segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Caminho de Antara

Aquim abraçou Maria e ela entrou no avião.
Era São João e seguimos pro Capão.
Na casa de André.
Uma das últimas do vale.
Não havia nada.
Só árvores árvores e mais árvores.
Não havia nada.
Só montanhas montanhas e mais montanhas.
Não havia nada.
Só silêncio silêncio e mais silêncio.
André conectou a internet.
Alguém fez as pipocas.
As crianças chegaram.
E nós ficamos assistindo a Argentina jogar o mundial.
Antara sentou no meu colo.
Antara dependurou-se no meu pescoço.
Antara me seguiu quando fui fumar no terreiro.
Qual é teu nome?
Antara.
Quantos anos você tem?
Cinco.
Tu é argentina?
!No! Soy mexicana.

Meu coração foi na ilha do desterro e voltou.
A noite chegou.
Fizemos fogueira.
Comemos milho assado
&
amendoins cozidos.
Tomamos cerveja.
Dançamos forró no coreto.
No outro dia.
Depois de devorar uma galinha caipira à cabidela.
Decidi balançar na rede.
Aquim me abraçou e disse:
Seria bom se Maria estivesse aqui.
Meu coração foi na ilha do desterro e voltou.
Lembrei de Antara.
Das árvores, das montanhas, dos silêncios.
E respondi:
Ela sim está aqui.
Aquim me abraçou e aterrissei.

nuno g.
Cruz das Almas, 12 de setembro de 2018.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O jaguar encantado


Pai, mas essas histórias do jaguar encantado aconteceram mesmo?
Aconteceram sim filha.
Pai, mas isso não é poesia?
São poesias sim filha.
Pai, mas poesia não é a realidade né?
Não filha, poesia é só a verdade e a beleza que moram dentro da realidade.

nuno g.
Cachoeira, 13 de setembro de 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O filho do vaqueiro


Entrou no carro e agradeceu. Respondi, não há de quê. Sorriu para Maria sentada na cadeirinha atrás e foi me narrando sua história. Estudo psicologia, termino ano que vem, meu pai mata um boi a cada seis meses para me bancar aqui. O sotaque não negava, era pernambucano. Os modos educados não escondiam, era do sertão. Já vai fazer um ano que não o vejo, tem dias que a saudade me rói por dentro os ossos, me aferventa o sangue, termino esse curso e volto, antes não que o esforço dele foi muito. Ia falando e a cada tanto olhava e sorria para Maria. Preciso terminar logo esse curso e começar a trabalhar, antes que meu pai dê fim no pouco que tem, esse diploma é importante demais da conta pra ele, já eu, penso mais é em voltar, conseguir um emprego por lá e poder ganhar algum trocado pra garantir a velhice dele, ficar perto do velho, pedir sua benção todos os dias. Não conseguia mais segurar as lágrimas. Eu disse chore, tá tudo de boa, você é de que lugar do Pernambuco? A resposta veio bonita: Sou das margens de lá do rio grande, da cidade de Belém do São Francisco. Segui: Passo sempre por lá, cruzo pelo Ibó. Ele olhou Maria e sorriu: O senhor também não é daqui não né? Maria abandonou o silêncio e disse: Meu pai é do Ceará, quando a gente cruza o São Francisco já tá pertinho do Crato, da casa do tio Cláudio, lá tem o caminho das águas, lá tem o Caldas, quando passa do são Francisco a gente só precisa subir a chapada e atravessar a floresta e já chegou. Dessa vez quem sorriu foi eu. Olhando para Maria ele respondeu: Não sei por causa de quê desconfiei que vocês eram do Ceará, meu pai tem muitos amigos de lá, do cariri e do inhamuns, quando ele era mais jovem todo ano ia pra missa dos vaqueiros e lá fez essas amizades. Agora ele tá mais velho, anda adoentado, eu vivo aqui preocupado, se tivesse dinheiro ia visitá-lo mais a miúdo, mas tenho que terminar o curso, o sonho é dele, os custos aqui tão cada dia mais altos. Desacelerei o carro e fui serpenteando a subida de capoeiruçu devagarzinho, querendo encompridar a conversa: Que curso mesmo você disse que faz? Psicologia. Você é adventista? Não. Olha, vou te dizer uma coisa, no fim do ano nós vamos pra lá e se você quiser pode ir com a gente de carona. Agradeço demais e quero sim! Parei o carro no acostamento, anotei meu número de telefone e entreguei a ele. Olha que eu vou ligar mesmo. Maria sorriu e disse: Pode ligar, a gente te leva, deixa só chegar as férias. Encabulado perguntei: Teu pai é fazendeiro? Não senhor, antes fosse, meu pai é vaqueiro mesmo. Agora que tá adoentado a coisa ficou difícil. E ele tá vendendo as poucas cabeças de gado que tem pra me manter aqui. Vivo com ele desde que me entendo por gente, ela vive só com o senhor também né? Mergulhei nas nuvens de meus pensamentos. Pensei no romance que começara a escrever essa semana. E, principalmente, pensava que esse menino de prosa tão ajuizada que terminara por pegar carona com a gente nascera na mesma cidade em que nascera a Sussuarana que eu tanto admirava. Aquela que foi a única mulher do cangaço que realmente atirava e lutava. Fiquei lembrando de um conto que escrevi a muito tempo chamado as exéquias de Iararana onde eu tentava reproduzir um rito funerário indígena descrito por Darcy Ribeiro. Quando Helena da Catingueira – cadela que me acompanhou quando vim morar aqui – morreu, tentei reproduzir algo daquele rito. E, passado tantos anos, por ocasião dos oitenta anos do apagamento de Lampião em Angicos, voltei a pesquisar sobre a vida da Sussuarana – essa minha antiga paixão – e me deparei com a foto dela lavando com álcool os ossos do diabo loiro. Agora era eu que não segurava as lágrimas. A carona estava chegando ao fim. Ele me agradeceu com a sinceridade dos que sabem o que é conversar com pedra e com pássaro, dos que sabem a alegria que é banhar de rio e fazer festa pra chegança das chuvas. Só consegui dizer: Me liga mesmo viu e no fim do ano vamos. Ele sorriu para Maria e disse: Segue cuidando dela, deus abençoe vocês, ainda essa semana vou pedir pro meu pai botar vocês nas orações dele, as orações dele abrem caminhos. Nos despedimos. Trinta minutos depois chegamos à escola de Maria. Em Cruz das Almas. E não pude deixar de pensar que toda Cruz das Almas foi um dia entroncamento de aboiadores, encruzilhada onde os vaqueiros descansavam, se divertiam e rezavam. Quando cheguei em casa, ao cair da noite, continuei a chafurdar no google histórias da Sussuarana e me deparei com uma matéria antiga, da folha de são Paulo, sobre a pesquisa de Élise Jasmin, sensacionalisticamente intitulada: Maria Bonita era “poser”, Dadá não. Pensei: nem todo sensacionalismo é falso, nem toda verdade é flutuante. Abandonei a pesquisa e fui montar um quebra-cabeças com Maria. Depois brincamos de dominó e jogo da memória. Cansados, deitamos na rede e adormecemos cantando juntos terral.

nuno g.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A pedra de Bendegó.



Para marialice, contra o desencantamento do mundo, sempre.

O museu nacional virou cinzas: metáfora mais-que-perfeita do tempo que vivemos.
Só restou lá dentro, a pedra de Bendegó.
Aquela que exigiu do império impensáveis esforços de engenharia.
Aquela que os cientistas batizaram de meteorito.
Aquela que sempre foi sagrada para os sertanejos.
Aquela que foi roubada e nunca devolvida.
O museu nacional virou cinzas: cultura e barbárie em chamas.
Em tempos de falsos profetas e mitos despossuídos de qualquer autenticidade, resta a pedra.
Que seja devolvida agora ao sertão com um pedido de desculpas.
Que se junte à fé dos seguidores do Conselheiro.
Que se reúna às cabeças de Lampião e seus homens sobre a escadaria de Piranhas.
Nela pulsa um reino inteiro.
Nela toda a viagem imaginária de Dom Sebastião.
Nela a delicadeza e aspereza do amor de Corisco, o diabo loiro, e Dadá, a sussuarana.
Que a injustiça seja desmanchada.
Que a pedra seja finalmente devolvida.
E que seja ela a deseducadora sentimental que necessitamos.
E que seja ela o amálgama mineral dos nossos rios de sangue.
E que seja ela o grito de repulsa a toda violência reunida no nosso projeto imperial.
Nela pulsa um reino inteiro.
A distopia de uma anti-nação.
Nela as veredas todas que cortam o sertão.
Os gerais sem-fins.
Contra o rumo tóxico da civilização.
Contra os tentáculos de um colonialismo que não perece.
Contra o esquecimento e o presentismo.
O reino da pedra.
Com seus encantados.
Último mito vivo.
A pedra de Bendegó é feita de carne e de osso.
As pedras sempre foram as vísceras do sertão.
Recordo do poeta ñuu savi me dizendo:
Foram os invasores que nos nomearam mixtecos.
Foram os invasores que nomearam nossos centros cerimoniais de sítios arqueológicos.
Aqui também foram os invasores que nomearam meteorito
à pedra sagrada de Bendegó que caiu dos céus em meio ao sertão.                         
Foram eles os que nomearam meteorito a esse talismã mágico.
O museu nacional virou cinzas:
Todo monumento de cultura é um monumento de barbárie,
nos ensinou Walter Benjamin.
A cultura da memória e a memória da cultura
perderam um de seus mais opulentos monumentos:
As labaredas de fogo escreveram
em um par de horas
alguns volumes de esquecimento,
mas nem tudo foi reduzido a pó:
sobrou a pedra de Bendegó –
Esperamos que a devolvam com brevidade ao sertão de onde nunca deveria ter saído.
Esperamos que nos devolvam o Sono e o Sonho.
O interior dessa pedra mágica é um caleidoscópio.
Nela vivem a sede dos mapuches e todas as línguas dos índios da terra do pau-brasil.
Nela, o emparedado Cruz & Souza.
Nela arde o arcaico Sol Esquecido.
Que ela seja regressada o quanto antes
e que na próxima vez que cruzemos a 116
eu possa finalmente dizer:
eis aí marialice a pedra que caiu dos céus
a que foi roubada pelos Senhores do Império
a que resistiu ao incêndio do museu nacional
aquela que tantas vezes te contei a história
enquanto tomávamos um suco descansando para seguir viagem
que soem os pífanos de Bendegó!
que a pedra, a poesia e o Sonho sejam ilhas de imaginação nesse mar de barbárie.
Além.

nuno g.
cachoeira, 04 de setembro de 2018.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

as moscas - viagem imaginária. (fragmentos de um sonho)

barcos de ossos subindo o rio / homens com buracos no peito descendo a serra / onças indecifráveis e índios tapuias / batalhas, punhais de prata, crucifixos, traições, degredo e violação /

homens ébrios entoando belíssimas canções de guerra em volta do fogo / assando carne e comendo / quase crua: o sangue escorrendo no canto da boca / a lua clareando na serra / as caravanas de negros amordaçados e acorrentados arrastados pelo areal dos tabuleiros das terras altas do vale / os maturis florescendo /

os rebanhos de bois e moscas / as emboscadas, os estupros, a ilha encantada / a última peregrinação dos tapuias à nascente do jaguaribe no árido sertão dos inhamuns / os pássaros agourentos e premonitórios / os quarenta piratas holandeses e a tribo dos suicidas / a carroça de fogo / o velho com olhos de estrelas / o daimon do paredão de pedra / a fronteira de arame / os relâmpagos, os raios e o insondável trovão / o cheiro do cio das fêmeas /

os gigantescos tachos cozinhando o leite pra fazer doce / as prensas dia e noite sem parar produzindo queijo do leite coalhado / as cabras absortas de ares perdidos rezando e pastando no cascalho e no pedregulho onde nunca faz sombra /

o pó das palhas do carnaubal cegando os bárbaros invasores / os gaviões destilando o pesadelo gestado nos grotões da serra da baraúna / os alazões endemoninhados cruzando as águas ensanguentadas do velho rio / os rabequeiros alucinados com seus tropéis de versos agalopados e martelos enfeitiçados / cascavéis soando guizos e chocalhos malditos /

os oráculos de tripa de carneiro, os brasões ilegíveis, as cruzes de madeira assinalando os sítios das mortes de homens sem nome e sem historia / caiçaras e barreiros represando lágrimas salobras / peixes em forma de lâminas, tatus gigantescos / as várzeas da insônia / as orações dos pistoleiros de corpos fechados / os rosários bailando nos dedos trêmulos das beatas / a febre flechando o coração dos lunáticos /

as matilhas de gatos maracajás, a procissão dos fantasmas se arrastando hacia o inferno, o sol latejando como um ressentido e furioso dragão oriental, as frondosas oiticicas nas croas do rio abrigando seres fantásticos, a sinfonia dos pífanos do purgatório / o beijo doce da sedutora moça caetana /

as esporas reluzentes...

nuno g.
são bernardo das éguas russas, 01 de março de 2018.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

os mortos que andam comigo

os mortos que andam comigo são muitos
      e têm fome
      e têm sede
      e têm dedos longos como os dos pianistas
os mortos que andam comigo são muitos
      e têm sonhos
      e têm olhos de lua
      e vestem roupas negras à maneira dos que carregam o peso do luto
os mortos que andam comigo sabem beijar
os mortos que andam comigo estão sempre em carne viva
os mortos que andam comigo se reproduzem na velocidade dos ácaros
os mortos que andam comigo sobreviveram a cem mil chacinas
os mortos que andam comigo têm cílios esverdeados
      e as peles cobertas por escamas de sal
os mortos que andam comigo falam muito
      se excitam facilmente
      e quando entram no mar
      esquecem todas as promessas das últimas madrugadas...

nuno g.
fortaleza, 25 de junho de 2018.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

...

impossível adivinhar a duração
ainda e mesmo depois de qualquer início
tudo se desfaz
        se decompõe
   seja um rio
   seja uma tarde
   seja a carne
depois que rasgamos todo o alfabeto
só resta o deserto da desolação
a melancolia em estado bruto
e o frio que assola nossos
pés descalços

nuno g.

terça-feira, 8 de maio de 2018

os palácios da memória ou compaixão pelas fúrias

Maria dorme.
Eu escrevo, rezo e choro – minha intuição me sopra que essas três coisas são uma só: como o mistério indecifrável da santíssima trindade.
O amargo sedimentado converteu meu corpo num mangue. Entre caranguejos, siris e guaiamuns se movem meus desejos e o resto de minhas forças.
Os pássaros cantam na casa do vizinho e penso em como é mágico o caminho que converte tristeza em beleza, ferida em cicatriz, sombras em luzes.
Maria dorme e eu penso em tudo que resta por fazer.
Eu escrevo, rezo e choro sentindo que sob essas ações repousa uma só intenção.
O carro dos ovos passa, o carro que anuncia os funerais passa, o carro do beiju passa: o silêncio por aqui é um bem difícil de se conquistar – tudo fere, esmaga, arranha, excita e distrai. Tudo é vento e carrega sempre pra outro lado. E apesar disso meu corpo-mangue escreve, reza e chora. Imerso num esforço sobrenatural para manter a concentração. Imerso numa guerra onde todos os sentidos fazem o possível para manter o equilíbrio sob o fio da sanidade.
Cantei a pedra e nela o destino. Cantei o rio e nele a sina. Cantei o vale e todos os seus atalhos e todas as suas passagens e nele o sonho. Cantei a ilha e nela a sombra e os animais fantasmagóricos. Cantei a infância e todas suas vestes corrompidas. Escrevi, rezei e chorei e só assim pude compreender que essas três ações são a mesma coisa. Cantei o infinito por me saber finito. Cantei o que me antecedia por me saber velho e antigo. Cantei o que poderá vir a ser por saber que ainda estarei aqui quando partir. Escrevi, rezei e chorei e fiz o que pude sabendo não ser isso o suficiente. Escuto o mar e recordo Van Gogh – tão longe e tão perto como os dragões do desespero, como o sal das lágrimas dos girassóis, como um grito que ecoa num quarto inteiramente destroçado.
Maria dorme e eu tento organizar os acordes dentro de mim: concertar esses sons parece ser a única via para reconquistar o silêncio – assim como a guerra parece ser o único caminho que leva à paz.
Rai cozinha tomates para preparar o molho da pasta. Mato uma barata desorientada com uma chinelada exagerada e o som ecoa na atmosfera. Recordo o meteoro que semana passada avistei no céu. Maria desperta:

o que papai tá fazendo?


Escrevendo, rezando e chorando: tentando salvar a minha alma.


papai é lindo!


O estampido do beijo me faz saber que ainda tenho pele e que o tempo é mais poderoso que as palavras. Larva, esquecimento e doses de álcool forte. Hoje faz sol e todo sol é anúncio de tempestade: assim veem os olhos dos náufragos, assim sentem os corpos-mangues, assim pensa o que se sabe tomado pelo amargo. Cinza é a cor da sanidade. Todo arco-íris não passa de alucinação. Remota é a intuição que respira em nossos instintos – e são os instintos os verdadeiros guias de quem caminha na escuridão.
Maria brinca. O molho está pronto. A campainha toca. O rapaz que veio trocar a borracha da geladeira. Por um instante penso como seria bom poder trocar também meus ossos, minhas vísceras, minhas articulações. Restaria só o sangue e nele a pulsação do mito. Sem esperanças. Sem futilidades. Sem os temores todos que nos atritam contra o vazio. Só a pulsação feroz e insensata do mito no vermelho do sangue. Só o grito da divindade esquecida na fortaleza abandonada. Só a lucidez gerada pela loucura e pelo absurdo. Só o gesto da mão que escreve, do olho que chora, do espírito que reza. Só a busca sem a necessidade do encontro. Só a fábula despida de qualquer ensinamento ou juízo moral. Só a carne e todos os nervos que a atravessam. Os pássaros engaiolados seguem cantando. O cárcere é uma máquina de produzir beleza e autenticidade. A dor me faz saber vivo. Todos estão mortos nessa cidade e qualquer ressureição há muito se tornou impossível. O rio corre sem dizer nada. As nuvens passam sem chover palavra. As crianças brincam e a pasta descansa sobre a mesa esperando a chegada do meio-dia quando nossas fomes a devorará da mesma maneira que os tejos devoram os ovos quando as galinhas estão distraídas.
Rai me abraça – as crianças tomam banho. O aroma do subterrâneo incensa a atmosfera. O calcanhar fraturado lateja. Tudo que ficou pelo caminho já me cobra seu esquecimento e merecido repouso. A justiça é só uma maneira de celebrar os mortos que nos esperam depois do entardecer. É meio-dia: fecho os olhos, rezo, escrevo e choro – nenhum soberano pode restituir uma infância perdida, nenhum algoz pode destruir os maus agouros de uma rasga-mortalha, nenhuma divindade pode talhar feições delicadas num corpo-mangue.
Na escuridão do meio-dia se gestam os sonhos mais belos, mais tristes, mais solitários: parir é a mais delicada das artes e os senhores da guerra sabem muito bem disso, pois aprenderam que só quem ousou matar pode ousar viver.
O fio de azeite que derramo sobre a pasta tem a espessura do fio de minha sanidade.
O beijo de Maria é infinito.
Rai é bonita, me traz um café: nenhum amargo é suficiente para preencher os espaços vazios de um corpo-mangue. Faísca breve entre dois nadas: é o que somos e isso é tudo e isso deveria bastar: mais não basta. Por isso escrevo. Por isso rezo. Por isso choro.
A alma é o que sobra quando a vida nos dissolve a pele.
Amém.

03 de maio de 18.
nuno g.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Cântico ao sol esquecido. (poema selecionado pelo prêmio unifor 2017)

radiante o sol do entardecer
que ao despedir-se e submergir no horizonte
ilumina o musgo e o limbo florescente
restituindo à pedra sua pele & sua integridade

radiante o sol do entardecer
que ao despedir-se e submergir no horizonte
acalenta o poeta que desde a margem de seu antigo rio
observa o naufrágio de um coração vazio e abandonado
que ao afastar-se definitivamente do porto
se depara com os escuros corredores que há tanto lhe aguardavam

radiante o sol do entardecer
que apascenta a aurora e
faz vibrar outra vez no céu o arco-íris
faz bailar as raízes sobre a insanidade da relva
guiando até a fronteira do inferno
a derradeira lágrima que escorre

radiante o sol do entardecer
que dissolve como um ácido
as arestas pálidas da facial cicatriz que adorna
o pródigo e perdulário viajante
& que em fumaça transubstancia
sua sombra
e todo o horror que carrega em seu alforje

radiante o sol do entardecer
que arde e consome as cinzas que alheio carnaval
espalhou sobre as vestes brancas que protegiam minhas feridas...

radiante sol do entardecer
no norte a morte não me assusta
seus sussurros são carícias e seus olhos candeeiros
tochas de carvão acesas atrás do fogo-fátuo do mundo
revelando os negativos fotográficos do Sonho miraculoso e perdido

radiante o sol do entardecer
que devolve às trevas o que trevas decidiu ser
com todos seus atributos suas qualidades e suas feições esquálidas...

radiante o sol do entardecer
que ilumina os seres que dançam a ciranda cósmica
e a memória do rio e das margens e das onças que sem nunca existirem
tornaram-se a única e tangível realidade

radiante o sol do entardecer
que em sua trajetória oblíqua
termina por reencarnar o chão onde tudo se iniciou
o sangue inutilmente derramado de meu pai
a catedral em chamas
o cálice da futilidade e do absurdo
e a ressurreição das movediças vísceras das areias entorpecidas de uma praia chamada
      futuro
guiando a derradeira lágrima em direção ao inferno

radiante o sol do entardecer
que ao despedir-se e submergir no horizonte
faz florescer as ervas do deserto
e propaga no vácuo as vibrações nervosas que sobreviveram
à passagem dos fantasmas
à tertúlia dos fantoches
e à caricatura dos esqueletos
descalcificados pela cruenta e bizarra batalha
com a própria sombra

radiante sol do entardecer
lembrança inescusável das divindades sertanejas e seus oráculos
  sua rispidez precisa
  sua fértil aridez
  seus sacrossantos anátemas...

radiante sol do entardecer
crepúsculo e amanhecer do reino das águas claras
sideral espaço povoado por balões mágicos
bonecas que falam
sabugos de milho sábios
rinocerontes encantados
& uma infinidade de quitutes imaginários

radiante sol do entardecer
dissipando com seus raios qualquer culpa
e afastando definitivamente da catedral em chamas
  o coração vazio e abandonado
  os olhos neblinados e suas chantagens
  o cálice do absurdo e da futilidade
e derramando sobre o limbo e o musgo da pedra
seu princípio vital sua beleza sua coragem
restituindo à sua pele
sua ousadia & sua integridade

radiante sol do entardecer
tartarugas de argila, equinócio de sapos
piolhos, cicatrizes, bactérias
cafeína, antibióticos, alucinações
infância desconhecida habitada por moléculas de duendes, sacis, gnomos e outras fadas

radiante sol do entardecer
rainha do ignoto
daimon arcaico que ao meu lado caminha
nossa senhora das carnívoras plantas
& das desterradas flores
rogai por nós
tarântula do paraguassú
rogai por nós
jaguatirica da fazenda do mato alto da serra de calcário
rogai por nós
gavião selvagem do Orinoco
rogai por nós
verdes abutres da colina do bom parto
rogai por nós
nossa senhora da lepra e da boa morte
rogai por nós
virgem da compulsão e da piedade
rogai por nós
não posso dizer nada além de pronunciar teu nome:
o marfim dos meus dentes cravado em teus seios como um amuleto mágico

radiante sol do entardecer
tartarugas de argila, equinócio de sapos
piolhos, cicatrizes, bactérias
cafeína, antibióticos, alucinações...

radiante sol do entardecer
rainha do ignoto
litros & litros de meu esperma
banhando teu corpo
curando no teu sono e no céu da tua boca
acariciando a vertigem de teu rastro
litros & litros de meu esperma
banhando teu corpo – essa capela, esse templo, essa sagrada cidadela
onde sacrifico flores corrompidas pela ação implacável dos trópicos:
flores brutalmente arrancadas do monastério onde as feras se devoram...

nuno g.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

...

Siempre regresa como virgen blanca la soledad
cuando el día empata el curso de la noche.
Una lágrima condensa al bosque en la carretera,
surco multiforme hacia la urbe sin árbol.
Pienso entonces en el fatal desperdicio de un cuerpo inexistente y sin amparo,
luz que perdió la sombra en la selva o en el mar
buscando la infancia eterna de una flor amarilla.
¿Dónde estaremos mañana?
¿Volveremos al nogal de Carolina,
a la ribera que surge entre brazos imprecisos?
(Hoy juegan nuestras hijas con el viento,
pero otras son violadas y enterradas.)
Visiones van, visiones vienen.
Cierro los ojos para despertar
porque el tiempo es imagen de la muerte,
no el sueño donde la ausencia revive espectros,
el tiempo,
el tiempo que roe la piedra y lima los huesos.
Botón o estrella, lo mismo da:
todo apagará la aurora que espero sentado en el jardín,
fumando el porro interminable
que la madre celeste encendió cuando naciera
y que atiende mi voz entre velas y copales.
Me secaré como la hierba y el papel;
pero ahora canto cerca y lejos de la tierra
donde las lenguas confunden y conquistan,
donde pesa la historia como una mortaja piramidal,
destruida, perdida, oculta.

Tadeo Stein

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

...

- é difícil escrever sobre o nada
- é que o nada tem um bocado de coisa dentro

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

...

tá nas mãos da providência
irônica, sábia e cheia de sardas
ruivinha como a madrugada
monge profana
que de tanto refazer a própria pele
aprende ensina ladra morde lambe cheira e
clareia águas
tá nas mãos do tempo
forma destino sina
reviravolta dentro e fora
dedicar a vida toda a algo sem serventia dada
livrar-se de qualquer resquício de ideologia
saber que só na forma habita o espírito
sentir poesia pulsando como a dor de um calcâneo torado
quem semeia alvos / colhe dardos
quem semeia labirintos / colhe minotauros
samba cachaça recolhimento santidade
quem sabe um dia a compreensão
poesia nada e tempestade
sempre
sturm und drang
agora

nuno g.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

haiku

estou escrevendo a horas
deixa eu descansar a escuridão dos meus olhos
na luz do teu corpo?

nuno g.

sábado, 27 de janeiro de 2018

samsara

já quebrei a cara
já quebrei o fígado
já quebrei o baço
já tive problemas no estômago
atravessei uma sinusite
e vivi no estrangeiro
já quebrei o pé direito
já quebrei o pé esquerdo
já quebrei o braço
já ingeri substâncias tóxicas
já tomei enteógenos
já perdi bússolas astrolábios & velas
já me desfiz de tudo o que não me interessa
e hoje tudo o que desejo
é voltar ao corpo em que nasci

nuno g.

fragmento de mário faustino

Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos

Mário Faustino

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

heresia

minha vó hoje me gritou
herege, vociferou
só por causa de que eu disse
que Adélia Prado sabia de deus tudo
e São Tomás de Aquino nada

minha vó se irritou deveras
é que ela nunca leu o coração disparado
nem o homem da mão seca
se lesse saberia que Adélia
traz desespero no corpo
vê deus com a carne
e extrai teologia de dor de dente

se algum dia folheasse
os manuscritos de Felipa
ou
quero minha mãe
entenderia que Adélia
cozinha, ama e arruma casa
como quem reza, medita, encarna

Adélia Prado é a sarça ardente do monte Horeb
São Tomás de Aquino é só uma pilha de palavras mofadas
sua Voz roça com viço a pele do mistério:
meu espírito está preso à carne
aceito e confesso o absurdo que me salva
tamanha delicadeza
há de ser mesmo uma heresia...

nuno g.

cosmorama

sobrevoei a noite da cidade
chuva de gols
pracinhas
oxigênio
& as avenidas insondáveis

sobrevoei o tempo dessa fera
minhas pegadas em sua atmosfera parda
chuva de água
assanhando o mormaço
da solidão asfáltica

sobrevoei suas mãos
seu silêncio
seu não servido frio
com carinho
e arroz branco:

distante e precioso afago
tão difícil de engolir
quanto atum em lata
requentado no prato

nuno g.
fortaleza de nossa senhora da assumpção, 20 de janeiro de 2018.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

miração

a flor tinha mil pétalas
mil mulheres negras que nos cobriram com longos véus
e fomos gestando um estranho fogo azul
que ardia sob uma intensa lua rosa
barro do aquiraz
barro do quixeré
barro de russas
reunidos nesta cidade grande
com olhos perdidos & infinita ansiedade
um tanto mais velhos
com mais catarro nos peitos
e uma série de outras questões sem importância
as mulheres negras se retiraram às suas pétalas
a flor foi se fechando
ficamos nós
rapés, tangerinas, risadas
mangas, bananas, abraços
e um desejo insano de devorar uma panelada

nuno g.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Jaguaribe, rio seco.

para s. s.

Não agüentava mais aquele rio seco.
Ainda que sim bonito ver aquele solo esturricado.
Serpente soltando as escamas.
Serpente soltando as plumas.
Aquela piçarra orando ao além por umas gotas de água.
Aquelas onças entoando cânticos de sede.
Aquela clepsidra de vidro feita com ossos de gafanhotos amarronzados e:
Esperanças verdes.
Nuvens acesas.
Do Cariri ao Jaguaribe.
No meio:
O céu azuzim do iguatu ao meio-dia.
Tarde esticada que nem cordel de feira.
Vertigem é o tempo para quem espera.
Horizonte é o que evita a queda.

nuno g.
Fortaleza de nossa senhora da Assumpção, 11 de janeiro de 2018.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Boulevard – belle époque

todo cambia – o inferno tem muitas faces
a poesia é uma broca de diamante perfurando
as camadas as camadas as camadas
entre a realidade e a realidade

todo cambia – infinitos são os sabores contidos numa só lágrima
a poesia é uma broca de diamante perfurando as espessas
camadas espessas camadas espessas camadas
entre a realidade e a realidade

todo cambia – a poesia é o túnel estreito e labiríntico que se segue à avenida iluminada

cachoeira, 15 de dezembro de 2017.
nuno g.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Catedral em chamas – estado de guerra permanente

para cruz & souza

em cada vértebra em cada osso em cada célula em cada glóbulo
em cada instante percorrido do ventre intoxicado de nicotina que
habitei por nove longos meses
até esse presente de águas paradas, mortas, cheirando a resíduos
de curtume italiano & papelera nacional
todas as selvas com sua saudável barbárie aniquilada
todos os homens de além-mar
todas as violências sugeridas ou executadas
todos os gozos desperdiçados
em cada pelo de minha sobrancelha inexistente
em cada trecho musical da sinfonia que substituiu minha memória roubada
em cada centelha de larva deste vulcão onde oro
em cada litania que proferi aos decaídos
em cada ferida que abri com meu punhal
em cada garganta que sufoquei com meus próprios punhos
em meu coração que ainda bate que ainda grita que ainda sonha
em cada onça em cada criança em cada sorriso
no centro do sexo de cada uma das filhas de hamurabi
no velho casarão, no cume do paredão de pedra, no apartamento-cemitério
em cada gota de neblina que se apresenta nessa atmosfera
a cada golpe que minha língua desferiu contra a mediocridade de alguém
por todos os versos que escrevi para todos e para ninguém
por todos os versos que não cheguei a escrever por não suportar o que traziam
pelos leprosos que comigo atravessaram as madrugadas
por todos os solilóquios que me conduziram nos labirintos da insônia
por cada dia que me foi concedido sobre essa terra povoada de males e fantasmas
por cada pão que me saciou a sede
pelas mãos que acariciaram meus cabelos
pelo vinho que regou minhas febres e norteou minhas alucinações
– mesmo as mais impróprias e abjetas –
por todas as sombras que dançaram ciranda comigo em volta do fogo
pela mulher coberta de algas & sal
que abriu seu corpo entre as falésias
e me afogou no sangue sagrado que de si jorrava
por cada um dos olhos ou dos cílios que mastiguei sem piedade ou compaixão
pelo terror que travou relações de amizade com minha infância
no silencioso sótão hoje em ruínas
pelas línguas que se perderam nas conquistas e que ressuscitam a cada café da manhã
por cada um de meus naufrágios
por todas minhas ilhas
pela mácula imperdoável nos gestos de quem me negou o que me pertencia
pela minha crueldade e minha capacidade de decepar peixes e
deflorar sonhos em botão
por toda a bílis que vomitei nas incontáveis ressacas que me atravessaram
por tudo e por nada
por todos e por ninguém
pela delicadeza e pela brutalidade
pela freira neurótica e por toda a devassidão dos monges em seus delírios de haxixe
arde, hoje, essa estranha e desfigurada catedral em chamas
e todas as confissões e todas as penitências e todos os exorcismos e
todos os malabarismos e tudo o que é fugaz e o que é impróprio e
o que é devoração e o que é céu azul e o que é meio dia e
o que é cicatriz e o que é insolação e
oásis oásis oásis
– como quando chupastes minha pica ao pôr-do-sol no mirante dos traidores –
a jugular aberta – nunca saberei se por um beijo do inimigo ou pela foice impronunciável –
a chuva, as serpentes rastejando, os leprosos, o calor úmido da selva
– ou seria do útero ainda? –
em cada vértebra em cada osso em cada célula em cada glóbulo de meu sangue
essa chuva que amanheceu se sente
com a mesma intensidade que o chicote na carne de um escravo
sendo açoitado na vitrine da mórbida feira onde transeuntes amordaçados
perdem a vida em estúpidas tentativas de preservar
cada reencarnação cada aparição cada grito abafado
– por meios rápidos eficazes e pretensamente seguros –
na solidão e intimidade que reina entre nossos apetrechos de dormir:
onde o sono se confunde irremediavelmente com as cinzas necrosadas
subitamente revolvidas pelo mar de éter em que estamos todos mergulhados

cachoeira, 15 de dezembro de 2017.
nuno g.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Jaguaribe, beira de rio.

para ayla andrade,

Assim tão simples tu definiu. Faz tempo, mas é agora. Tem coisa que não se perde, tem eternidade que não desbota. Alimentar peixes com baião-de-dois, sentir cheiro de verde e lavanda ou simplesmente ler para quem se ama. Tudo tão simples. Prazeres mínimos que só conhecem as almas claras. Como as águas daquele rio onde até hoje se vê tuas pegadas. Lembro que tinha uns caramujos, tinha uns bêbados na outra margem – mas na verdade não tinha nada além do que batizastes marulho, canto de onça antiga: procissão de presságios. Daqui a pouco outra vez vai ser madrugada. Escuto tu lendo henry miller com essa voz tão desapressada. Engraçado pensar que nada se perdeu. O barulho do ventilador lutando em vão contra aquele calorão desmedido. Nossas risadas brincando no casarão. Beira de rio, Jaguaribe encantado. Não importa se era domingo ou sábado. Diferente dos outros passados era tempo que nunca virou nada. Por isso teu corpo ainda traz aquele cheiro. Por isso meu olhar ainda se perde ainda se agiganta ainda vagueia desajeitado pelas margens. Como é difícil se entender em silêncio. Ficar bêbado juntos e juntos saber esperar tranquilamente a ressaca. Tudo mudou e não mudou nada. Cada rio que cruzo é como revisitar aquelas águas. Nelas tua sombra e nas margens teus pés. Prazeres mínimos – saudade boa de saber que ainda tem chuva nos teus olhos. Desaguamos em outros, nos desdobramos de fato. Tua solidão caminhou algumas vezes ao meu lado. Sempre me arde a pele quando olho na parede a inscrição: rua do meu pai. Jardim de flores povoado de cães & gatos: Iggy, basquiat, damas da noite. O paraguassú já me disse muito, hoje não me diz mais nada. Tem rio que é assim, se desfaz, se desmancha, se torna miragem sem asas. (...) tem trégua que sabe à lágrima, fui ali comprar um cigarro e te ouvi dizendo esse cigarro te mata. No caminho vi o rio e ele outra vez não me disse nada. E rio quando perde marulho nem madrugada salva. Aos três de agosto de dois mil e seis te mandei um poema por imail e agora que o releio o entendo. Dizia coisas que só fazem sentido agora. Um cartão de visitas de Alberto da Cunha Melo. Nele hoje tão claro, tua escada para o nada e a distância entre mim e minha morada. Escrever boniteza de madrugada é coisa boa demais. Daqueles prazeres mínimos que se vive à beira dos rios. E de tanto tentar quem sabe um dia a gente aprende. A escrever bem. A amar mais. A deixar pra trás quem não entendeu nada. E de tanto nada entender feriu de deixar cicatriz. Daquelas que não se apagam. Daquelas que como tu diz: servem pra nos lembrar do que não repetir. Exu me ofereceu cocaína: coisas que acontecem quando se está vivendo na encruzilhada. Disse-lhe hoje não muito obrigado e lhe dei dois cigarros: tem coisas que só se pode escrever de cara. Tudo assim tão simples. Como a luz nascendo nas pedras da chapada do apodi: só os olhos de alice vendo. Como benício refazendo a casa verde com massinha de modelar. Tem gente que clareia alma alheia, ainda quando vem turva e salobra, ainda quando parece não se acreditar em mais nada. Revisitar o rio, revisitar a casa. Ouvir tua voz não deixando esquecer que existem outras cicatrizes: as que nos dão vontade de sangrar novamente. É dos prazeres mínimos que tenho saudade também. Da beira de rio ainda mais real por ser imaginária. Das palavras que lançamos aos ventos, que batem nos ouvidos e voltam pro coração. Sempre. Aqui. Nesse não-lugar habitado por rios, bumerangues & fantasmas.

Cachoeira, 11 de maio de 17.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

from the morning

encontrei nick na floresta
ele era só um jovem triste, belo e melancólico
extraindo a alma de um violão
encontrei nick na floresta
e nós subimos uma colina juntos
e sentamos na última pedra do sonho
encontrei nick na floresta
seus olhos irradiavam uma luz estranha
ele sabia que a morte já chegava
e nada mais lhe importava
apenas o seu violão
encontrei nick na floresta
nós subimos uma colina juntos
e sentamos na última pedra do sonho
e ficamos em silêncio
olhando o rebanho de gaviões
remando em direção ao horizonte        
onde já despontava a lua rosa...

nuno g.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

tirania.

A tirania é uma arte difícil.
Delicada.
Abarrotada de sutilezas.
É preciso conservar súditos.
É deles que emanam todas as regalias.
As da mesa.
As da cama.
As simbólicas.
O tirano crê que os súditos o amam.
Ainda quando cria exércitos que o defendam.
O tirano necessita dessa crença para ser o que é.
A raiva, o ressentimento e a crueldade dos súditos.
Não são para o tirano nada além de ingratidão e injustiça.
Injustiça por macularem as regalias que fazem de um tirano um tirano.
Ingratidão por desrespeitarem o dogma de que o tirano é magnânimo.
A tirania é uma arte difícil.
Exige uma imagem pública atualizada permanentemente.
Exige que a distância e o alheamento do outro sejam punidas uma e outra vez.
Como a recordar ao coração do súdito que o fundamento daquela relação.
É o próprio amor que ele projeta no amor-próprio do tirano.
Por isso o mais grave que pode chegar a cometer um súdito.
É assumir que sim já há muito deixou de amar o tirano.
A tirania é uma arte difícil.
Como a pistolagem.
Como a tortura.
Como as artes ornamentais.
O tirano deve possuir cinismo suficiente para exibir-se frio como o gelo.
O tirano deve conhecer todas as técnicas de vampirismo.
Das orientais às ocidentais.
O tirano não é nada mais do que um coração vazio.
Um espírito fútil e frágil que necessita.
Da luz.
Da grana.
Da compaixão.
Que emana dos súditos.
Súditos que ele acredita desesperadamente.
Que por tê-lo amado um dia.
O seguirão amando sempre.
E serão sempre incapazes de pronunciar a palavra não...


nuno g.

sábado, 18 de novembro de 2017

fiorde

a tarde passou sem que eu sentisse fome
e quando o medo lhe deu a mão
eu soube que algo poderia acontecer

o mar, sem pressa, inundou o itambezinho
os rebanhos de pássaros passaram
e a manchinha marrom no seu olho direito foi se tornando mais visível

o sino da capela soou
me despi de qualquer fantasia
e segui suas mãos abrindo o cadeado da alvorada...

nuno g.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

The portrait, por Stanley Kunitz

My mother never forgave my father
for killing himself,
especially at such an awkward time
and in a public park,
that spring
when I was waiting to be born.
She locked his name
in her deepest cabinet
and would not let him out,
though I could hear him thumping.
When I came down from the attic
with the pastel portrait in my hand
of a long-lipped stranger
with a brave moustache
and a deep brown level eyes,
she ripped it into shreds
without a single word
and slapped me hard.
In my sixty-fourth year
I can feel my cheek
still burning.

Stanley Kunitz

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Poética, por pedro tostes

A poesia é mesmo caso sério:
vez por outra vai parar no cemitério.
E sempre volta, como um
zumbi literário.

A poesia brasileira anda broxa,
não mata a cobra,
esconde o pau
e espera ansiosamente pelo
próximo edital.

A poesia brasileira contemporânea
é esquizofônica;
uma hora fala duro,
na outra difícil (e demonstra
pouca propensão a atirar-se
de edifícios).

A poesia brasileira corrente é polida,
faz foto pro cartaz, gosta
de ser notícia no jornal, do caderno
de resenhas, é bonita
limpinha, correta e erra pouco.
Fuma mas não traga,
estupra mas não mata
e tá sempre em cima do muro.

O poeta? Que se foda! Ele que morra duro.


pedro tostes.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Based on a prayer of Rabi’a al-Adawiyya, por Franz Wright

God, if I speak my love to you in fear of hell, incinerate me in it;
if I speak my love to you in hope of heaven, close it in my face.
But if I speak to you simply because you exist, cease
withholding from me your
neverending beauty.

Franz Wright

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

a ciência dos erros exatos

a ciência dos erros exatos
é mais difícil
que escrever teses de doutorado
matemática inverossímil e abstrata
exige perícia com cálculos infinitesimais
& habilidade para remover entulhos e tristezas acumuladas
a ciência dos erros exatos
não se aprende em escola
não se põe à mesa
nem se exibe nas feiras
a ciência dos erros exatos
é como uma sereia
encantadora e assassina
guardando no fundo do mar
os segredos não-piedosos
de um cipó enfeitiçado 

nuno g.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Impressões sobre "corpo nulo"

parece que vejo o velho
mais osso que carne
mirada de quem pastora cabras
voz de feijão de corda debulhado
infiltrando palavrões no mistério

o primeiro poema me levou a nocaute
os que vieram depois soaram a afago
invitação faz tremer até árvores com raízes de pedra
– e o que somos senão árvores com raízes de pedra, ainda que porosas?

constelação é um desafio astrológico que acende a lamparina do desejo
– pena que há tanto perdi o astrolábio
pés ou cavar de abismos me seduziu por inteiro
– se esse corpo fosse de Aquiles esse poema seria seu calcanhar
além da memória não me disse nada
– talvez por que a vida tenha reduzido meu corpo à memória
canção final cutucou a dor de quem também queria poder fingir inteirezas

em tempos de estiagem corpos se revelam:
caóticos amontoados de palavras.
insônia e ressaca se amalgamaram atrás da minha couraça de fumaça
e se fizeram um só poema
seio é um delírio lindo
jardim dos ácidos é uma bela imagem que sintetiza muitas coisas

não sei por que lembrei do corpo magro do velho
nem a razão de teu corpo nulo aparecer como uma espécie de breve e aforismático tratado
sobre a crise hídrica
e a desertificação do sertão

parece que vejo a sombra de um corpo estranho
– e será que existe corpo que não seja origem e destino de algum estranhamento?
regressando da luz à escuridão
mais carne que osso
mão estendida – ou seria língua?
soprando a chance, outra vez, do sonho

além da memória não me disse nada
o resto me semeou deliciosa sensação.



corpo nulo.
sara síntique.
editora substânsia.

nuno g.

sábado, 21 de outubro de 2017

caiçara

Papai, posso molhar o pé?
Claro que sim filha.
Meus tios pescaram aqui.
Eu me banhei aqui.
E quando existia cheia.
As águas dessa lagoa invadiam o cemitério.
E saciavam a sede dos nossos mortos.
Papai, podemos atravessar a ponte?
Claro que sim filha.
Esses que estão aí sentados.
Jogaram bola comigo.
Brincamos de polícia e bandido.
E curtimos as matinês do lua cheia.
Papai, eu quero fazer cocô.
Duas das filhas de Hamurabi esperando clientes à entrada do bar.
Obrigado.
Tia Neuza bebendo água de coco.
Cumprimentando alguns conhecidos de outrora.
Papai, foi nesse mesmo banheiro que eu fiz cocô ano passado né?
Foi sim filha.
Naquele dia que eu e a Débora achamos uns sapinhos...
Uma senhora sentada no banco do outro lado nos olhava.
Entre o encantamento e o inquisitorial.
Como há muito se habituaram a me olhar os daqui.
Papai, posso ficar brincando descalça?
Claro que sim filha.
A senhora seguiu nos olhando.
A lua nasceu.
Vimos o barco que aos fins de semana passeia as pessoas.
Embala seus sonhos na lâmina dessa lagoa.
Singra essas águas desde sempre mescladas às cinzas de nossos mortos.
Papai, entrou um espinho no meu pé.
Senta aqui que eu tiro.
A mulher segue nos olhando.
O pai dela levou um tiro na loja de meu avô.
Dizem que foi acidental.
Aqui tudo é assim: dizem...
O homem que atirou se chamava Ivan.
Foi a primeira vez que ouvi esse nome.
Só anos depois leria os Irmãos Karamázov.
Pronto, o espinho já saiu.
Papai ainda tá doendo e dói muito.
Já vai passar meu amor.
Me dá cavalinho papai?
Claro filha.
Obrigada papai.
De nada meu amor, só me prometa que quando passar seguirá andando descalça...

nuno g.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A casa de meu bisavô.

A casa continua igual.
Parada no mesmo lugar.
Olhando a mesma igreja.
Às vezes parece que corre nela um matemático perdido.
Ou uma assistente social procurando a cura pra rara doença do filho.
A escada continua quase a mesma.
Só modernizaram os três primeiros degraus para enganar os desavisados.
Lá em cima, a sétima da sétima geração de morcegos.
Papai, os morcegos não dormem de dia?
Dormem sim filha, foram nossos ruídos que os despertaram.
O quintal, o sol, a rede.
Tia Neuza extraindo seu sonho e sua metafísica da solidão absoluta.
A calçada, as cadeiras, a pracinha.
O relógio da coluna segue quebrado.
Sim filha, foi nessa pracinha que eu aprendi a andar de bicicleta.
Na bicicleta que o vovô Nuno lhe deu?
Sim filha, na bicicleta que o vovô Nuno me deu antes que o matassem.
O corredor ficou menor.
Os quartos ficaram menores.
A garagem onde eu passava horas com o tio joãozito ficou menor.
Ou será que fui eu que cresci?
Papai, você sonhou com o quê?
Sonhei com o tio joãozito, ele estava feliz, banhando-se no jaguaribe.
Nosso rio secou.
Nossas várzeas viraram criatórios de camarões.
Nossas árvores viraram lenha para fornos de cerâmica.
Nosso barro virou telha, tijolo e cédulas de cem reais.
A casa segue a mesma.
No mesmo lugar.
Exposta ao olhar da igreja.
Às vezes parece que vemos rosinha, a beata, acendendo alguma vela.
Outras vezes é Antônio, o maçom, proferindo alguma heresia.
A casa é feita de cera.
Não há nela artefato que não tenha em sua confecção algo de carnaúba.
Eu também sou feito de cera.
Eu também cheiro à carnaúba.
Papai, lembra que quando eu vi o tijolo de cera pensei que era rapadura?
Lembro.
A praça mudou.
A igreja mudou.
Só a casa permanece a mesma.
E se Maria a ama tanto.
É por também ser feita dessa cera que nem o fogo das tragédias derrete...

nuno g.