segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

piedade

Cortez queimou os barcos para que seus marujos sentissem na alma o que é não ter onde regressar.

Desde então recordo aquela praia e aquela igreja: unidas pelo destino de meu nome e do sangue que me trouxe à terra.

E toda segunda-feira torno a pisar o chão onde avistei o arco-íris, a serpente e o jaguar.

Alice me abraça como quem abraça o viajante que parte para nunca mais voltar.

Assucena me olha como quem olha quem lhe recebeu no parto.

No céu os pássaros semeiam tempestades.


Muitas vezes o que se espera ser uma alegria revela-se mero alívio.

O mar é uma encruzilhada onde todas as águas se abraçam.

Como quem se despede para sempre.

Como quem nunca termina de chegar.

No céu os pássaros semeiam o silêncio que antecede as tempestades.


Cortez queimou os barcos para que não houvesse forma de regresso.

Não sabia que nunca se regressa aonde nunca se esteve.

O mar é a encruzilhada onde todas as águas se unem e se apartam.

No céu os pássaros semeiam as estrelas que nascem após as tempestades.


nuno g.
22/dezembro/2025.

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