Há um deus que habita o obscuro coração da terra.
Nele não se distingue o que é luz do que é trevas.
Há um deus que habita o insondável coração do mundo.
Onde a lama é roxa e os animais exercitam sua respiração.
Há um deus de nome impronunciável.
Que tece o silêncio e os ruídos da oxidada engrenagem.
Há um deus que não divisa o que é telúrico do que é onírico.
Há um deus que inventa máscaras e as dissolve no mesmo gesto.
Que ao se corromper se glorifica num mesmo instante.
E que cavalga um animal velho feito de pedra.
Há um deus que habita todos os rios.
Que faz do lodo matéria-prima e horizonte.
Há um deus que não se deixa possuir pela miséria.
Que não se curva à ignorância que rege a história.
Que é pura música e abismo e que não paralisa o que lhe olha.
Há um deus que é.
Sem adjetivos nem inicial maiúscula.
Sua pele e seus órgãos são ásperos.
E do seus olhos escapa o que não cabe.
O que sobra.
O que a estupidez de agora não hesita em chamar de resto.
nuno g.
Toróró, 22 de setembro de 2026.
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