segunda-feira, 15 de agosto de 2022

doces águas.

Dino, o gato filósofo, espreitando na porteira.

Come-e-Dorme, o cão, dormindo sobre o calor das brasas da fogueira de ontem.

Um menino vestindo uma camisa com o Machado do Senhor.

Foi com um beijo que Judas traiu Jesus - me disse seu Antônio.

Também me disse seu Ivo do mercado.

A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.

Tudo teria sido mais suave se você não tivesse morrido,

mas agora eu sei que você precisava morrer.

Era isso que eu te diria hoje mãe.

Te diria também que ontem o dia foi bonito bonito.

Que sua neta cresce bem, que os tomates já foram colhidos e que as pimentas brotaram.

Pai, tudo seria mais suave se não tivessem te matado,

mas eu sempre soube que eles precisavam te matar.

Era isso que eu te diria hoje.

Te diria também que tua neta tem uma casa na árvore.

Que ontem trocamos os curativos de João e Cristalina.

E que as macaxeiras e batatas-doces vão crescendo muito bem.

A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.

Meu avô, ontem claudinha me mandou um poema que me lembrou de você.

De seu desespero, seu hálito de cachaça e seu imenso amor.

Era isso que eu te diria.

Te diria também que está tudo bem.

Ontem foi um dia lindo. Choveu e comemos bistecas de porco com batatas ao forno.

O Ceará perdeu o derby, mas não doeu tanto.

Esse mês aqui tem muitas flores e pipocas, vovô

- e entre pétalas e grãos sempre vejo suas lágrimas.

Era isso que eu te diria meu querido avô.

Apesar da tosse, tudo está no seu lugar.

Ainda fumo e talvez o cigarro me mate como lhe matou um dia.

O resto das coisas que eu te diria não cabem em palavras meu avô.

E você, mais que eu, bem sabe.

Levei as crianças na escola.

Passei um café.

Tomei um rapé.

E escrevi esta oração no meu dicionário:

paternidade é o caminho que nos leva de volta à casa onde nascemos.


nuno g.

Toróró, 15 de agosto de 2022. 

terça-feira, 9 de agosto de 2022

O Senhor que habita a Pedra

O que tudo vê.

O que tudo sabe.

O que aqui estava quando não estávamos ainda.

O que conhece nosso rosto antes mesmo do nosso nascimento.

O que nos guia em nossa distração.

O que é rude e áspero por ser entendimento em estado bruto.

O que nos cuida quando perdidos.

O que nos reconduz ao nosso coração quando farrapos.

O que nos reconcilia com o escuro de dentro e com o excesso de luz lá de fora.

O que nos permite as canções da lua e a coragem do amor.

O que nos ampara quando caídos erramos pelos subterrâneos.

O que é água quando somos sede.

O que não diferencia sonho e realidade.

O que não nos permite desistir.

O que nos quebra os ossos quando hesitamos ante o necessário.

O que nos desperta quando o engano nos seduz.

O que é mais Velho do que o mais velho de nossos desejos.

O que é pensamento em perpétua sedimentação.

O que é larva no interior de nossa memória.

O que é futuro arcaico e passo firme em direção ao amanhã.

O que se desdobra sempre e outra vez.

O que com seu sopro faz emergir na árvore de Tempo a face do que somos.

O que é o que sempre desconhecemos de nós mesmos.

O que nos acompanha, nos cura e nos mata, com amor e ferocidade.

O que é, simultaneamente, terror e delicadeza.

O que habita a Pedra e a Palha.

O que nos cura.

O que nos mata.

O que nos escuta.

O que dança e não nos abandona.

O que sabe da formação geológica da terra e das almas.

O que se transmuta em pássaro quando quer voar.

Em serpente quando quer guiar.

E em esquecimento quando quer nos proteger do Nada e seus maus agouros.

O que é mais velho e mais terno

- pois mais caminhos já percorreu nessa gira.

O que aqui ainda estará quando nós já não mais estaremos.

O Senhor que habita a Pedra, a Palha e o destino das almas deste mundo.

O que tudo vê.

O que tudo sabe.

Siga guiando nossos passos.

Siga regendo nossa peregrinação.

Além.


nuno g.

toróró, 09/08/22.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Os pescadores da Faceira.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

As lavras das mangabeiras pelas mesmas mãos que chamavam a Serpente.

Toda uma vida talvez não seja suficiente para regressar à casa onde se nasce.

A igrejinha de Nossa Senhora da Conceição perdida entre as voçorocas de um sonho.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

Todas as passagens fechadas.

Os pescadores em volta do fogo cultuando o Velho.

A Senhora das Sementes cultuando a Senhora das Serpentes.

Toda uma vida talvez não seja suficiente.

Era o primeiro dia de agosto.

A dor no osso do joelho esquerdo do Ferreiro que fazia as joias.

Em sua casa de palha, numa capoeira no meio do verde da mata.

Sozinho e em silêncio.

Trabalhando o ferro como quem ora.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

Junto com ele a Senhora das Sementes.

Junto com ele a Senhora das Serpentes.

Junto com ele o Ferreiro das Doces Águas.

Junto com ele o Menino da Encruzilhada.

Licença - e meus olhos entraram na casa de palha.

Licença - e meus olhos cruzaram o verde da mata.

Licença - e meus olhos tocaram o roxo do vestido e se encharcaram de lama.

O Velho partiu e deixou seu canto de pássaro.

O osso em trauma e uma névoa nos pensamentos.

Na pedra do rio uma criança.

Na praia os pescadores repetindo:

somos parentes e temos toda a vida para regressarmos à casa

- mas talvez uma vida não seja suficiente.


nuno g.

Toróró, 03 de agosto de 2022.  


sábado, 30 de julho de 2022

Ayê

Noêmia sonhou com os três porquinhos.

Assim me narrou Bernardo ao amanhecer.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem sândalo.

Penso em Ogum Beira-Mar.

Penso em Ogum-Iara.

Penso em Ogum Megê.

Penso em Ogum.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Assim como eu tenho a escuridão e a rutilância.

Ela me ensina uma foto de Francine.

Remoçada. Jovial. Renascida.

Me alegra a alegria dos que cruzei ao caminho.

Penso no Sétimo e no seu reino do sertão.

Me revelando seu nome em sonho.

E soltando gargalhadas de marfim e calcário.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem parafina.

O horror está em todos os lados.

Penso na Pombagira entoando canções ciganas.

Só a poesia importa - o resto o sol da morte dissolve todos os dias.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Assim como eu tenho uma infância mergulhada em mentiras e covardia.

Chove. Chove. Chove.

Chove e falta água nas torneiras e nas descargas.

Penso em Ogum e rezo à Adélia.

Quem sabe Ele também em sonho me revela Seu nome.

Todas as perversões entregues ao dicionário da noite.

A moça que vende café preto e mixto quente.

A moça simples que vende broas de milho.

Ser mulher é ser bruxa.

É trazer dentro a força que resiste à nadificação.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem espumas.

Ouço o Sétimo gargalhando no sertão.

Recordou o sonho em que me revelou Seu nome.

Recordo o hálito de cachaça, benção e proteção.

Soterrado vivo - meu coração dispara como um cavalo.

Meio-irmão dos raios, meio-irmão dos trovões.

Penso em Rimbaud - o poeta é mesmo um místico selvagem.

Avesso às amarras de qualquer doutrinação.

Entregue à semântica das tempestades.

Nas curvas que sobem a serra duas placas chamam a atenção.

Pastel do Alemão - em negro e vermelho.

Deus julgará a todos - em amarelo-ouro.

A cidade do Senhor de São Félix fica para trás.

Penso em Artaud entre os tarahumaras.

Buscando ressuscitar divindades em seu gélido coração.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Sonha com Miguel - como eu sonhei algum dia.

Chove. Faz frio. E falta água nos canos.

Meu Ori sente a irresistível atração do Orum.

O Ayê me quer aqui.


nuno g.

Toróró. 27 de julho de 2022.




segunda-feira, 18 de julho de 2022

Orum

para Serena Assumpção,

I.


Nasci em cidade nenhuma.

Nasci em um rio.

Entre ferros d'água e espelhos de pedra.

Nasci às margens e às avessas.

Como uma pluma sem cão.

Uivando em dialeto acalanto.

Nasci como nascem as ilhas.

Num instante de distração do rio.

Mãos dadas ao escuro.

Olhar posto à imensidão.

Nasci mil vezes em uma só vida.

No rio onde nascem todos os rios.

No rio onde nascem todas as ilhas.

No rio onde as águas estão em permanente estado de distração.

Às avessas. Às margens.

Como uma pluma sem a ferocidade do cão.


II.


Não quero mais estar aqui.

Mas sigo.

Penso nos meus filhos no Orum.

Penso nos meus pais no Orum.

Penso no Orum.

Mas sigo.

Entre mares de azeite e encruzilhadas de farinha.

Com a precisão com que se movem as ruínas de um engenho.

E sigo.


III.


Beira-fogo, sina, artefato.

Na minha morte meu corpo coberto de sementes e nada.

A matéria cega devolvida à terra.

E o meu espírito à imensidão.

Orum.


nuno g.

Cachoeira, 17 de julho de 2022.

domingo, 17 de julho de 2022

os lírios do cotidiano e os sonhos que os ventos trazem.

havia tendas - como nas caravanas ciganas que acampavam sob as oiticicas.

e quando acordei o sonho ainda estava lá - escorrendo em sua voz ao telefone

e se amalgamando às fotos do Velho 

que esperaram quatro décadas para chegar aos meus olhos.

havia um bebê - como no dia em que me levaram na mata para conhecer Miguel.

e quando acordei as tendas ainda estavam lá e sua voz escorrendo como óleo

entre as teias e as flores e as crianças.

havia tantas camadas de febre e esquecimento sobre as pequenas coisas do amanhecer

que parecia ser impossível qualquer despertar.

havia muita água doce e uma gargalhada sincera aprisionada numa garrafa.

havia tendas e fogueiras e alguém aprendendo as primeiras letras.

sua voz escorrendo no telefone, uma fotografia antiga e um arrepio à pele.

somos o que esquecemos e sangramos para que o nada não soterre o amanhã.

somos o sangue que derramamos sobre a terra.

somos também a terra onde se erguem as tendas.

e sim, no seu sonho ela era a mais bela das mulheres daquele rio.

ela te disse como se chamava e te entregou mais uma vez a infância de Maria.

quando acordei a foto estava lá - e nela todo o passado que me foi negado.

havia lírios, sonhos e águas doces.

quando pronunciei teu nome tua voz me chegou ao telefone.

só no óleo certas esperanças alcançam sobreviver.


nuno g.

Toróró, 17 de julho de 22.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

entre Serrinha e Santa Bárbara.

à margem esquerda da estrada

atrás, muito atrás, do brejo onde as garças pousam

o arco-íris se apresentou

e conversamos sobre todas as cores

uma suave distração

e obrigamos um caminhão verde a frear na subida

um cafezinho e entramos na cidade antiga

notícias do fascismo, bolo de milho, saudades

animais domésticos e uma bela noite

no outro dia a chuva

notícias de uma despedida

e as luzes de alerta sanitário piscando no céu

à margem esquerda da estrada

atrás, muito atrás, do horizonte que nossos olhos alcançam

pulsa uma força imensa que não sabemos nomear


nuno g.

Toróró, 11 de julho de 22,

sexta-feira, 8 de julho de 2022

a cabeça de touro e a igreja de Nossa Senhora da Conceição

Vazaram todas as águas.

Da bexiga de Alice.

Do radiador do pirata.

Um gordo numa moto nos guiou à oficina Edson & irmãos.

Passamos pela igreja suspensa.

Recordei da cabeça de touro enterrada ali.

E do gavião morto no asfalto na entrada da serra do Pereiro.

No porta-malas as mudas de oiticica.

O queijo, a nata, a paçoca, a manteiga da terra, o doce de leite e o Sonho.

A lembrança do serrote do Peixe onde não fomos.

E de todas as outras coisas que nunca aconteceram.


nuno g.

Icó, 07 de julho de 22.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Regresso à linha do equador

o mar levou pro rio

um presente pra mamãe Oxum

e o rio levou pro mar

um presente pra Yemanjá

Maria Alice

a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá

ossos frágeis e delicados e um sem-número de objetos outros

enterrados sob este chão:

escapulário de ferro

o prato fundo repleto de sangue

e o sonho dos dois caixões

a Gare de Astapovo

os pedreiros ateando fogo na cozinha

a chuva no Peixe Gordo

e o dia amanhecendo alaranjado nos olhos do jaguar enfeitiçado

ossos frágeis e delicados e um sem-número de objetos outros

enterrados entre as estrelas desta noite insaciável

a paz aqui é só uma palavra

fervendo entre outras palavras

mergulhadas no dicionário das placas tectônicas

e na larva que escorre entre as frestas

do túmulo de azulejos azuis 

que não existe mais

a lagoa da Caiçara repleta de aguapés, serpentes e eguns

que insistem em remar suas canoas

entre os ossos frágeis e delicados deitados na alvorada 

entoando esse coro insuportável

que rompe a harmonia das esferas

e ecoa nos cânions do Aquém e do Além

despertando a divindade asmática

e desnorteando os ponteiros da lazarenta memória

dos castiçais esfumaçados

dos aprazíveis licores

dos habitantes da cidade sem-nome

do arco-íris órfão ressuscitado

demasiadas coisas enterradas sob este chão

entre a escuridão imensa destas estrelas

o sangue do esquecimento atravessando as vértebras

de cada palavra que escrevo no ventre obtuso desta chuva

hálito tapuia & o rugido do sino da Catedral

carregados em liteira de marfim e assombramento

pelo vento Aracati que sopra desde as fronteiras do infinito

arrastando os raios da Senhora ao som dos címbalos que anunciam

a partida prematura dos deuses de ontem

e o inexorável atraso da chegança dos deuses do amanhã

o sol assenta sobre seu trono

sem que se saiba quem terá pés capazes de tocar o solo dos salões iluminados

onde as aranhas tecem e destecem os destinos

e as linhas-de-força encruzilhadas no moto perpétuo deste incansável rio

nesta maldita insônia, neste sagrado oráculo

a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá

no sinal de acesso à Barão do Rio Branco

um velho com uma guia de contas negras e azuis cruzando o tórax

exibe um papelão onde se lê em vermelho a palavra FOME

à esquerda um desses carros modelos naves espaciais

com bandeira pátria e adesivos com o nome do inominável

a palha, o mel e os olhos do Senhor das Estradas

recordando a guerra e os seus hinos

recordando o sonho do velho conde 

repousando em Iásnaia Poliana

entre ossos frágeis e delicados

e um sem-número de objetos outros

esparramados sobre as cinzas do quilômetro oitenta

a palha, o mel e os olhos ávidos e sinceros do Senhor da Estrada

se movendo no interior da cidadela inexpugnável da insônia

e nos caleidoscópicos labirintos do oráculo

a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá

o hino das águas e dos erês no açude do Bixopá

os unicórnios e jabutis dançando entre as corredeiras onde vivem os pitus da ilhota

canjica quente, pé de moleque, bolo de macaxeira, paçoca e vatapá de galinha

o hino das águas e dos erês apascentando as doces fúrias do Aquém e do Além

e a ternura impronunciável dos habitantes da cidade sem nome

a palha, o mel e os olhos ilegíveis do Senhor da Estrada

orando através de mim quando meus olhos leram outra vez a inscrição no jardim:

rua do meu pai - café negro, longo e amargo

se derramando sobre o azul-azul do céu do Iguatu

e entre as árvores do esquecimento 

onde repousam ossos frágeis e delicados

escapulários metálicos, pratos repletos de sangue

e os dois caixões do sonho

a clepsidra de vidro gira mais uma vez no quilômetro oitenta

e o daimon arcaico desperta de seu torpor

gravando entre as cicatrizes as recordações de antigas atrocidades

rua do meu pai - o jardim em tudo o mesmo

Iggy Pop vagando na domingueira eternidade de sua felina existência

o mel, a água doce, o sorriso

nos protegendo da ferocidade de Tempo

nos guardando dos abandonos que abandonamos antes da alvorada

entre ossos frágeis e delicados

entre um sem-número de objetos outros

enterrados entre as estrelas reluzentes

que seguem faiscando e vibrando

nos obscuros subterrâneos dessa terra onde as promessas nunca são cumpridas.


nuno g.

russas / fortaleza, 21 a 27 de junho de 2022.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

O caminho das almas ou o teleférico fantasmagórico

O óleo da caixa de câmbio vazou em Teofilândia

Atravessamos o deserto mais uma vez

No Ibó as sertanejas mãos de Jean voltaram a encher de óleo a caixa

As águas do São Francisco estavam mais calmadas que de costume

E todos falavam sobre a colheita das cebolas

As engrenagens da quinta marcha colaram definitivamente

As mãos sertanejas de Jean as arrancaram como quem arranca as vísceras de um pirata

Uma coruja de olhos esbugalhados seguiu caminho conosco

Alice falou do Bené e da Inaê

Mastigamos beterraba, couve e carne assada

O resto da viagem foi desapressada

E quando o sol se pôs já estávamos no meio da floresta do Araripe

Tomamos cumaru, fizemos uma fogueira

Brincamos de macaca e cozinhamos o milho que Luís plantou

Falamos sobre sonhos e sobre o Senhor da Vida e da Morte

Deayunamos frutas com aveia e café negro

Trezentos anos ou a eternidade

E nossos passos entrando no vagão do metrô

E nossos passos cruzando o coração da cidade sagrada

Os olhos do padre Cícero pousados sobre nós

Como as asas do gavião sobre o açude

Ou o clarão da lua sobre a noite imensa

Tomamos mais cumaru e conversamos sobre o pesadelo fascista que nos assola

Chico catou entre as ferragens as engrenagens da quinta

Recordei do velho Aranha e Alice falou sobre a Débora

Assistimos Tico & Teco, comemos baião-de-dois e pizza

O Velho nos abençoou com a palha

E pegamos outra vez a estrada rumo ao fantasmagórico teleférico do Caldas...


nuno g.

Crato, 18 de junho de 2022.

sábado, 11 de junho de 2022

oráculo.

Havia águas e serpentes

E ainda assim havia fogo e veneno

Foi antes do estopim da guerra

Foi depois do nascimento das mãos que erguiam casas com aéreos materiais

Havia fogo, águas, serpentes, venenos e metais

Com os quais se forjaram os três caminhos

E todas as sentenças da justiça

E ainda assim no sonho veio o que tinha de vir

E se fez carne e memória e habitou entre os cardeiros e a piçarra

E se fez memória do vermelho das flores dos cardeiros

E se fez memória do vermelho da poeira da piçarra

E se fez serpentes e águas

Fogo e veneno

Antes do cessar da guerra

Antes do amanhecer do escuro

Antes do sonho ser sonhado como tinha que ser sonhado

Antes das mãos modelarem os materiais aéreos

E erguerem a casa sertaneja

E o mítico coração da barca que navegar no mar

Havia uma guerra e mais coragem que argila

Havia um sonho e mais água que veneno

Havia um fogo e mais metal que entorpecimento

Havia o escuro e seus refúgios infinitos

Havia um sol, uma lua e uma estrela:

Três caminhos e todo mistério para além de qualquer esquecimento.


nuno g.

Toróro, 11 de junho de 2022.


terça-feira, 7 de junho de 2022

entre feiticeiros e despertencimentos.

chove sobre a colina sagrada

o frio penetra minha omoplata

sem pedir licença

acende a bursite

o chão de lama, escorregadio

e a cidade com seus paralelepípedos centenários

e sua ponte de ferro & ferrugem & tempo

os gatos invadem a casa

como os degraus da escadaria amarela

invadem os sonhos

chove sobre a colina sagrada

ao longe, a pedra da baleia e um saveiro

venta e no vento vêm vozes e mais vozes

de aquém, de além, de cima, de baixo da direita e da

esquerda da esquerda da

chuva que cai sobre a colina sagrada

da chuva que molha os centenários paralelepípedos

da chuva que afoga todas as coisas de ontem de anteontem

como a areia da sepultura da serpente

apenas os olhos expostos ao sol

o frio, a guerra, o parapeito de madeira e estrela

tudo se move como se movem as pedras

a cidade, o vento e as frutas pintadas a óleo

os gatos, o som da casa de farinha, tilintar de copos e nada

aos palmos medindo a distância de todas as órbitas

e cruzando o mundo como um trem mineiro fora dos trilhos

abarrotado de bugigangas


nuno g.

Toróró, 07 de junho de 22.


quinta-feira, 2 de junho de 2022

as águas do Jaguaribe

 para Dellany Oliveira,


todos os rios, o rio

e em seu leito de várzeas todos os sonhos

correndo em direção ao outro lado

como se a noite fosse mesmo um pássaro

e as estrelas seus ninhos

todos os rios, o rio

e em seu leito canoas, jangadas, saveiros

correndo em direção ao outro lado

como se os pássaros fossem mesmo noturnos

e a única forma de aplacar a sede

seguisse sendo beber o fogo

todos os rios, o rio

e suas nuvens correndo em direção ao outro lado

como se o tempo fosse apenas um calafrio passageiro

ou o osso de um mártir encontrado entre os lajedos

todos os rios, o rio

correndo entre o esquecimento e a loucura

e atirando flores nos despenhadeiros da chapada

todos os sonhos, o sonho

correndo entre o lodo e as pedras

como se a única forma de saciar a fome fosse jejuar ao sereno

amanhece na pedreira - o galo canta

Aracati chega, apascenta, acarinha

e canta devagarzinho antigas canções de ninar

sobre túmulos de azulejos azuis e vespas dançarinas

sobre árvores de raízes pardas e onças tão imensas quanto o coração da lua

todas as onças, a onça

Sussuarana chega, espreita e se vai

boqueirão de vertigens, caleidoscópio de estrelas

a força da tempestade, o som dos sinos,

o sangue das sete aldeias correndo pro mar

amanhece - devagarzinho

todas as noites, a noite

se enrolando como uma serpente colorida

entre as névoas que não se desfazem

e as promessas que não se cumprem

todas as águas nas águas deste rio

todas as pedras nas várzeas deste rio

todos os sonhos nos sonhos deste rio

um deus que dança e usa espada chega e assenta

desalvoroça, destorce, semeia ramas de tempestades

sorri e ascende

sete aldeias sangrando, uma cabeça de touro enterrada na vila do Icó

e o campanário da catedral atingido por um raio

o rio corre e com ele correm todos os rios

o rio corre e com ele correm todas as embarcações

o rio corre e com ele corre o meu coração...


nuno g.

Toróró, 02 de junho de 22.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

a fogueira do Senhor da Justiça

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas farei do seu fogo minha morada.

E guardarei junto aos lírios brancos que recebi.

A memória de como a serpente me salvou das lágrimas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas guardarei a história de Jó e seus ensinamentos. 

Sobre a vida, os escombros, os retalhos.

Junto ao beijo que nesse seio amanheceu.

Não guardarei dos golpes e punhaladas senão a memória da guerra.

E aquele fatídico hino que falava a língua das labaredas e das chamas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Serei o último a bailar no fogo.

Serei o último a caminhar sobre as brasas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas o guardarei comigo contra todo esquecimento.

Te entrego minhas cicatrizes e meu corpo destroçado.

Te entrego a alegria que me trouxe a serpente em seu barco.

Já tem milho verde na feira.

Já tem amendoim na feira.

Já tem lenha separada no terreiro.

Para acender teu fogo, minha morada.

Te entrego os lírios brancos e todas as minhas fraquezas.

Te entrego meu afogamento nas lágrimas do pai injustiçado.

Não pronunciarei teu nome, não sou digno.

Mas renascerei das cinzas e darei vivas à serpente.

Guardarei no coração do mar este fogo, minha morada.

E não mais permitirei que outra voz que não a do vento me alimente.

Guardarei teu nome não pronunciado.

Junto ao segundo beijo que nesse seio amanheceu.

Farei do teu fogo minha morada.

O habitarei como algum dia habitei as lágrimas.

E o alimentarei com os lírios brancos ainda úmidos de doces águas.

Guardarei a serpente e os cânticos em sua memória.

Guardarei suas cores e o ritmo em que navega seu barco.

Guardarei as nuvens onde ela fez morada.

Neste terceiro beijo que amanhece nesse seio.

Acende o fogo que ilumina o chão deste terreiro.

A sombra do semblante distorcido. 

E as plumas do gavião cicatrizado.

Guardarei a morte e sua memória sagrada.

Fonte da vida, foice de todas as iniquidades.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas farei do teu fogo minha sagrada morada.

O alimentarei com lírios brancos e doces águas.

Servirei com as mãos impuras o mel que recolhi nas encruzilhadas.

Guardarei seu nome no silêncio desta árvore.

Não sou digno. Só teu fogo saberá do que passou.

No silêncio desta árvore onde habita o Impronunciável.

Estarei sempre em guarda. Contra todo esquecimento que nos ameaça.

Serei eu mesmo a memória de todas as lágrimas.

Serei este fogo. Estes beijos amanhecidos nesse seio.

Serei eu mesmo a fogueira que será minha última morada.

Serei teu nome e nele arderá toda a ferocidade. 

E todos os vestígios de um jaguar em azul reencantado.


nuno g.

Toróró, 27 de maio de 22.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Ápeiron


Também tentei tocar com as mãos o indeterminável

E molhar com suor os círculos concêntricos das origens

E foi com os olhos, mais precisamente com os cílios

Que acariciei os círculos concêntricos dos fins

Sorri, quando seus lábios me falaram sobre desistências

& outras coisas impossíveis

Também tentei farejar a luz do esquecimento

& dizer o indizível

Abri os jornais e vi os bombardeiros russos e chineses sobrevoando os céus do oriente

Abri os jornais e vi os diplomatas chineses afirmando:

Tratamos lobos com espingardas

Fiquei imaginando como seria isso escrito em hieróglifo

Fiquei imaginando como seria isso escrito em ideograma

Fiquei imaginando como seria o mundo se não temêssemos a morte

Ouvi o som do escuro e separei a maisena, a vaselina, o suco de limão

Para preparar a massa de biscuit e modelar outra vez o infinito

Abri outra vez os jornais e vi os militares detalhando seus planos para os próximos anos

Orei a Anaximandro e em silêncio bebi o chá que me serviram as montanhas

Talvez essas nuvens guardem as formas da escrita 

Capazes de representar os círculos concêntricos do indeterminável

Orei a Anaximandro, repousei a cabeça na pedra delicada

E sonhei com a linguagem do infinito


nuno g.

25 de maio de 22.


domingo, 22 de maio de 2022

a menina que sonhava com terreiros

 para Gabriela Gonçalves & Larissa Gonçalves,


Eles somos nós

De uma maneira que a linguagem não alcança

Nenhuma linguagem

Nem a do corpo

Nem a da fala

Menos ainda a do pensamento

Açucena é um nome bonito

Cheira bem, soa bem, reverbera

Nós somos eles

De uma maneira que não alcançamos entender

Nem com nenhuma linguagem

Nem quando nos esvaziamos

Mas nunca estivemos realmente vazios

Estamos sempre entre uma ficção e outra

Mas quando sonhamos

Já não somos os mesmos

Já somos eles

E eles são o que somos

O vento chega, refresca e parte

O vento sempre volta ao mesmo lugar onde nasceu


nuno g.

Mata de São João, maio, 2022.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A sepultura da cobra e o salto da rã

 para Marialice,


Uma concha cor de esmeralda, uma pata de siri, uma estrela do mar

Crustáceos voadores, peixes com patas à luz da lama

Suave água amarelada - espelho da terra

As mãos de Ignez, as mãos de Alice

O sorriso de um peixe com patas e sombrero

Deixando cócegas para trás

Os olhos da cobra desenterrados

Para que ela veja o salto da rã

E o azul do infinito se derramando sobre o céu amarelo

Sob o olhar da Senhora de Roxo

E do dono do destino de todas as almas

Caminho não se esquece, sonho se semeia

Hoje nasceu uma nova árvore na antiga praia

Sob as bênçãos do pintor fugitivo de asas alaranjadas

E as graças do caranguejo perfumado de patas lilases

Caminho não se esquece, sonho floresce

E se colhe - como lírios selvagens entre os bambuzais

E os magníficos corais do Além.


A lua cheia iluminou a aldeia

E as pedras da sepultura da serpente

A lua cheia iluminou o mar que sempre esteve aqui

Acendeu os búzios de nossos contra-eguns

E o silêncio prateado nas folhas da árvore sem-nome

A lua cheia iluminou a aldeia

E os magníficos corais do Além.


nuno g.

Montecristo, 15 de maio de 2022. 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Teologia do Vento.

 O fogo é a lucidez, a parafina é o samsara.

Lama Padma Samten


Vinte e três caminhos movediços.

Uma serpente morta na estrada.

O sono, a lei, a melancolia.

Outra vez e sempre a rã saltitando na lâmina d’água.

Vinte e três movimentos em direção à Quietude.

Hacia o que se pode ver desde o cume das sete montanhas.

Ou ao que se pode não pensar quando silencia o monge zen.

Vinte e três espelhos ante o transcurso das horas.

Uma serpente morta na estrada.

O sono, a lei, a melancolia.

Outra vez e sempre a rã saltitando na lâmina d’água. 

Sete montanhas, um monge zen e vinte e três reverências à Quietude.

Ataraxia, a sombra nos guarda.

Nos bendiz, nos reza.

A sombra é desdobrável e assemelha-se a uma onça que ignora o amanhã.


nuno g.

Toróró, 12 de maio de 22.


segunda-feira, 9 de maio de 2022

O castelo da Rainha.


Tudo que não invento é falso.

Manoel de Barros

Foi para lá que ela me disse que ia antes de partir.

Quando chorou não o fez pela guerra, mas pelo pressentimento da vitória.

Havia tanto mel entre os vinte e três pássaros que a noite decidiu tardar além do previsto.

Cobra coral, o silêncio dos meus joelhos sobre o sangue de vosso sagrado chão.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

Curumim soprou com fé desde o bambuzal:

Não se celebra antes, sonho bom se desfaz.

Quando chorou não o fez pela guerra, mas pela intuição do sol.

Havia tanto mel entre as serpentes que choveu.

E quando Curumim soprou a flauta os sons de Uakti despertaram.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

Havia mel, demasiado mel, entre as pipocas.

Foi para lá que ela disse que íamos antes de partirmos.

Quando chorei não o fiz pela guerra, mas pelos cânticos que anunciaram seus propósitos.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

E as bênçãos da cobra coral caíram sobre nós como as águas do dilúvio.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

Curumim brincou com as estrelas.

Curumim brincou com a lua.

Curumim se lambuzou de mel e se foi.

Quando choramos não foi pela guerra, mas pela força do vento que soprava da flauta.

Não se celebra antes, sonho bom se desfaz.

E Xangô, finalmente, reinou soberano sobre todas as coisas.



nuno g.

Toróró. 09 de maio de 2022.

sábado, 7 de maio de 2022

Romantismo.

Vivemos uma ficção.

Estamos imersos num pesadelo.

O apocalipse deixou de ser um gênero literário.

Convertido em horizonte histórico avassalador.

O fascismo assumiu o comando do relógio do tempo.

O que nós buscamos se afasta de nós como o azeite da água.

A relação entre terror e realidade foi equacionada pela perversão.

Não escutamos. Não entendemos. Não vemos.

E os gritos de nossos sonhos já não nos flecham.

Quando as mãos sem cor apertaram o gatilho não puderam esquecer meu choro.

Olhei dentro do armário anos a fio o semblante dela.

E suas pernas torneadas e seu corpo esbagaçado na calçada.

Ainda assim permanecia bela e inviolável, soprou o coveiro. 

Voltamos à ficção.

Mergulhamos uma vez mais no pesadelo.

Os submarinos, as armas nucleares e a falência psíquica.

Quando as ruas foram cobertas com folhas de maniva.

Quando choveu meteoros uma última vez.

Quando a perversão tornou-se o equalizador da canção do terror e da perversão.

Paramos de sonhar. Paramos de entender. Paramos.

E ainda sem escutar ou sem ver a fantasia persecutória prosseguia.

Os disparos, o salto e a teia de mentiras.

O que buscávamos se afastando como o azeite da água.

E os mortos em silêncio trabalhando em prol da incertidumbre.

Nas cidades invisíveis da floresta negra o sol atômico e as películas de culto.

As pernas torneadas entre as peças de antiquário.

O balé de delfines no deserto do Atacama.

Os gritos de nossas flechas já não sonham.

Só a montanha impávida e colossal saberá nos mover daqui.

O tempo desintegrará todos os relógios.

E os subterrâneos da terra voltarão a sorrir.

Só os que morreram muitas vezes saberão nos guiar para fora do pesadelo.

Só os que conhecem a terra dos mortos saberão restituir ossos ao corpo da realidade.

Só os que falam a língua dos pássaros e das nuvens entoarão canções de amor e utopia.

O balé de flores sob o asfalto derrotado.

E os afetos que nos atravessam como quando entendemos 

que também os apocalipses guardam em segredo seus mais indecifráveis propósitos.


nuno g.

06 de maio de 22.


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Sonhos



Para Akira Kurosawa



Alta noite, o elefante subiu o rio na canoa.

Passarinho veio bem perto e olhou muito dentro.

Tão dentro que corpo se fez rio.

O Velho veio todo de branco.

Como os grãos de milho que seu braço arremessara em direção à pedra.

Um laço de cipó amarrou os pesadelos todos.

O Velho veio e me abraçou demoradamente.

Amanhecendo, o sol ainda despontando.

Uma lágrima escorrendo com medo dos pesadelos amarrados no laço.

Uma lágrima escorrendo com a alegria retida do abraço.

O Velho se foi. Todas as palavras ditas esquecidas.

Apenas a lembrança do abraço.

O medo dos pesadelos amarrados no laço.

E uma pequena alegria saltitando como uma rã sobre a lâmina d'água.



Nuno g.

Toróró, 05 de maio de 2022.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

mistério das águas e do tempo

tudo é pressentimento e intuição

os passos dos mortos que sobem e descem as escadas

o arco-íris que não se apresenta depois da tempestade

e a luta incessante e feroz entre a carne e a carne

tudo é pressentimento e intuição

os olhos da fera que habita a casamata

e o silêncio, rude e vago, que percorre os entrevãos da sombra

tudo é pressentimento e intuição

a memória, o caminho, a febre

não há outro selo que não seja o da infecção

não há outra via que não seja a da ascensão

por todos os lados o horizonte se estreita

ricos vestidos de ricos se comportam como ricos

enquanto os sábios regressam às selvas e com as mãos em formas de conchas

bebem uma vez mais a límpida água que corre nos rios

o tempo nos atravessa como uma flecha

miríade de flechas e cavalos castanhos

tudo é pressentimento e intuição

nada é em vão - o morto que aqui habita

procura uma boca que lhe abrace a voz

tudo é pressentimento e intuição

a chuva afaga a terra

os ricos se olham como ricos e se pensam ricos

nada lhes basta, nada lhes conforta, nada lhes pertence

os sábios regressam - sempre recordando as dificuldades inerentes a todo regresso

a luta incessante entre o espírito e o espírito

e os paralelepípedos da cidade mágica permanecem inalteráveis

a culpa, o pecado, a cisma

a chuva outra vez e todas suas indistintas promessas

tudo é pressentimento e intuição

nada é em vão - nem o medo, nem a tempestade

o solilóquio dos sábios é composto de música, delicadeza e abruptas revelações

tudo é pressentimento e intuição

a chuva afaga a terra, os olhos do cintilante se fecham,

tudo é turvo, tudo é ascensão:

tudo é pressentimento, tudo é intuição.


nuno g.

Toróró, 28 de abril de 22.


terça-feira, 26 de abril de 2022

asa cálida.

Não creio em coincidências, ou melhor, as desacredito desde antes de acontecerem.

Hoje encontrei uma asa seca no Livro de Adélia.

Os tijolos de minha humilde habitação vão resistindo bem à umidade do primeiro inverno.

Assim como meu Sonho vem resistindo às cento e oitenta mutações de estações.

Meu ombro ainda dói, é certo.

E entre espirros e animais de estimação vamos inaugurando cores.

A mulher que dorme ao meu lado traz a razão no corpo.

E ainda quando bate o vento desconheço-me.

Não desacredito de crença nenhuma.

Quatrocentas e quarenta e sete vezes neguei a mim mesmo.

Nem por isso temo algarismos graúdos.

Um peixe roeu o travesseiro.

A minha dor no ombro é nada ante a ferida do ombro de Cristo.

Sou pálido, antigo e azul.

Ao mesmo tempo.

Como aqueles mapas dos livros de história.

Desconfio severamente que a morte não existe. É um embuste, uma artimanha, um artifício.

O vento proclama e sussurra.

Simultaneamente.

Alguém afagou a parede do convento.

E ela amanheceu ardendo:

Laroyê - pixado em vermelho.

Como o sangue que infla a coroa do pênis.

Levei as crianças à escola.

E tornei a pensar na Senhora de Roxo parindo todas as coisas.

A erva acabou, a chuva passou e os cães estão infectados com carrapatos.

Estranha alegria descortinando a semana.

Quebramos um prato no alvoroço do despertar.

Água, gengibre, mel e alho.

Balneária e incorruptível solidão.

Os astros bailam, meu coração também.

Este cemitério onde semeio flores de São Miguel.

Uivo e existo em sua memória.

E o Cavaleiro da Lua se apresenta com seu séquito de Senhores.

A mulher ao meu lado traz a razão entranhada no corpo.

E quando goza vira terra e calmaria.

Suportar o caminho, refazer os atalhos.

Regar o silêncio dos mortos com café amargo.

Instaurar silêncios sobre os ruídos da relva.

Não creio em coincidências.

Desacredito da morte.

Entre a pixação do convento e a asa seca entre os versos de Adélia

tudo é Sonho, Pressentimento e Ruminação.

A mulher acorda.

Me beija a boca e me diz:

os mortos conhecem todas as línguas...


nuno g.

Toróró, 25 de abril de 2022.



sexta-feira, 22 de abril de 2022

hoje,

um casal de maritacas descansou no galho da mangueira

anteontem uma cobra passou também

Beth Carvalho deu aula

a bursite doeu.

e doeu. e doeu. e doeu.

você ardeu e me ardeu junto.

como se tudo agora fosse parte daquele amanhã

ou como se tudo que está acontecendo sempre estivesse acontecendo

você moveu coisas estacionadas desde há muito

um casal de maritacas descansou no galho da mangueira

a bursite doeu e doeu e doeu

a cobra se foi sem dizer quando volta

Beth Carvalho deu aula

os cães latiram

e nós ardemos.


nuno g.

toróró, 22 de abril de 22.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A dieta do Aroettowaraare

Moela de galinha e fígado por três dias.

Treze de macaxeira à vontade, cozida sem sal.

Vinte e quatro horas de pura água.

Farinha, carne de caça, tabaco e pariká.

Café à exaustão e sol.

Lama e coração de galinha.

Fogo fátuo.

Treze dias de macaxeira à vontade.

Vinte e quatro horas de pura água.

Carne de galo de guerra e prece.

Três dias de jejum e silêncio.

Banho, coragem e despedida.

Outra vez os cílios da morte e as feras do corpo.

Outra vez a imensidão da cegueira.

Até que a flecha cruze o roxo.

E todo o passado seja destituído de forma, conteúdo, sentido e função.


nuno g.

Toróró, 12 de abril de 22.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Psicologia de uma paisagem

Primeiro veio o infiltrado.

Veio de longe, muito longe.

E apagou o rastro das distâncias que percorrera.

Bateu a cabeça e morreu.

Seu corpo se dissolveu em pura música.

Em seguida veio o bebê.

Órfão.

Bateu a cabeça e morreu.

Depois vieram as águas.

Levaram os peixes e as redes dos pescadores.

Voltamos à aldeia.

Às mesmíssimas ilhas de pedras onde nasceram

o mausoléu, as sombras e a encruzilhada.

Fizemos uma grande fogueira no centro do mundo.

Banhamos em sal e ervas os colares e as coroas.

Voltamos à aldeia.

Ao mesmíssimo montículo de areia e solidão onde nasceram

as fúrias, a angústia e as aflições.

Choveu sete dias sobre o reino.

E só então entendemos o que a serpente nos dissera

sobre o nunca, o vazio e o nada.


nuno g.

Stella Maris, 10 de abril.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Hermenegildo

Hermenegildo cruzou outra vez o meu sonho.

Seu cavalo ainda era o mesmo.

Apesar da lança do tempo que agora trazia ao peito.

E ao despertar quase nada recordei.

Somente a conversa entre a minha tristeza e a tristeza de um amigo.

Numa praça onde quando colônia se vendiam escravos.

Um chafariz jorrando águas e machados.

E a memória de um céu amarelado por ondas vulcânicas.

As mensagens da morte nos chegando.

E Hermenegildo seguindo seu caminho.

Com seu cavalo e suas preces manuscritas.

Ainda era em tudo o mesmo.

Apesar da lança do tempo que agora lhe atravessava o peito.

Como um arabesco servindo de ponte.

Ou uma lua nova mergulhando entre o cruzeiro e as três marias.

Havia certa palidez em meus gestos.

E o sentido das coisas parecia para sempre perdido.

Entre os sedimentos porosos e as ruínas ósseas.

Uma leve brisa reacendeu meu cigarro.

E os sapos saltaram sobre as folhas de cartolina.

Não existe atalho. A ideia de salvação é um ato falho.

O laço, o chicote e as corriqueiras hesitações.

Apesar de tudo, Hermenegildo e seu cavalo seguiam sua jornada.


nuno g.

Toróró, 07 de abril de 2022.

terça-feira, 5 de abril de 2022

lírios brancos

chove sobre os séculos que me habitam

e sobre essa infinidade de objetos desconhecidos que me povoam

o entardecer nunca foi tão amarelo quanto ontem

e o laço nunca foi tão preciso e amoroso

chove sobre as dúvidas e aflições que me respiram

e sobre essa infinidade de estranhos afetos entre as ferrugens

o entardecer nunca foi tão roxo e sincero quanto ontem

e o chicote vibrou com a perfeição que exige todo mistério

todo poema é um tratado teológico

e a metafísica é um biscoito doce que se serve com café

fizemos spaguetti com ternura, josefinas, azeitonas e tomates

comemos no jardim com as mãos

olhando esperanças e louva-deuses

enquanto o laço e o chicote traçavam círculos concêntricos

sobre nossas cabeças

sobre nossos desalinhados cabelos

sobre nossas velhas roupas coloridas

Ele veio de longe e nos tocou com suas plumas de arara

percorremos uma vez mais nossas árvores genealógicas

guiados por seu sonho até a fronteira

onde seu avô buscava armas e oxigênio para a sobrevivência

a metafísica é um café amargo que se serve com biscoitos

a onça parda, a pintada e o maracajá

todos rezando sob as lágrimas de Oxalá

os tempos em que vestíamos negro desaparecendo no firmamento

e o gavião pairando sobre nossas delicadezas eróticas

pego um fósforo, acendo o cigarro

brinco de medir as distâncias entre o beijo e o escarro

ao contrário de Suassuna

que escrevia para espantar a morte

escrevemos para não esquecê-la

para sempre recordar que um dia ela chega

raios e tempestades sobre o que somos

e o que somos é sempre o último que nos chega

aos pés da Árvore nossos desejos mais sublimes

e todas aquelas imagens que brotam do pós-apocalipse

nenhum mal dura mil anos

todo poema é um tratado sobre nudez e eternidade

quem me sopra estes delírios com coisas reais?

quem acende entre minhas frestas estas súbitas intuições?

imprecisas inquietações que me flecham

e outras aparições inesperadas

tua avó cozinhando quirerinha

tua avó lapidando diamantes

tua avó fritando bolinhos caipiras

e o vento soprando do infinito

enquanto minhas mãos misturam o suco de limão ao açúcar mascavo

sonhando com os lírios brancos que colheram nos bambuzais...


nuno g.

Toróró, 05 de abril de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

Antropologia II.




Talvez não fossem as falésias de Icapuí.
Talvez fossem os despenhadeiros de Mar del Plata.
Cuscuz com ovo e tapioca com queijo.
Um cheiro que só essa cidade tem né papai!
A vela dos santos.
A vela dos mortos.
Os incensos.
Domingo se encompridando feito cobra que acorda.
O vestido da Inaê.
Um cheirinho que só os bebês têm né papai!
Domingo se encaraminholando feito cobra que anoitece.
A falta que faz um bebê ou um ferro de engomar.
Nem o sabão desencardiu a roupa de reza.
Batem as portas.
Batem as janelas.
Têm muita gente morta que anda comigo.
Adélia Prado também disse dos bebês que são velhinhos.
Adélia disse bonito como eu jamais diria.
O livro em que ela disse se chama:
Quero minha mãe.
Não era Icapuí.
Não era Mar del Plata.
Era a avenida Conde da Boa Vista.
Minha mãe não estava imóvel.
Nenhuma paz lhe habitava.
Seu corpo sem vida no asfalto.
Adélia outra vez:
A morte não existe, tudo gera.
Hermenegildo passou a cavalo.
Os bebês são mesmo os velhinhos que voltam.
Os que morrem regressam à floresta.
As portas batem.
As janelas também.
O vento tange essa procissão de mortos que andam comigo.
Em algum lugar eles seguirão me aguardando.
Com as mãos órfãs estendidas.
E uma tristeza irresistível no olhar.
A morte não existe, tudo gira.
Quase esquecemos os terríveis peixes pré-históricos.
O terror acende náuseas e esquecimentos.
Lembrar que existe uma praia chamada piedade me sufoca.
Ter vivido numa praia chamada futuro me agoniza.
O terror ilumina.
Balanço a rede empurrando o pé na parede de rústicos tijolos.
Esperando que a cobra entorpeça o desespero.
Hermenegildo passou de volta.
Existem feitiços que não podem existir sem sal.
Os bebês são muito mais velhos que nós.
A tristeza só pode ser o que é quando irresistível.


nuno g.
Cachoeira, 03 de abril de 2022.

antropologia.

Estávamos à beira de um penhasco muito alto.

Estávamos contentes e saudáveis.

Não nos comunicávamos.

Nem por palavras, nem por gestos.

Nem por quaisquer outros meios.

O penhasco era muito alto.

As falésias de Icapuí, talvez.

E no fundo uma água transparente.

Peixes pré-históricos ameaçadores.

Estávamos numa singela varanda.

O horizonte era imenso.

E nele se anunciava um arco-íris.

Uma queda seria fatal.

Estávamos imóveis e em paz.

Meu abdômen encharcado de abandono.

Aquele mesmo abandono que você com tanta razão detesta.

pai, quando eu corro muito

       quando eu brinco muito

       minha perna dói

filha, ainda quando eu não corro

         ainda quando eu não brinco

         todos os os meus ossos doem

Acordei bem e razoavelmente amoroso.

Algum dia teríamos que saltar no precipício.

Algum dia teríamos que nadar entre os ameaçadores peixes pré-históricos.

Éramos crianças não contaminadas por infantilismos.

Uma máquina de costurar havia costurado nossos corpos.

Estávamos imóveis e em paz.

Acorrentados à paz.

E nada sabíamos uns dos outros.

Nada além das linhas com as quais a máquina de costura nos costurara.

O penhasco era muito alto.

O horizonte era demasiado extenso.

Talvez estivéssemos em alguma das falésias de Icapuí.

Talvez.


nuno g.

Cachoeira, 01 de abril de 2022.

domingo, 20 de março de 2022

A estrela da montanha

O sol nasceu em Caçapava

Minhas mãos giraram lentamente a clepsidra

E o ontem despontou como horizonte

E o amanhã foi ficando para trás

Nos cobraram muitos pedágios

Até chegarmos ao cume da montanha

Até tocarmos as pétalas da estrela da montanha

Até sentarmos nas memórias que as pedras daqui guardam das pedras de lá

O sol nasceu em Lumiar

E outro Nuno, paraibano

Me estendeu as mãos lentamente

Apenas o som de pássaros e da clepsidra girando

Entre bambuzais e poços de água corrente e refrescante

E outro Nuno, pernambucano

Assumindo seu trono celestial

O buda gigantesco às margens da rodovia que cruza o Espírito Santo

Os peixinhos famintos da parada do Natureza

Os filhos de santo vestidos de branco

A ponte, o hino e o grito de guerra

Ansiedade, risos, doces árabes

Os cães, os gatos, a casinha na árvore

Xadrez, corpos encharcados de saudades

O violão encostado à parede

Benjamin, no parquinho, cobrando:

Quem é o pai de Deus?

Salve Lumiar, viva o Caminho

Saravá são José operário, 

Saravá.


nuno g 

19 de março.


quinta-feira, 17 de março de 2022

Serpentes, flautas, amendoins

Maria sonhou com uma serpente cor de areia

Magnólia me esperava as onze

Onze-e-meia, talvez:

Tio Nuno, sabia que é carnaval

e carnaval é uma festa dos deuses?

Que deuses Magui?

Os orixás

Lembrei de Nanã

Inaê chamou o mar e o mar veio

Lembrei de Nanã

As primeiras palavras que Iara nos disse:

A cachoeira de mamãe Oxum

Lembrei de Nanã

Ele nos esperou na UPA

Trazia uma criança no colo

E estava inquieto e falante

Ele dormiu conosco no acampamento

Sonhei com meu tio

Chupávamos picolés de limão

Sentados numa jangada de pedra

Éramos Ifá e Iroko

Maria confundiu são Vicente com são Sebastião:

Papalino, é aqui que a Francine mora agora?

Recordei Nanã no centro da floresta

Junto ao recém-nascido Miguel

E a serpente cor de areia tomou forma de arco-íris

E subiu aos céus.

 

nuno g.

Lumiar, 16 de março de 2022. 


segunda-feira, 7 de março de 2022

Asas pra que te quero, por Gaeth Castanheiro

Foi de repente

Nem era mais primavera

Mas havia flores no quintal

Havia pássaros passarinhando

Um passinho orquestrado de folia

Até cabia, era carnaval

Até pirata na pirataria

Seguia um passeio em sua nau

Saudade à vista !

Gritou a capitã em plena capitania

Que mania de só querer voar !

São três passarinhos fazendo ninho

Em todo cantinho da terra e do céu

Tudo bem se tem sol se tem chuva

E se tem mel

Passarinhos e flores

Sempre amanhecem no meu quintal


Gaeth Castanheiro