Não sei se me contaram.
Não sei se inventei.
Não sei se suou pelas paredes do casarão de cera.
Ou se gotejou pela cumeeira de carnaúba.
Mas recordo ter sido esse balanço presente de meu pai.
Como o ferrorama e a bicicleta.
Ainda que soe como clichê modernista.
Esse balanço foi meu primeiro mar.
Assombrado por um fértil pé de seriguela.
Serviu de espaço de navegação de cabotagem.
Incursões piratas & outros mareios.
Quando ela me disse a família está no fundo do céu não sabia que eu estivera no cemitério.
Certamente falava de uma posição específica dos astros.
Mas o rio refletiu apenas a ausência e a rachadura na fotografia da lápide.
Sonhos bonitos são aqueles que são mais que sonhos bonitos.
E que escorrem entre as pedras quando os açudes sangram.
Sim, aqui açudes sangram.
E chove, ao contrário do que vocês veem na TV, no cinema e nas exposições de arte.
O Araibu voltou a correr.
Devagar e com timidez, mas correndo.
No quintal da casa da minha avó não tem mais nenhum balanço.
E Oliziana me garantiu que esse ano a praga da mosca não deixou as seriguelas amadurecerem.
Enquanto escutava a leitura atenta dos meus trânsitos astrológicos.
Entendia suave e lentamente que o mar que habita no rio tem duas faces extremas:
A do ancião e a do infante. Ela repetiu:
A família está no fundo do céu e já não era mais possível negar.
Um balanço no sertão é minha primeira e última memória do mar.
nuno g.
São Bernardo das Éguas Russas, 07 de maio de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário