sábado, 2 de maio de 2026

Sonhos

Sonhei com águas & sangue entre túmulos & velas.

Enquanto via o Amarelo nascer sem susto entre Ibó e Salgueiro.

Ainda não sabíamos que a febre já estava a caminho.

Com seus passos leves e sorrateiros.

O São Francisco ficou para trás. 

E o susto suspenso nos olhos antigos do meu amigo permaneceu.

Baião de dois com pequi à mesa.

E a certeza de que Tempo moveu o coração dos rios.

Sonhei com sangue & águas entre velas & túmulos.

E recordei do Amarelo nascendo sem susto em algum lugar entre Salgueiro e Ibó.

Todas as verdades postas à mesa.

Esperando ser testadas ao fio azulado da espada.

Antes de olhar nos olhos habitados pelo medo e pela máscara da meiguice.

Vi minhas mãos tremendo no jardim onde moram Chico e Aspásia.

E já sabendo que tendo pensado uma coisa era outra.

Apenas fiquei parado e imóvel como uma árvore ruminando seus próprios pesadelos.

E cantei mais uma canção à estrada.

Nela cantei também todas as coisas perdidas.

E todo o sagrado contido no que é irrecuperável.

O grito do mundo é silencioso e ainda assim infecciona tímpanos.

Me despedi de mim mesmo no mesmo dia em que estive duas vezes com a morte.

E guardei nas retinas embaçadas seu sorriso irônico ao escutar sobre sua inexistência.

Muitos se afogaram em águas e sangue.

Muitos arderam na chama das velas.

Mas somente Hermenegildo soube narrar o que se passou.

Somente ele soube com antecedência das coisas que estavam por vir.

E o que está por vir é sempre mais arcaico do que as recordações do passado.

O sol se pôs na caatinga.

Foi assim que o Amarelo nasceu.

Entre Icó e Feiticeiro.

O Jaguaribe se movendo no horizonte.

E quando se fez noite sobre a terra já estávamos bem longe de onde nascemos.

Ainda restava muito desconhecido antes do amanhecer.

E a febre e suas máscaras souberam decifrar isso antes de nós.

Hermenegildo, com suas esporas prateadas, sorriu ante o abandono que crescia dentro de nós.

Enquanto raiava no céu a mesma lua que iluminou a iluminação de Gautama.

Entre choro, lamentos e ruminações.

Hermenegildo se coroou Senhor das horas difíceis e Dono das amargas passagens.


nuno g.

São Bernardo das Éguas Russas, 02 de maio de 2026.

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