terça-feira, 3 de março de 2026

As âncoras de Tempo

para Gleizer Freitas,

para Larissa Gonçalves,


O passado está ante nossos olhos.

Tudo que aconteceu algum dia segue sempre acontecendo.

Essa flecha que nos fere traz o veneno que nos alimenta.

Quando um poeta, uma criança ou um demente chora,

                                   choram todas as árvores, todas as pedras, todos os rios.


Às terças parece que algo serpenteia com mais vigor dentro do corpo.

Tudo que acontecerá algum dia já aconteceu antes.

Esse veneno que guia a flecha à ferida é o que nos mantêm vivos e em chamas.

Quando uma âncora toca os subterrâneos do céu até o que chamamos Sina se move.


O futuro está atrás de nossos ombros.

Tudo nele é espreita e espera.

A posição dos búzios no Ifá insiste em romper o pacto de silêncio entre o Ser e o Mundo.

Apenas as sílabas alegres poderão dizer o que se sente quando plenamente derrotado.


Não há dia em que as nuvens não orem ao amargo.

Nenhuma bandeira nos protegerá da beleza que respira no sangue e nas lágrimas.

O rio encharca lentamente cada uma das linhas traçadas nas mãos de Hermenegildo.

Enquanto o esperma da serpente ilumina, como fogo fátuo, nossa agonia.


A ternura e o desespero sempre amanhecem antes do nascer do Sol.

A violência do Silêncio é a tênue fronteira entre a realidade e o insuportável. 


nuno g.

Toróró, 03/03/2026.

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