terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

o veneno dos sobrenomes, por Demetrios Galvão

a opulência açucarada
do trópico
e a herança cordial-reacionária
de cada dia.


impossível não falar
das capitanias
e dos rosários,
da inocência natural
corrompida,
do suor negro
e seu sal
distante.


o reluzir mineral e as
bandeiras genocidas.
as entranhas abertas
com o sonho-muscular
de cada braçada
aventureira,
contaminando a seiva
vital.


a língua estrangeira
penetrando o sotaque
da floresta
um desejo sem gentileza
se alastrando
pelos veios molhados,
nomeando o silêncio
adormecido.


ficou o veneno
dos sobrenomes
e as marcas
de uma estranha
herança.


Demetrios Galvão, maio, 2017

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Signo, por Anna Apolinário

Coração: amuleto de constelar abismos
Miríade implodida no tambor de ilusões
Palidez sangrada no papel
Ruído oceânico da Saudade

Anna Apolinário

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

a saudade é um mar

a saudade é um mar,
verde
& cheio de algas cor de esmeralda...

sim, ela voltou pra casa
aterrizou quando o sol estava a pino
e me trouxe um abraço que durou quarenta e cinco dias
na terra dos peixes-árvores descansamos
comendo carambolas e goiabas e
umas quantas colheradas de paçoca
(secada no mesmo varal, pilada no mesmo pilão)
em Belém buscamos a filha de Felícia
e quando chegamos em casa
ela encarnou Eva no princípio do mundo
e foi nomeando seus novos amigos
a filha de Felícia ganhou o nome de Alice
e o jabuti recebeu a alcunha de Jabuticaba
fomos pro jardim grande andar de bicicleta
e ao regressar, faminta, ela me pediu com aquele olhar cúmplice que é só nosso:

papai, faz pirão pra mim jantar,
desde que eu tava no avião que eu desejava comer o seu pirão

claro que eu faço filha,
e vamos comer pirão com quê?

tem inhame papai?


jantamos: pirão de galinha com inhame
começamos a ler as reinações de narizinho

papai, esse livro é muito engraçado!
mais divertido do que os episódios do filme!

Jabuticaba dormiu
Alice dormiu
Maria dormiu

serenamente ajuntei ao nosso álbum de família
essa fotografia
salgada e verde como o mar
e cheia de algas cor de esmeralda...

nuno g.
cachoeira, 03 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Hibernación, por Jimena Arnolfi

En tiempos de autopromoción constante
lo mejor es esconderse
hibernar como un animal
de sangre caliente
entrar en un sueño profundo
que el latido sea más lento
que la temperatura descienda
ahorrar energías
usar las reservas almacenadas
de los meses más cálidos
mutar en una refugiada,
invencible.

Jimena Arnolfi

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

paçoca

para maria,

a carne secando à sombra
joãozito não gostava de melancia
magnólia falando sobre recife
ontem choveu
benedito joga video game
moscas e brinquedos no chão
chá de boldo, ayahuasca e alcachofra
a chuva chega
viro as carnes no varal
a saudade nocauteia a tarde
espinheira santa e leite de janaguba
uma carta para débora e seus irmãos
sobre mateus e catirinas
a chuva engrossa
a saudade também
a carne secando à sombra
matusalém mofado flutuando na tela da TV apagada
(...)

nuno g.

sábado, 8 de dezembro de 2018

rito pagão


meu avô não comia galinha em restaurantes
pudor de, em público, tocar ossos com as mãos
maria abriu a torneira
e a voz de oxum escorreu pelo chão da garagem
aos vinte e dois anos
o sexo é o caminho da salvação

nuno g.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A casa dos mil fantasmas

Eles vieram e eram muitos.
Eram sete para ser exato.
Eles chegaram e se serviram.
Beberam conhaque, fumaram cigarros, comeram carne.
Se lambuzaram de bolo e sorvete.
Rodopiaram sobre a mesa.
Atiçaram a todos.
Destruíram algo dentro de mim.
Depositaram sobre meus ombros o peso do mundo.
E partiram outra vez.

nuno g.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O caminho das águas


para Maria,

Ainda era cedo e chovia. Não me alcançou tempo para um café. Olhei pela janela e fui descendo a vista desde as nuvens carregadas e seguindo as águas caindo entre os arranha-céus da cidade até o chão de asfalto. Recordo ter pensado como sempre me pareceu bonita essa cidade quando açoitada pela chuva. Recordo também nunca ter conseguido ocultar sequer de mim mesmo o inconformismo e a insatisfação que há muito tempo me afligiam ante aquela verticalização desenfreada que não passava de mero sintoma da obsessiva ânsia modernizadora tão típica do sonho colonizado e avassalador que regia e segue regendo a mentalidade estreita das classes médias e altas de nossa província. Tudo isso passou em minha cabeça num breve par de minutos. O carro me esperava na portaria. Com a ajuda das muletas segurei a porta do elevador e parti.
Deveriam ter outras pessoas no carro, mas eu estava só. Absorto na estrada e na chuva sequer chegava a ouvir a conversa e os ruídos dos outros passageiros. Suas presenças não provocavam em mim nenhuma ressonância. Absorto na estrada e na chuva nenhum eco me atravessava e nada desviava o foco de minha atenção. Nos próximos cento e sessenta e quatro quilômetros nenhuma distração alteraria minha completa imersão no movimento do carro cruzando aquela paisagem, nada alteraria o rumo incerto dos meus pensamentos, nem minha solitária meditação.
Até a vila do Boqueirão do Cesário a vegetação encontrava-se verde e chovia. De aí em diante as águas estancaram e a paisagem não mais escondia os anos e anos de estiagem prolongada. Segui atento à estrada. Apenas o pulsar do meu coração me fazia companhia. E quando menos esperava avistei surgir na linha do horizonte o enorme e retilíneo paredão de pedra calcária que tão profundamente se gravara em meu imaginário tomando a forma de uma imensa cicatriz onde se inscreveram todos os acontecimentos importantes ao largo desses vertiginosos últimos quarenta anos. Apesar de tudo e de todos: a chapada do Apodi seguia no mesmo lugar e sua imponente e exuberante presença me trazia uma sensação quase mística de alívio, conforto, aconchego e acalanto.
Iniciamos a descida para o interior do vale pelas areias do tabuleiro por onde nos últimos séculos desceram as águas depois de iluminarem os cajueiros do planalto com seus maturis desabrochando e suas sombras sempre aprazíveis e convidativas para receber o cansaço dos negros que escapando à tirania insaciável dos tentáculos escravagistas do monstruoso e predatório sistema colonial povoaram e procriaram naquela zona de terras férteis que como uma serpente enfeitiçada margeava o vale sagrado de onças pardas e índios tapuias onde me tocara viver toda a infância.
Avistei o cemitério e a lagoa da caiçara. Os mortos e os aguapés eram um sinal de que a viagem findava. Cruzamos os semáforos da Avenida Dom Lino; a igreja São Sebastião e a Matriz ergueram-se ante meu olhar que nesse instante em tudo se assemelhava ao olhar matreiro e desconfiado de um gato. Sem dar qualquer sinal o carro dobrou à direita na travessa professor Aprígio e estacionou exatamente em frente à casa de número sessenta. Meus olhos realizaram idêntico movimento. Olhei a coluna da hora – que como sempre marcava a hora errada – e com a ajuda das muletas saltitei até a porta da casa.
Seguiu-se um breve instante de hesitação até que virei o rosto em direção contrária ao beco da Helena e avistei meu avô caminhando em minha direção com seu habitual cigarro carlton aceso aferrado entre os dedos envelhecidos. Chegando à casa dos Cordeiros seus passos fizeram uma breve trégua enquanto ele trocava algumas palavras com seu Joaquim debruçado sobre o parapeito da janela. Deviam falar sobre as águas, as plantas e os bichos da fazenda do Pedro Ribeiro – ou simplesmente falavam de festas, funerais, mulheres e bebedeiras para sempre perdidas num passado mítico que nunca mais se tornaria possível: ou ao menos eram coisas dessa ordem as que eu imaginava. Despediram-se e meu avô seguiu seus passos em minha direção. À medida que se aproximava pude perceber que os contornos de sua face tornavam-se mais e mais indefinidos e as feições de seu rosto perdiam todos os detalhes, sua imagem esmaecia na mesma proporção em que se aproximava de mim, até que, finalmente, desapareceu por completo.
Olhei para o céu. Havia tempo bonito, ou seja, nuvens carregadas de águas. Pensei em Maria e fiz um esforço para não chorar. Como quem recita os versos esquecidos de uma oração arcaica sussurrei a seguinte sentença: essa semana vai ser comprida demais, não choverá e o clima será insuportavelmente abafado. Tomado por um estado de torpor e alheamento excessivamente difícil de ser traduzido em palavras, algo assim como um completo abandono de si, ainda tive forças para concentrar minha atenção e serenidade nos versos que minha boca prosseguia a sussurrar: estou em casa. Esta terra um dia tratará de devorar minhas carnes e meus ossos. Mas antes ela vai ter que esperar: ainda me resta algo a fazer e isso não poderá ocorrer até que tudo esteja concluído. Entrei na casa, fechei a porta e aguardei o soar da campainha.
Eles chegaram e eram três. Jovens, alegres e despreocupados. O rapaz parecia estar sob o efeito de alguma droga tranquilizante. Não trazia barba, tinha cabelos curtos e bem penteados. As duas moças eram bonitas, exibiam a vertiginosa exuberância que torna tão atraente os corpos juvenis e não demonstravam nenhum interesse por esconder a excitação que lhes possuía. Abri a porta, servi um café, acendi um cigarro e olhando fixamente o lugar da parede no centro da sala onde durante mais de duas décadas estivera pendurada a pintura mais perfeita que minha mãe executara eu soletrei: sim, podem começar.
A mais fogosa e faceira das meninas, exibindo um sorriso que revelava algo de sua ansiedade e nervosismo e que, por essa razão, multiplicava em progressão geométrica seu poder de encantamento e sedução, simplesmente falou: comecemos então pela morte.
É um ótimo começo – contestei sem pestanejar. A morte é o princípio de tudo. Sem ela não haveria nada. Não existiria pensamento, religião, filosofia, poesia ou paisagem. A morte é o parto de tudo que respira no imaginário da humanidade. E sem imaginário a humanidade não seria nada. Sem ela não haveria risco, não haveria aventura, não haveria travessia, não haveria forma, não haveria passagem. Sem ela só haveria o nada. Tudo à nossa volta e tudo dentro de nós está impregnado de morte e, consequentemente, de sentido. Nas casas, nos bichos, nas ruas, nas praças, nos rios, nas lembranças e em tudo o mais que existe lateja, pulsa, habita e respira essa encantadora senhora que na falta de nome mais apropriado terminamos por batizar de morte. Sua omnipresença é a fonte de todos os simbolismos que dotam de significação o existente. Na minha infância eu era possuído por um autêntico e hipertrofiado pânico ante essa consciência da omnipresença e inevitabilidade da morte. Isso tardou anos em se modificar e deu origem a pesadelos ininterruptos e repetitivos que me roubaram incontáveis noites de sono e transtornaram de maneira irreversível um longo período que deveria ter sido marcado pela inocência e pela candura – o idílico em mim foi abortado de maneira prematura e premeditada. Passado esse período inicial e consolidada, em meu espírito, essa mescla indomável de lucidez e loucura que tem me servido de oráculo e guia ao largo destes quarenta anos nos tornamos bons amigos. Compartilhamos ideias, cafés e não sei quantos tragos de cachaças por esta vida afora. Em dias mais inspirados e amenos chegamos mesmo a nos entregar a licenciosas práticas amorosas que um relato pormenorizado chegaria a corar as bochechas de qualquer um dos moradores dessa outrora pacata e provinciana cidade. Convivi muitos anos com pessoas que encontravam-se empenhadas, com quase a totalidade de suas forças, em empreender uma guerra estranha e insensata contra a morte. Tudo o que não desejavam era morrer e dedicavam todas suas energias e todo o seu tempo nessa luta inglória e absurda. Por não aceitarem a fatalidade inexorável da morte perdiam a vida e enfraqueciam a chama do sacrossanto candelabro. Quando abandonei esse claustro sombrio onde o niilismo nefando reinava como um imperador que esbraveja impropérios e escárnios soterrando tudo o que era vida, sentido, símbolo, desejo, gozo e significação – pude recompor os acordes, a sintonia e o ritmo em que vibrava a lira da catedral em chamas em que se convertera o palácio mnemônico adormecido no fundo aquático da minha pessoal e intransferível caixa de pandora. Perdi minha mãe antes de completar dois anos de existência. Em seguida, perdi meu pai. Logo depois perdi meu primo mais velho e antes que pudesse assimilar e elaborar a voracidade dessas ocorrências tive que com minhas próprias mãos enterrar o meu avô sob essa terra que aqui pisamos agora. Não havia como fugir a isso. Não havia como recusar o que junto com isso brotava e florescia nos prados da minha consciência e da minha imaginação. Isso era inexorável. Isso era trágico. Eu estava ainda tão cedo já no cume do absurdo e de lá tudo o que eu podia ver estava banhado pelas águas da fatalidade. Percebi então que toda fatalidade deveria ser abençoada e que esse gesto duro e áspero restituía certa nobreza aos sentimentos que deveriam servir de base a uma arte capaz de ser simultaneamente épica e trágica. A comédia era para os tolos, para os desavisados – e eu deveria fugir dela como o diabo da cruz ou como os vampiros dos rosários de alho. Hoje não vai chover, teremos uma tarde longa e terrivelmente abafada. A noite será aprazível e delicada. Crescer nessa geografia semidesértica nos faz diferentes de nossos conterrâneos das serras e das praias. O sertão e a morte são irmãos gêmeos e os dois se levam dentro: como o mito e as fábulas. Sim, a noite será aprazível e delicada. O vento Aracati correrá por essas ruas arrastando a poeira do dia e o calor aprisionado no asfalto e levará consigo todas essas nuvens carregadas de águas para as cabeceiras do vale. Eu poderia seguir e lhes contar estórias de botijas, queijos coalhos e pistolagens. Poderia também lhes narrar como em tão pouco tempo nossa estéril e incipiente burguesia foi capaz de quase destruir a beleza de nossa capital e converter aquele santuário de jangadas num amontoado completamente sem sentido de shoppings centers, arranha-céus e condomínios de mau gosto. Eu poderia lhes narrar os primeiros massacres, as pelejas intermináveis, as emboscadas sangrentas e toda a trajetória das energias empregadas na consolidação do que viria a ser este vale e esta província cravada neste continente fundado por antigos e perversos ibéricos em sua luta insensata contra a morte e o nada. Poderia lhes contar a estória dessas casas, falar de espingardas antigas e de morcegos dependurados nos galhos da noite se alimentando de frutas afrodisíacas e se embriagando com aromas exóticos. Poderia discorrer sobre homens vestidos de couro tangendo bois e desgraças, sobre holandeses conduzindo navios piratas por estas águas obscuras e sazonais ou ainda sobre súbitas fortunas de cera extraídas dos carnaubais destas várzeas que entre farras homéricas e orgias episcopais derreteram sem deixar vestígios... Mas prefiro simplesmente concluir reafirmando que a morte é o começo da vida e que não existe nada mais mórbido do que essa nefanda, perversa e insistente negação da morte que se expressa de maneira tão predatória na ânsia modernizadora de nossas classes médias e altas. O horror à morte tem impedido a celebração da vida e instaurado esse mundo asqueroso de cosméticos e projetos de aquários. Quando terceirizamos a morte e nos recusamos a velar os nossos nas salas de nossas casas perdemos uma experiência essencial ou, o que é ainda pior, a substituímos pelo vácuo dessas assépticas reuniões em salas climatizadas decoradas com flores de plástico e garrafas de café frio e açucarado. A poesia deve ser celebração da vida, do jogo indecifrável entre o acaso e o necessário, das cicatrizes e dos ferimentos, da dor e do gozo, de tudo que pulsa, de tudo que respira, de tudo que vive. E uma poesia assim só pode existir quando se diz sim à morte. Mas não um sim qualquer. Não o sim limitado e condicionado da racionalidade. Um sim nascido do corpo. Um sim que seja beijo, que seja abraço, que seja afeto, fúria, recordação e transubstanciação das toxinas do nada. Que seja como esse rio seco, como esse clima abafado, como esse paredão de pedra calcária, como o canto agourento desses pássaros angustiados. Senti que com isso já era o suficiente e encerrei meu monólogo.
A jovem que sugerira o tema da conversação ergueu-se da cadeira de balanço, me beijou suavemente a boca e se retirou em silêncio. Os outros dois a seguiram sem nada dizer. Voltei a olhar o centro da parede da sala onde por mais de duas décadas estivera pendurado o quadro mais bem executado pelas mãos de minha mãe, pensei em Maria, engoli a saudade a seco e me apoiando nas muletas regressei à cozinha onde me esperavam os poemas que estava selecionando para meu novo livro: álbum de família.
Quando o sol baixou botei a cadeira de balanço na calçada e deixei que o vento Aracati me acariciasse o corpo ainda preenchido pela quentura abafada desse dia comprido e, completamente absorto, fiquei observando a ação eficaz daquele vento arrastando os sonhos e as nuvens carregadas de águas para as cabeceiras perdidas deste vale de índios tapuias e onças pardas que um dia eu deixara para trás. O sol mergulhou definitivamente no horizonte dissolvendo mais uma vez a imagem desta vasta e impossível terra prometida.

nuno g.
São Bernardo das Éguas Russas, 07 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

terça-feira, 30 de outubro de 2018

13 de outubro


três dias de loucura
te tocaram o destino
três mil lágrimas
te encheram as crateras
,essas ausências de barro,

três parágrafos da mais louca lucidez
três acordes da harpa do som do terror

o terror em suas três faces:
exibindo suas três caveiras
e suas três luas dependuradas no armário inexistente

três dias
se dissolvendo na ebulição cotidiana de ruas
que celebram qualquer carnaval como se fosse o último

nuno g.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A última tarde de brincadeiras

Pularam da janela no colchão.
Fizeram do sofá pula-pula.
Deram forma à massinha.
Coloriram um domingo de 0 a 0.
Jantaram macarrão com cenoura inhame e moelas.
Correram e se esconderam e se abraçaram.
Sem saber que era a última tarde em que se encontravam.
Iara partiria em breve para o Chile.
Quem parte nunca sabe se regressa.
E ainda que regressasse.
Já não seria mesmo aquela pequena Iara.
Tão quietinha tão na dela.
Muito menos Maria seria aquela.
Sem pensar em nada nisso.
Iara e Maria coloriram como puderam aquela que era sua última tarde.

nuno g.
cachoeira, 13 de setembro de 2018.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Caminho de Antara

Aquim abraçou Maria e ela entrou no avião.
Era São João e seguimos pro Capão.
Na casa de André.
Uma das últimas do vale.
Não havia nada.
Só árvores árvores e mais árvores.
Não havia nada.
Só montanhas montanhas e mais montanhas.
Não havia nada.
Só silêncio silêncio e mais silêncio.
André conectou a internet.
Alguém fez as pipocas.
As crianças chegaram.
E nós ficamos assistindo a Argentina jogar o mundial.
Antara sentou no meu colo.
Antara dependurou-se no meu pescoço.
Antara me seguiu quando fui fumar no terreiro.
Qual é teu nome?
Antara.
Quantos anos você tem?
Cinco.
Tu é argentina?
!No! Soy mexicana.

Meu coração foi na ilha do desterro e voltou.
A noite chegou.
Fizemos fogueira.
Comemos milho assado
&
amendoins cozidos.
Tomamos cerveja.
Dançamos forró no coreto.
No outro dia.
Depois de devorar uma galinha caipira à cabidela.
Decidi balançar na rede.
Aquim me abraçou e disse:
Seria bom se Maria estivesse aqui.
Meu coração foi na ilha do desterro e voltou.
Lembrei de Antara.
Das árvores, das montanhas, dos silêncios.
E respondi:
Ela sim está aqui.
Aquim me abraçou e aterrissei.

nuno g.
Cruz das Almas, 12 de setembro de 2018.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O jaguar encantado


Pai, mas essas histórias do jaguar encantado aconteceram mesmo?
Aconteceram sim filha.
Pai, mas isso não é poesia?
São poesias sim filha.
Pai, mas poesia não é a realidade né?
Não filha, poesia é só a verdade e a beleza que moram dentro da realidade.

nuno g.
Cachoeira, 13 de setembro de 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O filho do vaqueiro


Entrou no carro e agradeceu. Respondi, não há de quê. Sorriu para Maria sentada na cadeirinha atrás e foi me narrando sua história. Estudo psicologia, termino ano que vem, meu pai mata um boi a cada seis meses para me bancar aqui. O sotaque não negava, era pernambucano. Os modos educados não escondiam, era do sertão. Já vai fazer um ano que não o vejo, tem dias que a saudade me rói por dentro os ossos, me aferventa o sangue, termino esse curso e volto, antes não que o esforço dele foi muito. Ia falando e a cada tanto olhava e sorria para Maria. Preciso terminar logo esse curso e começar a trabalhar, antes que meu pai dê fim no pouco que tem, esse diploma é importante demais da conta pra ele, já eu, penso mais é em voltar, conseguir um emprego por lá e poder ganhar algum trocado pra garantir a velhice dele, ficar perto do velho, pedir sua benção todos os dias. Não conseguia mais segurar as lágrimas. Eu disse chore, tá tudo de boa, você é de que lugar do Pernambuco? A resposta veio bonita: Sou das margens de lá do rio grande, da cidade de Belém do São Francisco. Segui: Passo sempre por lá, cruzo pelo Ibó. Ele olhou Maria e sorriu: O senhor também não é daqui não né? Maria abandonou o silêncio e disse: Meu pai é do Ceará, quando a gente cruza o São Francisco já tá pertinho do Crato, da casa do tio Cláudio, lá tem o caminho das águas, lá tem o Caldas, quando passa do são Francisco a gente só precisa subir a chapada e atravessar a floresta e já chegou. Dessa vez quem sorriu foi eu. Olhando para Maria ele respondeu: Não sei por causa de quê desconfiei que vocês eram do Ceará, meu pai tem muitos amigos de lá, do cariri e do inhamuns, quando ele era mais jovem todo ano ia pra missa dos vaqueiros e lá fez essas amizades. Agora ele tá mais velho, anda adoentado, eu vivo aqui preocupado, se tivesse dinheiro ia visitá-lo mais a miúdo, mas tenho que terminar o curso, o sonho é dele, os custos aqui tão cada dia mais altos. Desacelerei o carro e fui serpenteando a subida de capoeiruçu devagarzinho, querendo encompridar a conversa: Que curso mesmo você disse que faz? Psicologia. Você é adventista? Não. Olha, vou te dizer uma coisa, no fim do ano nós vamos pra lá e se você quiser pode ir com a gente de carona. Agradeço demais e quero sim! Parei o carro no acostamento, anotei meu número de telefone e entreguei a ele. Olha que eu vou ligar mesmo. Maria sorriu e disse: Pode ligar, a gente te leva, deixa só chegar as férias. Encabulado perguntei: Teu pai é fazendeiro? Não senhor, antes fosse, meu pai é vaqueiro mesmo. Agora que tá adoentado a coisa ficou difícil. E ele tá vendendo as poucas cabeças de gado que tem pra me manter aqui. Vivo com ele desde que me entendo por gente, ela vive só com o senhor também né? Mergulhei nas nuvens de meus pensamentos. Pensei no romance que começara a escrever essa semana. E, principalmente, pensava que esse menino de prosa tão ajuizada que terminara por pegar carona com a gente nascera na mesma cidade em que nascera a Sussuarana que eu tanto admirava. Aquela que foi a única mulher do cangaço que realmente atirava e lutava. Fiquei lembrando de um conto que escrevi a muito tempo chamado as exéquias de Iararana onde eu tentava reproduzir um rito funerário indígena descrito por Darcy Ribeiro. Quando Helena da Catingueira – cadela que me acompanhou quando vim morar aqui – morreu, tentei reproduzir algo daquele rito. E, passado tantos anos, por ocasião dos oitenta anos do apagamento de Lampião em Angicos, voltei a pesquisar sobre a vida da Sussuarana – essa minha antiga paixão – e me deparei com a foto dela lavando com álcool os ossos do diabo loiro. Agora era eu que não segurava as lágrimas. A carona estava chegando ao fim. Ele me agradeceu com a sinceridade dos que sabem o que é conversar com pedra e com pássaro, dos que sabem a alegria que é banhar de rio e fazer festa pra chegança das chuvas. Só consegui dizer: Me liga mesmo viu e no fim do ano vamos. Ele sorriu para Maria e disse: Segue cuidando dela, deus abençoe vocês, ainda essa semana vou pedir pro meu pai botar vocês nas orações dele, as orações dele abrem caminhos. Nos despedimos. Trinta minutos depois chegamos à escola de Maria. Em Cruz das Almas. E não pude deixar de pensar que toda Cruz das Almas foi um dia entroncamento de aboiadores, encruzilhada onde os vaqueiros descansavam, se divertiam e rezavam. Quando cheguei em casa, ao cair da noite, continuei a chafurdar no google histórias da Sussuarana e me deparei com uma matéria antiga, da folha de são Paulo, sobre a pesquisa de Élise Jasmin, sensacionalisticamente intitulada: Maria Bonita era “poser”, Dadá não. Pensei: nem todo sensacionalismo é falso, nem toda verdade é flutuante. Abandonei a pesquisa e fui montar um quebra-cabeças com Maria. Depois brincamos de dominó e jogo da memória. Cansados, deitamos na rede e adormecemos cantando juntos terral.

nuno g.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A pedra de Bendegó.



Para marialice, contra o desencantamento do mundo, sempre.

O museu nacional virou cinzas: metáfora mais-que-perfeita do tempo que vivemos.
Só restou lá dentro, a pedra de Bendegó.
Aquela que exigiu do império impensáveis esforços de engenharia.
Aquela que os cientistas batizaram de meteorito.
Aquela que sempre foi sagrada para os sertanejos.
Aquela que foi roubada e nunca devolvida.
O museu nacional virou cinzas: cultura e barbárie em chamas.
Em tempos de falsos profetas e mitos despossuídos de qualquer autenticidade, resta a pedra.
Que seja devolvida agora ao sertão com um pedido de desculpas.
Que se junte à fé dos seguidores do Conselheiro.
Que se reúna às cabeças de Lampião e seus homens sobre a escadaria de Piranhas.
Nela pulsa um reino inteiro.
Nela toda a viagem imaginária de Dom Sebastião.
Nela a delicadeza e aspereza do amor de Corisco, o diabo loiro, e Dadá, a sussuarana.
Que a injustiça seja desmanchada.
Que a pedra seja finalmente devolvida.
E que seja ela a deseducadora sentimental que necessitamos.
E que seja ela o amálgama mineral dos nossos rios de sangue.
E que seja ela o grito de repulsa a toda violência reunida no nosso projeto imperial.
Nela pulsa um reino inteiro.
A distopia de uma anti-nação.
Nela as veredas todas que cortam o sertão.
Os gerais sem-fins.
Contra o rumo tóxico da civilização.
Contra os tentáculos de um colonialismo que não perece.
Contra o esquecimento e o presentismo.
O reino da pedra.
Com seus encantados.
Último mito vivo.
A pedra de Bendegó é feita de carne e de osso.
As pedras sempre foram as vísceras do sertão.
Recordo do poeta ñuu savi me dizendo:
Foram os invasores que nos nomearam mixtecos.
Foram os invasores que nomearam nossos centros cerimoniais de sítios arqueológicos.
Aqui também foram os invasores que nomearam meteorito
à pedra sagrada de Bendegó que caiu dos céus em meio ao sertão.                         
Foram eles os que nomearam meteorito a esse talismã mágico.
O museu nacional virou cinzas:
Todo monumento de cultura é um monumento de barbárie,
nos ensinou Walter Benjamin.
A cultura da memória e a memória da cultura
perderam um de seus mais opulentos monumentos:
As labaredas de fogo escreveram
em um par de horas
alguns volumes de esquecimento,
mas nem tudo foi reduzido a pó:
sobrou a pedra de Bendegó –
Esperamos que a devolvam com brevidade ao sertão de onde nunca deveria ter saído.
Esperamos que nos devolvam o Sono e o Sonho.
O interior dessa pedra mágica é um caleidoscópio.
Nela vivem a sede dos mapuches e todas as línguas dos índios da terra do pau-brasil.
Nela, o emparedado Cruz & Souza.
Nela arde o arcaico Sol Esquecido.
Que ela seja regressada o quanto antes
e que na próxima vez que cruzemos a 116
eu possa finalmente dizer:
eis aí marialice a pedra que caiu dos céus
a que foi roubada pelos Senhores do Império
a que resistiu ao incêndio do museu nacional
aquela que tantas vezes te contei a história
enquanto tomávamos um suco descansando para seguir viagem
que soem os pífanos de Bendegó!
que a pedra, a poesia e o Sonho sejam ilhas de imaginação nesse mar de barbárie.
Além.

nuno g.
cachoeira, 04 de setembro de 2018.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

as moscas - viagem imaginária. (fragmentos de um sonho)

barcos de ossos subindo o rio / homens com buracos no peito descendo a serra / onças indecifráveis e índios tapuias / batalhas, punhais de prata, crucifixos, traições, degredo e violação /

homens ébrios entoando belíssimas canções de guerra em volta do fogo / assando carne e comendo / quase crua: o sangue escorrendo no canto da boca / a lua clareando na serra / as caravanas de negros amordaçados e acorrentados arrastados pelo areal dos tabuleiros das terras altas do vale / os maturis florescendo /

os rebanhos de bois e moscas / as emboscadas, os estupros, a ilha encantada / a última peregrinação dos tapuias à nascente do jaguaribe no árido sertão dos inhamuns / os pássaros agourentos e premonitórios / os quarenta piratas holandeses e a tribo dos suicidas / a carroça de fogo / o velho com olhos de estrelas / o daimon do paredão de pedra / a fronteira de arame / os relâmpagos, os raios e o insondável trovão / o cheiro do cio das fêmeas /

os gigantescos tachos cozinhando o leite pra fazer doce / as prensas dia e noite sem parar produzindo queijo do leite coalhado / as cabras absortas de ares perdidos rezando e pastando no cascalho e no pedregulho onde nunca faz sombra /

o pó das palhas do carnaubal cegando os bárbaros invasores / os gaviões destilando o pesadelo gestado nos grotões da serra da baraúna / os alazões endemoninhados cruzando as águas ensanguentadas do velho rio / os rabequeiros alucinados com seus tropéis de versos agalopados e martelos enfeitiçados / cascavéis soando guizos e chocalhos malditos /

os oráculos de tripa de carneiro, os brasões ilegíveis, as cruzes de madeira assinalando os sítios das mortes de homens sem nome e sem historia / caiçaras e barreiros represando lágrimas salobras / peixes em forma de lâminas, tatus gigantescos / as várzeas da insônia / as orações dos pistoleiros de corpos fechados / os rosários bailando nos dedos trêmulos das beatas / a febre flechando o coração dos lunáticos /

as matilhas de gatos maracajás, a procissão dos fantasmas se arrastando hacia o inferno, o sol latejando como um ressentido e furioso dragão oriental, as frondosas oiticicas nas croas do rio abrigando seres fantásticos, a sinfonia dos pífanos do purgatório / o beijo doce da sedutora moça caetana /

as esporas reluzentes...

nuno g.
são bernardo das éguas russas, 01 de março de 2018.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

os mortos que andam comigo

os mortos que andam comigo são muitos
      e têm fome
      e têm sede
      e têm dedos longos como os dos pianistas
os mortos que andam comigo são muitos
      e têm sonhos
      e têm olhos de lua
      e vestem roupas negras à maneira dos que carregam o peso do luto
os mortos que andam comigo sabem beijar
os mortos que andam comigo estão sempre em carne viva
os mortos que andam comigo se reproduzem na velocidade dos ácaros
os mortos que andam comigo sobreviveram a cem mil chacinas
os mortos que andam comigo têm cílios esverdeados
      e as peles cobertas por escamas de sal
os mortos que andam comigo falam muito
      se excitam facilmente
      e quando entram no mar
      esquecem todas as promessas das últimas madrugadas...

nuno g.
fortaleza, 25 de junho de 2018.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

...

impossível adivinhar a duração
ainda e mesmo depois de qualquer início
tudo se desfaz
        se decompõe
   seja um rio
   seja uma tarde
   seja a carne
depois que rasgamos todo o alfabeto
só resta o deserto da desolação
a melancolia em estado bruto
e o frio que assola nossos
pés descalços

nuno g.

terça-feira, 8 de maio de 2018

os palácios da memória ou compaixão pelas fúrias

Maria dorme.
Eu escrevo, rezo e choro – minha intuição me sopra que essas três coisas são uma só: como o mistério indecifrável da santíssima trindade.
O amargo sedimentado converteu meu corpo num mangue. Entre caranguejos, siris e guaiamuns se movem meus desejos e o resto de minhas forças.
Os pássaros cantam na casa do vizinho e penso em como é mágico o caminho que converte tristeza em beleza, ferida em cicatriz, sombras em luzes.
Maria dorme e eu penso em tudo que resta por fazer.
Eu escrevo, rezo e choro sentindo que sob essas ações repousa uma só intenção.
O carro dos ovos passa, o carro que anuncia os funerais passa, o carro do beiju passa: o silêncio por aqui é um bem difícil de se conquistar – tudo fere, esmaga, arranha, excita e distrai. Tudo é vento e carrega sempre pra outro lado. E apesar disso meu corpo-mangue escreve, reza e chora. Imerso num esforço sobrenatural para manter a concentração. Imerso numa guerra onde todos os sentidos fazem o possível para manter o equilíbrio sob o fio da sanidade.
Cantei a pedra e nela o destino. Cantei o rio e nele a sina. Cantei o vale e todos os seus atalhos e todas as suas passagens e nele o sonho. Cantei a ilha e nela a sombra e os animais fantasmagóricos. Cantei a infância e todas suas vestes corrompidas. Escrevi, rezei e chorei e só assim pude compreender que essas três ações são a mesma coisa. Cantei o infinito por me saber finito. Cantei o que me antecedia por me saber velho e antigo. Cantei o que poderá vir a ser por saber que ainda estarei aqui quando partir. Escrevi, rezei e chorei e fiz o que pude sabendo não ser isso o suficiente. Escuto o mar e recordo Van Gogh – tão longe e tão perto como os dragões do desespero, como o sal das lágrimas dos girassóis, como um grito que ecoa num quarto inteiramente destroçado.
Maria dorme e eu tento organizar os acordes dentro de mim: concertar esses sons parece ser a única via para reconquistar o silêncio – assim como a guerra parece ser o único caminho que leva à paz.
Rai cozinha tomates para preparar o molho da pasta. Mato uma barata desorientada com uma chinelada exagerada e o som ecoa na atmosfera. Recordo o meteoro que semana passada avistei no céu. Maria desperta:

o que papai tá fazendo?


Escrevendo, rezando e chorando: tentando salvar a minha alma.


papai é lindo!


O estampido do beijo me faz saber que ainda tenho pele e que o tempo é mais poderoso que as palavras. Larva, esquecimento e doses de álcool forte. Hoje faz sol e todo sol é anúncio de tempestade: assim veem os olhos dos náufragos, assim sentem os corpos-mangues, assim pensa o que se sabe tomado pelo amargo. Cinza é a cor da sanidade. Todo arco-íris não passa de alucinação. Remota é a intuição que respira em nossos instintos – e são os instintos os verdadeiros guias de quem caminha na escuridão.
Maria brinca. O molho está pronto. A campainha toca. O rapaz que veio trocar a borracha da geladeira. Por um instante penso como seria bom poder trocar também meus ossos, minhas vísceras, minhas articulações. Restaria só o sangue e nele a pulsação do mito. Sem esperanças. Sem futilidades. Sem os temores todos que nos atritam contra o vazio. Só a pulsação feroz e insensata do mito no vermelho do sangue. Só o grito da divindade esquecida na fortaleza abandonada. Só a lucidez gerada pela loucura e pelo absurdo. Só o gesto da mão que escreve, do olho que chora, do espírito que reza. Só a busca sem a necessidade do encontro. Só a fábula despida de qualquer ensinamento ou juízo moral. Só a carne e todos os nervos que a atravessam. Os pássaros engaiolados seguem cantando. O cárcere é uma máquina de produzir beleza e autenticidade. A dor me faz saber vivo. Todos estão mortos nessa cidade e qualquer ressureição há muito se tornou impossível. O rio corre sem dizer nada. As nuvens passam sem chover palavra. As crianças brincam e a pasta descansa sobre a mesa esperando a chegada do meio-dia quando nossas fomes a devorará da mesma maneira que os tejos devoram os ovos quando as galinhas estão distraídas.
Rai me abraça – as crianças tomam banho. O aroma do subterrâneo incensa a atmosfera. O calcanhar fraturado lateja. Tudo que ficou pelo caminho já me cobra seu esquecimento e merecido repouso. A justiça é só uma maneira de celebrar os mortos que nos esperam depois do entardecer. É meio-dia: fecho os olhos, rezo, escrevo e choro – nenhum soberano pode restituir uma infância perdida, nenhum algoz pode destruir os maus agouros de uma rasga-mortalha, nenhuma divindade pode talhar feições delicadas num corpo-mangue.
Na escuridão do meio-dia se gestam os sonhos mais belos, mais tristes, mais solitários: parir é a mais delicada das artes e os senhores da guerra sabem muito bem disso, pois aprenderam que só quem ousou matar pode ousar viver.
O fio de azeite que derramo sobre a pasta tem a espessura do fio de minha sanidade.
O beijo de Maria é infinito.
Rai é bonita, me traz um café: nenhum amargo é suficiente para preencher os espaços vazios de um corpo-mangue. Faísca breve entre dois nadas: é o que somos e isso é tudo e isso deveria bastar: mais não basta. Por isso escrevo. Por isso rezo. Por isso choro.
A alma é o que sobra quando a vida nos dissolve a pele.
Amém.

03 de maio de 18.
nuno g.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Cântico ao sol esquecido. (poema selecionado pelo prêmio unifor 2017)

radiante o sol do entardecer
que ao despedir-se e submergir no horizonte
ilumina o musgo e o limbo florescente
restituindo à pedra sua pele & sua integridade

radiante o sol do entardecer
que ao despedir-se e submergir no horizonte
acalenta o poeta que desde a margem de seu antigo rio
observa o naufrágio de um coração vazio e abandonado
que ao afastar-se definitivamente do porto
se depara com os escuros corredores que há tanto lhe aguardavam

radiante o sol do entardecer
que apascenta a aurora e
faz vibrar outra vez no céu o arco-íris
faz bailar as raízes sobre a insanidade da relva
guiando até a fronteira do inferno
a derradeira lágrima que escorre

radiante o sol do entardecer
que dissolve como um ácido
as arestas pálidas da facial cicatriz que adorna
o pródigo e perdulário viajante
& que em fumaça transubstancia
sua sombra
e todo o horror que carrega em seu alforje

radiante o sol do entardecer
que arde e consome as cinzas que alheio carnaval
espalhou sobre as vestes brancas que protegiam minhas feridas...

radiante sol do entardecer
no norte a morte não me assusta
seus sussurros são carícias e seus olhos candeeiros
tochas de carvão acesas atrás do fogo-fátuo do mundo
revelando os negativos fotográficos do Sonho miraculoso e perdido

radiante o sol do entardecer
que devolve às trevas o que trevas decidiu ser
com todos seus atributos suas qualidades e suas feições esquálidas...

radiante o sol do entardecer
que ilumina os seres que dançam a ciranda cósmica
e a memória do rio e das margens e das onças que sem nunca existirem
tornaram-se a única e tangível realidade

radiante o sol do entardecer
que em sua trajetória oblíqua
termina por reencarnar o chão onde tudo se iniciou
o sangue inutilmente derramado de meu pai
a catedral em chamas
o cálice da futilidade e do absurdo
e a ressurreição das movediças vísceras das areias entorpecidas de uma praia chamada
      futuro
guiando a derradeira lágrima em direção ao inferno

radiante o sol do entardecer
que ao despedir-se e submergir no horizonte
faz florescer as ervas do deserto
e propaga no vácuo as vibrações nervosas que sobreviveram
à passagem dos fantasmas
à tertúlia dos fantoches
e à caricatura dos esqueletos
descalcificados pela cruenta e bizarra batalha
com a própria sombra

radiante sol do entardecer
lembrança inescusável das divindades sertanejas e seus oráculos
  sua rispidez precisa
  sua fértil aridez
  seus sacrossantos anátemas...

radiante sol do entardecer
crepúsculo e amanhecer do reino das águas claras
sideral espaço povoado por balões mágicos
bonecas que falam
sabugos de milho sábios
rinocerontes encantados
& uma infinidade de quitutes imaginários

radiante sol do entardecer
dissipando com seus raios qualquer culpa
e afastando definitivamente da catedral em chamas
  o coração vazio e abandonado
  os olhos neblinados e suas chantagens
  o cálice do absurdo e da futilidade
e derramando sobre o limbo e o musgo da pedra
seu princípio vital sua beleza sua coragem
restituindo à sua pele
sua ousadia & sua integridade

radiante sol do entardecer
tartarugas de argila, equinócio de sapos
piolhos, cicatrizes, bactérias
cafeína, antibióticos, alucinações
infância desconhecida habitada por moléculas de duendes, sacis, gnomos e outras fadas

radiante sol do entardecer
rainha do ignoto
daimon arcaico que ao meu lado caminha
nossa senhora das carnívoras plantas
& das desterradas flores
rogai por nós
tarântula do paraguassú
rogai por nós
jaguatirica da fazenda do mato alto da serra de calcário
rogai por nós
gavião selvagem do Orinoco
rogai por nós
verdes abutres da colina do bom parto
rogai por nós
nossa senhora da lepra e da boa morte
rogai por nós
virgem da compulsão e da piedade
rogai por nós
não posso dizer nada além de pronunciar teu nome:
o marfim dos meus dentes cravado em teus seios como um amuleto mágico

radiante sol do entardecer
tartarugas de argila, equinócio de sapos
piolhos, cicatrizes, bactérias
cafeína, antibióticos, alucinações...

radiante sol do entardecer
rainha do ignoto
litros & litros de meu esperma
banhando teu corpo
curando no teu sono e no céu da tua boca
acariciando a vertigem de teu rastro
litros & litros de meu esperma
banhando teu corpo – essa capela, esse templo, essa sagrada cidadela
onde sacrifico flores corrompidas pela ação implacável dos trópicos:
flores brutalmente arrancadas do monastério onde as feras se devoram...

nuno g.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

...

Siempre regresa como virgen blanca la soledad
cuando el día empata el curso de la noche.
Una lágrima condensa al bosque en la carretera,
surco multiforme hacia la urbe sin árbol.
Pienso entonces en el fatal desperdicio de un cuerpo inexistente y sin amparo,
luz que perdió la sombra en la selva o en el mar
buscando la infancia eterna de una flor amarilla.
¿Dónde estaremos mañana?
¿Volveremos al nogal de Carolina,
a la ribera que surge entre brazos imprecisos?
(Hoy juegan nuestras hijas con el viento,
pero otras son violadas y enterradas.)
Visiones van, visiones vienen.
Cierro los ojos para despertar
porque el tiempo es imagen de la muerte,
no el sueño donde la ausencia revive espectros,
el tiempo,
el tiempo que roe la piedra y lima los huesos.
Botón o estrella, lo mismo da:
todo apagará la aurora que espero sentado en el jardín,
fumando el porro interminable
que la madre celeste encendió cuando naciera
y que atiende mi voz entre velas y copales.
Me secaré como la hierba y el papel;
pero ahora canto cerca y lejos de la tierra
donde las lenguas confunden y conquistan,
donde pesa la historia como una mortaja piramidal,
destruida, perdida, oculta.

Tadeo Stein

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

...

- é difícil escrever sobre o nada
- é que o nada tem um bocado de coisa dentro

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

...

tá nas mãos da providência
irônica, sábia e cheia de sardas
ruivinha como a madrugada
monge profana
que de tanto refazer a própria pele
aprende ensina ladra morde lambe cheira e
clareia águas
tá nas mãos do tempo
forma destino sina
reviravolta dentro e fora
dedicar a vida toda a algo sem serventia dada
livrar-se de qualquer resquício de ideologia
saber que só na forma habita o espírito
sentir poesia pulsando como a dor de um calcâneo torado
quem semeia alvos / colhe dardos
quem semeia labirintos / colhe minotauros
samba cachaça recolhimento santidade
quem sabe um dia a compreensão
poesia nada e tempestade
sempre
sturm und drang
agora

nuno g.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

haiku

estou escrevendo a horas
deixa eu descansar a escuridão dos meus olhos
na luz do teu corpo?

nuno g.

sábado, 27 de janeiro de 2018

samsara

já quebrei a cara
já quebrei o fígado
já quebrei o baço
já tive problemas no estômago
atravessei uma sinusite
e vivi no estrangeiro
já quebrei o pé direito
já quebrei o pé esquerdo
já quebrei o braço
já ingeri substâncias tóxicas
já tomei enteógenos
já perdi bússolas astrolábios & velas
já me desfiz de tudo o que não me interessa
e hoje tudo o que desejo
é voltar ao corpo em que nasci

nuno g.

fragmento de mário faustino

Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos

Mário Faustino

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

heresia

minha vó hoje me gritou
herege, vociferou
só por causa de que eu disse
que Adélia Prado sabia de deus tudo
e São Tomás de Aquino nada

minha vó se irritou deveras
é que ela nunca leu o coração disparado
nem o homem da mão seca
se lesse saberia que Adélia
traz desespero no corpo
vê deus com a carne
e extrai teologia de dor de dente

se algum dia folheasse
os manuscritos de Felipa
ou
quero minha mãe
entenderia que Adélia
cozinha, ama e arruma casa
como quem reza, medita, encarna

Adélia Prado é a sarça ardente do monte Horeb
São Tomás de Aquino é só uma pilha de palavras mofadas
sua Voz roça com viço a pele do mistério:
meu espírito está preso à carne
aceito e confesso o absurdo que me salva
tamanha delicadeza
há de ser mesmo uma heresia...

nuno g.

cosmorama

sobrevoei a noite da cidade
chuva de gols
pracinhas
oxigênio
& as avenidas insondáveis

sobrevoei o tempo dessa fera
minhas pegadas em sua atmosfera parda
chuva de água
assanhando o mormaço
da solidão asfáltica

sobrevoei suas mãos
seu silêncio
seu não servido frio
com carinho
e arroz branco:

distante e precioso afago
tão difícil de engolir
quanto atum em lata
requentado no prato

nuno g.
fortaleza de nossa senhora da assumpção, 20 de janeiro de 2018.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

miração

a flor tinha mil pétalas
mil mulheres negras que nos cobriram com longos véus
e fomos gestando um estranho fogo azul
que ardia sob uma intensa lua rosa
barro do aquiraz
barro do quixeré
barro de russas
reunidos nesta cidade grande
com olhos perdidos & infinita ansiedade
um tanto mais velhos
com mais catarro nos peitos
e uma série de outras questões sem importância
as mulheres negras se retiraram às suas pétalas
a flor foi se fechando
ficamos nós
rapés, tangerinas, risadas
mangas, bananas, abraços
e um desejo insano de devorar uma panelada

nuno g.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Jaguaribe, rio seco.

para s. s.

Não agüentava mais aquele rio seco.
Ainda que sim bonito ver aquele solo esturricado.
Serpente soltando as escamas.
Serpente soltando as plumas.
Aquela piçarra orando ao além por umas gotas de água.
Aquelas onças entoando cânticos de sede.
Aquela clepsidra de vidro feita com ossos de gafanhotos amarronzados e:
Esperanças verdes.
Nuvens acesas.
Do Cariri ao Jaguaribe.
No meio:
O céu azuzim do iguatu ao meio-dia.
Tarde esticada que nem cordel de feira.
Vertigem é o tempo para quem espera.
Horizonte é o que evita a queda.

nuno g.
Fortaleza de nossa senhora da Assumpção, 11 de janeiro de 2018.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Boulevard – belle époque

todo cambia – o inferno tem muitas faces
a poesia é uma broca de diamante perfurando
as camadas as camadas as camadas
entre a realidade e a realidade

todo cambia – infinitos são os sabores contidos numa só lágrima
a poesia é uma broca de diamante perfurando as espessas
camadas espessas camadas espessas camadas
entre a realidade e a realidade

todo cambia – a poesia é o túnel estreito e labiríntico que se segue à avenida iluminada

cachoeira, 15 de dezembro de 2017.
nuno g.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Catedral em chamas – estado de guerra permanente

para cruz & souza

em cada vértebra em cada osso em cada célula em cada glóbulo
em cada instante percorrido do ventre intoxicado de nicotina que
habitei por nove longos meses
até esse presente de águas paradas, mortas, cheirando a resíduos
de curtume italiano & papelera nacional
todas as selvas com sua saudável barbárie aniquilada
todos os homens de além-mar
todas as violências sugeridas ou executadas
todos os gozos desperdiçados
em cada pelo de minha sobrancelha inexistente
em cada trecho musical da sinfonia que substituiu minha memória roubada
em cada centelha de larva deste vulcão onde oro
em cada litania que proferi aos decaídos
em cada ferida que abri com meu punhal
em cada garganta que sufoquei com meus próprios punhos
em meu coração que ainda bate que ainda grita que ainda sonha
em cada onça em cada criança em cada sorriso
no centro do sexo de cada uma das filhas de hamurabi
no velho casarão, no cume do paredão de pedra, no apartamento-cemitério
em cada gota de neblina que se apresenta nessa atmosfera
a cada golpe que minha língua desferiu contra a mediocridade de alguém
por todos os versos que escrevi para todos e para ninguém
por todos os versos que não cheguei a escrever por não suportar o que traziam
pelos leprosos que comigo atravessaram as madrugadas
por todos os solilóquios que me conduziram nos labirintos da insônia
por cada dia que me foi concedido sobre essa terra povoada de males e fantasmas
por cada pão que me saciou a sede
pelas mãos que acariciaram meus cabelos
pelo vinho que regou minhas febres e norteou minhas alucinações
– mesmo as mais impróprias e abjetas –
por todas as sombras que dançaram ciranda comigo em volta do fogo
pela mulher coberta de algas & sal
que abriu seu corpo entre as falésias
e me afogou no sangue sagrado que de si jorrava
por cada um dos olhos ou dos cílios que mastiguei sem piedade ou compaixão
pelo terror que travou relações de amizade com minha infância
no silencioso sótão hoje em ruínas
pelas línguas que se perderam nas conquistas e que ressuscitam a cada café da manhã
por cada um de meus naufrágios
por todas minhas ilhas
pela mácula imperdoável nos gestos de quem me negou o que me pertencia
pela minha crueldade e minha capacidade de decepar peixes e
deflorar sonhos em botão
por toda a bílis que vomitei nas incontáveis ressacas que me atravessaram
por tudo e por nada
por todos e por ninguém
pela delicadeza e pela brutalidade
pela freira neurótica e por toda a devassidão dos monges em seus delírios de haxixe
arde, hoje, essa estranha e desfigurada catedral em chamas
e todas as confissões e todas as penitências e todos os exorcismos e
todos os malabarismos e tudo o que é fugaz e o que é impróprio e
o que é devoração e o que é céu azul e o que é meio dia e
o que é cicatriz e o que é insolação e
oásis oásis oásis
– como quando chupastes minha pica ao pôr-do-sol no mirante dos traidores –
a jugular aberta – nunca saberei se por um beijo do inimigo ou pela foice impronunciável –
a chuva, as serpentes rastejando, os leprosos, o calor úmido da selva
– ou seria do útero ainda? –
em cada vértebra em cada osso em cada célula em cada glóbulo de meu sangue
essa chuva que amanheceu se sente
com a mesma intensidade que o chicote na carne de um escravo
sendo açoitado na vitrine da mórbida feira onde transeuntes amordaçados
perdem a vida em estúpidas tentativas de preservar
cada reencarnação cada aparição cada grito abafado
– por meios rápidos eficazes e pretensamente seguros –
na solidão e intimidade que reina entre nossos apetrechos de dormir:
onde o sono se confunde irremediavelmente com as cinzas necrosadas
subitamente revolvidas pelo mar de éter em que estamos todos mergulhados

cachoeira, 15 de dezembro de 2017.
nuno g.