às vezes é preciso regressar - sem culpas.
o vento moveu as folhas.
e a tarde se esticou no varal.
às vezes é preciso regressar - sem culpas.
o vento moveu as folhas.
e a tarde se esticou no varal.
No quiero
Que mis muertos descansen en paz
Tienen la obligación
De estar presentes
Vivientes en cada flor que me robo
Stella Díaz Varín
uma vez mais entre os que cruzaram a fronteira do rio
seus olhares desfigurados, suas fraturas expostas, seus corpos em escombros
seus sorrisos atados ao laço como animais de estimação
e meus braços remando contra todos os ventos
apenas a memória machucada içada como bandeira de um barco pirata
e o ranger de dentes ecoando no coração da árvore chamada Tempo
uma vez mais entre os que cruzaram todas as fronteiras
imperturbável e sereno ante a tempestade impenetrável
buscando apenas um lugar de repouso e descanso
sem saber como ensinar alguém a amar o que é em si detestável
suas feridas expostas, cicatrizes indesejáveis e a sombra da lua sobre as águas
apenas a memória machucada alçada à condição de sina inevitável
uma vez mais entre os que habitam a casa onírica das centopeias e caracóis
apenas o rio, o vento e o sangue do sol banhando a nudez das estrelas...
nuno g.
Toróró, 24/09/24.
para Maria Alice,
Tínhamos um pé de maxixe e um cavalo chamado Tempestade.
Antes de nós ele havia se chamado Trovão.
Comíamos pirão uma ou duas vezes por semana.
E colhíamos goiabas na varanda.
Tínhamos uma rede alvinegra.
Um lugar onde acendíamos fogueira quase todos os dias.
Uma cadela chamada Paçoca.
E um céu cheio de estrelas pairando sobre nós.
Tínhamos um rio que dormia e acordava ante nossos olhos.
E uma pequena cobra coral de estimação.
Brincávamos com as palhas dos milhos juninos.
Fazendo toda a família do Visconde de Sabugosa.
Uma vez ao ano seu Toróró nos trazia jabuticabas colhidas no terreiro.
E líamos muito. Líamos livros e folhas de plantas.
Estávamos cercados por juremas.
Fomos alguma vez a Cordisburgo.
E a tantos outros lugares que parece que não fizemos outra coisa senão viajar.
Assávamos carne aos fins de semana.
Nos divertíamos no balneário da Pitanga.
Íamos à praia do Montecristo sempre.
E éramos vistos muitas vezes nas Cabaceiras do Paraguaçu.
Depois adotamos João e não pararam mais de nascer cães em nossa casa.
Ganhamos uma gata de nome Judite que sempre recebia visitas de um gato que chamamos Anônimo.
Judite passou três dias debaixo da cama.
Não saia nem para comer.
Até que decidiu ficar e nunca mais voltou para debaixo da cama.
Depois veio a Pina, o Garfield e o Dino.
Seguíamos comendo maxixes e sonhando.
Seguíamos comendo pirão e sonhando.
Até que veio Ian, a cigana e tudo o mais que já sabemos.
Até que veio Larissa, Assucena e todas essas janelas que se abriram.
Ontem teve eclipse.
Eliana cobriu-se por alguns instantes com o véu das sombras.
Fiquei olhando como quem olha um espelho maravilhoso.
E vi novos maxixes nascendo entre as orelhas de Tempestade.
E vi cada uma das mil chuvas viradas que enchiam nossa casa de água.
E vi você caminhando entre pedrinhas amarelas e galáxias desconhecidas.
Uma onça te guiava entre despenhadeiros e montanhas.
Fiquei olhando como quem olha uma caverna.
E vi você ninando Assucena com as histórias do jaguar encantado.
Depois veio a Cristalina, o Come-e-Dorme e o Waldick.
Depois veio o Calabouço, o Álbum de família e o Dicionário.
E pouco antes do sol nascer essa infância foi se encarnando em letras azuis no papel.
nuno g.
Toróró, 18/09/24
em terra de olhos turvos e neblina tóxica a cegueira reina
israelenses cegam libaneses com bipes que explodem
associações de cegos se revoltam contra a lucidez de Saramago
candidatos cegos insistem em convencer pessoas cegas a votar cegamente
o país arde em chamas criminosas e a fumaça nos cega
pastores cegos guiam rebanhos cegos ao inferno
hiperbolicamente antenados com a enfermidade que nos extingue
que em nós se extingue
e que nos impede ver como sair como entramos como sobrevivemos
neste tempo em que escatologia e história se fundem
como o zinco ao zinco
como o sinistro ao sinistro
como a ausência à ausência e à Ausência
em terra de cegos os eclipses passam quase desapercebidos
como nossas sombras ao atravessar a rua
ou como aquela bigorna de esquecimento que já não nos permite recordar
as centenas que ficaram cegas nas protestas chilenas
ou os libaneses de ontem que já começam a ser apenas um esquecimento mais
o que poderá nossa imaginação a partir dessas ruínas?
assim pixado no muro de Cachoeira
ao lado, escrito em tinta que não se vê,
: em terra de...
nuno g.
Toróró, 18/09/24
Atirei mil flechas contra o sol.
O meu ódio é sagrado e reluzente.
Aprendi isso arrastando meus joelhos por léguas e léguas de solo pedregoso.
Derramei mil lágrimas no vazio da taça.
E vi a noite despencar sobre as ilusões humanas.
Servi feijão aos três irmãos.
E adorei o sol, a lua e as estrelas.
Adorei o rio, as onças e as borboletas.
Estendi no varal do horizonte o manto do Obscuro.
Entoei cânticos de sacrifício enquanto pensava em Gary Snyder em sua cabana no além.
Vivo numa época estúpida.
Cercado por ideias estúpidas nascidas de mentes estúpidas.
Devoro a estupidez da atmosfera como Alcides devorava as flores de aniversário.
Atirei mil sóis contra a primavera.
Inferno é uma singela palavra que me habituei a pronunciar com delicadeza.
O amor é sagrado e reluzente.
Como as areias de Tempo que escorrem entre meus dedos e cílios.
Assucena desayuna batata, ovo, cenoura e uvas.
Teresa vê tão longe que não alcanço.
Rude e violenta é essa obstinada tentativa de nos vender a felicidade a qualquer custo.
Alice dorme.
Larissa dorme.
Hermenegildo e o Velho cruzam a estrada de mãos dadas.
A estrada é sagrada e reluzente.
O choro de Assucena é sagrado e reluzente.
O sono de Alice é sagrado e reluzente.
O leite de Larissa é sagrado e reluzente.
O mundo é opaco, a mata é sombria.
O Ferreiro selvagem é iluminado e poderoso.
Roxo é muito mais que uma simples cor.
Toco a lama sagrada e reluzente em busca de fósseis preciosos.
E atiro minha última flecha contra o horizonte.
Em direção às águas, à palha e à voracidade de tudo que nos consome.
nuno g.
Toróró, 15 de agosto de 2024.
O tempo é a melhor testemunha do quanto se vive.
Uma ciranda que roda, circulando mão a mão, na roda do tempo, enquanto se olha o céu.
Penso que vivo pouco e devagar. Olho pouco para trás. Mas é quando olho para o lado que vejo quantas mãos me seguram nessa ciranda.
Porque o tempo não para, e por vezes acelera ou recua, e é onde a ciranda se embaralha, algumas mãos se soltam, a gente tropeça e precisa depois correr, braço estendido, tentando alcançar o perdido.
A ciranda é potente e ciclicamente retorna ao ponto inicial. Suspeito que serve para recuperar o fôlego, sorrir de volta, ajeitar a coluna e... alcançar o perdido.
Nessa ciranda o tempo marca o tom, o compasso, o recomeço e por vezes, o fim. Por mais que nunca estejamos preparados ou desejosos do fim.
Mas rodando com a ciranda certa, mão a mão, com chuva ou sol, amor e um pouco de raiva, a gente chega ao fim, sorrindo.
Rodando cheguei até aqui. E quando olho para lado, ciranda que a vida me deu, vejo que o tempo me foi generoso: mão a mão, os amigos rodam comigo enquanto ainda olhamos o céu.
Ayla Andrade.
https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios?igsh=eHZma2FiYmxuZnRo
roupas estendidas no varal
e ainda essa sensação
de despertencer ao reino onde desperto
nuno g
11/08/24
sonhei com uma fotografia de damário da cruz
meias sujas espalhadas no quintal
e a certeza de que não pertenço ao reino onde desperto
nuno g.
toróró, 10/08/24
para Adélia Prado,
meus joelhos seguem sangrando de tanto chão
em trevas me reconheço e ouço as cem mil vozes que me habitam
relâmpagos e trovoadas me acendem e me estilhaçam
em cem mil vagalumes
estamos mergulhados na história, ou seja, no terror absoluto
atravessamos os tempos em que nossos corpos se fizeram vidro
fomos atravessados pelos tempos em que nossos corpos se fizeram metal
o homem da mão seca ainda acaricia meus cabelos
e sorri quando vejo meu avô quase-pássaro ousar o abandono do abismo
o homem da mão seca ainda me seca as lágrimas
quando recolho o sangue de minha mãe na calçada suja da Conde da Boa Vista
o homem da mão seca ainda tece curativo nos meus joelhos
quando desperto em Belém em meio ao tiroteio que matou meu pai
e penso: eles sabiam que ele era meu pai
meus joelhos seguem sangrando de tanto chão
na mata sombria reacendo minha devoção
e aprendo com o ferreiro a forjar silêncios
cem mil vagalumes me guiam
cem mil vozes me habitam
em cada poema respira uma breve e delicada oração
nuno g.
Toróró, 07 de agosto de 2024.
a vida é uma besta selvagem.
Stella Díaz Varín
Não culpem o mar nem os pés.
Ainda menos as sereias e seus cânticos devocionais.
Não culpem o verde nem o sal.
Ainda menos as espumas brancas e cintilantes.
Não culpem o fogo nem a madeira.
Ainda menos o crepitar dos ossos ou o estalar das vertigens.
Apenas deixem que seus passos os conduzam ao inevitável afogar-se.
nuno g.
Toróró, 04 de agosto de 2024.
Ela nunca esteve entre nós.
Talvez por isso podia falar de Eliana antes da queda.
De suas coxas brancas, seus êxtases e suas manhas.
Carregou o estigma da adoção como quem carrega um daimon de aço.
E o nome da santa indígena saída das águas de um rio.
Ela nunca esteve mesmo entre nós.
Não lhe reservaram convite nem lugar à mesa.
Talvez por isso podia passear com seus cães pela cidade.
O estigma sempre arrastado à coleira.
E pouca razão à ferocidade.
A lei do luto lhe levou à metrópole.
Casou. Enviuvou. Cruzou a fronteira da península.
E desapareceu numa Espanha de touros e esquecimentos.
nuno g.
Toróró, 03 de agosto de 2024.
para Lou Reed & Nico,
O médico cubano me ligou ainda cedo.
Tardei a identificá-lo.
Me disse que tem três filhas.
Que vai vir à uma obrigação de terreiro.
E que muito deseja me rever.
Assucena comeu brócolis com banana.
A vida é um pesadelo com infinitos labirintos dentro.
Anos atrás Alice fez birra grande.
A praça da Sé de Avalon lotada.
Mestre Aldenir e seu reisado.
Se jogou no chão.
Gritou. Chorou. Esperneou.
Em nada parecia a Alice que eu conhecia.
Decidi seguir como se nada.
Cerveja. Dança. Alegria dos Mateus à praça.
No outro dia ela com calma disse:
Pai, sabe por que eu fiz birra ontem?
Nem ideia.
Pra você não esquecer que eu sou criança.
As mãos de Benício juntas às mãos da lua entre as nuvens.
Três onças seguindo Hermenegildo em sua montaria.
A garota do São Judas dormindo quase em paz.
O médico cubano me arrancou do pesadelo.
A vida é um labirinto com infinitos pesadelos dentro.
Voltei a fumar como antes.
O excesso de nicotina provoca um êxtase suave e delicado.
Talvez algum dia eu narre ao médico cubano.
Algo sobre em terreiros florescerem estrelas suicidadas.
nuno g.
Toróró, 14 de julho de 2024.
para Patti Smith,
Voltei a tomar café como antes.
O excesso de amargo provoca o mais adorável dos transes.
Come-e-Dorme morreu.
João morreu.
Carminha morreu.
Construíram um bairro inteiro sobre a lagoa da Catumbela.
Nele, um posto de saúde com a bela vista do que sobrou de águas e carnaúbas e garças.
Assucena ali tomou mais uma vacina.
Fiquei olhando os tapuias dançando sobre as casas.
Os ventos de agosto chegaram.
Vejo cavalos em disparada pelas calçadas do Benfica.
E a dama da noite recordando quando ali tudo era chácaras de fim de semana.
Depois de amanhã Alice chega.
Depois de amanhã é uma medida de tempo semelhante à das cem mil duzentas xícaras de café.
Sonhei com Adélia incendiando o pasto do Liu.
Finalmente tomava coragem.
Arranquei o carro e fui até a rua Ceará em Divinópolis.
Toquei na porta e ela abriu.
Lhe entreguei o Álbum de família e o Dicionário dos medos imaginários.
Ela leu num relampejo.
Olhou nos meus olhos e disparou: reze.
Despertei com o coração aos galopes.
Recordando todas as vezes que desisti de incluir Divinópolis na minha rota.
Temor de não ser digno de me apresentar onde deus fez morada.
Notícias trazidas pelo vento Aracati:
Um enxame de abelhas atacou ferozmente os dois habitantes da calçada de meu bisavô.
Um foi a óbito, outro se recupera no hospital.
Saudades da Dellany, memórias daquela despedida no Bixopá.
As aulas regressam lentamente, como os caracóis que perseguem a palavra.
Só na tragédia a lua realiza seu destino.
Existem histórias que nunca poderei narrar.
À primeira noite em São Bernardo das Éguas Russas sonhei que estava na Lagoa do Mato.
Dentro do verde e salgado mar do litoral leste.
Pari duas luas.
Peço permissão aos deuses para a história deste sonho narrar.
Palavras para descrever as falésias, as jangadas e aquele vazio de quando as ondas recuam.
Chico, em belas fotos com Claudio.
O Dono de Todas as Matas protegendo os dois.
Assucena brincando no parquinho reluzente do bairro Granjeiro.
Tia Neuza insistindo em botar cadeira na calçada.
Nenhum temor à morte.
Nenhum temor às italianas e ferozes abelhas.
Apenas o rio apagando suas últimas memórias.
E uma nova e estranha lucidez apontando no horizonte.
Segunda chega e domingo não.
Às quatro da manhã despertei com o cheiro das palavras de Adélia à chuva.
Come-e-Dorme foi submetido à eutanásia.
João livrou-se da corda para morrer em liberdade.
Larissa costura, costura e costura.
Tece as linhas do leite e da razão no tear onde se gestam estrelas.
Na minha mesa de trabalho repousa O viajante da solidão.
Dedicado de punho à Eliana Gonçalves no ano de 1969:
a Eliana
cordial homenagem
Artur Eduardo Benevides
Insistimos em saber o que fez Larissa chorar.
Não pudemos esquecer nem recordar.
Existe um deus asmático e sonâmbulo que me visita certas sextas-feiras.
Vem sempre acompanhado do meu tio Joãozito.
João Ferreira Lima, de pia.
Carteiro como Charles Bukowski.
Assucena desperta e chora.
Alice me chama e eu vou.
Um dia volto pra narrar a história do sonho das duas luas.
A mãe de umbigo de Assucena à porteira: ô de casa!
Larissa interrompe a tessitura e me chama: vem ver isso!
Desadormeço e avisto a filha do João à porteira.
Em tudo igual ao pai.
Ela olha pra corda abandonada no terreiro.
Pro cantinho vazio onde ele viveu seu destino.
E se vai.
Sem olhar para trás.
Sem saber que nunca mais seremos os mesmos de antes.
nuno g.
Toróró, 12 de julho de 2024.
para André Dias,
Amanheceu chovendo.
Em cada gota d'água uma estrada para o infinito.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Avançando entre os escombros de Gaza e a cegueira da classe média.
Amanheceu chovendo.
Em cada gota d'água uma estrada para o Nada.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Avançando entre montanhas e montanhas de cansaço.
Amanheceu chovendo.
Acender uma vela ou encher o filtro.
Enfiar as mãos no barro como se houvesse algum futuro depois da estupidez.
Tamarindos, acerolas e umbus-cajás.
Amanheceu chovendo.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Alzira olha Tempo.
Hermenegildo cruza as nuvens.
Um pássaro sobrevoa o rio onde a morte se fez esquecimento e náusea passageira.
Amanheceu chovendo.
Ouço os sussurros de Adélia.
Ouço os cânticos de Alcides.
Tudo é feitiço sobre a terra.
Tudo é encantamento e evaporação.
Alzira olha as vestes de Tempo.
Hermenegildo toca a nudez da estrela.
O mundo semeia novas tempestades.
E todos os automóveis verdes dos meus sonhos avançam sobre as flores nascidas na pedra.
nuno g.
Toróró, 11 de maio de 2024.
Assucena comeu uma borboleta,
só conseguimos salvar uma asa:
a miração do monge dissipou o horizonte.
toróró, 10 de maio de 2024.
É que o cemitério de que lhes falo, respondia Pereda, é a cópia fiel da eternidade.
Roberto Bolaño
Estivemos em Cruz das Almas.
Passava das seis e, inevitávelmente, recordei que toda Cruz das Almas foi lugar de reza.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de bebedeira.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de descanso.
Que toda Cruz das Almas é lugar de passagem.
Compramos Kombucha: dez litros.
Incensos, um par de roupas e empadas.
A porta do cemitério estava batida.
Acendi a vela ali mesmo, ao pé do muro branco.
E deixei os doces ao tempo.
Talvez chovesse de madrugada e apagasse a vela.
Talvez chovesse e dificultasse o trabalho das formigas.
Passava das seis.
Regressamos.
Ao ponto zero da experiência.
Mas agora tínhamos uma raquete de matar muriçocas.
Passava da meia-noite quando a chuva chegou.
Sonhei que, finalmente, estava na ilha caribeña.
Nada no sonho recordava a revolução.
E tudo parecia tão perdido quanto todos aqui.
Assucena comeu chuchu, sem convicção.
Come-e-Dorme, em agonia, segue sua guerra pela vida.
Estive em Cruz das Almas.
A vela segue no mesmo lugar.
Os doces também.
Tem sempre uma estrada aguardando nossos mais primitivos abandonos.
nuno g.
Toróró, 10 de maio de 2024.
para Larissa, Alice & Assucena,
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
nada é em vão sob o sol,
essas mãos que pousam sobre o ventre da terra machucada
encharcadas de lama roxa e luz arcaica
são as mesmas mãos que nos guiaram quando andávamos pelas entranhas da terra.
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
onde antes olhos, agora sóis
essas estrelas que nos guiam
são as mesmas estrelas que nos guiaram à sombra da distração.
Assucena sonha com uma borboleta - tudo arde, nada é em vão.
Essas mãos convidam à ceia - o pão da terra é amargo.
Essas mãos convidam ao sono - quem teme o próprio medo não deve seguir.
Essas mãos convidam a passear por ruínas e escombros:
na cidade da imaginação tudo está sempre aceso.
Não existe vida fora do risco.
Não existe vida além da poesia.
Não existe vela que arda sem intenção.
Essa Senhora que nos deu a vida nos conceda agora e sempre memória.
Assucena sonha com todas as cores nesta tarde.
Um vento fresco corre pela casa.
Haverá sempre um porto à nossa espera.
nuno g.
Toróró, 08 de maio de 2024.
Não sei onde anda a cigana de Araci.
Nem aquela outra que me falou da morte de Ian.
Menos ainda dessa terceira que me vendeu a figa de Assucena.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Ela me levou até um açude onde vi meu rosto refletido com precisão.
Foi tecendo minhas rugas por toda a noite.
Enquanto meu envelhecimento se fazia evidente.
Certa tristeza muito antiga pairava na atmosfera.
Certo descontentamento muito intenso rugia no campanário.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Senti medo, muito medo.
Senti frio, muito frio.
Despertei em meio à neblina.
Trazia um anel de prata no dedo.
E dóis sóis onde antes olhos.
A filha da Serpente ao meu lado.
O filho do Ferreiro e a suave memória de um sonho antigo.
Que não posso narrar.
Que não tenho permissão de narrar.
Não sei por onde andam as três ciganas.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Outra vez até o noturno açude onde se refletia meu rosto.
E o tapete tecido com minhas rugas.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Vento frio ao amanhecer.
Mais que medo, angústia e algo de desespero.
Neblina e uma pedra no coração.
Anel de prata no dedo.
A filha da Serpente // O filho do Ferreiro.
A canoa subindo lentamente o rio.
O velho, o elefante e todas as minhas esperanças junto a eles.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre as águas.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre a cidade de espinhos e estrondos.
Uma senhora vestindo roxo abriu as mãos.
Havia sal e lama entre as linhas de suas palmas.
Um breu branco se instalou no tempo.
Hermenegildo passou trotando em seu cavalo.
Erguendo a poeira do chão.
E abrindo caminho para a chegada da lua de Wesak.
Forjada nas matas sombrias com a luz do ferro e a espada da compaixão.
nuno g.
Toróró, 23 de abril de 2024.
às vezes o silêncio grita
e tem sempre muito amor no silêncio
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os temores não-imaginários
às vezes o geólogo treme ante as camadas de terra entranhadas em seu corpo
e tem sempre muito amor em toda terra
às vezes a memória arde
e tem sempre muito amor no arder da memória
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os afetos não-imaginários
tem sempre muito amor em tudo que é amargo
ante às águas e o brilho
tocam meus joelhos os subterrâneos de mil faces
e reflete em suas lâminas os labirintos estreitos de onde venho
as montanhas de cansaço cansaço e mais cansaço
e sim, tem sempre muito amor no cansaço
tem sempre muito amor na distância
tudo que é vago atrai quem já não mais tem outro medo além dos imaginários
nuno g.
Toróró, 20 de abril de 2024.
Subíamos a serra de Guraramiranga
Eu, Claudio e o velho pajé do seminário
Havia muito verde e muita água
Umas poças de argila branca
Conversávamos sobre a morte de Bitú ou de Adriano ou de Walderedo
Amássavamos a argila branca entre as mãos
E seguíamos subindo a serra
Estávamos na Terra do Gelo
Eu, Alice, Larissa e Assucena
O automóvel atolava na neve
E nós ficávamos conversando sobre o nosso medo que as meninas congelassem
Apesar do temor ou talvez por ele
Seguíamos bem
O Mensageiro o enviou
Trouxe uma tapioca do Aquiraz
Duas mudas de lírios
E um exemplar digital do segredo da flor de ouro debaixo do sovaco
A terça-feira amanheceu alaranjada
nuno g.
Toróró, 18/19 de março de 2024.
para Maria Zilá Lima Gonçalves
minhas mãos
trêmulas desde antes da criação do mundo
úmidas como úmida a madrugada de minha infância
te ofertam essas duas flores encarnadas como carvão em brasa
minhas mãos
unhas sempre ruídas
palmas riscadas por pequenos relâmpagos
te apresentam essas duas flores que a seu pedido foram nomeadas marias
minhas filhas
seus nomes são memória de que a carne é estremecimento e devoção
seus nomes são memória de que ainda em sonhos sua bisavó seguia em oração
seus nomes são memória que uma serpente rasteja ainda no chão de meu coração
minha vó
o caminho da novena era mais estreito e comprido que eu imaginava
o caminho da novena era mais cheio de curvas e insensatezes que meus delírios
o caminho da novena, minha eterna febre enlaçada em suas rugosas mãos de serenidade
a paz está sempre em algum lugar onde nunca se chega
a paz está sempre fora do alcance das mãos
a paz é um pássaro do passado que os ornitólogos nomearam amanhã
nuno g.
Toróró, 17 de março de 2023.
ao Senhor dos Cemitérios,
aos Erês que O acompanham,
Assucena brincando na casa da árvore.
As bananeiras, o abacateiro e a mangueira.
Do outro lado da cerca, a árvore das lagartas cortada por ordem do Almirante.
A terra chora sempre que uma árvore é cortada.
Larissa sobe os degraus com alegria.
Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.
Os fogos amanhecem a cidade heróica.
Com suas ruínas exuberantes.
E as cicatrizes do desleixo português por todos os cantos.
Com seus mistérios e mistérios e mistérios.
Assucena brincando na casa da árvore.
Vós que aqui entrais, abandonai todos os medos.
Vaga recordação de um sonho em que Paçoca vomitava borboletas amarelas.
Presságio emoldurado à madeira.
O canto de Alice cruzando o horizonte como um gavião.
Capim-santo. Sorriso no rosto de Lari.
Take it easy my sister Lari.
A terra sorri sempre que se semeia uma árvore.
Yãkoana, Yagé e o caminho dos Sonhos Lúcidos.
Antes do despertar é necessário atravessar muitas vezes o mesmo lugar.
Antes de seguir adiante é necessário revisitar muitas vezes o mesmo chão.
Antes de abandonar todos os medos é necesário sonhar outra vez os sonhos de antes.
Do outro lado da serra, sorri aquele que não ouso pronunciar o nome.
nuno g.
Toróró, 13 de março de 2024.
Assucena me despertou e meu sonho se esvaiu ao entreabrir dos olhos.
As asas da Esperança sempre me roçando suavemente o corpo.
As exigências do destino. As obrigações do karma.
A amorosa luz de seguir caminhando entre a resignação e a revolta.
Alice tão longe e tão perto. As cobranças e as encruzilhadas.
Dentro de mim as camadas e camadas de cinzas e o fogo de Tempo.
E a árvore de Tempo. E as sementes de Tempo.
E a boca faminta da Morte ao calcanhar.
Já não há mais dúvidas:
pertenço a uma geração que legará um mundo pior que o herdado.
Ainda nisto encontrar uma pedra ou nuvem para firmar a delicadeza.
Aprender com algum inseto sobre essa habilidade da natureza.
Que destrói o que lhe serve de insrumento à materialização de algo.
Hoje é terça e terça nunca é um dia qualquer desde que escutei a voz do silêncio.
Povo das águas - recebei entre seus fios de cabelos o rogo dos povos de Ar.
O cansaço se avoluma sobre a montanha de cansaços.
Certa ternura se agiganta no redemoinho de tristezas que preenche a tarde.
Ouço o eco de sonoridades muito antigas.
Caminho por paisagens que já não existem mais.
E me agarro com força ao porvir.
Já não há mais dúvidas:
confiar na áridez e desaprender tudo que nos ensinaram.
Pouco convém determinadas insistências.
Existem respostas e medicamentos que se resumem a prolongar sofrimentos.
A sobrevivência só guarda serventia quando tática.
Sábado entregarei minhas últimas arrogâncias e o que restou da verdade.
Depois de amanhã terei atravessado mais uma quaresma.
Entre mel, gafanhotos e sangue.
Jordânia significa descendência.
Ou o rio onde os órfãos podem reconhecer seus antepassados.
Depois da quaresma terei me atravessado mais uma vez.
Sem ter me tornado um com o abismo que me olha desde antes de meu nascer.
Sem ter me enforcado com a corda que ante meus olhos propõe: desata-me.
Depois de amanhã a quaresma terá me atravessado mais uma vez.
Descêndencia significa rio que corre em direção contrária.
Ou oceano que engole praias e montanhas.
Assucena me despertou e todo o sonho se dissolveu.
Restou apenas a bonita imagem de Paçoca, a cadela,
devorando borboletas amarelas no alpendre da casa do Almirante.
nuno g.
Toróró, 12 de março de 2024.
a vaca mugiu no pasto do Lio
uma borboleta pousou sobre uma flor
um arco-irís serpenteou o céu
nuno g.
toróró, 08 de março de 2024.
Se soubesse de onde eu vim, não me sorria
(...)
Agora que sabe, tem medo de mim
Mas no seu lugar, eu também teria
Mc Tha & Jaloo
A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do ar.
Demasiada neblina ao amanhecer.
No rosto de Claudinha a violência que se confunde com a esperança.
A doce verdade nos lábios e o que é justo aqui: gritando e gemendo neste vale de lágrimas.
Come-e-Dorme com grave ferimento no olho.
Lari pinga o colírio e reza.
Que o vento leve hoje todo o ontem e algo do amanhã.
A verdade nos lábios e a espada afiada cortando as espumas do mar.
Na montanha mais alta a morte e os vaga-lumes dançam e brincam com a neve.
Tempo trabalha, corta a carne e as artérias de um corpo que grita e geme.
A voz de Milton inunda a casa.
Assucena quase chora.
Luís semeia a lua amarela e sorridente.
Que o vento corra daqui esse sentimento ruim e sádico.
Que o vento corra daqui essa insanidade masoquista.
Que o vento traga outra vez o sol, a lua e as estrelas.
Tudo cheira à água de eucalipto.
Na montanha mais alta me inclino ao recordar tia Tânia.
Sua alegria, sua energia e seu amor ao dizer à Alice:
A tia vai ficar boa pra brincar com você.
Bastou isso para fixar agradável memória entre pontes e pontes.
E águas de rios correndo entre prédios e prédios e teias de asfalto.
A verdade nos lábios e as saudáveis maneiras de machucar alguém.
Havia muitas cercas de arame farpado.
Mas a morte e os vaga-lumes sempre terminam por cruzar qualquer cerca.
Os olhos de tia Tânia nos olhos de Alice.
Os olhos de tia Helma nos olhos de Alice.
A doce e violenta verdade nos lábios.
A doce e delicada e violenta verdade nos lábios.
O som das tanajuras caindo dos céus.
O som dos passos desta senhora que chamamos Morte.
O vento tangendo pensamentos.
O vento tangendo sentimentos.
O vento tangendo resquícios de um sonho incompreensível.
Na casa de um amigo de infância.
Meu único amigo ali era a casa.
Cheia de rachaduras e infiltrações.
Como meu próprio corpo desabando no corpo do abismo.
Tempo trabalha na longa longa duração.
O sol, a lua e as estrelas giram.
Lari reza e pinga o colírio.
Lavo os olhos com mel.
Três vezes choro no túmulo de Ian.
Recordo tio Edson ao olhar as nuvens.
Gabi me ensina sobre o ódio e sobre a necessidade de estar aqui.
Ainda que aqui seja uma casa cheia de rachaduras e infiltrações.
É a única que tenho. É o corpo que sou. É o lugar onde habito.
E a estrela que me habita ainda não morreu.
E a lua que me habita ainda possui suficiente ternura.
E o sol que me habita lança serpentes de fogo
que acendem a pedra delicada onde repousa minha dor...
nuno g.
Toróró, 22/02/24.
Isso é um içá!?
Sim - e lembrei do sítio do pica-pau amarelo entre as cidades mortas.
Hoje caíram tanajuras, não chove - me disse uma velha na fisioterapia; choveu.
Sonhei com a montanha mais alta do mundo.
Só a morte e os vaga-lumes sobreviviam ali.
Quando eu era menina catava içás para minha vó fazer farofa - mas eu não comia.
Depois que a velha falou, uma jovem comentou o mesmo, mas havia nojo em sua voz.
De tudo que Bruno me falou retive a imagem poética do guerreiro que corta o ar com sua espada.
A inutilidade do gesto o torna ainda mais poético.
Em tudo que Gabi me falou havia uma certa sabedoria prática e um amor ao outro que me é estranho.
Impossível não recordar São Francisco de Assis.
Ou certo saber que nos diz que amadurecer é se deixar de lado.
Que gosto terá bunda de tanajura?
No alto dessa montanha do sonho havia um descampado inabitável.
Só a morte e os vaga-lumes se faziam presentes.
Os infortúnios do corpo e da alma são mensageiros de algo.
Só o difícil interessa. Só o amargo desmemoriza.
As coisas que eu gostaria de esquecer nunca serão esquecidas.
Encontro Don Juan onde menos espero.
Em um livro de psicanálise sobre a solidão.
A voz de Lucas invade minha sala com um convite.
As coisas que recordo agora não são da ordem do que pode ser dito.
Alice está longe e está próxima.
Havia nenhuma outra luz na montanha além da dos vaga-lumes.
Lari volta a sangrar.
Será que as mulheres são ainda mais fascinantes por sangrarem sem morrer?
Thiago de Mello: faz escuro, mas eu sonho.
E sonhar é uma benção.
Ainda quando se perdeu toda uma infância entre pesadelos.
O que eu não terminei de te contar Gabi é que sim houve um tempo em que eu temia a morte.
Temia tanto que evitava dormir, pois todas as noites ela me perseguia em sonhos terríveis.
Isso durou anos - bem mais de uma década.
E nisso vi escoar pelo ralo um tempo precioso da vida.
Depois perdi o medo e, junto com ele, perdi também o amor a esse mundo aqui.
No deserto entendi que os derrotados são sempre os que temem a morte.
Meu avô me repetia algumas coisas todos os dias.
Que ele morreria antes de mim e que eu deveria enterrá-lo e seguir.
Que ele gostaria que isso ocorresse depois dos meus quinze anos.
Que não seria natural ele presenciar minha morte pois isso seria uma perversão da lei natural.
O hálito de álcool não turvava suas palavras.
Nem tudo ocorreu como ele gostaria.
Minha infância terminou quando ele morreu.
Minha solidão é sagrada - e todas as vezes que desacreditei nisso me fodi.
A imagem que retive das falas do Bruno se desdobra à minha frente.
Um guerreiro irado corta o ar com a lâmina afiada de sua espada.
O gesto é ainda mais poético por ser de todo inútil.
O vaticínio da velha estava errado, choveu.
As bundas das tanajuras sabem à proteína pura.
Aquela montanha mais alta do mundo é o México onde está enterrado a placenta de Alice.
Só a morte e os vaga-lumes parecem ter força de chegar lá outra vez.
Desde o nascimento de Assucena duvido de minha carcaça.
A dor me tirou da estrada. E essa dor se alojou em minha alma.
Sempre fui triste e a alegria sempre me pareceu fútil.
Hoje gostaria de ouvir apenas o silêncio.
A voz da morte. A chuva de tanajuras.
E a melancolica e frágil luminosidade dos vaga-lumes.
nuno g.
Toróró, 21 de fevereiro de 2024.
A lua amarela em quarto-crescente e as primeiras moscas.
Coração é o nome de uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Nas nuvens se avistam formas de animais.
Uma tartaruga.
Um capote.
Um urso.
Um galo.
Um avião da panair.
Ouço Mãe Hilda me chamar - é só o resquício do sonho.
Empatamos o derby no último minuto.
Chove. Chove. Chove.
Quatro da manhã, o segurança do Hercílio Luz me escolta:
Onde é que fica a Azul?
Aponta com cara feia e amarrada a fila do check-in.
Na revisão do raio-x a máquina apita uma vez.
Tiro as moedas do bolso.
A máquina apita uma segunda vez.
Tiro mais moedas do bolso.
A máquina apita uma terceira vez.
Tiro a carteira e o cinto.
A máquina não apita.
O que é isso?
Um salame.
Posso conferir?
Sim.
Você pode, por favor, abrir?
Pode abrir você, mas não come.
Saí com um salame desembalado e o cinto quebrado.
Empatamos o derby no último minuto.
Em Belo Horizonte muita neblina atrasa a aterrisagem.
Em Belo Horizonte muita neblina atrasa a decolagem.
Meus ouvidos quase estouram quando chegamos no aeroporto 2 de julho.
Trago a medalha de Gaeth no bolso e uma febre desconhecida.
A raiz e as folhas guardam o silêncio e a guerra.
Todas as árvores guardam suas próprias feridas.
Saudade é o nome de uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Na febre se vê coisas que se assemelham à coisas.
Me falta permissão para prosseguir.
Me falta permissão para dizer a história dos nãos.
Me falta permissão.
Empatamos o derby no último minuto.
Lua amarela e chuva.
Meus ouvidos prestes a explodir.
Francine envia à Alice foto do parto de uma gata.
Lari me envia uma foto minha com Assucena na janela da casa do Almirante.
Uma febre me engole e mergulha meu corpo num estranho estado de dispersão.
Não fui à Valença, necessitava dormir.
Talvez hoje eu peça. Talvez hoje eu obtenha. Talvez.
Morte é o nome de uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Silêncio, resguardo, concentração.
Talvez um dia eu tenha a permissão para contar a história dos nãos.
Do circo. Do aniversário. Dos passeios de barco. Dos churrascos.
O inferno das crianças são os adultos.
Sobrevivi a três aeroportos e à história dos nãos.
Com a pedra no peito e a espada no coração.
Assistimos a luneta do tempo com a exuberante Hermila Guedes.
O inferno das crianças são os adultos.
Silêncio é uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Tempo.
Sobrevivi a muitos assassinatos, 47 quaresmas e rios de areias movediças.
O piratinha me aguardava no meio do bambuzal.
Dei na chave e acelerei.
Comprei bolo de laranja e pães em Santo Amaro.
Mergulhado na febre fui sorrindo pela estrada.
Como se o meu corpo fosse estranho à minha consciência.
Os ouvidos completamente tapados.
Os tendões inteiramente inflamados.
A memória do ódio. A memória dos nãos. A desmemória do mundo.
Vagamente recordo de Gaeth comentar sobre os voos da lufthansa.
Outra vez o avião da panair cruza as nuvens da minha poesia.
Num sonho muito antigo quase me tornei minha mãe e meu pai.
Num sonho muito antigo escutei alguém me chamar.
Num sonho muito antigo tudo era água, fogo e sangue.
Recolho as moedas da bandeja do raio-x do aeroporto.
Faço do xale que Gaeth me emprestou um cinto e sigo.
Amor, faz um cuscuz com ovo, você que é o nordestino.
A ânsia de desejar e o tédio de possuir, livremente adaptado de Arthur Schopenhauer...
Borboletas amarelas. Flores amarelas. Incerta desolação.
Já botei o cuscuz.
Já desço pra fazer os ovos.
A ausência de Alice aqui.
A lembrança de Bruno Tolentino exaltando Cruz & Sousa.
A lembrança de Bruno Tolentino denunciando a mediocridade de Ana Cristina Cesar.
A lembrança de Bruno Tolentino preso por porte de cocaína escrevendo suas baladas.
Vem comer com a gente?
Claro!
Assucena ergue a cabeça buscando a irmã.
Assucena ergue a cabeça e encontra a ausência da irmã.
A lua é uma árvore que cresce ao lado da árvore chamada Lua.
Minha sombra está suficientemente acostumada a devastações.
Nas nuvens vejo apenas recordações de animais que o vento dissipou.
O cheiro do cuscuz sobe as escadas.
A chuva para.
Um dia conto a história dos nãos que me perseguem.
O inferno das crianças são os adultos.
No coração da lua enterrei os primeiros dias da quaresma.
Com suas moscas e suas exigências de jejuns.
O vizinho aumenta o volume do reggae.
A voz de Edson Gomes se espraia sobre o vale.
No livro da morte está a história do samurai negro que conversava com deus.
No livro da morte está a história dos nãos que não tenho permissão para narrar.
Nas paredes do apartamento 102 do edifício Grão-Pará minhas jovens mãos escreveram um dia:
escrevo como os prisioneiros que escrevem nas paredes com sangue e fezes...
Aquele apartamento não existe mais.
Aquele edifício não existe mais.
Aquelas jovens mãos não existem mais.
Somente as baladas sobre a aprendizagem da solidão seguem existindo.
Era uma vez um castelo, um poeta e uma bailarina.
Era uma vez...
Alice levou a lua amarela e o cheiro de Assucena.
Tempo é uma árvore que cresce no coração azul do Mundo.
nuno g.
Toróró, 18 de fevereiro de 2024.