Assucena comeu uma borboleta,
só conseguimos salvar uma asa:
a miração do monge dissipou o horizonte.
toróró, 10 de maio de 2024.
Assucena comeu uma borboleta,
só conseguimos salvar uma asa:
a miração do monge dissipou o horizonte.
toróró, 10 de maio de 2024.
É que o cemitério de que lhes falo, respondia Pereda, é a cópia fiel da eternidade.
Roberto Bolaño
Estivemos em Cruz das Almas.
Passava das seis e, inevitávelmente, recordei que toda Cruz das Almas foi lugar de reza.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de bebedeira.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de descanso.
Que toda Cruz das Almas é lugar de passagem.
Compramos Kombucha: dez litros.
Incensos, um par de roupas e empadas.
A porta do cemitério estava batida.
Acendi a vela ali mesmo, ao pé do muro branco.
E deixei os doces ao tempo.
Talvez chovesse de madrugada e apagasse a vela.
Talvez chovesse e dificultasse o trabalho das formigas.
Passava das seis.
Regressamos.
Ao ponto zero da experiência.
Mas agora tínhamos uma raquete de matar muriçocas.
Passava da meia-noite quando a chuva chegou.
Sonhei que, finalmente, estava na ilha caribeña.
Nada no sonho recordava a revolução.
E tudo parecia tão perdido quanto todos aqui.
Assucena comeu chuchu, sem convicção.
Come-e-Dorme, em agonia, segue sua guerra pela vida.
Estive em Cruz das Almas.
A vela segue no mesmo lugar.
Os doces também.
Tem sempre uma estrada aguardando nossos mais primitivos abandonos.
nuno g.
Toróró, 10 de maio de 2024.
para Larissa, Alice & Assucena,
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
nada é em vão sob o sol,
essas mãos que pousam sobre o ventre da terra machucada
encharcadas de lama roxa e luz arcaica
são as mesmas mãos que nos guiaram quando andávamos pelas entranhas da terra.
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
onde antes olhos, agora sóis
essas estrelas que nos guiam
são as mesmas estrelas que nos guiaram à sombra da distração.
Assucena sonha com uma borboleta - tudo arde, nada é em vão.
Essas mãos convidam à ceia - o pão da terra é amargo.
Essas mãos convidam ao sono - quem teme o próprio medo não deve seguir.
Essas mãos convidam a passear por ruínas e escombros:
na cidade da imaginação tudo está sempre aceso.
Não existe vida fora do risco.
Não existe vida além da poesia.
Não existe vela que arda sem intenção.
Essa Senhora que nos deu a vida nos conceda agora e sempre memória.
Assucena sonha com todas as cores nesta tarde.
Um vento fresco corre pela casa.
Haverá sempre um porto à nossa espera.
nuno g.
Toróró, 08 de maio de 2024.
Não sei onde anda a cigana de Araci.
Nem aquela outra que me falou da morte de Ian.
Menos ainda dessa terceira que me vendeu a figa de Assucena.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Ela me levou até um açude onde vi meu rosto refletido com precisão.
Foi tecendo minhas rugas por toda a noite.
Enquanto meu envelhecimento se fazia evidente.
Certa tristeza muito antiga pairava na atmosfera.
Certo descontentamento muito intenso rugia no campanário.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Senti medo, muito medo.
Senti frio, muito frio.
Despertei em meio à neblina.
Trazia um anel de prata no dedo.
E dóis sóis onde antes olhos.
A filha da Serpente ao meu lado.
O filho do Ferreiro e a suave memória de um sonho antigo.
Que não posso narrar.
Que não tenho permissão de narrar.
Não sei por onde andam as três ciganas.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Outra vez até o noturno açude onde se refletia meu rosto.
E o tapete tecido com minhas rugas.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Vento frio ao amanhecer.
Mais que medo, angústia e algo de desespero.
Neblina e uma pedra no coração.
Anel de prata no dedo.
A filha da Serpente // O filho do Ferreiro.
A canoa subindo lentamente o rio.
O velho, o elefante e todas as minhas esperanças junto a eles.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre as águas.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre a cidade de espinhos e estrondos.
Uma senhora vestindo roxo abriu as mãos.
Havia sal e lama entre as linhas de suas palmas.
Um breu branco se instalou no tempo.
Hermenegildo passou trotando em seu cavalo.
Erguendo a poeira do chão.
E abrindo caminho para a chegada da lua de Wesak.
Forjada nas matas sombrias com a luz do ferro e a espada da compaixão.
nuno g.
Toróró, 23 de abril de 2024.
às vezes o silêncio grita
e tem sempre muito amor no silêncio
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os temores não-imaginários
às vezes o geólogo treme ante as camadas de terra entranhadas em seu corpo
e tem sempre muito amor em toda terra
às vezes a memória arde
e tem sempre muito amor no arder da memória
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os afetos não-imaginários
tem sempre muito amor em tudo que é amargo
ante às águas e o brilho
tocam meus joelhos os subterrâneos de mil faces
e reflete em suas lâminas os labirintos estreitos de onde venho
as montanhas de cansaço cansaço e mais cansaço
e sim, tem sempre muito amor no cansaço
tem sempre muito amor na distância
tudo que é vago atrai quem já não mais tem outro medo além dos imaginários
nuno g.
Toróró, 20 de abril de 2024.
Subíamos a serra de Guraramiranga
Eu, Claudio e o velho pajé do seminário
Havia muito verde e muita água
Umas poças de argila branca
Conversávamos sobre a morte de Bitú ou de Adriano ou de Walderedo
Amássavamos a argila branca entre as mãos
E seguíamos subindo a serra
Estávamos na Terra do Gelo
Eu, Alice, Larissa e Assucena
O automóvel atolava na neve
E nós ficávamos conversando sobre o nosso medo que as meninas congelassem
Apesar do temor ou talvez por ele
Seguíamos bem
O Mensageiro o enviou
Trouxe uma tapioca do Aquiraz
Duas mudas de lírios
E um exemplar digital do segredo da flor de ouro debaixo do sovaco
A terça-feira amanheceu alaranjada
nuno g.
Toróró, 18/19 de março de 2024.
para Maria Zilá Lima Gonçalves
minhas mãos
trêmulas desde antes da criação do mundo
úmidas como úmida a madrugada de minha infância
te ofertam essas duas flores encarnadas como carvão em brasa
minhas mãos
unhas sempre ruídas
palmas riscadas por pequenos relâmpagos
te apresentam essas duas flores que a seu pedido foram nomeadas marias
minhas filhas
seus nomes são memória de que a carne é estremecimento e devoção
seus nomes são memória de que ainda em sonhos sua bisavó seguia em oração
seus nomes são memória que uma serpente rasteja ainda no chão de meu coração
minha vó
o caminho da novena era mais estreito e comprido que eu imaginava
o caminho da novena era mais cheio de curvas e insensatezes que meus delírios
o caminho da novena, minha eterna febre enlaçada em suas rugosas mãos de serenidade
a paz está sempre em algum lugar onde nunca se chega
a paz está sempre fora do alcance das mãos
a paz é um pássaro do passado que os ornitólogos nomearam amanhã
nuno g.
Toróró, 17 de março de 2023.
ao Senhor dos Cemitérios,
aos Erês que O acompanham,
Assucena brincando na casa da árvore.
As bananeiras, o abacateiro e a mangueira.
Do outro lado da cerca, a árvore das lagartas cortada por ordem do Almirante.
A terra chora sempre que uma árvore é cortada.
Larissa sobe os degraus com alegria.
Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.
Os fogos amanhecem a cidade heróica.
Com suas ruínas exuberantes.
E as cicatrizes do desleixo português por todos os cantos.
Com seus mistérios e mistérios e mistérios.
Assucena brincando na casa da árvore.
Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.
Vaga recordação de um sonho em que Paçoca vomitava borboletas amarelas.
Presságio emoldurado à madeira.
O canto de Alice cruzando o horizonte como um gavião.
Capim-santo. Sorriso no rosto de Lari.
Take it easy my sister Lari.
A terra sorri sempre que se semeia uma árvore.
Yãkoana, Yagé e o caminho dos Sonhos Lúcidos.
Antes do despertar é necessário atravessar muitas vezes o mesmo lugar.
Antes de seguir adiante é necessário revisitar muitas vezes o mesmo chão.
Antes de abandonar todos os medos é necesário sonhar outra vez os sonhos de antes.
Do outro lado da serra, sorri aquele que não ouso pronunciar o nome.
nuno g.
Toróró, 13 de março de 2024.
Assucena me despertou e meu sonho se esvaiu ao entreabrir dos olhos.
As asas da Esperança sempre me roçando suavemente o corpo.
As exigências do destino. As obrigações do karma.
A amorosa luz de seguir caminhando entre a resignação e a revolta.
Alice tão longe e tão perto. As cobranças e as encruzilhadas.
Dentro de mim as camadas e camadas de cinzas e o fogo de Tempo.
E a árvore de Tempo. E as sementes de Tempo.
E a boca faminta da Morte ao calcanhar.
Já não há mais dúvidas:
pertenço a uma geração que legará um mundo pior que o herdado.
Ainda nisto encontrar uma pedra ou nuvem para firmar a delicadeza.
Aprender com algum inseto sobre essa habilidade da natureza.
Que destrói o que lhe serve de insrumento à materialização de algo.
Hoje é terça e terça nunca é um dia qualquer desde que escutei a voz do silêncio.
Povo das águas - recebei entre seus fios de cabelos o rogo dos povos de Ar.
O cansaço se avoluma sobre a montanha de cansaços.
Certa ternura se agiganta no redemoinho de tristezas que preenche a tarde.
Ouço o eco de sonoridades muito antigas.
Caminho por paisagens que já não existem mais.
E me agarro com força ao porvir.
Já não há mais dúvidas:
confiar na áridez e desaprender tudo que nos ensinaram.
Pouco convém determinadas insistências.
Existem respostas e medicamentos que se resumem a prolongar sofrimentos.
A sobrevivência só guarda serventia quando tática.
Sábado entregarei minhas últimas arrogâncias e o que restou da verdade.
Depois de amanhã terei atravessado mais uma quaresma.
Entre mel, gafanhotos e sangue.
Jordânia significa descendência.
Ou o rio onde os órfãos podem reconhecer seus antepassados.
Depois da quaresma terei me atravessado mais uma vez.
Sem ter me tornado um com o abismo que me olha desde antes de meu nascer.
Sem ter me enforcado com a corda que ante meus olhos propõe: desata-me.
Depois de amanhã a quaresma terá me atravessado mais uma vez.
Descêndencia significa rio que corre em direção contrária.
Ou oceano que engole praias e montanhas.
Assucena me despertou e todo o sonho se dissolveu.
Restou apenas a bonita imagem de Paçoca, a cadela,
devorando borboletas amarelas no alpendre da casa do Almirante.
nuno g.
Toróró, 12 de março de 2024.
a vaca mugiu no pasto do Lio
uma borboleta pousou sobre uma flor
um arco-irís serpenteou o céu
nuno g.
toróró, 08 de março de 2024.
Se soubesse de onde eu vim, não me sorria
(...)
Agora que sabe, tem medo de mim
Mas no seu lugar, eu também teria
Mc Tha & Jaloo
A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do ar.
Demasiada neblina ao amanhecer.
No rosto de Claudinha a violência que se confunde com a esperança.
A doce verdade nos lábios e o que é justo aqui: gritando e gemendo neste vale de lágrimas.
Come-e-Dorme com grave ferimento no olho.
Lari pinga o colírio e reza.
Que o vento leve hoje todo o ontem e algo do amanhã.
A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do mar.
Na montanha mais alta a morte e os vaga-lumes dançam e brincam com a neve.
Tempo trabalha, corta a carne e as artérias de um corpo que grita e geme.
A voz de Milton inunda a casa.
Assucena quase chora.
Luís semeia a lua amarela e sorridente.
Que o vento corra daqui esse sentimento ruim e sádico.
Que o vento corra daqui essa insanidade masoquista.
Que o vento traga outra vez o sol, a lua e as estrelas.
Tudo cheira à água de eucalipto.
Na montanha mais alta me inclino ao recordar tia Tânia.
Sua alegria, sua energia e seu amor ao dizer à Alice:
A tia vai ficar boa pra brincar com você.
Bastou isso para fixar agradável memória entre pontes e pontes.
E águas de rios correndo entre prédios e prédios e teias de asfalto.
A verdade nos lábios e as saudáveis maneiras de machucar alguém.
Havia muitas cercas de arame farpado.
Mas a morte e os vaga-lumes sempre terminam por cruzar qualquer cerca.
Os olhos de tia Tânia nos olhos de Alice.
Os olhos de tia Helma nos olhos de Alice.
A doce e violenta verdade nos lábios.
A doce e delicada e violenta verdade nos lábios.
O som das tanajuras caindo dos céus.
O som dos passos desta senhora que chamamos Morte.
O vento tangendo pensamentos.
O vento tangendo sentimentos.
O vento tangendo resquícios de um sonho incompreensível.
Na casa de um amigo de infância.
Meu único amigo ali era a casa.
Cheia de rachaduras e infiltrações.
Como meu próprio corpo desabando no corpo do abismo.
Tempo trabalha na longa longa duração.
O sol, a lua e as estrelas giram.
Lari reza e pinga o colírio.
Lavo os olhos com mel.
Três vezes choro no túmulo de Ian.
Recordo tio Edson ao olhar as nuvens.
Gabi me ensina sobre o ódio e sobre a necessidade de estar aqui.
Ainda que aqui seja uma casa cheia de rachaduras e infiltrações.
É a única que tenho. É o corpo que sou. É o lugar onde habito.
E a estrela que me habita ainda não morreu.
E a lua que me habita ainda possui suficiente ternura.
E o sol que me habita lança serpentes de fogo
que acendem a pedra delicada onde repousa minha dor...
nuno g.
Toróró, 22/02/24.
Isso é um içá!?
Sim - e lembrei do sítio do pica-pau amarelo entre as cidades mortas.
Hoje caíram tanajuras, não chove - me disse uma velha na fisioterapia; choveu.
Sonhei com a montanha mais alta do mundo.
Só a morte e os vaga-lumes sobreviviam ali.
Quando eu era menina catava içás para minha vó fazer farofa - mas eu não comia.
Depois que a velha falou, uma jovem comentou o mesmo, mas havia nojo em sua voz.
De tudo que Bruno me falou retive a imagem poética do guerreiro que corta o ar com sua espada.
A inutilidade do gesto o torna ainda mais poético.
Em tudo que Gabi me falou havia uma certa sabedoria prática e um amor ao outro que me é estranho.
Impossível não recordar São Francisco de Assis.
Ou certo saber que nos diz que amadurecer é se deixar de lado.
Que gosto terá bunda de tanajura?
No alto dessa montanha do sonho havia um descampado inabitável.
Só a morte e os vaga-lumes se faziam presentes.
Os infortúnios do corpo e da alma são mensageiros de algo.
Só o difícil interessa. Só o amargo desmemoriza.
As coisas que eu gostaria de esquecer nunca serão esquecidas.
Encontro Don Juan onde menos espero.
Em um livro de psicanálise sobre a solidão.
A voz de Lucas invade minha sala com um convite.
As coisas que recordo agora não são da ordem do que pode ser dito.
Alice está longe e está próxima.
Havia nenhuma outra luz na montanha além da dos vaga-lumes.
Lari volta a sangrar.
Será que as mulheres são ainda mais fascinantes por sangrarem sem morrer?
Thiago de Mello: faz escuro, mas eu sonho.
E sonhar é uma benção.
Ainda quando se perdeu toda uma infância entre pesadelos.
O que eu não terminei de te contar Gabi é que sim houve um tempo em que eu temia a morte.
Temia tanto que evitava dormir, pois todas as noites ela me perseguia em sonhos terríveis.
Isso durou anos - bem mais de uma década.
E nisso vi escoar pelo ralo um tempo precioso da vida.
Depois perdi o medo e, junto com ele, perdi também o amor a esse mundo aqui.
No deserto entendi que os derrotados são sempre os que temem a morte.
Meu avô me repetia algumas coisas todos os dias.
Que ele morreria antes de mim e que eu deveria enterrá-lo e seguir.
Que ele gostaria que isso ocorresse depois dos meus quinze anos.
Que não seria natural ele presenciar minha morte pois isso seria uma perversão da lei natural.
O hálito de álcool não turvava suas palavras.
Nem tudo ocorreu como ele gostaria.
Minha infância terminou quando ele morreu.
Minha solidão é sagrada - e todas as vezes que desacreditei nisso me fodi.
A imagem que retive das falas do Bruno se desdobra à minha frente.
Um guerreiro irado corta o ar com a lâmina afiada de sua espada.
O gesto é ainda mais poético por ser de todo inútil.
O vaticínio da velha estava errado, choveu.
As bundas das tanajuras sabem à proteína pura.
Aquela montanha mais alta do mundo é o México onde está enterrado a placenta de Alice.
Só a morte e os vaga-lumes parecem ter força de chegar lá outra vez.
Desde o nascimento de Assucena duvido de minha carcaça.
A dor me tirou da estrada. E essa dor se alojou em minha alma.
Sempre fui triste e a alegria sempre me pareceu fútil.
Hoje gostaria de ouvir apenas o silêncio.
A voz da morte. A chuva de tanajuras.
E a melancolica e frágil luminosidade dos vaga-lumes.
nuno g.
Toróró, 21 de fevereiro de 2024.
A lua amarela em quarto-crescente e as primeiras moscas.
Coração é o nome de uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Nas nuvens se avistam formas de animais.
Uma tartaruga.
Um capote.
Um urso.
Um galo.
Um avião da panair.
Ouço Mãe Hilda me chamar - é só o resquício do sonho.
Empatamos o derby no último minuto.
Chove. Chove. Chove.
Quatro da manhã, o segurança do Hercílio Luz me escolta:
Onde é que fica a Azul?
Aponta com cara feia e amarrada a fila do check-in.
Na revisão do raio-x a máquina apita uma vez.
Tiro as moedas do bolso.
A máquina apita uma segunda vez.
Tiro mais moedas do bolso.
A máquina apita uma terceira vez.
Tiro a carteira e o cinto.
A máquina não apita.
O que é isso?
Um salame.
Posso conferir?
Sim.
Você pode, por favor, abrir?
Pode abrir você, mas não come.
Saí com um salame desembalado e o cinto quebrado.
Empatamos o derby no último minuto.
Em Belo Horizonte muita neblina atrasa a aterrisagem.
Em Belo Horizonte muita neblina atrasa a decolagem.
Meus ouvidos quase estouram quando chegamos no aeroporto 2 de julho.
Trago a medalha de Gaeth no bolso e uma febre desconhecida.
A raiz e as folhas guardam o silêncio e a guerra.
Todas as árvores guardam suas próprias feridas.
Saudade é o nome de uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Na febre se vê coisas que se assemelham à coisas.
Me falta permissão para prosseguir.
Me falta permissão para dizer a história dos nãos.
Me falta permissão.
Empatamos o derby no último minuto.
Lua amarela e chuva.
Meus ouvidos prestes a explodir.
Francine envia à Alice foto do parto de uma gata.
Lari me envia uma foto minha com Assucena na janela da casa do Almirante.
Uma febre me engole e mergulha meu corpo num estranho estado de dispersão.
Não fui à Valença, necessitava dormir.
Talvez hoje eu peça. Talvez hoje eu obtenha. Talvez.
Morte é o nome de uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Silêncio, resguardo, concentração.
Talvez um dia eu tenha a permissão para contar a história dos nãos.
Do circo. Do aniversário. Dos passeios de barco. Dos churrascos.
O inferno das crianças são os adultos.
Sobrevivi a três aeroportos e à história dos nãos.
Com a pedra no peito e a espada no coração.
Assistimos a luneta do tempo com a exuberante Hermila Guedes.
O inferno das crianças são os adultos.
Silêncio é uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Sobrevivi a muitos assassinatos, 47 quaresmas e rios de areias movediças.
O piratinha me aguardava no meio do bambuzal.
Dei na chave e acelerei.
Comprei bolo de laranja e pães em Santo Amaro.
Mergulhado na febre fui sorrindo pela estrada.
Como se o meu corpo fosse estranho à minha consciência.
Os ouvidos completamente tapados.
Os tendões inteiramente inflamados.
A memória do ódio. A memória dos nãos. A desmemória do mundo.
Vagamente recordo de Gaeth comentar sobre os voos da lufthansa.
Outra vez o avião da panair cruza as nuvens da minha poesia.
Num sonho muito antigo quase me tornei minha mãe e meu pai.
Num sonho muito antigo escutei alguém me chamar.
Num sonho muito antigo tudo era água, fogo e sangue.
Recolho as moedas da bandeja do raio-x do aeroporto.
Faço do xale que Gaeth me emprestou um cinto e sigo.
Amor, faz um cuscuz com ovo, você que é o nordestino.
A ânsia de desejar e o tédio de possuir, livremente adaptado de Arthur Schopenhauer...
Borboletas amarelas. Flores amarelas. Incerta desolação.
Já botei o cuscuz.
Já desço pra fazer os ovos.
A ausência de Alice aqui.
A lembrança de Bruno Tolentino exaltando Cruz & Sousa.
A lembrança de Bruno Tolentino denunciando a mediocridade de Ana Cristina Cesar.
A lembrança de Bruno Tolentino preso por porte de cocaína escrevendo suas baladas.
Vem comer com a gente?
Claro!
Assucena ergue a cabeça buscando a irmã.
Assucena ergue a cabeça e encontra a ausência da irmã.
A lua é uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Lua.
Minha sombra está suficientemente acostumada a devastações.
Nas nuvens vejo apenas recordações de animais que o vento dissipou.
O cheiro do cuscuz sobe as escadas.
A chuva para.
Um dia conto a história dos nãos que me perseguem.
O inferno das crianças são os adultos.
No coração da lua enterrei os primeiros dias da quaresma.
Com suas moscas e suas exigências de jejuns.
O vizinho aumenta o volume do reggae.
A voz de Edson Gomes se espraia sobre o vale.
No livro da morte está a história do samurai negro que conversava com deus.
No livro da morte está a história dos nãos que não tenho permissão para narrar.
Nas paredes do apartamento 102 do edifício Grão-Pará minhas jovens mãos escreveram um dia:
escrevo como os prisioneiros que escrevem nas paredes com sangue e fezes...
Aquele apartamento não existe mais.
Aquele edifício não existe mais.
Aquelas jovens mãos não existem mais.
Somente as baladas sobre a aprendizagem da solidão seguem existindo.
Era uma vez um castelo, um poeta e uma bailarina.
Era uma vez...
Alice levou a lua amarela e o cheiro de Assucena.
Tempo é uma árvore que cresce no coração azul do Mundo.
nuno g.
Toróró, 18 de fevereiro de 2024.
sonhei com uma gig hardcore
os gatos bagunçaram a casa
armamos a rede-berço, finalmente
Sofia não veio, como se esperava
Lari cozinhou comida árabe
Saci mandou fotos de carnaval
motos barulhentas cruzaram o silêncio do Toróró
todos os jornais falando da folia
se catam como piolhos notícias sobre o fascismo nos jornais
se catam como piolhos notícias sobre o fascismo nos jornais
o inominável ainda tenta usar seus crimes para se promover
os sionistas seguem matando crianças sob o silêncio do mundo
sonhei com uma gig hardcore
tempos em que ser jovem era estar no mundo de uma maneira diferente
encontramos Jarbas na 25: me contaram que você ama Nico!
sonhei com o tempo em que ser jovem era ouvir Lou Reed e Patti Smith
entre as plumas e paetês das festas de Momo
fascistas brasileiros fascistas argentinos fascistas israelistas
escorrem como piolhos gordos de sangue humano
Gabi sonhou com um senhor baixinho que tinha 80 anos e aparência de 44
alguns dos sonhos de Gabi me recordam Don Juan
sonhei com o tempo em que ser jovem era ler Don Juan e sonhar com peyote e desertos
sonhei com o tempo em que ser jovem era cultuar Maria Sabina
ser jovem e aparentar feições de velho
ser velho e aparentar feições de jovem
lições primeiras de feitiçaria
mirações sobre a verdadeira natureza de Tempo
todos os enigmas são ilusões dos olhos de quem vê
Assucena despertou - o som do processador fazendo o faláfel
Alice lê Peter Pan
quando elas crescerem existirá algo como uma boa e velha gig punk?
a janela bate, o vento do leste sopra,
o rio amarronzado pela chuva corre em direção contrária ao mar
os sonhos de Gabi são como um oráculo
dizem para não dizer e ao desvelar encobrem
Alice brinca com Assucena, ela sorri
Sofia não chega, como se esperava
Ignez manda mensagens telepáticas
quando eu era criança eu era muito velho
tão velho quanto meu avô
e agora, quase-a-envelhecer, aflora essa juventude
esses sonhos com uma eterna gig hardcore
e as lembranças das peripécias de Don Juan pelo deserto de Sonora
selvagem é uma das mais lindas palavras do dicionário
e está em extinção
assim como fúria, liberdade e sabedoria
olho Alice
olho Assucena
alguma esperança que nem tudo foi em vão
alguma esperança que ainda haverá fúria, sabedoria e liberdade no futuro
alguma esperança que uma nova juventude rasgará as velhas roupas coloridas
no sonho de Gabi havia uma padaria, uma prisão, maconha e óleo de hortelã
e todas as repressões saltando como rãs num pântano
no sonho de Gabi havia uma promessa
que me fez sonhar novamente com uma eterna gig hardcore
onde a palavra diferença deixava de ser um sobterfúgio à má consciência da opressão
fúria, liberdade e sabedoria - sem fascistas no caminho
pai, eu me lembro quando essa boneca caiu do sofá e eu botei um band-aid
pai, a sussu enfiou a cabeça dela entre os dois travesseiros...
espero que minhas filhas também sonhem algum dia com algo parecido às gigs punks
espero que espadas, piratas e castelos façam parte de ser jovem
Lou Reed, Nico, Iggy Pop, Lemmy, Patti Smith,
aquele distante encontro com Luiz Carlos Porto na casa do Henrique Didimo
Ave sangria, as motos rasgam o silêncio do Toróró
Alice embala Assucena na rede-berço
o cheiro da comida árabe sobe a escada
meu braço dói, escrevo escrevo escrevo
e sonho que essas escrituras encontrem lugar no coração da juventude
os gatos bagunçaram a casa
estar só é estar com a multidão silenciada
pai, o nome desse boneco no desenho não era Jarbas,
mas você disse que ele tinha cara de Jarbas e o nome dele ficou Jarbas
sonhei com uma gig punk
e acordei esperançoso de que haverá algo assim quando a juventude tornar a ser jovem
no sonho de Gabi havia um casamento e uma prisão
e havia um senhor baixinho que conhecia os poderes das ervas
e sabia provocar ilusões visuais
ele também estava na gig do meu sonho
assim como o mar verde da Majorlândia de minha juventude
quando eu era tão velho quanto qualquer ancião de oitenta anos...
(...)
pai, essa boneca nunca teve nome...
nuno g.
Toróró, 12 de fevereiro de 2024.
Você só tem a si mesmo, à sua dor, à sua fé, à sua morte.
Comida mediterrânea, azeite doce.
O azeite doce está tão caro quanto o ouro!
Adélia. Adélia. Adélia.
Onde está seu coração está também o coração da poesia.
Rua Ceará, Divinópolis, Minas Gerais.
Milton.
Onde está sua voz está também a voz de Deus.
Alice brinca com Sofia, sábado de carnaval.
Assucena dorme.
Hermenegildo, Hermenegildo...
Onde está sua montaria está também a flecha do Sonho.
Vejo o galo da madrugada na televisão.
Os alfaces hoje estão todos ruins.
Chove. Sopra um vento.
Certos dias sabem a sal e à sede.
Os pássaros descem o rio, maré mais baixa que ontem.
A pregabalina atenua os incômodos da tenossinovite.
Uma estrela rasga o vazio do céu.
Lua nova.
A dor, a fé e a morte.
E a coragem de ir buscar no mais fundo das águas algum horizonte.
Lua nova.
Era uma vez uma ilha...
nuno g.
Toróró, 10/02/24.
Gosto igualmente de todos os seus primos, mas eles têm seus pais e suas mães.
Você só tem a mim e à minha morte.
Você só tem à sua vó e à sua morte.
Você só tem essas lágrimas de sangue e sal aprisionadas nos seus olhos.
* * *
Alice ganhou sua primeira guia.
Assucena olhou olhou olhou.
Arriamos flores, alfazema e amor.
De madrugada choveu.
* * *
Você só tem a si mesmo e à sua morte.
nuno g.
Toróró, 05 de fevereiro de 2024.
Artrose precoce.
Gabriel vaticinou: Assucena e os cães, banda punk.
Assucena e os cães românticos!
O cantador das cousas do porão e seu canto torto feito faca cortando a carne do amanhecer.
Vamos almoçar o quê?
Pode escolher,
Qualquer prato de qualquer país do mundo que eu busco os ingredientes no fundo do mar.
Artrose precoce. Tendinite. Fé.
O peso do mundo sobre o meu ombro.
O peso do mundo sobre a minha cabeça.
A poesia e essa vaga memória das cousas que não vivi.
A voz de Cristian ao telefone.
A voz de Zaine ao telefone.
O sonho do Recife. O elevador dos funcionários. A esquina.
Os insuportáveis vizinhos da praia de Boa Viagem.
A estranha recordação de quando eu tinha apenas seis meses na praia de Piedade.
Os cães românticos e o horizonte...
para bia,
Uma xícara de café amargo e vaga lembrança de tia Helma.
Mucuripe à voz do cantador das cousas do porão.
Seus cabelos loiros em Olinda e suas palavras e todas as suspeitas pulsando em meu coração.
Dona Antonia regressou dos exames e alçou a bandeira branca no terreiro.
O pé de seu Antonio segue cicatrizando devagarzinho.
Cobra de olho de vidro e escamas coloridas.
Val plantando feijão. Nato brincando com Assucena.
Alice lendo poemas sobre sorvetes e decepções.
Teu pai tá doido!
Doido nasci, sou.
Quarta-feira, de hoje a oito cinzas.
Quarta-feira, ventanias ciganas e fogos da justiça.
As vésperas me comovem e me reviram por dentro.
Uma xícara de café, uma gata no cio, nuvens tangendo fevereiro.
Ignez não foi às classes.
Vi uma foto de Bia com Inaê ao colo.
Senti saudade imensa e vontade de estar junto um segundo.
Ela também está envelhecendo!
Tem só três anos a menos que eu...
Luís desce a ladeira da casa do Almirante.
Vento e fogo / fogo e vento.
A primeira oferenda a Tempo, a última também.
Bel lava as louças e seu Elias caminha em direção ao infinito.
O rio nos olha, maré baixa, ilhas expostas como esqueletos de um lagarto sem plumas.
Rinoceronte norte-coreano cruzando a estrada.
Serpente de olhos de vidro e coloridas escamas.
Vi uma foto de Inaê no colo de Bia.
Senti imensa saudade e vontade de estar junto um minuto.
Ela está envelhecendo.
Dois filhos, professora dedicada e muita vida escorrendo entre os cabelos...
Alice e Ignez descobriram que são peruanas.
Irmãs separadas no berço.
Assucena sonha enquanto Jonas, a lagartixa, rumina desacontecimentos.
Sonhei com Recife mais uma vez.
Elevador dos anti-sociais, vizinhos bêbados e uma socialite insuportável.
Esquina do Nada com o Nada.
Lari sonhando com a força do parto, com a força do sexo, com a força do amor.
Vozão estreiou com vitória na copa nossa.
Papai, nas próximas encarnações quero ser:
Gato da Francine.
Cachorro do tio Claudio.
Vaca na Índia.
O carnaval está chegando e nada recorda isso.
Alice e Ignez descobriram que Santiago é colombiano.
Mas que não está preparado para saber.
Os homens tardam mais, se demoram, divagam.
Os primeiros quarenta anos são somente para abrir os olhos.
Alice sonha.
A hora da terapia de Lari se aproxima como Jonas se aproxima da cumeeira da casa.
Filha, em alguma reencarnação passada fui um indío tapuia no vale do Jaguaribe.
Vi os colonizadores chegarem.
Estive quando da traição e das emboscadas.
Recordo a cabeça de touro enterrada sob a igreja da Virgem na cidade do Icó.
Papai, você tem mesmo esses olhinhos indígenas...
Entrou um espinho de jurema no meu calcanhar.
Alice improvisou uma pinça com duas facas e o extraiu.
Assucena sonha.
E Hermenegildo nos sorri da estrada.
nuno g.
Toróró, 07 de fevereiro de 2024.
para Lari y as Marias,
Aqui não é Macondo.
Aqui não é Comala.
Aqui tudo é sonho, ossos e pressentimento.
Aqui tudo se torna água e rio.
Aqui tudo é pedra e memória da pedra e do fogo.
Aqui o amor reina soberano e canta e dança.
Aqui tudo é cura e perdão.
Aqui o esquecimento não encontra chão.
Aqui tudo é Luz e a sombra das sombras encontra seu caminho.
Aqui todas as cicatrizes ganham formas belas.
Aqui o pesado se dissolve e as nuvens brilham e cintilam e se transfiguram em saber.
Aqui a morte nos abraça como uma velha amiga.
Aqui os deuses se encontram e celebram à maneira antiga.
Com seus vinhos, seus mistérios e seus oráculos.
Aqui toda a maldade é varrida pelos ventos.
Aqui a beleza reina soberana e canta e dança.
Aqui ofertamos milho branco, inhame e mel.
Aqui reverenciamos nossos ancestrais.
Aqui os perdoamos e com eles comemos com as mãos.
Aqui Tempo reina e suas árvores crescem e dão frutos.
Aqui não existe chão para o esquecimento.
Aqui tudo é cura e perdão.
Aqui o desespero se encontra com seu caminho e o labirinto deixa de existir.
Aqui é Luz, sonho, ossos e a imensa imaginação das ruínas.
Aqui é casa e terra firme.
Aqui tudo é despertar e amor e amor e amor e ternura.
nuno g.
Toróró, 02 de fevereiro de 2024.
Lua minguante no céu.
Alice e Ignez brincando.
Assucena dorme.
Tão difícil fazer versos, mas eu sonho.
Além dos nossos gatos os dos vizinhos.
Que vão ganhando nomes também.
Salem, Romeu...
Quando digo minha asa está ferida a tenossinovite quase faz sentido.
Palavra assentada na pedra - e vou caminhando no labirinto de Larissa.
Lua minguante no céu.
Larissa dorme.
Amanhã Assucena toma vacina de meningite.
O pé de seu Antonio vai melhorando devagarzinho.
Doutor Epitácio quer ver mais um exame antes de dizer sua palavra.
Domingo tem festa.
Barcos e flores na pedra da Baleia.
Palavra assentada em pedra submersa.
Tão difícil fazer versos, mas eu sonho.
Rio de maré, deuses que dançam, memória das serpentes.
Do Rosarinho ao Toróró as coisas sedimentando por dentro.
Abismo em forma de cidade.
Outro dia sonhei que aqui era o Crato e que Cachoeira ficava na Chapada do Araripe.
Tudo era bonito e perigoso.
E caíamos e caíamos e caíamos.
Até no sonho minha asa esquerda dói.
Acordo, escrevo e já estamos em fevereiro.
Mês em que Alice volta a viajar.
Terá carnaval para quem é de carnaval.
Meu vizinho me fala de Paracuru.
À oeste do meu coração sopra um vento frio.
Lua minguante no céu.
Adélia, me ensina a escrever como tu!
Hermenegildo, reza minha dor!
Hilda, mãe, abençoa minhas crias.
Luto é palavra que guarda ternura.
Casamento soa perfumado, bonito e perigoso.
Quase como amor, passarinho e praia de rio.
Em março as aulas voltam.
Em março Alice viaja de volta.
Hoje jantamos acarajé.
Olhei as estrelas - Bilac nunca esteve entre os que me atravessam.
Cozinhamos ossos de boi e pés de galinha para os cães.
E o feiticeiro nos acenou de longe.
nuno g.
Toróró, 01 de fevereiro de 2024.
à memória de Augusto dos Anjos,
Pina, a gata, arranha a casca da jurema preta.
Um barco sobe o Paraguassú com filhos-de-santo saudando com palmas as águas.
A tempestade se foi, não se ouvem mais os trovões.
Embora as nuvens sigam reinando nos céus.
Seu Antonio feriu o pé com espinho de roseira.
Uma voz distante nos abraça e promete alguma ternura antes dos dias de folia.
Um vento suave vem do Himalaia e leva algumas pesadas formas-pensamentos.
Mistérios Sussuarânicos, pássaros de Hermenegildo com metais no bico.
Pássaros de Hermenegildo com minerais no bico.
Uma canção na voz Gaeth soprando paz e paz e ternura e paz e fécula de alimentos e paz.
As Marias se conversam.
Alice traça uma genealogia sem-fim com Clarice.
Como se cem anos de solidão não fosse mesmo suficiente.
Assucena sorri e seu sorriso me fala do trabalho de todos os seres que a trouxeram até aqui.
Larissa sonha com a força pura e potente do parto.
Larissa sonha com o mais intenso e cintilante do parto.
Larissa sonha e em seu sonho o próprio parto está se parindo.
O gavião do Montecristo nos visita.
Um vento suave do Himalaia o traz até aqui.
Que nunca falte mel em meus olhos.
E que quando a tempestade voltar eu ainda esteja aqui.
Eu, Hermenegildo e seu estranho cavalo com asas de rinoceronte norte-coreano.
nuno g.
Toróró, 28 de janeiro de 2024.
à memória de José Alcides Pinto,
Anônimo, o gato, descansa protegido da chuva à sombra do limoeiro.
Flutuo sobre a loucura e o delírio de gerações e gerações de psicanalistas.
Flutuo sobre o cinismo, a ironia e a descrença contemporânea.
Invoco espadas antigas, amuletos perdidos, orações em línguas desconhecidas.
Flutuo sobre as visões desnorteadas dos medos imaginários.
Sobre o mar de ruínas e destroços.
Sobre o sangue das civilizações antigas e suas bibliotecas desaparecidas.
Flutou sobre a dor, a solidão e as cicatrizes do abandono.
Invoco Fúrias, Musas e outros seres de outros mundos.
Invoco a Estrada e seus tentáculos de Sabedoria.
Garfield, o gato, descansa protegido da chuva no tapete rosa da sala.
Invoco minhas próprias forças desconhecidas.
Para que semeiem uma nova paz e uma nova lucidez e uma nova utopia.
Flutuo sobre o fim do mundo.
Sobre os vestígios do fim do mundo.
Sobre as galáxias em gestação enquanto esse mundo desaparece.
Invoco alfarrábios, fragmentos de estrelas e luzes subterrâneas.
Estudo novamente as cores e os signos.
O uivo de Allen Ginsberg e a inteligência descomunal borrifada por Kerouac.
Retomo minhas anotações sobre minha própria estadia no inferno.
E vou movendo meu corpo apodrecido entre as águas vaporosas do Jorro.
Reaprendo com os pássaros a me alimentar de sementes.
Invoco o Sol. Invoco a Claridade que desfaz os gestos das sombras fantasmagóricas.
Invoco o Anjo que me acompanha desde o berço.
Escuto a Voz de minhas filhas escorrendo entre as frestas de minha desértica imaginação.
Escuto a Voz das cem mães que tive nesta encarnação.
Escuto o berro bravo de meu pai.
Acaricio cada ferida sua.
Extraio de seu corpo as balas que o levaram para longe.
Ouço o vento do Infinito. Ouço Aracati. Ouço as Onças.
Invoco Tempo. Rogo paciência.
E adormeço como se nunca nada houvesse ocorrido.
Como se a máscara de gelo e fogo fosse apenas uma forma do pensamento.
E torno a flutuar sobre os gatos e suas esperanças.
Sobre a chuva e seus segredos.
Sobre os temores e suas iras.
Invoco ao que traz o poder de dissolver o corpo velho e restituir a saúde.
Escuto a Voz de minhas filhas e adormeço quase em paz.
Como um planeta ilusionado pela abrupta sensação de ter reencontrado sua órbita originária...
nuno g.
Toróró, 27 de janeiro de 2024
à memória de José Alcides Pinto,
Sou feito de Sonho e Solidão.
Minhas vestes são as águas das chuvas.
E a poeira escura que escorre do voo cego dos vaga-lumes.
Nada em mim recorda as cinzas do esquecimento.
Tudo é noite e escuridão no manto azul estrelado com que teço minha pele.
Sou o Sol de mim mesmo que se estende desde as várzeas sertanejas às praias coloniais.
Sou feito de Promessas e Horizontes.
Minha nudez é a do deserto do altiplano andino e das mesetas mexicas.
Quando meus olhos encontraram os olhos de Mama-Quilla na fortaleza inexpugnável de Sacsayahuaman.
Quando Wiracocha criou com barro e amor o Sol a Lua e as Estrelas.
Quando os primeiros sacrilégios feriram a crosta da Terra e dos Oceanos.
E os fervores tóxicos do ódio escaparam das entranhas do Mundo.
Minha nudez se revelou em toda sua fragilidade de ossos em precoce envelhecimento.
Sou feito de Fé e Esperança.
Tudo em mim é tremor. Sou o Grande Cenote onde Walt Whitman recebeu seu corpo-revelação.
Sou a Morte, a Doença e a Cura.
Os movimentos do abismo insondável e as ruínas da civilização do Caldeirão e Canudos.
Sou feito de Sonho e Solidão.
Sob as visões da Ayahuasca da Codeína do Ópio e da Morfina.
Vi meus joelhos sangrando de tanto chão.
E os meus mortos peregrinando em louvor ao Padre Cícero e à Virgem de Guadalupe.
Vi meus dedos se esticando como caudas de seres pré-históricos.
Vi a Virgem da Conceição semeando Luz nas águas doces do Jaguaribe e do Amazonas.
Sou feito de Lírios Brancos e Papoulas Brilhantes.
Sou o Sono que antecede a Eternidade.
Sou o Nada e a imensa vastidão que nos separa de nossa própria Consciência.
Minhas vestes são as pedras que caíram dos céus.
E a poeira escura que escorre do voo cego dos vaga-lumes.
Nada em mim recorda o cinzento esquecimento.
Tudo é Azul, Noite e Escuridão.
Tudo é um só e único manto estrelado que nos cobre a cegueira e o desespero e a insanidade.
Sou feito de Sonho, Silêncio e Solidão.
E da poeira escura que escorre do voo cego dos vaga-lumes...
nuno g.
Toróró, 27 de janeiro de 2024.
Nomeei minha dor: Jacinta.
No meio de uma trovoada.
Ausências voando entre as gotas d'água.
Beija-flores se refugiando nos cabelos das Marias.
Batizei minha dor: Jacinta.
E dois homens vestidos de branco chegaram.
Fizeram coisas que tinham a fazer.
O mais velho, cabelos e barba grisalhos, guiava a limpeza.
O mais jovem, imberbe, executava e aprendia.
Não levantei da cama.
Observei.
* * *
Papai, prefiro lembrar dele vivo.
Papai, a Magui e o Bené devem estar sofrendo.
Chorou, me abraçou e foi brincar com a Ignez.
Papai, ele era muito legal.
Papai, você gostava muito dele.
Sorriu e foi brincar com a Ignez.
Sim filha, foi ele que foi me buscar no Recife quando sua vó suicidou.
Sim filha, foi ele que foi buscar o corpo de sua vó no Recife quando ela virou lua.
Sim filha, foi ele que do púlpito da igreja matriz de Russas deu voz à minha dor quando seu bisavô morreu.
Sim filha, foi ele que me mostrou tantos livros quando eu ainda buscava nos livros o que a vida não podia me dar.
Sim filha, foi ele que leu em voz alta para mim o "poema em linha reta" que me fez amar meu destino torto.
Sim filha, foi ele que me disse as palavras mais sinceras quando defendi a tese de doutorado que escrevi com você no colo.
Sim filha, a chegada dele era todos os anos um acontecimento.
* * *
Os homens vestidos de branco partiram.
Papai, eu te amo.
A trovoada seguiu.
Jacinta aqui - se não me mata te escrevo.
Assucena me chama. Os analgésicos finalmente fizeram algum efeito.
As águas lavam tudo, menos as mentiras que assassinaram minha infância.
nuno g.
Toróró, 26 de janeiro de 2024.
para minhas mães da terra,
para Eliana, minha mãe do Astral,
Acenderam três velas minhas mãos trêmulas.
Na primeira, a intenção do Sol.
Na segunda, a intenção da Lua.
Na terceira, o parto de todas as estrelas.
Acenderam três chaves perdidas.
Na primeira, uma surra de cinto pelas trêmulas mãos de meu avô.
Na segunda, um labirinto antigo onde se perdem todos os futuros.
Na terceira, a cegueira a cegueira e a cegueira.
Acenderam todas minhas fraquezas as mãos súbitas do Mensageiro.
Meus medos mais arcaicos, mais sutis e mais imaginários.
E nesta floresta onde estão plantadas as portas do Monastério das Flores Selvagens.
A memória de Alzira se fez fogo e saber sobre a Tempestade.
nuno g.
Toróró, 11/01/24.
para Adriano Brito,
O dia amanheceu nublado,
O dia amanheceu em paz.
Maria me fez um carinho e me disse:
papai, amanhecer e paz são a mesma coisa.
Hermenegildo me soprou:
Eu venho de longe, você também.
A dor da tendinite e a dor da guerra são linhas do mesmo arco.
Eis a flecha, aqui.
Na hora em que chegaram a pedra e seu Senhor cantavam a Inaê.
A dor e a guerra se mesclavam como a água e a água.
Dona Eliana, com sua face renovada em mel, esteve aqui uma vez mais.
Choveu pipocas e recordei antigos sonhos.
Ian, meu pequeno, descansa em paz.
As águas do Jaguaribe levando o espírito de Dellany.
Saudades de Adélia. Saudades de Judite. Saudades de não sentir dor.
Minha energia vital decantando na quartinha.
A dor e a guerra se estendendo pelo tendão inflamado.
Maria me fazendo carinho e me dizendo.
Papai, daqui a pouco você estará curado.
Recordando aqueles sonhos em que os degraus da escada desmanchavam como sorvete ao sol.
Recordando aqueles sonhos em que a ponte se dissolvia como a luz das estrelas no espaço.
Me afastando de mim, da dor, da guerra e das memórias de minha pele.
O ferreiro. O caçador. A senhora dos ventos.
E brilhando acima de todos nós a Senhora da Lama Roxa.
A faceira de luto. O rosarinho de luto.
E a memória da guerra contra os tapuias no vale das onças.
E a memória da guerra contra os palestinos em Gaza.
E a memória dos fascistas invadindo Brasília e os meus sonhos.
Reconhecer na dor uma mestra, difícil e árdua tarefa.
Hermenegildo entre as nuvens.
Essa ponte que somos entre um sonho e outro.
Entre um corpo e outro.
Entre uma morte e um nascimento.
Maria foi dormir na casa de Ignez.
Me fez um carinho e me disse:
Papai, estou com piolhos outra vez.
Rego Assucena esperando a flor.
Não há ainda arco-íris no céu, não é seu tempo ainda.
Suo. Tremo. Balanço.
Bruno me fala do amor divino.
Adriano me canta o amor divino.
Os gatos traquinam pela casa.
A dor me leva à exaustão, uma vida inteira andando descalço pela fronteira.
Hermenegildo se despede, passarinho que é, avoa.
Hermenegildo se despede, peixinho que é, nada.
Assucena dorme. Maria se faz estrela e brilha.
A dor no meu ombro se espalha pelo meu tendão.
A guerra de Tempo se alastra pelo meu agora.
Sentado à Pedra espero.
As portas do Monastério das Flores Selvagens permanecem fechadas.
nuno g.
Toróró, 11 de janeiro de 2024.
para tio Edson, Bruno e todos os teólogos da libertação,
Os nazi-sionistas bombardeiam Belém.
O mundo celebra o nascimento do Palestino.
Aqui não faltou nada.
As crianças, os sorrisos, as comidas, o presépio e a Árvore do Mundo iluminada.
Os gatos também cearam.
Os cães também.
Os pássaros cantaram.
Houve brinquedos, abraços, carinho e alegria.
Enquanto os nazi-sionistas bombardeavam Belém.
Enquanto os poetas de Gaza recitavam seus poemas de amor, firmeza e vida.
Enquanto os miseráveis da terra cumpriam sua condenação.
Aqui a lua quase-cheia brilhou no céu.
E nas dobras do seu brilho os gritos dos condenados da terra.
E nas dobras dos seus gritos o estrondo das bombas sobre Belém.
O Palestino segue sendo o mártir dos mártires.
Em seu sangue a promessa da redenção.
Aqui os estrondos foram os dos fogos pirotécnicos.
Em Gaza as bombas sobre hospitais, escolas, crianças e Marias.
Aqui comemos em abundância.
Sem esquecer a fome dos mutilados da Cisjordânia.
Os nazi-sionistas passarão.
A memória do Palestino não.
Os nazi-sionistas passarão.
Os poemas de Dom Pedro Casaldáliga não.
Maria Assucena sorriu, brincou e cansou.
Fez tanto xixi que uma lagoa se formou debaixo da rede.
Maria Alice sorriu, brincou e não cansou.
Trouxe tanta alegria que o rio, a Árvore e os olhos do Jaguar se encantaram.
Enquanto os nazi-sionistas seguiam bombardeando Belém.
Nunca a carne do mito foi tão presente.
O mundo-ocidente se esconde, se acovarda e silencia.
Enquanto os nazi-sionistas bombardeiam as crianças de Belém.
Sim, dezembro é o mês em que todas as feridas ardem mais.
Sim, dezembro é o mês em que a Estrela que guiou os Magos da Antiguidade volta a resplandecer.
Os nazi-sionistas passarão.
A Estrela, os Magos e a memória do Palestino não.
nuno g.
Toróró, 25 de dezembro de 2023.
Sonhei com uma guerra infinita.
As sete espadas forjadas por um ferreiro africano.
E a voz e os dedos e o desespero implacável de meu avô.
Sonhei com a sabedoria dos bêbados e a cegueira dos assassinos.
Só em deus a luz translúcida.
Só em deus a pura escuridão amorfa e indefinida.
Aqui, tudo é rio e em todo rio a água se turva.
Se mistura a todos os líquidos e corre em direção ao mar.
A única exceção é essa cidade.
Onde o rio corre ao contrário e os sonhos nos possuem acordados.
Sonhei e entre o temor e a veneração depositei meus joelhos ao solo.
Curvei minha cabeça ante as nuvens.
E esperei o tempo da Serpente e da Árvore.
Anunciarei uma vez mais a promessa e o dilúvio.
Escrevi um palimpsesto breve.
Sobre coisas que nunca aconteceram.
Sobre livros de areia e garatujas indecifráveis.
Sonhei com uma guerra infinita.
Com o alcoolismo inevitável de verdades e espinhos.
Saltando sobre a saudade de meu avô.
Sonhei com lírios brancos acesos entre outras ervas.
E com cachoeiras anteriores a meu nascimento.
Amanhã será outra vez tempo de festa.
As sete flechas forjadas por um ferreiro africano.
Eram também os sete raios da anunciação.
Agora é tempo de descansar.
Lavar os pratos, cuidar da limpeza dos lençóis, cozinhar bem os alimentos.
Enquanto a Serpente e a Árvore vão movendo os sedimentos.
Abrindo túneis entre o Nada e o Nada.
Sob a terra, luz e escuridão se amalgamam.
E todos os rios na fervura de meu sangue.
Sonhei com os olhos em brasas do Jaguar.
Olhando a lua.
Olhando o rio.
Olhando o Trono forjado pelo ferreiro africano.
Amanhã será outra vez festa de Tempo.
Amanhecer de carnes e incensar de ossos.
O que é meu e o que é do mundo.
Unidos e separados.
Como o que é homem e o que é cavalo.
Nos centauros da Tessália.
O que é meu e o que é do mundo.
Nessa guerra sem trégua de sonhos e túmulos de azulejos azuis.
Nessa praia de gaviões onde avistei o horizonte.
Flechas, espadas e arcos coloridos.
No interior profundo da mata sombria trabalha um ferreiro africano.
E, aos seus pés, curvo minha cabeça em devoção.
nuno g.
Toróró, 17 de dezembro de 2023.
Hermenegildo passou antes do sol nascer.
Sua silhueta a cavalo recortou a paisagem.
Me deu bom dia com voz de rio.
Hermenegildo, perfumado de alecrim e azeite.
Com seus olhos de facão e foice.
Abrindo o caminho de volta à terra arrasada.
* * *
Hermenegildo passou e o sol nasceu.
Sua voz de rio estancou ante meu amanhecer.
E com as ferramentas suas fui abrindo o caminho.
Hermenegildo me soprou um silêncio frio.
E me apontou com o olhar as três Marias ainda no céu.
Outra vez a hora de inventar um dialeto para bendizer.
* * *
Reza em mim que eu te perco da salvação.
Judite e Adélia cruzaram o caminho.
Alguém serviu um prato de comida aos deuses e outro aos cães.
A lua, minguante e terna, desapareceu atrás da serra.
Reza em mim que eu te salvo da perdição.
Sonhei com o sal, o mar, a sede e o corpo de Larissa.
Ela estava mais velha e eu ainda era um menino.
Nossas Marias haviam seguido viagem.
E nossos corpos celebravam todas as passagens.
* * *
Reza em mim e chove que essa seca já muito tarda.
Hermenegildo pronunciou o nome de Miguel sobre os maturis.
O rio está bonito hoje - na voz noturna de Larissa o tempo girou ao contrário.
Amanhã nossas Marias estarão juntas novamente.
Nas matas sombrias e no esverdeado coração das águas.
* * *
Suportar a dor extenuante.
Abraçar as brasas que não se extinguem.
Reza em mim e o sol se fará dicionário para a cura e para a morte.
* * *
Reza em mim e me rega com fogo.
Todas as estrelas no olhar de Hermenegildo.
Sonhei com Larissa coberta de sal e vestida de azul na praia do Montecristo.
Envelheci tanto que me tornei mais jovem do que o dia em que nasci.
O tempo se enrodilhou nos seus cabelos encaracolados.
Semeou serpentes e arco-íris entre eles.
E um vento de quarta-feira nos recordou nossas Marias.
* * *
Sentamos numa pedra.
Avistamos o Gavião.
Reza em mim e será como se me rezares eternamente.
nuno g.
Toróró, 13/12/2023.