segunda-feira, 19 de outubro de 2020

voto de pobreza - a mala.

Raimundo era padre, vivia em Minas.
Todos os anos vinha nos visitar.
Minha avó, sua cunhada, cozinhava doce de ameixa.
Comíamos com banana batida a garfo.
Ele me ensinou a ler e escrever cartas.
E a olhar as estrelas depois do jantar.
Era o único em que ele e o irmão, meu avô, coincidiam.
Os dois olhavam estrelas após a janta.
Todos os anos Raimundo trazia uma velha mala.
Voltava sempre com uma nova, presente familiar.
No outro ano regressava com uma mala ainda mais velha.
Raimundo morreu atropelado.
E até hoje espero religiosamente suas cartas.

nuno g.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

luto.

 A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará manifesta profundo pesar com o falecimento de Raimundo Aniceto, o mestre Raimundo Aniceto, integrante da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do município do Crato, uma das mais importantes formações da cultura tradicional popular no Ceará e no Brasil. A Secult se solidariza com os integrantes da banda, com os familiares e amigos de mestre Antônio e com tantos quantos se acostumaram a aplaudi-lo, no sem-número de apresentações que sempre combinaram música e dança, tradição e presente, intensidade e alegria.

O toque do primeiro pife da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, comandado pelo Mestre Antônio, jamais será esquecido. Junto ao seu irmão, Antonio Aniceto, e a seus sobrinhos, Mestre Raimundo seguiu se apresentando até pouco tempo, desfilando destreza no pife e na dança, na elegância dos uniformes de cores vivas, na tradição secular das bandas cabaçais. Sempre em movimento, deixando como legado a descoberta e a admiração despertadas em novas gerações, graças à continuidade do trabalho dos Irmãos Aniceto.

Mestre Antônio  se despediu aos 86 anos, foi responsável por manter viva uma das mais belas e marcantes expressões da cultura cearense, estando sempre pronto para transmitir conhecimentos e compartilhar histórias e vivências. Assim foi, por exemplo, com os novos integrantes da banda-mirim dos Irmãos Aniceto, reunindo garotos da comunidade, unidos e encantados pelo poder da tradição, da música, da brincadeira. Tudo com a simplicidade e a gentileza que sempre caracterizaram a presença do grupo, em inúmeras apresentações e em eventos especiais, como o Encontro Mestres do Mundo.

Contribuir para que os Irmãos Aniceto sigam adiante e tenham repercussão cada vez mais ampliada para sua obra é a melhor forma de homenagear Mestre Raimundo. Nosso agradecimento, mestre, por toda uma vida dedicada à cultura cearense.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

poesia.

Porque assim como há fantasmas que parecem remédios, 
assim há remédios que parecem fantasmas. 
Cousa notável, que o mesmo que lhes metia medo como perigo, 
os livrou da tempestade como remédio.
Padre Antônio Vieira

chegou aqui e mergulhou o que sou nas águas do silêncio.
sobreviverei a isso e esse é meu único temor real: meu único medo que não é imaginário.

não quero mais estar aqui, faz tempo.
a minha vida foi sempre uma luta corporal contra o luto, estou exausto.

tenho tanto apreço pelos meus contemporâneos quanto os vampiros ao alho.
eles só querem que isso passe, eu só quero ir à grande Aldeia.
nada nos une, nenhum nó nos ata.

nos próximos dicionários deveria se escrever dinheiro onde se lê alma.
não creio em amor, creio em Maria - ela também veio do que antecede o nada.

tem gente que escreve com palavras.
só sei escrever com as vísceras.
e quando escrevo silêncio, águas, mata, 
é uma forma de orar.
é uma vela amarela que acendo.
é um pedido que faço.

não quero ser condenado a sobreviver ao fim do mundo.
com ter que ser e estar entre meus contemporâneos é uma punição que já basta.

os que me pensam pessimista estão longe.
os que não me pensam quase me agradam.

quando escrevo serpente invoco o veneno que ao parecer remédio é fantasma.
quando escrevo nada o que quero dizer é tempestade.

nuno g.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Eliana e as onças

Eliana suicidou.

Ou como dizia Raimundo,

distraída que era saiu de casa pela janela.

Prefiro acreditar que conseguiu voar.

Trazia no sangue o sangue das onças.

Eu sei quando as ouço cantar.

Eu sei quando as vejo em procissão.

Acendo os vaga-lumes.

E não esqueço.

Eliana suicidou.

E quando em súplicas lhe atribuíram milagres.

Voltaram a violentá-la.

Crucificada outra vez como o índio de Chiapas.

De quem retiraram a infância para ter um Cristo à imagem e semelhança.

Os azulejos azuis, outra violência.

A ausência à lápide, mais violência.

O rosto tão branco quanto o leite.

E a voz das onças pousada ao ombro.

Subindo e descendo a escada espiralada.

Acendo os vaga-lumes.

A vela aos mortos e aos suicidados.

O vento entra.

É primavera.

Da janela: o juazeiro, a jurema, o dendê.

Ou como diria Raimundo,

a trindade vegetal.

Prefiro acreditar que conseguirei voar.


nuno g.

Toróró, 23/09/20

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O ano do infinito

                                                                                              para Maria,

Sete vezes dançaram os praiás sobre a coroa de sua cabeça.

Sete vezes cruzamos os sete rios sem que as águas nos molhassem.

Sete cânticos o jaguar encantado nos presenteou.

Nossa pele por sete fogos atravessada.

Às vésperas do oceano, do sal e do infinito.

Deixando as árvores se desfolharem.

Segurando às mãos a flor sem pétalas.

E ouvindo o tempo.

Sentindo o tempo.

Sabendo a tempo.

Sete vezes dançaram os praiás sobre a coroa de minha cabeça.

Sete rios nos cruzaram sem nos molhar.

Sete jaguares nos cantaram.

Sete fogos atravessaram nossa pele.

Às vésperas do oceano, do sal e do infinito.

Deixando as folhas se libertarem das árvores.

Segurando às mãos as pétalas sem flor.

Sendo ouvido pelo tempo.

Sendo sentido pelo tempo.

Sendo conhecido pelo tempo.

Sabendo que nada sabemos.

Que somos menos.

E que as onças curam ao cantar.

 

nuno g.

23/09/20

terça-feira, 22 de setembro de 2020

os guardiões da floresta e as ruínas do Asno-mor

Hoje foi dito e assentado na ONU, pelo fascista-mor desta terra, que são os caboclos e os índios os que queimam a mata.
Também foi dito que a mata não queima por ser úmida e que estamos à beira de sermos engolidos pela cristofobia.
Os guardiões escutam. Os da terra, os dos subterrâneos, os dos céus.
A insanidade beira o patético. O que eles querem nunca foi tão claro.
Têm apoio e avançam. Têm as armas e avançam. Têm a doença no coração e avançam.
Mas eles são mortais e passam antes de florescer.
Os índios e os caboclos bem sabem o que é um apocalipse.
Já viveram muitos e souberam guardar boas memórias.
Cristo, por supuesto, faz tempo se fez adepto à pajelança.
Há muito tempo, no livro das sete estrelas, foi assentado.
A insanidade, o patético e a enfermidade passam.
Os índios, os caboclos, as onças e as serpentes não.
As cidades do agronegócio já serão ruínas e se ajuntarão às ruínas de nossas chagas verticais.
Será um tempo longo, duro, difícil.
Mas ainda podemos aprender com as ciências indígenas os ensinamentos caboclos.
Ainda poderemos nos resguardar.
Eles sabem o que é um apocalipse e também sabem que sempre haverá quem guarde a mata das memórias e as clareiras do ser.
Não sabemos nada e sentimos que somos menos.
Que venham os guardiões e que nossa humildade os permita nos guiar.
Onças são para sempre.
Poesia também.
saravá!

nuno g.

domingo, 20 de setembro de 2020

As onças – lição do Jaguaribe

O que eles não sabem é que elas não morrem.

Nem o fogo da cidade branca.

Nem a arma esmaltada e bandeirante.

Nem o hálito pode.

O que eles não sabem é que um dia chove.

E que eles sim morrem.

No Icó tem uma casa encarnada.

O vermelho dela não é tinta.

É sangue de menstruação.

É sangue de sussuarana.

O que eles não sabem é que seus automóveis são uma extensão.

Que seus sonhos de Miami são uma triste reedição.

Dos antigos sonhos dos bárbaros de além-mar.

Sem a valentia. Sem a inocência. Sem a coragem dos primeiros.

O que eles não sabem é que seus apartamentos.

Só servem ao vôo dos gaviões.

Que ao se chocarem contra o chão.

Enfiam olhos adentro a sífilis a gonorreia e a solidão.

Lhes devolvem as escaras do tempo.

E gritam não.

O que eles não sabem é que onças reencarnam.

Eles não.

No Icó tem uma cabeça de touro enterrada.

A maquiagem do shopping não desfaz a escuridão.

Poconé e Araguaia: ódio e salvação.

O que eles não sabem é que onça canta.

Assobia, tripudia, ora.

Tem onça que é de Iemanjá.

Tem onça que é de Iansã.

Tem onça que se basta em sua primitiva santidade.


nuno g.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

sábado, 12 de setembro de 2020

Fantoches, por Francisco Espinhara

Os fantoches da rua Sete 

Seguem cegos na procissão.


A puta diurna da Palma

Traz uma venérea na alma

E uma cova diária na mão.


Da Ponte Velha a secular ferrugem

Reticente ao trajeto branco da nuvem

Come o estrado, o arco, o vergão.


Os poetas esquecidos no beco

Transam sangue a trago seco

Dormem como trapos sobre o chão.


Recife, musa, maldição

Cadela suja, traiçoeira

Seta certeira

Encantada cidade do cão.


Francisco Espinhara

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

flores siberianas, por Patti Smith

Flores siberianas são rosadas

como o bracelete de uma filha

pálido penhoar

postado contra uma janela

que não mais desse vista

Há sangue em toda parte

privado de sua cor de sangue

E o rosto do amor é nada

além da brancura do inverno

cobrindo a colina

abeto e pinheiro

gamo e galhada

tudo soprado

e no entanto desejamos

Dois olhos negros

Uma cabeça curvada

Uma coroa caída


Patti Smith

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A alfabetização do éter

Meu pai por fim morreu.

Mais de trinta anos depois de seu corpo ter sido abatido como um bicho.

 

Naquela noite não dormi e saí às quatro e meia da manhã em busca de cigarros.

Fazia um frio intenso e não havia nada na rua.

Nem cães. Nem vendedores de tacos. Nem vendedoras de flautas douradas.

Encontrei numa cantina às margens do lago e voltei fazendo fumaça.

Passos rápidos. Uma viatura de polícia. O carro do lixo.

À minha espera um quarto em paz profunda.

O sono das mulheres depois do milagre.

 

A paz profunda do corpo de meu pai no bagageiro do avião.

Finalmente.

Mais de trinta anos depois.

Sentei na escadinha onde minha avó estivera sentada sete dias atrás.

O corpo no bagageiro do avião como anos antes o corpo de minha mãe.

Belém-Recife-Fortaleza.

Não lembro se havia lua no céu.

Não lembro de sentir frio apesar do tanto de frio que fazia.

Só a paz do sono pós-parto.

O cigarro entre os dedos.

E o silêncio que sempre antecede o amanhecer nos pueblos mexicanos.  

 

A morte sorrindo com a boca atascada de pimenta.

Don Abel Hernández segurando a alça do caixão.

Embarcando o corpo no avião.

Sob o olhar assustado dos policiais do aeroporto.

E o silêncio que antecede o tiro do caçador contra o corpo da cegonha que traz os bebês.

E eu ali. Parado. Fumando.

Na mesma escada em que minha vó esteve sete dias atrás.

Enterrando meu pai na mesma cova onde estava enterrada minha mãe.

Esperando o dia amanhecer para escutar a canção que Maria, recém nascida, entoaria.

 

O alfabeto escrevendo com éter o destino num último instante de calmaria.


nuno g.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

recife

nunca foi exatamente uma cidade

uma rocha na água, uma pedra coberta de sal

nunca foi exatamente um lugar

uma memória de uma memória apagada

algo feito do que antecede a palavra

recife,

sempre sucedida por uma vírgula

uma queda e outra queda e

tubarões lendários e interdição

recife,

só tempo sem densidade

calabouço de reticências e reticências e sal

nunca foi exatamente um carnaval

recife,

sem trocadilhos

sem marasmo

um cinema

um rio

uma farmácia

uma queda que não cessa

recife é uma fenda dentro

              uma fenda que separa o músculo do osso

a carne da alma

nunca foi exatamente um porto

nem uma estação ferroviária

recife,

marco zero de uma falta


nuno g.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O poeta e a freira

 À memória de José Alcides Pinto e Deolindo Tavares

 

O poeta sem descendentes me toca a porta.

Estou no banheiro e tenho papel higiênico às mãos.

A freira, sifilítica, pronuncia jaculatórias que, como círculos de fumaça, não se fecham.

Estou no banheiro e o poeta sem descendentes não tem tempo para esperas.

A freira, sifilítica, toca seu sexo como se nele houvesse ainda a fenda da salvação.

Deus é o abismo insondável, como esse papel sujo de fezes.

Deus é o inominável, como a freira em sua loucura erótica com navios e piratas.

O poeta me chuta a porta.

Entra na casa sem permissão.

Vasculha cada canto da jaula.

A freira, sifilítica e anoréxica, o convida à ceia.

Os dois comem pássaros vivos.

Deus, à guilhotina, como uma barata austríaca enfeitiçada.

Enquanto o rio corre para algum lugar depois do fim do mundo.

A casa, feito chamas, torna mais bela a colina.

Nos parapeitos, vestígios das cabras e dos cigarros.

A freira goza, canções de suplícios e máquinas de devorar leões.

Sua face é tão atrativa quanto as ruas.

E nada, apenas o nada, sobrevive no interior de seu hálito.

O poeta vomita as flores do seu próprio aniversário.

Entre elas as cabeças dos pássaros degolados.

Entre elas meus sonhos de depois de amanhã e de nunca mais.

Não paro de pensar em Bernardo e em sua busca da própria alma.

Ele a escondeu dos maus e agora já não a encontra.

Traz sobre nós a vantagem de saber tê-la perdido.

No inferno isso é uma sabedoria.

Os cães latem. Maria dorme.

O tempo oscila entre a angústia e a epifania.

O poeta quebra os vidros das janelas.

Retira do bolso as receitas dos psiquiatras.

A casa escurece.

A luz se refugia nos cabelos e nas unhas.

A freira, frente ao cadáver, emudece.

Só o rio é indiferente.

Só a pedra não esquece o rumo da reza.

O amargo é o único refúgio do sagrado:

por isso é tão triste o último trago de café.

 

nuno g.

Cachoeira, 12 de agosto de 2020.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

La casa, Stella Díaz Varín

Dejaban mi cabellera colgando desde el tronco de la puerta como trofeo.
Sin precedente en la historia de los indios manantiales,
y una cuenca abierta, para la mirada
de los ojos indiscretos colocada a la acera del abismo...
Y esta era mi morada.
Una víbora, encerrada en la jaula,
destinada a cualquier pájaro,
y una piedra caída temporalmente desde la cima,
una piedra nómade en busca de aventuras servía de puerta,
de mesa de comedor. ..

Qué queréis que se haga con estos materiales.
Nada. Sino escribir poesía melancólica.

Acaso, cuando la noche se despierte
debajo de los murciélagos,
no haya otra cosa sino una sensación,
y a estas vertientes
que a uno le aparecen desde el fondo de los ojos.

No haya
sino un alud de hijos de piedra,
de hijas de agua de hijos de árboles.

Entonces escribiré mi biografía
al uso de los poetas indecisos.
Miraré a través de una llama de cobalto
y distinguiré objetos olvidados;
como cuando dormía adosada a la pared
y todo parecía bello sin serlo.
Tomaré una de mis pequeñas flautas colgantes
y entonaré la canción del amor.

sábado, 8 de agosto de 2020

Luto

A Prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso, Brasil), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos) comunicam o falecimento Dom Pedro Casaldáliga Pla, CMF, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso) e Missionário Claretiano, ocorrido neste dia 08 de agosto de 2020 às 9:40 horas (horário de Brasília), na cidade de Batatais, estado de São Paulo, Brasil.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Fragmento de "O homem da mão seca", Adélia Prado.

Séria fratura,

rigoroso  inquérito.

Fora com os narradores performáticos,

que venham os maus poetas verdadeiros,

a honesta mediocridade:

Feliz Natal para todos

E um Ano Novo de prosperidade.

E ande a carroça. Devagar mas ande.


Adélia Prado

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O mais bonito de todos os ofícios



para uma amiga filósofa, 
em seu refúgio de insurretas cartas

Houve um tempo em que todas as manhãs eles acordavam e sentavam em algum canto à espera de pessoas que queriam dizer algo. Elas chegavam, às vezes envergonhadas outras vezes desaforadas, e lhes diziam o que queriam dizer. Eles traduziam aquilo em palavras, botavam os pontos precisos para impor o ritmo necessário, envelopavam e recebiam o pago. Esse tempo não existe mais, todos agora acreditam ser capazes de dizer por si mesmo o que querem: é um tempo de tristeza e de completo divórcio com a realidade. Escrever uma carta é saber fingir, com tanta intensidade que se chega a sentir que o que se escreve resiste à pesada acareação com o que se sente de fato. Escrever uma carta é se esquecer que quando se escreve deixamos que fale o que somos, o que vive em silêncio e reclusão, o que é ao mesmo tempo travessia e muralha. O tempo, numa carta, é sempre outro. Nunca se deixa alcançar: nele toda perseguição é frustrada. Agora, que todos creem saber dizer de si por si mesmo não encontramos mais esses homens que ao escrever nossas cartas nos revelavam. Ficaram mais pobre os amores, menos pesados os lutos e as experiências foram perdendo suas intensidades. A arte do fingimento é em tudo o oposto da mentira e da vulgaridade. A palavra água deve molhar, a palavra fogo deve queimar, a palavra incenso deve perfumar e a palavra serpente só faz sentido se capaz de envenenar. Ouvi dizer que por aí andam a medir as cartas contando os caracteres que as compõem: nada mais ilustrativo da miséria que habitamos. Escrever cartas é como abrir uma oferenda – deve seguir certos preceitos, deve se abandonar certos pudores tão necessários no cotidiano. A mensagem é sempre o que menos importa – ela se resolve com a linguagem ordinária. Sei que não faltará quem me reprove e afirme que esse ofício se extinguiu com a alfabetização em massa e sei também que sim muitos que buscavam esse serviço o faziam por não dominar a arte da escrita. Mas não é desses que eu falo, não são esses o que aqui importam. Falo daqueles que sabiam que o que sentiam e desejavam dizer estava além das palavras que traziam semeadas. Falo daqueles que não sabiam fingir e que buscavam na imaginação alheia o fingimento necessário à toda verdade. E sim, toda mentira tem na verdade sua própria condição de possibilidade. Ou como me disse uma amiga filósofa: a mentira é uma exigência da verdade. Assim como a urgência e o desespero são exigências da serenidade. Que tempo triste em que ninguém oferece sua imaginação ao outro, sua capacidade de fingir e sua perícia em tentar dizer o que, por definição, não pode ser jamais dito. Quando se escreve uma carta o que menos importa é o que se quer dizer: isso se pode fazer de qualquer jeito. Uma carta exige uma forma, exige uma maneira, exige um estilo. Como qualquer lágrima exige o sal ou qualquer chuva uma alegria. As cartas são na verdade a prova mais cabal que estamos vivos. Os fingimentos que nelas forjamos são o que nos permitem seguir. Se ainda houvessem pessoas e cartas não haveria tanta reclamação sobre ficar em casa por tanto tempo e rapidamente descobriríamos que não é tão mal estarmos juntos a nós mesmos. Se ainda houvessem esses que nos traduzem e se tivéssemos a humildade de reconhecer que não somos capazes, recorreríamos a eles para que nos dissessem com suas palavras, com seus sinais de pontuação e com todos os outros apetrechos do universo da gramática. Ser escritor em nosso tempo é isso: escrever cartas impossíveis para pessoas que não existem mais. É acordar bem cedo, olhar o céu e escrever o amanhecer para que a morte se demore um pouco mais a chegar. É mais comum do que se pensa escrever uma palavra enquanto se sente outra, por isso cada escritor tem seu próprio dicionário. Para uns chuva é alegria, para outros: tristeza. Antes, quando não se sabia como associar as duas coisas era só buscar ajuda com quem com toda energia a essa tarefa se dedicava. Esses já não existem mais e as pessoas agora recorrem aos livros de autoajuda que não são livros nem ajudam ninguém: só engordam as contas bancárias dos farsantes que os escrevem e a arrogância dos fascistas que os tomam por literatura. O mais bonito de todos os ofícios já não existe mais: todos agora acreditam que são capazes de sentir o que dizem e se vestem com trajes de inocências como se fossemos capazes de sentir sem os necessários fingimentos que exige toda e qualquer verdade. O mais bonito de todos os ofícios já não existe mais, vivemos um tempo de completo divórcio com o imaginário instituinte de toda e qualquer realidade: ao nos desfazermos dos fingimentos imaginários tornamos impossível e inalcançável a autenticidade das experiências e substituímos o poético e as angústias que nos são necessárias pelas inutilidades amontoadas nas prateleiras das livrarias contemporâneas. Toda carta é um pressentimento: a beleza daquele ofício, que já não existe mais, consistia em não nos deixar esquecer que não é possível existir, sem a mentira, nenhuma verdade.

nuno g.
Cachoeira, 31 de julho de 2020

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Luto de classes


Nas pandemias, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Nas crises econômicas, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Nas pandemias, como no cotidiano: quem tem privilégios se resguarda, pobres são enterrados.
Pandemias não são guerras: essa é só uma metáfora abusiva e gasta.
Nas guerras, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Nas guerras, nas pandemias, no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
No fascismo, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Amanhã nos noticiários teremos tudo junto e misturado:
Pandemia, crise, fascismo e guerra,
como no cotidiano:
Ricos seguirão sobrevivendo.
Pobres seguirão sendo enterrados.

nuno g.
Cachoeira, 23 de julho de 2020.

sábado, 18 de julho de 2020

Teoria de um casarão do século XIX – sem nostalgia.

o banzo é uma transcendência diante dos traumas seculares
Davi Nunes

Ela lê os livros que a descobrem.
Ela lê os livros que a revelam.
Ela se lê nos livros que lhe dizem sobre não perder tempo.
Nem tudo é esquecimento.
Nem tudo é árvore.
Ela sente no corpo as sílabas que lhe pronunciam.
Ela sabe não haver mais salvação.
Ela sente na língua o sal do atlântico.
Ela se corrói, se revira e salta.
Ela vai se geografando savana – aqui não.
Ela vai, ainda que sem bússola, revisitando os fichamentos que lhe servem de mapa.
Ela é mais que ela.
Ela é ela e sua linhagem.
Ela está junta a seus ancestrais.
Nua, ouvindo jazz, ilhada.
Ela sabe que lá fora existe uma arma apontada desejando sua cabeça.
Ela sabe que lá fora existe um falo apontado desejando seu desejo.
Ela sabe que na solidão deste quarto respira uma saída.
Ela desarma a armadilha e corta os pulsos.
Ela é sua única herança.
E a cada página a miséria fica para trás.

nuno g.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Lá, por Ayla Andrade

Saudade eu sinto de nada. Saudade nem da palavra saudade. Não tenho saudade de pessoas. Nem gosto de pessoas. Nem de cartas.
Saudade eu tenho de outro tempo que eu sabia que não era feliz, mas achava que era. Achar que era feliz era a minha máxima. Era pelo menos real. A certeza de não ser feliz e permanecer achando.
Como aquele dia na praia, no sempre-verão da cidade, dias a fio arranjando como chegar no mar e de lá nunca mais sair.
Nunca mais sair é a nova regra do viver e de permanecer vivo. Permanecer por causa das pessoas de quem nem sou fã.
Fico em casa por mim mesma. Eu, a rede e esse trabalho incessante e desnecessário que me arranjaram mas que me garante o sustento.

No fim a gente vai morrer em casa, com o armário cheio de comida e com lembrança de uma saudade vaga.

Ayla Andrade

terça-feira, 7 de julho de 2020

CONSCIÊNCIA, por Renato Suttana

Dormem bem (é o que dizem)
os que têm a consciência limpa.
Também já tive a consciência limpa,
agora a tenho vazia —
o que não impede que, a cada noite,
eu continue a chafurdar na insônia.

Têm um sono de pedra (é o que dizem)
os que respeitam os ditames
da moral e vivem segundo as conveniências
da razão. Mas isso não impede...
Por ora só tenho esta consciência vazia
e, em todas as noites, a insônia.

(O dia lá fora é frio e cinzento
e enfarruscado de norte a sul,
com ameaça de chuva:
é inverno, e inverno
em todos os quadrantes.)

Dormem como dormem os peixes,
porque têm a consciência tranquila.
Também já a tive tranquila,
agora a tenho vazia,
o que não é nenhuma vantagem.
(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia
e role de encontro
a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)

Dormem como dormem as pedras,
mas isso nada tem a ver com consciência.

Renato Suttana

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Lúcifer, o encantado

Saudade mesmo sinto é das palavras que as pessoas escreviam nas cartas. Hoje, já não existem mais pessoas, já não existem mais cartas – o tempo sim existe, esse deus miserável que por temor ao próprio destino segue engolindo os próprios filhos como os mágicos de circo outrora engoliam fogo-fátuo. Saudade é como um dente podre implorando pra ser arrancado: ser poeta é aguentar nos ombros até a beleza de um cadáver. Não de um cadáver qualquer. Um cadáver de velho tem obrigação de trazer paz. Pelo que viveu. Pelo que sonhou. Pela ameaça que seria o futuro caso seguisse se recusando a ir ao outro lado, a regressar à morada originária. Ser poeta é aguentar nos ombros a beleza do cadáver de uma criança morta. Não te olhando. Não te chorando. Não te pedindo mais nada. Saudade sinto é das coisas que nunca vivi e que sei não me estarem reservadas. Nunca tive tanta comida no armário e posso ficar dias a fio sem fazer nada. Saudade sinto é das rezas, dos cânticos, das ladainhas e da falta de misericórdia que alegrava nossas mais terríveis madrugadas. Ouço o asno do vizinho. Ouço as galinhas da casa de farinha. Desligo o telefone. Os cães latem. Saudade eu sinto é do meu irmão Claudio. O resto tá perfeito. Não ter que ir à universidade. Não ter que escutar professores universitários. Não ter que fazer nada. Quando o mundo some só nos resta a vontade. Já enterrei dois filhos. Já enterrei pai e mãe. Já enterrei avô e avó. Já enterrei meu primo mais próximo. Sou especialista em enterrar cadáveres. Saudade eu tenho de quando fascista era um ser raro: um substantivo pesado, quase-excluído do dicionário. Do que mais sinto saudade é do ato profano de ter saudade. De vagar no labirinto de livros à procura de uma libélula solitária. Os amigos estão bem. Tenho saudade da chuva e do direito de destruir aquários: libertar as esponjas, as algas e todos os seres de sal aprisionados. Não tenho saudades de nada. Amo a casa que vivo. Amo o corpo que tenho. E quando me dizem adeus sou profundamente grato. Não há nada que me faça sair deste campo esférico que habito: o nada me respira, o nunca me pertence e o jamais é dom e é graça. As flores desconhecem a saudade, os espinhos também. Minhas mãos foram feitas para empunhar pás de areia / para enterrar entes queridos – a iluminação destes versos me acompanha: como me acompanham os tapuias jaguaribanos e o árido e inclemente sol do sertão de minha infância. Estamos cercados de trogloditas armados e isso não muda nada. Estamos cercados de impiedade e isso não quer dizer nada. A intolerância é um mais entre tantos signos com os quais fomos ferrados: e sim somos apenas um rebanho mais entre tantos outros. As nossas vacinas não serão capazes de extinguir as colmeias de vírus da terra: graças aos deuses, já exterminamos demasiadas espécies, já acumulamos demasiado karma. Agradeço a onipresença do café. Agradeço a onipotência do amargo. Agradeço a onisciência do insólito. Sei que agora sabemos que somos menos e só nos resta fazer deste mantra nossa nova forma de oração: o resto é sabotagem e desconsideração.

nuno g.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Para o ano dos loucos, por Anne Sexton

uma oração

Ai Maria, mãezinha frágil,
escuta-me, escuta-me agora
ainda que eu não saiba tuas palavras.
O rosário negro com o Cristo prateado
repousa profano em minha mão
pois sou a incrédula.
Cada conta dura e redonda entre meus dedos
é um anjinho negro.
Ai Maria, permite-me essa graça,
essa travessia,
ainda que eu seja feia,
submersa em meu próprio passado
e minha própria loucura.
Embora haja cadeiras,
estou deitada no chão.
Apenas minhas mãos estão vivas,
tocando as contas.
Palavra por palavra, tropeço.
Iniciante ainda, sinto tua boca tocar a minha.

Conto as contas como ondas,
martelando sobre mim.
Perco a conta, desanimo com o número delas,
doente, doente do calor do verão
e a janela acima de mim
é minha única ouvinte, meu ser acanhado.
Ela aceita tudo, me conforta.
Ela é a que dá alento,
e murmura,
bafejando os largos pulmões como um peixe enorme.

Cada vez mais perto,
chega a hora da minha morte
enquanto rearrumo meu rosto, retrocedo,
regrido, meu cabelo fica liso.
Tudo isso é morte.
Na mente há uma viela estreita chamada morte
e passo por ali como se estivesse n’ água.
Meu corpo é inútil.
Jaz imóvel, enrolado como um cachorro no tapete.
Entregou os pontos.
Não há palavras senão as aprendidas pela metade,
o Ave Maria e o cheia de graça.
Agora iniciei o ano sem palavras.
Noto a entrada esquisita e a voltagem exata.
Elas existem sem palavras.
Sem palavras pode-se tocar o pão
e receber nas mãos o pão,
sem som algum.

Ai Maria, médica afável,
vem com pós e ervas,
pois estou no centro.
É bem pequeno e o ar é cinzento,
como numa casa de máquinas
Passam-me o vinho como a uma criança dão o leite.
É ofertado num cálice delicado,
bojudo e de bordas finas.
O vinho em si é cor de piche, mosto e secreto.
O cálice ergue-se sozinho rumo à minha boca
e só percebo e entendo tudo isso
porque acontece.

Tenho medo de tossir
mas não falo,
medo de chuva, medo do cavaleiro
que entra galopando em minha boca.
O cálice entorna por si só
e estou em fogo.
Vejo dois filetes que descem queimando meu queixo.
Vejo-me como se fosse outra.
Fui cortada em duas.

Ai Maria, abre tuas pálpebras.
Estou nos domínios do silêncio,
o reino dos loucos e dos sonâmbulos.
Há sangue aqui
e eu o comi.
Ai mãe do ventre,
vim apenas em busca de sangue?
Ai mãezinha,
estou em meu juízo perfeito,
estou trancada na casa errada.

Anne Sexton
(agosto de 1963)
tradução: Renato Marques de Oliveira

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Proyecto de un beso- Leopoldo María Panero

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.
Te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra.

Te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde.

Te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra.

Te mataré mañana cuando la luna salga,
y al salir de aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación.

Te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida.

Te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas.

Te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.

Leopoldo María Panero
Poema del libro El último hombre, 1984.

sábado, 27 de junho de 2020

Serenidade, por Leopoldo María Panero

                        Para Martin Heidegger

Só há duas coisas : o meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência só se acende
quando o ser é contra ela:
e é assim que todo o conhecimento
e a matriz de toda a figura
é uma ferida,
e só quem chora
é imortal.
E a noite, mãe da sabedoria,
tem a forma inacabável do pranto.

Leopoldo María Panero
tradução: Luis Costa

sexta-feira, 19 de junho de 2020

***

Del amor sólo queda el cuerpo:
Una biología vigorosa y atractiva
con la que me solazo y sueño

En vez de amor tengo poemas
por quienes ser feliz y ser sufrido
los rememoro en mi intimidad
presiento su llegada a mi vida
los maldigo cuando no se entregan
recuerdo siempre cómo han venido

Amor es algo que aprendí en Platón
y en él quemé una larga adolescencia
en la que casi siempre se mostró esquivo
Mas en ese tiempo no sabía de poemas
y mi alma incompleta necesitaba alguien
para ser ella un todo consigo misma
Escribía cartas para que me amaran
ahora amo a los otros en mí y escribo

raúl gomez jattin

domingo, 14 de junho de 2020

5000


São esses os mortos contados no Ceará até agora.
Sabemos que esse número é menor, muito menor que o de fato.
Ontem trezentos fascistas tentaram invadir o congresso nacional.
Ninguém foi preso, ninguém foi morto, ninguém foi espancado.
É que entre eles não havia ninguém que fosse alvo.
Anteontem outros fascistas invadiram hospitais.
A mando do Asno-mor, autoproclamado tirano desta republiqueta infernal.
Ninguém foi preso, ninguém foi morto, ninguém foi espancado.
É que entre eles não havia alvo.
Um jovem é espancado na periferia de São Paulo.
O filho de uma empregada doméstica cai de uma torre no Recife.
Um estudante negro “suspeito” de roubar um carro é preso em Salvador:
Ele não sabia dirigir e foi sequestrado quando voltava da caixa onde foi receber os famigerados seiscentos reais.
Ninguém vai ser preso, ninguém vai ser morto, ninguém vai ser espancado.
São só notícias banais: é só a rotina desta nossa republiqueta infernal.
O ministro da economia faz a contabilidade: com os anciãos mortos ele zera o déficit da previdência social.
O ministro da justiça faz a contabilidade: com os mortos da favela ele equaliza a mão de obra de reserva e diminui o exército de desempregados que poderia levar adiante uma revolução indesejada.
O ministro da educação desfila sua ignorância pelas ruas de Brasília: selfies alegóricas para uma triste posteridade.
Os shoppings estão abertos, as igrejas evangélicas também.
O ministro da saúde escova a farda e amontoa nos gabinetes mais militares: todos especializados em pandemias e problemas sanitários.
O Kuarup foi cancelado: os pajés sabem que os mortos podem esperar – a memória da peste é sábia conselheira.
Com alguma sorte faz sol, dá praia, e na falta de algo melhor vamos todos desfilar nosso racismo, nossa truculência, nossa infinita devoção à barbárie.
Perco o sono e passo a noite em claro pensando: como daqui a uns anos vamos explicar a nossas crianças que vimos tudo isso acontecer e não fizemos nada.
Com que olhos olharemos nos olhos de nossos filhos quando os olhos deles nos pedirem que nos expliquem como permitimos que o mundo que os legamos fosse ainda pior que o mundo que herdamos.
Até Roberto Jeferson, o canalha ressuscitado, aos quatro ventos brada: anistiamos os militares que nos salvaram e a eles agora recorremos que outra vez nos salvem.
Abro os jornais e vejo: Monica Bergamo, Eliane Cantanhêde e Vera Magalhães esbravejando a torto e a direito como se não houvessem semeado isso.
Silvio Santos, Major Curió, Hermanos Weintraub e Olavo de Carvalho: todos condecorados com medalhas de mérito e honrarias.
O ministro do meio ambiente age rápido: o vírus escancarou a porteira passemos a boiada rapidamente.
Damares, a que vê Jesus em pé de goiaba e que por caridade adotou uma indígena, se emociona ao ver navios militares distribuindo a peste na floresta.
Sim, acabou: já basta.
Chega de ler liberais arrependidos disfarçando que não sabiam de nada.
Chega de fazer de conta que os fascistas não são necessários aos sonhos neoliberais de nossa republiqueta com delírios escravocratas.
É domingo. Faz sol. Não vai dar praia.
O meu temor é não ter palavras quando minha filha crescer e me perguntar:
Papai, você viu tudo isso acontecer e não fez nada?

nuno g.
14 de junho de 2020.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

261

261 cearenses foram enterrados hoje.
Carla Zambelli diz que tinha pedras naqueles caixões.
O asno-mor manda a gente tomar tubaína.
A voz do presidente do supremo no roda-viva dizendo:
democracia é assim mesmo
atravessada na goela.
Sempre tem um túnel no fim da luz: o nome dele é poesia.
Depois que a gente enterra a esperança
a geografia do céu ganha fronteiras que desconhecíamos.
Esperar que tudo volte ao normal é falta de imaginação:
Não existe volta e o que chamávamos de normal está morto.
Amanhã é só o nome que inventamos para a delicada arte de conviver com fantasmas

nuno g..

quinta-feira, 14 de maio de 2020

nós e as divindades

sonhei com o mar e meu pés deixavam uma trilha de pegadas nas areias. havia vento, muito vento. e havia também uma música suave e bela que acompanhava meus passos. eu estava só e só caminhava entre muitos outros. eu olhava o mar e o mar me olhava com seus olhos de sal. sonhei com um mar muito antigo de águas calmas e nesse sonhava eu caminhava com uma serenidade absurda. havia muitas outras pessoas entre os grãos de areia, mas eu estava só. nada afetava minha paz e o fato de saber que elas estavam mortas a muito tempo me tranquilizava. sonhei com o mar e com as tantas léguas que caminhei para chegar até ele. muitas foram as montanhas que ficaram para trás e extensa a várzea que me levou até ele. sonhei com enormes olhos de sal e mil tentáculos. uma música suave e bela acompanhava meus passos. deixei uma trilha de pegadas nas areias e apesar do vento todo que ventava essas marcas não se apagavam. era inverno, fazia frio, apesar do sol a pino. meus dedos eram longos como os de um velho pianista enfeitiçado e nenhum mal me habitava. sonhei com o mar e com todas as distâncias que nos separam. havia cavalos, havia cabras, havia som de chocalhos. meu corpo estava fendido e trespassado por espinhos alaranjados como os raios do sol. na minha boca havia fogo e era doce o fogo. na minha boca havia memória de luas das guerras antigas. na minha boca havia atrocidades em excesso. o mar, o vento, as areias. eu estava só, apesar de todos os que me rodeavam. não sentia cansaço, apesar de saber o tanto que havia caminhado até chegar ali. as feridas em meus pés denunciavam a existência de um longo e tortuoso passado e os meus cílios cintilantes anunciavam que em breve outra alma encarnaria em meu corpo desabitado. fazia sol, mas era frio. havia música e minha imagem não refletia nas águas. havia cavalos com um só corno e cabras que se perdiam admirando a abóbada celestial. era maio, era o mês dos nossos aniversários e de alguma forma eu pressentia que nas funduras de alguma fossa oceânica nossas alegrias haviam se reencontrado: ainda que por um breve e inusitado instante, ainda que não estivéssemos acordados e que nosso hálito conservasse gotículas microscópicas de éter extraviado. era maio e maio sempre foi o mês de nossos aniversários. sonhei com o mar e com enormes olhos de sal aferrados a mil tentáculos. despertei tarde e me alimentei com sementes como me ensinaram os pássaros. revisei as correspondências e acariciei a onça estendida no sofá. agradeci às divindades aquele sonho e tomei mais um café - o amargo é ainda mais delicado quando sonhamos com o mar e despertamos encharcados de sal. arranquei fora os espinhos alaranjados de sol - o amargo é ainda mais delicado quando sonhamos com cabras, cavalos e chocalhos. a serpente veio, me abraçou e nos acariciamos como se a eternidade houvesse finalmente se instalado entre essas ruínas onde acampamos. despertei, me alimentei de sementes como me ensinaram os pássaros e me recolhi na medula óssea do mês de maio. mês de nossos aniversários. mês em que recordo que tudo passa e só por isso seguimos aqui. tomei um último café - e agradeci uma última vez às divindades a existência insólita do amargo.


nuno g.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

quarta-feira, 6 de maio de 2020

A MOITA , por marialice

eu sou uma moita que procura outra moita que achei outra moita que viramos gêmeas
eu e ela procuramos outra moita
FIM

marialice