São exatamente sete e sete da manhã.
Meus olhos abraçam uma canoa que sobe o Paraguassú.
Não há pressa.
Nem em meus olhos.
Nem na canoa.
Meu tataravô sela seu cavalo na Timbaúba e sobe o vale em direção ao Icó.
Meu bisavô limpa a arma empoeirada ante as ameaças do bispo de Limoeiro do Norte.
Meu avô engole mais uma cachaça e tira o gosto com angústia e desespero.
Meu pai abandona a cidade do Recife em busca de raridades de antiquário.
Minha mãe voa na avenida Conde da Boa Vista como um pássaro desnorteado.
Roque caminha para a cidade.
Seus pés tocam suavemente os paralelepípedos.
Para não despertar Assucena.
Uma flor brota no coração da lua.
Minha tataravó incendeia a biblioteca de pirotecnia que herdou de seu marido.
Minha bisavó incendeia a biblioteca maçônica que herdou de seu marido.
Minha avó ampara os passos de meu avô que herdou do luto.
Não há pressa.
Tudo que aconteceu algum dia segue sempre acontecendo.
Alice desce do ônibus e entra na escola.
São exatamente sete e sete da manhã.
Meus olhos abraçam um vento que sobe o Jaguaribe.
Essa hora os pés de Roque já tocam os paralelepípedos da Prisco Paraíso.
Assucena dorme e sonha.
Um beija-flor entra pela janela.
A água do café ferve.
O galo canta.
Há dias em que o passado abre as cortinas com suas mãos de água.
Há dias em que o passado incendeia poeira com suas mãos de fogo.
Há dias em os rios correm ainda mais lentamente.
Meus ancestrais derretem como cera de vela.
E a fumaça do cigarro me abraça como a morte abraça seu amado primogênito.
São exatamente sete e sete da manhã.
Apesar da insistência da luz a fé na escuridão resiste.
Meus ancestrais caminham comigo em direção a lugar nenhum.
O som do ventilador borra o silêncio do amanhecer.
A poesia abraça meus olhos como a morte abraça seu amado primogênito.
Não há pressa.
O dia passará suavemente como os passos de Roque.
Em algum lugar do inferno uma canção à lua é depositada ao chão.
Existem oferendas que são como o esquecimento.
Precisam existir para que a terra siga girando.
O jaguar encantado uiva.
A serpente gira.
Larissa dorme.
E Hermenegildo sorri.
nuno g.
Toróró, 26 de março de 2026.
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