quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Rito fúnebre



para claudio reis e seu menino, o lorde basquiat

Eram sete os cavalos e traziam sal nas crinas e memória de flores perfumadas. Eram sete e saltavam sobre a relva e corriam como o vento e partiam anunciando a chegança de barcos e mais barcos e mais barcos abarrotados de horizontes e mais horizontes e mais horizontes. Eram sete barcos e setecentos horizontes montados sobre sete cavalos que traziam sal nas crinas e memória de perfumadas flores. Eram sete cavalos com olhos de chuva e patas de areia. Eram sete cavalos que como o Atlântico suportavam o peso de setecentos barcos e sete mil horizontes. Eram sete cavalos com olhos de noite e neblina navegando no rio de nossos corações. Eram setecentos mil rios dentro de um só coração. Eram águas e águas e águas e memórias de flores perfumadas que embriagavam os sete cavalos e arrepiavam suas crinas embranquecidas de sal. Eram nove e meia da manhã quando ele partiu como um raio que quase não produziu trovão. Vi o céu relampejar de dentro do fosso escuro em que eu estava. Suei e suei e suei como a tampa de uma cuscuzeira cozinhando macaxeira num fogão à lenha. Vi seus olhos nos olhos dos sete cavalos. Vi sua tristeza nos sete horizontes esfumaçados. Vi sua coragem nos sete mil barcos singrando o oceano de meu coração. Eram nove e meia da manhã e ele já não estava mais entre nós. Eram nove e meia da manhã e seu espírito se despediu do seu corpo de quatro patas e pelugem alvinegra e partiu. Eram sete cavalos embriagados saltitando no pasto e escapando das víboras venenosas semeadas pelos homens barbudos que vieram nos barcos de além-mar. Era uma chuva que chegava sempre que brincávamos em volta do fogo. Era uma neblina tão intensa que nossos olhos se fizeram olhos de noite para sobreviver à errância. Era domingo e ele já não mais estava entre nós e eu vi teus olhos nos olhos dele que brilhavam nos olhos dos sete cavalos e eu senti o perfume dele no perfume que emanava dos sete cavalos e eu guardei a memória dele nos sais de cristais que esbranquiçavam as sete crinas. Eram sete montanhas, sete mares e uma moto. Uma medalha de São Bento exorcizava o medo. Uma medalha de São Bento exorcizava a culpa. Uma medalha de São Bento exorcizava a ausência. Eram sete estradas feitas especialmente para sete cavalos. Eram sete milhões de anos reduzidos a um feixe de sete milhões de raios de luz numa manhã de domingo. Tua dor me tocou a pele. Tua tristeza me tocou os ossos. Te entreguei de volta o chão que um dia me entregastes e deixei que nele permanecessem os sete cavalos e a memória de alfazema e sândalo. Meu chão é teu e esse domingo é nosso. Sem saber estivestes aqui buscando a água da leveza na fonte dos metais pesados. Sem saber viestes abandonar teus excessos nesta caverna onde tudo é excessivo. Meus cavalos são teus e teus olhos brilharam nos olhos deles quando ele partiu. Teu chão te devolvo: com afeto, estima e barcos acostumados aos mares revoltos por tempestades. Eram nove e meia da manhã quando agarrei a primeira víbora e com os dentes afiados arranquei fora sua cabeça. Eram nove e meia da manhã quando saciei minha sede com o sangue dessa víbora e com seu chocalho fiz um colar para o mais antigo dos sete cavalos. Banhei esse chocalho em alfazema e sândalo e fiz reluzir toda a memória nele contida. Era um cavalo dócil e com ares infantis que tempos atrás tu acoplara à tua moto para exorcizar tudo o que pudesse te fazer dano. Era um cavalo como um cavalo foi Basquiat na primeira infância perdida de Alice. Era um cavalo exorcista como a medalha de São Bento e sua inscrição em latim. Era domingo e estávamos juntos em algum lugar que não era aqui nem acolá, num lugar que era estrada atravessando nuvens e rios cardíacos em direção ao mar. No meu sonho tua tristeza foi recebida por sete cavalos que te pediram para deixar ele ir para outro lugar. Em meu destino tu foste um chão para minhas sementes de ar. Hoje tua tristeza é minha e esse domingo é nosso até que o atabaque receba o açoite último das mãos avassaladoras daquele que nunca se deixa revelar.

nuno g.
Cachoeira, 07 de julho de 2019.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

terça-feira, 30 de julho de 2019

A capoeira do Gomes ou regresso ao jardim dos homens comuns


Acenderam um primeiro fogo na capoeira atrás da serra. Nenhum deles sabia o nome exato daquela capoeira e a batizaram como sendo a capoeira do Gomes, era a marca do atum em lata que lhes serviu de primeira refeição naquela clareira onde fizeram aquele primeiro fogo e passaram aquela primeira noite sem nada que os separasse de um céu estrelado e infinito e misterioso e enigmático e cada um deles àquela noite pensou em tudo o que tinha vivido até então e em cada sentimento que lhes tocara sentir ao largo de suas vidas antes de finalmente chegarem àquela clareira e acenderem aquele primeiro fogo e passarem a noite em claro olhando aquele oceano de estrelas e todos ali sabiam que aquela não era uma simples noite qualquer como todas as outras e todos ali sentiam no mais íntimo de suas vísceras e entranhas e músculos e ossos e veias e dentro mesmo da gordura de seus tutanos e dentro de suas próprias medulas que nada mais seria como antes e todos olhavam em silêncio profundo e inesgotável aquelas chamas daquele primeiro fogo e todos pensavam com seus corações contritos e fervorosos que daqui a pouco o sol iria nascer e esse não seria um nascer do sol qualquer como todos os outros dias de sol que viveram em suas perambulações secretas pelos recônditos abismos e pelas crateras insondáveis pelas quais passaram nesses anos todos em que estiveram vagando por sobre essa terra e pensavam que nunca souberam nem chegariam a saber por quê raios de coisas vieram parar aqui neste planeta a carregarem consigo essa estranha veneração pelos abismos e pelo verde das folhas e pela alegria dos bichos e pelos sonhos e todos os mundos loucos que se abrem e se revelam nos sonhos incompreensíveis que todos nós carregamos conosco e as legiões de fantasmas que nos acompanham em longos cortejos que emergem dos tempos passados e dos tempos anteriores aos tempos passados e dos tempos anteriores a esses tempos anteriores trazendo consigo estandartes com símbolos tão antigos que nada na memória daqueles homens lhe permitia capturar o sentido que tiveram algum dia para os ancestrais de seus ancestrais que os gravaram em couro pelos campos abertos destes sertões e pelas várzeas que separam estes sertões do mar esverdeado e das dunas de areias brancas e das falésias avermelhadas e dos urubus bailarinos que se alimentam de peixes que a ressaca do mar vomita nas areias da praia. A noite foi fria e aquele primeiro fogo foi bem mais que providencial, ainda que todos eles estivessem absortos o suficiente em seus próprios transes e mergulhados com tal intensidade num ritual pessoal de rememoração que em nada lhes atingia o frio e o fogo lhes servia mais que qualquer outra coisa de guia e condutor na longa viagem pela teia de ciclos infindáveis de mortes e nascimentos e outras mortes e outros nascimentos e outras mortes e mistério e sofrimento e lama e por tudo o mais que parecia definitivamente perdido e oculto na passagem inexorável do tempo e agora sim eles entendiam que o tempo guardava sim suas dobras e nessas dobras repousavam muitas sementes de coisas que até aquele momento pareciam esquecidas em algum insólito rincão da vasta e efêmera eternidade em que suspenso, como uma jangada do litoral leste da província do Siará Grande, se encontrava o ponto minúsculo e insignificante do efêmero instante presente. Ventou muito enquanto aqueles homens atravessavam com braçadas fortes as camadas sedimentadas de areias de águas e de tempos: as grandes porções geográficas de dor, mistério, lama e sofrimento com suas aprazíveis ilhas de alegria, gozo e serenidade. Ventou muito, mas ninguém deu nenhuma importância a isso. Estavam todos em transe e quando o sol os arrancou com violência do transe em que estavam já não eram mais os mesmos. Tiveram que trabalhar duro. Levantar as choupanas, cobrir com palhas os abrigos clandestinos e varar as madrugadas recebendo as armas e os alimentos e as flores que lhes chegavam quando a escuridão se fazia absoluta e cobria tudo com os seus setecentos véus. Não se olhavam rosto-a-rosto, nunca. Não queriam saber nada uns dos outros, nada. Isso seria perigoso demais. Era a lei da guerra. Todos ali sabiam que na tortura toda carne se trai e não saber de nada era a única medida de segurança eficaz para evitar o infortúnio das traições. Esqueceram os próprios nomes e as datas dos próprios aniversários. Aprenderam a beber água diretamente do rio. Aprenderam a caçar, a pescar e a ler os sinais celestes. Foram descobrindo dentro de si mesmos uma nova humanidade e uma nova maneira de seguir caminhando sobre a terra e um novo jeito de sentir e de comer e de trepar e de executar cada gesto do corpo e de olhar e de assimilar cada cheiro novo e começaram a aprender a falar com as pedras e a escutar as pedras, a falar com o rio e a escutar o rio, a falar com a noite e a escutar a noite e começaram a entender que cada um deles era só uma ínfima parte de uma gigantesca teia de seres vivos interligados uns com os outros por uma enigmática e gigantesca teia de afetos e de energias e que tudo que acontecesse com cada um deles afetaria diretamente a todos eles e às pedras e ao rio e à noite e ainda assim sabiam que não deveriam olhar rosto-a-rosto nem saber o nome nem a data de nascimento nem qualquer outra coisa que seria caguetada sob a violência covarde dos instrumentos de tortura espalhados como armadilhas nas rotas incertas dos seus destinos. Comeram atum em lata e nomearam aquela capoeira com a alcunha de capoeira do Gomes. Acenderam um primeiro fogo e desceram em botes precários de madeira a cachoeira das eras e viram coisas de outros tempos e ouviram vozes de outras épocas e sentiram cheiros de mundos desconhecidos e devoraram alimentos que nunca haviam vistos e se deram conta que eram feitos de matérias e elementos que nem imaginavam serem passíveis de existência e caminharam em círculos em volta do segundo fogo e caminharam em círculos em volta do terceiro fogo e assim por diante até que perderam a conta e já todos os fogos eram um só fogo que ardia e queimava e transformava em pó tudo o que precisava ser reduzido à cinzas e eram muitas as coisas que clamavam por regressar ao seu estado originário, à sua condição de cinzas. Mas o fogo era também algo perigoso, sua fumaça poderia denunciar o acampamento, poderia trazer ao coração daquela irmandade os instrumentos metálicos de morte e de tortura, poderia trazer a ira e a impiedade e a cólera e o delírio dos obscuros. Os processos corriam seguindo ritos sumários, a cegueira e o rigor agiam de maneira implacável e as execuções se converteram em rotina e os deuses que cuidavam da justiça foram ofendidos, foram insultados, foram condenados ao exílio perpétuo e desde o exílio seguiram trabalhando e mantiveram vivas suas esperanças e redobraram suas forças e aprenderam coisas que não sabiam e se lembraram de outras que já haviam esquecido e viram vagalumes piscando e piscando e piscando e ouviram onças cantando e cantando e cantando e sentiram as gotas grossas da chuva molhando seus cabelos molhando suas pálpebras molhando as palhas de carnaúba com que cobriram o corpo e foram planejando centenas e centenas de pequenas e delicadas insurreições e foram acendendo milhares de centelhas de pensamentos de revolta e de angústia e zilhões e zilhões de faíscas de sonhos febris de amor e de serenidade enquanto as pedras deseducavam cada célula de seus corpos biológicos e cada sentimento de suas estruturas psíquicas e cada espécie do ecossistema próprio que servia de habitat às suas indevassáveis individualidades. Tudo isso se passou atrás daquela serra, dentro daquela neblina. O mês era o de agosto e chovia muito. A capoeira eu sei bem onde fica, mas não posso te levar lá. No meio dela, enterrado a sete palmos de fundura, tem uma lata enferrujada de atum. Isso é tudo o que me foi permitido te revelar hoje. Morte, mistério, dor, sofrimento, lama e o heroísmo e as pequenas glórias de homens comuns que decidiram abandonar tudo que já não fazia mais sentido e se reunirem em volta do fogo e escutarem as línguas da pedra e do fogo e que foram levados por essas línguas através de ruínas e de paisagens decrépitas e puderam assim sobreviver àqueles tempos de violência e de instrumentos metálicos de tortura e de traições gratuitas e de bizarras vulgaridades. Aqueles homens nunca mais seriam os mesmos. Eles estavam definitivamente alterados. Haviam sido arrancados de suas órbitas e agora dançavam com a grande serpente e agora sorriam como crianças e agora sabiam que não haveria mais volta e que o planeta seguia girando e que eles estavam soltos na via láctea e suas raízes e âncoras haviam sido decepadas para sempre pela guilhotina implacável do tempo. Isso é tudo o que me foi permitido te revelar hoje. Isso é tudo. Essa é a parte que me foi permitido te contar sobre o caminho de dor, sofrimento, lama e pequenas glórias e pérolas de serenidade que percorreram aqueles homens em sua longa jornada de regresso ao jardim dos homens comuns. Adiós.

nuno g.
Cachoeira, 30 de julho de 2019.

sábado, 13 de julho de 2019

Às divindades sequestradas


   Descumprimos as prescrições, esquecemos as oferendas, rompemos as interdições. O céu se fez vermelho de sangue e a água dos rios ferveu como nos primórdios da criação. Foi longo o caminho que levou os decaídos ao poder e durante este tempo nós estivemos festejando. Nos distraímos, deixamos de lado nossas abluções. Eles foram crescendo, ganhando espaço a pulso, infestando o labirinto de pulgas, piolhos e ratos. Quando acordamos já era tarde e não havia ar que não estivesse contaminado e então nos demos conta que nosso fogo estava apagado e enquanto dançávamos esquecemos de alimentá-lo. Dormimos em demasia, não acendemos as velas necessárias e deixamos o incenso mofar. Eles procriaram em tempo hábil, cumpriram todas as normas e os prazos, se apossaram do pouco que havíamos guardado e nos olharam com olhos de escárnio. Invocamos a chuva e a chuva não veio, desaprendemos a extrair o sal das pedras, dos vegetais e das águas do mar. Eles nos ofereceram risadas de escárnio. Foram apagando as luzes do labirinto até que tudo estivesse em completa escuridão. E nós, encurralados pela quantidade excepcional de feras baixamos as cabeças e fomos desfazendo nossos pactos antigos. Entregamos tudo. Nossas roupas, nossos alimentos, nossos utensílios de higiene e, por último, nossa preciosa dor. Eles queimaram nossas flores, escarraram em nosso jardim e pisotearam nossa horta. Eram muitos e traziam no semblante a memória da peste. Eles eram rudes e gravaram em nossa pele a memória da peste. Eles sabiam à morte e foram implacáveis com os nossos anos de descaso. Nossos membros estavam atrofiados e nada havia para colher nos campos que não havíamos semeados. A voracidade com que se apossaram de tudo não nos permitiu reação, estávamos atônitos e o único que nos restava era uma inútil catarse. Vimos os faróis de seus automóveis cruzando as avenidas. Vimos os faróis de seus automóveis se alastrando pelas ruas menores. E quando os mais violentos deles se espalharam como brasas pelos becos de nossas vilas e aldeias entendemos que já era demasiado tarde e não nos restava mais nada além das mãos com as quais escrevíamos palavras confusas e versos desconexos no ar gelado que escapava da boca deles e dominava a atmosfera. O preço da nossa distração estava sendo cobrado com mais juros e correção do que havíamos imaginado. A chuva não chegava. Nada crescia nos campos. A peste se propagava entristecendo todos nossos animais. Entregamos tudo enquanto dançávamos. Deixamos de orar e de vigiar quando orar e vigiar era o que mais necessitávamos. Nossas casas estavam tomadas pela umidade e pelo musgo e não mais nos servia de abrigo. Estávamos nus caminhando sobre a terra arrasada e o único que víamos era uma que outra catarse desnecessária. Eles exibiam nos cumes das montanhas suas novas habilidades. Eles executavam com perfeição seus malabarismos obedecendo à exatas equações matemáticas que desconhecíamos as fórmulas e as composições. Quando um de nós caía, exausto pela jornada, eles se limitavam a escarrar sobre o cadáver. Quando um de nós chorava, tomado pelo clamor ante a certeza do insuportável, eles se limitavam a escarrar sobre estas lágrimas. Fomos fúteis e o preço de nossa futilidade estava sendo cobrado. Eles vinham de longe e traziam a força que acumularam enquanto nós deixávamos escapar entre os dedos as sementes que nos foram ofertadas. Vimos as máquinas metálicas chegando e destroçando os gravetos de nossas barricadas. A nossa língua, reduzida à máxima vulgaridade, se revelava incapaz de comunicar o que sentíamos e o que pensávamos. O labirinto era deles e os minotauros dominavam toda a terra. Não havia onde se esconder, não havia onde se ocultar. Nossos pensamentos estavam congelados, nossos músculos estavam paralisados, nossos desejos estavam enfermos e nossos sonhos haviam se convertido irremediavelmente em pesadelos que não conseguíamos decifrar. Escrevíamos frases sem sentido no ar e essas frases se convertiam em nossos novos e imprevistos algozes. Escutávamos o ressoar dos chicotes que açoitavam a tristeza de nossos pequeninos animais domésticos abatidos sobre a terra arrasada. Eles imprimiram seus selos esotéricos por todas as partes. Eles ofereciam nosso sangue à sede das perversas entidades que lhe acompanhavam. E a sede era infinita assim como infinito era o séquito dos seres decaídos que lhe acompanhavam. Nossos dedos atrofiados queimavam antes de tocar o ar onde pretendiam escrever qualquer coisa que nos salvasse. Todos os roteiros haviam sido queimados. Todas as bússolas estavam desnorteadas. Eles davam o compasso. Eles imprimiam o ritmo. Eles zombavam de todo o tempo em que distraídos assistimos a dissolução dos reinos circulares. Buscávamos ervas para cozinhar um chá e não as encontrávamos. Buscávamos chão para enterrar os náufragos e chão não havia. Eles eram muitos e estavam por toda a terra. A nossa aflição era imensa e o sol não dava conta de evaporar o mar de lágrimas em que estávamos mergulhados. Nossas crianças nos olhavam com olhares de súplica e nenhuma reação nossa era capaz de aplacar desespero tanto. Tamanha era a ferida que não cicatrizava. Não havia remédio, não havia consolo, não havia estação onde repousar nossa tormenta. Eles estavam dentro de nós, circulavam por nossas veias e artérias e se apossavam de nossas múltiplas terminações nervosas. Eram falanges e falanges e falanges incontáveis. Traziam a memória sem-fim de nossos crimes de nossos pecados de nossas inércias. Conheciam nossos pontos fracos e atacavam sem trégua ou piedade. Cortaram nossos cabelos, deceparam nossas cabeças e ofereceram nosso sangue aos bastardos de todas as eras. O futuro era deles e isso nos ensinavam enfiando à estocadas espinhos afiados em nossos corações aquáticos. Desaprendemos a dançar. Desaprendemos a rezar. Desaprendemos a simplicidade de nossas primeiras brincadeiras. A peste se espalhava. Os piolhos nos devoravam. Nossa carne, inflamada por tudo que não havíamos feito a tempo, fedia como fedem os esgotos das grandes cidades. Eles sequestraram nossas divindades. Era a última parte do plano que com a frieza de um dramaturgo perverso e audaz executavam à luz do dia. Nada tinham a esconder. Nada temiam. O mundo era deles e só nos restava ajoelhar perante a obscuridade que os sustentava. Nossas mãos tremiam como varas verdes. Nosso umbral de areia movediça nos tragava sem que pudéssemos sequer assimilar as desrazões e as suspeitas que nos conduziram até agora. Os incensos não ardiam. As velas não queimavam. As canoas não se sustentavam sobre as lâminas de água. O veneno não aderia às flechas. Nossos animais não mais brincavam em nossos jardins. Eles haviam sequestrado nossos deuses e agora era tarde. Eles haviam sequestrado nossos deuses e o aqui se convertera num campo próspero e fértil à proliferação de toda a miséria. A tristeza corroía nossas almas e a cegueira em que nossa distração nos mergulhara se desfazia junto às ilusões que nos permitiram seguir vivos. A embriaguez passara rápido demais e a realidade se apresentava com uma crueza inédita e uma crueldade despovoada de qualquer máscara ou disfarce e isso nos parecia insuportável. O labirinto era deles e apagado foram todos os fios que poderiam nos conduzir para além do vale de medo, culpa e lágrimas em que estávamos mergulhados. O que estava acontecendo não podia ser real, mas sabíamos que se tratava da única realidade possível. Nossa angústia os alimentava. Nossa paralisia os enchia de gozo e prazer. Todas as possibilidades estavam reduzidas a nada. Todas as esferas imaginárias que abasteceram nossas necessidades energéticas se desfizeram no ar ao simples contato com o bafo deles. A descrença povoou nossos reinos circulares e toda nossa fé se revelou ser um amontoado de quimeras tolas e fantasias inúteis. Eles sorriam. Eles cuspiam. Eles esbravejavam. Tudo era escárnio. Tudo apodrecia. Tudo se dissolvia. Tudo nos aniquilava. Já havíamos passado por tudo aquilo, mas havíamos nos esquecido. Não era a primeira vez que eles venciam a batalha. Não era a primeira vez que nos despojavam de tudo o que nós éramos. Não era a primeira vez que nos víamos reduzidos a nada. Mas havíamos nos esquecido de tudo isso. Havíamos esquecido da façanha do Alecrim. Havíamos esquecido da chuva de asteroides. Havíamos esquecido das memoráveis batalhas. Estávamos em transe e eles estavam dentro de nossos corpos. Estávamos em transe e eles estavam dentro de nossos sonhos mais íntimos. Estávamos em transe e as trombetas deles não nos permitiam escutar nenhuma canção de ninar. As ondas do mar de fogo chegavam aos nossos pés como outrora chegava a alegria de nossos doces animais domésticos. A ira deles era maior que nossa esperança. As feras estavam soltas e o campo tornara-se um lugar terrivelmente perigoso. As borboletas sucumbiam à bestialidade dos indevassáveis. O silêncio de nossas divindades nos evaporava e cada segundo se estendia ao infinito e prolongava o terror que nos açoitava. Nossas armas não funcionavam. Nossas preces voltavam ao lugar de origem como bumerangues enfeitiçados. Nossos cotovelos estavam mergulhados em lagos de ácidos e os mais perversos e insensatos demônios circulavam sem resistências ou obstáculos pelas ruínas do que outrora foi nossa floresta sagrada e nossos templos adoráveis. Implorávamos por chuva e a chuva não chegava. Implorávamos por um lugar de descanso e lugares de descanso não se apresentavam. Desejávamos um instante de trégua, mas instantes de trégua no horizonte não surgiam. Éramos cada vez mais menos e estávamos acossados. Nossos pés estropiados pelos paralelepípedos não encontravam forças para seguir. Não havia para onde ir. Não havia onde se esconder. Nossa jornada chegara ao fim. Eles venceram. Eles dominaram o labirinto. Eles nos impuseram suas sentenças e as executaram com a frieza de um dramaturgo amaldiçoado e ressentido. Nossos caminhos estavam fechados e nossas oferendas não eram recebidas pelo senhor de todas as encruzilhadas. Nossas mãos tremiam. Nossa carne queimava em brasas. Nossos sonhos estavam convertidos em pesadelos indecifráveis. Nossas crianças nos olhavam com aflição e nós não encontrávamos reação que as apaziguasse. Nossos animais estavam enfermos e morriam sem que encontrássemos maneira de confortá-los. Tudo nos recordava que era tarde demais e que todo nosso otimismo se perdera irremediavelmente no coração das trevas. Tudo nos recordava que era tarde demais e que nossa terra prometida se perdera na fugacidade do vento. Tudo nos recordava que só nos restava o vale de lágrimas das antigas profecias. Tudo nos recordava a supremacia deles. Tudo nos recordava a nova hegemonia. Tudo nos recordava o tempo que desperdiçamos celebrando o que ainda não possuíamos. Tudo nos açoitava e a aflição de nossas crianças multiplicava a nossa dor. O selo deles estava impresso em cada sinal da peste que se abatia sobre nossos animais. A nossa horta estava morta. O nosso campo se transformara num piscar de olhos numa terra árida e a sequidão dela se entranhava em cada célula dos novos corpos que habitávamos agora. Fazia frio e não encontrávamos agasalhos. Tínhamos fome e não encontrávamos alimentos. Queríamos orar e vigiar, mas nos foram roubadas as palavras e os gestos. Nossa jornada chegara ao fim e sequer podíamos recordar dos apocalipses anteriores pelos quais havíamos passado. Tudo estava reduzido à cinzas. A nossa dor era imensa, a nossa devoção não encontrava alvo. Como um bumerangue o nosso descaso e as nossas pretensões retornavam ao vazio onde floresceram. Eles sequestraram o que éramos. Roubaram de nós o que fomos. Apossaram-se de nossos corpos e alteraram irremediavelmente nossa capacidade de sentir. Eles se fizeram a matéria com a qual poderíamos moldar o que viríamos a ser. Eles se tornaram o que somos. Nossa distração os fez crescer. Nosso esquecimento os alimentou. As brasas do ódio que trouxeram consumiram nossa imaginação. Eles eram muitos e se reproduziam como vermes sob a lama. Nossa impotência se fez maior que a nossa capacidade de veneração. E as doenças se alastraram por nossas vilas e aldeias sem que sequer chegássemos a compreender as desrazões do que ocorria. Era tarde demais. Queríamos morrer e a morte não chegava. Queríamos desistir e os nossos corpos já não obedeciam. Queríamos descer uma terceira vez aos infernos e as portas dos infernos não se abriam. Nossos desejos estavam distantes demais da realidade e eles haviam se convertido em realidade numa velocidade rápida demais. Andamos distraídos por muito tempo e isso era imperdoável. Eles eram implacáveis e aprendemos isso da pior maneira possível. Eles eram senhores das nossas náuseas moribundas e nossas náuseas eram tudo o que nos restava. Nossos corações sangravam e não havia remédio que estancasse a sangria desatada. A noite seria longa e tenebrosa, só a inércia movia nossos passos pelos caminhos de trevas que adentrávamos. Não havia estrelas no céu. Não havia ciclos lunares a nos orientar. Não havia astros se movendo na abóbada celeste. Nossas velas não acendiam. Nossos incensos não perfumavam. Nossa distração e nosso esquecimento não eram perdoados. O vale de lágrimas se expandia sobre a terra prometida como um buraco negro se expande num universo recém-parido por uma divindade sequestrada. Nossos membros não obedeciam a nossos comandos. Nossos sentimentos não correspondiam às nossas necessidades. Nosso espírito não habitava nosso corpo e nossas mentes se dispersavam como uma boiada que atravessa uma terrível tempestade. As feridas não cicatrizavam. Não tínhamos ervas para cozinhar os chás. O nosso medo alimentava a voracidade dos que nos consumiam. Estávamos enferrujando e nossos ouvidos não suportavam os ruídos que produziam o movimento de nossos corpos oxidados. Era tarde demais. Eles beberam nosso sangue. Eles comeram nossa carne. Eles torturaram o nosso sol até a morte. Eles nos deixaram vivos apenas pelo sádico prazer de assistir a nossa procissão se arrastar eternamente nessa árida terra que nos ofertaram. Fomos nos transformando em escamas de um lagarto sem órgãos. Fomos nos transformando numa serpente inútil que vaga sem direção buscando as asas que lhe foram decepadas. Fomos transformados em esqueletos descarnados que com suas pupilas dilatadas vociferam às margens de ilhas brutalmente dissecadas. E como desejando com incalculável avidez romper de maneira total e irreversível qualquer elo entre nós e nossas expectativas chegaram os cavaleiros leprosos das galáxias ocidentais e montaram seus acampamentos e ceifaram os vestígios da última e mais primitiva de todas as constelações que por séculos e séculos houvera sido nosso acalanto, nossa promessa, nossa aprazível morada.

nuno g.
Cachoeira, 13 de julho de 2019.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Visão agônica de um cavalo branco relinchando na neblina ou os cem mil degraus da escada espiralada no interior da roda de samsara


para os que chegam quando cessam as tempestades

  Assentei um santo neste chão de barro quando tinha onze anos. Assentei um santo neste chão de barro quando tinha onze anos e fiz dele o fundamento do destino todo. Assentei um santo neste chão de barro, enterrei seu corpo e com a fúria de meu joelho esquerdo soquei esse mesmo chão de barro. Soquei este chão de barro até que em pedra se fizesse o barro deste chão onde assentei um santo quando tinha ainda onze anos. E quando em pedra se converteu esta parcela de chão de barro nela esfreguei esse meu joelho esquerdo que de tanto atritar nesse chão de macio barro transfigurado em áspero mineral jorrou sangue como em Caldas do Jorro jorra termal água. E esse sangue que jorrou de meu joelho esquerdo irrigou cada veio do áspero mineral que outrora fora macio barro. E de cada veio desse chão de pedra que um dia fora chão de barro floresceu uma flor negra que por intuição e ignorância batizei de tulipa de mil fogos. E em cada uma dessas flores negras que por intuição e ignorância batizei de tulipa de mil fogos surgiram mil pétalas que na forma na textura e na viscosidade se assemelhavam a mil línguas de algum animal selvagem. Reparei que meus pelos se arrepiavam à simples proximidade dessas pétalas que pareciam línguas que cresceram em flores negras que batizei de tulipas e que nasceram da pedra em que se converteu o barro com que enterrei o corpo do meu santo e todos os seus íntimos pertences. Acendi uma vela, acendi um incenso, rezei em língua que desconheço a gramática, a sintaxe, a fonética e a origem. Os hieróglifos que gravei nesta pedra com o sangue que jorrou de meu joelho esquerdo eram a transcrição de um canto muito arcaico e severo. Os hieróglifos que gravei nesta pedra áspera com o sangue que jorrou de meu esquerdo joelho em chamas eram a transcrição musical do uivo de três indecifráveis onças selvagens pertencentes a distintas raças e habitats. Uma era parda, outra era russa e a terceira pintada. Cada uma delas trazia gravada em cada pata uma digital inusitada. A primeira trazia como selo uma espécie de cruz duas vezes cortada e que na raiz trazia um círculo que não se fechava. A segunda trazia uma chave enfeitiçada que cambiava de cor a cada mirada e que parecia feita de movediça areia de tal maneira que sua embocadura se movia como águas de maré. A terceira trazia uma pirâmide que de tão branca meus olhos identificaram rapidamente como sendo feita de sal. Com essas patas imprimiram essas onças selvagens todos os arabescos que envolvem os hieróglifos que inconscientemente eu gravara naquela pedra em que se convertera o barro da parcela de chão onde assentei meu santo e todos seus pertences íntimos forjando assim o fundamento e o labirinto daquele que viria ser meu inescapável destino. Acendi nessa pedra uma vela e sua chama era azul. Acendi nesta pedra uma vela e de sua chama azul escapavam faíscas azuis. Acendi nesta pedra uma vela e na lâmina das faíscas azuis que escapavam de sua chama também azul vi refletidos os olhos da primeira onça, a parda. Seus olhos eram da cor das esmeraldas verdes que os navios negreiros contrabandeavam da África e desembarcavam nos portos destas colônias onde seguimos assentando santos e convertendo em ásperas pedras macios chãos de barro. Acendi uma segunda vela e vi os olhos da segunda onça e estes eram brancos como são brancas as hóstias imaculadas depois de pelas mãos do vento consagradas. Acendi uma terceira e derradeira vela que possuía uma cera que ao invés de parafina era constituída por átomos e moléculas oriundas de distintos objetos astronômicos amalgamados por uma seiva escura de forte odor e sabor forte que em muito me lembrava a resina de uma planta amazônica que um pajé de beiços esticados me ensinara num sonho que tive em algum momento de minha primeira infância. Assentei um santo neste ponto exato, suspenso no meio do nada e equidistante de toda e qualquer estrela de nossa humilde galáxia. Assentei um santo neste sertão e como não tinha lágrimas o reguei com sangue, com esperma e com a primeira saliva do amanhecer. O sangue se fez flor, do esperma nasceram as três onças e a saliva cristalizou como cristaliza o mel das jandaíras em sua mais primitiva florada. Desses cristais me alimentei por anos alternando épocas de voracidade e parcimônia. Desses cristais retirei as substâncias que me compõem e que formataram este corpo tal como se apresenta hoje. Nunca utilizei outra ferramenta para colher esses cristais que não as próprias mãos e, por escassez permanente de água, nessas mãos sempre havia algo de poeira algo de suor algo da indevassável e inquebrantável veneração pelo santo assentado neste chão de barro. Esqueci de tudo, menos disso. Me afastei de todos, menos deste santuário de barro em pedra transubstanciado. Minha fé, meu coração e todos os palimpsestos que produzi foram sendo ali depositados. Minha fé, meu coração e esses palimpsestos todos foram se sedimentando de acordo com seus pesos suas texturas e a substância de suas cores e vontades originando esse santuário. Mil foram os degraus que eu percorri no interior deste labirinto. Mil foram os náufragos que eu vi serem engolidos pela ausência de águas. Mil foram as serpentes que encontrei decepadas nas margens dos degraus dessa escada espiralada. Mil foram os dias que se passaram desde que assentei aquele santo neste chão de barro. Mil foram os anos que se passaram enquanto eu intencionalmente arranhava meu joelho esquerdo nesta pedra áspera. Mil foram as lágrimas que não chorei. Mil foram as ausências que se transfiguraram em mil fantasmas e cada um deles era portador de mil presságios. Nunca cortei os cabelos, nunca fiz a barba. Tive mil corpos, habitei mil moradas. Sangrei como goza um vulcão quando em erupção sente esvaziar-se do insuportável calor do magma em estado líquido. Sangrei como um bode sacrificado na sombra de uma oiticica em homenagem ao nascimento de uma criança. Sangrei como sangra um cometa ou um asteroide que desgarrado de sua órbita se decompõe ao se aproximar da atmosfera de algum planeta. Sangrei como uma fada de pulsos abertos quando a borboleta das terras geladas do norte lhe rói a pele, os cílios e os ossos. Sangrei como sangram as onças selvagens quando sonham com seus ancestrais que viveram o tempo da chegança dos conquistadores com suas carabinas, suas cegueiras e o relinchar ensurdecedor de seus cavalos. Sangrei e suei, suei e sangrei. E o meu corpo se fez pífano. E o meu joelho se fez abismo: buraco negro, ferida aberta e permanente cavilação. E o meu corpo se fez mangue e de mangue foi se transformando em semi-árido e logo regressou a ser sertão. E o meu corpo seguiu pulsando em absoluta arritmia e foi se desfazendo de suas folhas de suas cascas e de todas as cicatrizes por ele espalhadas. O meu corpo se tornou abruptamente florescente e começou a irradiar ondas de mil cores. O meu corpo se fez chão de barro se fez chão de pedra se fez onça parda se fez onça russa se fez onça pintada. O meu corpo se fez corpo do santo por minhas mãos assentado. O meu corpo se fez canto se fez olho e se fez cera de espécie rara. O meu corpo se fez assentamento, destino e fundamento de uma tragédia silenciada. Enfim, o meu corpo se fez nada e desprovido de corpo pude regressar ao leito pedregoso do rio seco que foi minha primeira morada. Desprovido de corpo pude regressar até onde, apesar de nunca ter saído, nunca havia estado. Desprovido de corpo pude outra vez abraçar as pessoas por quem nutria algum afeto. Desprovido de corpo pude brincar de ser vegetal e sonhar os sonhos selvagens que só os vegetais podem sonhar com plenitude. Desprovido das ausências sedimentadas de meu santuário fui separando os grãos de poeira e as gotas de suor em minhas mãos acumuladas. Minha mãe, meu pai e o gavião foram os primeiros órgãos que voltaram a ganhar forma. E eram formas de unhas de algum predador já extinto. Eram unhas negras, roxas e afiadas como nenhuma outra lâmina neste mundo tenha sido vista. Eram unhas que feriam fundo a carne e sentiam imenso prazer em atravessar as camadas de pele, músculo e gordura das presas que caçavam. Rompiam veias, nervos e artérias com a mesma facilidade com que uma faca quente atravessa um tacho de manteiga. Foi destas unhas que voltei a nascer. Elas foram o embrião deste novo corpo que agora se apresenta. Minha mãe, meu pai e o gavião. Os três dispostos numa encruzilhada numa tal forma que denunciava todo o carinho investido na preparação daquela oferenda. O segundo a nascer foram os joelhos e depois os cotovelos e depois os pulsos e todas as dobradiças do novo corpo. Depois o sangue depois o sêmen depois o suor e depois todos os líquidos. Quando enfim senti que tinha novamente língua lambi minha nova pele e senti o seu sabor. Quando enfim senti que possuía dentes outra vez mordi e mastiguei meus próprios músculos a fim de reconhecer seu sabor. Quando senti uma vez mais narinas no meio da imensidão da cara ainda sem rugas cravos ou espinhas aspirei todo o oxigênio do universo e gozei com a ardência deste oxigênio ocupando os vácuos de minhas entranhas. As montanhas eram enormes, o mar era imenso e o meu novo corpo era pequeno como o corpo de uma formiga. As montanhas eram enormes, o mar era imenso e o meu corpo era escuro como o não-lugar onde enterrei o corpo de meu santo e seus pertences íntimos. Tudo estava fora do lugar e só sobrevivera meu destino e meu fundamento. As flores negras e o canto das onças. As montanhas e o mar. O sangue e o suor. A matilha de espíritos decaídos em sua jornada solitária pela terra do invisível. Os fragmentos de astros desfeitos na implosão que se seguiu à sua entrada na órbita de nosso miserável planeta. E aquelas unhas fantasmagóricas parindo meus novos corpos que se alinhavam em fila indiana como se fossem membros de alguma corte marcial de zumbis produzidos pela magia do vodu. Minha testa se inclinou até a pedra e suavemente se deixou arranhar por sua aridez. E durante mil anos minha testa sangrou ao atrito com a pedra que um dia foi barro, onde um dia assentei meu santo. Até que a pedra tocou meu crâneo e descobriu que este era feito de matéria mais dura que ela. E como se fosse uma broca de diamante meu crâneo foi comendo a pedra e esta foi esfacelando em grãos de areia que em seguida se transformavam em macio barro. E quando nada mais restava que não fosse barro acendi uma vela e um incenso. Vi onças, flores negras e úmidos cristais. Comi os cristais com as mãos como um dia havia comido o feijão de Ogum. E enquanto comia os cristais sentia minha pele se arrepiar como se arrepiara cada vez que eu me aproximara das flores negras que batizei de tulipas. Ouvi as onças cantarem e vi os invasores chegarem com suas carabinas e sua sede inextinguível. O cavalo branco ainda relinchava na neblina e meus pés haviam percorrido os cem mil degraus da escada espiralada no interior de samsara. Estendi a mão e levei meu último corpo até o chão de barro onde quando tinha onze anos assentei um santo. Ele disse adeus, uma lágrima escorreu pela minha face e sem dizer palavra nenhuma me recolhi ao silêncio fulgurante de um sol completamente desconhecido suspenso num mar de éter, desprovido de fundamento, de destino e de qualquer promessa ou raiz que lhe conferisse lógica, sentido ou razão.

nuno g.
Cachoeira, 01 de julho de 2019.

terça-feira, 28 de maio de 2019

sem título


por amor
obrigaram-me a ajoelhar
e escancararam-me o corpo
fazendo de mim
parte da coletiva oferenda
eternamente
estuprada
por este
falso branco


Francisco Welligton Barbosa Jr

quinta-feira, 23 de maio de 2019

إلى حمار-ب

¿
هكذا
إذًا
لِ
نجعل
من
أرضنا
أرضًا
موعودة
ولِ
نجعل
من
أرض
بوليفار
قطاعَ
غزة
و
من
صعيد
البيرو
ضفة
غربية
?

نونو ج.

tradução: Shadi Rohana

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O jardim dos baobás


Nossos passos, nossas promessas e
   o suor dos nossos corpos
saindo de casa forte ao meio-dia e
   caminhando em direção ao antigo
sem nenhuma morbosidade no ventre ou
   no olhar
meu ex-apartamento, meu ex-marido e meu
   pânico de lagartixas
as crianças burguesas brincando no parque da
    jaqueira
o tédio estampado na cara dos porteiros dos
    arranha-céus
os automóveis se arrastando no asfalto e dando voltas
    sobre si mesmos
meu segundo ex-apartamento, meu segundo ex-marido e meu
    eterno pânico de lagartixas
o rio pedindo socorro e zombando dos
     sorrisos que o aniquilam todos os dias
as sirenes domingueiras, os semáforos domingueiros
     as famílias domingueiras empurrando carrinhos de bebês
          e se empanturrando de doces e guloseimas domingueiras
Nossos passos chegando ao Derby e
     descansando da pressa contida nas
         derrotas da vida toda
sua mão acariciando minha suave ereção espontânea
sua mão acariciando a fauna e a flora
     deste repositório de agudas infecções
a juventude protestante passa entoando cânticos de
     louvor à própria desgraça
o fiteiro nos regala uma água com gás bem gelada
simpáticos policiais nos dizem boa tarde
professores universitários e taxistas cegos e profissionais liberais
     disputam cada centímetro de asfalto
        com uma voracidade miserável
fotografias publicadas diretamente no instagram e nas
     orelhas dos livros que aguardam por ser escritos
minha mão acaricia sua buceta
meu ex-apartamento, meu ex-marido,
     meu pânico de lagartixas
uma segunda ereção espontânea e
     vendedores de mapas para personagens de fábulas
Nossos passos tocando o mistério encravado nas unhas de glitter
     da avenida conde da boa vista
as crianças burguesas brincando no parque
     a saudade mastigando o terror e a
          carcaça dos inimigos destroçados
o sangue ainda fresco – apesar dos
     quarenta anos passados – avermelha a quentura do asfalto...
as coxas brancas, o sonho branco,
     o sêmen azulado
          expostos à curiosidade dos infames
               jornalistas de plantão
expostos à curiosidade infame dos
     desavisados transeuntes
expostos à miséria moral dos disfarces carnavalescos...
a juventude protestante enchendo nosso saco
     com seus cânticos desgraçados
o rio gritando por socorro
minha ex-morada, meu ex-bancário aposentado,
     minhas lagartixas de estimação se alimentando dos cupins do armário
os ônibus, as bicicletas e as notas de rodapé
     destes edifícios nos olhando com suas enormes e assustadoras
          pupilas dilatas
o cinema, o rio e o martírio dos heróis de 17 nos olhando
     com seus cabelos assanhados
– aos pés de qual destas pontes estará
     a famigerada estátua?
a qual destas nuvens me levará esta
     escada espiralada?
quem deterá o apodrecimento irreversível
     desta cidade de siris e homens pálidos? –
o fiteiro nos regala uma água com gás
     suficientemente gelada
alimentamos os pombos com pipocas
     enquanto vemos as florzinhas universitárias
          ensaiando passos de frevo requentado
& um cortejo de eguns desfilando
     ao som de um maracatu rural
Nossos passos, nossos pensamentos, nossos ancestrais
     se arrastam em direção ao pátio do terço
onde três anos atrás conversei com uma pomba-gira alucinada
tuas mãos lambuzadas de dendê & leite maltado
     agarram meu pau como quem
         agarra a voz do oráculo antes que ele pronuncie
              qualquer palavra
a feirinha com seus pratinhos de
     cuscuz macaxeira e charque e
          suas bonequinhas de pano
               e seus yodas vestidos de frade
– aos pés de qual dessas pontes
     estará a estátua? –    
águas, edifícios, velas, siris contaminados,
     calçadas ensanguentadas
minha mão alisa sua bunda e suas unhas traçam arabescos indecifráveis na pele que
     reveste minhas omoplatas
escarro na tua boca e te beijo enquanto você sorri com uma ferocidade delicada
é linda a cidade que eu escolhi para amar
dez reais um acarajé sem cadáveres
pipocas aos pombos e facções de jovens se degladiando entre as
     esculturas soníferas de Brennand
minhas dívidas saltando como
     rãs e formulários e formulários e formulários
         se acumulando na minha caixa de imails há anos abandonada
as bonequinhas de pano me olhando de soslaio
     enquanto minha borboletinha se refresca
          na cachoeira da solidão em alguma praia da ilha do desterro
uma terceira e última ereção
     neste calvário
nesta peregrinação de lábios em busca dos lábios de uma estátua
tua carne ardendo – acesa pela selvageria das tapas recebidas na madrugada passada
Nossos passos, nossas mãos, nossa franciscana devoção
     amordaçando o oráculo improvisado e
          todas suas bestiais palavras sobre sacrifícios
               sobre futuros e
                    sobre o nada
recorremos a Ascenso Ferreira,
    mas ele é só uma escultura de bronze e
         esculturas de bronze não proferem palavras
recorremos ao fiteiro,
     mas fiteiros só regalam gasosas engarrafadas
recorremos à moça que passeia distraída,
     mas a moça só sabe de drogas sexo & farra
jogamos pipocas aos peixes que
     sobrevivem em meio ao distúrbio agourento
                  destas premonitórias águas
e disparamos projéteis, asnos, insultos, lagartixas, psiquiatras e metáforas
     contra uma ansiosa réplica abandonada do tradicionalíssimo galo da madrugada
tomamos uma limonada com sal e
     dispensamos os ansiolíticos
         enquanto você se diverte redefinindo as
             angustiadas fronteiras de minhas cicatrizes inflamadas
por quê já não mais aqueles tapas na minha cara?
as paredes pintadas do estacionamento da
     católica universidade
as portas fechadas do bar central
o baobá imperial às margens do rio que sussurra em guerra contra essa cidade que
     há séculos e séculos e séculos o estrangula o asfixia o esmaga
holandeses, judeus, árabes e mercenários de origens imaginárias
     saltitam como coelhos endiabrados por todas as partes dessa cidade
adoradores do profeta em verniz de ébano carregando cântaros abarrotados de águas
    traficadas do rio oxum
         onde se afogam ratazanas com dentes e orelhas cor de
              esmeralda
enquanto o sol vai se despedindo no horizonte uma vez mais e nossos silêncios
      atravessam de mãos dadas a ponte Buarque de Macedo e guiados pelas
           informações do google maps se aproximam finalmente da estátua
– você fotografa, eu reverencio...
um mendigo me solicita um cigarro
e, inevitavelmente, penso:
existe mais filosofia neste cigarro
que em toda a moral do cristianismo
pegamos um uber e regressamos à casa forte,
     à sua adorável e charmosa caixinha de fósforos.

nuno g.
Recife, 06 de maio de 2019.




sábado, 27 de abril de 2019

Posicionamento das lideranças, Xamãs, Pajés e associações da Terra Indígena Yanomami sobre vídeo divulgado na página oficial do presidente Jair Bolsonaro.

Boa Vista, Roraima, 18 de abril de 2019


No dia 17 de abril, o presidente Bolsonaro recebeu indígenas em Brasília. Nós Yanomami e Ye’kwana assistimos ao vídeo divulgado na página oficial do presidente das redes sociais e viemos responder o que foi dito em nome do povo Yanomami.

O Yanomami que aparece falando com o presidente não representa o povo Yanomami. Estamos reunidas 06 associações da Terra Indígena Yanomami, pajés, xamãs e lideranças Yanomami e Ye’kwana. Nós sim representamos o povo Yanomami e Ye’kwana, escolhidos por nossas comunidades para falar em nome delas. Somos mais de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, que vivemos na Terra Indígena Yanomami.

Nós aqui sabemos os nossos direitos. Não somos crianças, somos lideranças e representantes do povo e não estamos sendo manipulados pelas ONGs, como foi falado. Sabemos quem são nossos parceiros. Desde antes da terra ser demarcada eles estavam do nosso lado e continuam defendendo nossos direitos.

O Governo Federal precisa cumprir com seus deveres Constitucionais e garantir os direitos indígenas escritos no artigo 231 dessa Carta Magna: é dever do Estado cuidar da saúde, da educação e proteger nosso território. O Governo deve fortalecer a Funai para que ela tenha condições de trabalhar pelos direitos dos povos indígenas.

Os povos Yanomami e Ye’kwana não vivem pobres, como também foi dito. Nossa riqueza não é poder vender a terra, tirar o ouro. Nossa riqueza é viver bem na nossa terra, a floresta, ter os rios limpos, a saúde do povo. Somos contra legalizar o garimpo no nosso território. O ouro para nós deve ficar embaixo da terra. Queremos renda que vem dos nossos próprios projetos que respeitam nossa floresta, como estamos fazendo em nossas comunidades. Nós somos os legítimos brasileiros, originários da terra, onde nascemos e onde vamos morrer. Não queremos ser igual aos não indígenas. Falando português, podemos virar dentista, advogado, mas o nosso sangue continua Yanomami e Ye’kwana.

Hutukara Associação Yanomami- HAY

Associação Wanasseduume Ye'kwana - SEDUUME

Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes- AYRCA

Associação das Mulheres Yanomami Kumirãyõma- AMYK

Associação Kurikama Yanomami- KURIKAMA

Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima- TANER

quinta-feira, 11 de abril de 2019

...

reagir é transformar o mundo em passarinho

marialice

ao Asno-Mor

¿
assim
que
transformar
nossa
terra
em
terra
prometida
é
converter
a
cuna
de
Bolívar
em
franja de gaza
e
o
alto peru
em
margem ocidental
?

nuno g.

domingo, 7 de abril de 2019

Horas Malditas, por Fagundes Varela

Há umas horas na noite,
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia
Como as horas de Maria
Debruçada aos pés da cruz.

Tredos abortos do tempo,
Cadeias de maldição,
Vertem gelo nas artérias,
E sufocam, deletérias,
Do poeta a inspiração.

Nessas horas tumulares
Tudo é frio e desolado;
O pensador vacilante
Julga ver a cada instante
Lívido espectro a seu lado.

Quer falar, porém seus lábios
Recusam-lhe obedecer,
Medrosos de ouvir nos ares
Uma voz de outros lugares
Que venha os interromper.

Se abre a janela, as planícies
Vê de aspecto aterrador;
As plantas frias, torcidas,
Parece que esmorecidas
Pedem socorro ao Senhor.

As charnecas lamacentas
Exalam podres miasmas;
E os fogos fosforescentes
Passam rápidos, frementes
Como um bando de fantasmas.

E a razão vacila e treme,
Coalha-se o sangue nas veias,
Mas as horas sonolentas
Vão-se arrastando cruentas
Ao som das brônzeas cadeias.

Oh! essas tremendas
Tenho-as sentido demais!
E os males que me causaram,
Os traços que me deixaram
Não se apagarão jamais!


Fagundes Varela

sábado, 6 de abril de 2019

sonho com rimbaud, por patti smith

sou uma viúva. pode ser em chalerville pode ser
em qualquer lugar. ele caminha atrás da charrua. as
campinas. o jovem arthur se esconde pela fazenda
(roche?). o gerador o poço artesiano. atira cacos de vidro
verde aliás lascas de cristal. acerta meu olho.

estou no andar de cima. no quarto fazendo um curativo.
ele entra. se aproxima da cama. suas faces coradas.
arrogante & mãos enormes. sexy como o inferno. que
aconteceu ele pergunta se fazendo de inocente. inocente
demais. tiro a bandagem. mostro meu olho uma nojeira
sangrenta: um sonho de edgar allan poe. ele se assusta.

atiro à queima-roupa. alguém fez isto. você. ele cai a
meus pés. chora em meu colo. toco seu cabelo, mas
queimo os dedos. densa raposa de fogo. cabelo dourado
macio. aquela inconfundível tonalidade ruiva. rubedo.
espanto vermelho. cabelo do Único.

cristo eu o quero. imundo filho da puta. ele lambe minha
mão. mantenho a calma. vai depressa tua mãe te espera.
ele levanta. está indo embora. mas não sem antes me
olhar com aqueles seus frios olhos azuis de assassino. ele
hesita é meu. estamos na cama. levo uma faca suave à sua
garganta. deixo cair. nos agarramos. devoro seu escalpo.
piolhos do tamanho de dedos de criança.
o caviar do seu crânio.

arthur arthur. estamos em aden, abissínia. fodendo &
fumando. nos beijamos. mas é mais que isso. blues.
charco azulado. mancha à tona da lagoa. percepções
ampliadas, alma vital. baía cristalina. explosão de bolas
de vidro coloridas. rasgadura de tecidos de tenda árabe.
se abrindo, aberta como uma caverna, aberta ao máximo.
rendição total.

patti smith

sexta-feira, 5 de abril de 2019

1977 – fragmento


o nome dEle é ogum
e foi escrito nas areias da beira-mar
dEle é o céu
dEle é a noite
nEle a verdade do sangue

o nome dEle é ogum
e foi escrito por um frade nas areias da beira-mar

nuno g.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

o diamante selvagem (tentativa de lapidação de um delírio)


à memória de josé alcides pinto



o Indecifrável roçou sua pele de algas
e sussurrou-lhe um breve salmo
ele, em êxtase, apenas pôde recordar
rosário, hóstia e língua
e uma suave ardência de
clamor & veneração

meus seios sussurram preces em tuas mãos
sílaba a sílaba, blasfêmia e furor
os meus feitiços roçam os céus de tua fome
sete vezes, Sinal da Cruz, na carne incandescente

trazia nos bicos dos seios duas gotas de lágrimas
e sabia que o sal repousado em seus mamilos
era o único capaz de aplacar o mistério da sua sede

coração curandeiro carniceiro carcará
fareja róseos anjinhos,
lambendo suas rezas, rosários e ladainhas
sete vezes, preparo unguentos, para o amante acometido
sete vezes, tempero a febre, com beberagens e artemísias
os sinais de nascença espalhados pelo meu corpo, as cicatrizes
estremecem os altares, as catedrais góticas do teu sossego
e os teus lábios, em obscena devoção, repetem:
abyssus abyssum invocat

o corpo fendido e fraturado buscando
o corpo eterno e sem mácula do absoluto
chagas em chamas, produzindo um canto
que conserve o rangido de todas as couraças
e todo o inferno das contradições dessa teologia da carne
                 sua consciência é um pântano
seus nervos foram tocados pela ira das Fúrias.

o meu espírito é devastado pelo Implacável.
a pele, um piano incendiado,
troando uma infernal partitura
o corpo em demolição ainda pulsa
caçando o sangue celestial, a cura.


nuno g & anna apolinário

sexta-feira, 22 de março de 2019

The dead father, por Carl Rakosi

Let me be an old dog in a corner
or a pair of favorite slippers
by your bed
and hear again about your early life
and have you care for me forever.

Carl Rakosi

terça-feira, 19 de março de 2019

as pupilas do marinheiro de Acatitlán

não paro de suar
derreto como um sorvete exposto ao sol
cozinho como um brócolis submetido ao vapor
procuro uma loja de aluguel de fantasias para devolver o disfarce de carnaval mas não encontro
pressinto que ausências prolongadas estão secretamente interligadas a isso
e que vastos túneis iluminados podem me levar a algum lugar
mas não ouço resposta
só o abafado sem-fim do silêncio
germinando como se fosse uma semente proscrita do meu dicionário
se eu não fosse tímido te ofertaria algum desejo perverso
mas existem coisas que só podem ser ditas em táxis com barreiras acústicas
a caminho de aeroportos aos quais nunca mais se regressará
não paro de suar
e meus cabelos ensopados não encontram um gramado para descansar
derreto e reformo meus projetos de anoitecer
a lua tá crescendo
e com ela a memória de uma reclusão casual que parece se estender ao infinito
a minha carne hoje imploraria pela violência de outra carne
se não estivesse tão ocupada em afastar de si
todas as obrigações
não paro de suar
e de pensar em como seria abrir as janelas da casa e permitir a entrada do vento
a minha carne explode como a pupila de uma flor selvagem
abandonada num canteiro periférico da província.

nuno g.

segunda-feira, 18 de março de 2019

ablução

o som da missa invade a casa.
maria dorme.
fumo um cigarro atrás do outro e cozinho um jerimum para fazer um caldo.

a noite tem reggae na praça.
faz tempo que não vou a uma festa de largo.
queria que as minhas palavras roçassem a língua dos anjos.
ressuscitassem o viço que os sucessivos naufrágios afogaram.
e povoassem o meu esôfago de lactobacilos.

a vizinha lava roupas,
ouço a água escorrendo e sinto o cheiro de sabão.
a vizinha cultiva passarinhos em gaiola,
maria bola planos infalíveis para libertá-los.

faz tempo que nenhuma mulher me devora.
as vezes sinto saudade do despertencimento que habita o corpo depois do coito.
a missa termina e o silêncio me convida a dormir um pouco mais.

separo resquícios do que fui e junto à couve para a sopa.
maria virou vegana, misturo seu sonho às ervilhas que separei para o pequeno-almoço.
quando acordarmos ainda haverá uma infinidade de máscaras a se desfazer.

fazia tempo que o Indecifrável não soprava com tanta força,
os ventos que descem das colinas provocam marulhos & mirações.

nuno g.

domingo, 17 de março de 2019

DOMUS DESIDERIO, por Anna Apolinário

Minhas mãos tateiam os pulmões acesos do quarto
Em deja vu aveludado e voluptuoso
Os sussurros alucinantes do fogo
Estão tatuados secretamente
Nas paredes e no entorno
A voz pétrea de Ariano me convida a espiar
Por dentro das letras e labaredas de seu livro fabuloso
O poema é um pequeno animal mágico
Verde viscoso, saltando das páginas
A linguagem ilícita dos corpos, arderá por toda a noite
Com o sexo em brasa, desenhei um meridiano obsceno neste leito
Nua e clandestina, plantei uma tempestade em lençóis alheios.

Anna Apolinário

quinta-feira, 14 de março de 2019

BREVE HISTORIA DE MI VIDA, por Stella Díaz Varín

Comando soldados.
Y les he dicho acerca del peligro
de esconder las armas
bajo las ojeras.
Ellos no están de acuerdo.
Y como están todo el tiempo discutiendo
siempre traen perdida la batalla.

Uno ya no puede valerse de nadie.
Yo no puedo estar en todo;
para eso pago cada gota de sangre
que se derrama en el infierno.

En el invierno, debo dedicarme
a oxidar uno que otro sepulcro.
Y en primavera, construyo diques
destinados a los naufragios.

Así es, en fin...
Las cuatro estaciones del año
no me contemplan, sino trabajando.

Enhebro agujas
para que las viudas jóvenes
cierren los ojos de sus maridos,
y desperdicio minutos, atisbando
a la entrada de una flor de espliego
de una simple abeja,
para separarla en dos,
y verla desplazarse:
la cabeza hacia el sur
y el abdomen hacia la cordillera.

Así es
como el día de Pascua de Resurrección
me encuentra fatigada,
y sin la sombra habitual
que nos hace tan humanos
al decir de la gente.

Stella Díaz Varín

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

XII, por Karine Kelly

Caminho pelas ruas pedindo licença por ser mulher
Caminho pela casa da mãe pedindo licença por ser triste
Caminho entre os amigos pedindo licença por ser criança
Caminho entre os amores pedindo desculpa por ser simples
E no arrebol, quando o coração em claroescuro desdobra e acelera em trottoir
Coloco meu casaco ocre, busco
na noite
pés pra caminhar.

Karine Kelly

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

o veneno dos sobrenomes, por Demetrios Galvão

a opulência açucarada
do trópico
e a herança cordial-reacionária
de cada dia.


impossível não falar
das capitanias
e dos rosários,
da inocência natural
corrompida,
do suor negro
e seu sal
distante.


o reluzir mineral e as
bandeiras genocidas.
as entranhas abertas
com o sonho-muscular
de cada braçada
aventureira,
contaminando a seiva
vital.


a língua estrangeira
penetrando o sotaque
da floresta
um desejo sem gentileza
se alastrando
pelos veios molhados,
nomeando o silêncio
adormecido.


ficou o veneno
dos sobrenomes
e as marcas
de uma estranha
herança.


Demetrios Galvão, maio, 2017

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Signo, por Anna Apolinário

Coração: amuleto de constelar abismos
Miríade implodida no tambor de ilusões
Palidez sangrada no papel
Ruído oceânico da Saudade

Anna Apolinário

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

a saudade é um mar

a saudade é um mar,
verde
& cheio de algas cor de esmeralda...

sim, ela voltou pra casa
aterrizou quando o sol estava a pino
e me trouxe um abraço que durou quarenta e cinco dias
na terra dos peixes-árvores descansamos
comendo carambolas e goiabas e
umas quantas colheradas de paçoca
(secada no mesmo varal, pilada no mesmo pilão)
em Belém buscamos a filha de Felícia
e quando chegamos em casa
ela encarnou Eva no princípio do mundo
e foi nomeando seus novos amigos
a filha de Felícia ganhou o nome de Alice
e o jabuti recebeu a alcunha de Jabuticaba
fomos pro jardim grande andar de bicicleta
e ao regressar, faminta, ela me pediu com aquele olhar cúmplice que é só nosso:

papai, faz pirão pra mim jantar,
desde que eu tava no avião que eu desejava comer o seu pirão

claro que eu faço filha,
e vamos comer pirão com quê?

tem inhame papai?


jantamos: pirão de galinha com inhame
começamos a ler as reinações de narizinho

papai, esse livro é muito engraçado!
mais divertido do que os episódios do filme!

Jabuticaba dormiu
Alice dormiu
Maria dormiu

serenamente ajuntei ao nosso álbum de família
essa fotografia
salgada e verde como o mar
e cheia de algas cor de esmeralda...

nuno g.
cachoeira, 03 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Hibernación, por Jimena Arnolfi

En tiempos de autopromoción constante
lo mejor es esconderse
hibernar como un animal
de sangre caliente
entrar en un sueño profundo
que el latido sea más lento
que la temperatura descienda
ahorrar energías
usar las reservas almacenadas
de los meses más cálidos
mutar en una refugiada,
invencible.

Jimena Arnolfi

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

paçoca

para maria,

a carne secando à sombra
joãozito não gostava de melancia
magnólia falando sobre recife
ontem choveu
benedito joga video game
moscas e brinquedos no chão
chá de boldo, ayahuasca e alcachofra
a chuva chega
viro as carnes no varal
a saudade nocauteia a tarde
espinheira santa e leite de janaguba
uma carta para débora e seus irmãos
sobre mateus e catirinas
a chuva engrossa
a saudade também
a carne secando à sombra
matusalém mofado flutuando na tela da TV apagada
(...)

nuno g.

sábado, 8 de dezembro de 2018

rito pagão


meu avô não comia galinha em restaurantes
pudor de, em público, tocar ossos com as mãos
maria abriu a torneira
e a voz de oxum escorreu pelo chão da garagem
aos vinte e dois anos
o sexo é o caminho da salvação

nuno g.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A casa dos mil fantasmas

Eles vieram e eram muitos.
Eram sete para ser exato.
Eles chegaram e se serviram.
Beberam conhaque, fumaram cigarros, comeram carne.
Se lambuzaram de bolo e sorvete.
Rodopiaram sobre a mesa.
Atiçaram a todos.
Destruíram algo dentro de mim.
Depositaram sobre meus ombros o peso do mundo.
E partiram outra vez.

nuno g.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O caminho das águas


para Maria,

Ainda era cedo e chovia. Não me alcançou tempo para um café. Olhei pela janela e fui descendo a vista desde as nuvens carregadas e seguindo as águas caindo entre os arranha-céus da cidade até o chão de asfalto. Recordo ter pensado como sempre me pareceu bonita essa cidade quando açoitada pela chuva. Recordo também nunca ter conseguido ocultar sequer de mim mesmo o inconformismo e a insatisfação que há muito tempo me afligiam ante aquela verticalização desenfreada que não passava de mero sintoma da obsessiva ânsia modernizadora tão típica do sonho colonizado e avassalador que regia e segue regendo a mentalidade estreita das classes médias e altas de nossa província. Tudo isso passou em minha cabeça num breve par de minutos. O carro me esperava na portaria. Com a ajuda das muletas segurei a porta do elevador e parti.
Deveriam ter outras pessoas no carro, mas eu estava só. Absorto na estrada e na chuva sequer chegava a ouvir a conversa e os ruídos dos outros passageiros. Suas presenças não provocavam em mim nenhuma ressonância. Absorto na estrada e na chuva nenhum eco me atravessava e nada desviava o foco de minha atenção. Nos próximos cento e sessenta e quatro quilômetros nenhuma distração alteraria minha completa imersão no movimento do carro cruzando aquela paisagem, nada alteraria o rumo incerto dos meus pensamentos, nem minha solitária meditação.
Até a vila do Boqueirão do Cesário a vegetação encontrava-se verde e chovia. De aí em diante as águas estancaram e a paisagem não mais escondia os anos e anos de estiagem prolongada. Segui atento à estrada. Apenas o pulsar do meu coração me fazia companhia. E quando menos esperava avistei surgir na linha do horizonte o enorme e retilíneo paredão de pedra calcária que tão profundamente se gravara em meu imaginário tomando a forma de uma imensa cicatriz onde se inscreveram todos os acontecimentos importantes ao largo desses vertiginosos últimos quarenta anos. Apesar de tudo e de todos: a chapada do Apodi seguia no mesmo lugar e sua imponente e exuberante presença me trazia uma sensação quase mística de alívio, conforto, aconchego e acalanto.
Iniciamos a descida para o interior do vale pelas areias do tabuleiro por onde nos últimos séculos desceram as águas depois de iluminarem os cajueiros do planalto com seus maturis desabrochando e suas sombras sempre aprazíveis e convidativas para receber o cansaço dos negros que escapando à tirania insaciável dos tentáculos escravagistas do monstruoso e predatório sistema colonial povoaram e procriaram naquela zona de terras férteis que como uma serpente enfeitiçada margeava o vale sagrado de onças pardas e índios tapuias onde me tocara viver toda a infância.
Avistei o cemitério e a lagoa da caiçara. Os mortos e os aguapés eram um sinal de que a viagem findava. Cruzamos os semáforos da Avenida Dom Lino; a igreja São Sebastião e a Matriz ergueram-se ante meu olhar que nesse instante em tudo se assemelhava ao olhar matreiro e desconfiado de um gato. Sem dar qualquer sinal o carro dobrou à direita na travessa professor Aprígio e estacionou exatamente em frente à casa de número sessenta. Meus olhos realizaram idêntico movimento. Olhei a coluna da hora – que como sempre marcava a hora errada – e com a ajuda das muletas saltitei até a porta da casa.
Seguiu-se um breve instante de hesitação até que virei o rosto em direção contrária ao beco da Helena e avistei meu avô caminhando em minha direção com seu habitual cigarro carlton aceso aferrado entre os dedos envelhecidos. Chegando à casa dos Cordeiros seus passos fizeram uma breve trégua enquanto ele trocava algumas palavras com seu Joaquim debruçado sobre o parapeito da janela. Deviam falar sobre as águas, as plantas e os bichos da fazenda do Pedro Ribeiro – ou simplesmente falavam de festas, funerais, mulheres e bebedeiras para sempre perdidas num passado mítico que nunca mais se tornaria possível: ou ao menos eram coisas dessa ordem as que eu imaginava. Despediram-se e meu avô seguiu seus passos em minha direção. À medida que se aproximava pude perceber que os contornos de sua face tornavam-se mais e mais indefinidos e as feições de seu rosto perdiam todos os detalhes, sua imagem esmaecia na mesma proporção em que se aproximava de mim, até que, finalmente, desapareceu por completo.
Olhei para o céu. Havia tempo bonito, ou seja, nuvens carregadas de águas. Pensei em Maria e fiz um esforço para não chorar. Como quem recita os versos esquecidos de uma oração arcaica sussurrei a seguinte sentença: essa semana vai ser comprida demais, não choverá e o clima será insuportavelmente abafado. Tomado por um estado de torpor e alheamento excessivamente difícil de ser traduzido em palavras, algo assim como um completo abandono de si, ainda tive forças para concentrar minha atenção e serenidade nos versos que minha boca prosseguia a sussurrar: estou em casa. Esta terra um dia tratará de devorar minhas carnes e meus ossos. Mas antes ela vai ter que esperar: ainda me resta algo a fazer e isso não poderá ocorrer até que tudo esteja concluído. Entrei na casa, fechei a porta e aguardei o soar da campainha.
Eles chegaram e eram três. Jovens, alegres e despreocupados. O rapaz parecia estar sob o efeito de alguma droga tranquilizante. Não trazia barba, tinha cabelos curtos e bem penteados. As duas moças eram bonitas, exibiam a vertiginosa exuberância que torna tão atraente os corpos juvenis e não demonstravam nenhum interesse por esconder a excitação que lhes possuía. Abri a porta, servi um café, acendi um cigarro e olhando fixamente o lugar da parede no centro da sala onde durante mais de duas décadas estivera pendurada a pintura mais perfeita que minha mãe executara eu soletrei: sim, podem começar.
A mais fogosa e faceira das meninas, exibindo um sorriso que revelava algo de sua ansiedade e nervosismo e que, por essa razão, multiplicava em progressão geométrica seu poder de encantamento e sedução, simplesmente falou: comecemos então pela morte.
É um ótimo começo – contestei sem pestanejar. A morte é o princípio de tudo. Sem ela não haveria nada. Não existiria pensamento, religião, filosofia, poesia ou paisagem. A morte é o parto de tudo que respira no imaginário da humanidade. E sem imaginário a humanidade não seria nada. Sem ela não haveria risco, não haveria aventura, não haveria travessia, não haveria forma, não haveria passagem. Sem ela só haveria o nada. Tudo à nossa volta e tudo dentro de nós está impregnado de morte e, consequentemente, de sentido. Nas casas, nos bichos, nas ruas, nas praças, nos rios, nas lembranças e em tudo o mais que existe lateja, pulsa, habita e respira essa encantadora senhora que na falta de nome mais apropriado terminamos por batizar de morte. Sua omnipresença é a fonte de todos os simbolismos que dotam de significação o existente. Na minha infância eu era possuído por um autêntico e hipertrofiado pânico ante essa consciência da omnipresença e inevitabilidade da morte. Isso tardou anos em se modificar e deu origem a pesadelos ininterruptos e repetitivos que me roubaram incontáveis noites de sono e transtornaram de maneira irreversível um longo período que deveria ter sido marcado pela inocência e pela candura – o idílico em mim foi abortado de maneira prematura e premeditada. Passado esse período inicial e consolidada, em meu espírito, essa mescla indomável de lucidez e loucura que tem me servido de oráculo e guia ao largo destes quarenta anos nos tornamos bons amigos. Compartilhamos ideias, cafés e não sei quantos tragos de cachaças por esta vida afora. Em dias mais inspirados e amenos chegamos mesmo a nos entregar a licenciosas práticas amorosas que um relato pormenorizado chegaria a corar as bochechas de qualquer um dos moradores dessa outrora pacata e provinciana cidade. Convivi muitos anos com pessoas que encontravam-se empenhadas, com quase a totalidade de suas forças, em empreender uma guerra estranha e insensata contra a morte. Tudo o que não desejavam era morrer e dedicavam todas suas energias e todo o seu tempo nessa luta inglória e absurda. Por não aceitarem a fatalidade inexorável da morte perdiam a vida e enfraqueciam a chama do sacrossanto candelabro. Quando abandonei esse claustro sombrio onde o niilismo nefando reinava como um imperador que esbraveja impropérios e escárnios soterrando tudo o que era vida, sentido, símbolo, desejo, gozo e significação – pude recompor os acordes, a sintonia e o ritmo em que vibrava a lira da catedral em chamas em que se convertera o palácio mnemônico adormecido no fundo aquático da minha pessoal e intransferível caixa de pandora. Perdi minha mãe antes de completar dois anos de existência. Em seguida, perdi meu pai. Logo depois perdi meu primo mais velho e antes que pudesse assimilar e elaborar a voracidade dessas ocorrências tive que com minhas próprias mãos enterrar o meu avô sob essa terra que aqui pisamos agora. Não havia como fugir a isso. Não havia como recusar o que junto com isso brotava e florescia nos prados da minha consciência e da minha imaginação. Isso era inexorável. Isso era trágico. Eu estava ainda tão cedo já no cume do absurdo e de lá tudo o que eu podia ver estava banhado pelas águas da fatalidade. Percebi então que toda fatalidade deveria ser abençoada e que esse gesto duro e áspero restituía certa nobreza aos sentimentos que deveriam servir de base a uma arte capaz de ser simultaneamente épica e trágica. A comédia era para os tolos, para os desavisados – e eu deveria fugir dela como o diabo da cruz ou como os vampiros dos rosários de alho. Hoje não vai chover, teremos uma tarde longa e terrivelmente abafada. A noite será aprazível e delicada. Crescer nessa geografia semidesértica nos faz diferentes de nossos conterrâneos das serras e das praias. O sertão e a morte são irmãos gêmeos e os dois se levam dentro: como o mito e as fábulas. Sim, a noite será aprazível e delicada. O vento Aracati correrá por essas ruas arrastando a poeira do dia e o calor aprisionado no asfalto e levará consigo todas essas nuvens carregadas de águas para as cabeceiras do vale. Eu poderia seguir e lhes contar estórias de botijas, queijos coalhos e pistolagens. Poderia também lhes narrar como em tão pouco tempo nossa estéril e incipiente burguesia foi capaz de quase destruir a beleza de nossa capital e converter aquele santuário de jangadas num amontoado completamente sem sentido de shoppings centers, arranha-céus e condomínios de mau gosto. Eu poderia lhes narrar os primeiros massacres, as pelejas intermináveis, as emboscadas sangrentas e toda a trajetória das energias empregadas na consolidação do que viria a ser este vale e esta província cravada neste continente fundado por antigos e perversos ibéricos em sua luta insensata contra a morte e o nada. Poderia lhes contar a estória dessas casas, falar de espingardas antigas e de morcegos dependurados nos galhos da noite se alimentando de frutas afrodisíacas e se embriagando com aromas exóticos. Poderia discorrer sobre homens vestidos de couro tangendo bois e desgraças, sobre holandeses conduzindo navios piratas por estas águas obscuras e sazonais ou ainda sobre súbitas fortunas de cera extraídas dos carnaubais destas várzeas que entre farras homéricas e orgias episcopais derreteram sem deixar vestígios... Mas prefiro simplesmente concluir reafirmando que a morte é o começo da vida e que não existe nada mais mórbido do que essa nefanda, perversa e insistente negação da morte que se expressa de maneira tão predatória na ânsia modernizadora de nossas classes médias e altas. O horror à morte tem impedido a celebração da vida e instaurado esse mundo asqueroso de cosméticos e projetos de aquários. Quando terceirizamos a morte e nos recusamos a velar os nossos nas salas de nossas casas perdemos uma experiência essencial ou, o que é ainda pior, a substituímos pelo vácuo dessas assépticas reuniões em salas climatizadas decoradas com flores de plástico e garrafas de café frio e açucarado. A poesia deve ser celebração da vida, do jogo indecifrável entre o acaso e o necessário, das cicatrizes e dos ferimentos, da dor e do gozo, de tudo que pulsa, de tudo que respira, de tudo que vive. E uma poesia assim só pode existir quando se diz sim à morte. Mas não um sim qualquer. Não o sim limitado e condicionado da racionalidade. Um sim nascido do corpo. Um sim que seja beijo, que seja abraço, que seja afeto, fúria, recordação e transubstanciação das toxinas do nada. Que seja como esse rio seco, como esse clima abafado, como esse paredão de pedra calcária, como o canto agourento desses pássaros angustiados. Senti que com isso já era o suficiente e encerrei meu monólogo.
A jovem que sugerira o tema da conversação ergueu-se da cadeira de balanço, me beijou suavemente a boca e se retirou em silêncio. Os outros dois a seguiram sem nada dizer. Voltei a olhar o centro da parede da sala onde por mais de duas décadas estivera pendurado o quadro mais bem executado pelas mãos de minha mãe, pensei em Maria, engoli a saudade a seco e me apoiando nas muletas regressei à cozinha onde me esperavam os poemas que estava selecionando para meu novo livro: álbum de família.
Quando o sol baixou botei a cadeira de balanço na calçada e deixei que o vento Aracati me acariciasse o corpo ainda preenchido pela quentura abafada desse dia comprido e, completamente absorto, fiquei observando a ação eficaz daquele vento arrastando os sonhos e as nuvens carregadas de águas para as cabeceiras perdidas deste vale de índios tapuias e onças pardas que um dia eu deixara para trás. O sol mergulhou definitivamente no horizonte dissolvendo mais uma vez a imagem desta vasta e impossível terra prometida.

nuno g.
São Bernardo das Éguas Russas, 07 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 6 de novembro de 2018