segunda-feira, 19 de outubro de 2020
voto de pobreza - a mala.
Todos os anos vinha nos visitar.
Minha avó, sua cunhada, cozinhava doce de ameixa.
Comíamos com banana batida a garfo.
Ele me ensinou a ler e escrever cartas.
E a olhar as estrelas depois do jantar.
Era o único em que ele e o irmão, meu avô, coincidiam.
Os dois olhavam estrelas após a janta.
Todos os anos Raimundo trazia uma velha mala.
Voltava sempre com uma nova, presente familiar.
No outro ano regressava com uma mala ainda mais velha.
Raimundo morreu atropelado.
E até hoje espero religiosamente suas cartas.
nuno g.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
luto.
A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará manifesta profundo pesar com o falecimento de Raimundo Aniceto, o mestre Raimundo Aniceto, integrante da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do município do Crato, uma das mais importantes formações da cultura tradicional popular no Ceará e no Brasil. A Secult se solidariza com os integrantes da banda, com os familiares e amigos de mestre Antônio e com tantos quantos se acostumaram a aplaudi-lo, no sem-número de apresentações que sempre combinaram música e dança, tradição e presente, intensidade e alegria.
O toque do primeiro pife da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, comandado pelo Mestre Antônio, jamais será esquecido. Junto ao seu irmão, Antonio Aniceto, e a seus sobrinhos, Mestre Raimundo seguiu se apresentando até pouco tempo, desfilando destreza no pife e na dança, na elegância dos uniformes de cores vivas, na tradição secular das bandas cabaçais. Sempre em movimento, deixando como legado a descoberta e a admiração despertadas em novas gerações, graças à continuidade do trabalho dos Irmãos Aniceto.
Mestre Antônio se despediu aos 86 anos, foi responsável por manter viva uma das mais belas e marcantes expressões da cultura cearense, estando sempre pronto para transmitir conhecimentos e compartilhar histórias e vivências. Assim foi, por exemplo, com os novos integrantes da banda-mirim dos Irmãos Aniceto, reunindo garotos da comunidade, unidos e encantados pelo poder da tradição, da música, da brincadeira. Tudo com a simplicidade e a gentileza que sempre caracterizaram a presença do grupo, em inúmeras apresentações e em eventos especiais, como o Encontro Mestres do Mundo.
Contribuir para que os Irmãos Aniceto sigam adiante e tenham repercussão cada vez mais ampliada para sua obra é a melhor forma de homenagear Mestre Raimundo. Nosso agradecimento, mestre, por toda uma vida dedicada à cultura cearense.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
poesia.
sobreviverei a isso e esse é meu único temor real: meu único medo que não é imaginário.
não quero mais estar aqui, faz tempo.
a minha vida foi sempre uma luta corporal contra o luto, estou exausto.
tenho tanto apreço pelos meus contemporâneos quanto os vampiros ao alho.
eles só querem que isso passe, eu só quero ir à grande Aldeia.
nada nos une, nenhum nó nos ata.
nos próximos dicionários deveria se escrever dinheiro onde se lê alma.
não creio em amor, creio em Maria - ela também veio do que antecede o nada.
tem gente que escreve com palavras.
só sei escrever com as vísceras.
e quando escrevo silêncio, águas, mata,
é uma forma de orar.
é uma vela amarela que acendo.
é um pedido que faço.
não quero ser condenado a sobreviver ao fim do mundo.
com ter que ser e estar entre meus contemporâneos é uma punição que já basta.
os que me pensam pessimista estão longe.
os que não me pensam quase me agradam.
quando escrevo serpente invoco o veneno que ao parecer remédio é fantasma.
quando escrevo nada o que quero dizer é tempestade.
nuno g.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
Eliana e as onças
Eliana suicidou.
Ou como dizia Raimundo,
distraída que era saiu de casa pela janela.
Prefiro acreditar que conseguiu voar.
Trazia no sangue o sangue das onças.
Eu sei quando as ouço cantar.
Eu sei quando as vejo em procissão.
Acendo os vaga-lumes.
E não esqueço.
Eliana suicidou.
E quando em súplicas lhe atribuíram milagres.
Voltaram a violentá-la.
Crucificada outra vez como o índio de Chiapas.
De quem retiraram a infância para ter um Cristo à imagem e semelhança.
Os azulejos azuis, outra violência.
A ausência à lápide, mais violência.
O rosto tão branco quanto o leite.
E a voz das onças pousada ao ombro.
Subindo e descendo a escada espiralada.
Acendo os vaga-lumes.
A vela aos mortos e aos suicidados.
O vento entra.
É primavera.
Da janela: o juazeiro, a jurema, o dendê.
Ou como diria Raimundo,
a trindade vegetal.
Prefiro acreditar que conseguirei voar.
nuno g.
Toróró, 23/09/20
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
O ano do infinito
para Maria,
Sete vezes
dançaram os praiás sobre a coroa de sua cabeça.
Sete vezes
cruzamos os sete rios sem que as águas nos molhassem.
Sete
cânticos o jaguar encantado nos presenteou.
Nossa pele por
sete fogos atravessada.
Às vésperas
do oceano, do sal e do infinito.
Deixando as
árvores se desfolharem.
Segurando às
mãos a flor sem pétalas.
E ouvindo o
tempo.
Sentindo o
tempo.
Sabendo a
tempo.
Sete vezes
dançaram os praiás sobre a coroa de minha cabeça.
Sete rios
nos cruzaram sem nos molhar.
Sete
jaguares nos cantaram.
Sete fogos
atravessaram nossa pele.
Às vésperas
do oceano, do sal e do infinito.
Deixando as
folhas se libertarem das árvores.
Segurando às
mãos as pétalas sem flor.
Sendo ouvido
pelo tempo.
Sendo
sentido pelo tempo.
Sendo
conhecido pelo tempo.
Sabendo que
nada sabemos.
Que somos
menos.
E que as
onças curam ao cantar.
nuno g.
23/09/20
terça-feira, 22 de setembro de 2020
os guardiões da floresta e as ruínas do Asno-mor
Também foi dito que a mata não queima por ser úmida e que estamos à beira de sermos engolidos pela cristofobia.
Os guardiões escutam. Os da terra, os dos subterrâneos, os dos céus.
A insanidade beira o patético. O que eles querem nunca foi tão claro.
Têm apoio e avançam. Têm as armas e avançam. Têm a doença no coração e avançam.
Mas eles são mortais e passam antes de florescer.
Os índios e os caboclos bem sabem o que é um apocalipse.
Já viveram muitos e souberam guardar boas memórias.
Cristo, por supuesto, faz tempo se fez adepto à pajelança.
Há muito tempo, no livro das sete estrelas, foi assentado.
A insanidade, o patético e a enfermidade passam.
Os índios, os caboclos, as onças e as serpentes não.
As cidades do agronegócio já serão ruínas e se ajuntarão às ruínas de nossas chagas verticais.
Será um tempo longo, duro, difícil.
Mas ainda podemos aprender com as ciências indígenas os ensinamentos caboclos.
Ainda poderemos nos resguardar.
Eles sabem o que é um apocalipse e também sabem que sempre haverá quem guarde a mata das memórias e as clareiras do ser.
Não sabemos nada e sentimos que somos menos.
Que venham os guardiões e que nossa humildade os permita nos guiar.
Onças são para sempre.
Poesia também.
saravá!
domingo, 20 de setembro de 2020
As onças – lição do Jaguaribe
O que eles não sabem é que elas não morrem.
Nem o fogo
da cidade branca.
Nem a arma
esmaltada e bandeirante.
Nem o hálito
pode.
O que eles
não sabem é que um dia chove.
E que eles
sim morrem.
No Icó tem
uma casa encarnada.
O vermelho
dela não é tinta.
É sangue de menstruação.
É sangue de sussuarana.
O que eles
não sabem é que seus automóveis são uma extensão.
Que seus
sonhos de Miami são uma triste reedição.
Dos antigos
sonhos dos bárbaros de além-mar.
Sem a
valentia. Sem a inocência. Sem a coragem dos primeiros.
O que eles
não sabem é que seus apartamentos.
Só servem ao
vôo dos gaviões.
Que ao se
chocarem contra o chão.
Enfiam olhos
adentro a sífilis a gonorreia e a solidão.
Lhes devolvem
as escaras do tempo.
E gritam
não.
O que eles
não sabem é que onças reencarnam.
Eles não.
No Icó tem
uma cabeça de touro enterrada.
A maquiagem
do shopping não desfaz a escuridão.
Poconé e
Araguaia: ódio e salvação.
O que eles
não sabem é que onça canta.
Assobia, tripudia,
ora.
Tem onça que
é de Iemanjá.
Tem onça que
é de Iansã.
Tem onça que
se basta em sua primitiva santidade.
nuno g.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
sábado, 12 de setembro de 2020
Fantoches, por Francisco Espinhara
Os fantoches da rua Sete
Seguem cegos na procissão.
A puta diurna da Palma
Traz uma venérea na alma
E uma cova diária na mão.
Da Ponte Velha a secular ferrugem
Reticente ao trajeto branco da nuvem
Come o estrado, o arco, o vergão.
Os poetas esquecidos no beco
Transam sangue a trago seco
Dormem como trapos sobre o chão.
Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão.
Francisco Espinhara
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
flores siberianas, por Patti Smith
Flores siberianas são rosadas
como o bracelete de uma filha
pálido penhoar
postado contra uma janela
que não mais desse vista
Há sangue em toda parte
privado de sua cor de sangue
E o rosto do amor é nada
além da brancura do inverno
cobrindo a colina
abeto e pinheiro
gamo e galhada
tudo soprado
e no entanto desejamos
Dois olhos negros
Uma cabeça curvada
Uma coroa caída
Patti Smith
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
A alfabetização do éter
Meu pai por fim morreu.
Mais de trinta anos depois de seu corpo ter sido abatido
como um bicho.
Naquela noite não dormi e saí às quatro e meia da manhã em
busca de cigarros.
Fazia um frio intenso e não havia nada na rua.
Nem cães. Nem vendedores de tacos. Nem vendedoras de flautas
douradas.
Encontrei numa cantina às margens do lago e voltei fazendo
fumaça.
Passos rápidos. Uma viatura de polícia. O carro do lixo.
À minha espera um quarto em paz profunda.
O sono das mulheres depois do milagre.
A paz profunda do corpo de meu pai no bagageiro do avião.
Finalmente.
Mais de trinta anos depois.
Sentei na escadinha onde minha avó estivera sentada sete
dias atrás.
O corpo no bagageiro do avião como anos antes o corpo de
minha mãe.
Belém-Recife-Fortaleza.
Não lembro se havia lua no céu.
Não lembro de sentir frio apesar do tanto de frio que fazia.
Só a paz do sono pós-parto.
O cigarro entre os dedos.
E o silêncio que sempre antecede o amanhecer nos pueblos mexicanos.
A morte sorrindo com a boca atascada de pimenta.
Don Abel Hernández segurando a alça do caixão.
Embarcando o corpo no avião.
Sob o olhar assustado dos policiais do aeroporto.
E o silêncio que antecede o tiro do caçador contra o corpo
da cegonha que traz os bebês.
E eu ali. Parado. Fumando.
Na mesma escada em que minha vó esteve sete dias atrás.
Enterrando meu pai na mesma cova onde estava enterrada minha
mãe.
Esperando o dia amanhecer para escutar a canção que Maria,
recém nascida, entoaria.
O alfabeto escrevendo com éter o destino num último instante
de calmaria.
nuno g.
terça-feira, 18 de agosto de 2020
recife
nunca foi exatamente uma cidade
uma rocha na água, uma pedra
coberta de sal
nunca foi exatamente um lugar
uma memória de uma memória
apagada
algo feito do que antecede a
palavra
recife,
sempre sucedida por uma vírgula
uma queda e outra queda e
tubarões lendários e interdição
recife,
só tempo sem densidade
calabouço de reticências e
reticências e sal
nunca foi exatamente um carnaval
recife,
sem trocadilhos
sem marasmo
um cinema
um rio
uma farmácia
uma queda que não cessa
recife é uma fenda dentro
uma fenda que separa o músculo do
osso
a carne da alma
nunca foi exatamente um porto
nem uma estação ferroviária
recife,
marco zero de uma falta
nuno g.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
O poeta e a freira
À memória de José Alcides Pinto e Deolindo Tavares
O poeta sem descendentes me toca a porta.
Estou no banheiro e tenho papel higiênico às mãos.
A freira, sifilítica, pronuncia jaculatórias que, como
círculos de fumaça, não se fecham.
Estou no banheiro e o poeta sem descendentes não tem tempo para
esperas.
A freira, sifilítica, toca seu sexo como se nele houvesse
ainda a fenda da salvação.
Deus é o abismo insondável, como esse papel sujo de fezes.
Deus é o inominável, como a freira em sua loucura erótica
com navios e piratas.
O poeta me chuta a porta.
Entra na casa sem permissão.
Vasculha cada canto da jaula.
A freira, sifilítica e anoréxica, o convida à ceia.
Os dois comem pássaros vivos.
Deus, à guilhotina, como uma barata austríaca enfeitiçada.
Enquanto o rio corre para algum lugar depois do fim do
mundo.
A casa, feito chamas, torna mais bela a colina.
Nos parapeitos, vestígios das cabras e dos cigarros.
A freira goza, canções de suplícios e máquinas de devorar
leões.
Sua face é tão atrativa quanto as ruas.
E nada, apenas o nada, sobrevive no interior de seu hálito.
O poeta vomita as flores do seu próprio aniversário.
Entre elas as cabeças dos pássaros degolados.
Entre elas meus sonhos de depois de amanhã e de nunca mais.
Não paro de pensar em Bernardo e em sua busca da própria
alma.
Ele a escondeu dos maus e agora já não a encontra.
Traz sobre nós a vantagem de saber tê-la perdido.
No inferno isso é uma sabedoria.
Os cães latem. Maria dorme.
O tempo oscila entre a angústia e a epifania.
O poeta quebra os vidros das janelas.
Retira do bolso as receitas dos psiquiatras.
A casa escurece.
A luz se refugia nos cabelos e nas unhas.
A freira, frente ao cadáver, emudece.
Só o rio é indiferente.
Só a pedra não esquece o rumo da reza.
O amargo é o único refúgio do sagrado:
por isso é tão triste o último trago de café.
nuno g.
Cachoeira, 12 de agosto de 2020.
terça-feira, 11 de agosto de 2020
La casa, Stella Díaz Varín
Sin precedente en la historia de los indios manantiales,
y una cuenca abierta, para la mirada
de los ojos indiscretos colocada a la acera del abismo...
Y esta era mi morada.
Una víbora, encerrada en la jaula,
destinada a cualquier pájaro,
y una piedra caída temporalmente desde la cima,
una piedra nómade en busca de aventuras servía de puerta,
de mesa de comedor. ..
Qué queréis que se haga con estos materiales.
Nada. Sino escribir poesía melancólica.
Acaso, cuando la noche se despierte
debajo de los murciélagos,
no haya otra cosa sino una sensación,
y a estas vertientes
que a uno le aparecen desde el fondo de los ojos.
No haya
sino un alud de hijos de piedra,
de hijas de agua de hijos de árboles.
Entonces escribiré mi biografía
al uso de los poetas indecisos.
Miraré a través de una llama de cobalto
y distinguiré objetos olvidados;
como cuando dormía adosada a la pared
y todo parecía bello sin serlo.
Tomaré una de mis pequeñas flautas colgantes
y entonaré la canción del amor.
sábado, 8 de agosto de 2020
Luto
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Fragmento de "O homem da mão seca", Adélia Prado.
Séria fratura,
rigoroso inquérito.
Fora com os narradores performáticos,
que venham os maus poetas verdadeiros,
a honesta mediocridade:
Feliz Natal para todos
E um Ano Novo de prosperidade.
E ande a carroça. Devagar mas ande.
Adélia Prado
sexta-feira, 31 de julho de 2020
O mais bonito de todos os ofícios
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Luto de classes
sábado, 18 de julho de 2020
Teoria de um casarão do século XIX – sem nostalgia.
Ela lê os livros que a descobrem.
Ela lê os livros que a revelam.
Ela se lê nos livros que lhe dizem sobre não perder tempo.
Nem tudo é esquecimento.
Nem tudo é árvore.
Ela sente no corpo as sílabas que lhe pronunciam.
Ela sabe não haver mais salvação.
Ela sente na língua o sal do atlântico.
Ela se corrói, se revira e salta.
Ela vai se geografando savana – aqui não.
Ela vai, ainda que sem bússola, revisitando os fichamentos que lhe servem de mapa.
Ela é mais que ela.
Ela é ela e sua linhagem.
Ela está junta a seus ancestrais.
Nua, ouvindo jazz, ilhada.
Ela sabe que lá fora existe uma arma apontada desejando sua cabeça.
Ela sabe que lá fora existe um falo apontado desejando seu desejo.
Ela sabe que na solidão deste quarto respira uma saída.
Ela desarma a armadilha e corta os pulsos.
Ela é sua única herança.
E a cada página a miséria fica para trás.
nuno g.
quarta-feira, 8 de julho de 2020
Lá, por Ayla Andrade
Saudade eu tenho de outro tempo que eu sabia que não era feliz, mas achava que era. Achar que era feliz era a minha máxima. Era pelo menos real. A certeza de não ser feliz e permanecer achando.
Como aquele dia na praia, no sempre-verão da cidade, dias a fio arranjando como chegar no mar e de lá nunca mais sair.
Nunca mais sair é a nova regra do viver e de permanecer vivo. Permanecer por causa das pessoas de quem nem sou fã.
Fico em casa por mim mesma. Eu, a rede e esse trabalho incessante e desnecessário que me arranjaram mas que me garante o sustento.
Ayla Andrade
terça-feira, 7 de julho de 2020
CONSCIÊNCIA, por Renato Suttana
os que têm a consciência limpa.
Também já tive a consciência limpa,
agora a tenho vazia —
o que não impede que, a cada noite,
eu continue a chafurdar na insônia.
Têm um sono de pedra (é o que dizem)
os que respeitam os ditames
da moral e vivem segundo as conveniências
da razão. Mas isso não impede...
Por ora só tenho esta consciência vazia
e, em todas as noites, a insônia.
(O dia lá fora é frio e cinzento
e enfarruscado de norte a sul,
com ameaça de chuva:
é inverno, e inverno
em todos os quadrantes.)
Dormem como dormem os peixes,
porque têm a consciência tranquila.
Também já a tive tranquila,
agora a tenho vazia,
o que não é nenhuma vantagem.
(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia
e role de encontro
a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)
Dormem como dormem as pedras,
mas isso nada tem a ver com consciência.
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Lúcifer, o encantado
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Para o ano dos loucos, por Anne Sexton
Ai Maria, mãezinha frágil,
escuta-me, escuta-me agora
ainda que eu não saiba tuas palavras.
O rosário negro com o Cristo prateado
repousa profano em minha mão
pois sou a incrédula.
Cada conta dura e redonda entre meus dedos
é um anjinho negro.
Ai Maria, permite-me essa graça,
essa travessia,
ainda que eu seja feia,
submersa em meu próprio passado
e minha própria loucura.
Embora haja cadeiras,
estou deitada no chão.
Apenas minhas mãos estão vivas,
tocando as contas.
Palavra por palavra, tropeço.
Iniciante ainda, sinto tua boca tocar a minha.
Conto as contas como ondas,
martelando sobre mim.
Perco a conta, desanimo com o número delas,
doente, doente do calor do verão
e a janela acima de mim
é minha única ouvinte, meu ser acanhado.
Ela aceita tudo, me conforta.
Ela é a que dá alento,
e murmura,
bafejando os largos pulmões como um peixe enorme.
Cada vez mais perto,
chega a hora da minha morte
enquanto rearrumo meu rosto, retrocedo,
regrido, meu cabelo fica liso.
Tudo isso é morte.
Na mente há uma viela estreita chamada morte
e passo por ali como se estivesse n’ água.
Meu corpo é inútil.
Jaz imóvel, enrolado como um cachorro no tapete.
Entregou os pontos.
Não há palavras senão as aprendidas pela metade,
o Ave Maria e o cheia de graça.
Agora iniciei o ano sem palavras.
Noto a entrada esquisita e a voltagem exata.
Elas existem sem palavras.
Sem palavras pode-se tocar o pão
e receber nas mãos o pão,
sem som algum.
Ai Maria, médica afável,
vem com pós e ervas,
pois estou no centro.
É bem pequeno e o ar é cinzento,
como numa casa de máquinas
Passam-me o vinho como a uma criança dão o leite.
É ofertado num cálice delicado,
bojudo e de bordas finas.
O vinho em si é cor de piche, mosto e secreto.
O cálice ergue-se sozinho rumo à minha boca
e só percebo e entendo tudo isso
porque acontece.
Tenho medo de tossir
mas não falo,
medo de chuva, medo do cavaleiro
que entra galopando em minha boca.
O cálice entorna por si só
e estou em fogo.
Vejo dois filetes que descem queimando meu queixo.
Vejo-me como se fosse outra.
Fui cortada em duas.
Ai Maria, abre tuas pálpebras.
Estou nos domínios do silêncio,
o reino dos loucos e dos sonâmbulos.
Há sangue aqui
e eu o comi.
Ai mãe do ventre,
vim apenas em busca de sangue?
Ai mãezinha,
estou em meu juízo perfeito,
estou trancada na casa errada.
Anne Sexton
(agosto de 1963)
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Proyecto de un beso- Leopoldo María Panero
y el primer somormujo me diga su palabra.
Te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra.
Te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde.
Te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra.
Te mataré mañana cuando la luna salga,
y al salir de aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación.
Te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida.
Te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas.
Te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche.
Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.
Poema del libro El último hombre, 1984.
sábado, 27 de junho de 2020
Serenidade, por Leopoldo María Panero
Só há duas coisas : o meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência só se acende
quando o ser é contra ela:
e é assim que todo o conhecimento
e a matriz de toda a figura
é uma ferida,
e só quem chora
é imortal.
E a noite, mãe da sabedoria,
tem a forma inacabável do pranto.
Leopoldo María Panero
tradução: Luis Costa
sexta-feira, 19 de junho de 2020
***
Una biología vigorosa y atractiva
con la que me solazo y sueño
En vez de amor tengo poemas
por quienes ser feliz y ser sufrido
los rememoro en mi intimidad
presiento su llegada a mi vida
los maldigo cuando no se entregan
recuerdo siempre cómo han venido
Amor es algo que aprendí en Platón
y en él quemé una larga adolescencia
en la que casi siempre se mostró esquivo
Mas en ese tiempo no sabía de poemas
y mi alma incompleta necesitaba alguien
para ser ella un todo consigo misma
Escribía cartas para que me amaran
ahora amo a los otros en mí y escribo
raúl gomez jattin
quinta-feira, 18 de junho de 2020
domingo, 14 de junho de 2020
5000
quinta-feira, 21 de maio de 2020
261
Carla Zambelli diz que tinha pedras naqueles caixões.
O asno-mor manda a gente tomar tubaína.
A voz do presidente do supremo no roda-viva dizendo:
democracia é assim mesmo
Sempre tem um túnel no fim da luz: o nome dele é poesia.
Depois que a gente enterra a esperança
a geografia do céu ganha fronteiras que desconhecíamos.
Esperar que tudo volte ao normal é falta de imaginação:
Não existe volta e o que chamávamos de normal está morto.
Amanhã é só o nome que inventamos para a delicada arte de conviver com fantasmas
nuno g..
quinta-feira, 14 de maio de 2020
nós e as divindades
nuno g.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
A MOITA - PARTE 3, por Marialice
FIM
marialice
quinta-feira, 7 de maio de 2020
A MOITA - Parte 2, por Marialice
e a moita se chamava maria alice
Marialice
quarta-feira, 6 de maio de 2020
A MOITA , por marialice
eu e ela procuramos outra moita
FIM
marialice