sábado, 23 de maio de 2026

O velho: a lucidez dos espantalhos

para Maria Alice & Maria Assucena,


Hermenegildo tornou a cruzar o rio dos sonhos.

Em sua face, todos os caminhos.

E a vaga recordação dos dias que já passaram.

O vento o seguindo como sempre.

E a frágil voz de um homem na calçada narrando histórias do Riacho de Sangue.

Onde o sol nunca termina de se pôr.

Onde o sol nunca termina de nascer.

Hermenegildo veio cedo.

À hora das galinhas e da neblina.

Seus olhos não escondiam a tristeza e o cansaço.

E seus passos distraídos apenas moviam a terra.

Hermenegildo tornou a se deixar ser visto.

E com ele o sangue, as espadas, os nomes e as flores.

A delicadeza em cada gesto.

E a noite escura e interminável da nossa preciosa condenação.

Hermenegildo foi desaparecendo no horizonte.

De soslaio, a lua à garupa de sua montaria.

Pés descalços e coisas que a dor ensina.

E com ela a morte e o saber que insiste em insinuar que a morte não existe.

Passarinhos, lagartixas e a couraça de um deus que resiste à modernidade.

O Caçador e o Ferreiro e seu adorável e encantador irmão.

Abrindo caminhos no escuro do mundo.

Arrancando espinhos e tratando com unguentos os ferimentos.

Dizendo siga e quando olhar para trás saiba ver ali o amanhã.

A intimidade da distância pode ser tão abrasadora quanto as veredas do sertão.

A frágil chama de uma vela ao chão é mais que suficiente.

E a memória de um sorriso deita raízes tão vigorosas quanto o espanto.

Hermenegildo, sem reverências, fez de sua passagem permissão e benção.

E na clareira do coração semeou a barca que corre sem direção.

O mar é realmente verde.

O mar é feito de sal e solidão.

Os pés de Hermenegildo alguma vez se banharam nessas espumas.

Assim como quando sua carne e seus ossos tomaram forma de jaguar e gavião.

Não há vida fora do Sonho.

Não há morte nem ressurreição onde caminha o peregrino.

Apenas eclipses, ocasos, destinos e desilusões.

Tudo é travessia: salto improvável de um Nada a Outro.

O céu se fez encarnado.

E nossas preces se confundiram com as preces à imensidão.

O anjo vermelho nos legou seus cânticos.

Sua fé inquebrantável e seu destino.

Aos pés do paredão de pedra os pés descalços de Hermenegildo.

Com todas as cicatrizes necessárias.

Hermenegildo amanheceu e anoiteceu uma vez mais.

E esse deus chamado Destino foi se desfazendo de suas sonâmbulas máscaras.

Como um rio se desfaz de suas plumas.

Ou como uma cigana dissolvendo das mãos frias tudo que não seja oráculo, desespero e profecia.


nuno g.
Toróró, 23 de maio de 2026.



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