quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Iluminura II

As juremas floresceram.

Cintilante invadiu a roça dos sonhos para comer os pés de macaxeira.

Os cães latiram e despertaram Moura.

Tia Norma, perdida no poço das onças, me pedia para lhe guiar pelo Caminho Amarelo de Ernesto.

Ignez chegou, Maria partiu: foram para a escola outra vez.

Botei água pro café, tomei um rapé, acendi um cigarro.

E sorri pensando que todos os sonhos que não consigo lembrar estão reunidos em algum lugar.


nuno g.

Toróró, 29/09/22. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

iluminura

Tia Neuza fez aniversário:

noventa  e uma primaveras.

Pina pariu:

três lindos gatos alvinegros.

O fascismo seguiu mordendo nossos calcanhares:

a razão burocrática também.

Choveu.

Maria fez prova de geografia.

Comemos feijão com pirão.

A lua, amarela, se pôs pontualmente às oito horas na serra de Muritiba.

Maria comeu macarrão.

Com tomates, pimentão, ervilhas e champignons em conserva.

O vento Aracati veio até aqui.

De jangada até o Montecristo.

Guiado pela alma do Jacaré, o pescador.

Depois de saveiro, pelo Paraguassú.

Acariciou a Pedra da Baleia.

E se foi, cantando:

como costumam cantar os ventos que atravessam as peles de Tempo.


nuno g.

Toróró, 28 de setembro de 2022.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

A morte e a morte de Tempestade

Tempestade morreu: regressou às terras de seu dono.

De onde nunca desejou ter saído.

A cadelinha de Ignez também morreu.

Antes de morrer saiu fogo de seus olhos.

Uma flor em chamas.

Também o cavalo do caçador se foi.

Três mortes antes do amanhecer.

Na floresta dos sonhos uma grande festa.

Aqui na terra o pesadelo fascista.

Tempestade sabia muitas coisas.

Entre elas o caminho dos currais velhos de cor.

O cavalo do caçador seguiu a flecha do Velho.

Ontem me narraram três sonhos.

Hoje me narraram três mortes.

A fogueira segue acesa na encruzilhada.

Dos três nomes que possuíram o corpo de Tempestade.

Foi este último que o acompanhou à partida.

O fascismo não nos fará esquecermos o que não somos.

Nem será capaz de deter nosso caminho em direção ao que podemos ser.

Tempestade sabia muitas coisas.

Na lua cavalga Hermenegildo.

Cleonice traz entre os dedos uma esperança verde.

Em meio a neblina, Tempo sorri.

E o cortejo de encantados segue entoando seus cânticos febris.


nuno g.

Toróró, 27/09/22

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

sonhos.

banhos, serpentes, eguns.

ruas estreitas e muitas águas.

os fascistas voltaram ao poder na Itália.

a fogueira segue acesa na encruzilhada.


nuno g.

Toróró, 26/09/22.


domingo, 25 de setembro de 2022

cemitério indígena.

era uma vez.

ossos & penas debulhados.

entre grãos de nada.

e camadas e camadas de esquecimento.

era uma vez.

um chão onde antes dançavam os tapuias.

onde antes se fartavam de alegria corpos e corações.

era uma vez uma menina.

com um matulão de sonhos.

e um candeeiro de larva vulcânica.

era uma vez a morte.

e a chegada dos nossos.

com suas armas e sua ignorância.

e seu deus esfomeado de ouro e prata.

era uma vez um futuro.

ossos & penas debulhados.

entre grãos de nada e eternidade.

entre chispas de fogo fátuo e desmemoria.

onde não dançavam corpos tristes e corações vazios.

era uma vez um recém-renascido.

andando entre arranha-céus e um deslumbrante céu sem nuvens.

banhando-se num rio de águas antigas.

ouvindo onças imortais.

embalando-se nas redes de Tempo.

entre-nuvens. entre-árvores. entre forasteiros-familiares.

era uma vez um sonho.

entre pontes e fragrâncias.

com uma saudade do mar: verde e absoluto.

era uma vez cães que latiam e latiam sem parar.

ossos & penas debulhados num chão indígena.

e uma leve esperança nas mãos que guiam a passagem.

era uma vez um guerreiro que guerreava com delicadeza e suavidade.

era uma vez um fogo inextinguível.

era uma vez

era uma vez

era uma vez...


nuno g.

Toróró, 25/09/22.

sábado, 24 de setembro de 2022

chuva.

Hermenegildo cruzou meu sonho a trote.
Tempestade cintilava.
Pina pariu.
Tiros em Divinópolis: onde antes só a poesia primorosa de Adélia.

*  *  *

O corpo-água e a história do menino afogado.
O corpo-fogo e a história das chamas e labaredas.
A pedra, o sorriso e a névoa.
Nossos corpos em pedaços ou a história como mapa.
Artefato caseiro que explode a procissão dos dias.

*  *  *

Não esqueço e sigo.
No rumo do horizonte.
Estrada que trilhou Cleonice.
Antes de receber a estrela e a farda.

*  *  *

Esmeralda veio na linha do mar.
Aos pés do ferreiro da mata assentou seu ponto e se firmou.
Arco-íris no céu, serpente na terra.
Celebrar os mortos é apascentar o que nos ameaça.
Entre o Nada e o Nada muitas coisas se movem.
As pétalas das aves de arribaçãs são promessas de mais-vida.

*  *  *

Um vaso de violetas roxas aos pés do pescador.
Coroa-de-frade no ori da casa.
Hermenegildo, Cleonice, Tempestade.
Esmeralda é sereia da linha do mar.
Esmeralda é devoção, alfazema e passagem.

Tudo passa.
O raio fulminante do jaguar nos atravessa.
Entre as águas e o fogo, areia.
Machado à beira-mar.

nuno g.
Toróró, 24/09/22.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

viernes entre nuvens.

As oiticicas não pegaram.

*  *  *

A carne também se amacia.

Igualmente ao espírito.

*  *  *

O futuro está atrás.

O passado à frente.

As batatas-doces sim vingaram.

E o candeeiro seguiu cumprindo seu intuito.

Nos lembrando que à nossa volta faz escuro.

Recordando que cura e perdão não são estações, são caminhos.

Ainda quando isso queira dizer acender feridas necessárias.

Ou mesmo que a nossa limitada percepção não nos permita mais escrever com nuvens.


nuno g.

toróró, 23/09/22.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

miércoles de sol.

para Sergio Mondragón,

Maria Luísa sonhou com um palácio.
Cheio de flores.
Verdes, azuis e rosas.

*  *  *

Bernardo - gritaram Inês, Maria e Santiago.
No exato instante em que o sol nascia.

*  *  *

Enquanto buscávamos a forma animal de nossa alma.
Tempo brincava de esconder-revelar e semear.

*  *  *

A saia branca girou no terreiro.
Não era sonho - era futuro que já ocorreu.

*  *  *

Muita névoa.
Óleo vazando da caixa de marcha.
João perseguindo a própria liberdade.

*  *  *

Na floresta você é o jaguar.
E as onças criaram asas e seguiram seu voo. 

*  *  *

Um Vento chamado Aracati percorreu nossas entranhas mais uma vez.
Sob o Machado, a luz áspera e o corpo sem corpo da salamandra do fogo.

*  *  *

Enquanto Tempo, em forma de Sussuarana, brincava.
Esconder-revelar, o palácio da Rainha da Floresta.
Suas flores semeadas e suas fogueiras sempre acesas.

*  *  *

No céu azul da floresta, o Gavião. 
E no chão, a Serpente.
Com suas plumas de mil cores.
Entrançada à saia branca.

*  *  *

Aracati, o Vento - arrastou ao sal o que já não servia mais.

nuno g.
Toróró, 21, setembro, 22.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

o sonho do cego do Caquende

até os cegos te contam os sonhos?

*  *  *

Formou-se e se viu obrigada, por falta de trabalho, à mudar para Minas.

Chorava. Chorava. Chorava.

Morava no Guarany - que todos, nessa cidade, sabem onde é.

Que todos sabem a Quem pertence.

*  *  *

O excesso de umidade apodreceu as raízes do Baobá.

Ou talvez tenha sido mesmo a ausência de uma serpente enrodilhada em veneração.

*  *  *

Claudio nos lembrou do aniversário do mateus Cachoeira.

Foi Tempo quem me mandou substituir diário por dicionário.

Saber menos. Confiar mais. Seguir.


nuno g.

Toróró, 16/09/22.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

meu avô.

gosto de olhar as árvores crescerem.
em silêncio.
gosto de ouvir as árvores crescerem.
deitado à rede.
vez ou outra um passarinho rompe o silêncio.
é como se meu avô me visitasse.
nessas horas meu pensamento se desgarra da distração onde vive.
e quase toca algo de matéria.
passarinho avoa, meu avô se vai.
e meu pensamento volta à distração onde vive.
gosto do nada e de todas as coisas que vivem dentro do nada.
tenho horror à palavra que só existe em representação.
tenho horror à palavra que é seta apontando pra fora.
por isso uma das minhas palavras favoritas é víscera.
também gosto de amarelo que quando se junta com caminho sempre me lembra Ernesto.
e todas as lonjuras onde nossos passos teriam tocado se ele não partisse tão antes.
gosto de pensar que um dia tudo isso passa.
essas árvores vão ter virado floresta.
e meu corpo vai estar sob esta terra.

*  *  *

gosto de pensar que já vivi aqui outras vezes.
e que algum dia renascerei entre essas pedras que amo.
e esse rio será águas límpidas.
serei aquele pássaro e o homem deitado na rede será meu avô.
ele me ouvirá cantar e o meu canto o salvará mais uma vez.

nuno g.
toróró, 14 de setembro de 22.

domingo, 11 de setembro de 2022

as três estrelas.

para Larissa Gonçalves, Bruno Gonçalves e Maria Alice Gonçalves 


Foi uma cigana que me disse:

meu filho vai enfrentar demanda difícil,

mas vai vencer.

Três anos depois a mesma cigana.

Batendo fotos no estacionamento de um centro comercial.

Nos guardamos na casa de uma filha das águas doces.

E vimos a lua de prata e fino entendimento.

Os aviões fazendo a volta antes de zarpar ao sul.

E o som do mar ecoando no espelho de Tempo.

A voz de Milton ainda no corpo.

A voz de Deus.

A voz de Miguel, o Archanjo.

A voz de Yauaretê. 

A voz de Iararana. 

A voz da Sussuarana.

A voz do jaguar encantado.

A voz dos sonhos e da infância.

A voz das onças e de Aracati.

Dormimos num motel.

Mas não fizemos nada do que se espera daqueles que dormem em motéis.

Dormimos apenas.

E eu não pude recordar dos sonhos que tive aquela noite.

Menos ainda esquecer quão importante eles eram.

Escutei os sonhos dela.

Sobre carros, avós e confirmação.

Obrigado Milton.

Obrigado Cigana.

Obrigado povo das águas.

Em tempos de dependência e morte.

Só sobreviverá o que for amor.

O resto será já cinzas e esquecimento.

Quando as três estrelas iluminarem outra vez a escama da praia.

O resto será já passagem feita.

Ex-voto. Ex-corpo. Ex-memória-da-escuridão.

A voz de Milton. O trem de ferro.

As palavras rearranjadas de forma a expressar uma imensurável amplidão.

Obrigado Milton.

Eles todos passarão.

Você não. Você nunca.

A voz de Dom Pedro Casaldáliga.

No quilombo. Na aldeia. No terreiro.

Nas três estrelas que iluminam as ruínas dessa nação.

A voz do Jequitinhonha.

A voz do Araguaia.

A voz do Jaguaribe.

Eles todos passarão.

Sua voz não.


nuno g.

Toróró, 11/09/22

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

cambono II

na curva da  estrada, à noite, o cavalo de Hermenegildo cintila.

*  *  *

as promessas do sol ressuscitam à voz do Deus da Guerra.

*  *  *

samsara não é uma palavra, é uma dança que nos ensina.

*  *  *

rios e serpentes, montanhas e corpos esquartejados.

*  *  *

longe daqui uma aranha tece o Destino.

estamos sempre em outro lugar e o que somos será sempre impronunciável.


nuno g.

toróró, 09/09/22.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

cambono.

Sonhei com Dick, o cão.

Ele estava desplumado e triste.

Como um rio ante as represas que o impedem de chegar ao mar.

*  *  *

No sonho também havia outras coisas que não consigo lembrar.

As coisas que realmente interessam estão sempre em outro lugar.

Como as lágrimas que só afloram quando a distração nos leva a sentir o esquecido.

*  *  *

Em outro sonho eu cavava uma cova.

E quanto mais eu cavava menos espaço vazio havia.

Meu corpo superava em matéria o vácuo que minhas mãos lhe destinavam.

*  *  *

Cleonice foi coroada Senhora e Madrinha.

Por um instante senti que poderia alcançar alguma compreensão.


nuno g.

Toróró, 08/setembro/22.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

a báscula do julgamento III

Garfield se entrelaça às nossas pernas como um cipó na árvore de Tempo.
Hermenegildo segue passando todas as tardes montado em seu cavalo.
Tempestade pasta e nos guarda do abismo.

*  *  *

Perdão e cura não são estações, são caminhos.

*  *  *

Lírios brancos em sonhos cheios de urgências.

*  *  *

Onde mais andaria o Cristo senão entre os famélicos?
Qual força seria suficiente para impedir o rio de chegar ao mar?
Dino caça. Pina dorme. Dick passeia.

*  *  *

As flores roxas de São Miguel semeiam o horizonte.

nuno g.
Toróró, setembro de 2022.

domingo, 4 de setembro de 2022

a báscula do julgamento II

A procissão marchava dividida em duas fileiras.

Eles haviam desaprendido a língua portuguesa.

Caminhavam em silêncio.

Apenas o som dos passos sobre os irregulares paralelepípedos.

*  *  *

Maria me abraçou à sombra do pé de cacau.

*  *  *

Os maracás tocaram com força e intensidade.

As chamadas foram entoadas com firmeza.

Cleonice se ergueu e cruzou o Azul e o Branco até a mesa do centro.

*  *  *

Recebeu a graça do Tucum e a benção da Rainha.

O sol, a lua e as estrelas brilharam.

As varas do caule de milefólio foram consultadas.

*  *  *

Maria me abraçou.

A luz invadiu o quarto.

Enquanto os encantados dançavam ao redor das brasas que resistiram à madrugada.


nuno g.

toróró, domingo de 2022.


sábado, 3 de setembro de 2022

a báscula do julgamento.

Judite desapareceu.

Stella se matou.

Hermenegildo segue passando todas as tardes em seu cavalo.

*  *  *

papai, cadê as três estrelas que a lari me deu?

E os seus lábios se moveram pronunciando sílaba-a-sílaba o conto uruguayo.

*  *  *

Nunca encontramos o corpo.

Nem os filhotes.

Os jerimuns brotaram.

Entre as juremas e o mar.

*  *  *

Alguma tosse povoando o inverno de setembro.

A cidade girando sobre si mesma como um pião.

*  *  *

Cuscuz com ovos e um sonho qualquer.

Na desimportância de uma distração a manhã se consumindo.

E os tomates avermelhando a horta.


nuno g.

Toróró, sábado de 2022.


quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Areia de cemitério

 para Ian Gonçalves,


A charanga d'Ajuda despertou o Caquende.

Arco-íris nenhum no céu.

Os convites de domingo se desmanchando como sorvetes ante a ira do sol.

Um amigo, filho de Odé, soltou sua angústia:

Então tenho que matar meus pais!?

A frase, tal como pronunciara, soava hesitante. 

Não chegava a ser uma pergunta nem uma exclamação.

Ou era as duas coisas a um só tempo.

As certezas se desmanchando ante o fascismo.

Era uma vez uma cidade onde corria um rio.

E junto com ele corriam os tapuias.

Nossos antepassados chegaram e construíram ali um forte.

Os traíram. Os perseguiram. Os mataram. Os expulsaram daquelas terras.

Um desses tapuias virou vento.

Seu nome é Aracati.

Sua presença me protegeu a infância.

Junto com ele vinham as onças.

Suçuaranas. Pardas. Castanhas.

Eram minhas melhores amigas.

Seu uivo me ninava.

Em meus sonhos regressavam memórias de um tempo anterior ao colonialismo.

Dois dias depois o arco-íris chegou.

Rastejando como uma serpente sobre o rio.

Não me deixando esquecer que todo chão que piso é cemitério.

E que a mesma lama roxa onde nasceram todas as formas de vida.

É o lugar onde nos encontraremos com a morte algum dia.

Botei as moedas que tinha no saco das ofertas da festa.

E a charanga seguiu pra despertar a Faceira.

Seus deuses, seus pescadores e seus indígenas.

Segui meu rumo e no mais improvável dos acasos.

Encontrei Dom Mario Benedetti. 

Na praça do Lavrador em Cruz das Almas.

Ele me recorda que o Nacional de Montevidéu.

Está nas semifinais da sulamericana.

O Ceará não.

Às vezes a vida se decide nos pênaltis.

Como quando um dedo aperta um gatilho.

Ou quando alguém salta de um arranha-céu.

O índio que me acompanha me acaricia os cabelos.

Ouço seu ponto cantado.

Vejo seu ponto riscado.

Tateio com a língua seus lábios feridos.

Entendo assim a coexistência do doce e do amargo.

Atravesso sua mirada como um raio ou uma lança atravessam uma chaga.

Entendo assim a coexistência da tristeza e da alegria.

Recordo o vale dos jaguares tapuias de onde vim.

Recordo os fortes traços indígenas nas feições de meus sobrinhos.

Em seus corpos e trejeitos.

Nem tudo o colonialismo mata.

Nem tudo o fascismo faz perecer.

O futuro é sempre o que está soterrado.

E todo passado aguarda ainda o tempo de amanhecer.

A areia de cemitério que trago nos olhos, no tórax e nas mãos.

Vem de longe, muito longe.

Vem daquele velho túmulo de azulejos azuis que já não existe mais.

Vem das margens daquele rio que o sangue dos tapuias avermelhou as águas.

E foi sobre ela que Ogum, irmão de Odé, serviu seu feijão.

Aracati, seu filho, comeu com as mãos.

Antes que a serpente das sete cores tornasse a cruzar os céus.

Antes que a procissão dos encantados tornasse a cruzar o horizonte.


nuno g.

Toróró, 21/25 de agosto de 22.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

doces águas.

Dino, o gato filósofo, espreitando na porteira.

Come-e-Dorme, o cão, dormindo sobre o calor das brasas da fogueira de ontem.

Um menino vestindo uma camisa com o Machado do Senhor.

Foi com um beijo que Judas traiu Jesus - me disse seu Antônio.

Também me disse seu Ivo do mercado.

A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.

Tudo teria sido mais suave se você não tivesse morrido,

mas agora eu sei que você precisava morrer.

Era isso que eu te diria hoje mãe.

Te diria também que ontem o dia foi bonito bonito.

Que sua neta cresce bem, que os tomates já foram colhidos e que as pimentas brotaram.

Pai, tudo seria mais suave se não tivessem te matado,

mas eu sempre soube que eles precisavam te matar.

Era isso que eu te diria hoje.

Te diria também que tua neta tem uma casa na árvore.

Que ontem trocamos os curativos de João e Cristalina.

E que as macaxeiras e batatas-doces vão crescendo muito bem.

A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.

Meu avô, ontem claudinha me mandou um poema que me lembrou de você.

De seu desespero, seu hálito de cachaça e seu imenso amor.

Era isso que eu te diria.

Te diria também que está tudo bem.

Ontem foi um dia lindo. Choveu e comemos bistecas de porco com batatas ao forno.

O Ceará perdeu o derby, mas não doeu tanto.

Esse mês aqui tem muitas flores e pipocas, vovô

- e entre pétalas e grãos sempre vejo suas lágrimas.

Era isso que eu te diria meu querido avô.

Apesar da tosse, tudo está no seu lugar.

Ainda fumo e talvez o cigarro me mate como lhe matou um dia.

O resto das coisas que eu te diria não cabem em palavras meu avô.

E você, mais que eu, bem sabe.

Levei as crianças na escola.

Passei um café.

Tomei um rapé.

E escrevi esta oração no meu dicionário:

paternidade é o caminho que nos leva de volta à casa onde nascemos.


nuno g.

Toróró, 15 de agosto de 2022. 

terça-feira, 9 de agosto de 2022

O Senhor que habita a Pedra

O que tudo vê.

O que tudo sabe.

O que aqui estava quando não estávamos ainda.

O que conhece nosso rosto antes mesmo do nosso nascimento.

O que nos guia em nossa distração.

O que é rude e áspero por ser entendimento em estado bruto.

O que nos cuida quando perdidos.

O que nos reconduz ao nosso coração quando farrapos.

O que nos reconcilia com o escuro de dentro e com o excesso de luz lá de fora.

O que nos permite as canções da lua e a coragem do amor.

O que nos ampara quando caídos erramos pelos subterrâneos.

O que é água quando somos sede.

O que não diferencia sonho e realidade.

O que não nos permite desistir.

O que nos quebra os ossos quando hesitamos ante o necessário.

O que nos desperta quando o engano nos seduz.

O que é mais Velho do que o mais velho de nossos desejos.

O que é pensamento em perpétua sedimentação.

O que é larva no interior de nossa memória.

O que é futuro arcaico e passo firme em direção ao amanhã.

O que se desdobra sempre e outra vez.

O que com seu sopro faz emergir na árvore de Tempo a face do que somos.

O que é o que sempre desconhecemos de nós mesmos.

O que nos acompanha, nos cura e nos mata, com amor e ferocidade.

O que é, simultaneamente, terror e delicadeza.

O que habita a Pedra e a Palha.

O que nos cura.

O que nos mata.

O que nos escuta.

O que dança e não nos abandona.

O que sabe da formação geológica da terra e das almas.

O que se transmuta em pássaro quando quer voar.

Em serpente quando quer guiar.

E em esquecimento quando quer nos proteger do Nada e seus maus agouros.

O que é mais velho e mais terno

- pois mais caminhos já percorreu nessa gira.

O que aqui ainda estará quando nós já não mais estaremos.

O Senhor que habita a Pedra, a Palha e o destino das almas deste mundo.

O que tudo vê.

O que tudo sabe.

Siga guiando nossos passos.

Siga regendo nossa peregrinação.

Além.


nuno g.

toróró, 09/08/22.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Os pescadores da Faceira.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

As lavras das mangabeiras pelas mesmas mãos que chamavam a Serpente.

Toda uma vida talvez não seja suficiente para regressar à casa onde se nasce.

A igrejinha de Nossa Senhora da Conceição perdida entre as voçorocas de um sonho.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

Todas as passagens fechadas.

Os pescadores em volta do fogo cultuando o Velho.

A Senhora das Sementes cultuando a Senhora das Serpentes.

Toda uma vida talvez não seja suficiente.

Era o primeiro dia de agosto.

A dor no osso do joelho esquerdo do Ferreiro que fazia as joias.

Em sua casa de palha, numa capoeira no meio do verde da mata.

Sozinho e em silêncio.

Trabalhando o ferro como quem ora.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

Junto com ele a Senhora das Sementes.

Junto com ele a Senhora das Serpentes.

Junto com ele o Ferreiro das Doces Águas.

Junto com ele o Menino da Encruzilhada.

Licença - e meus olhos entraram na casa de palha.

Licença - e meus olhos cruzaram o verde da mata.

Licença - e meus olhos tocaram o roxo do vestido e se encharcaram de lama.

O Velho partiu e deixou seu canto de pássaro.

O osso em trauma e uma névoa nos pensamentos.

Na pedra do rio uma criança.

Na praia os pescadores repetindo:

somos parentes e temos toda a vida para regressarmos à casa

- mas talvez uma vida não seja suficiente.


nuno g.

Toróró, 03 de agosto de 2022.  


sábado, 30 de julho de 2022

Ayê

Noêmia sonhou com os três porquinhos.

Assim me narrou Bernardo ao amanhecer.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem sândalo.

Penso em Ogum Beira-Mar.

Penso em Ogum-Iara.

Penso em Ogum Megê.

Penso em Ogum.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Assim como eu tenho a escuridão e a rutilância.

Ela me ensina uma foto de Francine.

Remoçada. Jovial. Renascida.

Me alegra a alegria dos que cruzei ao caminho.

Penso no Sétimo e no seu reino do sertão.

Me revelando seu nome em sonho.

E soltando gargalhadas de marfim e calcário.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem parafina.

O horror está em todos os lados.

Penso na Pombagira entoando canções ciganas.

Só a poesia importa - o resto o sol da morte dissolve todos os dias.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Assim como eu tenho uma infância mergulhada em mentiras e covardia.

Chove. Chove. Chove.

Chove e falta água nas torneiras e nas descargas.

Penso em Ogum e rezo à Adélia.

Quem sabe Ele também em sonho me revela Seu nome.

Todas as perversões entregues ao dicionário da noite.

A moça que vende café preto e mixto quente.

A moça simples que vende broas de milho.

Ser mulher é ser bruxa.

É trazer dentro a força que resiste à nadificação.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem espumas.

Ouço o Sétimo gargalhando no sertão.

Recordou o sonho em que me revelou Seu nome.

Recordo o hálito de cachaça, benção e proteção.

Soterrado vivo - meu coração dispara como um cavalo.

Meio-irmão dos raios, meio-irmão dos trovões.

Penso em Rimbaud - o poeta é mesmo um místico selvagem.

Avesso às amarras de qualquer doutrinação.

Entregue à semântica das tempestades.

Nas curvas que sobem a serra duas placas chamam a atenção.

Pastel do Alemão - em negro e vermelho.

Deus julgará a todos - em amarelo-ouro.

A cidade do Senhor de São Félix fica para trás.

Penso em Artaud entre os tarahumaras.

Buscando ressuscitar divindades em seu gélido coração.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Sonha com Miguel - como eu sonhei algum dia.

Chove. Faz frio. E falta água nos canos.

Meu Ori sente a irresistível atração do Orum.

O Ayê me quer aqui.


nuno g.

Toróró. 27 de julho de 2022.




segunda-feira, 18 de julho de 2022

Orum

para Serena Assumpção,

I.


Nasci em cidade nenhuma.

Nasci em um rio.

Entre ferros d'água e espelhos de pedra.

Nasci às margens e às avessas.

Como uma pluma sem cão.

Uivando em dialeto acalanto.

Nasci como nascem as ilhas.

Num instante de distração do rio.

Mãos dadas ao escuro.

Olhar posto à imensidão.

Nasci mil vezes em uma só vida.

No rio onde nascem todos os rios.

No rio onde nascem todas as ilhas.

No rio onde as águas estão em permanente estado de distração.

Às avessas. Às margens.

Como uma pluma sem a ferocidade do cão.


II.


Não quero mais estar aqui.

Mas sigo.

Penso nos meus filhos no Orum.

Penso nos meus pais no Orum.

Penso no Orum.

Mas sigo.

Entre mares de azeite e encruzilhadas de farinha.

Com a precisão com que se movem as ruínas de um engenho.

E sigo.


III.


Beira-fogo, sina, artefato.

Na minha morte meu corpo coberto de sementes e nada.

A matéria cega devolvida à terra.

E o meu espírito à imensidão.

Orum.


nuno g.

Cachoeira, 17 de julho de 2022.

domingo, 17 de julho de 2022

os lírios do cotidiano e os sonhos que os ventos trazem.

havia tendas - como nas caravanas ciganas que acampavam sob as oiticicas.

e quando acordei o sonho ainda estava lá - escorrendo em sua voz ao telefone

e se amalgamando às fotos do Velho 

que esperaram quatro décadas para chegar aos meus olhos.

havia um bebê - como no dia em que me levaram na mata para conhecer Miguel.

e quando acordei as tendas ainda estavam lá e sua voz escorrendo como óleo

entre as teias e as flores e as crianças.

havia tantas camadas de febre e esquecimento sobre as pequenas coisas do amanhecer

que parecia ser impossível qualquer despertar.

havia muita água doce e uma gargalhada sincera aprisionada numa garrafa.

havia tendas e fogueiras e alguém aprendendo as primeiras letras.

sua voz escorrendo no telefone, uma fotografia antiga e um arrepio à pele.

somos o que esquecemos e sangramos para que o nada não soterre o amanhã.

somos o sangue que derramamos sobre a terra.

somos também a terra onde se erguem as tendas.

e sim, no seu sonho ela era a mais bela das mulheres daquele rio.

ela te disse como se chamava e te entregou mais uma vez a infância de Maria.

quando acordei a foto estava lá - e nela todo o passado que me foi negado.

havia lírios, sonhos e águas doces.

quando pronunciei teu nome tua voz me chegou ao telefone.

só no óleo certas esperanças alcançam sobreviver.


nuno g.

Toróró, 17 de julho de 22.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

entre Serrinha e Santa Bárbara.

à margem esquerda da estrada

atrás, muito atrás, do brejo onde as garças pousam

o arco-íris se apresentou

e conversamos sobre todas as cores

uma suave distração

e obrigamos um caminhão verde a frear na subida

um cafezinho e entramos na cidade antiga

notícias do fascismo, bolo de milho, saudades

animais domésticos e uma bela noite

no outro dia a chuva

notícias de uma despedida

e as luzes de alerta sanitário piscando no céu

à margem esquerda da estrada

atrás, muito atrás, do horizonte que nossos olhos alcançam

pulsa uma força imensa que não sabemos nomear


nuno g.

Toróró, 11 de julho de 22,

sexta-feira, 8 de julho de 2022

a cabeça de touro e a igreja de Nossa Senhora da Conceição

Vazaram todas as águas.

Da bexiga de Alice.

Do radiador do pirata.

Um gordo numa moto nos guiou à oficina Edson & irmãos.

Passamos pela igreja suspensa.

Recordei da cabeça de touro enterrada ali.

E do gavião morto no asfalto na entrada da serra do Pereiro.

No porta-malas as mudas de oiticica.

O queijo, a nata, a paçoca, a manteiga da terra, o doce de leite e o Sonho.

A lembrança do serrote do Peixe onde não fomos.

E de todas as outras coisas que nunca aconteceram.


nuno g.

Icó, 07 de julho de 22.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Regresso à linha do equador

o mar levou pro rio

um presente pra mamãe Oxum

e o rio levou pro mar

um presente pra Yemanjá

Maria Alice

a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá

ossos frágeis e delicados e um sem-número de objetos outros

enterrados sob este chão:

escapulário de ferro

o prato fundo repleto de sangue

e o sonho dos dois caixões

a Gare de Astapovo

os pedreiros ateando fogo na cozinha

a chuva no Peixe Gordo

e o dia amanhecendo alaranjado nos olhos do jaguar enfeitiçado

ossos frágeis e delicados e um sem-número de objetos outros

enterrados entre as estrelas desta noite insaciável

a paz aqui é só uma palavra

fervendo entre outras palavras

mergulhadas no dicionário das placas tectônicas

e na larva que escorre entre as frestas

do túmulo de azulejos azuis 

que não existe mais

a lagoa da Caiçara repleta de aguapés, serpentes e eguns

que insistem em remar suas canoas

entre os ossos frágeis e delicados deitados na alvorada 

entoando esse coro insuportável

que rompe a harmonia das esferas

e ecoa nos cânions do Aquém e do Além

despertando a divindade asmática

e desnorteando os ponteiros da lazarenta memória

dos castiçais esfumaçados

dos aprazíveis licores

dos habitantes da cidade sem-nome

do arco-íris órfão ressuscitado

demasiadas coisas enterradas sob este chão

entre a escuridão imensa destas estrelas

o sangue do esquecimento atravessando as vértebras

de cada palavra que escrevo no ventre obtuso desta chuva

hálito tapuia & o rugido do sino da Catedral

carregados em liteira de marfim e assombramento

pelo vento Aracati que sopra desde as fronteiras do infinito

arrastando os raios da Senhora ao som dos címbalos que anunciam

a partida prematura dos deuses de ontem

e o inexorável atraso da chegança dos deuses do amanhã

o sol assenta sobre seu trono

sem que se saiba quem terá pés capazes de tocar o solo dos salões iluminados

onde as aranhas tecem e destecem os destinos

e as linhas-de-força encruzilhadas no moto perpétuo deste incansável rio

nesta maldita insônia, neste sagrado oráculo

a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá

no sinal de acesso à Barão do Rio Branco

um velho com uma guia de contas negras e azuis cruzando o tórax

exibe um papelão onde se lê em vermelho a palavra FOME

à esquerda um desses carros modelos naves espaciais

com bandeira pátria e adesivos com o nome do inominável

a palha, o mel e os olhos do Senhor das Estradas

recordando a guerra e os seus hinos

recordando o sonho do velho conde 

repousando em Iásnaia Poliana

entre ossos frágeis e delicados

e um sem-número de objetos outros

esparramados sobre as cinzas do quilômetro oitenta

a palha, o mel e os olhos ávidos e sinceros do Senhor da Estrada

se movendo no interior da cidadela inexpugnável da insônia

e nos caleidoscópicos labirintos do oráculo

a procissão de fogueiras da Vila Gonçalves à Ingá

o hino das águas e dos erês no açude do Bixopá

os unicórnios e jabutis dançando entre as corredeiras onde vivem os pitus da ilhota

canjica quente, pé de moleque, bolo de macaxeira, paçoca e vatapá de galinha

o hino das águas e dos erês apascentando as doces fúrias do Aquém e do Além

e a ternura impronunciável dos habitantes da cidade sem nome

a palha, o mel e os olhos ilegíveis do Senhor da Estrada

orando através de mim quando meus olhos leram outra vez a inscrição no jardim:

rua do meu pai - café negro, longo e amargo

se derramando sobre o azul-azul do céu do Iguatu

e entre as árvores do esquecimento 

onde repousam ossos frágeis e delicados

escapulários metálicos, pratos repletos de sangue

e os dois caixões do sonho

a clepsidra de vidro gira mais uma vez no quilômetro oitenta

e o daimon arcaico desperta de seu torpor

gravando entre as cicatrizes as recordações de antigas atrocidades

rua do meu pai - o jardim em tudo o mesmo

Iggy Pop vagando na domingueira eternidade de sua felina existência

o mel, a água doce, o sorriso

nos protegendo da ferocidade de Tempo

nos guardando dos abandonos que abandonamos antes da alvorada

entre ossos frágeis e delicados

entre um sem-número de objetos outros

enterrados entre as estrelas reluzentes

que seguem faiscando e vibrando

nos obscuros subterrâneos dessa terra onde as promessas nunca são cumpridas.


nuno g.

russas / fortaleza, 21 a 27 de junho de 2022.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

O caminho das almas ou o teleférico fantasmagórico

O óleo da caixa de câmbio vazou em Teofilândia

Atravessamos o deserto mais uma vez

No Ibó as sertanejas mãos de Jean voltaram a encher de óleo a caixa

As águas do São Francisco estavam mais calmadas que de costume

E todos falavam sobre a colheita das cebolas

As engrenagens da quinta marcha colaram definitivamente

As mãos sertanejas de Jean as arrancaram como quem arranca as vísceras de um pirata

Uma coruja de olhos esbugalhados seguiu caminho conosco

Alice falou do Bené e da Inaê

Mastigamos beterraba, couve e carne assada

O resto da viagem foi desapressada

E quando o sol se pôs já estávamos no meio da floresta do Araripe

Tomamos cumaru, fizemos uma fogueira

Brincamos de macaca e cozinhamos o milho que Luís plantou

Falamos sobre sonhos e sobre o Senhor da Vida e da Morte

Deayunamos frutas com aveia e café negro

Trezentos anos ou a eternidade

E nossos passos entrando no vagão do metrô

E nossos passos cruzando o coração da cidade sagrada

Os olhos do padre Cícero pousados sobre nós

Como as asas do gavião sobre o açude

Ou o clarão da lua sobre a noite imensa

Tomamos mais cumaru e conversamos sobre o pesadelo fascista que nos assola

Chico catou entre as ferragens as engrenagens da quinta

Recordei do velho Aranha e Alice falou sobre a Débora

Assistimos Tico & Teco, comemos baião-de-dois e pizza

O Velho nos abençoou com a palha

E pegamos outra vez a estrada rumo ao fantasmagórico teleférico do Caldas...


nuno g.

Crato, 18 de junho de 2022.

sábado, 11 de junho de 2022

oráculo.

Havia águas e serpentes

E ainda assim havia fogo e veneno

Foi antes do estopim da guerra

Foi depois do nascimento das mãos que erguiam casas com aéreos materiais

Havia fogo, águas, serpentes, venenos e metais

Com os quais se forjaram os três caminhos

E todas as sentenças da justiça

E ainda assim no sonho veio o que tinha de vir

E se fez carne e memória e habitou entre os cardeiros e a piçarra

E se fez memória do vermelho das flores dos cardeiros

E se fez memória do vermelho da poeira da piçarra

E se fez serpentes e águas

Fogo e veneno

Antes do cessar da guerra

Antes do amanhecer do escuro

Antes do sonho ser sonhado como tinha que ser sonhado

Antes das mãos modelarem os materiais aéreos

E erguerem a casa sertaneja

E o mítico coração da barca que navegar no mar

Havia uma guerra e mais coragem que argila

Havia um sonho e mais água que veneno

Havia um fogo e mais metal que entorpecimento

Havia o escuro e seus refúgios infinitos

Havia um sol, uma lua e uma estrela:

Três caminhos e todo mistério para além de qualquer esquecimento.


nuno g.

Toróro, 11 de junho de 2022.


terça-feira, 7 de junho de 2022

entre feiticeiros e despertencimentos.

chove sobre a colina sagrada

o frio penetra minha omoplata

sem pedir licença

acende a bursite

o chão de lama, escorregadio

e a cidade com seus paralelepípedos centenários

e sua ponte de ferro & ferrugem & tempo

os gatos invadem a casa

como os degraus da escadaria amarela

invadem os sonhos

chove sobre a colina sagrada

ao longe, a pedra da baleia e um saveiro

venta e no vento vêm vozes e mais vozes

de aquém, de além, de cima, de baixo da direita e da

esquerda da esquerda da

chuva que cai sobre a colina sagrada

da chuva que molha os centenários paralelepípedos

da chuva que afoga todas as coisas de ontem de anteontem

como a areia da sepultura da serpente

apenas os olhos expostos ao sol

o frio, a guerra, o parapeito de madeira e estrela

tudo se move como se movem as pedras

a cidade, o vento e as frutas pintadas a óleo

os gatos, o som da casa de farinha, tilintar de copos e nada

aos palmos medindo a distância de todas as órbitas

e cruzando o mundo como um trem mineiro fora dos trilhos

abarrotado de bugigangas


nuno g.

Toróró, 07 de junho de 22.


quinta-feira, 2 de junho de 2022

as águas do Jaguaribe

 para Dellany Oliveira,


todos os rios, o rio

e em seu leito de várzeas todos os sonhos

correndo em direção ao outro lado

como se a noite fosse mesmo um pássaro

e as estrelas seus ninhos

todos os rios, o rio

e em seu leito canoas, jangadas, saveiros

correndo em direção ao outro lado

como se os pássaros fossem mesmo noturnos

e a única forma de aplacar a sede

seguisse sendo beber o fogo

todos os rios, o rio

e suas nuvens correndo em direção ao outro lado

como se o tempo fosse apenas um calafrio passageiro

ou o osso de um mártir encontrado entre os lajedos

todos os rios, o rio

correndo entre o esquecimento e a loucura

e atirando flores nos despenhadeiros da chapada

todos os sonhos, o sonho

correndo entre o lodo e as pedras

como se a única forma de saciar a fome fosse jejuar ao sereno

amanhece na pedreira - o galo canta

Aracati chega, apascenta, acarinha

e canta devagarzinho antigas canções de ninar

sobre túmulos de azulejos azuis e vespas dançarinas

sobre árvores de raízes pardas e onças tão imensas quanto o coração da lua

todas as onças, a onça

Sussuarana chega, espreita e se vai

boqueirão de vertigens, caleidoscópio de estrelas

a força da tempestade, o som dos sinos,

o sangue das sete aldeias correndo pro mar

amanhece - devagarzinho

todas as noites, a noite

se enrolando como uma serpente colorida

entre as névoas que não se desfazem

e as promessas que não se cumprem

todas as águas nas águas deste rio

todas as pedras nas várzeas deste rio

todos os sonhos nos sonhos deste rio

um deus que dança e usa espada chega e assenta

desalvoroça, destorce, semeia ramas de tempestades

sorri e ascende

sete aldeias sangrando, uma cabeça de touro enterrada na vila do Icó

e o campanário da catedral atingido por um raio

o rio corre e com ele correm todos os rios

o rio corre e com ele correm todas as embarcações

o rio corre e com ele corre o meu coração...


nuno g.

Toróró, 02 de junho de 22.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

a fogueira do Senhor da Justiça

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas farei do seu fogo minha morada.

E guardarei junto aos lírios brancos que recebi.

A memória de como a serpente me salvou das lágrimas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas guardarei a história de Jó e seus ensinamentos. 

Sobre a vida, os escombros, os retalhos.

Junto ao beijo que nesse seio amanheceu.

Não guardarei dos golpes e punhaladas senão a memória da guerra.

E aquele fatídico hino que falava a língua das labaredas e das chamas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Serei o último a bailar no fogo.

Serei o último a caminhar sobre as brasas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas o guardarei comigo contra todo esquecimento.

Te entrego minhas cicatrizes e meu corpo destroçado.

Te entrego a alegria que me trouxe a serpente em seu barco.

Já tem milho verde na feira.

Já tem amendoim na feira.

Já tem lenha separada no terreiro.

Para acender teu fogo, minha morada.

Te entrego os lírios brancos e todas as minhas fraquezas.

Te entrego meu afogamento nas lágrimas do pai injustiçado.

Não pronunciarei teu nome, não sou digno.

Mas renascerei das cinzas e darei vivas à serpente.

Guardarei no coração do mar este fogo, minha morada.

E não mais permitirei que outra voz que não a do vento me alimente.

Guardarei teu nome não pronunciado.

Junto ao segundo beijo que nesse seio amanheceu.

Farei do teu fogo minha morada.

O habitarei como algum dia habitei as lágrimas.

E o alimentarei com os lírios brancos ainda úmidos de doces águas.

Guardarei a serpente e os cânticos em sua memória.

Guardarei suas cores e o ritmo em que navega seu barco.

Guardarei as nuvens onde ela fez morada.

Neste terceiro beijo que amanhece nesse seio.

Acende o fogo que ilumina o chão deste terreiro.

A sombra do semblante distorcido. 

E as plumas do gavião cicatrizado.

Guardarei a morte e sua memória sagrada.

Fonte da vida, foice de todas as iniquidades.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas farei do teu fogo minha sagrada morada.

O alimentarei com lírios brancos e doces águas.

Servirei com as mãos impuras o mel que recolhi nas encruzilhadas.

Guardarei seu nome no silêncio desta árvore.

Não sou digno. Só teu fogo saberá do que passou.

No silêncio desta árvore onde habita o Impronunciável.

Estarei sempre em guarda. Contra todo esquecimento que nos ameaça.

Serei eu mesmo a memória de todas as lágrimas.

Serei este fogo. Estes beijos amanhecidos nesse seio.

Serei eu mesmo a fogueira que será minha última morada.

Serei teu nome e nele arderá toda a ferocidade. 

E todos os vestígios de um jaguar em azul reencantado.


nuno g.

Toróró, 27 de maio de 22.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Ápeiron


Também tentei tocar com as mãos o indeterminável

E molhar com suor os círculos concêntricos das origens

E foi com os olhos, mais precisamente com os cílios

Que acariciei os círculos concêntricos dos fins

Sorri, quando seus lábios me falaram sobre desistências

& outras coisas impossíveis

Também tentei farejar a luz do esquecimento

& dizer o indizível

Abri os jornais e vi os bombardeiros russos e chineses sobrevoando os céus do oriente

Abri os jornais e vi os diplomatas chineses afirmando:

Tratamos lobos com espingardas

Fiquei imaginando como seria isso escrito em hieróglifo

Fiquei imaginando como seria isso escrito em ideograma

Fiquei imaginando como seria o mundo se não temêssemos a morte

Ouvi o som do escuro e separei a maisena, a vaselina, o suco de limão

Para preparar a massa de biscuit e modelar outra vez o infinito

Abri outra vez os jornais e vi os militares detalhando seus planos para os próximos anos

Orei a Anaximandro e em silêncio bebi o chá que me serviram as montanhas

Talvez essas nuvens guardem as formas da escrita 

Capazes de representar os círculos concêntricos do indeterminável

Orei a Anaximandro, repousei a cabeça na pedra delicada

E sonhei com a linguagem do infinito


nuno g.

25 de maio de 22.


domingo, 22 de maio de 2022

a menina que sonhava com terreiros

 para Gabriela Gonçalves & Larissa Gonçalves,


Eles somos nós

De uma maneira que a linguagem não alcança

Nenhuma linguagem

Nem a do corpo

Nem a da fala

Menos ainda a do pensamento

Açucena é um nome bonito

Cheira bem, soa bem, reverbera

Nós somos eles

De uma maneira que não alcançamos entender

Nem com nenhuma linguagem

Nem quando nos esvaziamos

Mas nunca estivemos realmente vazios

Estamos sempre entre uma ficção e outra

Mas quando sonhamos

Já não somos os mesmos

Já somos eles

E eles são o que somos

O vento chega, refresca e parte

O vento sempre volta ao mesmo lugar onde nasceu


nuno g.

Mata de São João, maio, 2022.