quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A chuva. (série poemas para crianças - 00)


Nasceu uma chuva dentro de mim

Uma chuva sobre uma ilha

E dentro da chuva nasceu uma borboleta

Uma borboleta nadando num lago bravo

Em meio a um vale algo mágico

E nas pupilas da borboleta nasceu uma flor

E na cavidade da flor nasceu uma luminosa ilha

Uma ilha onde choviam chás de ervas

Alfazema, camomila, arruda, alecrim

Benjoim e outras ervas que nasceram entre os raios

Da chuva que chovia na ilha

Nasceu uma chuva dentro de mim

Um jaguar correndo no meio da chuva

Um jaguar cruzando um largo rio

Um jaguar proseando com borboletas e flores

Nasceu um jaguar dentro de mim

E nas pupilas do jaguar duas luas

Uma cheia, outra nova

E dentro dessas luas se ouviam canções de ninar

Tão perfumadas quanto a alfazema

A camomila, a arruda, o alecrim


A flor pousou na asa da borboleta

Kakituramba choveu chá de benjoim

E novas águas nasceram dentro de mim


nuno g.

Toróró, 07/11/23

domingo, 29 de outubro de 2023

os cemitérios de Ouro Preto

Bruno nunca pode esquecer nossa pereginação aos cemitérios barrocos.

O que sim ele esqueceu é que também fomos ao mosteiro budista.

E à casa do rasta que cultivava ervas sagradas.

Isso faz tempo, muito tempo.

São reminiscências que me povoam.

Como aquele show do Arrigo Barnabé.

Ou a alegria nos olhos de Malu se preparando para ir à fliquinha.

Enquanto o gavião pousou no horizonte de Gabriel.

A lua está aqui - como esteve em cada cemitério de Ouro Preto.

E depois de depois de amanhã é finados.

O caracol vem chegando sem pressa.

Estávamos em Minas. 

Terra de Milton, onça verdadeira, voz de deus, cio da terra.

Assucena acorda.

Adeus mosquiteiro / pulgas e carrapatos vão brincar no chiqueiro.

Também recordo Bruno fazendo a família parar a ouvir Bob Marley.

Reminiscências de um futuro tão distante e tão próximo.

Enquanto as bananas da terra cozinham e piso no pilão a canela.

Romeu é um gato educado e cheio de charme.

Alice o batizou assim.

Meu avô, seus cigarros e um copo de whisky.

É o único que me chega daquelas fotos do Recife.

O resto é névoa e neblina.

O resto é escuridão e a triste farsa dos que temem a morte.

A lua, o gavião, a serpente e o cio da terra na voz de Milton.

Adeus mosquiteiro / pulgas e carrapatos vão brincar no chiqueiro.

O Velho em forma de pássaro alaranjado.

O medo do medo de Gabi soprando na brisa do amanhecer.

Alice ensaia ensaia ensaia.

Já será Senhor dos Mares empunhando tridente entre barcos piratas.

As bananas estão cozidas / A canela feita em pó.

Finados está chegando - eu e minhas ruínas e o amor ao mistério.

Adeus mosquiteiro / pulgas e carrapatos vão brincar no chiqueiro...


nuno g.

Toróró, 29 de outubro de 2023.


sábado, 28 de outubro de 2023

lua cheia.

hoje é lua cheia.

Na Cisjordânia camponeses são assassinados enquanto colhem azeitonas.

Assucena conheceu dona Antônia.

E eu fiquei olhando como se olhavam.

As duas extremidades do arco.

O silêncio atravessando a troca de olhares como uma flecha.

Meu coração disparado.

Céu quase tão azul quanto o de Durango ou o de Iguatu.

Banhei Assucena com alfazema.

Minha mãe selvagem está com água nos pulmões.

Acendi uma vela para ela.

Por sua saúde e sua firmeza.

hoje é lua cheia.

Na Cisjordânia fascistas assassinam camponeses enquanto colhem azeitonas.

Finados se aproxima como um caracol, lentamente.

Não esqueço a flecha.

Não esqueço o arco.

hoje é lua cheia.

Meu coração disparado.

Maria Alice ensaia ensaia ensaia.

Domingo que vem ela será Tritão no teatro.

Será pai por primeira vez, depois de onze anos sendo filha.

Meus olhos marejam.

Estou velho, cansado e solitário.

Tenho a poesia. 

Tenho essas Marias que o astral me concedeu para me guiarem.

Tenho essa Senhora que me ensina com suas mãos de Lama.

Tenho essa Senhora que me lava os olhos com mel.

Tenho essa certeza que não fosse a poesia não estaria aqui.

Ainda assim haveria um colono enforcando um camponês enquanto colhe azeitonas.

hoje é lua cheia.

Desde sempre dona Eliana Gonçalves.

Toda luz e radiância no meio do céu.

Como essa pedra no meio do terreiro.

Como os olhos de Assucena no centro dos olhos de dona Antonia.

Como Maria Alice no meio do palco do teatro.

Como a razão e o leite no centro do corpo de Larissa.


nuno g.

Toróró, 28 de outubro de 2023.

Dádiva.

Adélia sabe dizer das coisas de deus - carrego essa força comigo.
Escrevo com Assucena no colo.
Escrevo com Alice no colo.
A mulher que traz a razão no corpo agora também traz leite em si.
Hermenegildo passa com o olhar perdido na outra margem do rio.
Onde a montanha queima criminosamente.
As cobras, os pássaros, os tatus, os lagartos encontram a morte.
Alguns conseguem escapar e caem nos telhados das casas de São Félix.
A estiagem segue. Rego as plantas antes de escrever.
O Senhor do Fogo me exige ser todo justiça.
O Senhor da Pedra me exige ser todo firmeza.
A mulher que traz a razão no corpo desayuna uma canja de galinha.  
Adélia sabe dizer coisas que eu não sei - carrego esse amor comigo.
Cleonice passa na estrada falando de sua roça.
Judite passa na estrada falando de sua égua.
As duas pisam no mesmo chão onde pisara Hermenegildo.
Sylvia Plath escreveu sobre o caçador de mamangavas e eu chorei depois que Alice partiu.
Ela escutou o conto com atenção e em seguida foi brincar junto ao fogo.
Assucena teve um dia difícil.
Muitas são as agruras do encarnar.
Estar aqui exige muito.
Leite, razão, colo, fé.
Penso em Jó todos os dias.
E quando o Cavaleiro passa cantando meus nervos bailam.
E quando o Caçador passa sua flecha me atravessa.
E quando o Anjo Azul se deixa avistar tremo.
Já é sábado, finados se aproxima.
Como um caracol que anda devagarzinho.
Tenho que ir dar voltas de rua hoje.
Comprar uma vela pra minha mãe da floresta que está adoecida.
Comprar pão, broa de milho e colher flores pra mulher que tem a razão e o leite no corpo.
Papai, passou rápido o tempo, quando eu estava aí ela tinha dez dias, agora já vai fazer um mês.
Passa rápido o tempo.
Quem sabe das coisas de deus saberá das coisas de tempo.
Em Minas existe uma cidade chamada Divinópolis.
Nessa cidade existe uma rua chamada Ceará.
É lá que vive Adélia - a poeta que me ensinou a ver com olhos livres.
Tenho que ir à rua. Minha mãe da floresta está com água nos pulmões.
Preciso lhe acender uma vela em agradecimento.
Nós sim sabemos que a morada da vida é no coração da morte.

nuno g.
Toróró, 28 de outubro de 2023.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Verão

Ainda estamos em outubro e já arde um sol pra cada um no céu.

As plantas estão tristes.

Os animais acabrunhados.

Um bom leitor sabe quando a frase flui.

Um bom leitor reconhece quando o estilo dita naturalmente o ritmo.

Um bom leitor reconhece no espelho do texto a guerra que o origina.

Um bom leitor sabe que tudo é ficção.

A verdade dessa primavera é a estiagem.

E essa espera de trovoada na qual se encontra mergulhada toda a cidade.

O rio segue sereno.

E as bombas seguem caindo do outro lado do mundo.

Deixando órfãos e semeando ódio no horizonte.

A verdade dessa estiagem é o resguardo.

E esse temor ao verão que se anuncia.

O calor nos evapora.

O calor nos resseca por dentro.

O calor derrete coisas que não nos servem mais.

A verdade desse resguardo é a trovoada.

Ontem levamos Assucena para fazer o exame de audição.

Bestagem - ela escuta mais que nós.

Ouve com perfeição eguns e encantados.

E sonha muito além do que nos é dado sonhar.

Um bom leitor sabe que não existe verdade além da ficção.


nuno g.

Toróró, 27/10/23.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

O vestido branco de dona Eliana Gonçalves.

Alice, esse vestido foi da sua vó, agora é seu.

Gêgê, um dia esse vestido vai ser seu também.

Seu pai gosta de rio, eu gosto de mar.

Sentamos na pedra no meio do terreiro.

A vela acesa, o perfume do incenso.

Correu um vento.

Alice guardou o vestido na mala.

Gêgê tornou a mamar.

E Gabi se perdeu tentando ler as tortas linhas das nossas mãos...


nuno g.

Toróró, 25 de outubro de 2023. 

terça-feira, 24 de outubro de 2023

ao som de David Bowie na feira de Cachoeira

 para Campos de Carvalho,


olhei as estrelas e a igreja dos remédios

pisei onde antes o trailer de dona Irá

e lhe estendi a mão em sinal de benção

um sapo cruzou meu sonho

com uma enorme língua de fogo acesa

e uma voz vinda de muito longe sussurrou

tenho medo, tenho medo, tenho medo

olhei outra vez a igreja dos remédios e as estrelas sobre a feira vazia

pisei na vazante do Jaguaribe

onde antes pisara o Touro que tem a cabeça enterrada no Icó

e as onças que nunca pararam de cantar

um louva-deus pousou no ombro esquerdo do meu sonho

e a voz longínqua tornou a sussurrar

tenho medo, tenho medo, tenho medo

às vezes os moribundos aguardam anos a permissão dos seus para descansar

às vezes o medo nos proteje como um Anjo que conhece o futuro

mas muitas vezes o medo nos cega e nos ata ao que devíamos abandonar

a voz de David Bowie se fez ouvir entre as estrelas

as portas da igreja dos remédios se abriram

dona Irá me concedeu sua benção

acariciou as coroas das cabeças de minhas duas Marias

e a luz do sol foi se esparramando sobre a feira

enquanto os primeiros transeuntes chegavam com suas frutas, verduras, legumes

e o cheiro de café e de cigarro inundava a primavera do sonho...


nuno g.

toróró, 24/10/23.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

o último poema de Heba Abu Nada

A noite na cidade é sombria, 

exceto pelo brilho dos mísseis; 

silenciosa, exceto pelo som do bombardeio; 

aterrorizante, exceto pela promessa tranquilizadora da oração; 

escura, exceto pela luz dos mártires.

Boa noite.


La noche en la ciudad es oscura, 

excepto por el brillo de los misiles; 

silenciosa, excepto por el sonido del bombardeo; 

aterradora, excepto por la promesa tranquilizadora de la oración; 

negra, excepto por la luz de los mártires. 

Buenas noches.


Heba Abu Nada.

24/06/1991 - 20/10/2023.

sábado, 21 de outubro de 2023

Eliana e as onças III


para Gaeth Castanheiro,


o acerto pode ser incerto

mas o erro tem que ser exato

Gaeth Castanheiro


o tempo mergulhou em sépia a lua

lágrimas de tornassol se esparramando

pelos Caminhos da Aranha do Destino


o tempo mergulhou em sépia o sol

e a casa onde a morte se gestou em vida

areando os olhos cegos aferrados à escuridão da matéria


o tempo mergulhou em sépia a luz das estrelas

as sertanejas sussuaranas, Marias

reencontradas na ancestral suicidada 


nuno g.

Toróró, 21/10/13


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

o mundo feito com as mãos, por Demetrios Galvão.

no universo antropomágico
do mundo feito com as mãos
existem seres bonitos em sua simplicidade
uns visíveis e outros invisíveis
essa comunhão que frutifica
uma espiritualidade suave

de mãos dadas com a mística do mundo
o ciclo cósmico renova ruínas
e a força transformadora
produz alimentos
molda idades abstratas
reluz palavras na escuridão

a humanidade come na mão da natureza

 

 

Demetrios Galvão (Teresina/PI, 1979) é professor, poeta e editor. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017) e Reabitar (2019). Também publicou  o objeto poético Capsular (2015) e a plaquete A Inconstância dos Fluxos (2023). Tem poemas publicados em diversas antologias e revistas literárias. É coeditor da revista Acrobata em atividade desde 2013 – https://revistaacrobata.com.br/

 

el mundo hecho con las manos, # Tradução por Gladys Mendía.

 

en el universo antropomágico

del mundo hecho con las manos

existen seres hermosos en su simplicidad

algunos visibles y otros invisibles

esta comunión que fructifica

una espiritualidad suave

 

de la mano de la mística del mundo

el ciclo cósmico renueva ruinas

y la fuerza transformadora

produce alimentos

moldea edades abstractas

brilla palabras en la oscuridad

 

la humanidad se alimenta de la mano de la naturaleza

 

 

Gladys Mendía, escritora, tradutora e editora na LP5.

 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Prece às crianças de Gaza

Crianças de Gaza,

De tão longe lhes escrevo

Que quase duvido que me ouçam

Desertos e oceanos me atravessam

Quando nos olhos de minhas filhas, Marias

Avisto as bombas que caem sobre vossas casas

Como pássaros desnorteados possuídos pelo espírito da morte

Quando no choro de minhas filhas, Marias

Ouço o choro assustado que escapa de suas gargantas

Como súplicas de prisioneiros sob as perversões de um carrasco

Que desconhece qualquer limite às suas fantasias de torturador

Crianças de Gaza,

Lhes negam água

Lhes negam abrigo

Lhes negam comida

Mas não podem lhes negar minhas lágrimas

Não podem lhes negar minhas preces

Não podem lhes negar minha poesia

Oceanos e desertos lhes atravessam

E unem os olhos de minhas filhas, Marias, aos seus olhos

Crianças de Gaza,

Algum dia vocês olharão para trás

E verão o horror a ira e a covardia

Destruindo vossas infâncias

Ouvirão o som das bombas e a pulsação das cicatrizes latejando em seus corpos

Vocês nunca deixarão de ser o que são

Nunca poderão esquecer o que estão vivendo agora

Nem o que viveram vossos pais e vossos avós

Crianças de Gaza - Alláh não as abandonará

Nele encontrarão seus indecifráveis oráculos

E os misteriosos labirintos da existência

Nele encontrarão a pedra firme onde ancorar seus íntimos desesperos

Crianças de Gaza,

Sórdidos homens de corações impuros

Mergulham suas infâncias na dor e na amargura

Mas suas almas permanecerão ilesas e intocadas

Na abundância em que crescem minhas filhas, Marias

Saltam como rãs no pântano

As misérias de suas existências

Crianças de Gaza,

Seus pais com armas, fé e angústia descomunal

Tentam lhes devolver a Terra Prometida

Crianças de Gaza,

Suas mães se fazem água para que não morram de sede

Suas mães se fazem pão para que não morram de fome

Suas mães se fazem esperança para que não morram de desgosto

Suas mães se fazem azeite de oliva para que não desconheçam a doçura

Suas mães se fazem tecidos para vestir vosso supremo sofrimento

Crianças de Gaza,

O mundo assiste a tudo e não faz nada

Como um estúpido espectador ante um espetáculo de entretenimento

Somente os seus se fazem escudos para que as bombas não caiam sobre vossas pequeninas cabeças

Crianças de Gaza,

No sono sereno de minhas filhas, Marias

Avisto os destroços de vossas infâncias

Ouço a indiferença absurda do mundo ante o vosso supremo sofrimento 

Crianças de Gaza,

A poesia nada pode ante a realidade e a crueldade e o absurdo do mundo

Crianças de Gaza,

Vosso clamor é o clamor de todos os oprimidos da terra

Alláh nunca as abandonou

Alláh nunca as abandonará

Nas ruínas dos hospitais destruídos pelas bombas

Nas ruínas das escolas destruídas pelas bombas

Nas ruínas dos versos dos grandes poetas palestinos

Nas ruínas das místicas árabes e do sufismo

Nas águas dos desertos e na aridez dos oceanos

Vocês encontrarão a matéria-prima e as reminiscências da Terra Prometida

Vocês encontraram o alimento e o abrigo que lhes negam agora

Crianças palestinas

Lhes negam os peixes do mar

Lhes negam o pão da terra

Lhes negam uma casa onde dormir, sonhar e orar

Lhes negam o sal que dá sabor à existência

Crianças de Gaza,

Mas não podem lhes negar uma língua, uma história e uma tradição poética

Não podem lhes negar a fé nem a dor que sustenta toda fé

E vossa dor ecoa nos olhos serenos de minhas filhas, Marias

Palestinas como todas as Marias do mundo

Palestinas como a Maria que amamentou aquele em quem o Ocidente enxergou o próprio Deus

Crianças de Gaza,

Sem saber se essas palavras cruzarão os desertos e oceanos que nos separam

Impotente ante a vossa dor e o vosso sofrimento

Só me resta orar e crer

Que o amor e a misericórdia de Alláh

Hão de vencer a ira, a covardia e a maldade que lhes destroça a infância

Só me resta acreditar

Que algum dia essas pedras que hoje lhes servem de armas

Serão a matéria-prima de sua futura Terra Prometida

E os brinquedos da infância de seus filhos, de seus netos e bisnetos

Só me resta rezar para que algum dia possam brincar de roda

No oásis que lhes concederá o destino

Crianças de Gaza,

Vocês serão maiores e melhores algum dia

Pois lhes tocou não ter outra infância senão a da guerra e dos destroços

E saber da mutilação e da perda antes de conhecer o acolhimento e a alegria

Crianças de Gaza,

A paz sem justiça é qualquer coisa menos paz

Que a poesia seja vossa prece

E que a memória da indiferença do mundo os fortaleça

Crianças de Gaza,

Do outro lado do oceano

Do outro lado do deserto

Alláh lhes olha

Alláh lhes alimenta

Alláh sacia vossas sedes

Algum dia vocês serão maiores e melhores 

Pois nunca esquecerão o poder destrutivo do ódio e das bombas

Pois nunca esquecerão o silêncio ensurdecedor da indiferença do mundo

Pois nunca esquecerão o choro e ranger de dentes que soa no campo de batalha

Crianças de Gaza,

Recebam minhas lágrimas e estes humildes versos

Que essa injustiça absurda e esse sofrimento supremo

Que esmaga vossas infâncias com a voracidade de um abutre maligno ante uma presa indefesa

As convertam em guerreiras da Luz e da Sabedoria

E as tornem capazes de vencer as sombras da ignorância

Que não poupam infâncias, oceanos e desertos...


nuno g.

toróró, 18/10/23

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Oração à Lua Grande, ao Gavião e ao Anjo Azul

para Larissa Gonçalves,


A espada, a balança e os lírios brancos.

Os beija-flores e essa pedra que sustenta o Mundo.

Tudo gira e a gira tudo cura.

Tudo gira e o girar nos serve de alimento.

Aquieta nossa fome - faz serenar a Sede.

O mel, o arco, a espada.

E esse silêncio que clama por mais silêncio.

O tempo do ventre e as feridas que trazem mapas dentro.

O poder de cartografar cicatrizes.

A luz que só sobrevive no escuro.

E esse saber das dietas e dos jejuns.

Rei, chefe e Senhor das matas sombrias e dos céus nublados.

Em vós meus temores imaginários.

Por vós meu caminho e todas as severas encruzilhadas.

Ave real, rainha da Floresta e sombra que por ser sombra é ensinamento.

Aqui é escola onde todo dia se aprende que não se sabe nada.

Aqui é lugar de cura onde se entende que a cura é sempre caminho e nunca chegada.

Teu nome seja chão, abrigo e morada.

Tua terra seja terra onde nossos pés encontrem sempre jornada.

Água límpida e corrente.

Poço das Onças: Poço da mãe D'água: Valle de Bravo.

Em Amargosa um dia Eles vieram.

Eram dois e muito velhos.

Abriram uma fenda entre o Nada e o Nada.

E me guiaram até esse aqui, esse agora.

Não encontro a palavra para saudá-los.

Então lhes ofereço essas pipocas.

Esse milho estourado ao fogo de candeeiro.

Ave real - sempre vós entre o mar e meus olhos.

Ave real - em que outras asas teríamos cruzado tantas vezes o Raso da Catarina?

Bendegó e a pedra.

Canudos e a memória do que poderíamos ter sido.

Caldas do Jorro e as águas quentes e curativas do ventre da terra.

Ibó, o Velho e o rio - o Rio e o Velho.

Icó, a cabeça de Touro enterrada sob a Igreja da Virgem da Conceição.

A Floresta do Araripe - signo de seguimento.

Basquiat - em sonho, fé, fundamento e amizade.

Senhora dos doces lábios.

Teus véus aqui em proteção e espera.

Archanjo Azul - destino a teus pés em devoção entregue.


nuno g.

Toróró, 26 de setembro de 2023.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

O tempo, a serpente, o labirinto e o palácio do beija-flor

Alzira beijou os pés da terra e os pássaros alaranjados sobrevoaram o rio.

Estive outra vez entre as ruas da infância.

E ouvi os cânticos dos escravos e seus atabaques.

Alzira ergueu seu santuário - sua escada para o Nada.

Além do silêncio se gesta outra forma de vida.

Alzira sorriu quando lhe falaram de um mundo em desintegração.

Nós que aqui estamos viemos de longe.

Nós que aqui estamos sobrevivemos muitas vezes à dissolução.

A mulher que traz no corpo a razão despertou mais cedo.

Costurou novos cílios, sobrancelhas e fabricou unhas coloridas.

Centauros cruzaram as águas.

Elipses, curvas acentuadas e areias movediças.

A Sussuarana e a lua - Rebeca acaricia os cabelos como se já fosse noite e plenitude.

Corre pelas várzeas um jaguar alucinado.

A menina dos olhos de cristal em seu lombo.

A Sussuarana e a estrela - todos os sonhos esquecidos estremecendo ao amanhecer.

Nossos mais velhos despertando ainda mais velhos.

E os que vêm chegando acendendo centelhas e faíscas.

Água limpa às quartinhas e sol.

Unicórnios - certa insistência sem angústia.

A dor que chega. A dor que vai. A dor que sempre esteve aqui.

A mulher que traz no corpo a razão caminha entre o Nada e o Nada.

Ano passado todos morremos - Alzira sonha sonhos dos quais não guardará qualquer recordação.

A estrela e seus afetos - o rio, a pedra, o musgo e a solidão do Velho.

Chegam as maritacas, as garças e as lembranças das feiticeiras da ilha.

Alzira me beijou a testa - sua benção!

Hermenegildo acenou de longe - os gatos seguiram a algazarra.

Ainda é quase noite e já se avista a gruta onde a serpente encarnou.

Vestes brancas, água de alfazema, velas e milho branco.

Água limpa às quartinhas - Alzira beijou os calcanhares da porteira.

A mulher que traz a razão no corpo canta.

O passado é uma roupa que não nos serve mais.

Senhora das águas doces - sua benção!

Senhora da lama do mangue - sua benção!

Senhora das tempestades - sua benção!

Senhor das cores celestiais - sua benção!

Cavaleiro da lança esmeralda - sua benção!

Toda ferida tem um mapa dentro.

Nazaré com seu lenço apara as lágrimas.

Senhora do mar - sua benção!

Senhor das matas sombrias - sua benção!

Ouço outra vez os cânticos iluminados dos escravos.

Seus atabaques, suas promessas, suas sutis maneiras de vencer a morte.

Caleidoscópio de ressentidas estrelas - a manhã já mergulha em seu abismo.

E nós desayunamos as flores do aniversário.


nuno g.

Toróró, 25 de setembro de 2023.

sábado, 23 de setembro de 2023

hino ao Fogo.

Nazaré chegou de longe.

Bebeu água doce.

Lavou com mel os olhos e a carne.

Hermenegildo cruzou o pasto.

Ensinou sobre sangue, sacríficios, recolhimento e oferendas.

Desapareceu atrás da serra onde o sol descansa.

Cleonice nos trouxe a lua.

Crescente e amarela.

E dentro dela uma serpente, uma coroa e uma estrela.

Judite sentou à pedra.

Alimentou com gravetos do Além o Fogo.

E repartiu destinos.

nuno g.
Toróró, 23 de setembro de 2023.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

A poesia, o rio, as onças e o caminho

todas as águas fora do leito

e esse insistente rogar de passagem

como salamandras ardendo no fogo

ou esse contínuo sonhar que nos conduz

como cegos ao palácio dos beija-flores

e esses cães guardando o tempo

todas as areia se movendo em círculos

como se não houvesse mais centro

ou essa noite estendida sobre a umidade das ervas

e esse insistente perfume do ventre

todas as águas nessa água que brota

e esse insistente rogar por um chão

como se houvesse qualquer fronteira possível

entre a loucura e a nitidez

entre o real e o mais-real

entre o que se diz e o que se escuta

entre o que se assenta e o que se faz aéreo de todo

e esses cães guardando o tempo

e esses cães guardando o Nada

e esses cães nos guardando de nós mesmos

do que somos / do que nos aguarda / de tudo ao qual dissemos não

e esse insistente rogar rompendo o silêncio

servindo à mesa nossos medos imaginários

extraídos à fórceps de um antigo dicionário

labirinto de rupestres inscrições gravadas no seio fértil da memória...


nuno g.

Toróró, 22 de setembro de 2023.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

história de um vento, nome de um rio.

para Maria Alice y Maria Assucena,

O hoje é apenas um furo no futuro

Por onde o passado começa a jorrar

E eu aqui isolado onde nada é perdoado

Vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar

Raul Seixas / Marcelo Nova



No porto de Aracati não se embarcam mais escravos - e foi subindo o vale.

Das cabeceiras em Fortim à antiga capital dos sertões.

Gravada em couro a mensagem cravejada com a estrela de sal do Pontal de Maceió.

E no caminho maçons, tapuias, onças, feiticeiros, clérigos, cabras, pedras 

                        e a aprazível memória dos futuros que não se fizeram história.

Tambores para a Virgem da Conceição, comerciantes, pirotécnicos, pistoleiros e agricultores.

Esta estrada conhecemos na palma da mão - a percorremos desde sempre.

E sempre retornamos a ela como se fosse uma última vez.

E sempre olhamos abismados nosso reflexo nas águas desse rio.

E sempre tornamos a ouvir o canto dessas onças que nos guiam.

Desse jaguar que nos protege.

Desse gavião que vai iluminando nossas encruzilhadas.

Como um candeeiro arcaico - salve as almas!

Salve os preto-velhos e as preta-velhas que caminharam neste tabuleiro de maturis!

No caminho kardecistas, exploradores da cera das carnaúbas e esse rio.

E esse vento que arrepia e desperta.

E essas estrelas mortas no horizonte.

E as centenas de promessas nunca cumpridas.

E a memória de um touro indomável percorrendo as vazantes.

Onde nascem os jerimuns, o milho, o feijão e a batata doce.

Onde Antonio sentava para elaborar seu moto perpétuo impossível.

Onde Raimundo sonhava com um mundo de justiça e humildade.

Onde Edberto evocava a verdade impossível dos que já fizeram a passagem.

Terra onde caíram minhas sementes.

Chão onde a Serpente se fez vista aos olhos da carne.

Nuvem à espera de raios e trovões.

Até aqui cheguei - amanhã é só a lua radiante no céu.

E esse alaranjado que reúne em si todos os fogos do mundo.

O que nos espreita segue aqui - seu silêncio também.

Aquele vento. Aquele rio. Aquele som da mão de pilão caindo sobre a farinha.

Esmagando - madeira contra madeira - a carne seca à sombra.

Os olhos de minha vó - só ternura e espera.

A benção de tia Neuza atravessando todas as segunda-feiras.

O Inquebrantável. O Inconciliável. O Absurdo Imponderável.

Do outro lado da serra uma chuva fina e o som de uma estrela nascendo.

O presente é só um eco do Inalcançável.

Gravitam agora miríades de futuros Inapeláveis.

As onças seguem cantando.

Os gaviões seguem aqui.

A serpente não nos abandona o destino de sonhadores.

A serra do feiticeiro seguirá sendo o que sempre foi.

Apesar dos agrotóxicos, das empresas exportadoras de frutas, da carnicicultura.

Dos meus dois filhos que nunca quiseram estar aqui.

E desse permanente se saber cheio de Nada por dentro.

Os dias de exaustão vão ficando pra trás.

E cada vez mais entendemos que o Nada tem muitos mundos dentro.

Do outro lado da serra fica a província do Siará Pequeno.

Poucas notícias chegam de lá.

Às vezes chove sangue dos tapuias mortos na guerra dos bárbaros.

Às vezes ouvimos tambores de uma festa eterna.

Mas nunca sabemos exatamente como é a vida ali.

No porto de Aracati não se embarcam mais escravos - estranhas xilogravuras de Tempo.

Grãos de mais-realidade no deserto onírico.

E a vaga lembrança de uma cabeça de touro enterrada 

       sob a Igreja da Virgem da Conceição 

             na vila do Icó.

Águas do Araibu, cavalo castanho chamado Tempestade.

Hermenegildo, Cleonice, Judite e outros fantasmas em procissão à Eternidade.

E a vaga lembrança de uma...


nuno g.

Toróró, 18/09/23.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Eliana e as onças II

para Maria Alice y Maria Assucena,


Um peixe riscou as águas do amanhecer.

Entre a história e a psicologia corre um rio.

O mais difícil é saber quando exorcizar ou invocar.

A mulher que tem a razão no corpo dorme e semeia.

A flor de Assucena vai brotando nessa zona de indiferenciação.

Entre as margens dos fatos e as várzeas das fantasias.

A estrada de piçarra vermelha aberta.

Na encruzilhada aquele menino que fui um dia.

Que como os prisioneiros escrevia nas paredes com sangue e fezes.

No meu sonho faltava um real para inteirar uma cerveja.

No meu sonho faltava um real para inteirar uma água mineral.

Quem sonhava era aquele menino que já não existe mais.

O menino que sonhava todos os dias em viajar pelo mundo.

O menino que acreditava que só navegar era preciso.

O menino que me ensinou a verdade dos fingimentos.

E as tinturas que as aranhas usam para colorir os destinos.

Assucena vai brotando na encruzilhada dos rios.

Sob as bênçãos de Tempo e da Senhora de Roxo.

Nessa lama sobre a pele todo um palimpsesto perdido.

Alice tem a força de um assentamento cravado nas águas.

Resiste, ilumina e serve de chão ao limbo fosforescente.

Assucena tem a paciência do fogo.

Persiste, ilumina e serve de morada ao que fica depois que arde.

Aos suicidas tudo é negado.

O corpo, a voz e uma última mirada.

Aos suicidas é negado um bom lugar no Além.

Umas exéquias respeituosas.

Um lugar de descanso no campo santo.

A mulher que traz uma flor no ventre dorme.

Uma chuva fina e serena cobre o horizonte.

O mais difícil segue sendo saber a hora de exorcizar ou de invocar.

O futuro é a máscara mais sublime da memória.

Os peixes sabem que Tempo é uma árvore que dá frutos toda vida.

No silêncio a insistência da violência se desdobra em sombras infinitas.

Os peixes sabem que as guerras de Tempo se travam no corpo.

O menino que eu era já não existe mais, embora seus sonhos sigam aqui.

Como os dois cães pousados aos pés do espelho de Tempo.

Perdidos entre as imagens do passado e seus próprios reflexos.

O mais difícil é a certeza que será preciso regressar uma última vez.


nuno g.

Toróró, 11 de setembro de 2023.









sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Sonhatório cachoeirano

 para Paulo de Jesus & João de Moraes,


O passado é uma roupa que não nos serve mais

Belchior.

Nesta cidade os deuses falam pelas bocas dos loucos.

Nunca sabemos se são loucos os deuses.

Nem se são deuses os loucos.

Nesta cidade quando conversamos nunca sabemos quem realmente conversa.

Nem sabemos o que se assenta quando assentamos algo.

A única coisa que se sabe ao certo aqui é que não somos deuses.

E não raras vezes a honestidade nos faz perguntar se não somos loucos.

Nesta cidade atravessamos os reinos de Tempo com certa ingenuidade.

E sem percebermos cruzamos distraidamente as fronteiras do Inframundo.

Nesta cidade as nuvens compõem uma forma de escrita.

E a chuva borra memórias sem desnecessárias delicadezas.

Nesta cidade os cães, os gatos e os loucos vêm e vão, vão e vêm.

Sem saber de onde, sem saber pra onde.

Sem saber por que, sem saber pra quê.

Nesta cidade o rio corre ao contrário, fugindo do mar.

Levando flores brancas e amarelas aos sertões da terra.

Nesta cidade o passado escapa ao olhar desinteressado dos historiadores.

E se faz matéria viva à sombria imaginação dos poetas.

Nesta cidade feijão é comida que se come sem pressa e com as mãos limpas.

Esta cidade é uma floresta de sonhos que estão além da nossa vã compreensão.

Esta cidade é uma clepsidra de vidro.

E tudo nela flui – como as insones areias de um febril deserto habitado por nômades tuaregues...

nuno g.

Toróró, 25 de agosto de 2023.

 

 

 

domingo, 20 de agosto de 2023

domingo, 13 de agosto de 2023

Romance de formação


  para João de Moraes


acumulei tantos não-saberes

que quase me afoguei na pia de batismo

figuras de linguagem são indomáveis

como onças no cio

ou os paralelepípedos dessa cidade

havia uma pedra no coração da praça

e um acarajé de realidade brilhando no sol ao meio-dia

certa feita um galo escapou de seu quintal

figuras de fé são indomáveis

estilo e sorte não são coisas que se entregam facilmente

certa feita à calçada da Igreja você disse coisas que parecem com coisas

retorcidas são as raízes em sua busca às águas

sempre haverá um destino onde houver uma flecha

figuras de promessas são indomáveis

desacumulei tantas não-ciências

que quase me afoguei na imensidão dessa cidade

como quando você abriu o arquivo

afagou a marca da cirurgia

e tornou ao reino das coisas vivas

que parecem com coisas extraídas de pedras retorcidas

calçadas de igrejas e galos em perpétua fuga

depois da morte sempre outra morte

depois do medo o labirinto do imaginário

o que eles chamam de fábula

nessa cidade é vida, sonho e revelação

poderia ser uma feira de mercadores na áfrica

ou um barco de navegantes gregos

mas é essa cidade

inteira, íntegra, indomável

como uma cicatriz desenhando a geografia de uma cabeça

nossos mortos são indomáveis

assentamento é uma força que só os rios conhecem

quando a pele vem à flor dos nervos

a noite chega

com seus ventos e suas vísceras

e vai apascentando seus filhos

como se o anjo nunca tivesse nos abandonado

como se as lâminas e as memórias da guerra nunca tivessem se dissolvido

na sua casa, feita de pedra e terra vermelha,

haverá sempre algo não nos deixando esquecer

que todo abrigo é indomável

como uma sussuarana no cio

ou como uma estrela rebelde que abandonou definitivamente os subterrâneos...


nuno g.

Toróró, quinta-feira, 10 de agosto de 2023.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

os Senhores da Noite, os Guardiões da Sombra e os caminhos do Inframundo.

 para Night Day & Claudio Reis,


Nunca estamos sós.

Nunca andamos sós.

E existe sempre outra coisa acontecendo enquanto caminhamos.

Senhora da Lama: rogai por nós que recorremos a vós.

Seus dois filhos. O roxo de seus olhos. 

Os centros cerimoniais que a fúria de Tempo transformou em corações em ruínas.

Uma foto antiga, uma conversa à beira do rio sobre quando a vida se estilhaça.

E essa cegueira que nos ataca a visão aguardando que a Senhora das Doces Águas nos lave as retinas.

Poderia ser África ou algum rincão da Arábia.

Mas é essa cidade.

É esse quebra-cabeça de memórias que não se enquadram.

São esses desejos em perpétua guerra e esse arco nos céus.

Essas feridas que nos ensinam pela dor.

Essas serpentes que nos curam com veneno.

E a beleza que nos atravessa como um raio.

A voz das onças. A voz do vento. A algazarra tapuia.

Atravessando cada passo seu meu irmão.

Rumando ao Mucuripe onde mágoas encontram seu túmulo de salgadas águas.

Rumando à Pitanga onde tudo é queda e vertigem.

E todas as gentes que andam conosco.

Sonhando os sonhos que não pudemos sonhar.

Empurrando o Sol ao pino.

Ressuscitando a Lua das coxas sob os véus de Isís.

Acendendo as estrelas que nos movem enquanto estamos distraídos.

Em cada passo seu agora irmão.

Se estenda o meu chão sem chão.

E aquela promessa minha que só agora você pode entender plenamente.

Nunca estivemos sós.

A família que escolhemos foi escolhida antes de nascermos.

Ela caminha contigo.

Ela caminha comigo.

Ela nos leva sempre a outro lugar tão distinto do que planejamos ir.

A cidade que te asfixia agora é a mesma que asfixia os que caminham comigo.

Nunca nada esteve perdido.

E o Nada é um baú antigo onde se guardam muitas coisas.

Castanhas paraenses, marinheiros apaixonados e outras maneiras de filosofar e orar.

Teus pensamentos chegam aqui numa velocidade que me assusta.

E rogo à Senhora da Lama que me ensine mãos para te abraçar à distância.

Como me abraçastes enquanto eu enterrava Ian sozinho em Cruz das Almas.

Nunca esqueci o silêncio do coveiro se retirando.

Não havia ninguém mais naquele cemitério.

Eles vieram, dançaram, comeram, beberam e cravaram um espinho em meus testículos.

Era a única maneira de me fazer chorar.

Irmão, agora você tem uma estrela.

Isso não é fábula, não é lenda, não é história pra boi dormir.

Issó é caminho e horizonte.

Não estamos sós.

Nada está perdido.

Seu coração é maior que toda a dor do mundo.

E a estrada do Infinito aguarda o motor de sua moto.

Irmão, meu chão é seu chão.

Você não está só.

Tudo que acontece uma vez seguirá sempre acontecendo.

Caminho e horizonte.

Os sinos das igrejas de Belém dobram por ti agora.

Chovem flores brancas em meus sonhos.

E quando ouço um velho amigo falar de sua tristeza às margens do rio Pitanga.

Te escuto pronunciando o impronunciável.

Que a Senhora que nos fez da lama.

Apascente teu coração.

Lave teus olhos.

E faça nascer entre os cacos do teu ser a Flor da Aurora do Entendimento.


nuno g.

Toróró, 11/08/23 


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

dicionário dos medos imaginários - 25 anos de poesia

A poesia é realmente a única coisa que importa. Ela sempre esteve aqui. Quando eu acordava e olhava para todos os lados e encontrava a morte em todos os lados era ela que me abraçava. De todas as formas ela me sussurrava é preciso seguir, você não tem o direito de desistir. A poesia me ensinou mais do que as milhares de horas de escola. Ela sempre me fez recordar que eu não tinha o direito de esquecer. Tudo havia sido destruído antes mesmo do meu nascimento e ela insistia procure ver o seu rosto antes disso. A poesia é realmente inútil. É algo que não serve para nada. É a última sobrevivente de um tempo em que o valor das coisas não era medido por sua serventia. Eu acordava e meus pais estavam mortos. Eu acordava e meu primo estava morto. Eu acordava e meu avô estava morto. Eu acordava e não havia nenhum sinal de ninguém que conhecera meu pai. Eu acordava e todos mentiam sobre a morte da minha mãe. O silêncio gritava no meu ouvido. Era um grito insuportável. Nada é tão ensurdecedor quanto o silêncio. A poesia chegava e dizia você não tem o direito de desistir. Nada fazia sentido. E a poesia dizia eu sou a beleza.  Ainda quando não havia beleza nenhuma ao alcance das mãos. Ela foi a única coisa que me acompanhou esses anos todos. Sempre me empurrando à vida. Sempre me impedindo de partir de vez. Sempre repetindo eu sou o sentido. Não importava se eu não podia mais acreditar em nada. Não importava mais se me era impossível lidar com os sentimentos contraditórios que me habitavam. Eu temia o sono. Dormir significava ter pesadelos e mais pesadelos e mais pesadelos. Só a poesia dizia siga. Tudo era sempre mais confuso do que eu podia suportar. As pessoas eram perigosas. O cansaço que se abatia sobre mim era imenso. As pernas tremiam. O corpo suava. A vida social era uma réplica exata do inferno. A poesia dizia não renuncie. Nada mudou. Tudo permanece idêntico ao que sempre foi. O que aconteceu algum dia segue sempre acontecendo. Vinte e cinco anos depois do Cacos de Cristo a poesia segue sussurrando no meu ouvido todos os dias você não tem o direito de desistir. Eu acordo e tudo segue tão vazio como sempre. Dois filhos mortos e uma montanha de estupidezes acumulada ao longo das décadas. Uma quantidade inumerável de mentiras acumuladas. A poesia me estende sua mão e me leva às margens do fogo. A poesia me estende sua mão e me leva ao fundo do rio. A poesia me estende sua mão e me leva à morada do jaguar encantado. A poesia me estende sua mão e me leva à aldeia dos tapuias mortos pelos invasores ibéricos. A poesia me exige seguir vivo. Ela me mostra minhas filhas brilhando como estrelas na escuridão e me grita siga, seja lá o que apareça adiante siga. A poesia é a própria vida. A doença e a saúde, a alegria e o sofrimento, o êxtase e a depressão, o amor e o ódio, tudo é passageiro e transitório. Só a poesia permanece. É por ela que me levanto da rede todos os dias. Engulo minhas amargas xícaras de café e sigo caminhando nesta terra. Com meus mortos. Com meus sonhos. Com minha solidão. Com minhas centenas de medos imaginários. Com os pesadelos que se arrastam há décadas nos meus porões. Com minhas filhas. Com minhas esperanças, minhas utopias e meus desesperos. É a poesia que vai abrindo meus caminhos, que vai me guiando de encruzilhada em encruzilhada. Foi por ela que eu vim. Foi por ela que eu cheguei até aqui. E é por ela que eu sigo. Sem direito à desistência ou à remota expectativa de chegar a ver algum dia o rosto anterior a meu nascimento. A poesia é o único caminho que eu conheço. Uma forma de vida. Minha condenação e a sólida pedra onde meus fundamentos deitaram raízes. Sem ela eu já estaria morto. Como meus pais. Como meu avô. Como meu primo. Como meus abikus. Como minha avó. Como milhares de pessoas que me cruzam o caminho e não conseguem esconder a letargia e o sonambulismo que as move. A poesia é minha promessa. De que aconteça o que acontecer não desistirei nunca. Meu vício, meu caminho, minha fé na escuridão. Isso é tudo. Estou mais velho, mais cansado, mais solitário. E só me resta seguir escrevendo e me embriagando com a luz dos olhos de minhas filhas faiscando como estrelas na escuridão. A poesia é minha herança, meu destino e a forma com que os astros me permitiram permanecer vivo por todos os dias que compõem essa minha breve encarnação. O resto é o mesmo inferno de sempre. Isso quer dizer que se sobrevive a tudo. E, muitas vezes, sobreviver é mais importante que todas as outras coisas que inventamos para nos distrair. Quando nada mais tem importância, a poesia segue ali ao seu lado. Quando todos foram embora e só restou a sujeira da festa ela ainda vai estar com você. Quando você percebe que tudo é mentira e pesadelo ainda sentirá a presença dela uivando em seu peito como uma onça no cio. Quando o seu corpo fraqueja e a sua mente parece tão perturbada e confusa que o abraço da loucura lhe sufoca, você ainda terá sua companhia e poderá escutar sua voz doce e delicada soprando Além!

nuno g.

Toróró, 09 de julho de 2023.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

crônica cachoeirana II

Dona Antônia regressou de Feira.

Feijão preto na panela de barro.

Batata-doce arrancada da terra.

O moço da coelba veio ler o registro: 144 reais.

O muro do vizinho segue crescendo.

O mundo vai se estreitando e a visão das pessoas também.

Hora de fazer as voltas-de-rua.

Exames clínicos, pagamentos bancários, escutar o rio.

É novembro: mês do aniversário de Maria, Raquel e Benício.

Lembrei do olho de peixe e da casinha verde.

Ignez foi encontrar o bisavô que saiu do hospital.

Benção mãe Hilda.

Entre os cavalos e os autistas existe algo.

Ana Júlia, tenho pensado bastante em você.

Em você e em Cora Coralina.

Na areia da Faceira tem é coisa escrita.

Os mais antigos à frente.

Existe um abismo imenso entre o olhar e o ver.

Nova nota do exército nos noticiários.

Os militares tupiniquins seguem aferrados às suas raízes podres.

Como um junkie à seringa.

Ou um pinto ao mar de lama e merda.

Os guaranis paraguaios não esquecem.

Todos os exames negativos.

Poesia é caminho.

Macaxeira cozida sem sal.

Imensidão.


nuno g.

Toróró, 11/11/22

crônica cachoeirana.

Ignez e Santi não foram à escola.

Bernardinho todo um cavalheiro, como sempre.

Duas carteiras de camel, por favor.

E seu Ivo suspirando por uma espanhola de vinte anos atrás.

O fósforo, por gentileza.

E o taxista resmungando:

Deus é uma pessoa tão nobre que não se mete na vida de seu ninguém.

Léo sorrindo na ladeira.

Valentina sorrindo na casa de farinha.

Procurando o Come-e-Dorme com o olhar.

O cabelo todo arrumado.

O caminhão do lixo chega: 07:10.

A água da embasa nada.

As contas e ameaças de corte não atrasam.

É novembro: mês dos mortos e de Nossa Senhora D'Ajuda.

A charanga está afinada.

Os filhotes da Pina brincam na casa.

Larissa dorme.

Maria está a caminho da escola.

O cuscuz no vapor do fogo.

Escrever é destino.

Imensidão.


nuno g.

Toróró, 11/11/22

domingo, 6 de novembro de 2022

Ora-pro-nóbis

I.

quando eu crescer vou ser governadora da Bahia

quando eu crescer vou ser arquiteta, youtuber e organizadora de festa,

voltou a repetir Olívia antes da febre.


Sonhei com um morcego me mordendo a coxa numa lagoa de Salvador.

Dico punk me deu uma muda de ora-pro-nóbis.

Tia Nalva leu seus contos mais uma vez.

Maria comeu lasanha.

Conversei com o rio.

Ele me narrou histórias ciganas.

Ele me narrou a história de um anjo muito poderoso e de suas guerras.

O telefone tocou.

O telefone voltou a tocar.

Quando o suco de limão chegou eu estava quase chorando.

Meus olhos liam a dedicatória de Gleyza.

Meus olhos liam os agradecimentos de Gleyza.

Duas chamadas perdidas: 85.

Maria me lê enquanto escrevo.

Boceja, ainda em despertar.

pai, eu quero meu pai.

Um pássaro canta.

Pai, vem ver isso.

Ele ficou louco.

O muro.

Pai, vem ver isso que desilusão.

O vizinho ficou louco.

Ele está mesmo fazendo um muro.

Nós não temos muro.

Temos cerca-viva.

Plantei a muda de ora-pro-nóbis.

E desejei melhoras a Olívia.


II.


A muda, em verdade, era três.

Plantamos as três.

Não esquecer de lembrar.

Às vezes a gramática retorce destinos.

Ele me respondeu

E aí?

Só me passou o número da secretária para resolver tudo com ela

Não sei

A terceira camada era sobre aspiração humana ao inquebrantável.

E todas as lições dos metais e do underground.

É mesmo nos subterrâneos que floresce o entendimento das coisas da ordem do Sutil.

Muitas outras coisas me atravessaram.

Mas não convém falar delas aqui.

Isso não é um diário -- é um dicionário.

Um dicionário de medos imaginários enfrentando-se a uma fé inteiramente selvagem.


III.


Ofertamos flores do Curiaxito à Senhora do Rio.

Cobra-coral.


nuno g.

05/11/22

sábado, 5 de novembro de 2022

motörhead.

 I.


Sonhei que Gleizer me visitava de surpresa.

Sonhar com alegrias não é coisa nada boa, me disse dona Antônia.

A cidade engarrafada como os pensamentos na minha cabeça.

Francisca foi mordida por um mico.

Se não escrevo, enlouqueço.

Lari dorme de ressaca.

O caminhão de materiais de construção atropela a paz da manhã.

Maria come cream cracker com manteiga.

E tenta aprender a atirar de arco-e-flecha.

O dia está nublado como os pensamentos na minha cabeça.

Se não escrevo, enlouqueço.

A cidade está cheia de pessoas.

E muitas delas tem cabeças de formiga.

Sonhar com alegrias não é coisa boa, repetiu dona Antônia.

A gira não para.


II.


Ontem teve atabaques na praça.

Palavras de esperança & sorrisos.

Crianças brincando e a charanga d'Ajuda.

O brinquedo ficou na casa de Olívia.

A névoa aqui - em nossos desbotados corações.

A gira segue.


III.


A placenta de Maria tinha forma de coração e cor esbranquiçada.

Excesso de cálcio.

Excesso de tempo no útero.

O trem, os ônibus e as pessoas com cabeças de formiga engarrafaram a ponte.

Sete pães de sal e duas broas, por favor.

A fascista espanhola fugiu pra gringa.

O vizinho da frente decidiu construir um muro.

Lari desce a escada.

Maria tosse e joga no celular.

Dick, o cão, devora a ração dos gatos.

a gira, Gira.


IV.



(...)


Quer um café?

Não.

Toma um própolis.

Se eu tomar eu vomito.


(...)


Não esqueço a cigana que anteviu e nos anunciou a morte de Ian.

Quase dezembro.

As macaxeiras crescem.

As bananeiras crescem.

Os jerimuns crescem.

As laranjeiras, os limoeiros, os abacateiros crescem.

Só o baobá não resistiu.

À umidade.

Ou à ausência de uma serpente a lhe ceder chão.


(...)


Maria brinca de correr puxando uma linha para que Garfield a persiga.

É tempo de lagartas de fogo, muitas.

Como as flores de maturis dos tabuleiros cearenses.


(...)


Encontrei a agente de saúde que João mordeu semana passada.

Passa bem.

Sanhaçu.


V.


Chove.

Sobre o agora e sobre o ontem.

Sobre as coisas estranhas do agora.

Sobre as coisas estranhas de ontem.

Cada um de nós tem uma digital distinta.

literalmente, papai,

eu vejo minha digital

quando eu era pequena eu pensava que eu estava doente

por causa da digital

eu achava a digital estranha

eu via esse círculo no meu dedo e eu:

oxe!

Chove.

Sobre o agora e sobre o amanhã.

O brinquedo ficou na casa de Olívia.

Iremos lá daqui a pouco.

O que aconteceu ontem feriu.

Não lembrar de esquecer.

Às vezes a gramática traça destinos. 


VI.



Estou considerado não ir.

Quando tocou pra Senhora de Roxo você começou a chorar.

Quando tocou pra Senhora dos Raios você parou de chorar.

Maria chama no skype.

Nada atende.

A força da vida é maior que a nossa imaginação.

A razão atende a uma diminuta parcela da existência.

Belchior na vitrola.

A felicidade é uma arma quente.

É óbvio que ele não falava da felicidade.

Ele falava da poesia.

Como Camões naquele famigerado soneto.

Ele não falava do amor.

E sim da poesia.

Qualquer poema se distingue do tema sobre o qual versa.

Todo poema é sobre a poesia.

Pai, posso tirar a música pra assistir?

Pode.

O som do acendedor automático do fogão entre os pingos d'água da chuva.

Gleizer me disse: hay que desfrutar.

Sem perder o sentido do vigiai, pensei com meus botões.

A água desse rio pertence a quem me desdiz com mais carinho.

João e Night Day conversaram sobre o Viva Deus e a terra vermelha.

A cartografia e a geologia são mais úteis à poesia que a história e a antropologia.

Os celulares que batem foto são o estado terminal da arte da fotografia.

É óbvio agora que o meu encantamento pelo velho feiticeiro tem muitas camadas.

Tem broa que eu comprei pra você.

Muchas gracias!

Se quiser te passo um café.

Você fez duas xícaras com tudo isso aqui de pó?

A primeira delas tem a ver com meu avô.

Com seu semblante, sua morte e a espuma que saía de sua boca quando dentro do caixão.

A segunda tem a ver com seu destino mesmo.

De caminhar sempre sozinho e permanecer fora mesmo quando inteiramente imerso.

As outras Tempo disse ainda não ser hora de saber.

Nesse mundo tem tempo pra tudo.

E sua voz soava como a voz de Milton.

As onças são as divindades que sustentam a esperança quando não há mais esperança.

Você sabe que já vai dar duas e meia né?

Sei, termino de escrever isso aqui e vou.

Namastê.


VII.


Ao que habita a estrela cravada na pedra.

Só quem não deve, não teme.

E todos devemos.

Laroyê.


nuno g.

Toróró, 04/11/22

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

milho branco, vela acesa.

Sonhei que tomava uma cerveja.

Faz anos que não tomo cerveja.

Estava suficientemente gelada, 

mas o que me agradava é que não havia homens com cabeças de formiga.

Nem mulheres com cabeças de formiga.

Havia somente um bar vazio e tranquilo.

Com as paredes antigas de bares antigos.

Silêncio, cumplicidade, calmaria.

A paz é sempre relativa.

Envelhecer exige sabedoria.

Minhas mãos saíram do magma em ebulição.

Areia nos meus olhos.

Ventos e sonhos antigos.

Uma simples cerveja gelada.

Sem nenhum olhar pousado sobre meu corpo.

Sem nada com cabeça de formiga transitando no espaço.

Isso era realmente o que mais me agradava.

Somente um antigo bar.

Vazio, tranquilo e distante.


nuno g.

Toróró, 03 de novembro de 22,


segunda-feira, 31 de outubro de 2022

30/10/22

Manhã.


Tenho areia nos olhos.

Ossos frágeis, quebradiços.

Creio em deus e em seus intermediários.

Santos, caboclos, orixás.

Caminho no deserto desde antes da formação dos oásis.

A delicadeza é uma semente espinhosa.

Tenho areia nos olhos.

Água no interior dos dentes.

E me perco com insistência.

Creio no fogo sobre todas as coisas.

Creio no fogo dentro de todas as coisas.

Creio no fogo.

Onde habito tudo é noite.

Me alimento de restos e sou atravessado por futuros.

Tenho areia nos olhos.

Tenho areia nos ossos.

Não creio em nada além do caminho.

Não creio em nada além do deserto.

Não creio em nada que não tenha cheiro de mata.

Tenho areia nos olhos.

Ouço canções que já não mais são entoadas.

Converso com o rio.

Só Maria me faz ainda querer estar aqui.

Estar aqui e seguir.

Maria acorda e olha os três gatinhos amamentando no centro da sala.

Os acarinha, sorri e volta a dormir.

Trago mais mortos no corpo do que sementes.

Hoje é véspera de trovoada.

Maria me disse: papai, amanhã vai ser o caos.

Não existe verdade fora do ato de mastigar a terra.

Ontem a lua se pôs bonita.

Creio na lua.

Em seus ciclos e em suas sombras.

Olho o semblante dos mortos no espelho.

Eles choram.

Se curvam ante o declínio da esperança de Tempo.

Sou somente uma criança com areia nos olhos.

E esses vulcões que me nascem à pele.

Anunciam aparições e promessas.

Maria sonha e em seu sonho sou só uma criança com areia nos olhos.


Tarde.


(...)

quando a face do polegar assentou à lâmina do leitor ótico

revi as pessoas da zona rural com suas melhores roupas de domingo

                                                com seus melhores perfumes de domingo

perguntando umas às outras:

já perdeu a honra?

quando as mãos da mesária arrumaram meu dedo sobre a lâmina do leitor ótico

minhas unhas roídas ficaram demasiadamente expostas

e certa vergonha / certa aflição

veio à tona

como um golfinho que salta em direção às nuvens ou às estrelas


onde habito, habita a noite

onde habito, habita o frio

são rápidos e ligeiros como raios os passos da história se dissolvendo em pura política

e quando a história se dissolve em pura política

o reinado do terror se instaura no trono de Tempo

Maria pressentiu o caos,

a razão no corpo de L. se assustou com o cadáver que em sonho enterrara no jardim

creio no sol sobre todas as coisas

creio no sol dentro de todas as coisas

creio no sol


quando a face do polegar assentou à lâmina do leitor ótico

revi meu avô na sessão eleitoral da prefeitura

votando em cédula de papel

no coronel Adauto Bezerra

certa vergonha / certa angústia / certa aflição

e as pessoas da zona rural com a poeira avermelhada da piçarra das várzeas

                                            com suas melhores roupas de domingo

                                            com seus melhores perfumes de domingo

perguntando umas às outras:

já perdeu a honra?


(...)


Noite.


a estrela cintilou no céu.

fogos na terra.

que haja mais justiça.

que haja mais sonho e comida.

diversão & arte.


e que os fascistas todos marchem ao inferno.


nuno g.

Toróró.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Nenúfares II

para Jack Kerouac & Gary Snider,


Sonhei com Bruno lendo paradiso de Lezama Lima no quarto 217 do Overlook hotel.

Chovia muito e havia estilhaços de granadas ricocheteando por todos os lados.

Gerardo Machado, Fulgencio Batista e Golbery do Couto e Silva tomavam drinks na janela.

Sonhei com bernardinho saltando a porteira do sítio.

Sonhei com André Dias desenhando a palavra nenúfares na soleira do dicionário.

Chovia muito.

Sobre as plantações de papoula.

Sobre os cílios e as pálpebras de Neruda.

Sobre as cartas do tarot de Jodorowsky.

Sonhei com todos os meus sonhos encharcados por uma chuva de séculos.

Sonhei com o escárnio, a mentira e as infinitas perversões do ego.

Sonhei com cinzas e com armadilhas.

Sonhei com meus dois abikus em sua floresta.

Sonhei com Claudio Reis entre lírios brancos.

Sonhei com os sonhos da mulher que traz no corpo a razão.

Sonhei com a morte e com suas sedutoras artimanhas.

Sonhei com a chuva, com as granadas e com os agrimensores do Palácio dos Einhejar.

Sonhei com arquivos labirínticos e com a fé selvagem.

Sonhei com o assassinato de meu pai.

Sonhei com o suicídio de minha mãe.

Sonhei com os tapuias do Jaguaribe.

Sonhei com a chuva de mil séculos e com os erês de Tempo.

Sonhei, sonhei, sonhei...


nuno g.

Toróró, 25/10/22.


Nenúfares

Sonhei que estávamos próximos ao Bosque de Chapultepec.

Tato, Lupe e eu.

Havia formigas e latas de uma aguardente chamada el tiburón.

Não haviam deuses nem nada além de formigas.

E de pessoas com caras de formiga.

Eu ia até o banheiro mas não conseguia urinar.

Pois pessoas com cara de formiga se amontoavam no banheiro.

Num banco de praça metálico uma velha senhora de óculos lia os detetives selvagens.

Não havia mistérios nem nada.

Apenas cães metálicos e sombra de gatos cruzando a noite mexicana.

Quando acordei chovia.

Era véspera de trovoada e o sorriso de Valentina estava no meio do céu.

Como uma lua iluminando as águas que caíam como lágrimas.

E formavam o rosto de Hilda Hilst no ar.

Estávamos saudáveis, felizes e cheios de saudade.

Mas algo de nosso sangue e nossa juventude havia se esvaído.

Sonhei com Claudio Reis e Mardônio França.

E perambulávamos pela noite cachoeirana.

Como três palhaços endiabrados que recém haviam entendido.

Que em toda esquina existe a probabilidade de se encontrar uma lâmpada com um gênio engarrafado.

O despertador tocou.

Hora de acordar Maria para ir à escola.

O dia nublado. 

A recordação de Valentina sorrindo em seu dia.

Cartas de tarot espalhadas sobre o chão da casa.

E notícias do fim do mundo gotejando sobre o telhado.

Gotejando sobre os cães no terreiro e sobre o sangue e a juventude que havíamos perdido.

Maria se negava a levantar.

Papai, por que hoje você me acordou mais cedo?

Não filha, já são 05:39.

Enquanto escovava os dentes recordei do sonho com a mãe de santo tomando ayahuasca.

E as notícias do fim do mundo seguiram gotejando sobre o telhado.

Maria, finalmente, desceu as escadas.

O som de seus passos nos degraus de madeira entrava no meu corpo.

E se unia ao som de meu coração enferrujado.

A palavra que esqueci me perturbava.

Como se o dicionário ainda estivesse incompleto.

E tudo o que me trouxe até aqui se revelasse frágil e precário.

Maria escovou os dentes, penteou os cabelos, passou mel nas unhas e sorriu.

Recordei de um sonho muito antigo.

De um sonho terrível com o espírito lunar de minha mãe.

Gabriel me ligou: as crianças acordaram doente aqui.

Maria deitou no sofá.

Seguia chovendo.

E as notícias do fim do mundo estavam infiltradas em cada gota de água que caía...


nuno g.

Toróró, 25/10/22

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Seguimento.

 para Allen Ginsberg,


Sonhei com a família Pascoal e com os monges beneditinos.

Uma atmosfera de canto gregoriano.

Compramos um obi, branco.

No fogo, as águas.

Na pedra, as águas.

E nas vestes brancas todas as cores.

Sonhei com um mangue e com comida feita à base de fetos humanos.

Sonhei com um velório e um prato de ervas sobre a mesa.

Sonhei com parentes desconhecidos.

Pequenas dívidas de rua.

Treze reais na miscelânea da Faceira.

Trinta e seis reais no Mário da feira.

Haverá outra vez um tempo em que as diferenças não sejam um fardo?

Os fascistas atiraram granadas contra os federais.

Saudades de Durruti e dos carbonários.

Haverá outra vez um tempo em que o amor não traga o peso do mundo?

A poesia é a ciência das passagens.

A arte de decifrar rastros antigos de vozes quase esquecidas.

No rio, as águas.

E em seu espelho a esperança de regressar ao corpo em que nasci.


nuno g.

Toróró, 24/10/22.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Balada dos sonhos da infância.

Hoje, no mercado São Paulo.

Ou seria na farmácia Pague Menos?

A mulher me atendia ao caixa.

Usava um broche escrito:

Suicídio não é tabu.

Eu comentei, legal!

Foi do setembro amarelo?

Ela respondeu: não.

Sem pensar tornei a perguntar:

Você também tem suicidas na família?

Ela, com a naturalidade de quem nega algo evidente, não.

Quando criança tive vários sonhos que se repetiam.

Em um deles eu ia visitar um presídio.

Ao final da visita o carcereiro sempre me barrava a saída.

Eu era agora então um presidiário.

E acordava.

Nunca cheguei a saber como era a vida daquele presidiário.

Assim como não sei qual relação existe entre esse sonho e aquele broche.


nuno g.

Toróró, 13/10/22.