quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Hermenegildo

 para Adriano Brito,


O dia amanheceu nublado,

O dia amanheceu em paz.

Maria me fez um carinho e me disse:

papai, amanhecer e paz são a mesma coisa.

Hermenegildo me soprou:

Eu venho de longe, você também.

A dor da tendinite e a dor da guerra são linhas do mesmo arco.

Eis a flecha, aqui.

Na hora em que chegaram a pedra e seu Senhor cantavam a Inaê.

A dor e a guerra se mesclavam como a água e a água.

Dona Eliana, com sua face renovada em mel, esteve aqui uma vez mais.

Choveu pipocas e recordei antigos sonhos.

Ian, meu pequeno, descansa em paz.

As águas do Jaguaribe levando o espírito de Dellany.

Saudades de Adélia. Saudades de Judite. Saudades de não sentir dor.

Minha energia vital decantando na quartinha.

A dor e a guerra se estendendo pelo tendão inflamado.

Maria me fazendo carinho e me dizendo.

Papai, daqui a pouco você estará curado.

Recordando aqueles sonhos em que os degraus da escada desmanchavam como sorvete ao sol.

Recordando aqueles sonhos em que a ponte se dissolvia como a luz das estrelas no espaço.

Me afastando de mim, da dor, da guerra e das memórias de minha pele.

O ferreiro. O caçador. A senhora dos ventos.

E brilhando acima de todos nós a Senhora da Lama Roxa.

A faceira de luto. O rosarinho de luto.

E a memória da guerra contra os tapuias no vale das onças.

E a memória da guerra contra os palestinos em Gaza.

E a memória dos fascistas invadindo Brasília e os meus sonhos.

Reconhecer na dor uma mestra, difícil e árdua tarefa.

Hermenegildo entre as nuvens.

Essa ponte que somos entre um sonho e outro.

Entre um corpo e outro.

Entre uma morte e um nascimento.

Maria foi dormir na casa de Ignez.

Me fez um carinho e me disse:

Papai, estou com piolhos outra vez.

Rego Assucena esperando a flor.

Não há ainda arco-íris no céu, não é seu tempo ainda.

Suo. Tremo. Balanço.

Bruno me fala do amor divino.

Adriano me canta o amor divino.

Os gatos traquinam pela casa.

A dor me leva à exaustão, uma vida inteira andando descalço pela fronteira.

Hermenegildo se despede, passarinho que é, avoa.

Hermenegildo se despede, peixinho que é, nada.

Assucena dorme. Maria se faz estrela e brilha.

A dor no meu ombro se espalha pelo meu tendão.

A guerra de Tempo se alastra pelo meu agora.

Sentado à Pedra espero.

As portas do Monastério das Flores Selvagens permanecem fechadas.


nuno g.

Toróró, 11 de janeiro de 2024.

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