O que somos não nos ama
Quer apenas morrer ferozmente
Ferreira Gullar
Obrigação se cumpre.
E o ponto final ecoou como ecoa o escuro das noites nubladas.
A Pina desapareceu.
Justamente a mais caseira, a mais carinhosa, a menos arredia.
Essa estrada que se abre dentro dos olhos e que leva ao epicentro do Mundo.
Obrigação se cumpre.
Há quem pense tolices e barbaridades sobre o amor e o inferno.
São os mesmos que temem o Nada e a morte.
Não há vento que não tenha nome.
E não há nome que não guarde um segredo dentro.
Obrigação se cumpre.
E a voz do Velho soou mais velha que as raízes mais velhas da floresta.
Uma flecha riscou o entardecer e iluminou a coroação.
Hermenegildo sorriu olhando de soslaio sua prole.
E a prole da sua prole.
E o passado que se descortinou ante a miséria em que nos encontrávamos.
Obrigação se cumpre.
Talvez tenha sido a voz do rio.
Talvez tenha sido a voz de Tempo.
A única certeza é que a Serpente seguiu seu caminho.
E deixou para trás tudo que não era capaz de germinar.
As mãos do Ferreiro incendeiam o Mundo quando necessário.
Atrás do Arco existe um Sol Esquecido.
Obrigação se cumpre.
Não estava escrito em nenhum lugar.
Era apenas uma suave pulsação se propagando no ar.
A Pina desapareceu como Judite.
E o céu ganhou mais uma estrela para colorir o que os antigos chamavam Destino.
Amanhã talvez volte a chover sobre nossos sonhos.
Herança é algo que nos consome lentamente.
Como as brasas de um fogo que insiste em arder apesar de tudo.
nuno g.
Toróró, 27 de fevereiro de 2026.
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