segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Quando tudo era mato
quando tudo era mato
só havia Caminho e Mistério
ainda a Morte
era Caminho era Mistério
quando tudo era mato
e ainda não havia nenhum labirinto
também o Terror
era Caminho e Mistério
quando tudo era mato
nasceu Dan – e com ela todas as cores
quando tudo era mato
tudo era Caminho era Mistério
até que Dan acendeu no coração das águas o fogo
entre o Terror e a Morte
entre o Tempo das coisas que ainda não chegaram
e o Tempo das coisas que não terminaram de dissolver
tudo era mato – Caminho e Mistério
o Terror era o Temor que nos albergava do labirinto da história
a Morte era quem nos acarinhava
e o Nada seguia sendo desconhecido
nossas mãos eram mais singelas
e delas emanava mais amor mais alegria
quando tudo era mato
as escamas do céu
também eram Caminho e Mistério
imenso escudo Azul e Amarelo
nos guardando do labirinto das feras
Dan, enrolada na árvore chamada Tempo
regressava assim aos confins do íntimo
ao Tempo onde tudo era mato
e o Nada não havia ainda
quando tudo era mato
o Povo da Palha se deixava ver
e sua voz se ouvia
quando tudo era mato
as plumas de Dan
reinavam sobre a memória do labirinto
as plumas de cores
entre o fogo e as águas
entre o mato e o mato
entre o Amarelo do ouro e o Azul
entre o Amarelo do mel e o Azul
entre o escudo e os olhos
entre os nossos pequenos sonhos noturnos
e o grande Sonho desse pássaro chamado Noite
que dorme na árvore de Tempo
junto a Dan, a serpente que traz todas as cores
quando tudo volta a ser mato
e ante a inexistência do Nada
tudo volta a ser o que era – Caminho e Mistério:
as escamas coloridas no céu
nos protegem uma vez mais do Terror da história
e do labirinto absurdo onde reina o Nada.
nuno g.
16 de janeiro de 2022.
domingo, 16 de janeiro de 2022
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
Vamos gritar Piedade !, por Gaeth Castanheiro
Ao verso feito do avesso
Não há preço só há pressa
Só a presa se apressa em fugir
E esse verso feito ferro
Não o ferro de ferir
Mas o ferro de forjar
O ir e vir sempre indo
Sempre lindo
Sempre vindo como quem vai
E esse verso dentro do nosso avesso
Deixa aceso o fogo
Da poesia água
Que lavanda nossa eterna praça
Piedade poesia piedade.
Margareth Castanheiro
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
Ciranda
mas o mundo não está para lágrimas
meu coração-criança grita
mas o tempo não está para gritos
tem muita gente morando nas ruas
tem muito silêncio nadando no rio
mataram meu pai tantas vezes
que já pouco importa
meu coração-criança se devora
mas o tempo e o mundo não estão para isso
peço perdão a deus e agradeço
pelo que não fiz
por não ter invertido o sentido dos versos de São Francisco
meu coração-criança abre janelas e portas
deixa entrar a brisa da madrugada
e o som dos grilos que rezam lá fora
meu coração-criança cansou
mas o mundo e o tempo não estão para cansaços
agradeço a deus e suplico perdão
pelo que não fiz
por não ter invertido os versos de São Francisco
mataram meu pai tantas vezes
que já pouco importa
tem muita fome passeando às ruas
tem muita sede dormindo às praças
meu coração-criança corre
atravessa os jardins da Senhora
mergulha nas espinhas oceânicas
em busca de uma nuvem
para fazer de montaria
meu coração-criança brinca de ser coral entre nenúfares
mas o tempo não está para brincadeiras
e o mundo é mais cortante e perigoso que qualquer coral
meu coração-criança dança
atravessa os labirintos da floresta
seguindo o serpentear da cobra coral
em busca de uma nuvem
para fazer de montaria
meu coração-criança não dorme
tem muita miséria nas cidades
tem muita matéria na memória
tem muita cegueira e densidade
meu coração-criança desperta
fora do mundo, longe do tempo
escala árvores como se fosse um gato
e como um gato escapa na imensidão do firmamento
mataram meu pai tantas vezes
que quase me convenceram que isso nada importa
meu coração-criança não esquece
grita chora e se devora
mas o tempo não está para gritos
nem o mundo está para lágrimas
meu coração-criança se alegra
de não ter invertido os versos de São Francisco
corre brinca dança celebra
ainda sabendo que o tempo não está para isso
meu coração-criança adormece
escala árvores como se fosse uma onça
e, onça que é, desaparece na imensidão Azul do firmamento.
nuno g.
Toróró, 02 de janeiro de 2022.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
Navios do deserto
espalhei os bombons sobre sua cova
e ele sorriu: discreto arco-íris que se
desfez antes do pôr-do-sol
e da BR-101 vimos as águas ligeiras
despencando das alturas e erguendo
uma nuvem carregada de navios que
como os navios do deserto
flutuavam e flutuavam entre gotas
de águas e gotas
de areias entre a
solidão e o absurdo
entre cavalos, pedras e
desbotadas primaveras
as formigas, as flores, o ventre
do campo santo de espumas e mel
o discreto arco-íris-sorriso
dissolvendo em timidez antes
do beijo sabendo a sexo e oração
a chama pegou e o carro abandonou a estrada de terra
já no asfalto
uma lágrima tocou o tímpano
esquerdo, antes do pôr-do-sol
entre notícias de desabrigados
e promessas de ano-novo
espalhadas como bombons em covas de anjos
ou como navios de guerra
estrategicamente semeados
na oceânica aridez do deserto
nuno g.
Toróró, 27/12/21.
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
A terceira vela
Em tua cama de areia e pedra descansa, menino
E ainda assim, soterrado antes, hás de sonhar
Entre a torrente incessante de sonhos que é tua única
realidade
Sempre retornará a imagem daquele efêmero instante
Em que nos meus braços teus olhos fechados
E teus cabelos encaracolados
Em tua cama de pedra e areia descansa, menino
Para nós, os nascidos, tudo se resume a efêmeros instantes
Ao contrário, para ti, natimorto
Nada é efêmero e só existe a estrada da eternidade
Descansa menino, descansa
Sob o fio de luz desta vela que te acendo,
Descansa,
E com tuas mãos morenas vais abrindo o caminho
Por onde passam as serpentes emplumadas
E a legião dos cegos missionários da floresta
Em tua cama azul e amarela, descansa meu menino
Descansa como descansarias na rede que te teceu a aranha
rendeira
Descansa e escuta minha prece, menino
Entre a torrente incessante de teus sonhos
Sentirás o perfume destes incensos que te acendo
Ian, anjo entre anjos,
Luz, firmeza e a consciência profunda dos que se recusam a
abandonar a eternidade.
Nuno g.
Toróró, 14 de dezembro de 2021.
sábado, 11 de dezembro de 2021
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
gira de Mateus
para Claudio Reis,
todas as Marias são palestinas
Eles chegaram e bailaram a noite inteira
entre as nuvens e o cume da chapada
entre as árvores de Tempo
e as águas do amanhecer
todos os soldadinhos do Araripe são palestinos
Eles bailaram a noite inteira
entre meus sonhos trôpegos e o Sonho límpido da terra
entre o tempo das árvores
e as águas do entardecer
todos os espíritos são palestinos
inclusive os que nos estendem a mão
quando os rumores nos ameaçam
Eles sabiam que ali estavam guardados
e sob o escudo Azul ergueram a ciranda-matriz
colunas de salamandras e batalhões de encantados
ao som de pífanos e zabumbas
Eles também se sabiam palestinos
e desconheciam qualquer hesitação.
Eles dançaram a noite toda
entre as estrelas e as estrelas da madrugada
Eles eram muitos e tinham nomes sagrados:
Cachoeira, Mosquito, Império.
Margaridas de couro cravejadas no peito
e os três caminhos selados nas palmas do espelho.
Eles eram palestinos e herdeiros
e nunca nos deixaram esquecer
que até o mais agônico cortejo
é regido por uma austera e faiscante alegria.
Eles bailaram a noite toda
e como os Magos Reis da antiguidade
foram guiados por Vênus e Andrômeda
até o terreiro sagrado de Mestre Aldenir
xilogravado na lira esmerada de Walderêdo Gonçalves.
guiados pela lua
abriram os três caminhos:
fertilidade, delicadeza, alegria:
e a memória das coisas que nunca se devem esquecer.
Toróró, 07 de dezembro de 2021.
nuno g.
terça-feira, 30 de novembro de 2021
Morte (hora do delírio), por Junqueira Freire
Pensamento gentil de paz eterna
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.
Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
do prazer que nos custa a dor passada.
Pensamento gentil de paz eterna
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.
Nunca temi tua destra,
Não vou o vulgo profano;
Nunca pensei que teu braço
Brande um punhal sobre-humano.
Nunca julguei-te em meus sonhos
Um esqueleto mirrado;
Nunca dei-te, pra voares,
Terrível ginete alado.
Nunca te dei uma foice
Dura, fina e recurvada;
Nunca chamei-te inimiga,
Ímpia, cruel, ou culpada.
Amei-te sempre: — pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra, - esse elemento
Que não se sente dos vaivéns da sorte.
Para tua hecatombe de um segundo
Não falta alguém? — Preencha-a comigo:
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.
Miríadas de vermes lá me esperam
Para nascer de meu fermento ainda,
Para nutrir-se de meu suco impuro,
Talvez me espera uma plantinha linda.
Vermes que sobre podridões refervem,
Plantinha que a raiz meus ossos fera,
Em vós minha alma e sentimento e corpo
Irão em partes agregar-se à terra.
E depois nada mais. Já não há tempo,
nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada — esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.
Facho que a morte ao lumiar apaga,
Foi essa alma fatal que nos aterra.
Consciência, razão, que nos afligem,
Deram em nada ao baquear em terra.
Única ideia mais real dos homens,
Morte feliz — eu quero-te comigo,
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.
Também desta vida à campa
Não transporto uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.
E como um autômato infante
Que ainda não sabe mentir,
Ao pé da morte querida
Hei de insentato sorrir.
Por minha face sinistra
Meu pranto não correrá.
Em meus olhos moribundos
Terrores ninguém lerá.
Não achei na terra amores
Que merecessem os meus.
Não tenho um ente no mundo
A quem diga o meu - adeus.
Não posso da vida à campa
Transportar uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.
Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:
Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.
Junqueira Freire
terça-feira, 23 de novembro de 2021
Os pássaros
os pássaros se foram – cruzando os céus.
deixando vazio o ninho,
onde antes as mil crianças
agora as brumas de amor e esperança
servindo de escudo, guardando o mistério profundo da pele.
os pássaros se foram – seus cânticos se ouvem ao telefone,
e apenas aterrissaram ao sul
pousou aqui o dedo em riste da terra
ofendida em seu pântano e degredo.
os pássaros se foram e o silêncio foi colorindo a casa,
a memória das chuvas do próximo março
e o grito de ódio empáfia arrogância e ameaça.
no lugar dos pássaros que partiram
a certeza de que regressarão em tempo mais breve
que qualquer ausência possa matar.
nuno g.
Toróró, 23 de novembro de 2021.
quinta-feira, 18 de novembro de 2021
O jogo, por Patrícia Gonçalves Tenório
Ao começo
Ao mesmo
Ponto
Do Big Bang
À mesma
Luta
Comigo
E a vida
Tão desmesuradamente
Bela
E dura
E minha
E sim
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
15 de novembro.
E chove muito.
Chove como se chovesse sobre todo meu passado.
E ouço o som de cada gota sobre este telhado.
E olho esta casa que os deuses me deram.
E ouço cada som da chuva banhando este lugar.
E penso em todas as vezes que me pensei um corpo atado.
Um corpo interditado.
Um corpo sem vereda e sem atalho.
Minha pressa se desfaz e o rio segue sangrando.
Como um coelho degolado por um cão assustado.
Ou como um arbusto decepado pela fúria de um facão.
Aqui chove.
E o gosto de suas coxas não sai da minha boca.
Sou só saliva e barro.
E meus joelhos são penitência e oração.
A república ruiu - e com ela todas as fantasias eróticas da política.
Nenhuma semiótica no quintal.
Só a chuva.
Esta casa.
E a brasa do cigarro recordando uma antiga combustão.
nuno g.
terça-feira, 9 de novembro de 2021
Caminhos de sal
Aracati / Quixeré / Feiticeiro
Sete flechas em meu corpo-encruzilhada
Se afogando na quentura de um sol radiante
Que não para de sangrar
A senhora de todas as ciganas tangeu os eguns que bailavam ao meu lado
Treme a terra / Geme o mar
Todos os santos / Todos os mortos
E como os bois de antanho subiram o leito do rio ao som do aboio
Sem esperança de chegar a algum lugar
Existe um panteão esquecido pedindo passagem
Aracati / Quixeré / Feiticeiro
Sete flechas em meu corpo-encruzilhada
Subindo o leito esturricado do rio em direção à vila do Icó
O corpo de tua mãe se redobrando pra dentro
Só tu se reconhecendo nestes retorcimentos tão íntimos
E não foi ela que com suas mãos alimentou a fome dessa cidade?
E não foi ela que carregou dentro nosso rio de sangue?
Hilda lavou os búzios lambuzados de mel
E abriu os caminhos do entendimento do escuro
Ainda sob a proteção do Amarelo e do Azul
Quando ela dança no arco-íris eu morro
E essa violência perpétua dos nomes me abrasando antes de qualquer chuva
Okê Arô -- sim, caçador, só temos uma flecha
Dai-nos firmeza e pontaria para atravessar estes caminhos de sal
Existe uma onça uivando no horizonte de calcário
Dai-nos fé e amor para escutarmos a voz que vem do outro lado.
nuno g.
sábado, 23 de outubro de 2021
Bixopá
o que é o Nada?
Uma porção de água doce no meio do deserto
uma Igreja de pedra
ferindo a solidão da paisagem
mangas, bananas e uma aquarela
conchinhas de unicórnio e som de flauta
arsenal de munição para as réstias da vida
nuno g.
terça-feira, 12 de outubro de 2021
pátio São Pedro
em dois corpos-fêmeas
numa falava português
na outra em desconhecida língua
os eguns desfilavam entre nós
como as contas de um terço de algodão & espinho
(à felicidade não restava nenhuma importância)
o preto-velho nos chamou
e nos serviu cachaça com tira-gosto
as luzes apagadas
o silêncio das alfaias
e o desespero de não chegar ao mar e lavar teus pés
nuno g.
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
as flechas do Quixeré
deixaram feridas que só sua saliva cicatriza
e um sangue, talhado e doce
granulado como um pariká selvagem
a primeira, me lembrou seu olhar
e quando me disseram que o meu era o mais triste do mundo
a segunda, suas coxas
e quando elas desapareceram para sempre
a terceira, sua mão na minha
buscando água salgada pra criança brincar e subir
segunda-feira, 4 de outubro de 2021
O coveiro.
para Gabriela Gonçalves,
A poesia
reescreve o trauma
na órbita do corpo
As velas
reacendem o trauma
na órbita do túmulo
A cidade tenta apagar o inapagável
A família tenta esquecer o inesquecível
O vento é um caboclo
E seu hino é feito de sílabas de areia
A calçada
reinstala o território inabitável:
Amanhã é o único nome para descrever o passado.
nuno g.
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
A cigana de Araci
para Claudio Reis,
foi Ela
com suas vestes coloridas
e seu punhal de renda
que abriu o horizonte de águas
e trouxe o sol
em Jardim
também foi Ela
com suas vestes coloridas
e seu punhal de renda
que abriu o horizonte de fogo
e trouxe as águas
que lavam setembro
e floram os cajus
Ela
a cigana de Araci
com a morte nos olhos
e flocos de neve nas mãos.
nuno g.
quinta-feira, 2 de setembro de 2021
Recife, 1977.
para meu pai
para minha filha
São muitas pontes
Alguma deve ligar
Meus sonhos
Aos sonhos dos mortos
São muitos rios
Algum deve ligar
Meus sonhos
Aos sonhos dos vivos
Cidade-mangue
Marco-zero
Em cada semáforo reconheço
Um estilhaço de uma vida que poderia ter sido
Anoitece.
Amanhã o passado amanhecerá ainda mais vivo.
E não haverá pedra que o mate.
E não haverá futuro que já não tenha acontecido.
nuno g.
Recife, 03 de setembro de 2021.
sábado, 14 de agosto de 2021
constelação das águas turvas, por Demetrios Galvão
nos absorvemos no desejo inebriado
– trânsito nas costas-alamedas dentro da flecha de Eros –
nos perdemos no cinema, na angústia dos outros
acordamos enjoados, tontos
ou não dormimos
pensamos em quem descansa dentro da ventania
olhando o sol dissipar as águas turvas da madrugada
do outro lado da cidade antiga
nossos delírios se acomodam
entre o ronronado dos gatos e canto dos galos
por vezes nos encontramos em tempos furtivos
na varanda fugaz dos nossos peitos
– meteoros volúveis se cruzam no
parque de diversões de nossas bocas.
Demetrios Galvão (Teresina/PI), poeta, coeditor na revista Acrobata e professor.
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
Certidão
para meu pai.
para o professor
Paulo Emílio.
No fundo falso da mala a certidão de nascimento.
Foi assim que conheceu Fleury.
Foi assim que conheceu Ustra.
Foi assim que aprendeu que sob tortura toda carne se trai.
Sobreviveu.
E dedicou o resto dos anos de sua vida à arte de ensinar
história da arte:
caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.
A certidão de nascimento era o único portigo por onde espiava
o mundo.
O resto era clandestinidade e sonhos.
Envelheceu.
E dedicou sua velhice à construção de um museu na serra da
Meruoca.
O fascismo voltou.
Fleury e Ustra foram promovidos a marechais de guerra.
A carne se arrepiou ao pressentimento da violência.
Todos aqui estão mortos, sem exceção.
Vasculho o armário.
Busco papéis e carimbos.
Ouço minha primeira vó, morta, chorando.
Ouço minha segunda vó, morta, me interrogando.
Ouço os estampidos da arma de fogo.
E olho nos olhos dos homens que mataram meu pai:
eles sabiam que ele era meu pai.
Encontro a segunda certidão de nascimento.
Sinto o amor sem mácula de meu avô.
A original se perdeu para sempre.
Caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.
Os sobrenomes são os mesmos:
ainda quando reduzidos às cinzas.
No fundo do armário nenhuma certidão de nascimento
nenhum portigo para espiar o mundo
Só a clandestinidade, os sonhos e a traição da carne ante a
intuição da violência.
Nada de papéis. Nada de carimbos.
Só o sorriso de uma criança asseando o corpo do pai com
folhas de urtiga.
Nada de choro. Nada de interrogatórios.
Só a alegria de uma criança velando o corpo do pai.
O fascismo sobreviveu.
Dediquei minha vida à arte:
caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.
Envelheci.
Quem sabe um dia suba a serra da Meruoca e enterre
no fundo falso do museu este poema.
Nuno g.
Toróró, 8 de agosto de 2021.
quinta-feira, 5 de agosto de 2021
demolição
soube que o prédio desabou
como tudo mais em nosso tempo
como os olhos do mar
como as máscaras das instituições burguesas
como os céus que os pajés sustentaram por séculos
soube que o prédio desabou
e passei toda a semana ouvindo os passos do velho
e passei sete noites sonhando com os gestos do velho
e passei a terceira tarde inteira buscando a chave entre os
escombros
soube que o prédio desabou
acendi uma grande fogueira no terreiro
e devagarzinho fui queimando memórias sem serventia
nuno g.
terça-feira, 20 de julho de 2021
Aboio
Para Antonio Cornejo Polar
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Meia-lua, sol de boiadeiro,
Redemoinho e azul,
O sol, dourado, se esparramando no pasto,
A montanha, ferida
e os três chicotes no
interior vazio do cálice.
domingo, 18 de julho de 2021
Dicionário
Minha alma correu grandes perigos ontem à noite.
O cavaleiro Azul me estendeu a mão e me salvou.
Voltei onde nunca tinha estado.
E vi coisas que não deveria ter visto.
E, por isso, jamais as poderia esquecer.
Minha alma atravessou grandes perigos ontem à noite.
O cavaleiro Azul me ergueu do chão e fez brotar raízes dos
meus pés.
Voltei. Agradeci. Não esqueço.
Abri as asas e regressei para onde sempre estive.
O cavaleiro Azul sorriu.
E minha alma girou sobre o chão do terreiro.
Vulcões, terremotos, tempestades.
Minha alma pediu socorro e o cavaleiro Azul veio.
Com sua lança prateada e sua legião de crianças e cavalos.
As coisas que vi não sei narrar.
As palavras me escorrem como o sangue do galo sacrificado.
Vulcões, terremotos, tempestades.
E o cavaleiro Azul desencantado.
Minha alma caminhou até a fonte de águas doces.
Saciou sua sede e seguiu sua fiel jornada.
nuno g.
Toróró, 18 de julho de 2021
sexta-feira, 16 de julho de 2021
A farofa, o dendê, os pífanos
Dentes trincados, velas acesas.
Corpo de luz, Leminski à vitrine.
Esboço de amarelo mofado.
Algodão aos pés da tropa.
Ouro em pó e distância.
Velas acesas, dentes trincados.
Amanhecer de.
Esboço de carne e pássaros.
Terra devastada e.
Corpo de luz, vitrine devassada.
Em vão, ou quase.
Como se o som da noite fosse o vento de UAKTI.
Atravessando meu corpo de pífano desregrado.
A lua no céu, sorriso do gato.
Esboço do Nada.
Ponto riscado, azul de ilha.
Esboço, arco e.
Ciranda. A gira. E o lastro.
Removo a argila.
Cavalo castanho na beira da praia.
Ele chega. Me sagra.
E a gira segue nas pancadas do mar.
nuno g.
Toróró, 16 de julho de 2021.
segunda-feira, 12 de julho de 2021
O cálice e os três chicotes
A lei. A lei. A lei.
O galo e o enforcado.
E o meu sonho de sempre sobre o meu rosto antes do
nascimento.
Refletido na água.
Cravejado com espinhos de ferro & aço.
Brilhando na noite da mata.
Em meio às estrelas e aos dentes de minha mãe.
A lei. A lei. A lei.
A primavera se abrindo com o sangue do galo.
Gotejando na carta do enforcado.
A lei. A lei. A lei.
E o meu rosto de sonho sempre antes do nascimento.
Cavalgando Eleguá, o cavalo de pedra.
E sua crina lambuzada de mel.
Entre os seios e as coxas de minha mãe.
Como se na carne uma fenda aberta à outra carne.
E no coração do mistério um abismo a outro abismo.
Gotejando nos caules de milefólio.
A lei. A lei. A lei.
O galo, o sonho, o enforcado.
Sempre.
O Azul caminhando ao meu lado.
Com sua espada de metal e a serpente.
Um olho tatuado dentro do olho.
Como a noite e o rastro das asas.
O inverno, a seca, o rio que morre e renasce.
Fogo-fátuo ante o palácio dos eguns.
Meu dicionário, meus medos interditados.
A lei. A lei. A lei.
A testa toca o chão ao som do atabaque.
Meu rosto é o mesmo de sempre.
Meu rosto antecede meu nascimento.
O sangue do galo pinga sobre o metal da espada.
A lei. A lei. A lei.
Dentro do cálice os três chicotes trabalham.
A forja Dele. A crina de mel. O silêncio do outono.
A memória do curry e do shoyu, a fonte.
Todos os quintais vão se abrindo.
Escadas e jardins e escadas e jardins e.
Não há mais esperanças:
A vida pode finalmente florescer em paz.
nuno g.
Toróró, 12 de julho de 2021
sexta-feira, 2 de julho de 2021
CARTA DA VOLTA, Revista Pindaíba
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos
que deres,
Nesse caminho
duro
Do futuro
Dá-os em
liberdade.
Enquanto não
alcances
Não descanses.
De nenhum
fruto queiras só metade.
E, nunca
saciado,
Vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a
sonhar e vendo
O logro da
aventura.
És homem, não
te esqueças!
Só é tua a
loucura
Onde, com
lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Saudações pindaibísticas!
Comparsas, a esfera voltou a girar!
Em 2021 a revista Pindaíba completa 18
anos. Quatro edições publicadas e uma quinta prestes a ir ao prelo.
Há cinco anos lançamos a quarta edição
e concluímos que já bastava. A Pindaíba deveria morrer pois fazia parte de um
tempo que deixou de ser. Observamos as mudanças profundas que estavam
acontecendo no mundo e também ao nosso redor, no nosso reduzido universo das
relações próximas e pessoais... O velho Benfica dos anos 90 e começo dos anos
2000 (quando começamos) com seus bares de esquina e butiquins; o Brasil da era
Lula e PT; a América Latina com seus governos nacionalistas e populares não
mais existiam. Tudo se desfazia no ar e um novo mundo, com perspectivas
sombrias, se manisfestava. Portanto, entendíamos que a quinta edição seria a
derradeira. Se ainda teimássemos em fazer revista deveria ser uma outra, com
novas características, que refletisse os “novos tempos”...
Embalados pela ideia da Morte da
Pindaíba, logo organizamos a nova e última edição. Nos reunimos na Praça João
Gentil, decidimos sobre o caráter da coletânea de contos e poemas, deliberamos
sobre as matérias, recebemos os textos, criamos o projeto gráfico e fizemos a
diagramação. A ideia era lançar ainda no ano de 2017. No entanto, como não
poderia deixar de ser, a vida surpeendeu: nesse ano perdemos um comparsa muito
querido, pindaibeiro mor, pelo seu modo de ser e encarar a existência; Carlos
Jorge encarnava, como ninguém, o espírito contestador da Pindaíba. Para além,
CJ representava esse velho Benfica onde
costumávamos nos perder noites afora, esse Benfica que havia passado. Ao meu
ver, CJ é o símbolo maior, pelo menos
para nós pindaibeiros, dessa era de sonhos etílicos, de brisa e madrugadas
marginais.
A partida inesperada de nosso amigo
causou um refluxo. Os encontros na praça pararam de acontecer, a produção da
quinta edição passou a operar em modo “banho-maria”, a esfera parou de girar...
Essa paralisia perdurou até o fim de 2019, quando ventos de entusiasmo
voltoaram a embaralhar nossas cabeleiras. Reavaliamos a ideia de matar a
revista e a desconsideramos totalmente. PINDAÍBA VIVE! passou a ser nosso lema,
o oposto. Avaliávamos agora que a morte já havia levado seu tributo; já
tínhamos perdido o CJ. A Pindaíba não cederia mais nada à senhora contratante
de Caronte, pelo menos não agora. Essa retomada merecia uma celebração.
Organizamos uma confraternização de fim de ano na saudosa casa do Manoel, no
Benfica, com a convicção de que no primeiro semestre de 2020 a revistinha seria
lançada. Ledo engano. Mais uma vez a vida veio e nos deu uma rasteira.
Iniciava-se naquele ano a Pandemia do Corona Vírus, acentuada aqui no país
pela nefasta polítca do flagelo Bozonazi
e as serpentes golpistas. Tivemos que estacionar a esfera mais uma vez. Algo
muito mais urgente requeria nossa atenção.
Pois bem, após esse histórico, me
permitam afirmar que uma nova oportunidade se apresenta. O povo tá ocupando as ruas novamente, dessa
vez para protestar. Na verdade a maioria dos brasileiros nunca pôde deixar as
ruas. O isolamento social, segundo estatísticas, só alcançou 27% da população. A massa de trabalhadores
continuou obrigada a dividir ônibus e metrôs lotados, assim como as linhas de
montagem das grandes indústrias e comércios. Devemos aproveitar essa onda de
protestos para se juntar às manifestações e também, com a vontade renovada,
trazer a Pindaíba à luz.
A revista está pronta, terá 140
páginas. Além da coletânea COLÍRIOS E DELÍRIOS de poemas e contos, reunindo 34
autores, essa edição traz: 4HQs; entrevista com o grupo cearense de teatro
Pícaros; entrevista com Jonnata Doll;
matéria sobre o poeta cratense Geraldo Urano; matéria sobre a cena marginal da
literautura de Natal/RN; matéria sobre a literatura independente de Teresina/PI
e a tradicional seção TÔ PUTO! (os “tô puto” serão acrescidos após uma campanha
de divulgação).
Muito é preciso fazer. Vamos começar a
etapa de divulgação e campanha financeira. É necessário o engajamento de todos,
pois só é possível a publicação com o empenho coletivo dos pindaibeiros.
Vamos novamente nos reunir na Praça João Gentil no sábado 17/06. Todos
com máscaras e mantendo o distanciamento
proporcionado pelo espaço livre da praça. Na ocasião apresentaremos o boneco
impresso para que os autores possam verificar a revisão; informaremos os
valores da gráfica; discutiremos as atividades de divulgação e de venda e a
participação da revista nas manifestações. Quando mais próximo, informaremos
horário e a pauta de discussão mais específica. Os pindaibeiros que não puderem
comparecer ou que ainda não se sentem seguros em participar de atividades desse
porte, podem requerer encontros pessoais
na semana seguinte para esclarecimentos e ficar a par dos informes e
encaminhamentos.
Sem mais no momento,
Abraços e Vida Longa à Revista
Pindaíba!!!
André Dias
Fortaleza/CE.
29 de junho de 2021
quarta-feira, 30 de junho de 2021
quando os teus olhos O reconheceram
outra vez em fuga o cavalo:
em busca de seu dono e sob o batismo de teus olhos
outra vez sua crina banhada em mel:
em busca de seu destino de metal e mais-metal
como se a cada passo no pasto
abrisse nuvens e túneis
que O tornavam mais reconhecível aos olhos que selaram seu
nome.
nuno g.
terça-feira, 29 de junho de 2021
T r a n s o m á t i c a, por Margarida Vale de Gato
De que carne cá dentro vem
aquilo que em mim tenta e pode
escrever o que estou lendo
de outrem?
Não propriamente posse —
antes uma disposição
que internamente se impõe:
o corpo inteiramente votado
ao trânsito dum longo transe.
Não sei de que mais me envolva
tantas horas – nem dos distúrbios
do amor e respetivo sexo.
Cúpida presa mira longe texto.
Correntes desenrolam-me outra
coisa que não seca, conquanto
subam e desçam, carrossel
esconso, áspero silvado
ora escarpa, ora dossel
fluvial, Ó quanta líbido
discípulos da vertigem (à
falta de mais certeiro nome —
sanguíneo pneuma?) pode
trasladar a carne o canhão
para a fome espiritual?
Margarida Vale de Gato
quarta-feira, 9 de junho de 2021
sedimentação / destilação / fermentação (procedimentos poéticos)
o que você chama de paz eu chamo terror / e sim, há sangue correndo entre essas águas do Jaguaribe / a minha insônia traz nome, não O revelo / meu fastio, minha insolência, meu despertencimento / só O que não se reconhece ao espelho interessa / essa fábrica de narcisos engrossando fileiras de algoritmos desenfreados / tenho a madrugada, a neblina e o meu coração cheio de covas abertas e gotas de / o gato mia / o gato foge / o gato se encurrala em seu próprio labirinto como um fauno / como um asno / como um avestruz de penas ruivas / as fezes sobre os sonhos e os dias de adoração ao Senhor / quaresma / quaresma / quaresma / e a nova penitência / como num filme antigo / preto-e-branco / como o manto sagrado do Ceará / o que você chama terror eu chamo paz / e sim, tarda em arder a sarça / a minha revelação traz nome: insônia / tenho a madrugada / a neblina / e esse leve rumor de asas que não me deixa esquecer que atrás da imagem refletida na água evapora tudo o que é sagrado.
nuno g.
domingo, 6 de junho de 2021
Sobre o Cisne de Stéphane Mallarmé, por Eduardo Guimaraens
Um Sonho existe em nós como um cisne num lago
de água profunda e clara e em cujo fundo existe
outro cisne alvo e triste, e ainda mais alvo e triste
que a sua forma real de um tom dolente e vago.
Nada: e os gestos que tem, de carícia e de afago,
lembram da imagem tênue, onde a tristeza insiste
por ser mais alva, a graça inversa em que consiste
a dolente mudez de um espelho pressago.
Um cisne existe em nós como um sonho de calma,
plácido, um cisne branco e triste, longo e lasso
e puro, sobre a face oculta de nossa alma.
E a sua imagem lembra a imagem de um destino
de pureza e de amor que segue, passo a passo,
este sonho imortal como um cisne divino!
Eduardo Guimaraens
quarta-feira, 2 de junho de 2021
terça-feira, 18 de maio de 2021
Jaculatória II
Rogo, rezo, imploro.
Aos anjos
Pelo sinal do caminho de regresso
ao corpo em que nasci.
nuno g.