quinta-feira, 7 de maio de 2026

O filho do vento (os nomes e os rios)

Só queria chegar ao rio. 

Recordar que o mundo é imenso.

E que a noite é mais longa que a imaginação. 

Entretanto havia muitos nomes entre o sonho e as águas.

E à sombra de cada nome outros nomes florescendo.

O filho do vento sentou seu cansaço à pedra.

Olhou-se no espelho do nada e chorou como um passarinho.

Só queria chegar ao rio.

Recordar que as lágrimas são salgadas.

E que as feridas acendem quando se nomeia as coisas.

Só queria chegar ao rio.

Esquecer o esquecimento e se entregar às águas.

Entretanto havia muitos nomes nascendo dentro de outros nomes.

E o filho do vento, cansado e entediado, agarrou-se às próprias asas indefesas.

Enquanto o tempo bonito de chuva rasgava o lajedo da serra.

E aproximava-se das garças do Jaguaribe.

Só queria chegar ao rio.

Sem ter que atravessar os nomes que o separavam das águas.

O filho do vento finalmente havia entendido 

         que a beleza é triste, furiosa e está sempre prestes a desaparecer...


nuno g.

São Bernardo das Éguas Russas, 07 de maio de 2026.

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