domingo, 22 de março de 2026

ausência de luz (fragmento do Livro de Hermenegildo)

      Hermenegildo é a aparição do precário. A certeza do precário. A condenação do precário. A aceitação do precário momento em que ao entender que todas as coisas são mutáveis se enfrenta a consciência com algo que resiste a fluir. Por essa razão tantas vezes Hermenegildo foi associado às areias movediças e, talvez por isso, sua decisão de permanecer parado como uma formação mineral no exato ponto em que o deserto e o mar se encontram. Hermenegildo, apesar de tudo o que foi dito antes, é um vento suave que apenas corre pela terra sem destino certo. Em verdade, Hermenegildo é a força que impulsiona este vento. Quando retirou os dedos da cavidade úmida de Judite percebeu que era sangue o que pensou ser excitação. Os cavalos selvagens trotando sobre o rio. As mariposas de inverno e o calor que não nos permitia esquecer que Hermenegildo seguia nos guiando no inferno. Moscas, pedaços de parafina de velas que não queimaram até o fim e tubos de ensaio cheios de veneno extraídos de serpentes várias. Hermenegildo já não recorda a quantas luas peregrina pelo mundo. Nem quantas vezes ele e Judite copularam e se despediram. Hermenegildo é chamado, pela tribo dos povos de Ar, Senhor de Todos os Fogos. Embora saibam que suas mãos são abundantes águas. Hermenegildo sabe que decifrar pesadelos é tarefa inútil. Hermenegildo ensina sobre o Nada e a esquecida arte de forjar um coração. Tudo é tão precário quando Hermenegildo não está próximo. Tudo é tão difícil de suportar quando sua memória ameaça nos abandonar definitivamente. Olho o rio e o rio me olha como me olharia Hermenegildo se estivesse aqui agora. Hermenegildo está aqui, mas aqui não é agora. Há um descompasso que assola o tempo e o espaço. Hermenegildo sorri ante nosso espanto nada filosófico e desprovido de sincera capacidade de viver a vida. Hermenegildo sabe que nós já não sabemos a língua dos pássaros. Certa feita, tomamos um café e ele me disse de como havia se convencido que o melhor agora era antecipar o fim do mundo. Neste mesmo dia me disse o quanto lhe parecia estúpida a própria ideia de fim do mundo. Ainda com sangue menstrual nas mãos Hermenegildo acariciou os cabelos de Judite e se despediram. Hermenegildo é o silêncio mais terno e violento, essa janela que se abre quando as retinas de nossa consciência alcançam a fixar a precária condição de tudo que existe sobre a terra. Judite...


nuno g.

Toróró, 22 de março de 2026.

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