte aos pássaros

     Depois de tempos surgindo em forma de pássaro laranja, Hermenegildo regressou em sua forma de pássaro azul. Naquele silêncio entre a margem ocidental e a margem oriental do rio suas asas exuberantes desenharam figuras geométricas e esboços de seres ainda não nomeados. A delicadeza de seu voo só encontrava parentesco naquela delicadeza que conhecemos quando nos aproximamos de Arturo Bandini. Rumores e pressentimentos foram se expandindo desde os suaves movimentos de suas asas, anunciando o fim da grande noite. Apenas o silêncio. Os gatos. Os primeiros raios de sol deitando-se sobre a lâmina do rio. Apenas o silêncio, ancorado sob o leito das entranhas minerais da terra. Apenas o silêncio, onde ecoa a voz de Tempo. Apenas o silêncio, onde se pode escutar a resposta dos pássaros aos apelos irremediáveis da moça Caetana. O silêncio, apenas o silêncio. E ao longe, muito longe, os ecos do trote da montaria de Hermenegildo cruzando a serra da Esperança. 


      Entre o azul e o laranja havia um segundo pássaro com uma lua presa ao bico. Havia também uma árvore carregada de estrelas. Sereno é o caos após o abandono de todas as coisas que nos impulsionavam ao grito. Sereno é o grito do trovão que anuncia a tempestade. Hermenegildo, em sua fugacidade e solitude, é todas essas coisas a um só tempo. Margem oriental, margem ocidental, lua, pássaro, grito, trovão e tempestade. Hermenegildo é o caos e a serenidade. Em seus sonhos as feiticeiras são onças e as onças são feiticeiras. Havia também um terceiro pássaro, mas sobre este não possuíamos permissão para dizer nada além do fato público e notório que em seu ninho repousavam ausências, esquecimentos e todos os sonhos que se apagam de nossas memórias ao amanhecer.



nuno g.

Toróró, 20 de novembro de 2024.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

se ao amanhecer as onças seguissem despertas

      Tudo em Rebeca é suave fúria. Sua aversão ao mar e a tudo que saiba a sal e espuma. Tudo em Rebeca é aproximação e espanto e, consequentemente, fatídica memória do dia em que meus pés afundaram nas várzeas de piçarra. Quando animal é onça e metamorfose regida por intuição e sinestesia. Rebeca sobreviveu. Rebeca sobreviveu. Rebeca traz cílios e mãos de quem sobreviveu. Rebeca traz cabelos que não param de crescer e unhas afiadas como garras de gavião selvagem. Rebeca me sonha e sonha um mundo impossível de existir. Nesse mundo não há diferença entre crianças e estrelas. Neste mundo não há espaço, brecha ou distância entre a música das esferas e a delicadeza de nossos ouvidos. Rebeca, onça e cabra a um só tempo. Fêmea e espelho onde se reflete toda a história do esquecimento. Rebeca, azul como o céu de Iguatu. Vermelha como a piçarra das várzeas do baixo Jaguaribe. Verde como o frágil esqueleto da ilha onde reina a Rainha do Ignoto. Rebeca, a que cativa os homens e os bichos e as plantas. Rebeca, a que tem raízes fincadas no útero da pedra. Tudo em Rebeca é fúria e suavidade. Sua solidão nos protege de nossas próprias sombras e na umidade de seu hálito flores roxas parecem borrar as inúteis fronteiras que nos impedem de caminhar para além da miserável redoma onde tudo é silêncio, exílio e condenação.


nuno g.

Toróró, 19 de novembro de 2024.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

o homem sem dentes e a terra devastada

       Essa noite não sonhei com Rebeca, embora tenha sentido sua presença no quarto ao despertar. Penso ter visto sua sombra descendo a escada e se movendo em direção ao rio, mas tenho plena consciência ter se tratado de um pensamento. Com todo o perigo que traz um pensamento, essa fenda aberta por onde passam os seres dos outros mundos quando nos querem acariciar a pele. Apesar da idade, Rebeca caminhava com passos seguros e não demonstrava sinais de cansaço ou exaustão. Ao contrário de mim que pareço ter carregado todas as montanhas da terra por um período de tempo infinitamente superior às minhas capacidades físicas e psíquicas. Não consegui reter na memória as vestes de Rebeca, suas cores se perderam na morosidade de meu despertar. Ao folhear o jornal matinal as mesmas notícias sobre o relógio da guerra do fim do mundo aceleradas pelo presente de grego do presidente gagá ao presidente tam-tam. Talvez eu tenha sonhado que não possuía mais dentes. Talvez Rebeca os tenha levado consigo. Talvez haja alguma maneira saudável e eficiente de cruzar a terra devastada. Talvez, mas só talvez, amanhã minha antiga imagem volte a se refletir no espelho d'água do rio que foge à fúria do mar.


nuno g.

toróró, 18 de novembro de 2024.

domingo, 17 de novembro de 2024

as visões de Rebeca

       Numa tarde dedicada ao Caçador, Rebeca viu uma senhora velha, muito velha, apanhando punhados de areia e observando seus grãos escaparem lentamente entre seus dedos magros e ossudos como sempre imaginou que seriam os ossos dos dedos de Tempo. Tudo era silêncio e entendimento ante aquela senhora tão velha e seu repetitivo gesto. Rebeca; a que nunca se apresenta nem se oculta, a que se soube pequenina estrela, filha da lua e de Tempo. A que ainda sem ter conhecido seu pai sempre se flagrou imaginando seus dedos costurados com ossos magros e compactos. A senhora, acaboclada e lúcida, chamava-se Assucena. Em sonho, em matéria ou em qualquer outra dimensão do mito ou da história, Rebeca existia, apenas existia. Parecia guardar a natureza das nuvens, assemelhava-se a uma serpente pela agilidade com que trocava de pele. Antes dessa tarde Rebeca foi à mata sombria, ao coração da mata sombria: terras do ferreiro de nome impronunciável. Lá ela encontrou o anjo em sua forma de anjo. Lá Rebeca encontrou Assucena por primeira vez. Filha de Tempo e da lua, Rebeca se entregou à terra e uma nesga de espanto encontrou-se à sua própria sombra na cidadela onde tudo é turvo, tão turvo quando a própria palavra turvo. Não haveria amanhã se não houvesse Rebeca, essa a preciosa herança herdada da orfandade. Não haveria ontem se não houvesse Rebeca; isso a obriga a, de tempos em tempos, retirar-se aos cumes montanhosos onde habitam os jaguares encantados e, desde lá. acariciar com as unhas as águas do rio que corre ao revés do correr que é próprio aos rios, o correr em direção ao mar. Apesar de tudo, tudo em Rebeca é sertão: ou ao menos um estranho rio que corre em direção a ele - apesar do manto do luto ou justamente pelas sombras com as quais as musas teceram o que por Destino fora, desde sempre, condenado ao Esquecimento.

nuno g.
Toróró, 17 de novembro de 2024. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

do rio até o mar

Ensinei o mangue à Assucena.

Ela tocou a lama e seguiu os caranguejinhos com os olhos.

Num rincão distante.

Crianças como Assucena são atacadas como se fossem soldados.

Exatamente como no Yucatán, em Cajamarca e Tenochtitlán.

Exatamente como no século XVI.

Ensinei as sementes de mangue se enraizando à Assucena.

E rezei por suas raízes.

E rezei a reza frágil de quem tem raízes frágeis.

E rezei à reza forte de quem tem raízes fortes.

E rezei às crianças que desde o século XVI se enfrentam às armas.

E rezei para que Assucena me ensinasse a rezar.

E rezei as rezas que Alice me ensinou a rezar.

Comi com as mãos o alimento que os pássaros semearam.

Ensinei à Assucena o vento e a lua que vivem na praia.

Ventos e luas distintos dos ventos e das luas que varrem e iluminam as cidades.

A maré encheu, o mangue foi submergindo e nos recolhemos ao silêncio da noite.


nuno g.
toróró, 11/11/24. 

sábado, 9 de novembro de 2024

Carnaval

para Maria Alice & Claudio Reis,


Ontem, regressando da aula, encontrei um cassaco na estrada.

No mesmo exato lugar onde dias atrás um gato e uma serpente se engalfinhavam.

Talvez fosse o mesmo cassaco que eu e Alice encontramos em Arraial d'Ajuda anos atrás.

Naquele dia saímos para olhar estrelas na praia.

Caminhamos da vila ao chalé e no caminho encontramos o pequeno gambá.

Sempre recordo dessa noite e da fé que aquelas estrelas acenderam em mim.

Ontem, fiquei a recordar de um carnaval antigo em Campina Grande.

Troquei um exemplar de o sol e a maldição pela obra de Augusto dos Anjos.

Possuído pela fúria do Sétimo e pela euforia desmedida.

Saciei minha sede com todo o álcool do mundo.

E entre budistas, daimistas, hare krishnas, devotos do Sai Baba e toda sorte de místicos.

Saí recitando poema negro pela Serra da Borborema.

Naquela noite, ainda presenciei a cítara enfeitiçada de Alberto Marsicano.

Exausto e completamente embriagado, desmaiei num canto da praça.

No outro dia despertei sob o olhar dos transeuntes atarefados.

Ao meu lado o livro de Augusto dos Anjos.

Uma vaga recordação que meu livro agora repousava na estante de um sebo paraibano.

E a mão fraternal de Claudio Reis me erguendo das frágeis ruínas de meu desamparo.

Tomamos um caldo e mais uma vez pensei em de aí por diante:

nunca mais escrever versos...


nuno g.

Toróró, 09/11/24


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Verbete ausente do dicionário ou imaginário do medo

para Larissa Gonçalves & Claudio Reis,


No sonho da noite anterior destino rimava com vento.

Que rimava com o sonho cantado em uma milonga uruguaya.

Assucena conversa com as galinhas no quintal.

Larissa acende saudades do caldo do Velho.

Recordo como hoje fosse.

Domingo à noite, televisão ligada, o sino da missa na igreja do Rosário.

A porta da esperança abria e fechava.

Choros, lágrimas, alegrias, decepções profundas.

A qualquer hora eu esperava o convite.

A porta se abria e do outro lado me aguardava meu irmão paraense.

Filho de meu pai que, ao contrário de mim, bem conhecera seu antiquário.

Nos olhávamos, nos olhávamos e nos olhávamos.

Como se buscássemos uma fagulha de reconhecimento.

Uma faísca de esperança e amor sobreviventes do assassinato de nosso pai.

Despertava do transe, botava roupa de domingo e ia para a praça.

Conversas longas, silêncios e a beleza das meninas dando voltas sobre si mesmas.

Os anos passaram. Vieram secas e enchentes.

Nas asas de uma milonga uruguaya outra vez a certeza que sonho, destino e vento.

Significam de maneiras similares.

Passam a existir plenamente depois do nosso milésimo parto.

Ainda ontem assisti um jogo entre um gato e uma serpente.

Não sei quem venceu.

Menos ainda se isso guarda qualquer importância.

Tardei por inserir esse verbete no dicionário.

Talvez por não querer falar ainda do dia em que as mãos de Alice me curaram o estômago.

Ou de como precisei morrer mais uma vez para entender o que Assucena me trazia.

O convite nunca chegou. 

A porta da esperança da infância nunca se abriu.

Mas o vento fez coincidir sonho e destino.

E aos pés da lua, sob seu pranto e sorriso, me fiz gavião mais uma vez.


nuno g.
Toróró, 08/11/24

Efigênia

       Em silêncio chegou antes das nove. Serviu-se de uma xícara de café forte. Pernas cruzadas e olhar perdido no horizonte. Nos narrou seu encontro com o gato e a serpente, de como se engalfinhavam na estrada de terra e da sua cisma sobre se brincavam ou se tentavam matar um ao outro ou se faziam as duas coisas simultaneamente. Vestido de chita e algodão enfeitado com rendas e bordados. Foi a primeira vez que olhamos Efigênia, embora algo nela me fizesse desconfiar que há muito nos olhava desde algum rincão do além. Assemelhada às nuvens, cabelos emplumados e tecida em muitas rugas. Era toda silêncio e coragem, daquelas que nos exige a vida quando não mais suporta em si o desejo intenso de mais vida. Retiramos os alfinetes da mesa e servimos torradas amanteigadas de pão dormido, como quem serve certas esperanças ainda empoeiradas pelos anos em que dormiu à sepultura. Uma aranha correu no teto da casa e um vento com extensa biografia cruzou as margens daquela primeira aproximação entre seres que sabem à memória do escuro e que carregam vastidões entre as linhas ciganas das palmas das mãos.



nuno g.

Toróró, 08/11/24

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

a sereiazinha de betelgeuse

  Nada nem ninguém sabe sobre seu nascimento: nem data, nem local, nem a exata posição dos astros naquele momento. O que sim se sabe é de certas intuições que lhe são próprias: a capacidade de acentuar destinos e revelar movimentos sutis. O que sim se percebe em qualquer contato com ela é sua delicadeza extrema e a exímia habilidade de direcionar gestos para aproximações que requerem atenção extrema e pequenos cuidados. É da água doce, mas vagueia alheia pelo mar quando sente necessário. Maneja o arco-e-flecha e se regozija observando meteoros e asteroides: como se revelasse certa saudade de outro tempo, outro lugar e outra história. Não é dada à paciências, mas conhece o tempo certo de ressurgir e se ausentar. Ainda sendo das águas, sabe bem se mover sobre a terra. Entre ela e a lua algo vive e nesse algo quase sempre mãos trêmulas acendem velas.

nuno g.
Toróró, 07 de novembro de 2024.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

intenção

Vela acesa na encruzilhada entre o rio e o mar.

Chegamos à praia e chegaram as crianças.

Qual é seu nome?

Maria Alice! 

E o dele? 

Ian!

Falta só Janaína!

Essa sim já está no mar!

À noite o Ceará venceu o Avaí.

Assucena despencou da cama e feriu o nariz.

No outro dia o vento maternal do Montecristo lhe acariciou a face.

Recordei que aquela praia também se chamava Araripe.

Nome doce como os doces que deixamos sobre o túmulo antes de vir ao sal.

Nome que as marisqueiras encontraram para essa margem oriental da barra do Paraguassú.

Enviamos a Alice uma última foto de Assucena engatinhando entre as flores da pousada.

Botem no mar pra Iemanjá! - Botamos!

O Sport perdeu pro Operário.

E amanhecemos em Cachoeira às vésperas da série A.


nuno g.

04 a 06/11/24.
praia do Montecristo/ alto do Toróró.


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

sobre sonhos & poemas

para Maria Assucena,


Hoje soube quanto viemos de longe.

Andávamos a cavalo num mundo muito distante daqui.

Havia um rio e em suas margens.

Hermenegildo, Alzira, Judite, Adélia e outros seres.

A sereiazinha de betelgeuse às águas.

Tua mãe me entregava já montado.

E cavalgávamos tempo adentro, sonho adentro.

Aquele rio se chamava poesia, aquelas várzeas recendiam à história.

Despertei segundo antes que o milho pregasse na panela.


nuno g.

Toróró, 01/11/24

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

tratado de ontologia

Existe uma relação íntima entre os nomes e os destinos.

Entre o olho que olha a borra do café, os búzios, as entranhas dos animais.

E a espera ansiosa do que se entrega à leitura do mistério.

Existe uma relação íntima entre o desejo e as posições dos astros.

Não nos movemos de nós.

E sabemos todos do fio invisível de prata que nos conecta à musica dos mortos.


nuno g.
Toróró, 31/10/24

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

A fada do dente

para Maria Alice,


O primeiro caiu na casa de Olívia.

Dani guardou e me entregou.

Inaugurei assim a caixinha de fósforos.

Vieram os outros.

Dormiam embaixo do travesseiro.

De madrugada despertavam e se recolhiam à caixinha de fósforos.

Amanhecia sempre uma moeda onde antes o dente.

Até que um dia a fada veio em silêncio e levou consigo a caixinha.

Nem em sonho senti rumor ou pressentimento de sua presença.

E por vários anos senti saudades do colar com o qual pretendia substituir suas ausências.


nuno g.

Toróró, 30/10/24.


terça-feira, 29 de outubro de 2024

flores de são Miguel - breve história de uma casa

para Maria Alice,


Não recordo o dia da semana.

Descemos a colina caminhando.

Acendemos uma vela na porteira a quatro mãos.

E outras dentro da casa de tijolinhos rústicos.

Estendemos uma toalha e fizemos um piquenique.

Brincamos, conversamos e lemos algum livro.

Dormimos como anjos na casa que vimos florescer.

No outro dia não havia água para escovarmos os dentes.

Fomos à padaria e pedimos dois mixtos com suco de laranja integral.

Voltamos à casa do Almirante até que Zenildo viesse consertar a descarga.

Chamamos Lula que fez um gato e clareou os cômodos.

Descemos outra vez a colina.

Deitamos na rede e ficamos sorrindo como árvores na chuva.


nuno g.

Toróró, 30/10/24.

sábado, 26 de outubro de 2024

Artesão das Matas Sombrias

na planta dos meus pés

raízes e frutos são sinônimos exatos

assim como equívocos são ondas sonoras

ecos das distâncias que me habitam

e que me fazem gritar não

a plenos pulmões

e chorar rios sem misericórdia

na planta dos meus pés

a morte e a lucidez são apenas detalhes

e o que realmente importa

é a inocência das canções

e os passos perdidos do último poeta romântico

e a voz de deus pairando sobre as montanhas da terra

hoje é um dia que não deveria existir

e amanhã é só uma incerta probabilidade de flecha

desorientada pela fumaça dos fumantes que caminham pela orla

na planta dos meus pés

coração de pássaro perdido

cansado, cansado, cansado, cansado, cansado, cansado, cansado...


toróró, 26 de outubro de 2024.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

sobre poemas & pesadelos II

 para Larissa,


Era para ser apenas um passeio agradável e despretensioso.

Mas quase nunca as coisas chegam a ser o que imaginamos que deveriam ser.

Saímos da praia de Iracema onde não havia nada nem ninguém.

Nem o bode Ioiô, nem o poeta Mario Gomes, nem a jangada de pedra.

Caminhamos por ruas vazias até o passeio público.

Nem o baobá habitava mais aquele lugar.

Até a praça do Ferreira tudo era cenário pós-guerra.

Muito lixo acumulado, ausência de pássaros, nenhuma pessoa.

Havia uma entrada para o subterrâneo no meio da praça.

Descemos e encontramos apenas um homem imberbe fumando crack.

Seguimos até a praça do Carmo.

Montanhas de lixo e ausências acumuladas.

Acordamos no Benfica sem Airton Monte, sem seu Chaguinha, sem nada.

Só um pesadelo a mais de quem com pesadelos a muito está habituado.

A terra devastada que herdei se prolongando sobre a memória de uma cidade solar.

A terra devastada que herdei se estendendo sobre a espinha dorsal de uma cidade que 

    há muito decidiu dar de costas aos seus e olhar fixamente o mar.

A terra devastada sobre uma cidade devastada por arranha-céus sem sentido e sonhos de 

     aquários.

Era para ser só um passeio agradável e despretensioso.

Mas terminou sendo um pesadelo.

Sobre a fé enferrujando.

E sobre todas as coisas que não nos deixam esquecer que somos menos e habitamos o nada.


nuno g.

Toróró, 24/10/24.


 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

sobre poemas & pesadelos

para Larissa,


Existe uma relação íntima entre poemas e pesadelos.

Assim como existe uma íntima relação entre rios e sertões.

Hoje mesmo fui habitado por um pesadelo.

Nele havia uma locadora de filmes tão antiga que se assemelhava a um antiquário.

Havia também o corpo de uma mulher assassinada oculto no quintal.

Havia um filme com a imagem manchada pelo sangue que se colou à fita.

E uma vela que acendemos quando encontramos o corpo da vítima.

Existe uma relação muito íntima entre o futuro e o passado.

Assim como existe algo que aproxima o voo dos gaviões aos túneis subterrâneos.

Acender uma vela é algo muito semelhante a escrever um poema.

Nos faz dar conta do escuro que nos envolve.

Nos faz não esquecer que somos mais do que sabemos sobre nós.

nuno g.
Toróró, 23/10/24.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

deus te dê água de batismo

dona Antônia sonhou com cobra verde:

traição Ceará, traição.

Assucena comeu cuscuz, comeu churrasco, comeu feijão.


O tempo segue nublado e abafado:

trovoada em gestação, Ceará.

Hermenegildo se perdeu mais uma vez no horizonte...


nuno g.

Toróró, 22/10/24.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

fotografia de aniversário

Chamava-se Ricardo.

Aparecia todos os anos no meu aniversário.

Trazia uma máquina fotográfica e um sorriso desses que mostram os dentes.

Eu esquecia que meu pai estava morto.

Eu esquecia que todos ali o detestavam.

Eu esquecia que trazíamos o mesmo nome ferrado às testas.

E me entregava à fantasia que o fotógrafo era meu pai.

Acabava a festa e ele partia.

Brinquedos, roupas, doces e salgados.

E a memória de que ao menos uma vez ao ano o espelho refletia minha imagem.


nuno g.

Toróró, 21/10/24


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

à sombra da cicatriz em flor

       O coração de Judite é azul de nascença. Bistecas à beira-mar sua distração favorita. Silêncio sua maneira de dizer coisas impossíveis de serem ditas. Quando Judite pronuncia carne, ferida, ventre, lua, semente ou sangue tudo desanuvia. Judite tem a idade da terra e seu sonho é um rio onde correm todos os rios do mundo. Às quintas Judite se faz flecha; certeira, feroz e precisa. Como quando canta. Como quando baila. Como quando se faz criança e vai limpando a sujeira que nossos passos desajeitados vão deixando para trás. Judite reverbera, ecoa, alenta paróquias crônicas e vagos desesperos. Judite ensina alheamentos, derivas e postergações necessárias. Seu nome significa sertão, seus olhos desgostam do mar e seu abraço abriga esperas.


nuno g.

Toróró, 17/10/24. 

brejo das borboletas

      Nasceu um abacaxi no terreiro. Meu avô me preparou por uma década para sua morte, me ensinou a segurar a alça do caixão, a empunhar a pá pra jogar areia sobre a madeira e a caminhar sozinho na escuridão. Era tudo o que a anja viria a me exigir anos depois: ensina sua filha a viver sem você. Amanheceu nublado. Turistas pululando na cidade. E meus olhos procurando destecer as vozes entremeadas no vazio. Vaga promessa de arco-íris pairando na atmosfera. Meu avô se foi enquanto eu dormia. Me deixou uma biblioteca que me salvou os dias de terror e precipícios, um ódio que me acompanha como cão fiel e essa serpente que me protege da covardia do mundo.


nuno g.

Toróró, 17/10/24.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

ponte sobre Banabuiú.

     Meu avô também era ponte, conectava meu corpo ao corpo da morte e meus sonhos aos sonhos dos russos do século XIX. Meu avô também era silêncio e sofreguidão, tudo nele se recusava a sedimentar. Eu era demasiado criança para entender o mundo que meu avô em mim moldava e sequer suspeitava das razões que faziam o rio se avermelhar quando suas mãos cortavam as águas. Meu avô estendeu o amarelo para que Ernesto seguisse caminhando além do paredão de pedra que é a chapada do Apodi. Tentou abrir meus olhos antes que os seus se apagassem, mas era tarde. Ele morreu e com ele se foi minha primeira infância. Depois voltou em forma de pássaro e lamento. Hoje, segue sendo ponte, entre meu canto e a impossibilidade de qualquer perdão.

nuno g.
Toróró, 16/10/24.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

brilhantes pedras finas.

   Alzira cuida - e isso diz muito, quase tudo. No quase o que a esse narrar interessa: espécie de interstício entre o nada e o nada ou pequeno e indecifrável vácuo entre o osso e o osso. Como naquele chão sem chão que habitamos quando sinceros, ou seja, quando abandonamos os livros de história e os miseráveis manuais religiosos. Os cabelos de Alzira, o olhar de Alzira, a forma como o silêncio de Alzira se move dentro de nós. Abrindo túneis, semeando serpentes, nos conduzindo do deserto às águas e das águas ao deserto. Alzira e o quase são em essência o mesmo. Assim como o que ela ensina e o que já sabemos em tudo coincidem. Alzira veste roxo, ama a lama e quando canta serena até o coração de Tempo. Alzira aqui significa soslaio ou aquela que vê o que nos impede de ver. Por isso também lhe chamam ocasionalmente de lua indecifrável ou de Senhora das coisas que aconteceram antes dos acontecimentos que nos moldam. Alzira também significa respeito, caminho estreito e pérolas resplandecentes.


nuno g.
Toróró, 14/10/24.

sábado, 12 de outubro de 2024

soleira.

    Atravancado, sem-jeito, desconexo: meio como quase brutamontes próximo aquele Hercules Quasímodo que existiu algum dia dentro da miopia de Euclides. Nome de pia: Hermenegildo. Montaria: cavalo. Idade: desconhecida. Lugar de nascença: indeterminado. Hermenegildo sempre está de passagem e nada seria como é se assim não fosse, pois são suas mãos de passarinho que descortinam as montanhas e abrem os horizontes, são suas mãos de peixes que abrem as águas e os caminhos que levam aos mundos ali existentes, são suas mãos de lâminas que fendem as rochas e nos ensinam subterrâneos. Agora mesmo desponta em sua montaria o Velho, ao mesmo tempo em que anuncia sua certeira desaparição. Hermenegildo aqui significa flecha. Também significa vento. Mas antes de tudo significa oração.


nuno g.

Toróró, 12/10/24.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

diga a eles que não me matem

É um bocado difícil crescer sabendo 
que a coisa a que podemos agarrar-nos para criar raízes está morta.

Juan Rulfo


Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.

Mas quando cresci e o procurei me disseram que, como ele, estava morto.

Irremediavelmente morto.

Foi como ouvir alguma música para ouvidos nada delicados.

Ainda assim meus tímpanos estouraram.

Foi como se num átimo de segundo mergulhassem meu corpo nas fossas marianas.

Ou na dorsal atlântica.

A terra devastada pelas chamas e o meu corpo carbonizado junto.

Num átimo de segundo arrastado à sepultura de águas oceânicas.


(os azulejos azuis eram os únicos peixes possíveis)

(e o único pássaro que conseguia seguir a cantar era o Assum Preto)

(cego pela ignorância e pela maldade humana)


Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.

Mas os homens que o mataram sabiam que trazíamos o mesmo nome de pia.


nuno g.

Toróró, 09/10/24.




sob águas profundas ou sessão sem pássaros

da terra devastada às profundezas oceânicas 

num átimo de segundo e o chão esturricado do rio seco

                                     e os cactos e o céu sem nuvens

desapareceram e em seu lugar

as fossas marianas enterradas sob quilômetros e quilômetros de águas

                                     e nenhuma fumaça traçando o caminho de volta à superfície

à terra devastada e abandonada com alegria e tristeza

                                                   com pesar e alívio

                                                   com o terror arcaico e primitivo de um mito esquecido

serpentes, serpentes e mais serpentes

trocando sucessivamente de peles e substituindo suas cores por novas cores

num movimento incessante e lisérgico

apenas o que agora em si mesmo permanecia gravitando

sem nenhum centro sem nenhum norte sem flores sem balanças sem juízos de valores

distante o suficiente de tudo o que soava detestável

mas também distante do agradável cântico dos pássaros

quase livre não fosse o pânico do sal

e a consciência fraturada ainda

como uma ferida entre o osso e o osso

ou como a saudade enferma de um deserto onde se constituíra

num átimo de segundo e estava dentro do coração do último medo imaginário

residindo na oposição de uma tarde sem sol

(todas as tardes nas fossas marianas são tardes sem sol)

e a ausência de fumaça torturando a mente

como o martelo lunar torturaria a bigorna de Apolo

quase pânico não fosse a liberdade do sal

e a voz suave da serpente

transitando à memória imberbe da terra devastada

onde um átimo de segundo antes

se encontrava

(todo gesto aqui é extensão de um silêncio que antecede)

o fio de prata e fumaça se extinguindo

e as águas evaporando todas as formas que permitiram ao si mesmo existir


nuno g.
Toróró, 09/10/24.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

tupinambá

às vezes é preciso regressar - sem culpas.


o vento moveu as folhas.

e a tarde se esticou no varal.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

regresso à morada dos mortos

No quiero

Que mis muertos descansen en paz

Tienen la obligación

De estar presentes

Vivientes en cada flor que me robo

Stella Díaz Varín


uma vez mais entre os que cruzaram a fronteira do rio

seus olhares desfigurados, suas fraturas expostas, seus corpos em escombros

seus sorrisos atados ao laço como animais de estimação

e meus braços remando contra todos os ventos

apenas a memória machucada içada como bandeira de um barco pirata

e o ranger de dentes ecoando no coração da árvore chamada Tempo


uma vez mais entre os que cruzaram todas as fronteiras

imperturbável e sereno ante a tempestade impenetrável

buscando apenas um lugar de repouso e descanso

sem saber como ensinar alguém a amar o que é em si detestável

suas feridas expostas, cicatrizes indesejáveis e a sombra da lua sobre as águas

apenas a memória machucada alçada à condição de sina inevitável


uma vez mais entre os que habitam a casa onírica das centopeias e caracóis

apenas o rio, o vento e o sangue do sol banhando a nudez das estrelas...


nuno g.

Toróró, 24/09/24.




quarta-feira, 18 de setembro de 2024

infância

para Maria Alice,


Tínhamos um pé de maxixe e um cavalo chamado Tempestade.

Antes de nós ele havia se chamado Trovão.

Comíamos pirão uma ou duas vezes por semana.

E colhíamos goiabas na varanda.

Tínhamos uma rede alvinegra.

Um lugar onde acendíamos fogueira quase todos os dias.

Uma cadela chamada Paçoca.

E um céu cheio de estrelas pairando sobre nós.

Tínhamos um rio que dormia e acordava ante nossos olhos.

E uma pequena cobra coral de estimação.

Brincávamos com as palhas dos milhos juninos.

Fazendo toda a família do Visconde de Sabugosa.

Uma vez ao ano seu Toróró nos trazia jabuticabas colhidas no terreiro.

E líamos muito. Líamos livros e folhas de plantas.

Estávamos cercados por juremas.

Fomos alguma vez a Cordisburgo.

E a tantos outros lugares que parece que não fizemos outra coisa senão viajar.

Assávamos carne aos fins de semana.

Nos divertíamos no balneário da Pitanga.

Íamos à praia do Montecristo sempre.

E éramos vistos muitas vezes nas Cabaceiras do Paraguaçu.

Depois adotamos João e não pararam mais de nascer cães em nossa casa.

Ganhamos uma gata de nome Judite que sempre recebia visitas de um gato que chamamos Anônimo.

Judite passou três dias debaixo da cama.

Não saia nem para comer.

Até que decidiu ficar e nunca mais voltou para debaixo da cama.

Depois veio a Pina, o Garfield e o Dino.

Seguíamos comendo maxixes e sonhando.

Seguíamos comendo pirão e sonhando.

Até que veio Ian, a cigana e tudo o mais que já sabemos.

Até que veio Larissa, Assucena e todas essas janelas que se abriram.

Ontem teve eclipse.

Eliana cobriu-se por alguns instantes com o véu das sombras.

Fiquei olhando como quem olha um espelho maravilhoso.

E vi novos maxixes nascendo entre as orelhas de Tempestade.

E vi cada uma das mil chuvas viradas que enchiam nossa casa de água.

E vi você caminhando entre pedrinhas amarelas e galáxias desconhecidas.

Uma onça te guiava entre despenhadeiros e montanhas.

Fiquei olhando como quem olha uma caverna.

E vi você ninando Assucena com as histórias do jaguar encantado.

Depois veio a Cristalina, o Come-e-Dorme e o Waldick.

Depois veio o Calabouço, o Álbum de família e o Dicionário.

E pouco antes do sol nascer essa infância foi se encarnando em letras azuis no papel.


nuno g.

Toróró, 18/09/24

cegueira

em terra de olhos turvos e neblina tóxica a cegueira reina

israelenses cegam libaneses com bipes que explodem

associações de cegos se revoltam contra a lucidez de Saramago

candidatos cegos insistem em convencer pessoas cegas a votar cegamente

o país arde em chamas criminosas e a fumaça nos cega

pastores cegos guiam rebanhos cegos ao inferno

hiperbolicamente antenados com a enfermidade que nos extingue

                                                                             que em nós se extingue

e que nos impede ver como sair como entramos como sobrevivemos

neste tempo em que escatologia e história se fundem

como o zinco ao zinco

como o sinistro ao sinistro

como a ausência à ausência e à Ausência

em terra de cegos os eclipses passam quase desapercebidos

como nossas sombras ao atravessar a rua

ou como aquela bigorna de esquecimento que já não nos permite recordar

as centenas que ficaram cegas nas protestas chilenas

ou os libaneses de ontem que já começam a ser apenas um esquecimento mais

o que poderá nossa imaginação a partir dessas ruínas?

assim pixado no muro de Cachoeira

ao lado, escrito em tinta que não se vê, 

: em terra de...


nuno g.

Toróró, 18/09/24


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

quando voltará a chover dendê sobre nossos passos

para larissa gonçalves,


enquanto você sonhava com um mar de serpentes

meus braços remavam entre serpentes marinhas

e os meus olhos caçavam um búzio para se perderem definitivamente

enquanto você sonhava com um mar de serpentes

meus braços remavam nas águas da própria sombra

e meus olhos adentravam a imagem de um coração sem dentes

enquanto você sonhava

as serpentes me guiavam entre os perigos exaustivos

até o interior do búzio onde ecoava o choro de Assucena


nuno g.
Toróró, 16/09/24

aqui a Serpente

ante o túmulo de meu tio Edson 
agradeci o ocorrido em dezembro de 1978
com a mesma intensidade em que lamentava

ante o túmulo de meu tio Edson
percorri outra vez todo o longo caminho que me trouxe até aqui
e recordei um sonho antigo com o poeta de Itabira

ante o túmulo de meu tio Edson
todas as serpentes que atravessam uma vida
e os olhos de Gabi iluminando o meu propósito de não ter propósito nenhum

nuno g.
Toróró, 16/09/24.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

quinta-feira

Atirei mil flechas contra o sol.

O meu ódio é sagrado e reluzente.

Aprendi isso arrastando meus joelhos por léguas e léguas de solo pedregoso.

Derramei mil lágrimas no vazio da taça.

E vi a noite despencar sobre as ilusões humanas.

Servi feijão aos três irmãos.

E adorei o sol, a lua e as estrelas.

Adorei o rio, as onças e as borboletas.

Estendi no varal do horizonte o manto do Obscuro.

Entoei cânticos de sacrifício enquanto pensava em Gary Snyder em sua cabana no além.

Vivo numa época estúpida.

Cercado por ideias estúpidas nascidas de mentes estúpidas.

Devoro a estupidez da atmosfera como Alcides devorava as flores de aniversário.

Atirei mil sóis contra a primavera.

Inferno é uma singela palavra que me habituei a pronunciar com delicadeza.

O amor é sagrado e reluzente.

Como as areias de Tempo que escorrem entre meus dedos e cílios.

Assucena desayuna batata, ovo, cenoura e uvas.

Teresa vê tão longe que não alcanço.

Rude e violenta é essa obstinada tentativa de nos vender a felicidade a qualquer custo.


Alice dorme.

Larissa dorme.

Hermenegildo e o Velho cruzam a estrada de mãos dadas.

A estrada é sagrada e reluzente.

O choro de Assucena é sagrado e reluzente.

O sono de Alice é sagrado e reluzente.

O leite de Larissa é sagrado e reluzente.

O mundo é opaco, a mata é sombria.

O Ferreiro selvagem é iluminado e poderoso.

Roxo é muito mais que uma simples cor.

Toco a lama sagrada e reluzente em busca de fósseis preciosos.

E atiro minha última flecha contra o horizonte.

Em direção às águas, à palha e à voracidade de tudo que nos consome.


nuno g.

Toróró, 15 de agosto de 2024.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

edifício Grão-Pará (sonho noir)

Voltou a ser o que sempre foi: um cárcere.
Gleizer apareceu cuspindo ossos.
A princípio pensei tratar-se de ossos de galinha.
Daqueles que faziam meu avô evitar comer galinha em restaurantes.
Mas eram ossos humanos.
Revestidos de cartilagens frescas e nervos expostos.
Larissa fez pasta de amendoim.
As fezes de Assucena amanheceram verdes.
Como o lodo do rio da infância.
Como os olhos do gato maracajá morto aqui semana passada.
Três taças de café ao som de Ventania.
Garfield, o gato gordo, come a batata doce que cai da mesa.
Luís transforma o berço em cama montessori.
A vida pesa. Montanhas e montanhas de cansaço sobre meus ombros.
Vertigem. Pulsação acelerada. Ressentimentos geológicos se movendo à luz do sol.
Recordo à voz de uma amiga prostituta que me repetia.
É só um trabalho poeta, como qualquer outro.
Até que se apaixonou por um caminhoneiro e partiu.
Com sua cigana de estimação e alguma culpa entre os cílios.
Acendo mais um cigarro e ouço a voz de Ayla.
Esse cigarro te mata.
Desconfio de tudo e de todos.
Suave e delicada paranoia no olhar em direção ao Nada.
Saudades dos tempos da pandemia e de todos os refúgios que me mantiveram vivo.
O telefone toca: Assucena desperta.
Alice nos envia três mil mensagens telepáticas por segundo.
Não chove. É agosto. Escoro minha angústia na palha.
E clamo ao Velho alguma fé numa paz que sei impossível.

nuno g.
Toróró, 13 de agosto de 2024.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Ciranda de hoje, texto lido por Ayla Andrade no lançamento do Dicionário dos medos imaginários: morfemas.

 



O tempo é a melhor testemunha do quanto se vive.

Uma ciranda que roda, circulando mão a mão, na roda do tempo, enquanto se olha o céu.

Penso que vivo pouco e devagar. Olho pouco para trás. Mas é quando olho para o lado que vejo quantas mãos me seguram nessa ciranda. 

Porque o tempo não para, e por vezes acelera ou recua, e é onde a ciranda se embaralha, algumas mãos se soltam, a gente tropeça e precisa depois correr, braço estendido, tentando alcançar o perdido. 

A ciranda é potente e ciclicamente retorna ao ponto inicial. Suspeito que serve para recuperar o fôlego, sorrir de volta, ajeitar a coluna e... alcançar o perdido. 

Nessa ciranda o tempo marca o tom, o compasso, o recomeço e por vezes, o fim. Por mais que nunca estejamos preparados ou desejosos do fim. 

Mas rodando com a ciranda certa, mão a mão, com chuva ou sol, amor e um pouco de raiva, a gente chega ao fim, sorrindo. 

Rodando cheguei até aqui. E quando olho para lado, ciranda que a vida me deu, vejo que o tempo me foi generoso: mão a mão, os amigos rodam comigo enquanto ainda olhamos o céu.


Ayla Andrade.


https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios?igsh=eHZma2FiYmxuZnRo

 





domingo, 11 de agosto de 2024

cemitério bizantino II

roupas estendidas no varal

e ainda essa sensação

de despertencer ao reino onde desperto


nuno g

11/08/24

sábado, 10 de agosto de 2024

cemitério bizantino

sonhei com uma fotografia de damário da cruz

meias sujas espalhadas no quintal

e a certeza de que não pertenço ao reino onde desperto


nuno g.

toróró, 10/08/24

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

ante o Insondável

           para Adélia Prado,


meus joelhos seguem sangrando de tanto chão

em trevas me reconheço e ouço as cem mil vozes que me habitam

relâmpagos e trovoadas me acendem e me estilhaçam

em cem mil vagalumes

estamos mergulhados na história, ou seja, no terror absoluto

atravessamos os tempos em que nossos corpos se fizeram vidro

fomos atravessados pelos tempos em que nossos corpos se fizeram metal

o homem da mão seca ainda acaricia meus cabelos

e sorri quando vejo meu avô quase-pássaro ousar o abandono do abismo

o homem da mão seca ainda me seca as lágrimas

quando recolho o sangue de minha mãe na calçada suja da Conde da Boa Vista

o homem da mão seca ainda tece curativo nos meus joelhos

quando desperto em Belém em meio ao tiroteio que matou meu pai

e penso: eles sabiam que ele era meu pai

meus joelhos seguem sangrando de tanto chão

na mata sombria reacendo minha devoção

e aprendo com o ferreiro a forjar silêncios

cem mil vagalumes me guiam

cem mil vozes me habitam

em cada poema respira uma breve e delicada oração


nuno g.

Toróró, 07 de agosto de 2024.

domingo, 4 de agosto de 2024

Afogados

a vida é uma besta selvagem.

Stella Díaz Varín 



Não culpem o mar nem os pés.

Ainda menos as sereias e seus cânticos devocionais.

Não culpem o verde nem o sal.

Ainda menos as espumas brancas e cintilantes.

Não culpem o fogo nem a madeira.

Ainda menos o crepitar dos ossos ou o estalar das vertigens.


Apenas deixem que seus passos os conduzam ao inevitável afogar-se.


nuno g.

Toróró, 04 de agosto de 2024.



sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Aparecida

Ela nunca esteve entre nós.

Talvez por isso podia falar de Eliana antes da queda.

De suas coxas brancas, seus êxtases e suas manhas.

Carregou o estigma da adoção como quem carrega um daimon de aço.

E o nome da santa indígena saída das águas de um rio.

Ela nunca esteve mesmo entre nós.

Não lhe reservaram convite nem lugar à mesa.

Talvez por isso podia passear com seus cães pela cidade.

O estigma sempre arrastado à coleira.

E pouca razão à ferocidade.

A lei do luto lhe levou à metrópole.

Casou. Enviuvou. Cruzou a fronteira da península.

E desapareceu numa Espanha de touros e esquecimentos.


nuno g.

Toróró, 03 de agosto de 2024.














domingo, 14 de julho de 2024

Devoção II

 para Lou Reed & Nico,


O médico cubano me ligou ainda cedo.

Tardei a identificá-lo.

Me disse que tem três filhas.

Que vai vir à uma obrigação de terreiro.

E que muito deseja me rever.

Assucena comeu brócolis com banana.

A vida é um pesadelo com infinitos labirintos dentro.

Anos atrás Alice fez birra grande.

A praça da Sé de Avalon lotada.

Mestre Aldenir e seu reisado. 

Se jogou no chão.

Gritou. Chorou. Esperneou.

Em nada parecia a Alice que eu conhecia.

Decidi seguir como se nada.

Cerveja. Dança. Alegria dos Mateus à praça.

No outro dia ela com calma disse:

Pai, sabe por que eu fiz birra ontem?

Nem ideia.

Pra você não esquecer que eu sou criança.

As mãos de Benício juntas às mãos da lua entre as nuvens.

Três onças seguindo Hermenegildo em sua montaria.

A garota do São Judas dormindo quase em paz.

O médico cubano me arrancou do pesadelo.

A vida é um labirinto com infinitos pesadelos dentro.

Voltei a fumar como antes.

O excesso de nicotina provoca um êxtase suave e delicado.

Talvez algum dia eu narre ao médico cubano.

Algo sobre em terreiros florescerem estrelas suicidadas.


nuno g.

Toróró, 14 de julho de 2024.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Devoção

 para Patti Smith,


Voltei a tomar café como antes.

O excesso de amargo provoca o mais adorável dos transes.

Come-e-Dorme morreu.

João morreu.

Carminha morreu.

Construíram um bairro inteiro sobre a lagoa da Catumbela.

Nele, um posto de saúde com a bela vista do que sobrou de águas e carnaúbas e garças.

Assucena ali tomou mais uma vacina.

Fiquei olhando os tapuias dançando sobre as casas.

Os ventos de agosto chegaram.

Vejo cavalos em disparada pelas calçadas do Benfica.

E a dama da noite recordando quando ali tudo era chácaras de fim de semana.

Depois de amanhã Alice chega.

Depois de amanhã é uma medida de tempo semelhante à das cem mil duzentas xícaras de café.

Sonhei com Adélia incendiando o pasto do Liu.

Finalmente tomava coragem.

Arranquei o carro e fui até a rua Ceará em Divinópolis.

Toquei na porta e ela abriu.

Lhe entreguei o Álbum de família e o Dicionário dos medos imaginários.

Ela leu num relampejo.

Olhou nos meus olhos e disparou: reze.

Despertei com o coração aos galopes.

Recordando todas as vezes que desisti de incluir Divinópolis na minha rota.

Temor de não ser digno de me apresentar onde deus fez morada.

Notícias trazidas pelo vento Aracati:

Um enxame de abelhas atacou ferozmente os dois habitantes da calçada de meu bisavô.

Um foi a óbito, outro se recupera no hospital.

Saudades da Dellany, memórias daquela despedida no Bixopá.

As aulas regressam lentamente, como os caracóis que perseguem a palavra.

Só na tragédia a lua realiza seu destino.

Existem histórias que nunca poderei narrar.

À primeira noite em São Bernardo das Éguas Russas sonhei que estava na Lagoa do Mato.

Dentro do verde e salgado mar do litoral leste.

Pari duas luas.

Peço permissão aos deuses para a história deste sonho narrar.

Palavras para descrever as falésias, as jangadas e aquele vazio de quando as ondas recuam.

Chico, em belas fotos com Claudio.

O Dono de Todas as Matas protegendo os dois.

Assucena brincando no parquinho reluzente do bairro Granjeiro.

Tia Neuza insistindo em botar cadeira na calçada.

Nenhum temor à morte.

Nenhum temor às italianas e ferozes abelhas.

Apenas o rio apagando suas últimas memórias.

E uma nova e estranha lucidez apontando no horizonte.

Segunda chega e domingo não.

Às quatro da manhã despertei com o cheiro das palavras de Adélia à chuva.

Come-e-Dorme foi submetido à eutanásia.

João livrou-se da corda para morrer em liberdade.

Larissa costura, costura e costura.

Tece as linhas do leite e da razão no tear onde se gestam estrelas.

Na minha mesa de trabalho repousa O viajante da solidão.

Dedicado de punho à Eliana Gonçalves no ano de 1969:

a Eliana

cordial homenagem

Artur Eduardo Benevides

Insistimos em saber o que fez Larissa chorar.

Não pudemos esquecer nem recordar.

Existe um deus asmático e sonâmbulo que me visita certas sextas-feiras.

Vem sempre acompanhado do meu tio Joãozito.

João Ferreira Lima, de pia.

Carteiro como Charles Bukowski.

Assucena desperta e chora.

Alice me chama e eu vou.

Um dia volto pra narrar a história do sonho das duas luas.

A mãe de umbigo de Assucena à porteira: ô de casa!

Larissa interrompe a tessitura e me chama: vem ver isso!

Desadormeço e avisto a filha do João à porteira.

Em tudo igual ao pai.

Ela olha pra corda abandonada no terreiro.

Pro cantinho vazio onde ele viveu seu destino.

E se vai. 

Sem olhar para trás.

Sem saber que nunca mais seremos os mesmos de antes.


nuno g.

Toróró, 12 de julho de 2024. 


sábado, 11 de maio de 2024

Alzira

para André Dias,


Amanheceu chovendo.

Em cada gota d'água uma estrada para o infinito.

Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.

Avançando entre os escombros de Gaza e a cegueira da classe média.

Amanheceu chovendo.

Em cada gota d'água uma estrada para o Nada.

Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.

Avançando entre montanhas e montanhas de cansaço.

Amanheceu chovendo.

Acender uma vela ou encher o filtro.

Enfiar as mãos no barro como se houvesse algum futuro depois da estupidez.

Tamarindos, acerolas e umbus-cajás.

Amanheceu chovendo.

Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.

Alzira olha Tempo.

Hermenegildo cruza as nuvens.

Um pássaro sobrevoa o rio onde a morte se fez esquecimento e náusea passageira.

Amanheceu chovendo.

Ouço os sussurros de Adélia.

Ouço os cânticos de Alcides.

Tudo é feitiço sobre a terra.

Tudo é encantamento e evaporação.

Alzira olha as vestes de Tempo.

Hermenegildo toca a nudez da estrela.

O mundo semeia novas tempestades.

E todos os automóveis verdes dos meus sonhos avançam sobre as flores nascidas na pedra.


nuno g.

Toróró, 11 de maio de 2024.



sexta-feira, 10 de maio de 2024

haiku de outubro

Assucena comeu uma borboleta,

só conseguimos salvar uma asa:

a miração do monge dissipou o horizonte.


toróró, 10 de maio de 2024.

a eternidade dos campos-santos ou a lucidez que reluz na lâmina do pessimismo

 É que o cemitério de que lhes falo, respondia Pereda, é a cópia fiel da eternidade.

Roberto Bolaño


Estivemos em Cruz das Almas.

Passava das seis e, inevitávelmente, recordei que toda Cruz das Almas foi lugar de reza.

Que toda Cruz das Almas foi lugar de bebedeira.

Que toda Cruz das Almas foi lugar de descanso.

Que toda Cruz das Almas é lugar de passagem.

Compramos Kombucha: dez litros.

Incensos, um par de roupas e empadas.

A porta do cemitério estava batida.

Acendi a vela ali mesmo, ao pé do muro branco.

E deixei os doces ao tempo.

Talvez chovesse de madrugada e apagasse a vela.

Talvez chovesse e dificultasse o trabalho das formigas.

Passava das seis.

Regressamos.

Ao ponto zero da experiência.

Mas agora tínhamos uma raquete de matar muriçocas.

Passava da meia-noite quando a chuva chegou.

Sonhei que, finalmente, estava na ilha caribeña.

Nada no sonho recordava a revolução.

E tudo parecia tão perdido quanto todos aqui.

Assucena comeu chuchu, sem convicção.

Come-e-Dorme, em agonia, segue sua guerra pela vida.


Estive em Cruz das Almas.

A vela segue no mesmo lugar.

Os doces também.

Tem sempre uma estrada aguardando nossos mais primitivos abandonos.


nuno g.

Toróró, 10 de maio de 2024. 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O livro dos pequenos estremecimentos ou a trajetória da flecha em chamas

para Larissa, Alice & Assucena,


Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,

nada é em vão sob o sol,

essas mãos que pousam sobre o ventre da terra machucada 

encharcadas de lama roxa e luz arcaica

são as mesmas mãos que nos guiaram quando andávamos pelas entranhas da terra.


Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,

onde antes olhos, agora sóis

essas estrelas que nos guiam

são as mesmas estrelas que nos guiaram à sombra da distração.


Assucena sonha com uma borboleta - tudo arde, nada é em vão.

Essas mãos convidam à ceia - o pão da terra é amargo.

Essas mãos convidam ao sono - quem teme o próprio medo não deve seguir.

Essas mãos convidam a passear por ruínas e escombros:

na cidade da imaginação tudo está sempre aceso.

Não existe vida fora do risco.

Não existe vida além da poesia.

Não existe vela que arda sem intenção.

Essa Senhora que nos deu a vida nos conceda agora e sempre memória.


Assucena sonha com todas as cores nesta tarde.

Um vento fresco corre pela casa.

Haverá sempre um porto à nossa espera.


nuno g.

Toróró, 08 de maio de 2024.


o mistério das pequenas doenças ou quando a carne do Sonho sangra

Assucena come tangerina com alegria.
As mãos feridas pousam sobre a folha agônica.
Quando lhe perguntarem: tudo bem ou como estás sorria, apenas.
Esse fogo nos lábios, essas farpas entre os dentes.
O que eu quero, meu bem, é o que está sempre distante.
Senhora Obscena, eu também não me movo de mim e te agradeço.
Assucena resiste. O suco da tangerina escorre pelo queixo.
Esse fogo nos lábios de Tempo, essas carícias angelicais entre as mais discretas náuseas.
Quando me perguntarem: conhecestes a felicidade e o contentamento? receberão a mais brilhante das respostas - não importa.
As mãos e a memória das feridas sobre a folha que já é asa de pássaro livre.
Sob os escombros do viaduto, o silêncio de Orides.
Meu bem, só o que está sempre distante importa.
Antes de curar é preciso amar a ferida.
Uma e outra vez,
Além.

nuno g.
Toróró, 08 de maio de 2024

terça-feira, 23 de abril de 2024

dono das matas

Não sei onde anda a cigana de Araci.

Nem aquela outra que me falou da morte de Ian.

Menos ainda dessa terceira que me vendeu a figa de Assucena.

Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.

Ela me levou até um açude onde vi meu rosto refletido com precisão.

Foi tecendo minhas rugas por toda a noite.

Enquanto meu envelhecimento se fazia evidente.

Certa tristeza muito antiga pairava na atmosfera.

Certo descontentamento muito intenso rugia no campanário.

Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.

Senti medo, muito medo.

Senti frio, muito frio.

Despertei em meio à neblina.

Trazia um anel de prata no dedo.

E dóis sóis onde antes olhos.

A filha da Serpente ao meu lado.

O filho do Ferreiro e a suave memória de um sonho antigo.

Que não posso narrar. 

Que não tenho permissão de narrar.

Não sei por onde andam as três ciganas.

Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.

Outra vez até o noturno açude onde se refletia meu rosto.

E o tapete tecido com minhas rugas.

Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.

Vento frio ao amanhecer.

Mais que medo, angústia e algo de desespero.

Neblina e uma pedra no coração.

Anel de prata no dedo.

A filha da Serpente // O filho do Ferreiro.

A canoa subindo lentamente o rio.

O velho, o elefante e todas as minhas esperanças junto a eles.

Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre as águas.

Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre a cidade de espinhos e estrondos.

Uma senhora vestindo roxo abriu as mãos.

Havia sal e lama entre as linhas de suas palmas.

Um breu branco se instalou no tempo.

Hermenegildo passou trotando em seu cavalo.

Erguendo a poeira do chão.

E abrindo caminho para a chegada da lua de Wesak.

Forjada nas matas sombrias com a luz do ferro e a espada da compaixão.


nuno g.

Toróró, 23 de abril de 2024.

sábado, 20 de abril de 2024

eclipse

às vezes o silêncio grita

e tem sempre muito amor no silêncio

Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo

em direção à dissolução de todos os temores não-imaginários

às vezes o geólogo treme ante as camadas de terra entranhadas em seu corpo

e tem sempre muito amor em toda terra

às vezes a memória arde

e tem sempre muito amor no arder da memória

Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo

em direção à dissolução de todos os afetos não-imaginários

tem sempre muito amor em tudo que é amargo

ante às águas e o brilho

tocam meus joelhos os subterrâneos de mil faces

e reflete em suas lâminas os labirintos estreitos de onde venho

as montanhas de cansaço cansaço e mais cansaço

e sim, tem sempre muito amor no cansaço

tem sempre muito amor na distância

tudo que é vago atrai quem já não mais tem outro medo além dos imaginários


nuno g.

Toróró, 20 de abril de 2024.

terça-feira, 19 de março de 2024

A morte do xilógrafo & outros sonhos

Subíamos a serra de Guraramiranga

Eu, Claudio e o velho pajé do seminário

Havia muito verde e muita água

Umas poças de argila branca

Conversávamos sobre a morte de Bitú ou de Adriano ou de Walderedo

Amássavamos a argila branca entre as mãos

E seguíamos subindo a serra


Estávamos na Terra do Gelo

Eu, Alice, Larissa e Assucena

O automóvel atolava na neve

E nós ficávamos conversando sobre o nosso medo que as meninas congelassem

Apesar do temor ou talvez por ele

Seguíamos bem


O Mensageiro o enviou

Trouxe uma tapioca do Aquiraz

Duas mudas de lírios

E um exemplar digital do segredo da flor de ouro debaixo do sovaco

A terça-feira amanheceu alaranjada


nuno g.

Toróró, 18/19 de março de 2024.


domingo, 17 de março de 2024

Uma vela para minha vó

 para Maria Zilá Lima Gonçalves


minhas mãos

trêmulas desde antes da criação do mundo

úmidas como úmida a madrugada de minha infância

te ofertam essas duas flores encarnadas como carvão em brasa


minhas mãos

unhas sempre ruídas 

palmas riscadas por pequenos relâmpagos

te apresentam essas duas flores que a seu pedido foram nomeadas marias


minhas filhas

seus nomes são memória de que a carne é estremecimento e devoção

seus nomes são memória de que ainda em sonhos sua bisavó seguia em oração

seus nomes são memória que uma serpente rasteja ainda no chão de meu coração


minha vó

o caminho da novena era mais estreito e comprido que eu imaginava

o caminho da novena era mais cheio de curvas e insensatezes que meus delírios

o caminho da novena, minha eterna febre enlaçada em suas rugosas mãos de serenidade


a paz está sempre em algum lugar onde nunca se chega

a paz está sempre fora do alcance das mãos

a paz é um pássaro do passado que os ornitólogos nomearam amanhã


nuno g.

Toróró, 17 de março de 2023.

quarta-feira, 13 de março de 2024

oração ao rés do chão.

 ao Senhor dos Cemitérios,

aos Erês que O acompanham,


Assucena brincando na casa da árvore.

As bananeiras, o abacateiro e a mangueira.

Do outro lado da cerca, a árvore das lagartas cortada por ordem do Almirante.

A terra chora sempre que uma árvore é cortada.

Larissa sobe os degraus com alegria.

Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.

Os fogos amanhecem a cidade heróica.

Com suas ruínas exuberantes.

E as cicatrizes do desleixo português por todos os cantos.

Com seus mistérios e mistérios e mistérios.

Assucena brincando na casa da árvore.

Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.

Vaga recordação de um sonho em que Paçoca vomitava borboletas amarelas.

Presságio emoldurado à madeira.

O canto de Alice cruzando o horizonte como um gavião.

Capim-santo. Sorriso no rosto de Lari.

Take it easy my sister Lari.

A terra sorri sempre que se semeia uma árvore.

Yãkoana, Yagé e o caminho dos Sonhos Lúcidos.

Antes do despertar é necessário atravessar muitas vezes o mesmo lugar.

Antes de seguir adiante é necessário revisitar muitas vezes o mesmo chão.

Antes de abandonar todos os medos é necesário sonhar outra vez os sonhos de antes.

Do outro lado da serra, sorri aquele que não ouso pronunciar o nome.


nuno g.

Toróró, 13 de março de 2024. 

terça-feira, 12 de março de 2024

da ponta do iceberg ao coração das águas

Assucena me despertou e meu sonho se esvaiu ao entreabrir dos olhos.

As asas da Esperança sempre me roçando suavemente o corpo.

As exigências do destino. As obrigações do karma. 

A amorosa luz de seguir caminhando entre a resignação e a revolta.

Alice tão longe e tão perto. As cobranças e as encruzilhadas.

Dentro de mim as camadas e camadas de cinzas e o fogo de Tempo.

E a árvore de Tempo. E as sementes de Tempo.

E a boca faminta da Morte ao calcanhar.

Já não há mais dúvidas:

pertenço a uma geração que legará um mundo pior que o herdado.

Ainda nisto encontrar uma pedra ou nuvem para firmar a delicadeza.

Aprender com algum inseto sobre essa habilidade da natureza.

Que destrói o que lhe serve de insrumento à materialização de algo.

Hoje é terça e terça nunca é um dia qualquer desde que escutei a voz do silêncio.

Povo das águas - recebei entre seus fios de cabelos o rogo dos povos de Ar.

O cansaço se avoluma sobre a montanha de cansaços.

Certa ternura se agiganta no redemoinho de tristezas que preenche a tarde.

Ouço o eco de sonoridades muito antigas.

Caminho por paisagens que já não existem mais.

E me agarro com força ao porvir.

Já não há mais dúvidas:

confiar na áridez e desaprender tudo que nos ensinaram.

Pouco convém determinadas insistências.

Existem respostas e medicamentos que se resumem a prolongar sofrimentos.

A sobrevivência só guarda serventia quando tática.

Sábado entregarei minhas últimas arrogâncias e o que restou da verdade.

Depois de amanhã terei atravessado mais uma quaresma.

Entre mel, gafanhotos e sangue.

Jordânia significa descendência.

Ou o rio onde os órfãos podem reconhecer seus antepassados.

Depois da quaresma terei me atravessado mais uma vez.

Sem ter me tornado um com o abismo que me olha desde antes de meu nascer.

Sem ter me enforcado com a corda que ante meus olhos propõe: desata-me.

Depois de amanhã a quaresma terá me atravessado mais uma vez.

Descêndencia significa rio que corre em direção contrária.

Ou oceano que engole praias e montanhas.

Assucena me despertou e todo o sonho se dissolveu.

Restou apenas a bonita imagem de Paçoca, a cadela, 

devorando borboletas amarelas no alpendre da casa do Almirante.


nuno g.

Toróró, 12 de março de 2024.

sexta-feira, 8 de março de 2024

haiku

a vaca mugiu no pasto do Lio

uma borboleta pousou sobre uma flor

um arco-irís serpenteou o céu


nuno g.

toróró, 08 de março de 2024.

sexta-feira, 1 de março de 2024

O cobrador e a encruzilhada.

Ele sempre vem.

Sorrateiro. Disfarçado. Artimanhoso e corroído.

Ele sempre vem e cobra.

Eu só peço a meu pai: gira-me, uma vez mais e sempre.

Deixa Ele falar. Deixa passar. Deixa o Azul sombrear seus golpes.

Eu só peço a meu pai: gira-me e conserva minha devoção.

Ele sempre vem e cobra.

Ainda depois da dívida ele olha e espuma.

Eu só peço a meu pai: gira-me e me conserva.

Balança. Balança. E balança uma vez mais.

E sempre.

Ele julga e passa. Ele fere e segue. Ele abre a janela esquerda e

Eles vêm em socorro.

Estendem a mão, sorriem e dizem sim.

Eles sempre vêm.

Giram-me e cuidam. Giram-me e guardam. Giram-me e abrigam.

O Azul soterra os golpes.

O Amarelo apascenta o ódio que O move.

Eles vêm da esquerda e me giram.

A balança do julgamento.

O balanço das águas do mar.

Firmeza. Lucidez. E a certeza de que por trás Dele existem coisas que não podem ser ditas.

O disfarce não suporta a alegria.

Artimanhoso e corroído ele recua ante Os que fazem a ronda.

Ante Os que seguem de guarda.

Não existe pureza sem mácula.

Só a da Rainha Soberana que Reina na imensidão da Floresta.

Não existe mácula sem pureza.

Só a do cobrador, cego em seu trono de fezes e morte.

Eu só peço à minha mãe: gira-me e guia.

Onde eu for escuro seja lua cheia.

E não permita esquecer que no princípio tudo era firmeza, disciplina e alegria.

E no final também.

O enforcado, o julgamento e o Archanjo.

Aos pés da Rainha Soberana da Floresta.

Eu só peço à minha mãe: gira-me e não permita o esquecimento.

Eu só peço à minha mãe: seja a lua cheia que me guia.

A estrela onde ancoro meus pensamentos.

A vibração da firmeza com que mais de uma vez atravessei os caminhos do inferno.

E este fio de luz que sustenta a pulsação de meu coração.

Amém.

nuno g.
Toróró, 13/12/21

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O arco, a serpente e a luz que atravessou a pedra II

Daqui a pouco o dia vai querer raiar
Luis Queiroga & Pedro Luis


A lua estava cheia, mas haviam muitas nuvens no céu.
Papai, a Sussu nunca vai conhecer o tio Edson e a tia Tânia!
O caminho que caminho tantos caminharam que quase não escuto a solidão.
Havia uma serpente no céu. Uma serpente e muitas nuvens.
Certa alegria que é irmã gêmea da resignação.
Mel e escuridão: escuridão e mel.
Como num romance russo do século XIX.
Ou como quando um cão doente se aproxima de um afago.
E a memória das mãos roxas e delicadas que nos criaram com a lama do mangue.
Íshvara pranidhana - Assucena desperta.
Íshvara pranidhana - Alice desperta.
Íshvara pranidhana - o ferimento no olho do Come-e-Dorme começa a cicatrizar.
A lua estava cheia e oculta entre as nuvens de chuva.
As águas chegaram sobre nós. As águas e as escamas da Serpente.
As águas e as lágrimas da vida toda.
Papai, a Sussu nunca vai conhecer o tio Edson e a tia Tânia!
Certa alegria que é irmã gêmea da poesia.
Mel e resignação: escuridão e mel.
O caminho que caminho tantos caminharam que quase escuto a solidão de meus passos.
Como em qualquer romance russo do século XIX.
Apesar do genocídio em Gaza - ou por cada criança morta ali.
Apesar dos fascistas desta terra mergulhados em seus delírios de tristeza e guerra.
Ou, principalmente, pela existência deles.
Como num poema cearense sobre a guerra dos bárbaros.
Sobre colonizadores matando tapuias.
Sobre uma cabeça de touro enterrada sob a igreja da Virgem da Conceição na cidade do Icó.
Senhora da Lama - não esquecei de nós que trazemos as marcas de vossas mãos nos corpos.
Caçador - em tua flecha nossos sonhos.
Caçador - em tua flecha nossa porteira de fogo.
Caçador - em tua flecha nosso caminho de cinzas & cinzas & redenção.
Papai, a Sussu nunca vai conhecer o tio Edson e a tia Tânia!
Senhora dos Ventos - varre, sopra, espanta, aboia.
Haviam muitas nuvens no céu, mas a lua estava cheia.
Íshvara pranidhana - a Serpente desperta, se faz luz e geologia das profundezas da terra.
Certa alegria que é irmã gêmea da guerra.
Ruge a fera. Ruge a sombra.
Ruge o sino assombroso do campanário.
Como em toda a poesia russa do século XIX.
Como em toda a filosofia de Søren Kierkegaard.
Íshvara pranidhana - Bessen desperta.

nuno g.
Toróró, 28 de fevereiro de 2024.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O arco, a serpente e a luz que atravessou a pedra

Se soubesse de onde eu vim, não me sorria

(...)

Agora que sabe, tem medo de mim

Mas no seu lugar, eu também teria

Mc Tha & Jaloo

A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do ar.

Demasiada neblina ao amanhecer.

No rosto de Claudinha a violência que se confunde com a esperança.

A doce verdade nos lábios e o que é justo aqui: gritando e gemendo neste vale de lágrimas.

Come-e-Dorme com grave ferimento no olho.

Lari pinga o colírio e reza.

Que o vento leve hoje todo o ontem e algo do amanhã.

A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do mar.

Na montanha mais alta a morte e os vaga-lumes dançam e brincam com a neve.

Tempo trabalha, corta a carne e as artérias de um corpo que grita e geme.

A voz de Milton inunda a casa.

Assucena quase chora.

Luís semeia a lua amarela e sorridente.

Que o vento corra daqui esse sentimento ruim e sádico.

Que o vento corra daqui essa insanidade masoquista.

Que o vento traga outra vez o sol, a lua e as estrelas.

Tudo cheira à água de eucalipto.

Na montanha mais alta me inclino ao recordar tia Tânia.

Sua alegria, sua energia e seu amor ao dizer à Alice:

A tia vai ficar boa pra brincar com você.

Bastou isso para fixar agradável memória entre pontes e pontes.

E águas de rios correndo entre prédios e prédios e teias de asfalto.

A verdade nos lábios e as saudáveis maneiras de machucar alguém.

Havia muitas cercas de arame farpado.

Mas a morte e os vaga-lumes sempre terminam por cruzar qualquer cerca.

Os olhos de tia Tânia nos olhos de Alice.

Os olhos de tia Helma nos olhos de Alice.

A doce e violenta verdade nos lábios.

A doce e delicada e violenta verdade nos lábios.

O som das tanajuras caindo dos céus.

O som dos passos desta senhora que chamamos Morte.

O vento tangendo pensamentos.

O vento tangendo sentimentos.

O vento tangendo resquícios de um sonho incompreensível.

Na casa de um amigo de infância.

Meu único amigo ali era a casa.

Cheia de rachaduras e infiltrações.

Como meu próprio corpo desabando no corpo do abismo.

Tempo trabalha na longa longa duração.

O sol, a lua e as estrelas giram.

Lari reza e pinga o colírio.

Lavo os olhos com mel.

Três vezes choro no túmulo de Ian.

Recordo tio Edson ao olhar as nuvens.

Gabi me ensina sobre o ódio e sobre a necessidade de estar aqui.

Ainda que aqui seja uma casa cheia de rachaduras e infiltrações.

É a única que tenho. É o corpo que sou. É o lugar onde habito.

E a estrela que me habita ainda não morreu.

E a lua que me habita ainda possui suficiente ternura.

E o sol que me habita lança serpentes de fogo 

que acendem a pedra delicada onde repousa minha dor...


nuno g.

Toróró, 22/02/24.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Içá

Isso é um içá!?

Sim - e lembrei do sítio do pica-pau amarelo entre as cidades mortas.

Hoje caíram tanajuras, não chove - me disse uma velha na fisioterapia; choveu.

Sonhei com a montanha mais alta do mundo.

Só a morte e os vaga-lumes sobreviviam ali.

Quando eu era menina catava içás para minha vó fazer farofa - mas eu não comia.

Depois que a velha falou, uma jovem comentou o mesmo, mas havia nojo em sua voz.

De tudo que Bruno me falou retive a imagem poética do guerreiro que corta o ar com sua espada.

A inutilidade do gesto o torna ainda mais poético.

Em tudo que Gabi me falou havia uma certa sabedoria prática e um amor ao outro que me é estranho.

Impossível não recordar São Francisco de Assis.

Ou certo saber que nos diz que amadurecer é se deixar de lado.

Que gosto terá bunda de tanajura?

No alto dessa montanha do sonho havia um descampado inabitável.

Só a morte e os vaga-lumes se faziam presentes.

Os infortúnios do corpo e da alma são mensageiros de algo.

Só o difícil interessa. Só o amargo desmemoriza.

As coisas que eu gostaria de esquecer nunca serão esquecidas.

Encontro Don Juan onde menos espero.

Em um livro de psicanálise sobre a solidão.

A voz de Lucas invade minha sala com um convite.

As coisas que recordo agora não são da ordem do que pode ser dito.

Alice está longe e está próxima.

Havia nenhuma outra luz na montanha além da dos vaga-lumes.

Lari volta a sangrar. 

Será que as mulheres são ainda mais fascinantes por sangrarem sem morrer?

Thiago de Mello: faz escuro, mas eu sonho.

E sonhar é uma benção.

Ainda quando se perdeu toda uma infância entre pesadelos.

O que eu não terminei de te contar Gabi é que sim houve um tempo em que eu temia a morte.

Temia tanto que evitava dormir, pois todas as noites ela me perseguia em sonhos terríveis.

Isso durou anos - bem mais de uma década.

E nisso vi escoar pelo ralo um tempo precioso da vida.

Depois perdi o medo e, junto com ele, perdi também o amor a esse mundo aqui.

No deserto entendi que os derrotados são sempre os que temem a morte.

Meu avô me repetia algumas coisas todos os dias.

Que ele morreria antes de mim e que eu deveria enterrá-lo e seguir.

Que ele gostaria que isso ocorresse depois dos meus quinze anos.

Que não seria natural ele presenciar minha morte pois isso seria uma perversão da lei natural.

O hálito de álcool não turvava suas palavras.

Nem tudo ocorreu como ele gostaria.

Minha infância terminou quando ele morreu.

Minha solidão é sagrada - e todas as vezes que desacreditei nisso me fodi.

A imagem que retive das falas do Bruno se desdobra à minha frente.

Um guerreiro irado corta o ar com a lâmina afiada de sua espada.

O gesto é ainda mais poético por ser de todo inútil. 

O vaticínio da velha estava errado, choveu.

As bundas das tanajuras sabem à proteína pura.

Aquela montanha mais alta do mundo é o México onde está enterrado a placenta de Alice.

Só a morte e os vaga-lumes parecem ter força de chegar lá outra vez.

Desde o nascimento de Assucena duvido de minha carcaça.

A dor me tirou da estrada. E essa dor se alojou em minha alma.

Sempre fui triste e a alegria sempre me pareceu fútil.

Hoje gostaria de ouvir apenas o silêncio.

A voz da morte. A chuva de tanajuras.

E a melancolica e frágil luminosidade dos vaga-lumes.


nuno g.

Toróró, 21 de fevereiro de 2024.