quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Recém-parido

Nem tão frágeis são os ossos.

(...)

Muito cuidado com o recém-nascido.

Adélia Prado.


Era dia de caça.

Nem todas as rotas levam ao coração.

O sol escorregou sangrando por essa fenda entre tuas pernas.

E minhas mãos tocaram outra vez as areias do deserto.

Era dia do caçador.

Apenas uma rota leva ao coração.

Onde a lua ferve depois do desfecho inevitável.

E minhas mãos rogaram para que o Nada tornasse ao seu trono.

Era dia da caça e do caçador.

Que o coração invente sua rota.

E se liberte do cárcere da promessa do paraíso.

Não há flagelo maior que aquele que está por vir.

Era dia de louvar a mulher que pariu o sol.

Era tempo de saudar a batalha dos condenados a esculpir estátuas de sal.

O sangue que banhava o recém-nascido.

E a vontade de esquecimento que saltava do inferno de seus olhos.

Até os ossos mais resistentes viram cinzas.

Com clemência e piedade oramos ao cetro onde se apoia o rio curvo.

Os mortos clamam: abandonemos o temor às tentações.

Na floresta toda resistência é inútil.

Qualquer dia amanheceremos irreconhecíveis.

A moça do cartório registrou dezembro em sua ata de nascimento. 

E com pluma leve e sorrateira escreveu nas águas radiantes:

Muito cuidado com o recém-nascido.

Os céus o protejam da angústia que caminha com a esperança.



nuno g.

Jesús María, 01/01/2026.