Tudo em Rebeca é suave fúria. Sua aversão ao mar e a tudo que saiba a sal e espuma. Tudo em Rebeca é aproximação e espanto e, consequentemente, fatídica memória do dia em que meus pés afundaram nas várzeas de piçarra. Quando animal é onça e metamorfose regida por intuição e sinestesia. Rebeca sobreviveu. Rebeca sobreviveu. Rebeca traz cílios e mãos de quem sobreviveu. Rebeca traz cabelos que não param de crescer e unhas afiadas como garras de gavião selvagem. Rebeca me sonha e sonha um mundo impossível de existir. Nesse mundo não há diferença entre crianças e estrelas. Neste mundo não há espaço, brecha ou distância entre a música das esferas e a delicadeza de nossos ouvidos. Rebeca, onça e cabra a um só tempo. Fêmea e espelho onde se reflete toda a história do esquecimento. Rebeca, azul como o céu de Iguatu. Vermelha como a piçarra das várzeas do baixo Jaguaribe. Verde como o frágil esqueleto da ilha onde reina a Rainha do Ignoto. Rebeca, a que cativa os homens e os bichos e as plantas. Rebeca, a que tem raízes fincadas no útero da pedra. Tudo em Rebeca é fúria e suavidade. Sua solidão nos protege de nossas próprias sombras e na umidade de seu hálito flores roxas parecem borrar as inúteis fronteiras que nos impedem de caminhar para além da miserável redoma onde tudo é silêncio, exílio e condenação.
nuno g.
Toróró, 19 de novembro de 2024.
massa, Nuno!
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