quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Espírito natalino
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
Tudo aqui é antigo III
Os furúnculos que atormentam os suicidas
O sol que incendeia o juízo
A torpeza que paralisa os débeis
A insanidade que reluz os delírios dos gênios
O som do ventilador na madrugada
A delicadeza das flores selvagens
E a esperança que esse esquimó pousado sobre meu ombro esquerdo
Revelará a qualquer instante o sentido exato de sua presença
Tudo aqui é antigo
O amor o amor o amor e as trevas de onde brota todo amor
A suavidade a suavidade a suavidade e o engano onde arde tudo que é suave
E essa estrela vermelha carregada por um condor machucado
À espreita de um passo em falso
Ou de um súbito instante de iluminação
Tudo aqui é antigo
Essa memória primitiva que nos protege de nós mesmos
E a permanente saudade de tudo que não chegamos a viver...
nuno g.
Ioróró, 18/12/24
Tudo aqui é antigo II
Tudo aqui é antigo
O corpo de Hart Crane se dissolvendo no mar
E as luzes dos vaga-lumes no cio
Os beija-flores que entram pela janela
O choro dos bebês
A sede e a fome de mistério
Tudo aqui é antigo
Os vitrais que sobreviveram aos terremotos
As pílulas que o andarilho leva ao bolso
E o mormaço que acompanha nossos passos
Tudo aqui é antigo
As velas que nossas mãos trêmulas insistem em acender
A procissão de eguns que dançam em torno à árvore de nossas mirações
E a insônia que nos protege de nossos próprios espantos
Tudo aqui é antigo
Como o vento dos mitos mais antigos
Como a tempestade que aguarda a hora de desabar sobre nossas cabeças
Como os cabelos de Andrômeda, a princesa etíope
Tudo aqui é antigo
Tudo aqui é memória de um coração forasteiro
Tudo aqui é marulho e arrebentação
Como o fogo que em cinza transmuta todas as coisas
Tudo aqui é antigo movimento de um velho ferrorama
Vagando perpetuamente do Nada ao Nada
Até que nos trilhos não haja memória alguma das ruínas do mar
Nem dos ossos das tempestades
nuno g.
Toróró, 18 de dezembro de 2024.
Tudo aqui é antigo
Tudo aqui é antigo
Esses cacos de cristos de cerâmica e parafina
Que encantam arqueólogos
Que enfeitiçam antiquários
Que mergulham em estado cataléptico toda sorte de alquimistas e falsários
Tudo aqui é antigo
Tudo aqui são ruínas ossos e ruínas
Essas cartas de baralho esbranquiçadas pelo sal dos mares
Esses mapas de céus imaginários com suas constelações de medos e fúrias
Esses transeuntes de passos desajeitados e sobressaltados
Tudo aqui é antigo
Essas sombras, essas águas, esse trem em meus sonhos
E essa biblioteca que não termina de incendiar
Tudo aqui é ornamento à base de luzes arcaicas
Como essas fotografias de Pedro Juan num puteiro de São Paulo ou da Barra do Ceará
Como essas árvores e esses presépios e nossas mãos sujas tentando tocar a promessa
Tudo aqui é antigo
Essa lua cheia, essa chuva de meteoros, essas palavras ciganas
Essa quentura, esse bolor, essa atmosfera de fascismo e impunidade
Tudo aqui é antigo
Como o som dos carapanãs de Iquitos
O cheiro de sexo escorrendo pelas paredes
Gotejando entre as frestas do telhado
Enquanto o anjo Azul segue sobrevoando a noite em que nos afogamos...
nuno g.
Toróró, 17 de dezembro de 2024.
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
colar de âmbar
sexta-feira, 29 de novembro de 2024
a feiticeira das águas roxas
Em queda perpétua, se apresentou assim: Jezabel, senhora das insistências e de tudo que é turvo e irremediável. Em queda perpétua, contínuo estado de ausência de si, silhueta em permanente estado de cintilância, cigana. Jezabel, senhora detentora do saber amar o que em si é detestável e de tudo que é queda, ruína e sofreguidão: assim se apresentou. Antes, muito antes, do nascimento de Tempo, seu filho. Jezabel, a que com plumas fere e que em sonhos firma os pontos do Destino e de toda cisma inexorável. Em queda perpétua, a que traça círculos concêntricos e comanda desde sua casa de lama toda devoração, a que amplifica e faz ecoar todos os vestígios de tudo que por qualquer razão tenha sido condenado ao esquecimento. Em queda perpétua, assim partiu. E nenhuma coincidência há que o tenha feito na mesma forma em que chegou. Os encantados animais de fogo e a noite sobre a qual reina são testemunhas vivas de sua dança que, embora breve, foi suficientemente capaz de restaurar a memória de como chegamos ao caos e de como nasceram as enfermidades, os ódios e todas as fúrias. Jezabel - a criança que chora e te acompanha aninha o que resta de sagrado no desespero; onde tudo é sombra sua queda se revela como condição de possibilidade de alguma luz: ainda que uma luz frágil, trêmula, quebradiça e exausta ante a recorrente palidez estampada à face dos que a ti recorrem: palidez que denuncia o peso do medo e o absurdo do espanto que os movem a prostrar-se à serena ansiedade dos teus pés.
nuno g.
Toróró, 29 de novembro de 2024.
quinta-feira, 28 de novembro de 2024
Mucuripe
Vá comer merda! - disse Judite antes. Quando no sol ainda não ardia o fogo e a Serpente não havia separado as cores e definido os limites, os contornos, as fronteiras precisas de cada uma delas. Em sombra e penumbra, as palavras de Judite reverberaram inaugurando o mundo dos sons e abriram caminho à dissipação da névoa e da neblina. Estreito rastro apenas iluminado por tênues e frágeis fagulhas. Seu eco atingiu Alzira e uma certa ciência de que todo futuro antes de ser futuro é, de alguma forma sinuosa e sutil, passado, a permitiu antever uma tarde de pôr-do-sol, bistecas fritas, cervejas geladas e mágoas acesas à beira-mar.
nuno g.
Toróró, 28 de novembro de 2024.
segunda-feira, 25 de novembro de 2024
estudo fino sobre o Azul
sábado, 23 de novembro de 2024
o caminho amarelo
Soubemos por um telefonema. Uma vez mais a vida me recordando das coisas que são maiores, imensamente maiores, que nós. Arrumamos as coisas e fomos à capital. Recordo o gramado verde e um imenso deserto amarelo se abrindo diante de meus olhos. Neste deserto nós brincávamos, crescíamos, abandonávamos todas as coisas perecíveis e seguíamos por uma estrada repleta de pequenos animais saltitantes. Olhávamos as estrelas, fazíamos fogueiras, celebrávamos rituais em línguas desconhecidas e dançávamos músicas que em nada recordavam o lugar de onde havíamos vindo. Encontrávamos vários peregrinos no caminho e com eles dividíamos os alimentos, as vestes, a lama e o lodo. Depois que o caixão desceu à terra o deserto amarelo foi engolindo tudo. Até minhas pupilas foram invadidas por aquela cor. Arrumamos outra vez as coisas e regressamos ao sertão. Guardei em meu coração a memória daquele caminho e a certeza de que onde quer que ele me levasse meus passos seriam sempre insuficientes: não havia mais sequer mínima diferença entre estar só ou habitar a multidão. Havia apenas o amarelo mais intenso que conheci e a incômoda sensação de que a danação eterna era algo mais que uma desgastada metáfora entre as cáries das beatas da igreja.
nuno g.
Toróró, 23 de novembro de 2024.
travessa professor aprígio número sessenta
Estive por séculos subindo e descendo aquela rua estreita. Entre o calor e as flores minhas esperanças de reencontrar meu avô e minha infância tornavam sempre a se renovar. A voz do tio Edson no púlpito da matriz pedindo a deus que me desse força para entender o que não poderia ser entendido. As lágrimas sem-fim de minha avó escorrendo pelos meus cabelos e o cântico perturbador e exausto das onças agônicas me acompanhando, me protegendo, me forçando a empunhar outra vez a pá de areia e enterrar entes queridos. Naquele vai-e-vem sem-sentido fui entendendo que felicidade e paz eram palavras tão inúteis quanto as palavras das aulas de catecismo. Nada acontecia naquele livro de memórias fragmentadas onde estive aprisionado por séculos. As fúrias ressuscitadas, o gavião real e o jaguar encantado apenas me exigiam paciência e rigor. Severas eram suas maneiras de ensinar e pouco-a-pouco fui entendendo como se gestam distâncias, como opera a violência do silêncio e como em sementes já habitam árvores. Raras vezes me ausentei de refazer a diário aquele caminho: o que entre fantasmas vive estranha em tudo essa displicência e arbitrariedade que em todos os lados se apresenta como vida e cotidiano. Na guerra em que cresci a febre, os calafrios e a insônia eram irmãos gêmeos e o lugar mais aprazível era o sótão onde, por sorte, conheci esse morcego que me apascenta o inviolável desejo de nunca mais estar aqui outra vez.
nuno g.
Toróró, 23 de novembro de 2024
quarta-feira, 20 de novembro de 2024
pergunte aos pássaros
Depois de tempos surgindo em forma de pássaro laranja, Hermenegildo regressou em sua forma de pássaro azul. Naquele silêncio entre a margem ocidental e a margem oriental do rio suas asas exuberantes desenharam figuras geométricas e esboços de seres ainda não nomeados. A delicadeza de seu voo só encontrava parentesco naquela delicadeza que conhecemos quando nos aproximamos de Arturo Bandini. Rumores e pressentimentos foram se expandindo desde os suaves movimentos de suas asas, anunciando o fim da grande noite. Apenas o silêncio. Os gatos. Os primeiros raios de sol deitando-se sobre a lâmina do rio. Apenas o silêncio, ancorado sob o leito das entranhas minerais da terra. Apenas o silêncio, onde ecoa a voz de Tempo. Apenas o silêncio, onde se pode escutar a resposta dos pássaros aos apelos irremediáveis da moça Caetana. O silêncio, apenas o silêncio. E ao longe, muito longe, os ecos do trote da montaria de Hermenegildo cruzando a serra da Esperança.
Entre o azul e o laranja havia um segundo pássaro com uma lua presa ao bico. Havia também uma árvore carregada de estrelas. Sereno é o caos após o abandono de todas as coisas que nos impulsionavam ao grito. Sereno é o grito do trovão que anuncia a tempestade. Hermenegildo, em sua fugacidade e solitude, é todas essas coisas a um só tempo. Margem oriental, margem ocidental, lua, pássaro, grito, trovão e tempestade. Hermenegildo é o caos e a serenidade. Em seus sonhos as feiticeiras são onças e as onças são feiticeiras. Havia também um terceiro pássaro, mas sobre este não possuíamos permissão para dizer nada além do fato público e notório que em seu ninho repousavam ausências, esquecimentos e todos os sonhos que se apagam de nossas memórias ao amanhecer.
nuno g.
Toróró, 20 de novembro de 2024.
terça-feira, 19 de novembro de 2024
se ao amanhecer as onças seguissem despertas
Tudo em Rebeca é suave fúria. Sua aversão ao mar e a tudo que saiba a sal e espuma. Tudo em Rebeca é aproximação e espanto e, consequentemente, fatídica memória do dia em que meus pés afundaram nas várzeas de piçarra. Quando animal é onça e metamorfose regida por intuição e sinestesia. Rebeca sobreviveu. Rebeca sobreviveu. Rebeca traz cílios e mãos de quem sobreviveu. Rebeca traz cabelos que não param de crescer e unhas afiadas como garras de gavião selvagem. Rebeca me sonha e sonha um mundo impossível de existir. Nesse mundo não há diferença entre crianças e estrelas. Neste mundo não há espaço, brecha ou distância entre a música das esferas e a delicadeza de nossos ouvidos. Rebeca, onça e cabra a um só tempo. Fêmea e espelho onde se reflete toda a história do esquecimento. Rebeca, azul como o céu de Iguatu. Vermelha como a piçarra das várzeas do baixo Jaguaribe. Verde como o frágil esqueleto da ilha onde reina a Rainha do Ignoto. Rebeca, a que cativa os homens e os bichos e as plantas. Rebeca, a que tem raízes fincadas no útero da pedra. Tudo em Rebeca é fúria e suavidade. Sua solidão nos protege de nossas próprias sombras e na umidade de seu hálito flores roxas parecem borrar as inúteis fronteiras que nos impedem de caminhar para além da miserável redoma onde tudo é silêncio, exílio e condenação.
nuno g.
Toróró, 19 de novembro de 2024.
segunda-feira, 18 de novembro de 2024
o homem sem dentes e a terra devastada
Essa noite não sonhei com Rebeca, embora tenha sentido sua presença no quarto ao despertar. Penso ter visto sua sombra descendo a escada e se movendo em direção ao rio, mas tenho plena consciência ter se tratado de um pensamento. Com todo o perigo que traz um pensamento, essa fenda aberta por onde passam os seres dos outros mundos quando nos querem acariciar a pele. Apesar da idade, Rebeca caminhava com passos seguros e não demonstrava sinais de cansaço ou exaustão. Ao contrário de mim que pareço ter carregado todas as montanhas da terra por um período de tempo infinitamente superior às minhas capacidades físicas e psíquicas. Não consegui reter na memória as vestes de Rebeca, suas cores se perderam na morosidade de meu despertar. Ao folhear o jornal matinal as mesmas notícias sobre o relógio da guerra do fim do mundo aceleradas pelo presente de grego do presidente gagá ao presidente tam-tam. Talvez eu tenha sonhado que não possuía mais dentes. Talvez Rebeca os tenha levado consigo. Talvez haja alguma maneira saudável e eficiente de cruzar a terra devastada. Talvez, mas só talvez, amanhã minha antiga imagem volte a se refletir no espelho d'água do rio que foge à fúria do mar.
nuno g.
toróró, 18 de novembro de 2024.
domingo, 17 de novembro de 2024
as visões de Rebeca
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
do rio até o mar
sábado, 9 de novembro de 2024
Carnaval
para Maria Alice & Claudio Reis,
Ontem, regressando da aula, encontrei um cassaco na estrada.
No mesmo exato lugar onde dias atrás um gato e uma serpente se engalfinhavam.
Talvez fosse o mesmo cassaco que eu e Alice encontramos em Arraial d'Ajuda anos atrás.
Naquele dia saímos para olhar estrelas na praia.
Caminhamos da vila ao chalé e no caminho encontramos o pequeno gambá.
Sempre recordo dessa noite e da fé que aquelas estrelas acenderam em mim.
Ontem, fiquei a recordar de um carnaval antigo em Campina Grande.
Troquei um exemplar de o sol e a maldição pela obra de Augusto dos Anjos.
Possuído pela fúria do Sétimo e pela euforia desmedida.
Saciei minha sede com todo o álcool do mundo.
E entre budistas, daimistas, hare krishnas, devotos do Sai Baba e toda sorte de místicos.
Saí recitando poema negro pela Serra da Borborema.
Naquela noite, ainda presenciei a cítara enfeitiçada de Alberto Marsicano.
Exausto e completamente embriagado, desmaiei num canto da praça.
No outro dia despertei sob o olhar dos transeuntes atarefados.
Ao meu lado o livro de Augusto dos Anjos.
Uma vaga recordação que meu livro agora repousava na estante de um sebo paraibano.
E a mão fraternal de Claudio Reis me erguendo das frágeis ruínas de meu desamparo.
Tomamos um caldo e mais uma vez pensei em de aí por diante:
nunca mais escrever versos...
nuno g.
Toróró, 09/11/24
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
Verbete ausente do dicionário ou imaginário do medo
Efigênia
Em silêncio chegou antes das nove. Serviu-se de uma xícara de café forte. Pernas cruzadas e olhar perdido no horizonte. Nos narrou seu encontro com o gato e a serpente, de como se engalfinhavam na estrada de terra e da sua cisma sobre se brincavam ou se tentavam matar um ao outro ou se faziam as duas coisas simultaneamente. Vestido de chita e algodão enfeitado com rendas e bordados. Foi a primeira vez que olhamos Efigênia, embora algo nela me fizesse desconfiar que há muito nos olhava desde algum rincão do além. Assemelhada às nuvens, cabelos emplumados e tecida em muitas rugas. Era toda silêncio e coragem, daquelas que nos exige a vida quando não mais suporta em si o desejo intenso de mais vida. Retiramos os alfinetes da mesa e servimos torradas amanteigadas de pão dormido, como quem serve certas esperanças ainda empoeiradas pelos anos em que dormiu à sepultura. Uma aranha correu no teto da casa e um vento com extensa biografia cruzou as margens daquela primeira aproximação entre seres que sabem à memória do escuro e que carregam vastidões entre as linhas ciganas das palmas das mãos.
nuno g.
Toróró, 08/11/24
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
a sereiazinha de betelgeuse
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
intenção
sexta-feira, 1 de novembro de 2024
sobre sonhos & poemas
para Maria Assucena,
Hoje soube quanto viemos de longe.
Andávamos a cavalo num mundo muito distante daqui.
Havia um rio e em suas margens.
Hermenegildo, Alzira, Judite, Adélia e outros seres.
A sereiazinha de betelgeuse às águas.
Tua mãe me entregava já montado.
E cavalgávamos tempo adentro, sonho adentro.
Aquele rio se chamava poesia, aquelas várzeas recendiam à história.
Despertei segundo antes que o milho pregasse na panela.
nuno g.
Toróró, 01/11/24
quinta-feira, 31 de outubro de 2024
tratado de ontologia
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
A fada do dente
para Maria Alice,
O primeiro caiu na casa de Olívia.
Dani guardou e me entregou.
Inaugurei assim a caixinha de fósforos.
Vieram os outros.
Dormiam embaixo do travesseiro.
De madrugada despertavam e se recolhiam à caixinha de fósforos.
Amanhecia sempre uma moeda onde antes o dente.
Até que um dia a fada veio em silêncio e levou consigo a caixinha.
Nem em sonho senti rumor ou pressentimento de sua presença.
E por vários anos senti saudades do colar com o qual pretendia substituir suas ausências.
nuno g.
Toróró, 30/10/24.
terça-feira, 29 de outubro de 2024
flores de são Miguel - breve história de uma casa
para Maria Alice,
Não recordo o dia da semana.
Descemos a colina caminhando.
Acendemos uma vela na porteira a quatro mãos.
E outras dentro da casa de tijolinhos rústicos.
Estendemos uma toalha e fizemos um piquenique.
Brincamos, conversamos e lemos algum livro.
Dormimos como anjos na casa que vimos florescer.
No outro dia não havia água para escovarmos os dentes.
Fomos à padaria e pedimos dois mixtos com suco de laranja integral.
Voltamos à casa do Almirante até que Zenildo viesse consertar a descarga.
Chamamos Lula que fez um gato e clareou os cômodos.
Descemos outra vez a colina.
Deitamos na rede e ficamos sorrindo como árvores na chuva.
nuno g.
Toróró, 30/10/24.
sábado, 26 de outubro de 2024
Artesão das Matas Sombrias
quinta-feira, 24 de outubro de 2024
sobre poemas & pesadelos II
para Larissa,
Era para ser apenas um passeio agradável e despretensioso.
Mas quase nunca as coisas chegam a ser o que imaginamos que deveriam ser.
Saímos da praia de Iracema onde não havia nada nem ninguém.
Nem o bode Ioiô, nem o poeta Mario Gomes, nem a jangada de pedra.
Caminhamos por ruas vazias até o passeio público.
Nem o baobá habitava mais aquele lugar.
Até a praça do Ferreira tudo era cenário pós-guerra.
Muito lixo acumulado, ausência de pássaros, nenhuma pessoa.
Havia uma entrada para o subterrâneo no meio da praça.
Descemos e encontramos apenas um homem imberbe fumando crack.
Seguimos até a praça do Carmo.
Montanhas de lixo e ausências acumuladas.
Acordamos no Benfica sem Airton Monte, sem seu Chaguinha, sem nada.
Só um pesadelo a mais de quem com pesadelos a muito está habituado.
A terra devastada que herdei se prolongando sobre a memória de uma cidade solar.
A terra devastada que herdei se estendendo sobre a espinha dorsal de uma cidade que
há muito decidiu dar de costas aos seus e olhar fixamente o mar.
A terra devastada sobre uma cidade devastada por arranha-céus sem sentido e sonhos de
aquários.
Era para ser só um passeio agradável e despretensioso.
Mas terminou sendo um pesadelo.
Sobre a fé enferrujando.
E sobre todas as coisas que não nos deixam esquecer que somos menos e habitamos o nada.
nuno g.
Toróró, 24/10/24.
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
sobre poemas & pesadelos
terça-feira, 22 de outubro de 2024
deus te dê água de batismo
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
fotografia de aniversário
Chamava-se Ricardo.
Aparecia todos os anos no meu aniversário.
Trazia uma máquina fotográfica e um sorriso desses que mostram os dentes.
Eu esquecia que meu pai estava morto.
Eu esquecia que todos ali o detestavam.
Eu esquecia que trazíamos o mesmo nome ferrado às testas.
E me entregava à fantasia que o fotógrafo era meu pai.
Acabava a festa e ele partia.
Brinquedos, roupas, doces e salgados.
E a memória de que ao menos uma vez ao ano o espelho refletia minha imagem.
nuno g.
Toróró, 21/10/24
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
à sombra da cicatriz em flor
O coração de Judite é azul de nascença. Bistecas à beira-mar sua distração favorita. Silêncio sua maneira de dizer coisas impossíveis de serem ditas. Quando Judite pronuncia carne, ferida, ventre, lua, semente ou sangue tudo desanuvia. Judite tem a idade da terra e seu sonho é um rio onde correm todos os rios do mundo. Às quintas Judite se faz flecha; certeira, feroz e precisa. Como quando canta. Como quando baila. Como quando se faz criança e vai limpando a sujeira que nossos passos desajeitados vão deixando para trás. Judite reverbera, ecoa, alenta paróquias crônicas e vagos desesperos. Judite ensina alheamentos, derivas e postergações necessárias. Seu nome significa sertão, seus olhos desgostam do mar e seu abraço abriga esperas.
nuno g.
Toróró, 17/10/24.
brejo das borboletas
Nasceu um abacaxi no terreiro. Meu avô me preparou por uma década para sua morte, me ensinou a segurar a alça do caixão, a empunhar a pá pra jogar areia sobre a madeira e a caminhar sozinho na escuridão. Era tudo o que a anja viria a me exigir anos depois: ensina sua filha a viver sem você. Amanheceu nublado. Turistas pululando na cidade. E meus olhos procurando destecer as vozes entremeadas no vazio. Vaga promessa de arco-íris pairando na atmosfera. Meu avô se foi enquanto eu dormia. Me deixou uma biblioteca que me salvou os dias de terror e precipícios, um ódio que me acompanha como cão fiel e essa serpente que me protege da covardia do mundo.
nuno g.
Toróró, 17/10/24.
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
ponte sobre Banabuiú.
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
brilhantes pedras finas.
sábado, 12 de outubro de 2024
soleira.
Atravancado, sem-jeito, desconexo: meio como quase brutamontes próximo aquele Hercules Quasímodo que existiu algum dia dentro da miopia de Euclides. Nome de pia: Hermenegildo. Montaria: cavalo. Idade: desconhecida. Lugar de nascença: indeterminado. Hermenegildo sempre está de passagem e nada seria como é se assim não fosse, pois são suas mãos de passarinho que descortinam as montanhas e abrem os horizontes, são suas mãos de peixes que abrem as águas e os caminhos que levam aos mundos ali existentes, são suas mãos de lâminas que fendem as rochas e nos ensinam subterrâneos. Agora mesmo desponta em sua montaria o Velho, ao mesmo tempo em que anuncia sua certeira desaparição. Hermenegildo aqui significa flecha. Também significa vento. Mas antes de tudo significa oração.
nuno g.
Toróró, 12/10/24.
quarta-feira, 9 de outubro de 2024
diga a eles que não me matem
Juan Rulfo
Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.
Mas quando cresci e o procurei me disseram que, como ele, estava morto.
Irremediavelmente morto.
Foi como ouvir alguma música para ouvidos nada delicados.
Ainda assim meus tímpanos estouraram.
Foi como se num átimo de segundo mergulhassem meu corpo nas fossas marianas.
Ou na dorsal atlântica.
A terra devastada pelas chamas e o meu corpo carbonizado junto.
Num átimo de segundo arrastado à sepultura de águas oceânicas.
(os azulejos azuis eram os únicos peixes possíveis)
(e o único pássaro que conseguia seguir a cantar era o Assum Preto)
(cego pela ignorância e pela maldade humana)
Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.
Mas os homens que o mataram sabiam que trazíamos o mesmo nome de pia.
nuno g.
Toróró, 09/10/24.
sob águas profundas ou sessão sem pássaros
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
tupinambá
às vezes é preciso regressar - sem culpas.
o vento moveu as folhas.
e a tarde se esticou no varal.
terça-feira, 24 de setembro de 2024
regresso à morada dos mortos
No quiero
Que mis muertos descansen en paz
Tienen la obligación
De estar presentes
Vivientes en cada flor que me robo
Stella Díaz Varín
uma vez mais entre os que cruzaram a fronteira do rio
seus olhares desfigurados, suas fraturas expostas, seus corpos em escombros
seus sorrisos atados ao laço como animais de estimação
e meus braços remando contra todos os ventos
apenas a memória machucada içada como bandeira de um barco pirata
e o ranger de dentes ecoando no coração da árvore chamada Tempo
uma vez mais entre os que cruzaram todas as fronteiras
imperturbável e sereno ante a tempestade impenetrável
buscando apenas um lugar de repouso e descanso
sem saber como ensinar alguém a amar o que é em si detestável
suas feridas expostas, cicatrizes indesejáveis e a sombra da lua sobre as águas
apenas a memória machucada alçada à condição de sina inevitável
uma vez mais entre os que habitam a casa onírica das centopeias e caracóis
apenas o rio, o vento e o sangue do sol banhando a nudez das estrelas...
nuno g.
Toróró, 24/09/24.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
infância
para Maria Alice,
Tínhamos um pé de maxixe e um cavalo chamado Tempestade.
Antes de nós ele havia se chamado Trovão.
Comíamos pirão uma ou duas vezes por semana.
E colhíamos goiabas na varanda.
Tínhamos uma rede alvinegra.
Um lugar onde acendíamos fogueira quase todos os dias.
Uma cadela chamada Paçoca.
E um céu cheio de estrelas pairando sobre nós.
Tínhamos um rio que dormia e acordava ante nossos olhos.
E uma pequena cobra coral de estimação.
Brincávamos com as palhas dos milhos juninos.
Fazendo toda a família do Visconde de Sabugosa.
Uma vez ao ano seu Toróró nos trazia jabuticabas colhidas no terreiro.
E líamos muito. Líamos livros e folhas de plantas.
Estávamos cercados por juremas.
Fomos alguma vez a Cordisburgo.
E a tantos outros lugares que parece que não fizemos outra coisa senão viajar.
Assávamos carne aos fins de semana.
Nos divertíamos no balneário da Pitanga.
Íamos à praia do Montecristo sempre.
E éramos vistos muitas vezes nas Cabaceiras do Paraguaçu.
Depois adotamos João e não pararam mais de nascer cães em nossa casa.
Ganhamos uma gata de nome Judite que sempre recebia visitas de um gato que chamamos Anônimo.
Judite passou três dias debaixo da cama.
Não saia nem para comer.
Até que decidiu ficar e nunca mais voltou para debaixo da cama.
Depois veio a Pina, o Garfield e o Dino.
Seguíamos comendo maxixes e sonhando.
Seguíamos comendo pirão e sonhando.
Até que veio Ian, a cigana e tudo o mais que já sabemos.
Até que veio Larissa, Assucena e todas essas janelas que se abriram.
Ontem teve eclipse.
Eliana cobriu-se por alguns instantes com o véu das sombras.
Fiquei olhando como quem olha um espelho maravilhoso.
E vi novos maxixes nascendo entre as orelhas de Tempestade.
E vi cada uma das mil chuvas viradas que enchiam nossa casa de água.
E vi você caminhando entre pedrinhas amarelas e galáxias desconhecidas.
Uma onça te guiava entre despenhadeiros e montanhas.
Fiquei olhando como quem olha uma caverna.
E vi você ninando Assucena com as histórias do jaguar encantado.
Depois veio a Cristalina, o Come-e-Dorme e o Waldick.
Depois veio o Calabouço, o Álbum de família e o Dicionário.
E pouco antes do sol nascer essa infância foi se encarnando em letras azuis no papel.
nuno g.
Toróró, 18/09/24
cegueira
em terra de olhos turvos e neblina tóxica a cegueira reina
israelenses cegam libaneses com bipes que explodem
associações de cegos se revoltam contra a lucidez de Saramago
candidatos cegos insistem em convencer pessoas cegas a votar cegamente
o país arde em chamas criminosas e a fumaça nos cega
pastores cegos guiam rebanhos cegos ao inferno
hiperbolicamente antenados com a enfermidade que nos extingue
que em nós se extingue
e que nos impede ver como sair como entramos como sobrevivemos
neste tempo em que escatologia e história se fundem
como o zinco ao zinco
como o sinistro ao sinistro
como a ausência à ausência e à Ausência
em terra de cegos os eclipses passam quase desapercebidos
como nossas sombras ao atravessar a rua
ou como aquela bigorna de esquecimento que já não nos permite recordar
as centenas que ficaram cegas nas protestas chilenas
ou os libaneses de ontem que já começam a ser apenas um esquecimento mais
o que poderá nossa imaginação a partir dessas ruínas?
assim pixado no muro de Cachoeira
ao lado, escrito em tinta que não se vê,
: em terra de...
nuno g.
Toróró, 18/09/24
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
quando voltará a chover dendê sobre nossos passos
aqui a Serpente
quinta-feira, 12 de setembro de 2024
quinta-feira
Atirei mil flechas contra o sol.
O meu ódio é sagrado e reluzente.
Aprendi isso arrastando meus joelhos por léguas e léguas de solo pedregoso.
Derramei mil lágrimas no vazio da taça.
E vi a noite despencar sobre as ilusões humanas.
Servi feijão aos três irmãos.
E adorei o sol, a lua e as estrelas.
Adorei o rio, as onças e as borboletas.
Estendi no varal do horizonte o manto do Obscuro.
Entoei cânticos de sacrifício enquanto pensava em Gary Snyder em sua cabana no além.
Vivo numa época estúpida.
Cercado por ideias estúpidas nascidas de mentes estúpidas.
Devoro a estupidez da atmosfera como Alcides devorava as flores de aniversário.
Atirei mil sóis contra a primavera.
Inferno é uma singela palavra que me habituei a pronunciar com delicadeza.
O amor é sagrado e reluzente.
Como as areias de Tempo que escorrem entre meus dedos e cílios.
Assucena desayuna batata, ovo, cenoura e uvas.
Teresa vê tão longe que não alcanço.
Rude e violenta é essa obstinada tentativa de nos vender a felicidade a qualquer custo.
Alice dorme.
Larissa dorme.
Hermenegildo e o Velho cruzam a estrada de mãos dadas.
A estrada é sagrada e reluzente.
O choro de Assucena é sagrado e reluzente.
O sono de Alice é sagrado e reluzente.
O leite de Larissa é sagrado e reluzente.
O mundo é opaco, a mata é sombria.
O Ferreiro selvagem é iluminado e poderoso.
Roxo é muito mais que uma simples cor.
Toco a lama sagrada e reluzente em busca de fósseis preciosos.
E atiro minha última flecha contra o horizonte.
Em direção às águas, à palha e à voracidade de tudo que nos consome.
nuno g.
Toróró, 15 de agosto de 2024.
terça-feira, 13 de agosto de 2024
edifício Grão-Pará (sonho noir)
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
Ciranda de hoje, texto lido por Ayla Andrade no lançamento do Dicionário dos medos imaginários: morfemas.
O tempo é a melhor testemunha do quanto se vive.
Uma ciranda que roda, circulando mão a mão, na roda do tempo, enquanto se olha o céu.
Penso que vivo pouco e devagar. Olho pouco para trás. Mas é quando olho para o lado que vejo quantas mãos me seguram nessa ciranda.
Porque o tempo não para, e por vezes acelera ou recua, e é onde a ciranda se embaralha, algumas mãos se soltam, a gente tropeça e precisa depois correr, braço estendido, tentando alcançar o perdido.
A ciranda é potente e ciclicamente retorna ao ponto inicial. Suspeito que serve para recuperar o fôlego, sorrir de volta, ajeitar a coluna e... alcançar o perdido.
Nessa ciranda o tempo marca o tom, o compasso, o recomeço e por vezes, o fim. Por mais que nunca estejamos preparados ou desejosos do fim.
Mas rodando com a ciranda certa, mão a mão, com chuva ou sol, amor e um pouco de raiva, a gente chega ao fim, sorrindo.
Rodando cheguei até aqui. E quando olho para lado, ciranda que a vida me deu, vejo que o tempo me foi generoso: mão a mão, os amigos rodam comigo enquanto ainda olhamos o céu.
Ayla Andrade.
https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios?igsh=eHZma2FiYmxuZnRo
domingo, 11 de agosto de 2024
cemitério bizantino II
roupas estendidas no varal
e ainda essa sensação
de despertencer ao reino onde desperto
nuno g
11/08/24
sábado, 10 de agosto de 2024
cemitério bizantino
sonhei com uma fotografia de damário da cruz
meias sujas espalhadas no quintal
e a certeza de que não pertenço ao reino onde desperto
nuno g.
toróró, 10/08/24
quarta-feira, 7 de agosto de 2024
ante o Insondável
para Adélia Prado,
meus joelhos seguem sangrando de tanto chão
em trevas me reconheço e ouço as cem mil vozes que me habitam
relâmpagos e trovoadas me acendem e me estilhaçam
em cem mil vagalumes
estamos mergulhados na história, ou seja, no terror absoluto
atravessamos os tempos em que nossos corpos se fizeram vidro
fomos atravessados pelos tempos em que nossos corpos se fizeram metal
o homem da mão seca ainda acaricia meus cabelos
e sorri quando vejo meu avô quase-pássaro ousar o abandono do abismo
o homem da mão seca ainda me seca as lágrimas
quando recolho o sangue de minha mãe na calçada suja da Conde da Boa Vista
o homem da mão seca ainda tece curativo nos meus joelhos
quando desperto em Belém em meio ao tiroteio que matou meu pai
e penso: eles sabiam que ele era meu pai
meus joelhos seguem sangrando de tanto chão
na mata sombria reacendo minha devoção
e aprendo com o ferreiro a forjar silêncios
cem mil vagalumes me guiam
cem mil vozes me habitam
em cada poema respira uma breve e delicada oração
nuno g.
Toróró, 07 de agosto de 2024.
domingo, 4 de agosto de 2024
Afogados
a vida é uma besta selvagem.
Stella Díaz Varín
Não culpem o mar nem os pés.
Ainda menos as sereias e seus cânticos devocionais.
Não culpem o verde nem o sal.
Ainda menos as espumas brancas e cintilantes.
Não culpem o fogo nem a madeira.
Ainda menos o crepitar dos ossos ou o estalar das vertigens.
Apenas deixem que seus passos os conduzam ao inevitável afogar-se.
nuno g.
Toróró, 04 de agosto de 2024.
sexta-feira, 2 de agosto de 2024
Aparecida
Ela nunca esteve entre nós.
Talvez por isso podia falar de Eliana antes da queda.
De suas coxas brancas, seus êxtases e suas manhas.
Carregou o estigma da adoção como quem carrega um daimon de aço.
E o nome da santa indígena saída das águas de um rio.
Ela nunca esteve mesmo entre nós.
Não lhe reservaram convite nem lugar à mesa.
Talvez por isso podia passear com seus cães pela cidade.
O estigma sempre arrastado à coleira.
E pouca razão à ferocidade.
A lei do luto lhe levou à metrópole.
Casou. Enviuvou. Cruzou a fronteira da península.
E desapareceu numa Espanha de touros e esquecimentos.
nuno g.
Toróró, 03 de agosto de 2024.
domingo, 14 de julho de 2024
Devoção II
para Lou Reed & Nico,
O médico cubano me ligou ainda cedo.
Tardei a identificá-lo.
Me disse que tem três filhas.
Que vai vir à uma obrigação de terreiro.
E que muito deseja me rever.
Assucena comeu brócolis com banana.
A vida é um pesadelo com infinitos labirintos dentro.
Anos atrás Alice fez birra grande.
A praça da Sé de Avalon lotada.
Mestre Aldenir e seu reisado.
Se jogou no chão.
Gritou. Chorou. Esperneou.
Em nada parecia a Alice que eu conhecia.
Decidi seguir como se nada.
Cerveja. Dança. Alegria dos Mateus à praça.
No outro dia ela com calma disse:
Pai, sabe por que eu fiz birra ontem?
Nem ideia.
Pra você não esquecer que eu sou criança.
As mãos de Benício juntas às mãos da lua entre as nuvens.
Três onças seguindo Hermenegildo em sua montaria.
A garota do São Judas dormindo quase em paz.
O médico cubano me arrancou do pesadelo.
A vida é um labirinto com infinitos pesadelos dentro.
Voltei a fumar como antes.
O excesso de nicotina provoca um êxtase suave e delicado.
Talvez algum dia eu narre ao médico cubano.
Algo sobre em terreiros florescerem estrelas suicidadas.
nuno g.
Toróró, 14 de julho de 2024.
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Devoção
para Patti Smith,
Voltei a tomar café como antes.
O excesso de amargo provoca o mais adorável dos transes.
Come-e-Dorme morreu.
João morreu.
Carminha morreu.
Construíram um bairro inteiro sobre a lagoa da Catumbela.
Nele, um posto de saúde com a bela vista do que sobrou de águas e carnaúbas e garças.
Assucena ali tomou mais uma vacina.
Fiquei olhando os tapuias dançando sobre as casas.
Os ventos de agosto chegaram.
Vejo cavalos em disparada pelas calçadas do Benfica.
E a dama da noite recordando quando ali tudo era chácaras de fim de semana.
Depois de amanhã Alice chega.
Depois de amanhã é uma medida de tempo semelhante à das cem mil duzentas xícaras de café.
Sonhei com Adélia incendiando o pasto do Liu.
Finalmente tomava coragem.
Arranquei o carro e fui até a rua Ceará em Divinópolis.
Toquei na porta e ela abriu.
Lhe entreguei o Álbum de família e o Dicionário dos medos imaginários.
Ela leu num relampejo.
Olhou nos meus olhos e disparou: reze.
Despertei com o coração aos galopes.
Recordando todas as vezes que desisti de incluir Divinópolis na minha rota.
Temor de não ser digno de me apresentar onde deus fez morada.
Notícias trazidas pelo vento Aracati:
Um enxame de abelhas atacou ferozmente os dois habitantes da calçada de meu bisavô.
Um foi a óbito, outro se recupera no hospital.
Saudades da Dellany, memórias daquela despedida no Bixopá.
As aulas regressam lentamente, como os caracóis que perseguem a palavra.
Só na tragédia a lua realiza seu destino.
Existem histórias que nunca poderei narrar.
À primeira noite em São Bernardo das Éguas Russas sonhei que estava na Lagoa do Mato.
Dentro do verde e salgado mar do litoral leste.
Pari duas luas.
Peço permissão aos deuses para a história deste sonho narrar.
Palavras para descrever as falésias, as jangadas e aquele vazio de quando as ondas recuam.
Chico, em belas fotos com Claudio.
O Dono de Todas as Matas protegendo os dois.
Assucena brincando no parquinho reluzente do bairro Granjeiro.
Tia Neuza insistindo em botar cadeira na calçada.
Nenhum temor à morte.
Nenhum temor às italianas e ferozes abelhas.
Apenas o rio apagando suas últimas memórias.
E uma nova e estranha lucidez apontando no horizonte.
Segunda chega e domingo não.
Às quatro da manhã despertei com o cheiro das palavras de Adélia à chuva.
Come-e-Dorme foi submetido à eutanásia.
João livrou-se da corda para morrer em liberdade.
Larissa costura, costura e costura.
Tece as linhas do leite e da razão no tear onde se gestam estrelas.
Na minha mesa de trabalho repousa O viajante da solidão.
Dedicado de punho à Eliana Gonçalves no ano de 1969:
a Eliana
cordial homenagem
Artur Eduardo Benevides
Insistimos em saber o que fez Larissa chorar.
Não pudemos esquecer nem recordar.
Existe um deus asmático e sonâmbulo que me visita certas sextas-feiras.
Vem sempre acompanhado do meu tio Joãozito.
João Ferreira Lima, de pia.
Carteiro como Charles Bukowski.
Assucena desperta e chora.
Alice me chama e eu vou.
Um dia volto pra narrar a história do sonho das duas luas.
A mãe de umbigo de Assucena à porteira: ô de casa!
Larissa interrompe a tessitura e me chama: vem ver isso!
Desadormeço e avisto a filha do João à porteira.
Em tudo igual ao pai.
Ela olha pra corda abandonada no terreiro.
Pro cantinho vazio onde ele viveu seu destino.
E se vai.
Sem olhar para trás.
Sem saber que nunca mais seremos os mesmos de antes.
nuno g.
Toróró, 12 de julho de 2024.
sábado, 11 de maio de 2024
Alzira
para André Dias,
Amanheceu chovendo.
Em cada gota d'água uma estrada para o infinito.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Avançando entre os escombros de Gaza e a cegueira da classe média.
Amanheceu chovendo.
Em cada gota d'água uma estrada para o Nada.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Avançando entre montanhas e montanhas de cansaço.
Amanheceu chovendo.
Acender uma vela ou encher o filtro.
Enfiar as mãos no barro como se houvesse algum futuro depois da estupidez.
Tamarindos, acerolas e umbus-cajás.
Amanheceu chovendo.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Alzira olha Tempo.
Hermenegildo cruza as nuvens.
Um pássaro sobrevoa o rio onde a morte se fez esquecimento e náusea passageira.
Amanheceu chovendo.
Ouço os sussurros de Adélia.
Ouço os cânticos de Alcides.
Tudo é feitiço sobre a terra.
Tudo é encantamento e evaporação.
Alzira olha as vestes de Tempo.
Hermenegildo toca a nudez da estrela.
O mundo semeia novas tempestades.
E todos os automóveis verdes dos meus sonhos avançam sobre as flores nascidas na pedra.
nuno g.
Toróró, 11 de maio de 2024.
sexta-feira, 10 de maio de 2024
haiku de outubro
Assucena comeu uma borboleta,
só conseguimos salvar uma asa:
a miração do monge dissipou o horizonte.
toróró, 10 de maio de 2024.
a eternidade dos campos-santos ou a lucidez que reluz na lâmina do pessimismo
É que o cemitério de que lhes falo, respondia Pereda, é a cópia fiel da eternidade.
Roberto Bolaño
Estivemos em Cruz das Almas.
Passava das seis e, inevitávelmente, recordei que toda Cruz das Almas foi lugar de reza.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de bebedeira.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de descanso.
Que toda Cruz das Almas é lugar de passagem.
Compramos Kombucha: dez litros.
Incensos, um par de roupas e empadas.
A porta do cemitério estava batida.
Acendi a vela ali mesmo, ao pé do muro branco.
E deixei os doces ao tempo.
Talvez chovesse de madrugada e apagasse a vela.
Talvez chovesse e dificultasse o trabalho das formigas.
Passava das seis.
Regressamos.
Ao ponto zero da experiência.
Mas agora tínhamos uma raquete de matar muriçocas.
Passava da meia-noite quando a chuva chegou.
Sonhei que, finalmente, estava na ilha caribeña.
Nada no sonho recordava a revolução.
E tudo parecia tão perdido quanto todos aqui.
Assucena comeu chuchu, sem convicção.
Come-e-Dorme, em agonia, segue sua guerra pela vida.
Estive em Cruz das Almas.
A vela segue no mesmo lugar.
Os doces também.
Tem sempre uma estrada aguardando nossos mais primitivos abandonos.
nuno g.
Toróró, 10 de maio de 2024.
quarta-feira, 8 de maio de 2024
O livro dos pequenos estremecimentos ou a trajetória da flecha em chamas
para Larissa, Alice & Assucena,
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
nada é em vão sob o sol,
essas mãos que pousam sobre o ventre da terra machucada
encharcadas de lama roxa e luz arcaica
são as mesmas mãos que nos guiaram quando andávamos pelas entranhas da terra.
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
onde antes olhos, agora sóis
essas estrelas que nos guiam
são as mesmas estrelas que nos guiaram à sombra da distração.
Assucena sonha com uma borboleta - tudo arde, nada é em vão.
Essas mãos convidam à ceia - o pão da terra é amargo.
Essas mãos convidam ao sono - quem teme o próprio medo não deve seguir.
Essas mãos convidam a passear por ruínas e escombros:
na cidade da imaginação tudo está sempre aceso.
Não existe vida fora do risco.
Não existe vida além da poesia.
Não existe vela que arda sem intenção.
Essa Senhora que nos deu a vida nos conceda agora e sempre memória.
Assucena sonha com todas as cores nesta tarde.
Um vento fresco corre pela casa.
Haverá sempre um porto à nossa espera.
nuno g.
Toróró, 08 de maio de 2024.
o mistério das pequenas doenças ou quando a carne do Sonho sangra
terça-feira, 23 de abril de 2024
dono das matas
Não sei onde anda a cigana de Araci.
Nem aquela outra que me falou da morte de Ian.
Menos ainda dessa terceira que me vendeu a figa de Assucena.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Ela me levou até um açude onde vi meu rosto refletido com precisão.
Foi tecendo minhas rugas por toda a noite.
Enquanto meu envelhecimento se fazia evidente.
Certa tristeza muito antiga pairava na atmosfera.
Certo descontentamento muito intenso rugia no campanário.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Senti medo, muito medo.
Senti frio, muito frio.
Despertei em meio à neblina.
Trazia um anel de prata no dedo.
E dóis sóis onde antes olhos.
A filha da Serpente ao meu lado.
O filho do Ferreiro e a suave memória de um sonho antigo.
Que não posso narrar.
Que não tenho permissão de narrar.
Não sei por onde andam as três ciganas.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Outra vez até o noturno açude onde se refletia meu rosto.
E o tapete tecido com minhas rugas.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Vento frio ao amanhecer.
Mais que medo, angústia e algo de desespero.
Neblina e uma pedra no coração.
Anel de prata no dedo.
A filha da Serpente // O filho do Ferreiro.
A canoa subindo lentamente o rio.
O velho, o elefante e todas as minhas esperanças junto a eles.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre as águas.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre a cidade de espinhos e estrondos.
Uma senhora vestindo roxo abriu as mãos.
Havia sal e lama entre as linhas de suas palmas.
Um breu branco se instalou no tempo.
Hermenegildo passou trotando em seu cavalo.
Erguendo a poeira do chão.
E abrindo caminho para a chegada da lua de Wesak.
Forjada nas matas sombrias com a luz do ferro e a espada da compaixão.
nuno g.
Toróró, 23 de abril de 2024.
sábado, 20 de abril de 2024
eclipse
às vezes o silêncio grita
e tem sempre muito amor no silêncio
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os temores não-imaginários
às vezes o geólogo treme ante as camadas de terra entranhadas em seu corpo
e tem sempre muito amor em toda terra
às vezes a memória arde
e tem sempre muito amor no arder da memória
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os afetos não-imaginários
tem sempre muito amor em tudo que é amargo
ante às águas e o brilho
tocam meus joelhos os subterrâneos de mil faces
e reflete em suas lâminas os labirintos estreitos de onde venho
as montanhas de cansaço cansaço e mais cansaço
e sim, tem sempre muito amor no cansaço
tem sempre muito amor na distância
tudo que é vago atrai quem já não mais tem outro medo além dos imaginários
nuno g.
Toróró, 20 de abril de 2024.
terça-feira, 19 de março de 2024
A morte do xilógrafo & outros sonhos
Subíamos a serra de Guraramiranga
Eu, Claudio e o velho pajé do seminário
Havia muito verde e muita água
Umas poças de argila branca
Conversávamos sobre a morte de Bitú ou de Adriano ou de Walderedo
Amássavamos a argila branca entre as mãos
E seguíamos subindo a serra
Estávamos na Terra do Gelo
Eu, Alice, Larissa e Assucena
O automóvel atolava na neve
E nós ficávamos conversando sobre o nosso medo que as meninas congelassem
Apesar do temor ou talvez por ele
Seguíamos bem
O Mensageiro o enviou
Trouxe uma tapioca do Aquiraz
Duas mudas de lírios
E um exemplar digital do segredo da flor de ouro debaixo do sovaco
A terça-feira amanheceu alaranjada
nuno g.
Toróró, 18/19 de março de 2024.
domingo, 17 de março de 2024
Uma vela para minha vó
para Maria Zilá Lima Gonçalves
minhas mãos
trêmulas desde antes da criação do mundo
úmidas como úmida a madrugada de minha infância
te ofertam essas duas flores encarnadas como carvão em brasa
minhas mãos
unhas sempre ruídas
palmas riscadas por pequenos relâmpagos
te apresentam essas duas flores que a seu pedido foram nomeadas marias
minhas filhas
seus nomes são memória de que a carne é estremecimento e devoção
seus nomes são memória de que ainda em sonhos sua bisavó seguia em oração
seus nomes são memória que uma serpente rasteja ainda no chão de meu coração
minha vó
o caminho da novena era mais estreito e comprido que eu imaginava
o caminho da novena era mais cheio de curvas e insensatezes que meus delírios
o caminho da novena, minha eterna febre enlaçada em suas rugosas mãos de serenidade
a paz está sempre em algum lugar onde nunca se chega
a paz está sempre fora do alcance das mãos
a paz é um pássaro do passado que os ornitólogos nomearam amanhã
nuno g.
Toróró, 17 de março de 2023.
quarta-feira, 13 de março de 2024
oração ao rés do chão.
ao Senhor dos Cemitérios,
aos Erês que O acompanham,
Assucena brincando na casa da árvore.
As bananeiras, o abacateiro e a mangueira.
Do outro lado da cerca, a árvore das lagartas cortada por ordem do Almirante.
A terra chora sempre que uma árvore é cortada.
Larissa sobe os degraus com alegria.
Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.
Os fogos amanhecem a cidade heróica.
Com suas ruínas exuberantes.
E as cicatrizes do desleixo português por todos os cantos.
Com seus mistérios e mistérios e mistérios.
Assucena brincando na casa da árvore.
Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.
Vaga recordação de um sonho em que Paçoca vomitava borboletas amarelas.
Presságio emoldurado à madeira.
O canto de Alice cruzando o horizonte como um gavião.
Capim-santo. Sorriso no rosto de Lari.
Take it easy my sister Lari.
A terra sorri sempre que se semeia uma árvore.
Yãkoana, Yagé e o caminho dos Sonhos Lúcidos.
Antes do despertar é necessário atravessar muitas vezes o mesmo lugar.
Antes de seguir adiante é necessário revisitar muitas vezes o mesmo chão.
Antes de abandonar todos os medos é necesário sonhar outra vez os sonhos de antes.
Do outro lado da serra, sorri aquele que não ouso pronunciar o nome.
nuno g.
Toróró, 13 de março de 2024.
terça-feira, 12 de março de 2024
da ponta do iceberg ao coração das águas
Assucena me despertou e meu sonho se esvaiu ao entreabrir dos olhos.
As asas da Esperança sempre me roçando suavemente o corpo.
As exigências do destino. As obrigações do karma.
A amorosa luz de seguir caminhando entre a resignação e a revolta.
Alice tão longe e tão perto. As cobranças e as encruzilhadas.
Dentro de mim as camadas e camadas de cinzas e o fogo de Tempo.
E a árvore de Tempo. E as sementes de Tempo.
E a boca faminta da Morte ao calcanhar.
Já não há mais dúvidas:
pertenço a uma geração que legará um mundo pior que o herdado.
Ainda nisto encontrar uma pedra ou nuvem para firmar a delicadeza.
Aprender com algum inseto sobre essa habilidade da natureza.
Que destrói o que lhe serve de insrumento à materialização de algo.
Hoje é terça e terça nunca é um dia qualquer desde que escutei a voz do silêncio.
Povo das águas - recebei entre seus fios de cabelos o rogo dos povos de Ar.
O cansaço se avoluma sobre a montanha de cansaços.
Certa ternura se agiganta no redemoinho de tristezas que preenche a tarde.
Ouço o eco de sonoridades muito antigas.
Caminho por paisagens que já não existem mais.
E me agarro com força ao porvir.
Já não há mais dúvidas:
confiar na áridez e desaprender tudo que nos ensinaram.
Pouco convém determinadas insistências.
Existem respostas e medicamentos que se resumem a prolongar sofrimentos.
A sobrevivência só guarda serventia quando tática.
Sábado entregarei minhas últimas arrogâncias e o que restou da verdade.
Depois de amanhã terei atravessado mais uma quaresma.
Entre mel, gafanhotos e sangue.
Jordânia significa descendência.
Ou o rio onde os órfãos podem reconhecer seus antepassados.
Depois da quaresma terei me atravessado mais uma vez.
Sem ter me tornado um com o abismo que me olha desde antes de meu nascer.
Sem ter me enforcado com a corda que ante meus olhos propõe: desata-me.
Depois de amanhã a quaresma terá me atravessado mais uma vez.
Descêndencia significa rio que corre em direção contrária.
Ou oceano que engole praias e montanhas.
Assucena me despertou e todo o sonho se dissolveu.
Restou apenas a bonita imagem de Paçoca, a cadela,
devorando borboletas amarelas no alpendre da casa do Almirante.
nuno g.
Toróró, 12 de março de 2024.
sexta-feira, 8 de março de 2024
haiku
a vaca mugiu no pasto do Lio
uma borboleta pousou sobre uma flor
um arco-irís serpenteou o céu
nuno g.
toróró, 08 de março de 2024.
sexta-feira, 1 de março de 2024
O cobrador e a encruzilhada.
Sorrateiro. Disfarçado. Artimanhoso e corroído.
Ele sempre vem e cobra.
Eu só peço a meu pai: gira-me, uma vez mais e sempre.
Deixa Ele falar. Deixa passar. Deixa o Azul sombrear seus golpes.
Eu só peço a meu pai: gira-me e conserva minha devoção.
Ele sempre vem e cobra.
Ainda depois da dívida ele olha e espuma.
Eu só peço a meu pai: gira-me e me conserva.
Balança. Balança. E balança uma vez mais.
E sempre.
Ele julga e passa. Ele fere e segue. Ele abre a janela esquerda e
Eles vêm em socorro.
Estendem a mão, sorriem e dizem sim.
Eles sempre vêm.
Giram-me e cuidam. Giram-me e guardam. Giram-me e abrigam.
O Azul soterra os golpes.
O Amarelo apascenta o ódio que O move.
Eles vêm da esquerda e me giram.
A balança do julgamento.
O balanço das águas do mar.
Firmeza. Lucidez. E a certeza de que por trás Dele existem coisas que não podem ser ditas.
O disfarce não suporta a alegria.
Artimanhoso e corroído ele recua ante Os que fazem a ronda.
Ante Os que seguem de guarda.
Não existe pureza sem mácula.
Só a da Rainha Soberana que Reina na imensidão da Floresta.
Não existe mácula sem pureza.
Só a do cobrador, cego em seu trono de fezes e morte.
Eu só peço à minha mãe: gira-me e guia.
Onde eu for escuro seja lua cheia.
E não permita esquecer que no princípio tudo era firmeza, disciplina e alegria.
E no final também.
O enforcado, o julgamento e o Archanjo.
Aos pés da Rainha Soberana da Floresta.
Eu só peço à minha mãe: gira-me e não permita o esquecimento.
Eu só peço à minha mãe: seja a lua cheia que me guia.
A estrela onde ancoro meus pensamentos.
A vibração da firmeza com que mais de uma vez atravessei os caminhos do inferno.
E este fio de luz que sustenta a pulsação de meu coração.
Amém.
nuno g.
Toróró, 13/12/21
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024
O arco, a serpente e a luz que atravessou a pedra II
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024
O arco, a serpente e a luz que atravessou a pedra
Se soubesse de onde eu vim, não me sorria
(...)
Agora que sabe, tem medo de mim
Mas no seu lugar, eu também teria
Mc Tha & Jaloo
A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do ar.
Demasiada neblina ao amanhecer.
No rosto de Claudinha a violência que se confunde com a esperança.
A doce verdade nos lábios e o que é justo aqui: gritando e gemendo neste vale de lágrimas.
Come-e-Dorme com grave ferimento no olho.
Lari pinga o colírio e reza.
Que o vento leve hoje todo o ontem e algo do amanhã.
A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do mar.
Na montanha mais alta a morte e os vaga-lumes dançam e brincam com a neve.
Tempo trabalha, corta a carne e as artérias de um corpo que grita e geme.
A voz de Milton inunda a casa.
Assucena quase chora.
Luís semeia a lua amarela e sorridente.
Que o vento corra daqui esse sentimento ruim e sádico.
Que o vento corra daqui essa insanidade masoquista.
Que o vento traga outra vez o sol, a lua e as estrelas.
Tudo cheira à água de eucalipto.
Na montanha mais alta me inclino ao recordar tia Tânia.
Sua alegria, sua energia e seu amor ao dizer à Alice:
A tia vai ficar boa pra brincar com você.
Bastou isso para fixar agradável memória entre pontes e pontes.
E águas de rios correndo entre prédios e prédios e teias de asfalto.
A verdade nos lábios e as saudáveis maneiras de machucar alguém.
Havia muitas cercas de arame farpado.
Mas a morte e os vaga-lumes sempre terminam por cruzar qualquer cerca.
Os olhos de tia Tânia nos olhos de Alice.
Os olhos de tia Helma nos olhos de Alice.
A doce e violenta verdade nos lábios.
A doce e delicada e violenta verdade nos lábios.
O som das tanajuras caindo dos céus.
O som dos passos desta senhora que chamamos Morte.
O vento tangendo pensamentos.
O vento tangendo sentimentos.
O vento tangendo resquícios de um sonho incompreensível.
Na casa de um amigo de infância.
Meu único amigo ali era a casa.
Cheia de rachaduras e infiltrações.
Como meu próprio corpo desabando no corpo do abismo.
Tempo trabalha na longa longa duração.
O sol, a lua e as estrelas giram.
Lari reza e pinga o colírio.
Lavo os olhos com mel.
Três vezes choro no túmulo de Ian.
Recordo tio Edson ao olhar as nuvens.
Gabi me ensina sobre o ódio e sobre a necessidade de estar aqui.
Ainda que aqui seja uma casa cheia de rachaduras e infiltrações.
É a única que tenho. É o corpo que sou. É o lugar onde habito.
E a estrela que me habita ainda não morreu.
E a lua que me habita ainda possui suficiente ternura.
E o sol que me habita lança serpentes de fogo
que acendem a pedra delicada onde repousa minha dor...
nuno g.
Toróró, 22/02/24.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Içá
Isso é um içá!?
Sim - e lembrei do sítio do pica-pau amarelo entre as cidades mortas.
Hoje caíram tanajuras, não chove - me disse uma velha na fisioterapia; choveu.
Sonhei com a montanha mais alta do mundo.
Só a morte e os vaga-lumes sobreviviam ali.
Quando eu era menina catava içás para minha vó fazer farofa - mas eu não comia.
Depois que a velha falou, uma jovem comentou o mesmo, mas havia nojo em sua voz.
De tudo que Bruno me falou retive a imagem poética do guerreiro que corta o ar com sua espada.
A inutilidade do gesto o torna ainda mais poético.
Em tudo que Gabi me falou havia uma certa sabedoria prática e um amor ao outro que me é estranho.
Impossível não recordar São Francisco de Assis.
Ou certo saber que nos diz que amadurecer é se deixar de lado.
Que gosto terá bunda de tanajura?
No alto dessa montanha do sonho havia um descampado inabitável.
Só a morte e os vaga-lumes se faziam presentes.
Os infortúnios do corpo e da alma são mensageiros de algo.
Só o difícil interessa. Só o amargo desmemoriza.
As coisas que eu gostaria de esquecer nunca serão esquecidas.
Encontro Don Juan onde menos espero.
Em um livro de psicanálise sobre a solidão.
A voz de Lucas invade minha sala com um convite.
As coisas que recordo agora não são da ordem do que pode ser dito.
Alice está longe e está próxima.
Havia nenhuma outra luz na montanha além da dos vaga-lumes.
Lari volta a sangrar.
Será que as mulheres são ainda mais fascinantes por sangrarem sem morrer?
Thiago de Mello: faz escuro, mas eu sonho.
E sonhar é uma benção.
Ainda quando se perdeu toda uma infância entre pesadelos.
O que eu não terminei de te contar Gabi é que sim houve um tempo em que eu temia a morte.
Temia tanto que evitava dormir, pois todas as noites ela me perseguia em sonhos terríveis.
Isso durou anos - bem mais de uma década.
E nisso vi escoar pelo ralo um tempo precioso da vida.
Depois perdi o medo e, junto com ele, perdi também o amor a esse mundo aqui.
No deserto entendi que os derrotados são sempre os que temem a morte.
Meu avô me repetia algumas coisas todos os dias.
Que ele morreria antes de mim e que eu deveria enterrá-lo e seguir.
Que ele gostaria que isso ocorresse depois dos meus quinze anos.
Que não seria natural ele presenciar minha morte pois isso seria uma perversão da lei natural.
O hálito de álcool não turvava suas palavras.
Nem tudo ocorreu como ele gostaria.
Minha infância terminou quando ele morreu.
Minha solidão é sagrada - e todas as vezes que desacreditei nisso me fodi.
A imagem que retive das falas do Bruno se desdobra à minha frente.
Um guerreiro irado corta o ar com a lâmina afiada de sua espada.
O gesto é ainda mais poético por ser de todo inútil.
O vaticínio da velha estava errado, choveu.
As bundas das tanajuras sabem à proteína pura.
Aquela montanha mais alta do mundo é o México onde está enterrado a placenta de Alice.
Só a morte e os vaga-lumes parecem ter força de chegar lá outra vez.
Desde o nascimento de Assucena duvido de minha carcaça.
A dor me tirou da estrada. E essa dor se alojou em minha alma.
Sempre fui triste e a alegria sempre me pareceu fútil.
Hoje gostaria de ouvir apenas o silêncio.
A voz da morte. A chuva de tanajuras.
E a melancolica e frágil luminosidade dos vaga-lumes.
nuno g.
Toróró, 21 de fevereiro de 2024.