terça-feira, 22 de setembro de 2026

Hermenegildo

Há um deus que habita o obscuro coração da terra.

Nele não se distingue o que é luz do que é trevas.

Há um deus que habita o insondável coração do mundo.

Onde a lama é roxa e os animais exercitam sua respiração.

Há um deus de nome impronunciável.

Que tece o silêncio e os ruídos da oxidada engrenagem.

Há um deus que não divisa o que é telúrico do que é onírico.

Há um deus que inventa máscaras e as dissolve no mesmo gesto.

Que ao se corromper se glorifica num mesmo instante.

E que cavalga um animal velho feito de pedra.

Há um deus que habita todos os rios.

Que faz do lodo matéria-prima e horizonte.

Há um deus que não se deixa possuir pela miséria.

Que não se curva à ignorância que rege a história.

Que é pura música e abismo e que não paralisa o que lhe olha.

Há um deus que é.

Sem adjetivos nem inicial maiúscula.

Sua pele e seus órgãos são ásperos.

E do seus olhos escapa o que não cabe.

O que sobra.

O que a estupidez de agora não hesita em chamar de resto.


nuno g.

Toróró, 22 de setembro de 2026.

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