sábado, 24 de setembro de 2022
chuva.
sexta-feira, 23 de setembro de 2022
viernes entre nuvens.
As oiticicas não pegaram.
* * *
A carne também se amacia.
Igualmente ao espírito.
* * *
O futuro está atrás.
O passado à frente.
As batatas-doces sim vingaram.
E o candeeiro seguiu cumprindo seu intuito.
Nos lembrando que à nossa volta faz escuro.
Recordando que cura e perdão não são estações, são caminhos.
Ainda quando isso queira dizer acender feridas necessárias.
Ou mesmo que a nossa limitada percepção não nos permita mais escrever com nuvens.
nuno g.
toróró, 23/09/22.
quarta-feira, 21 de setembro de 2022
miércoles de sol.
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
o sonho do cego do Caquende
até os cegos te contam os sonhos?
* * *
Formou-se e se viu obrigada, por falta de trabalho, à mudar para Minas.
Chorava. Chorava. Chorava.
Morava no Guarany - que todos, nessa cidade, sabem onde é.
Que todos sabem a Quem pertence.
* * *
O excesso de umidade apodreceu as raízes do Baobá.
Ou talvez tenha sido mesmo a ausência de uma serpente enrodilhada em veneração.
* * *
Claudio nos lembrou do aniversário do mateus Cachoeira.
Foi Tempo quem me mandou substituir diário por dicionário.
Saber menos. Confiar mais. Seguir.
nuno g.
Toróró, 16/09/22.
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
meu avô.
domingo, 11 de setembro de 2022
as três estrelas.
para Larissa Gonçalves, Bruno Gonçalves e Maria Alice Gonçalves
Foi uma cigana que me disse:
meu filho vai enfrentar demanda difícil,
mas vai vencer.
Três anos depois a mesma cigana.
Batendo fotos no estacionamento de um centro comercial.
Nos guardamos na casa de uma filha das águas doces.
E vimos a lua de prata e fino entendimento.
Os aviões fazendo a volta antes de zarpar ao sul.
E o som do mar ecoando no espelho de Tempo.
A voz de Milton ainda no corpo.
A voz de Deus.
A voz de Miguel, o Archanjo.
A voz de Yauaretê.
A voz de Iararana.
A voz da Sussuarana.
A voz do jaguar encantado.
A voz dos sonhos e da infância.
A voz das onças e de Aracati.
Dormimos num motel.
Mas não fizemos nada do que se espera daqueles que dormem em motéis.
Dormimos apenas.
E eu não pude recordar dos sonhos que tive aquela noite.
Menos ainda esquecer quão importante eles eram.
Escutei os sonhos dela.
Sobre carros, avós e confirmação.
Obrigado Milton.
Obrigado Cigana.
Obrigado povo das águas.
Em tempos de dependência e morte.
Só sobreviverá o que for amor.
O resto será já cinzas e esquecimento.
Quando as três estrelas iluminarem outra vez a escama da praia.
O resto será já passagem feita.
Ex-voto. Ex-corpo. Ex-memória-da-escuridão.
A voz de Milton. O trem de ferro.
As palavras rearranjadas de forma a expressar uma imensurável amplidão.
Obrigado Milton.
Eles todos passarão.
Você não. Você nunca.
A voz de Dom Pedro Casaldáliga.
No quilombo. Na aldeia. No terreiro.
Nas três estrelas que iluminam as ruínas dessa nação.
A voz do Jequitinhonha.
A voz do Araguaia.
A voz do Jaguaribe.
Eles todos passarão.
Sua voz não.
nuno g.
Toróró, 11/09/22
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
cambono II
na curva da estrada, à noite, o cavalo de Hermenegildo cintila.
* * *
as promessas do sol ressuscitam à voz do Deus da Guerra.
* * *
samsara não é uma palavra, é uma dança que nos ensina.
* * *
rios e serpentes, montanhas e corpos esquartejados.
* * *
longe daqui uma aranha tece o Destino.
estamos sempre em outro lugar e o que somos será sempre impronunciável.
nuno g.
toróró, 09/09/22.
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
cambono.
Sonhei com Dick, o cão.
Ele estava desplumado e triste.
Como um rio ante as represas que o impedem de chegar ao mar.
* * *
No sonho também havia outras coisas que não consigo lembrar.
As coisas que realmente interessam estão sempre em outro lugar.
Como as lágrimas que só afloram quando a distração nos leva a sentir o esquecido.
* * *
Em outro sonho eu cavava uma cova.
E quanto mais eu cavava menos espaço vazio havia.
Meu corpo superava em matéria o vácuo que minhas mãos lhe destinavam.
* * *
Cleonice foi coroada Senhora e Madrinha.
Por um instante senti que poderia alcançar alguma compreensão.
nuno g.
Toróró, 08/setembro/22.
terça-feira, 6 de setembro de 2022
a báscula do julgamento III
domingo, 4 de setembro de 2022
a báscula do julgamento II
A procissão marchava dividida em duas fileiras.
Eles haviam desaprendido a língua portuguesa.
Caminhavam em silêncio.
Apenas o som dos passos sobre os irregulares paralelepípedos.
* * *
Maria me abraçou à sombra do pé de cacau.
* * *
Os maracás tocaram com força e intensidade.
As chamadas foram entoadas com firmeza.
Cleonice se ergueu e cruzou o Azul e o Branco até a mesa do centro.
* * *
Recebeu a graça do Tucum e a benção da Rainha.
O sol, a lua e as estrelas brilharam.
As varas do caule de milefólio foram consultadas.
* * *
Maria me abraçou.
A luz invadiu o quarto.
Enquanto os encantados dançavam ao redor das brasas que resistiram à madrugada.
nuno g.
toróró, domingo de 2022.
sábado, 3 de setembro de 2022
a báscula do julgamento.
Judite desapareceu.
Stella se matou.
Hermenegildo segue passando todas as tardes em seu cavalo.
* * *
papai, cadê as três estrelas que a lari me deu?
E os seus lábios se moveram pronunciando sílaba-a-sílaba o conto uruguayo.
* * *
Nunca encontramos o corpo.
Nem os filhotes.
Os jerimuns brotaram.
Entre as juremas e o mar.
* * *
Alguma tosse povoando o inverno de setembro.
A cidade girando sobre si mesma como um pião.
* * *
Cuscuz com ovos e um sonho qualquer.
Na desimportância de uma distração a manhã se consumindo.
E os tomates avermelhando a horta.
nuno g.
Toróró, sábado de 2022.
quinta-feira, 25 de agosto de 2022
Areia de cemitério
para Ian Gonçalves,
A charanga d'Ajuda despertou o Caquende.
Arco-íris nenhum no céu.
Os convites de domingo se desmanchando como sorvetes ante a ira do sol.
Um amigo, filho de Odé, soltou sua angústia:
Então tenho que matar meus pais!?
A frase, tal como pronunciara, soava hesitante.
Não chegava a ser uma pergunta nem uma exclamação.
Ou era as duas coisas a um só tempo.
As certezas se desmanchando ante o fascismo.
Era uma vez uma cidade onde corria um rio.
E junto com ele corriam os tapuias.
Nossos antepassados chegaram e construíram ali um forte.
Os traíram. Os perseguiram. Os mataram. Os expulsaram daquelas terras.
Um desses tapuias virou vento.
Seu nome é Aracati.
Sua presença me protegeu a infância.
Junto com ele vinham as onças.
Suçuaranas. Pardas. Castanhas.
Eram minhas melhores amigas.
Seu uivo me ninava.
Em meus sonhos regressavam memórias de um tempo anterior ao colonialismo.
Dois dias depois o arco-íris chegou.
Rastejando como uma serpente sobre o rio.
Não me deixando esquecer que todo chão que piso é cemitério.
E que a mesma lama roxa onde nasceram todas as formas de vida.
É o lugar onde nos encontraremos com a morte algum dia.
Botei as moedas que tinha no saco das ofertas da festa.
E a charanga seguiu pra despertar a Faceira.
Seus deuses, seus pescadores e seus indígenas.
Segui meu rumo e no mais improvável dos acasos.
Encontrei Dom Mario Benedetti.
Na praça do Lavrador em Cruz das Almas.
Ele me recorda que o Nacional de Montevidéu.
Está nas semifinais da sulamericana.
O Ceará não.
Às vezes a vida se decide nos pênaltis.
Como quando um dedo aperta um gatilho.
Ou quando alguém salta de um arranha-céu.
O índio que me acompanha me acaricia os cabelos.
Ouço seu ponto cantado.
Vejo seu ponto riscado.
Tateio com a língua seus lábios feridos.
Entendo assim a coexistência do doce e do amargo.
Atravesso sua mirada como um raio ou uma lança atravessam uma chaga.
Entendo assim a coexistência da tristeza e da alegria.
Recordo o vale dos jaguares tapuias de onde vim.
Recordo os fortes traços indígenas nas feições de meus sobrinhos.
Em seus corpos e trejeitos.
Nem tudo o colonialismo mata.
Nem tudo o fascismo faz perecer.
O futuro é sempre o que está soterrado.
E todo passado aguarda ainda o tempo de amanhecer.
A areia de cemitério que trago nos olhos, no tórax e nas mãos.
Vem de longe, muito longe.
Vem daquele velho túmulo de azulejos azuis que já não existe mais.
Vem das margens daquele rio que o sangue dos tapuias avermelhou as águas.
E foi sobre ela que Ogum, irmão de Odé, serviu seu feijão.
Aracati, seu filho, comeu com as mãos.
Antes que a serpente das sete cores tornasse a cruzar os céus.
Antes que a procissão dos encantados tornasse a cruzar o horizonte.
nuno g.
Toróró, 21/25 de agosto de 22.
segunda-feira, 15 de agosto de 2022
doces águas.
Dino, o gato filósofo, espreitando na porteira.
Come-e-Dorme, o cão, dormindo sobre o calor das brasas da fogueira de ontem.
Um menino vestindo uma camisa com o Machado do Senhor.
Foi com um beijo que Judas traiu Jesus - me disse seu Antônio.
Também me disse seu Ivo do mercado.
A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.
Tudo teria sido mais suave se você não tivesse morrido,
mas agora eu sei que você precisava morrer.
Era isso que eu te diria hoje mãe.
Te diria também que ontem o dia foi bonito bonito.
Que sua neta cresce bem, que os tomates já foram colhidos e que as pimentas brotaram.
Pai, tudo seria mais suave se não tivessem te matado,
mas eu sempre soube que eles precisavam te matar.
Era isso que eu te diria hoje.
Te diria também que tua neta tem uma casa na árvore.
Que ontem trocamos os curativos de João e Cristalina.
E que as macaxeiras e batatas-doces vão crescendo muito bem.
A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.
Meu avô, ontem claudinha me mandou um poema que me lembrou de você.
De seu desespero, seu hálito de cachaça e seu imenso amor.
Era isso que eu te diria.
Te diria também que está tudo bem.
Ontem foi um dia lindo. Choveu e comemos bistecas de porco com batatas ao forno.
O Ceará perdeu o derby, mas não doeu tanto.
Esse mês aqui tem muitas flores e pipocas, vovô
- e entre pétalas e grãos sempre vejo suas lágrimas.
Era isso que eu te diria meu querido avô.
Apesar da tosse, tudo está no seu lugar.
Ainda fumo e talvez o cigarro me mate como lhe matou um dia.
O resto das coisas que eu te diria não cabem em palavras meu avô.
E você, mais que eu, bem sabe.
Levei as crianças na escola.
Passei um café.
Tomei um rapé.
E escrevi esta oração no meu dicionário:
paternidade é o caminho que nos leva de volta à casa onde nascemos.
nuno g.
Toróró, 15 de agosto de 2022.
terça-feira, 9 de agosto de 2022
O Senhor que habita a Pedra
O que tudo vê.
O que tudo sabe.
O que aqui estava quando não estávamos ainda.
O que conhece nosso rosto antes mesmo do nosso nascimento.
O que nos guia em nossa distração.
O que é rude e áspero por ser entendimento em estado bruto.
O que nos cuida quando perdidos.
O que nos reconduz ao nosso coração quando farrapos.
O que nos reconcilia com o escuro de dentro e com o excesso de luz lá de fora.
O que nos permite as canções da lua e a coragem do amor.
O que nos ampara quando caídos erramos pelos subterrâneos.
O que é água quando somos sede.
O que não diferencia sonho e realidade.
O que não nos permite desistir.
O que nos quebra os ossos quando hesitamos ante o necessário.
O que nos desperta quando o engano nos seduz.
O que é mais Velho do que o mais velho de nossos desejos.
O que é pensamento em perpétua sedimentação.
O que é larva no interior de nossa memória.
O que é futuro arcaico e passo firme em direção ao amanhã.
O que se desdobra sempre e outra vez.
O que com seu sopro faz emergir na árvore de Tempo a face do que somos.
O que é o que sempre desconhecemos de nós mesmos.
O que nos acompanha, nos cura e nos mata, com amor e ferocidade.
O que é, simultaneamente, terror e delicadeza.
O que habita a Pedra e a Palha.
O que nos cura.
O que nos mata.
O que nos escuta.
O que dança e não nos abandona.
O que sabe da formação geológica da terra e das almas.
O que se transmuta em pássaro quando quer voar.
Em serpente quando quer guiar.
E em esquecimento quando quer nos proteger do Nada e seus maus agouros.
O que é mais velho e mais terno
- pois mais caminhos já percorreu nessa gira.
O que aqui ainda estará quando nós já não mais estaremos.
O Senhor que habita a Pedra, a Palha e o destino das almas deste mundo.
O que tudo vê.
O que tudo sabe.
Siga guiando nossos passos.
Siga regendo nossa peregrinação.
Além.
nuno g.
toróró, 09/08/22.
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
Os pescadores da Faceira.
O Velho veio em sua forma de pássaro.
As lavras das mangabeiras pelas mesmas mãos que chamavam a Serpente.
Toda uma vida talvez não seja suficiente para regressar à casa onde se nasce.
A igrejinha de Nossa Senhora da Conceição perdida entre as voçorocas de um sonho.
O Velho veio em sua forma de pássaro.
Todas as passagens fechadas.
Os pescadores em volta do fogo cultuando o Velho.
A Senhora das Sementes cultuando a Senhora das Serpentes.
Toda uma vida talvez não seja suficiente.
Era o primeiro dia de agosto.
A dor no osso do joelho esquerdo do Ferreiro que fazia as joias.
Em sua casa de palha, numa capoeira no meio do verde da mata.
Sozinho e em silêncio.
Trabalhando o ferro como quem ora.
O Velho veio em sua forma de pássaro.
Junto com ele a Senhora das Sementes.
Junto com ele a Senhora das Serpentes.
Junto com ele o Ferreiro das Doces Águas.
Junto com ele o Menino da Encruzilhada.
Licença - e meus olhos entraram na casa de palha.
Licença - e meus olhos cruzaram o verde da mata.
Licença - e meus olhos tocaram o roxo do vestido e se encharcaram de lama.
O Velho partiu e deixou seu canto de pássaro.
O osso em trauma e uma névoa nos pensamentos.
Na pedra do rio uma criança.
Na praia os pescadores repetindo:
somos parentes e temos toda a vida para regressarmos à casa
- mas talvez uma vida não seja suficiente.
nuno g.
Toróró, 03 de agosto de 2022.
sábado, 30 de julho de 2022
Ayê
Noêmia sonhou com os três porquinhos.
Assim me narrou Bernardo ao amanhecer.
Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem sândalo.
Penso em Ogum Beira-Mar.
Penso em Ogum-Iara.
Penso em Ogum Megê.
Penso em Ogum.
A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.
Assim como eu tenho a escuridão e a rutilância.
Ela me ensina uma foto de Francine.
Remoçada. Jovial. Renascida.
Me alegra a alegria dos que cruzei ao caminho.
Penso no Sétimo e no seu reino do sertão.
Me revelando seu nome em sonho.
E soltando gargalhadas de marfim e calcário.
Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem parafina.
O horror está em todos os lados.
Penso na Pombagira entoando canções ciganas.
Só a poesia importa - o resto o sol da morte dissolve todos os dias.
A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.
Assim como eu tenho uma infância mergulhada em mentiras e covardia.
Chove. Chove. Chove.
Chove e falta água nas torneiras e nas descargas.
Penso em Ogum e rezo à Adélia.
Quem sabe Ele também em sonho me revela Seu nome.
Todas as perversões entregues ao dicionário da noite.
A moça que vende café preto e mixto quente.
A moça simples que vende broas de milho.
Ser mulher é ser bruxa.
É trazer dentro a força que resiste à nadificação.
Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem espumas.
Ouço o Sétimo gargalhando no sertão.
Recordou o sonho em que me revelou Seu nome.
Recordo o hálito de cachaça, benção e proteção.
Soterrado vivo - meu coração dispara como um cavalo.
Meio-irmão dos raios, meio-irmão dos trovões.
Penso em Rimbaud - o poeta é mesmo um místico selvagem.
Avesso às amarras de qualquer doutrinação.
Entregue à semântica das tempestades.
Nas curvas que sobem a serra duas placas chamam a atenção.
Pastel do Alemão - em negro e vermelho.
Deus julgará a todos - em amarelo-ouro.
A cidade do Senhor de São Félix fica para trás.
Penso em Artaud entre os tarahumaras.
Buscando ressuscitar divindades em seu gélido coração.
A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.
Sonha com Miguel - como eu sonhei algum dia.
Chove. Faz frio. E falta água nos canos.
Meu Ori sente a irresistível atração do Orum.
O Ayê me quer aqui.
nuno g.
Toróró. 27 de julho de 2022.
segunda-feira, 18 de julho de 2022
Orum
para Serena Assumpção,
I.
Nasci em cidade nenhuma.
Nasci em um rio.
Entre ferros d'água e espelhos de pedra.
Nasci às margens e às avessas.
Como uma pluma sem cão.
Uivando em dialeto acalanto.
Nasci como nascem as ilhas.
Num instante de distração do rio.
Mãos dadas ao escuro.
Olhar posto à imensidão.
Nasci mil vezes em uma só vida.
No rio onde nascem todos os rios.
No rio onde nascem todas as ilhas.
No rio onde as águas estão em permanente estado de distração.
Às avessas. Às margens.
Como uma pluma sem a ferocidade do cão.
II.
Não quero mais estar aqui.
Mas sigo.
Penso nos meus filhos no Orum.
Penso nos meus pais no Orum.
Penso no Orum.
Mas sigo.
Entre mares de azeite e encruzilhadas de farinha.
Com a precisão com que se movem as ruínas de um engenho.
E sigo.
III.
Beira-fogo, sina, artefato.
Na minha morte meu corpo coberto de sementes e nada.
A matéria cega devolvida à terra.
E o meu espírito à imensidão.
Orum.
nuno g.
Cachoeira, 17 de julho de 2022.
domingo, 17 de julho de 2022
os lírios do cotidiano e os sonhos que os ventos trazem.
havia tendas - como nas caravanas ciganas que acampavam sob as oiticicas.
e quando acordei o sonho ainda estava lá - escorrendo em sua voz ao telefone
e se amalgamando às fotos do Velho
que esperaram quatro décadas para chegar aos meus olhos.
havia um bebê - como no dia em que me levaram na mata para conhecer Miguel.
e quando acordei as tendas ainda estavam lá e sua voz escorrendo como óleo
entre as teias e as flores e as crianças.
havia tantas camadas de febre e esquecimento sobre as pequenas coisas do amanhecer
que parecia ser impossível qualquer despertar.
havia muita água doce e uma gargalhada sincera aprisionada numa garrafa.
havia tendas e fogueiras e alguém aprendendo as primeiras letras.
sua voz escorrendo no telefone, uma fotografia antiga e um arrepio à pele.
somos o que esquecemos e sangramos para que o nada não soterre o amanhã.
somos o sangue que derramamos sobre a terra.
somos também a terra onde se erguem as tendas.
e sim, no seu sonho ela era a mais bela das mulheres daquele rio.
ela te disse como se chamava e te entregou mais uma vez a infância de Maria.
quando acordei a foto estava lá - e nela todo o passado que me foi negado.
havia lírios, sonhos e águas doces.
quando pronunciei teu nome tua voz me chegou ao telefone.
só no óleo certas esperanças alcançam sobreviver.
nuno g.
Toróró, 17 de julho de 22.
segunda-feira, 11 de julho de 2022
entre Serrinha e Santa Bárbara.
à margem esquerda da estrada
atrás, muito atrás, do brejo onde as garças pousam
o arco-íris se apresentou
e conversamos sobre todas as cores
uma suave distração
e obrigamos um caminhão verde a frear na subida
um cafezinho e entramos na cidade antiga
notícias do fascismo, bolo de milho, saudades
animais domésticos e uma bela noite
no outro dia a chuva
notícias de uma despedida
e as luzes de alerta sanitário piscando no céu
à margem esquerda da estrada
atrás, muito atrás, do horizonte que nossos olhos alcançam
pulsa uma força imensa que não sabemos nomear
nuno g.
Toróró, 11 de julho de 22,
sexta-feira, 8 de julho de 2022
a cabeça de touro e a igreja de Nossa Senhora da Conceição
Vazaram todas as águas.
Da bexiga de Alice.
Do radiador do pirata.
Um gordo numa moto nos guiou à oficina Edson & irmãos.
Passamos pela igreja suspensa.
Recordei da cabeça de touro enterrada ali.
E do gavião morto no asfalto na entrada da serra do Pereiro.
No porta-malas as mudas de oiticica.
O queijo, a nata, a paçoca, a manteiga da terra, o doce de leite e o Sonho.
A lembrança do serrote do Peixe onde não fomos.
E de todas as outras coisas que nunca aconteceram.
nuno g.
Icó, 07 de julho de 22.
segunda-feira, 27 de junho de 2022
Regresso à linha do equador
o mar levou pro rio
um presente pra mamãe Oxum
e o rio levou pro mar
um presente pra Yemanjá
Maria Alice
a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá
ossos frágeis e delicados e um sem-número de objetos outros
enterrados sob este chão:
escapulário de ferro
o prato fundo repleto de sangue
e o sonho dos dois caixões
a Gare de Astapovo
os pedreiros ateando fogo na cozinha
a chuva no Peixe Gordo
e o dia amanhecendo alaranjado nos olhos do jaguar enfeitiçado
ossos frágeis e delicados e um sem-número de objetos outros
enterrados entre as estrelas desta noite insaciável
a paz aqui é só uma palavra
fervendo entre outras palavras
mergulhadas no dicionário das placas tectônicas
e na larva que escorre entre as frestas
do túmulo de azulejos azuis
que não existe mais
a lagoa da Caiçara repleta de aguapés, serpentes e eguns
que insistem em remar suas canoas
entre os ossos frágeis e delicados deitados na alvorada
entoando esse coro insuportável
que rompe a harmonia das esferas
e ecoa nos cânions do Aquém e do Além
despertando a divindade asmática
e desnorteando os ponteiros da lazarenta memória
dos castiçais esfumaçados
dos aprazíveis licores
dos habitantes da cidade sem-nome
do arco-íris órfão ressuscitado
demasiadas coisas enterradas sob este chão
entre a escuridão imensa destas estrelas
o sangue do esquecimento atravessando as vértebras
de cada palavra que escrevo no ventre obtuso desta chuva
hálito tapuia & o rugido do sino da Catedral
carregados em liteira de marfim e assombramento
pelo vento Aracati que sopra desde as fronteiras do infinito
arrastando os raios da Senhora ao som dos címbalos que anunciam
a partida prematura dos deuses de ontem
e o inexorável atraso da chegança dos deuses do amanhã
o sol assenta sobre seu trono
sem que se saiba quem terá pés capazes de tocar o solo dos salões iluminados
onde as aranhas tecem e destecem os destinos
e as linhas-de-força encruzilhadas no moto perpétuo deste incansável rio
nesta maldita insônia, neste sagrado oráculo
a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá
no sinal de acesso à Barão do Rio Branco
um velho com uma guia de contas negras e azuis cruzando o tórax
exibe um papelão onde se lê em vermelho a palavra FOME
à esquerda um desses carros modelos naves espaciais
com bandeira pátria e adesivos com o nome do inominável
a palha, o mel e os olhos do Senhor das Estradas
recordando a guerra e os seus hinos
recordando o sonho do velho conde
repousando em Iásnaia Poliana
entre ossos frágeis e delicados
e um sem-número de objetos outros
esparramados sobre as cinzas do quilômetro oitenta
a palha, o mel e os olhos ávidos e sinceros do Senhor da Estrada
se movendo no interior da cidadela inexpugnável da insônia
e nos caleidoscópicos labirintos do oráculo
a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá
o hino das águas e dos erês no açude do Bixopá
os unicórnios e jabutis dançando entre as corredeiras onde vivem os pitus da ilhota
canjica quente, pé de moleque, bolo de macaxeira, paçoca e vatapá de galinha
o hino das águas e dos erês apascentando as doces fúrias do Aquém e do Além
e a ternura impronunciável dos habitantes da cidade sem nome
a palha, o mel e os olhos ilegíveis do Senhor da Estrada
orando através de mim quando meus olhos leram outra vez a inscrição no jardim:
rua do meu pai - café negro, longo e amargo
se derramando sobre o azul-azul do céu do Iguatu
e entre as árvores do esquecimento
onde repousam ossos frágeis e delicados
escapulários metálicos, pratos repletos de sangue
e os dois caixões do sonho
a clepsidra de vidro gira mais uma vez no quilômetro oitenta
e o daimon arcaico desperta de seu torpor
gravando entre as cicatrizes as recordações de antigas atrocidades
rua do meu pai - o jardim em tudo o mesmo
Iggy Pop vagando na domingueira eternidade de sua felina existência
o mel, a água doce, o sorriso
nos protegendo da ferocidade de Tempo
nos guardando dos abandonos que abandonamos antes da alvorada
entre ossos frágeis e delicados
entre um sem-número de objetos outros
enterrados entre as estrelas reluzentes
que seguem faiscando e vibrando
nos obscuros subterrâneos dessa terra onde as promessas nunca são cumpridas.
nuno g.
russas / fortaleza, 21 a 27 de junho de 2022.
quarta-feira, 22 de junho de 2022
O caminho das almas ou o teleférico fantasmagórico
O óleo da caixa de câmbio vazou em Teofilândia
Atravessamos o deserto mais uma vez
No Ibó as sertanejas mãos de Jean voltaram a encher de óleo a caixa
As águas do São Francisco estavam mais calmadas que de costume
E todos falavam sobre a colheita das cebolas
As engrenagens da quinta marcha colaram definitivamente
As mãos sertanejas de Jean as arrancaram como quem arranca as vísceras de um pirata
Uma coruja de olhos esbugalhados seguiu caminho conosco
Alice falou do Bené e da Inaê
Mastigamos beterraba, couve e carne assada
O resto da viagem foi desapressada
E quando o sol se pôs já estávamos no meio da floresta do Araripe
Tomamos cumaru, fizemos uma fogueira
Brincamos de macaca e cozinhamos o milho que Luís plantou
Falamos sobre sonhos e sobre o Senhor da Vida e da Morte
Deayunamos frutas com aveia e café negro
Trezentos anos ou a eternidade
E nossos passos entrando no vagão do metrô
E nossos passos cruzando o coração da cidade sagrada
Os olhos do padre Cícero pousados sobre nós
Como as asas do gavião sobre o açude
Ou o clarão da lua sobre a noite imensa
Tomamos mais cumaru e conversamos sobre o pesadelo fascista que nos assola
Chico catou entre as ferragens as engrenagens da quinta
Recordei do velho Aranha e Alice falou sobre a Débora
Assistimos Tico & Teco, comemos baião-de-dois e pizza
O Velho nos abençoou com a palha
E pegamos outra vez a estrada rumo ao fantasmagórico teleférico do Caldas...
nuno g.
Crato, 18 de junho de 2022.
sábado, 11 de junho de 2022
oráculo.
Havia águas e serpentes
E ainda assim havia fogo e veneno
Foi antes do estopim da guerra
Foi depois do nascimento das mãos que erguiam casas com aéreos materiais
Havia fogo, águas, serpentes, venenos e metais
Com os quais se forjaram os três caminhos
E todas as sentenças da justiça
E ainda assim no sonho veio o que tinha de vir
E se fez carne e memória e habitou entre os cardeiros e a piçarra
E se fez memória do vermelho das flores dos cardeiros
E se fez memória do vermelho da poeira da piçarra
E se fez serpentes e águas
Fogo e veneno
Antes do cessar da guerra
Antes do amanhecer do escuro
Antes do sonho ser sonhado como tinha que ser sonhado
Antes das mãos modelarem os materiais aéreos
E erguerem a casa sertaneja
E o mítico coração da barca que navegar no mar
Havia uma guerra e mais coragem que argila
Havia um sonho e mais água que veneno
Havia um fogo e mais metal que entorpecimento
Havia o escuro e seus refúgios infinitos
Havia um sol, uma lua e uma estrela:
Três caminhos e todo mistério para além de qualquer esquecimento.
nuno g.
Toróro, 11 de junho de 2022.
terça-feira, 7 de junho de 2022
entre feiticeiros e despertencimentos.
chove sobre a colina sagrada
o frio penetra minha omoplata
sem pedir licença
acende a bursite
o chão de lama, escorregadio
e a cidade com seus paralelepípedos centenários
e sua ponte de ferro & ferrugem & tempo
os gatos invadem a casa
como os degraus da escadaria amarela
invadem os sonhos
chove sobre a colina sagrada
ao longe, a pedra da baleia e um saveiro
venta e no vento vêm vozes e mais vozes
de aquém, de além, de cima, de baixo da direita e da
esquerda da esquerda da
chuva que cai sobre a colina sagrada
da chuva que molha os centenários paralelepípedos
da chuva que afoga todas as coisas de ontem de anteontem
como a areia da sepultura da serpente
apenas os olhos expostos ao sol
o frio, a guerra, o parapeito de madeira e estrela
tudo se move como se movem as pedras
a cidade, o vento e as frutas pintadas a óleo
os gatos, o som da casa de farinha, tilintar de copos e nada
aos palmos medindo a distância de todas as órbitas
e cruzando o mundo como um trem mineiro fora dos trilhos
abarrotado de bugigangas
nuno g.
Toróró, 07 de junho de 22.
quinta-feira, 2 de junho de 2022
as águas do Jaguaribe
para Dellany Oliveira,
todos os rios, o rio
e em seu leito de várzeas todos os sonhos
correndo em direção ao outro lado
como se a noite fosse mesmo um pássaro
e as estrelas seus ninhos
todos os rios, o rio
e em seu leito canoas, jangadas, saveiros
correndo em direção ao outro lado
como se os pássaros fossem mesmo noturnos
e a única forma de aplacar a sede
seguisse sendo beber o fogo
todos os rios, o rio
e suas nuvens correndo em direção ao outro lado
como se o tempo fosse apenas um calafrio passageiro
ou o osso de um mártir encontrado entre os lajedos
todos os rios, o rio
correndo entre o esquecimento e a loucura
e atirando flores nos despenhadeiros da chapada
todos os sonhos, o sonho
correndo entre o lodo e as pedras
como se a única forma de saciar a fome fosse jejuar ao sereno
amanhece na pedreira - o galo canta
Aracati chega, apascenta, acarinha
e canta devagarzinho antigas canções de ninar
sobre túmulos de azulejos azuis e vespas dançarinas
sobre árvores de raízes pardas e onças tão imensas quanto o coração da lua
todas as onças, a onça
Sussuarana chega, espreita e se vai
boqueirão de vertigens, caleidoscópio de estrelas
a força da tempestade, o som dos sinos,
o sangue das sete aldeias correndo pro mar
amanhece - devagarzinho
todas as noites, a noite
se enrolando como uma serpente colorida
entre as névoas que não se desfazem
e as promessas que não se cumprem
todas as águas nas águas deste rio
todas as pedras nas várzeas deste rio
todos os sonhos nos sonhos deste rio
um deus que dança e usa espada chega e assenta
desalvoroça, destorce, semeia ramas de tempestades
sorri e ascende
sete aldeias sangrando, uma cabeça de touro enterrada na vila do Icó
e o campanário da catedral atingido por um raio
o rio corre e com ele correm todos os rios
o rio corre e com ele correm todas as embarcações
o rio corre e com ele corre o meu coração...
nuno g.
Toróró, 02 de junho de 22.
sexta-feira, 27 de maio de 2022
a fogueira do Senhor da Justiça
Não pronunciarei seu nome, não sou digno.
Mas farei do seu fogo minha morada.
E guardarei junto aos lírios brancos que recebi.
A memória de como a serpente me salvou das lágrimas.
Não pronunciarei seu nome, não sou digno.
Mas guardarei a história de Jó e seus ensinamentos.
Sobre a vida, os escombros, os retalhos.
Junto ao beijo que nesse seio amanheceu.
Não guardarei dos golpes e punhaladas senão a memória da guerra.
E aquele fatídico hino que falava a língua das labaredas e das chamas.
Não pronunciarei seu nome, não sou digno.
Serei o último a bailar no fogo.
Serei o último a caminhar sobre as brasas.
Não pronunciarei seu nome, não sou digno.
Mas o guardarei comigo contra todo esquecimento.
Te entrego minhas cicatrizes e meu corpo destroçado.
Te entrego a alegria que me trouxe a serpente em seu barco.
Já tem milho verde na feira.
Já tem amendoim na feira.
Já tem lenha separada no terreiro.
Para acender teu fogo, minha morada.
Te entrego os lírios brancos e todas as minhas fraquezas.
Te entrego meu afogamento nas lágrimas do pai injustiçado.
Não pronunciarei teu nome, não sou digno.
Mas renascerei das cinzas e darei vivas à serpente.
Guardarei no coração do mar este fogo, minha morada.
E não mais permitirei que outra voz que não a do vento me alimente.
Guardarei teu nome não pronunciado.
Junto ao segundo beijo que nesse seio amanheceu.
Farei do teu fogo minha morada.
O habitarei como algum dia habitei as lágrimas.
E o alimentarei com os lírios brancos ainda úmidos de doces águas.
Guardarei a serpente e os cânticos em sua memória.
Guardarei suas cores e o ritmo em que navega seu barco.
Guardarei as nuvens onde ela fez morada.
Neste terceiro beijo que amanhece nesse seio.
Acende o fogo que ilumina o chão deste terreiro.
A sombra do semblante distorcido.
E as plumas do gavião cicatrizado.
Guardarei a morte e sua memória sagrada.
Fonte da vida, foice de todas as iniquidades.
Não pronunciarei seu nome, não sou digno.
Mas farei do teu fogo minha sagrada morada.
O alimentarei com lírios brancos e doces águas.
Servirei com as mãos impuras o mel que recolhi nas encruzilhadas.
Guardarei seu nome no silêncio desta árvore.
Não sou digno. Só teu fogo saberá do que passou.
No silêncio desta árvore onde habita o Impronunciável.
Estarei sempre em guarda. Contra todo esquecimento que nos ameaça.
Serei eu mesmo a memória de todas as lágrimas.
Serei este fogo. Estes beijos amanhecidos nesse seio.
Serei eu mesmo a fogueira que será minha última morada.
Serei teu nome e nele arderá toda a ferocidade.
E todos os vestígios de um jaguar em azul reencantado.
nuno g.
Toróró, 27 de maio de 22.
quarta-feira, 25 de maio de 2022
Ápeiron
Também tentei tocar com as mãos o indeterminável
E molhar com suor os círculos concêntricos das origens
E foi com os olhos, mais precisamente com os cílios
Que acariciei os círculos concêntricos dos fins
Sorri, quando seus lábios me falaram sobre desistências
& outras coisas impossíveis
Também tentei farejar a luz do esquecimento
& dizer o indizível
Abri os jornais e vi os bombardeiros russos e chineses sobrevoando os céus do oriente
Abri os jornais e vi os diplomatas chineses afirmando:
Tratamos lobos com espingardas
Fiquei imaginando como seria isso escrito em hieróglifo
Fiquei imaginando como seria isso escrito em ideograma
Fiquei imaginando como seria o mundo se não temêssemos a morte
Ouvi o som do escuro e separei a maisena, a vaselina, o suco de limão
Para preparar a massa de biscuit e modelar outra vez o infinito
Abri outra vez os jornais e vi os militares detalhando seus planos para os próximos anos
Orei a Anaximandro e em silêncio bebi o chá que me serviram as montanhas
Talvez essas nuvens guardem as formas da escrita
Capazes de representar os círculos concêntricos do indeterminável
Orei a Anaximandro, repousei a cabeça na pedra delicada
E sonhei com a linguagem do infinito
nuno g.
25 de maio de 22.
domingo, 22 de maio de 2022
a menina que sonhava com terreiros
para Gabriela Gonçalves & Larissa Gonçalves,
Eles somos nós
De uma maneira que a linguagem não alcança
Nenhuma linguagem
Nem a do corpo
Nem a da fala
Menos ainda a do pensamento
Açucena é um nome bonito
Cheira bem, soa bem, reverbera
Nós somos eles
De uma maneira que não alcançamos entender
Nem com nenhuma linguagem
Nem quando nos esvaziamos
Mas nunca estivemos realmente vazios
Estamos sempre entre uma ficção e outra
Mas quando sonhamos
Já não somos os mesmos
Já somos eles
E eles são o que somos
O vento chega, refresca e parte
O vento sempre volta ao mesmo lugar onde nasceu
nuno g.
Mata de São João, maio, 2022.
quinta-feira, 19 de maio de 2022
A sepultura da cobra e o salto da rã
para Marialice,
Uma concha cor de esmeralda, uma pata de siri, uma estrela do mar
Crustáceos voadores, peixes com patas à luz da lama
Suave água amarelada - espelho da terra
As mãos de Ignez, as mãos de Alice
O sorriso de um peixe com patas e sombrero
Deixando cócegas para trás
Os olhos da cobra desenterrados
Para que ela veja o salto da rã
E o azul do infinito se derramando sobre o céu amarelo
Sob o olhar da Senhora de Roxo
E do dono do destino de todas as almas
Caminho não se esquece, sonho se semeia
Hoje nasceu uma nova árvore na antiga praia
Sob as bênçãos do pintor fugitivo de asas alaranjadas
E as graças do caranguejo perfumado de patas lilases
Caminho não se esquece, sonho floresce
E se colhe - como lírios selvagens entre os bambuzais
E os magníficos corais do Além.
A lua cheia iluminou a aldeia
E as pedras da sepultura da serpente
A lua cheia iluminou o mar que sempre esteve aqui
Acendeu os búzios de nossos contra-eguns
E o silêncio prateado nas folhas da árvore sem-nome
A lua cheia iluminou a aldeia
E os magníficos corais do Além.
nuno g.
Montecristo, 15 de maio de 2022.
segunda-feira, 16 de maio de 2022
Teologia do Vento.
O fogo é a lucidez, a parafina é o samsara.
Lama Padma Samten
Vinte e três caminhos movediços.
Uma serpente morta na estrada.
O sono, a lei, a melancolia.
Outra vez e sempre a rã saltitando na lâmina d’água.
Vinte e três movimentos em direção à Quietude.
Hacia o que se pode ver desde o cume das sete montanhas.
Ou ao que se pode não pensar quando silencia o monge zen.
Vinte e três espelhos ante o transcurso das horas.
Uma serpente morta na estrada.
O sono, a lei, a melancolia.
Outra vez e sempre a rã saltitando na lâmina d’água.
Sete montanhas, um monge zen e vinte e três reverências à Quietude.
Ataraxia, a sombra nos guarda.
Nos bendiz, nos reza.
A sombra é desdobrável e assemelha-se a uma onça que ignora o amanhã.
nuno g.
Toróró, 12 de maio de 22.
segunda-feira, 9 de maio de 2022
O castelo da Rainha.
Foi para lá que ela me disse que ia antes de partir.
Quando chorou não o fez pela guerra, mas pelo pressentimento da vitória.
Havia tanto mel entre os vinte e três pássaros que a noite decidiu tardar além do previsto.
Cobra coral, o silêncio dos meus joelhos sobre o sangue de vosso sagrado chão.
Xangô reinou sobre todas as coisas.
Curumim soprou com fé desde o bambuzal:
Não se celebra antes, sonho bom se desfaz.
Quando chorou não o fez pela guerra, mas pela intuição do sol.
Havia tanto mel entre as serpentes que choveu.
E quando Curumim soprou a flauta os sons de Uakti despertaram.
Xangô reinou sobre todas as coisas.
Havia mel, demasiado mel, entre as pipocas.
Foi para lá que ela disse que íamos antes de partirmos.
Quando chorei não o fiz pela guerra, mas pelos cânticos que anunciaram seus propósitos.
Xangô reinou sobre todas as coisas.
E as bênçãos da cobra coral caíram sobre nós como as águas do dilúvio.
Xangô reinou sobre todas as coisas.
Curumim brincou com as estrelas.
Curumim brincou com a lua.
Curumim se lambuzou de mel e se foi.
Quando choramos não foi pela guerra, mas pela força do vento que soprava da flauta.
Não se celebra antes, sonho bom se desfaz.
E Xangô, finalmente, reinou soberano sobre todas as coisas.
nuno g.
Toróró. 09 de maio de 2022.
sábado, 7 de maio de 2022
Romantismo.
Vivemos uma ficção.
Estamos imersos num pesadelo.
O apocalipse deixou de ser um gênero literário.
Convertido em horizonte histórico avassalador.
O fascismo assumiu o comando do relógio do tempo.
O que nós buscamos se afasta de nós como o azeite da água.
A relação entre terror e realidade foi equacionada pela perversão.
Não escutamos. Não entendemos. Não vemos.
E os gritos de nossos sonhos já não nos flecham.
Quando as mãos sem cor apertaram o gatilho não puderam esquecer meu choro.
Olhei dentro do armário anos a fio o semblante dela.
E suas pernas torneadas e seu corpo esbagaçado na calçada.
Ainda assim permanecia bela e inviolável, soprou o coveiro.
Voltamos à ficção.
Mergulhamos uma vez mais no pesadelo.
Os submarinos, as armas nucleares e a falência psíquica.
Quando as ruas foram cobertas com folhas de maniva.
Quando choveu meteoros uma última vez.
Quando a perversão tornou-se o equalizador da canção do terror e da perversão.
Paramos de sonhar. Paramos de entender. Paramos.
E ainda sem escutar ou sem ver a fantasia persecutória prosseguia.
Os disparos, o salto e a teia de mentiras.
O que buscávamos se afastando como o azeite da água.
E os mortos em silêncio trabalhando em prol da incertidumbre.
Nas cidades invisíveis da floresta negra o sol atômico e as películas de culto.
As pernas torneadas entre as peças de antiquário.
O balé de delfines no deserto do Atacama.
Os gritos de nossas flechas já não sonham.
Só a montanha impávida e colossal saberá nos mover daqui.
O tempo desintegrará todos os relógios.
E os subterrâneos da terra voltarão a sorrir.
Só os que morreram muitas vezes saberão nos guiar para fora do pesadelo.
Só os que conhecem a terra dos mortos saberão restituir ossos ao corpo da realidade.
Só os que falam a língua dos pássaros e das nuvens entoarão canções de amor e utopia.
O balé de flores sob o asfalto derrotado.
E os afetos que nos atravessam como quando entendemos
que também os apocalipses guardam em segredo seus mais indecifráveis propósitos.
nuno g.
06 de maio de 22.
sexta-feira, 6 de maio de 2022
Sonhos
Alta noite, o elefante subiu o rio na canoa.
Passarinho veio bem perto e olhou muito dentro.
Tão dentro que corpo se fez rio.
O Velho veio todo de branco.
Como os grãos de milho que seu braço arremessara em direção à pedra.
Um laço de cipó amarrou os pesadelos todos.
O Velho veio e me abraçou demoradamente.
Amanhecendo, o sol ainda despontando.
Uma lágrima escorrendo com medo dos pesadelos amarrados no laço.
Uma lágrima escorrendo com a alegria retida do abraço.
O Velho se foi. Todas as palavras ditas esquecidas.
Apenas a lembrança do abraço.
O medo dos pesadelos amarrados no laço.
E uma pequena alegria saltitando como uma rã sobre a lâmina d'água.
Nuno g.
Toróró, 05 de maio de 2022.