sábado, 23 de maio de 2026
O velho: a lucidez dos espantalhos
terça-feira, 12 de maio de 2026
flor de Assucena
quinta-feira, 7 de maio de 2026
O balanço (subterrâneos dos céus)
O filho do vento (os nomes e os rios)
Só queria chegar ao rio.
Recordar que o mundo é imenso.
E que a noite é mais longa que a imaginação.
Entretanto havia muitos nomes entre o sonho e as águas.
E à sombra de cada nome outros nomes florescendo.
O filho do vento sentou seu cansaço à pedra.
Olhou-se no espelho do nada e chorou como um passarinho.
Só queria chegar ao rio.
Recordar que as lágrimas são salgadas.
E que as feridas acendem quando se nomeia as coisas.
Só queria chegar ao rio.
Esquecer o esquecimento e se entregar às águas.
Entretanto havia muitos nomes nascendo dentro de outros nomes.
E o filho do vento, cansado e entediado, agarrou-se às próprias asas indefesas.
Enquanto o tempo bonito de chuva rasgava o lajedo da serra.
E aproximava-se das garças do Jaguaribe.
Só queria chegar ao rio.
Sem ter que atravessar os nomes que o separavam das águas.
O filho do vento finalmente havia entendido
que a beleza é triste, furiosa e está sempre prestes a desaparecer...
nuno g.
São Bernardo das Éguas Russas, 07 de maio de 2026.
sábado, 2 de maio de 2026
Sonhos
Sonhei com águas & sangue entre túmulos & velas.
Enquanto via o Amarelo nascer sem susto entre Ibó e Salgueiro.
Ainda não sabíamos que a febre já estava a caminho.
Com seus passos leves e sorrateiros.
O São Francisco ficou para trás.
E o susto suspenso nos olhos antigos do meu amigo permaneceu.
Baião de dois com pequi à mesa.
E a certeza de que Tempo moveu o coração dos rios.
Sonhei com sangue & águas entre velas & túmulos.
E recordei do Amarelo nascendo sem susto em algum lugar entre Salgueiro e Ibó.
Todas as verdades postas à mesa.
Esperando ser testadas ao fio azulado da espada.
Antes de olhar nos olhos habitados pelo medo e pela máscara da meiguice.
Vi minhas mãos tremendo no jardim onde moram Chico e Aspásia.
E já sabendo que tendo pensado uma coisa era outra.
Apenas fiquei parado e imóvel como uma árvore ruminando seus próprios pesadelos.
E cantei mais uma canção à estrada.
Nela cantei também todas as coisas perdidas.
E todo o sagrado contido no que é irrecuperável.
O grito do mundo é silencioso e ainda assim infecciona tímpanos.
Me despedi de mim mesmo no mesmo dia em que estive duas vezes com a morte.
E guardei nas retinas embaçadas seu sorriso irônico ao escutar sobre sua inexistência.
Muitos se afogaram em águas e sangue.
Muitos arderam na chama das velas.
Mas somente Hermenegildo soube narrar o que se passou.
Somente ele soube com antecedência das coisas que estavam por vir.
E o que está por vir é sempre mais arcaico do que as recordações do passado.
O sol se pôs na caatinga.
Foi assim que o Amarelo nasceu.
Entre Icó e Feiticeiro.
O Jaguaribe se movendo no horizonte.
E quando se fez noite sobre a terra já estávamos bem longe de onde nascemos.
Ainda restava muito desconhecido antes do amanhecer.
E a febre e suas máscaras souberam decifrar isso antes de nós.
Hermenegildo, com suas esporas prateadas, sorriu ante o abandono que crescia dentro de nós.
Enquanto raiava no céu a mesma lua que iluminou a iluminação de Gautama.
Entre choro, lamentos e ruminações.
Hermenegildo se coroou Senhor das horas difíceis e Dono das amargas passagens.
nuno g.
São Bernardo das Éguas Russas, 02 de maio de 2026.