Nem tão frágeis são os ossos.
(...)
Muito cuidado com o recém-nascido.
Adélia Prado.
Era dia de caça.
Nem todas as rotas levam ao coração.
O sol escorregou sangrando por essa fenda entre tuas pernas.
E minhas mãos tocaram outra vez as areias do deserto.
Era dia do caçador.
Apenas uma rota leva ao coração.
Onde a lua ferve depois do desfecho inevitável.
E minhas mãos rogaram para que o Nada tornasse ao seu trono.
Era dia da caça e do caçador.
Que o coração invente sua rota.
E se liberte do cárcere da promessa do paraíso.
Não há flagelo maior que aquele que está por vir.
Era dia de louvar a mulher que pariu o sol.
Era tempo de saudar a batalha dos condenados a esculpir estátuas de sal.
O sangue que banhava o recém-nascido.
E a vontade de esquecimento que saltava do inferno de seus olhos.
Até os ossos mais resistentes viram cinzas.
Com clemência e piedade oramos ao cetro onde se apoia o rio curvo.
Os mortos clamam: abandonemos o temor às tentações.
Na floresta toda resistência é inútil.
Qualquer dia amanheceremos irreconhecíveis.
A moça do cartório registrou dezembro em sua ata de nascimento.
E com pluma leve e sorrateira escreveu nas águas radiantes:
Muito cuidado com o recém-nascido.
Os céus o protejam da angústia que caminha com a esperança.
nuno g.
Jesús María, 01/01/2026.