quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

árvore genealógica

Chegou a quaresma.

As moscas e os sussurros que escorrem dentro.

Como leite, mel ou aqueles silêncios que marcam o ritmo das histórias.

O inferno é mesmo um lugar encantador e adorável.

A delicadeza da trajetória da bala que abateu o corpo de meu pai segue.

E nem por um átimo de segundo esqueço o sinuoso movimento de minha mãe em direção ao chão.

Não esquecer é também uma dádiva preciosa.

Pesadelos dizem mais sobre o que somos que as máscaras pré-fabricadas dos brincantes de carnaval.

A vida no inferno não tem data de vencimento.

E os acarajés de realidade que mastigamos cotidianamente não têm prazo de validade.

Chegou mais uma quaresma.

Melhor época do ano para reler os cantos de Lúcifer e fúria.

Poemas ainda mais necessários numa época em que tudo é psicologia barata e misticismo vulgar.

Fante está aqui ao meu lado e conversa com minha sombra.

Falamos sobre um casal de veganos que trepavam loucamente na casa vizinha.

Os gatos vão e vêm.

As algas marinhas vão e vêm.

O passado vai e vem.

Como a corda de um ioiô ou uma peteca girando no subsolo.

O inferno é mais interessante que qualquer livraria contemporânea.

Abarrotada de livros de autoajuda.

O amolador de punhais também é um bom livro para se ler na quaresma.

Fante sorri. Ele sabe que não há mais nada para nós nesse mundo.

Amar as náuseas sobre todas as coisas.

E trepar como se o mundo fosse explodir amanhã.

No mercado de Breña uma muçulmana segue fazendo suas compras tranquilamente.

Assucena cismou com o livro que tem um pato na capa.  

Esquecer é também uma dádiva preciosa.

Principalmente quando já se honrou o que deve ser honrado.

Quando se abandonou o que deve ser abandonado.

E quando o medo da morte já perdeu todo e qualquer sentido.

Gastamos as horas e todos os produtos de limpeza na casa.

As moscas não desapareceram, afinal, estamos na quaresma.

Mas sua presença nos incomodou muito menos que antes.

E no cemitério de Bom Jesus dos Aflitos alguém acendeu uma vela num túmulo de azulejos azuis.

Suas mãos trêmulas e seu olhar esguio denunciavam que sua intenção era impossível.

Talvez estivesse apenas agradecendo a desaparição de certa atmosfera.

E de toda a possível bondade que lhe impediu de atingir por um instante a felicidade.

Um raio cruzou os céus. Você viu amor?

Não, eu estava com os olhos fixos na estrada que leva ao inferno.

Meu tataravô enfeitiçava os céus com fogos de artíficio.

Meu bisavô espalhava ideias maçônicas e liberais na radiadora do sertão.

Minha mãe voava como pássaros.

Eu escrevo versos contra esse tempo e a morte que o habita.

Respiramos juntos.

E a ave-maria de Luiz Gonzaga soou no rádio.

Mais uma noite de leite, mel e silêncio.

O inferno tem suas delícias.

Na biblioteca dos poemas perdidos não existe distinção entre lembrança e esquecimento.

Tudo são moscas e sussurros.

A quaresma chegou.

Não há máscara que se encaixe no rosto da eternidade.


nuno g.

Toróró, 26 de fevereiro de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário