quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Reencarnação III

Artrose precoce.

Gabriel vaticinou: Assucena e os cães, banda punk.

Assucena e os cães românticos!

O cantador das cousas do porão e seu canto torto feito faca cortando a carne do amanhecer.

Vamos almoçar o quê?

Pode escolher, 

Qualquer prato de qualquer país do mundo que eu busco os ingredientes no fundo do mar.

Artrose precoce. Tendinite. Fé.

O peso do mundo sobre o meu ombro.

O peso do mundo sobre a minha cabeça.

A poesia e essa vaga memória das cousas que não vivi.

A voz de Cristian ao telefone.

A voz de Zaine ao telefone.

O sonho do Recife. O elevador dos funcionários. A esquina.

Os insuportáveis vizinhos da praia de Boa Viagem.

A estranha recordação de quando eu tinha apenas seis meses na praia de Piedade.

Os cães românticos e o horizonte...

Reencarnação II

para bia,


Uma xícara de café amargo e vaga lembrança de tia Helma.

Mucuripe à voz do cantador das cousas do porão.

Seus cabelos loiros em Olinda e suas palavras e todas as suspeitas pulsando em meu coração.

Dona Antonia regressou dos exames e alçou a bandeira branca no terreiro.

O pé de seu Antonio segue cicatrizando devagarzinho.

Cobra de olho de vidro e escamas coloridas.

Val plantando feijão. Nato brincando com Assucena.

Alice lendo poemas sobre sorvetes e decepções.

Teu pai tá doido!

Doido nasci, sou.

Quarta-feira, de hoje a oito cinzas.

Quarta-feira, ventanias ciganas e fogos da justiça.

As vésperas me comovem e me reviram por dentro.

Uma xícara de café, uma gata no cio, nuvens tangendo fevereiro.

Ignez não foi às classes.

Vi uma foto de Bia com Inaê ao colo.

Senti saudade imensa e vontade de estar junto um segundo.

Ela também está envelhecendo!

Tem só três anos a menos que eu...

Luís desce a ladeira da casa do Almirante.

Vento e fogo / fogo e vento.

A primeira oferenda a Tempo, a última também.

Bel lava as louças e seu Elias caminha em direção ao infinito.

O rio nos olha, maré baixa, ilhas expostas como esqueletos de um lagarto sem plumas.

Rinoceronte norte-coreano cruzando a estrada.

Serpente de olhos de vidro e coloridas escamas.

Vi uma foto de Inaê no colo de Bia.

Senti imensa saudade e vontade de estar junto um minuto.

Ela está envelhecendo.

Dois filhos, professora dedicada e muita vida escorrendo entre os cabelos...

Reencarnação.

Alice e Ignez descobriram que são peruanas.

Irmãs separadas no berço.

Assucena sonha enquanto Jonas, a lagartixa, rumina desacontecimentos.

Sonhei com Recife mais uma vez.

Elevador dos anti-sociais, vizinhos bêbados e uma socialite insuportável.

Esquina do Nada com o Nada.

Lari sonhando com a força do parto, com a força do sexo, com a força do amor.

Vozão estreiou com vitória na copa nossa.

Papai, nas próximas encarnações quero ser:

Gato da Francine.

Cachorro do tio Claudio.

Vaca na Índia.

O carnaval está chegando e nada recorda isso.

Alice e Ignez descobriram que Santiago é colombiano.

Mas que não está preparado para saber.

Os homens tardam mais, se demoram, divagam.

Os primeiros quarenta anos são somente para abrir os olhos.

Alice sonha.

A hora da terapia de Lari se aproxima como Jonas se aproxima da cumeeira da casa.

Filha, em alguma reencarnação passada fui um indío tapuia no vale do Jaguaribe.

Vi os colonizadores chegarem.

Estive quando da traição e das emboscadas.

Recordo a cabeça de touro enterrada sob a igreja da Virgem na cidade do Icó.

Papai, você tem mesmo esses olhinhos indígenas...

Entrou um espinho de jurema no meu calcanhar.

Alice improvisou uma pinça com duas facas e o extraiu.

Assucena sonha.

E Hermenegildo nos sorri da estrada.


nuno g.

Toróró, 07 de fevereiro de 2024.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Promessa.

para Lari y as Marias,


Aqui não é Macondo.

Aqui não é Comala.

Aqui tudo é sonho, ossos e pressentimento.

Aqui tudo se torna água e rio.

Aqui tudo é pedra e memória da pedra e do fogo.

Aqui o amor reina soberano e canta e dança.

Aqui tudo é cura e perdão.

Aqui o esquecimento não encontra chão.

Aqui tudo é Luz e a sombra das sombras encontra seu caminho.

Aqui todas as cicatrizes ganham formas belas.

Aqui o pesado se dissolve e as nuvens brilham e cintilam e se transfiguram em saber.

Aqui a morte nos abraça como uma velha amiga.

Aqui os deuses se encontram e celebram à maneira antiga.

Com seus vinhos, seus mistérios e seus oráculos.

Aqui toda a maldade é varrida pelos ventos.

Aqui a beleza reina soberana e canta e dança.

Aqui ofertamos milho branco, inhame e mel.

Aqui reverenciamos nossos ancestrais.

Aqui os perdoamos e com eles comemos com as mãos.

Aqui Tempo reina e suas árvores crescem e dão frutos.

Aqui não existe chão para o esquecimento.

Aqui tudo é cura e perdão.

Aqui o desespero se encontra com seu caminho e o labirinto deixa de existir.

Aqui é Luz, sonho, ossos e a imensa imaginação das ruínas.

Aqui é casa e terra firme.

Aqui tudo é despertar e amor e amor e amor e ternura.


nuno g.

Toróró, 02 de fevereiro de 2024.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Adélia.

Lua minguante no céu.

Alice e Ignez brincando.

Assucena dorme.

Tão difícil fazer versos, mas eu sonho.

Além dos nossos gatos os dos vizinhos.

Que vão ganhando nomes também.

Salem, Romeu...

Quando digo minha asa está ferida a tenossinovite quase faz sentido.

Palavra assentada na pedra - e vou caminhando no labirinto de Larissa.

Lua minguante no céu.

Larissa dorme.

Amanhã Assucena toma vacina de meningite.

O pé de seu Antonio vai melhorando devagarzinho.

Doutor Epitácio quer ver mais um exame antes de dizer sua palavra.

Domingo tem festa.

Barcos e flores na pedra da Baleia.

Palavra assentada em pedra submersa.

Tão difícil fazer versos, mas eu sonho.

Rio de maré, deuses que dançam, memória das serpentes.

Do Rosarinho ao Toróró as coisas sedimentando por dentro.

Abismo em forma de cidade.

Outro dia sonhei que aqui era o Crato e que Cachoeira ficava na Chapada do Araripe.

Tudo era bonito e perigoso.

E caíamos e caíamos e caíamos.

Até no sonho minha asa esquerda dói.

Acordo, escrevo e já estamos em fevereiro.

Mês em que Alice volta a viajar.

Terá carnaval para quem é de carnaval.

Meu vizinho me fala de Paracuru.

À oeste do meu coração sopra um vento frio.

Lua minguante no céu.

Adélia, me ensina a escrever como tu!

Hermenegildo, reza minha dor!

Hilda, mãe, abençoa minhas crias.

Luto é palavra que guarda ternura.

Casamento soa perfumado, bonito e perigoso.

Quase como amor, passarinho e praia de rio.

Em março as aulas voltam.

Em março Alice viaja de volta.

Hoje jantamos acarajé.

Olhei as estrelas - Bilac nunca esteve entre os que me atravessam.

Cozinhamos ossos de boi e pés de galinha para os cães.

E o feiticeiro nos acenou de longe.


nuno g.

Toróró, 01 de fevereiro de 2024.

domingo, 28 de janeiro de 2024

Ode a Hermenegildo

 à memória de Augusto dos Anjos,


Pina, a gata, arranha a casca da jurema preta.

Um barco sobe o Paraguassú com filhos-de-santo saudando com palmas as águas.

A tempestade se foi, não se ouvem mais os trovões.

Embora as nuvens sigam reinando nos céus.

Seu Antonio feriu o pé com espinho de roseira.

Uma voz distante nos abraça e promete alguma ternura antes dos dias de folia.

Um vento suave vem do Himalaia e leva algumas pesadas formas-pensamentos.

Mistérios Sussuarânicos, pássaros de Hermenegildo com metais no bico.

Pássaros de Hermenegildo com minerais no bico.

Uma canção na voz Gaeth soprando paz e paz e ternura e paz e fécula de alimentos e paz.

As Marias se conversam.

Alice traça uma genealogia sem-fim com Clarice.

Como se cem anos de solidão não fosse mesmo suficiente.

Assucena sorri e seu sorriso me fala do trabalho de todos os seres que a trouxeram até aqui.

Larissa sonha com a força pura e potente do parto.

Larissa sonha com o mais intenso e cintilante do parto.

Larissa sonha e em seu sonho o próprio parto está se parindo.

O gavião do Montecristo nos visita.

Um vento suave do Himalaia o traz até aqui.

Que nunca falte mel em meus olhos.

E que quando a tempestade voltar eu ainda esteja aqui.

Eu, Hermenegildo e seu estranho cavalo com asas de rinoceronte norte-coreano.


nuno g.

Toróró, 28 de janeiro de 2024.


 

sábado, 27 de janeiro de 2024

hino à poesia II

 à memória de José Alcides Pinto,


Anônimo, o gato, descansa protegido da chuva à sombra do limoeiro.

Flutuo sobre a loucura e o delírio de gerações e gerações de psicanalistas.

Flutuo sobre o cinismo, a ironia e a descrença contemporânea.

Invoco espadas antigas, amuletos perdidos, orações em línguas desconhecidas.

Flutuo sobre as visões desnorteadas dos medos imaginários.

Sobre o mar de ruínas e destroços.

Sobre o sangue das civilizações antigas e suas bibliotecas desaparecidas.

Flutou sobre a dor, a solidão e as cicatrizes do abandono.

Invoco Fúrias, Musas e outros seres de outros mundos.

Invoco a Estrada e seus tentáculos de Sabedoria.

Garfield, o gato, descansa protegido da chuva no tapete rosa da sala.

Invoco minhas próprias forças desconhecidas.

Para que semeiem uma nova paz e uma nova lucidez e uma nova utopia.

Flutuo sobre o fim do mundo.

Sobre os vestígios do fim do mundo.

Sobre as galáxias em gestação enquanto esse mundo desaparece.

Invoco alfarrábios, fragmentos de estrelas e luzes subterrâneas.

Estudo novamente as cores e os signos.

O uivo de Allen Ginsberg e a inteligência descomunal borrifada por Kerouac.

Retomo minhas anotações sobre minha própria estadia no inferno.

E vou movendo meu corpo apodrecido entre as águas vaporosas do Jorro.

Reaprendo com os pássaros a me alimentar de sementes.

Invoco o Sol. Invoco a Claridade que desfaz os gestos das sombras fantasmagóricas.

Invoco o Anjo que me acompanha desde o berço.

Escuto a Voz de minhas filhas escorrendo entre as frestas de minha desértica imaginação.

Escuto a Voz das cem mães que tive nesta encarnação.

Escuto o berro bravo de meu pai.

Acaricio cada ferida sua.

Extraio de seu corpo as balas que o levaram para longe.

Ouço o vento do Infinito. Ouço Aracati. Ouço as Onças.

Invoco Tempo. Rogo paciência.

E adormeço como se nunca nada houvesse ocorrido.

Como se a máscara de gelo e fogo fosse apenas uma forma do pensamento.

E torno a flutuar sobre os gatos e suas esperanças.

Sobre a chuva e seus segredos.

Sobre os temores e suas iras.

Invoco ao que traz o poder de dissolver o corpo velho e restituir a saúde.

Escuto a Voz de minhas filhas e adormeço quase em paz.

Como um planeta ilusionado pela abrupta sensação de ter reencontrado sua órbita originária...


nuno g.

Toróró, 27 de janeiro de 2024


hino à poesia.

à memória de José Alcides Pinto,


Sou feito de Sonho e Solidão.

Minhas vestes são as águas das chuvas.

E a poeira escura que escorre do voo cego dos vaga-lumes.

Nada em mim recorda as cinzas do esquecimento.

Tudo é noite e escuridão no manto azul estrelado com que teço minha pele.

Sou o Sol de mim mesmo que se estende desde as várzeas sertanejas às praias coloniais.

Sou feito de Promessas e Horizontes.

Minha nudez é a do deserto do altiplano andino e das mesetas mexicas.

Quando meus olhos encontraram os olhos de Mama-Quilla na fortaleza inexpugnável de Sacsayahuaman.

Quando Wiracocha criou com barro e amor o Sol a Lua e as Estrelas.

Quando os primeiros sacrilégios feriram a crosta da Terra e dos Oceanos.

E os fervores tóxicos do ódio escaparam das entranhas do Mundo.

Minha nudez se revelou em toda sua fragilidade de ossos em precoce envelhecimento.

Sou feito de Fé e Esperança.

Tudo em mim é tremor. Sou o Grande Cenote onde Walt Whitman recebeu seu corpo-revelação.

Sou a Morte, a Doença e a Cura.

Os movimentos do abismo insondável e as ruínas da civilização do Caldeirão e Canudos.

Sou feito de Sonho e Solidão.

Sob as visões da Ayahuasca da Codeína do Ópio e da Morfina.

Vi meus joelhos sangrando de tanto chão.

E os meus mortos peregrinando em louvor ao Padre Cícero e à Virgem de Guadalupe.

Vi meus dedos se esticando como caudas de seres pré-históricos.

Vi a Virgem da Conceição semeando Luz nas águas doces do Jaguaribe e do Amazonas.

Sou feito de Lírios Brancos e Papoulas Brilhantes.

Sou o Sono que antecede a Eternidade.

Sou o Nada e a imensa vastidão que nos separa de nossa própria Consciência.

Minhas vestes são as pedras que caíram dos céus.

E a poeira escura que escorre do voo cego dos vaga-lumes.

Nada em mim recorda o cinzento esquecimento.

Tudo é Azul, Noite e Escuridão.

Tudo é um só e único manto estrelado que nos cobre a cegueira e o desespero e a insanidade.

Sou feito de Sonho, Silêncio e Solidão.

E da poeira escura que escorre do voo cego dos vaga-lumes...


nuno g.

Toróró, 27 de janeiro de 2024.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Jacinta.

Nomeei minha dor: Jacinta.

No meio de uma trovoada.

Ausências voando entre as gotas d'água.

Beija-flores se refugiando nos cabelos das Marias.

Batizei minha dor: Jacinta.

E dois homens vestidos de branco chegaram.

Fizeram coisas que tinham a fazer.

O mais velho, cabelos e barba grisalhos, guiava a limpeza.

O mais jovem, imberbe, executava e aprendia.

Não levantei da cama.

Observei.

*   *   *

Papai, prefiro lembrar dele vivo.

Papai, a Magui e o Bené devem estar sofrendo.

Chorou, me abraçou e foi brincar com a Ignez.

Papai, ele era muito legal.

Papai, você gostava muito dele.

Sorriu e foi brincar com a Ignez.

Sim filha, foi ele que foi me buscar no Recife quando sua vó suicidou.

Sim filha, foi ele que foi buscar o corpo de sua vó no Recife quando ela virou lua.

Sim filha, foi ele que do púlpito da igreja matriz de Russas deu voz à minha dor quando seu bisavô morreu.

Sim filha, foi ele que me mostrou tantos livros quando eu ainda buscava nos livros o que a vida não podia me dar.

Sim filha, foi ele que leu em voz alta para mim o "poema em linha reta" que me fez amar meu destino torto.

Sim filha, foi ele que me disse as palavras mais sinceras quando defendi a tese de doutorado que escrevi com você no colo.

Sim filha, a chegada dele era todos os anos um acontecimento.

*   *   *

Os homens vestidos de branco partiram.

Papai, eu te amo.

A trovoada seguiu.

Jacinta aqui - se não me mata te escrevo.

Assucena me chama. Os analgésicos finalmente fizeram algum efeito.

As águas lavam tudo, menos as mentiras que assassinaram minha infância.


nuno g.

Toróró, 26 de janeiro de 2024.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Alzira

para minhas mães da terra,

para Eliana, minha mãe do Astral,


Acenderam três velas minhas mãos trêmulas.

Na primeira, a intenção do Sol.

Na segunda, a intenção da Lua.

Na terceira, o parto de todas as estrelas.


Acenderam três chaves perdidas.

Na primeira, uma surra de cinto pelas trêmulas mãos de meu avô.

Na segunda, um labirinto antigo onde se perdem todos os futuros.

Na terceira, a cegueira a cegueira e a cegueira.


Acenderam todas minhas fraquezas as mãos súbitas do Mensageiro.

Meus medos mais arcaicos, mais sutis e mais imaginários.

E nesta floresta onde estão plantadas as portas do Monastério das Flores Selvagens.

A memória de Alzira se fez fogo e saber sobre a Tempestade.


nuno g.

Toróró, 11/01/24.

Hermenegildo

 para Adriano Brito,


O dia amanheceu nublado,

O dia amanheceu em paz.

Maria me fez um carinho e me disse:

papai, amanhecer e paz são a mesma coisa.

Hermenegildo me soprou:

Eu venho de longe, você também.

A dor da tendinite e a dor da guerra são linhas do mesmo arco.

Eis a flecha, aqui.

Na hora em que chegaram a pedra e seu Senhor cantavam a Inaê.

A dor e a guerra se mesclavam como a água e a água.

Dona Eliana, com sua face renovada em mel, esteve aqui uma vez mais.

Choveu pipocas e recordei antigos sonhos.

Ian, meu pequeno, descansa em paz.

As águas do Jaguaribe levando o espírito de Dellany.

Saudades de Adélia. Saudades de Judite. Saudades de não sentir dor.

Minha energia vital decantando na quartinha.

A dor e a guerra se estendendo pelo tendão inflamado.

Maria me fazendo carinho e me dizendo.

Papai, daqui a pouco você estará curado.

Recordando aqueles sonhos em que os degraus da escada desmanchavam como sorvete ao sol.

Recordando aqueles sonhos em que a ponte se dissolvia como a luz das estrelas no espaço.

Me afastando de mim, da dor, da guerra e das memórias de minha pele.

O ferreiro. O caçador. A senhora dos ventos.

E brilhando acima de todos nós a Senhora da Lama Roxa.

A faceira de luto. O rosarinho de luto.

E a memória da guerra contra os tapuias no vale das onças.

E a memória da guerra contra os palestinos em Gaza.

E a memória dos fascistas invadindo Brasília e os meus sonhos.

Reconhecer na dor uma mestra, difícil e árdua tarefa.

Hermenegildo entre as nuvens.

Essa ponte que somos entre um sonho e outro.

Entre um corpo e outro.

Entre uma morte e um nascimento.

Maria foi dormir na casa de Ignez.

Me fez um carinho e me disse:

Papai, estou com piolhos outra vez.

Rego Assucena esperando a flor.

Não há ainda arco-íris no céu, não é seu tempo ainda.

Suo. Tremo. Balanço.

Bruno me fala do amor divino.

Adriano me canta o amor divino.

Os gatos traquinam pela casa.

A dor me leva à exaustão, uma vida inteira andando descalço pela fronteira.

Hermenegildo se despede, passarinho que é, avoa.

Hermenegildo se despede, peixinho que é, nada.

Assucena dorme. Maria se faz estrela e brilha.

A dor no meu ombro se espalha pelo meu tendão.

A guerra de Tempo se alastra pelo meu agora.

Sentado à Pedra espero.

As portas do Monastério das Flores Selvagens permanecem fechadas.


nuno g.

Toróró, 11 de janeiro de 2024.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Natal, 2023.

para tio Edson, Bruno e todos os teólogos da libertação,


Os nazi-sionistas bombardeiam Belém.

O mundo celebra o nascimento do Palestino.

Aqui não faltou nada.

As crianças, os sorrisos, as comidas, o presépio e a Árvore do Mundo iluminada.

Os gatos também cearam.

Os cães também. 

Os pássaros cantaram.

Houve brinquedos, abraços, carinho e alegria.

Enquanto os nazi-sionistas bombardeavam Belém.

Enquanto os poetas de Gaza recitavam seus poemas de amor, firmeza e vida.

Enquanto os miseráveis da terra cumpriam sua condenação.

Aqui a lua quase-cheia brilhou no céu.

E nas dobras do seu brilho os gritos dos condenados da terra.

E nas dobras dos seus gritos o estrondo das bombas sobre Belém.

O Palestino segue sendo o mártir dos mártires.

Em seu sangue a promessa da redenção.

Aqui os estrondos foram os dos fogos pirotécnicos.

Em Gaza as bombas sobre hospitais, escolas, crianças e Marias.

Aqui comemos em abundância.

Sem esquecer a fome dos mutilados da Cisjordânia.

Os nazi-sionistas passarão.

A memória do Palestino não.

Os nazi-sionistas passarão.

Os poemas de Dom Pedro Casaldáliga não.

Maria Assucena sorriu, brincou e cansou.

Fez tanto xixi que uma lagoa se formou debaixo da rede.

Maria Alice sorriu, brincou e não cansou.

Trouxe tanta alegria que o rio, a Árvore e os olhos do Jaguar se encantaram.

Enquanto os nazi-sionistas seguiam bombardeando Belém.

Nunca a carne do mito foi tão presente.

O mundo-ocidente se esconde, se acovarda e silencia.

Enquanto os nazi-sionistas bombardeiam as crianças de Belém.

Sim, dezembro é o mês em que todas as feridas ardem mais.

Sim, dezembro é o mês em que a Estrela que guiou os Magos da Antiguidade volta a resplandecer.

Os nazi-sionistas passarão.

A Estrela, os Magos e a memória do Palestino não.


nuno g.

Toróró, 25 de dezembro de 2023.

domingo, 17 de dezembro de 2023

o joio e o trigo (súplica & agradecimento)

Sonhei com uma guerra infinita.

As sete espadas forjadas por um ferreiro africano.

E a voz e os dedos e o desespero implacável de meu avô.

Sonhei com a sabedoria dos bêbados e a cegueira dos assassinos.

Só em deus a luz translúcida.

Só em deus a pura escuridão amorfa e indefinida.

Aqui, tudo é rio e em todo rio a água se turva.

Se mistura a todos os líquidos e corre em direção ao mar.

A única exceção é essa cidade.

Onde o rio corre ao contrário e os sonhos nos possuem acordados.

Sonhei e entre o temor e a veneração depositei meus joelhos ao solo.

Curvei minha cabeça ante as nuvens.

E esperei o tempo da Serpente e da Árvore.

Anunciarei uma vez mais a promessa e o dilúvio.

Escrevi um palimpsesto breve.

Sobre coisas que nunca aconteceram.

Sobre livros de areia e garatujas indecifráveis.

Sonhei com uma guerra infinita.

Com o alcoolismo inevitável de verdades e espinhos.

Saltando sobre a saudade de meu avô.

Sonhei com lírios brancos acesos entre outras ervas.

E com cachoeiras anteriores a meu nascimento.

Amanhã será outra vez tempo de festa.

As sete flechas forjadas por um ferreiro africano.

Eram também os sete raios da anunciação.

Agora é tempo de descansar.

Lavar os pratos, cuidar da limpeza dos lençóis, cozinhar bem os alimentos.

Enquanto a Serpente e a Árvore vão movendo os sedimentos.

Abrindo túneis entre o Nada e o Nada.

Sob a terra, luz e escuridão se amalgamam.

E todos os rios na fervura de meu sangue.

Sonhei com os olhos em brasas do Jaguar.

Olhando a lua.

Olhando o rio.

Olhando o Trono forjado pelo ferreiro africano.

Amanhã será outra vez festa de Tempo.

Amanhecer de carnes e incensar de ossos.

O que é meu e o que é do mundo.

Unidos e separados.

Como o que é homem e o que é cavalo.

Nos centauros da Tessália.

O que é meu e o que é do mundo.

Nessa guerra sem trégua de sonhos e túmulos de azulejos azuis.

Nessa praia de gaviões onde avistei o horizonte.

Flechas, espadas e arcos coloridos.

No interior profundo da mata sombria trabalha um ferreiro africano.

E, aos seus pés, curvo minha cabeça em devoção.


nuno g.

Toróró, 17 de dezembro de 2023.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Hermenegildo.

Hermenegildo passou antes do sol nascer.

Sua silhueta a cavalo recortou a paisagem.

Me deu bom dia com voz de rio.

Hermenegildo, perfumado de alecrim e azeite.

Com seus olhos de facão e foice.

Abrindo o caminho de volta à terra arrasada.

*  *  *

Hermenegildo passou e o sol nasceu.

Sua voz de rio estancou ante meu amanhecer.

E com as ferramentas suas fui abrindo o caminho.

Hermenegildo me soprou um silêncio frio.

E me apontou com o olhar as três Marias ainda no céu.

Outra vez a hora de inventar um dialeto para bendizer.

*  *  *

Reza em mim que eu te perco da salvação.

Judite e Adélia cruzaram o caminho.

Alguém serviu um prato de comida aos deuses e outro aos cães.

A lua, minguante e terna, desapareceu atrás da serra.

Reza em mim que eu te salvo da perdição.

Sonhei com o sal, o mar, a sede e o corpo de Larissa.

Ela estava mais velha e eu ainda era um menino.

Nossas Marias haviam seguido viagem.

E nossos corpos celebravam todas as passagens.

*  *  *

Reza em mim e chove que essa seca já muito tarda.

Hermenegildo pronunciou o nome de Miguel sobre os maturis.

O rio está bonito hoje - na voz noturna de Larissa o tempo girou ao contrário.

Amanhã nossas Marias estarão juntas novamente.

Nas matas sombrias e no esverdeado coração das águas.

*  *  *

Suportar a dor extenuante.

Abraçar as brasas que não se extinguem.

Reza em mim e o sol se fará dicionário para a cura e para a morte.

*  *  *

Reza em mim e me rega com fogo.

Todas as estrelas no olhar de Hermenegildo.

Sonhei com Larissa coberta de sal e vestida de azul na praia do Montecristo.

Envelheci tanto que me tornei mais jovem do que o dia em que nasci.

O tempo se enrodilhou nos seus cabelos encaracolados.

Semeou serpentes e arco-íris entre eles.

E um vento de quarta-feira nos recordou nossas Marias.

*  *  *

Sentamos numa pedra.

Avistamos o Gavião.

Reza em mim e será como se me rezares eternamente.


nuno g.

Toróró, 13/12/2023.

domingo, 10 de dezembro de 2023

a dor que habito - canção de fim de ano.

Haverá um tempo em que tudo será diferente.

Não será amanhã, nem depois de amanhã.

Não haverá mais luto no coração da pedra.

E as nuvens poderão descarregar os sonhos que guardam.

Haverá um tempo em que todos os temores serão imaginários.

Não será amanhã, nem depois de amanhã.

E nós que aqui estamos não mais aqui estaremos.

Mas nossas sombras e nossas sedes e nossas fomes seguirão presentes.

Haverá um tempo em que tudo será distinto.

E a palavra encontrará seu próprio eco.

Assim como hoje o escuro encontra o escuro.

Haverá um tempo em que luz será uma metáfora gasta.

Não será amanhã, nem depois de amanhã.

Os raios abençoarão a terra.

Destruirão os castelos.

E as crianças se banharão nos rios outra vez.

Haverá um tempo em que os periódicos serão substituídos por poemas.

E que traduzir lágrimas será considerado algo honrado e honesto.

A justiça deixará de ser o que é agora.

E o conhecimento dará passagem à Sabedoria.

Velha senhora, amiga-irmã da morte.

E, de mãos dadas, as duas caminharão pela cidade vazia, esgotada.

Dezembro, às vezes, é o primeiro mês do ano.

Mas também é o tempo em que ardem com mais intensidade as feridas.

Haverá um tempo em que olhar para trás será mais que um mero exercício aeróbico.

E que o horizonte estará mais próximo do alcance de nossas línguas.

Haverá um tempo em que os sonhos nos guiarão pelo mundo.

Que o vento da tempestade varrerá com força nossa cegueira.

Nos sentaremos à mesa e comeremos o que nossas próprias mãos prepararam.

Haverá um tempo em que árvores e presépios tornarão a ter sentido.

E a Sabedoria, velha senhora, amiga-irmã da morte.

Vestida de roxo e de realidade.

Nos abraçará como se a dor nunca tivesse sido nossa primeira e única habitação.


nuno g.

Toróró, 10 de dezembro de 2023.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Agô!

para Lari,


O sangue dessa cidade sabe a dendê.

E sua cor é a da dor.

Aqui, muito se medita quando se sonha com machado ou fogo.

Eguns, ladeiras, ebós, encruzilhadas.

Aqui muito dói toda memória.

O sangue dessa cidade sabe à dor.

E sua cor é a do azeite.

Aqui, muito se medita quando se sonha com palha ou água.

O cheiro dessa cidade arde.

Orixás, Inquices, Voduns e Caboclos.

Aqui, muito se medita quando se sonha com serpente ou arco-íris.

Aqui muito se medita antes de esquecer.


nuno g.

descendo a Serra de Muritiba, 27 de novembro de 2023.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

O sonho de Hermenegildo

Hermenegildo sonhou que era pássaro.

E, como todo pássaro, aprendeu o medo de quebrar a asa.


Quando o sol se põe Maria entristece, encabula.

Não pela noite que é, desde sempre, sua melhor amiga.

Mas pelo banho que se avizinha.

Ainda com os aromas dos chás, Maria não.

Hermenegildo sonhou que era beija-flor.

Botou o barco nas águas.

E voou.


nuno g.

Toróró, 27 de novembro de 2023.

sábado, 25 de novembro de 2023

Lonjuras.

Caminhamos até o Rio do Corte.

Nome bonito para dizer o lugar onde águas e navalhas se confundem.

Os tambores de São Luís e os atabaques da Rua da Feira no mesmo vento.

E o coração tão distante quanto disparado como uma segunda pele.

A luz à carne sonâmbula despertando.

Hermenegildo cruzando a montanha em chamas.

E os lábios pronunciando uma nova palavra.

Nome bonito para dizer o lugar onde morte e cura se confundem.

Adélia com seu vestido de missa e sábado.

E os dois cães rezando a Tempo e passagem.

Janeiro já chega com seu vento e seu rio.

E as onças dos sonhos sabendo à mais-realidade.

Árvores me começam.

Árvores me semeiam.

Árvores me devoram.

E vão me desensinando a ser humano.

A se libertar das folhas, das penas e dos primeiros grãos.

Judite cruzando a montanha em chamas.

Tempos de três sóis para cada ser.

Horizonte estreito, fenda na foz onde nasce a larva.

O som do choro de Maria antes de nascer.

A relva onde caminhará entre fogos e águas.

Serpente que é - à frente outra Maria.

Depois do fim do mundo ainda a incerteza sobre o que é o antes da lâmina ser rio ou navalha.

Os indíos todos aqui.

Dançando. Dançando. Dançando.

Como se as nuvens fossem uma bebida ofertada pelas divindades.

Hermenegildo, sempre ele, mergulhou nas águas (ou seria sangue?) do Rio do Corte.

E o sol nasceu por detrás do pasto da Maria Preta.


nuno g.

Toróró, 25 de novembro de 2023.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Atabaques.

Tardei, mas.

Me vieram as forças e a permissão de roçar as asas daquela noite.

A mulher ao meu lado razão e leite e perfume de.

Paisagem da janela na voz do Caçador de Si.

Todos os fogos explodindo à beira do rio que é todos os rios.

23 de novembro - nunca mais um dia qualquer.

Azia. Serenidade. Clamor de chuva.

Adélia, Hermenegildo e o inventário das coisas que sabem a pássaros.

Sobre sementes e árvores e baús onde se guardam artefatos explosivos.

Tardei, mas.

Eles eram muito mais antigos do que tudo o que até então chamei de antigo.

Eram arcaicos e enigmáticos.

Tremiam. Abraçavam com muita força. E nos fizeram leves.

Nos ensinaram o necessário.

Se desfazer das folhas, se desfazer das penas, se desfazer das máculas.

Tardei, mas.

Voltei a sentir o fio de prata me atar à terra.

De tão terra que eram soavam como nuvens.

Traziam a morte e a vida dentro. Traziam o Silêncio.

O Impronunciável.

Corpos-montanhas.

Já faz tempo, mas não esqueço.

Estão nessa razão e nesse leite da mulher que ao sofá amamenta agora.

Estão nessas árvores que crescem.

Estão em tudo que recorda esse 23 de novembro.

E dessa paisagem da janela aberta pela voz da onça verdadeira os vejo.

Os sinto. Os reverencio.

E a Eles rogo: razão, leite e afeto sem máculas.

Tardei, mas.

Voltei a sentir o fio de prata que me ata à terra.

E agora posso roçar de leve o que ocorreu naquela noite.

E, finalmente, ouvir a voz poderosa e sedutora da morte.


nuno g.

Toróró, 23 de novembro de 2023.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Anaeróbicos.

para Larissa & Gabriela,


Testemunho, enredo, caminho, seguimento.

Os povos que vivem na ausência de ar.

Que se reproduzem na ausência de ar.

Que se realizam na plena ausência de ar.

Difícilmente se revelam aos olhos dos povos de Ar.

Quase nunca se deixam ver pelos olhos dos povos de Fogo.

E nunca se permitem ser tocados pelos povos de Água.

Os anaeróbicos existem.

Como os arco-íris ou as plantas carnívoras.

E embora pareçam absurdos nada neles difere de tudo que existe.

Trazem a marca de estar aqui como todos.

Os afetos maculados.

A sombra do Karma.

A suspeita sobre o destino.

E a anomalia da memória que recorda coisas não-vividas.

Testemunho, enredo, caminho, seguimento.

Rio que corre em busca de um nome.

Vento que sopra em direção à sua própria origem.

Onça que quando canta redesenha todo o cosmos.

Os povos da Terra são os únicos com quem os anaeróbicos conversam.

E o conteúdo dessas conversas é de um sigilo vulcânico.

Usam palavras de larva em seus diálogos.

E quando se movem o fazem como se fossem placas tectônicas.

Dos nossos medos conservemos apenas os imaginários.

Testemunho, enredo, caminho, seguimento.

Sonhar com onças é sempre bom presságio.

Seja qual for a cor em que elas se apresentem.


nuno g.

Toróró, 22 de novembro de 2023.

sábado, 18 de novembro de 2023

Oráculo da Onça Parda

à posta do sol

em torno às brasas

palavras girando

kaftas de Beirute

um galho quebrado

renascendo ao sabor das águas

bistecas de porco e linguiça apimentada

palavras girando

Maria Flor à casa da árvore

um galho quebrado

renascendo sob a férrea vontade do fogo

severo chão

e + kaftas de Beirute

palavras girando

vento trazendo histórias de lonjuras

Moçambique, Cisjordânia, Uruguay

à posta do sol

Maria Assucena ao colo da lua

olhando a lua no céu

em torno às brasas

palavras girando

Maria, Maria, Marias...


nuno g.

Toróró, 18 de novembro do ano de 2023 da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, Além.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Efêmeros em palavras efêmeras, por Mahmoud Darwish

1.

Vocês que passam com palavras efêmeras,

levem seus nomes e vão embora

tirem suas horas do nosso tempo e vão embora

roubem à vontade do azul do mar e das areias da lembrança

tirem fotos à vontade, e assim vão saber

que não hão de saber

como uma pedra da nossa terra constrói o teto do céu.


2.

Vocês que passam com palavras efêmeras

de vocês vem espada, de nós vem nosso sangue

de vocês vêm fogo e aço, de nós vem nossa carne

de vocês vem outro tanque, de nós vem pedra

de vocês vem a bomba de gás, de nós vem chuva.

Um mesmo céu e um mesmo ar nos cobre

peguem seu quinhão do nosso sangue, mas vão embora

entrem no jantar dançante, mas vão embora

temos que zelar pela rosa dos mártires

temos que viver como a gente quer!


3.

Vocês que passam com palavras efêmeras,

como a poeira amarga, passem onde quiserem, mas

não passem entre nós como insetos com asas

temos o que fazer na nossa terra

temos trigo a criar e regar com o orvalho do nosso corpo

temos o que a vocês aqui não agrada:

temos pedra... e perdiz!

Levem o passado, se quiserem, ao mercado das quinquilharias

devolvam, se quiserem, o esqueleto do passarinho ao prato de porcelana.

Temos o que não lhes agrada: temos o futuro

temos o que fazer na nossa terra.


4.

Vocês que passam com palavras efêmeras,

soquem seus dramas num buraco abandonado e vão embora

voltem atrás o ponteiro do tempo até o bezerro sagrado

ou até o disparo ritmado do revólver!

Temos o que a vocês aqui não agrada, então vão embora

temos o que por dentro vocês não têm:

uma pátria que jorra um povo que jorra uma pátria

que combina com esquecer e lembrar.

Vocês que passam com palavras efêmeras,

é hora de irem embora

de morarem onde quiserem, mas não entre nós

é hora de irem embora

de morrerem onde quiserem, mas não entre nós

temos o que fazer na nossa terra

aqui temos o passado

temos a primeira voz de vida

temos o presente, o presente e o que está por vir

temos o mundo aqui e temos a outra vida

saiam da nossa terra, do nosso deserto, do nosso mar

saiam do nosso trigo, do nosso sal, da nossa ferida

de tudo

saiam das lembranças da nossa memória,

vocês que passam com palavras efêmeras.


Mahmoud Darwish.

tradução: Alexandre Facuri Chareti, Beatriz Negreiros Gemignani, Camila Alcântara, Renata Parpolov Costa, William Diego Montecinos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Ode à Cachoeira

Existem cidades que são somente cidades

Lugares onde as pessoas vivem

Outras cidades são prólogos, prefácios, pequenos pressentimentos

Existem cidades que são somente lugares

Onde as pessoas vêm e vão

Como as algas marinhas

Ao sabor das marés

Outras são como oráculos encravados à flor da terra

Nos recordando quem somos, de onde viemos e para onde vamos

Existem cidades que são feitas de fogo e água

Nelas não habita o acaso

As esquinas gritam e sussurram a depender de coisas que nos escapam

Existem cidades que são somente cidades

Onde os sonâmbulos caminham

Outras acendem escuros e abrem túneis debaixo da crosta do corpo

Existem cidades que são só passagem

Outras são ancoradouro de rios e galáxias

Existem cidades onde tudo é espera

Lugares onde tudo que acontece recorda a presença do Nada

Outras são todas elas presságio

Reminiscências do mistério que nos acompanha desde o berço

E memória profunda da morte que nos aguarda.


nuno g.

Toróró, 12 de novembro de 2023.

sábado, 11 de novembro de 2023

O monstro Zack. (série poemas para crianças - 02)

Era uma vez um monstro chamado Zack

Ele era roxo, todinho roxo

E as crianças o chamavam de monstro porque ele devorava todos os bichinhos

Ele comeu os bichinhos da floresta

Ele comeu os bichinhos do deserto

Ele comeu os bichinhos do mangue, dos rios, dos mares

O monstro Zack veio do reino do Nada

E antes do arco-íris desaparecer ele atravessou o portal

E assim chegou no reino da Magia

As crianças do reino da Magia ficaram muito tristes

Pois não havia mais bichinhos pra elas brincarem

Então elas se reuniram e decidiram salvar os bichinhos

Agarraram uma lança com a ponta muito afiada

E furaram o bucho do monstro Zack

Saiu bichinho pulando pra tudo que é lado

E as crianças voltaram a brincar e a sorrir

Entre os bichinhos havia um verdinho verdinho como as algas de açude

O nome dele era Saudade

E desde aquele dia ele anda aprontando traquinações no reino da Magia


nuno g.

Toróró, 11/11/23.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

O navio. (série poemas para crianças - 01)

Havia um navio encalhado no mar
Do aterro da praia se via o navio
Ancorado em seu próprio peso
Havia uma aranha que andava sobre as águas do mar
A aranha ia e vinha
               vinha e ia
Da praia ao barco
Do barco à praia
E trazia as pontas das patas branquinhas
Da cor do sal da espuma do mar
No barco havia uma girafa de asas alaranjadas
E uma zebra com uma língua de fogo
Ou talvez fosse o contrário
Uma girafa com língua de fogo
E uma zebra com asas alaranjadas
Haviam outros animais que não recordo
E outras cores além do verde do mar
Atrás da praia uma coluna de prédios
Árvores de concreto feias e autoritárias
Insistindo em tentar apagar as histórias mágicas do mar
Era uma vez um navio com animais africanos
Encalhados no mar de Iracema
E um índio sentado na praia sonhando
No sonho do indío uma aranha com as pontas das patas branquinhas
Andava sobre as águas do mar
Ia e vinha
Vinha e ia
Do barco à praia
Da praia ao barco
Escrevendo histórias mágicas do mar
Sobre navios, animais, cores, espumas, asas
E outras palavras da bonita língua do mar

nuno g.
Toróró, 08/11/23

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A chuva. (série poemas para crianças - 00)


Nasceu uma chuva dentro de mim

Uma chuva sobre uma ilha

E dentro da chuva nasceu uma borboleta

Uma borboleta nadando num lago bravo

Em meio a um vale algo mágico

E nas pupilas da borboleta nasceu uma flor

E na cavidade da flor nasceu uma luminosa ilha

Uma ilha onde choviam chás de ervas

Alfazema, camomila, arruda, alecrim

Benjoim e outras ervas que nasceram entre os raios

Da chuva que chovia na ilha

Nasceu uma chuva dentro de mim

Um jaguar correndo no meio da chuva

Um jaguar cruzando um largo rio

Um jaguar proseando com borboletas e flores

Nasceu um jaguar dentro de mim

E nas pupilas do jaguar duas luas

Uma cheia, outra nova

E dentro dessas luas se ouviam canções de ninar

Tão perfumadas quanto a alfazema

A camomila, a arruda, o alecrim


A flor pousou na asa da borboleta

Kakituramba choveu chá de benjoim

E novas águas nasceram dentro de mim


nuno g.

Toróró, 07/11/23

domingo, 29 de outubro de 2023

os cemitérios de Ouro Preto

Bruno nunca pode esquecer nossa pereginação aos cemitérios barrocos.

O que sim ele esqueceu é que também fomos ao mosteiro budista.

E à casa do rasta que cultivava ervas sagradas.

Isso faz tempo, muito tempo.

São reminiscências que me povoam.

Como aquele show do Arrigo Barnabé.

Ou a alegria nos olhos de Malu se preparando para ir à fliquinha.

Enquanto o gavião pousou no horizonte de Gabriel.

A lua está aqui - como esteve em cada cemitério de Ouro Preto.

E depois de depois de amanhã é finados.

O caracol vem chegando sem pressa.

Estávamos em Minas. 

Terra de Milton, onça verdadeira, voz de deus, cio da terra.

Assucena acorda.

Adeus mosquiteiro / pulgas e carrapatos vão brincar no chiqueiro.

Também recordo Bruno fazendo a família parar a ouvir Bob Marley.

Reminiscências de um futuro tão distante e tão próximo.

Enquanto as bananas da terra cozinham e piso no pilão a canela.

Romeu é um gato educado e cheio de charme.

Alice o batizou assim.

Meu avô, seus cigarros e um copo de whisky.

É o único que me chega daquelas fotos do Recife.

O resto é névoa e neblina.

O resto é escuridão e a triste farsa dos que temem a morte.

A lua, o gavião, a serpente e o cio da terra na voz de Milton.

Adeus mosquiteiro / pulgas e carrapatos vão brincar no chiqueiro.

O Velho em forma de pássaro alaranjado.

O medo do medo de Gabi soprando na brisa do amanhecer.

Alice ensaia ensaia ensaia.

Já será Senhor dos Mares empunhando tridente entre barcos piratas.

As bananas estão cozidas / A canela feita em pó.

Finados está chegando - eu e minhas ruínas e o amor ao mistério.

Adeus mosquiteiro / pulgas e carrapatos vão brincar no chiqueiro...


nuno g.

Toróró, 29 de outubro de 2023.


sábado, 28 de outubro de 2023

lua cheia.

hoje é lua cheia.

Na Cisjordânia camponeses são assassinados enquanto colhem azeitonas.

Assucena conheceu dona Antônia.

E eu fiquei olhando como se olhavam.

As duas extremidades do arco.

O silêncio atravessando a troca de olhares como uma flecha.

Meu coração disparado.

Céu quase tão azul quanto o de Durango ou o de Iguatu.

Banhei Assucena com alfazema.

Minha mãe selvagem está com água nos pulmões.

Acendi uma vela para ela.

Por sua saúde e sua firmeza.

hoje é lua cheia.

Na Cisjordânia fascistas assassinam camponeses enquanto colhem azeitonas.

Finados se aproxima como um caracol, lentamente.

Não esqueço a flecha.

Não esqueço o arco.

hoje é lua cheia.

Meu coração disparado.

Maria Alice ensaia ensaia ensaia.

Domingo que vem ela será Tritão no teatro.

Será pai por primeira vez, depois de onze anos sendo filha.

Meus olhos marejam.

Estou velho, cansado e solitário.

Tenho a poesia. 

Tenho essas Marias que o astral me concedeu para me guiarem.

Tenho essa Senhora que me ensina com suas mãos de Lama.

Tenho essa Senhora que me lava os olhos com mel.

Tenho essa certeza que não fosse a poesia não estaria aqui.

Ainda assim haveria um colono enforcando um camponês enquanto colhe azeitonas.

hoje é lua cheia.

Desde sempre dona Eliana Gonçalves.

Toda luz e radiância no meio do céu.

Como essa pedra no meio do terreiro.

Como os olhos de Assucena no centro dos olhos de dona Antonia.

Como Maria Alice no meio do palco do teatro.

Como a razão e o leite no centro do corpo de Larissa.


nuno g.

Toróró, 28 de outubro de 2023.

Dádiva.

Adélia sabe dizer das coisas de deus - carrego essa força comigo.
Escrevo com Assucena no colo.
Escrevo com Alice no colo.
A mulher que traz a razão no corpo agora também traz leite em si.
Hermenegildo passa com o olhar perdido na outra margem do rio.
Onde a montanha queima criminosamente.
As cobras, os pássaros, os tatus, os lagartos encontram a morte.
Alguns conseguem escapar e caem nos telhados das casas de São Félix.
A estiagem segue. Rego as plantas antes de escrever.
O Senhor do Fogo me exige ser todo justiça.
O Senhor da Pedra me exige ser todo firmeza.
A mulher que traz a razão no corpo desayuna uma canja de galinha.  
Adélia sabe dizer coisas que eu não sei - carrego esse amor comigo.
Cleonice passa na estrada falando de sua roça.
Judite passa na estrada falando de sua égua.
As duas pisam no mesmo chão onde pisara Hermenegildo.
Sylvia Plath escreveu sobre o caçador de mamangavas e eu chorei depois que Alice partiu.
Ela escutou o conto com atenção e em seguida foi brincar junto ao fogo.
Assucena teve um dia difícil.
Muitas são as agruras do encarnar.
Estar aqui exige muito.
Leite, razão, colo, fé.
Penso em Jó todos os dias.
E quando o Cavaleiro passa cantando meus nervos bailam.
E quando o Caçador passa sua flecha me atravessa.
E quando o Anjo Azul se deixa avistar tremo.
Já é sábado, finados se aproxima.
Como um caracol que anda devagarzinho.
Tenho que ir dar voltas de rua hoje.
Comprar uma vela pra minha mãe da floresta que está adoecida.
Comprar pão, broa de milho e colher flores pra mulher que tem a razão e o leite no corpo.
Papai, passou rápido o tempo, quando eu estava aí ela tinha dez dias, agora já vai fazer um mês.
Passa rápido o tempo.
Quem sabe das coisas de deus saberá das coisas de tempo.
Em Minas existe uma cidade chamada Divinópolis.
Nessa cidade existe uma rua chamada Ceará.
É lá que vive Adélia - a poeta que me ensinou a ver com olhos livres.
Tenho que ir à rua. Minha mãe da floresta está com água nos pulmões.
Preciso lhe acender uma vela em agradecimento.
Nós sim sabemos que a morada da vida é no coração da morte.

nuno g.
Toróró, 28 de outubro de 2023.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Verão

Ainda estamos em outubro e já arde um sol pra cada um no céu.

As plantas estão tristes.

Os animais acabrunhados.

Um bom leitor sabe quando a frase flui.

Um bom leitor reconhece quando o estilo dita naturalmente o ritmo.

Um bom leitor reconhece no espelho do texto a guerra que o origina.

Um bom leitor sabe que tudo é ficção.

A verdade dessa primavera é a estiagem.

E essa espera de trovoada na qual se encontra mergulhada toda a cidade.

O rio segue sereno.

E as bombas seguem caindo do outro lado do mundo.

Deixando órfãos e semeando ódio no horizonte.

A verdade dessa estiagem é o resguardo.

E esse temor ao verão que se anuncia.

O calor nos evapora.

O calor nos resseca por dentro.

O calor derrete coisas que não nos servem mais.

A verdade desse resguardo é a trovoada.

Ontem levamos Assucena para fazer o exame de audição.

Bestagem - ela escuta mais que nós.

Ouve com perfeição eguns e encantados.

E sonha muito além do que nos é dado sonhar.

Um bom leitor sabe que não existe verdade além da ficção.


nuno g.

Toróró, 27/10/23.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

O vestido branco de dona Eliana Gonçalves.

Alice, esse vestido foi da sua vó, agora é seu.

Gêgê, um dia esse vestido vai ser seu também.

Seu pai gosta de rio, eu gosto de mar.

Sentamos na pedra no meio do terreiro.

A vela acesa, o perfume do incenso.

Correu um vento.

Alice guardou o vestido na mala.

Gêgê tornou a mamar.

E Gabi se perdeu tentando ler as tortas linhas das nossas mãos...


nuno g.

Toróró, 25 de outubro de 2023. 

terça-feira, 24 de outubro de 2023

ao som de David Bowie na feira de Cachoeira

 para Campos de Carvalho,


olhei as estrelas e a igreja dos remédios

pisei onde antes o trailer de dona Irá

e lhe estendi a mão em sinal de benção

um sapo cruzou meu sonho

com uma enorme língua de fogo acesa

e uma voz vinda de muito longe sussurrou

tenho medo, tenho medo, tenho medo

olhei outra vez a igreja dos remédios e as estrelas sobre a feira vazia

pisei na vazante do Jaguaribe

onde antes pisara o Touro que tem a cabeça enterrada no Icó

e as onças que nunca pararam de cantar

um louva-deus pousou no ombro esquerdo do meu sonho

e a voz longínqua tornou a sussurrar

tenho medo, tenho medo, tenho medo

às vezes os moribundos aguardam anos a permissão dos seus para descansar

às vezes o medo nos proteje como um Anjo que conhece o futuro

mas muitas vezes o medo nos cega e nos ata ao que devíamos abandonar

a voz de David Bowie se fez ouvir entre as estrelas

as portas da igreja dos remédios se abriram

dona Irá me concedeu sua benção

acariciou as coroas das cabeças de minhas duas Marias

e a luz do sol foi se esparramando sobre a feira

enquanto os primeiros transeuntes chegavam com suas frutas, verduras, legumes

e o cheiro de café e de cigarro inundava a primavera do sonho...


nuno g.

toróró, 24/10/23.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

o último poema de Heba Abu Nada

A noite na cidade é sombria, 

exceto pelo brilho dos mísseis; 

silenciosa, exceto pelo som do bombardeio; 

aterrorizante, exceto pela promessa tranquilizadora da oração; 

escura, exceto pela luz dos mártires.

Boa noite.


La noche en la ciudad es oscura, 

excepto por el brillo de los misiles; 

silenciosa, excepto por el sonido del bombardeo; 

aterradora, excepto por la promesa tranquilizadora de la oración; 

negra, excepto por la luz de los mártires. 

Buenas noches.


Heba Abu Nada.

24/06/1991 - 20/10/2023.