domingo, 29 de março de 2026

Domingo de Ramos

 para seu Rizaldo & dona Norma,


Hermenegildo sorri.

E canta e dança e come.

Hermenegildo que é serpente e também arco-íris.

Ao mesmo tempo.

Como a fenda e o que respira dentro e além da fenda.

Traz a escuridão acesa nas mãos.

E vento que é afasta o que não nos pertence e o que nos afasta do que somos.

Hermenegildo que é cansaço e descanso.

Sombra da sombra de si mesmo refletida nas águas de um rio antigo.

Segue a procissão com seus olhos esculpidos na pureza do ferro.

Hermenegildo que é a mata e todos os seres que habitam a mata sorri.

E canta e dança e come e celebra a vida.

Com a escuridão acesa nas mãos.

E a lucidez das margens de um mundo que despreza as margens.

Se ergue. Canta ao Ferro. Dança com o fogo. E come feijão com as mãos.

Como uma criança de coração velho.

Ou um velho com coração de criança.

Hermenegildo sorri e reza.

À sua maneira. Ao seu modo. 

Como som de flauta que encanta serpentes.

Como rio que sacia a sede das cores.

Hermenegildo está aqui e sorri.

Este vento que sopra e afasta a loucura.

Este vento que diz que a morte não existe.

Este vento que firma árvores estrangeiras no chão do amanhã.

Hermenegildo canta, dança e come.

Hermenegildo sonha o que somos.

Cruza a estrada a cavalo.

E sorri.


nuno g.

Toróró, domingo de ramos, 2026.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Árvore genealógica VII

São exatamente sete e sete da manhã.

Meus olhos abraçam uma canoa que sobe o Paraguassú.

Não há pressa.

Nem em meus olhos.

Nem na canoa.

Meu tataravô sela seu cavalo na Timbaúba e sobe o vale em direção ao Icó.

Meu bisavô limpa a arma empoeirada ante as ameaças do bispo de Limoeiro do Norte.

Meu avô engole mais uma cachaça e tira o gosto com angústia e desespero.

Meu pai abandona a cidade do Recife em busca de raridades de antiquário.

Minha mãe voa na avenida Conde da Boa Vista como um pássaro desnorteado.

Roque caminha para a cidade.

Seus pés tocam suavemente os paralelepípedos.

Para não despertar Assucena.

Uma flor brota no coração da lua.

Minha tataravó incendeia a biblioteca de pirotecnia que herdou de seu marido.

Minha bisavó incendeia a biblioteca maçônica que herdou de seu marido.

Minha avó ampara os passos de meu avô que herdou do luto.

Não há pressa.

Tudo que aconteceu algum dia segue sempre acontecendo.

Alice desce do ônibus e entra na escola.

São exatamente sete e sete da manhã.

Meus olhos abraçam um vento que sobe o Jaguaribe.

Essa hora os pés de Roque já tocam os paralelepípedos da Prisco Paraíso.

Assucena dorme e sonha.

Um beija-flor entra pela janela.

A água do café ferve.

O galo canta.

Há dias em que o passado abre as cortinas com suas mãos de água.

Há dias em que o passado incendeia poeira com suas mãos de fogo.

Há dias em os rios correm ainda mais lentamente.

Meus ancestrais derretem como cera de vela.

E a fumaça do cigarro me abraça como a morte abraça seu amado primogênito.

São exatamente sete e sete da manhã.

Apesar da insistência da luz a fé na escuridão resiste.

Meus ancestrais caminham comigo em direção a lugar nenhum.

O som do ventilador borra o silêncio do amanhecer.

A poesia abraça meus olhos como a morte abraça seu amado primogênito.

Não há pressa.

O dia passará suavemente como os passos de Roque.

Em algum lugar do inferno uma canção à lua é depositada ao chão.

Existem oferendas que são como o esquecimento.

Precisam existir para que a terra siga girando.

O jaguar encantado uiva.

A serpente gira.

Larissa dorme.

E Hermenegildo sorri.


nuno g.

Toróró, 26 de março de 2026. 

domingo, 22 de março de 2026

ausência de luz (fragmento do Livro de Hermenegildo)

      Hermenegildo é a aparição do precário. A certeza do precário. A condenação do precário. A aceitação do precário momento em que ao entender que todas as coisas são mutáveis se enfrenta a consciência com algo que resiste a fluir. Por essa razão tantas vezes Hermenegildo foi associado às areias movediças e, talvez por isso, sua decisão de permanecer parado como uma formação mineral no exato ponto em que o deserto e o mar se encontram. Hermenegildo, apesar de tudo o que foi dito antes, é um vento suave que apenas corre pela terra sem destino certo. Em verdade, Hermenegildo é a força que impulsiona este vento. Quando retirou os dedos da cavidade úmida de Judite percebeu que era sangue o que pensou ser excitação. Os cavalos selvagens trotando sobre o rio. As mariposas de inverno e o calor que não nos permitia esquecer que Hermenegildo seguia nos guiando no inferno. Moscas, pedaços de parafina de velas que não queimaram até o fim e tubos de ensaio cheios de veneno extraídos de serpentes várias. Hermenegildo já não recorda a quantas luas peregrina pelo mundo. Nem quantas vezes ele e Judite copularam e se despediram. Hermenegildo é chamado, pela tribo dos povos de Ar, Senhor de Todos os Fogos. Embora saibam que suas mãos são abundantes águas. Hermenegildo sabe que decifrar pesadelos é tarefa inútil. Hermenegildo ensina sobre o Nada e a esquecida arte de forjar um coração. Tudo é tão precário quando Hermenegildo não está próximo. Tudo é tão difícil de suportar quando sua memória ameaça nos abandonar definitivamente. Olho o rio e o rio me olha como me olharia Hermenegildo se estivesse aqui agora. Hermenegildo está aqui, mas aqui não é agora. Há um descompasso que assola o tempo e o espaço. Hermenegildo sorri ante nosso espanto nada filosófico e desprovido de sincera capacidade de viver a vida. Hermenegildo sabe que nós já não sabemos a língua dos pássaros. Certa feita, tomamos um café e ele me disse de como havia se convencido que o melhor agora era antecipar o fim do mundo. Neste mesmo dia me disse o quanto lhe parecia estúpida a própria ideia de fim do mundo. Ainda com sangue menstrual nas mãos Hermenegildo acariciou os cabelos de Judite e se despediram. Hermenegildo é o silêncio mais terno e violento, essa janela que se abre quando as retinas de nossa consciência alcançam a fixar a precária condição de tudo que existe sobre a terra. Judite...


nuno g.

Toróró, 22 de março de 2026.

terça-feira, 10 de março de 2026

Hermenegildo e a guerra

Hermenegildo é contra todas as guerras, 

    mas é velho o suficiente para reconhecer o inevitável.

Hermenegildo sabe que existem rotas que só se alteram quando ultrapassam-se fronteiras,
 
    são as que devemos abandonar o quanto antes.

Hermenegildo já viveu vários fins de mundos,

    por isso não se assusta quando os sinais se tornam terror em abundância.

Hermenegildo sabe caminhar no escuro,

    como as águas de qualquer rio traz dentro o faro que o guia ao mar.

Hermenegildo se arma e desarma ao sabor das metamorfoses do mundo,

    torna a recordar que poetas são demiurgos e não divindades.

Hermenegildo ensina a observância a Tempo sobre todas as coisas,

    assim seu silêncio vai movendo quem o escuta.

Hermenegildo ecoa ao amanhecer,

    como um fogo que está antes e depois de tudo.

Hermenegildo não cansa de demonstrar, 

    a poesia é uma escuridão acesa na chama de uma vela.


nuno g.
Toróró, 10 de março de 2026.

 


terça-feira, 3 de março de 2026

As âncoras de Tempo

para Gleizer Freitas,

para Larissa Gonçalves,


O passado está ante nossos olhos.

Tudo que aconteceu algum dia segue sempre acontecendo.

Essa flecha que nos fere traz o veneno que nos alimenta.

Quando um poeta, uma criança ou um demente chora,

                                   choram todas as árvores, todas as pedras, todos os rios.


Às terças parece que algo serpenteia com mais vigor dentro do corpo.

Tudo que acontecerá algum dia já aconteceu antes.

Esse veneno que guia a flecha à ferida é o que nos mantêm vivos e em chamas.

Quando uma âncora toca os subterrâneos do céu até o que chamamos Sina se move.


O futuro está atrás de nossos ombros.

Tudo nele é espreita e espera.

A posição dos búzios no Ifá insiste em romper o pacto de silêncio entre o Ser e o Mundo.

Apenas as sílabas alegres poderão dizer o que se sente quando plenamente derrotado.


Não há dia em que as nuvens não orem ao amargo.

Nenhuma bandeira nos protegerá da beleza que respira no sangue e nas lágrimas.

O rio encharca lentamente cada uma das linhas traçadas nas mãos de Hermenegildo.

Enquanto o esperma da serpente ilumina, como fogo fátuo, nossa agonia.


A ternura e o desespero sempre amanhecem antes do nascer do Sol.

A violência do Silêncio é a tênue fronteira entre a realidade e o insuportável. 


nuno g.

Toróró, 03/03/2026.