Para Antonio Cornejo Polar
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Meia-lua, sol de boiadeiro,
Redemoinho e azul,
O sol, dourado, se esparramando no pasto,
A montanha, ferida
e os três chicotes no
interior vazio do cálice.
Para Antonio Cornejo Polar
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Meia-lua, sol de boiadeiro,
Redemoinho e azul,
O sol, dourado, se esparramando no pasto,
A montanha, ferida
e os três chicotes no
interior vazio do cálice.
Minha alma correu grandes perigos ontem à noite.
O cavaleiro Azul me estendeu a mão e me salvou.
Voltei onde nunca tinha estado.
E vi coisas que não deveria ter visto.
E, por isso, jamais as poderia esquecer.
Minha alma atravessou grandes perigos ontem à noite.
O cavaleiro Azul me ergueu do chão e fez brotar raízes dos
meus pés.
Voltei. Agradeci. Não esqueço.
Abri as asas e regressei para onde sempre estive.
O cavaleiro Azul sorriu.
E minha alma girou sobre o chão do terreiro.
Vulcões, terremotos, tempestades.
Minha alma pediu socorro e o cavaleiro Azul veio.
Com sua lança prateada e sua legião de crianças e cavalos.
As coisas que vi não sei narrar.
As palavras me escorrem como o sangue do galo sacrificado.
Vulcões, terremotos, tempestades.
E o cavaleiro Azul desencantado.
Minha alma caminhou até a fonte de águas doces.
Saciou sua sede e seguiu sua fiel jornada.
nuno g.
Toróró, 18 de julho de 2021
Dentes trincados, velas acesas.
Corpo de luz, Leminski à vitrine.
Esboço de amarelo mofado.
Algodão aos pés da tropa.
Ouro em pó e distância.
Velas acesas, dentes trincados.
Amanhecer de.
Esboço de carne e pássaros.
Terra devastada e.
Corpo de luz, vitrine devassada.
Em vão, ou quase.
Como se o som da noite fosse o vento de UAKTI.
Atravessando meu corpo de pífano desregrado.
A lua no céu, sorriso do gato.
Esboço do Nada.
Ponto riscado, azul de ilha.
Esboço, arco e.
Ciranda. A gira. E o lastro.
Removo a argila.
Cavalo castanho na beira da praia.
Ele chega. Me sagra.
E a gira segue nas pancadas do mar.
nuno g.
Toróró, 16 de julho de 2021.
A lei. A lei. A lei.
O galo e o enforcado.
E o meu sonho de sempre sobre o meu rosto antes do
nascimento.
Refletido na água.
Cravejado com espinhos de ferro & aço.
Brilhando na noite da mata.
Em meio às estrelas e aos dentes de minha mãe.
A lei. A lei. A lei.
A primavera se abrindo com o sangue do galo.
Gotejando na carta do enforcado.
A lei. A lei. A lei.
E o meu rosto de sonho sempre antes do nascimento.
Cavalgando Eleguá, o cavalo de pedra.
E sua crina lambuzada de mel.
Entre os seios e as coxas de minha mãe.
Como se na carne uma fenda aberta à outra carne.
E no coração do mistério um abismo a outro abismo.
Gotejando nos caules de milefólio.
A lei. A lei. A lei.
O galo, o sonho, o enforcado.
Sempre.
O Azul caminhando ao meu lado.
Com sua espada de metal e a serpente.
Um olho tatuado dentro do olho.
Como a noite e o rastro das asas.
O inverno, a seca, o rio que morre e renasce.
Fogo-fátuo ante o palácio dos eguns.
Meu dicionário, meus medos interditados.
A lei. A lei. A lei.
A testa toca o chão ao som do atabaque.
Meu rosto é o mesmo de sempre.
Meu rosto antecede meu nascimento.
O sangue do galo pinga sobre o metal da espada.
A lei. A lei. A lei.
Dentro do cálice os três chicotes trabalham.
A forja Dele. A crina de mel. O silêncio do outono.
A memória do curry e do shoyu, a fonte.
Todos os quintais vão se abrindo.
Escadas e jardins e escadas e jardins e.
Não há mais esperanças:
A vida pode finalmente florescer em paz.
nuno g.
Toróró, 12 de julho de 2021
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos
que deres,
Nesse caminho
duro
Do futuro
Dá-os em
liberdade.
Enquanto não
alcances
Não descanses.
De nenhum
fruto queiras só metade.
E, nunca
saciado,
Vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a
sonhar e vendo
O logro da
aventura.
És homem, não
te esqueças!
Só é tua a
loucura
Onde, com
lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Saudações pindaibísticas!
Comparsas, a esfera voltou a girar!
Em 2021 a revista Pindaíba completa 18
anos. Quatro edições publicadas e uma quinta prestes a ir ao prelo.
Há cinco anos lançamos a quarta edição
e concluímos que já bastava. A Pindaíba deveria morrer pois fazia parte de um
tempo que deixou de ser. Observamos as mudanças profundas que estavam
acontecendo no mundo e também ao nosso redor, no nosso reduzido universo das
relações próximas e pessoais... O velho Benfica dos anos 90 e começo dos anos
2000 (quando começamos) com seus bares de esquina e butiquins; o Brasil da era
Lula e PT; a América Latina com seus governos nacionalistas e populares não
mais existiam. Tudo se desfazia no ar e um novo mundo, com perspectivas
sombrias, se manisfestava. Portanto, entendíamos que a quinta edição seria a
derradeira. Se ainda teimássemos em fazer revista deveria ser uma outra, com
novas características, que refletisse os “novos tempos”...
Embalados pela ideia da Morte da
Pindaíba, logo organizamos a nova e última edição. Nos reunimos na Praça João
Gentil, decidimos sobre o caráter da coletânea de contos e poemas, deliberamos
sobre as matérias, recebemos os textos, criamos o projeto gráfico e fizemos a
diagramação. A ideia era lançar ainda no ano de 2017. No entanto, como não
poderia deixar de ser, a vida surpeendeu: nesse ano perdemos um comparsa muito
querido, pindaibeiro mor, pelo seu modo de ser e encarar a existência; Carlos
Jorge encarnava, como ninguém, o espírito contestador da Pindaíba. Para além,
CJ representava esse velho Benfica onde
costumávamos nos perder noites afora, esse Benfica que havia passado. Ao meu
ver, CJ é o símbolo maior, pelo menos
para nós pindaibeiros, dessa era de sonhos etílicos, de brisa e madrugadas
marginais.
A partida inesperada de nosso amigo
causou um refluxo. Os encontros na praça pararam de acontecer, a produção da
quinta edição passou a operar em modo “banho-maria”, a esfera parou de girar...
Essa paralisia perdurou até o fim de 2019, quando ventos de entusiasmo
voltoaram a embaralhar nossas cabeleiras. Reavaliamos a ideia de matar a
revista e a desconsideramos totalmente. PINDAÍBA VIVE! passou a ser nosso lema,
o oposto. Avaliávamos agora que a morte já havia levado seu tributo; já
tínhamos perdido o CJ. A Pindaíba não cederia mais nada à senhora contratante
de Caronte, pelo menos não agora. Essa retomada merecia uma celebração.
Organizamos uma confraternização de fim de ano na saudosa casa do Manoel, no
Benfica, com a convicção de que no primeiro semestre de 2020 a revistinha seria
lançada. Ledo engano. Mais uma vez a vida veio e nos deu uma rasteira.
Iniciava-se naquele ano a Pandemia do Corona Vírus, acentuada aqui no país
pela nefasta polítca do flagelo Bozonazi
e as serpentes golpistas. Tivemos que estacionar a esfera mais uma vez. Algo
muito mais urgente requeria nossa atenção.
Pois bem, após esse histórico, me
permitam afirmar que uma nova oportunidade se apresenta. O povo tá ocupando as ruas novamente, dessa
vez para protestar. Na verdade a maioria dos brasileiros nunca pôde deixar as
ruas. O isolamento social, segundo estatísticas, só alcançou 27% da população. A massa de trabalhadores
continuou obrigada a dividir ônibus e metrôs lotados, assim como as linhas de
montagem das grandes indústrias e comércios. Devemos aproveitar essa onda de
protestos para se juntar às manifestações e também, com a vontade renovada,
trazer a Pindaíba à luz.
A revista está pronta, terá 140
páginas. Além da coletânea COLÍRIOS E DELÍRIOS de poemas e contos, reunindo 34
autores, essa edição traz: 4HQs; entrevista com o grupo cearense de teatro
Pícaros; entrevista com Jonnata Doll;
matéria sobre o poeta cratense Geraldo Urano; matéria sobre a cena marginal da
literautura de Natal/RN; matéria sobre a literatura independente de Teresina/PI
e a tradicional seção TÔ PUTO! (os “tô puto” serão acrescidos após uma campanha
de divulgação).
Muito é preciso fazer. Vamos começar a
etapa de divulgação e campanha financeira. É necessário o engajamento de todos,
pois só é possível a publicação com o empenho coletivo dos pindaibeiros.
Vamos novamente nos reunir na Praça João Gentil no sábado 17/06. Todos
com máscaras e mantendo o distanciamento
proporcionado pelo espaço livre da praça. Na ocasião apresentaremos o boneco
impresso para que os autores possam verificar a revisão; informaremos os
valores da gráfica; discutiremos as atividades de divulgação e de venda e a
participação da revista nas manifestações. Quando mais próximo, informaremos
horário e a pauta de discussão mais específica. Os pindaibeiros que não puderem
comparecer ou que ainda não se sentem seguros em participar de atividades desse
porte, podem requerer encontros pessoais
na semana seguinte para esclarecimentos e ficar a par dos informes e
encaminhamentos.
Sem mais no momento,
Abraços e Vida Longa à Revista
Pindaíba!!!
André Dias
Fortaleza/CE.
29 de junho de 2021
outra vez em fuga o cavalo:
em busca de seu dono e sob o batismo de teus olhos
outra vez sua crina banhada em mel:
em busca de seu destino de metal e mais-metal
como se a cada passo no pasto
abrisse nuvens e túneis
que O tornavam mais reconhecível aos olhos que selaram seu
nome.
nuno g.
De que carne cá dentro vem
aquilo que em mim tenta e pode
escrever o que estou lendo
de outrem?
Não propriamente posse —
antes uma disposição
que internamente se impõe:
o corpo inteiramente votado
ao trânsito dum longo transe.
Não sei de que mais me envolva
tantas horas – nem dos distúrbios
do amor e respetivo sexo.
Cúpida presa mira longe texto.
Correntes desenrolam-me outra
coisa que não seca, conquanto
subam e desçam, carrossel
esconso, áspero silvado
ora escarpa, ora dossel
fluvial, Ó quanta líbido
discípulos da vertigem (à
falta de mais certeiro nome —
sanguíneo pneuma?) pode
trasladar a carne o canhão
para a fome espiritual?
Margarida Vale de Gato
o que você chama de paz eu chamo terror / e sim, há sangue correndo entre essas águas do Jaguaribe / a minha insônia traz nome, não O revelo / meu fastio, minha insolência, meu despertencimento / só O que não se reconhece ao espelho interessa / essa fábrica de narcisos engrossando fileiras de algoritmos desenfreados / tenho a madrugada, a neblina e o meu coração cheio de covas abertas e gotas de / o gato mia / o gato foge / o gato se encurrala em seu próprio labirinto como um fauno / como um asno / como um avestruz de penas ruivas / as fezes sobre os sonhos e os dias de adoração ao Senhor / quaresma / quaresma / quaresma / e a nova penitência / como num filme antigo / preto-e-branco / como o manto sagrado do Ceará / o que você chama terror eu chamo paz / e sim, tarda em arder a sarça / a minha revelação traz nome: insônia / tenho a madrugada / a neblina / e esse leve rumor de asas que não me deixa esquecer que atrás da imagem refletida na água evapora tudo o que é sagrado.
nuno g.
Um Sonho existe em nós como um cisne num lago
de água profunda e clara e em cujo fundo existe
outro cisne alvo e triste, e ainda mais alvo e triste
que a sua forma real de um tom dolente e vago.
Nada: e os gestos que tem, de carícia e de afago,
lembram da imagem tênue, onde a tristeza insiste
por ser mais alva, a graça inversa em que consiste
a dolente mudez de um espelho pressago.
Um cisne existe em nós como um sonho de calma,
plácido, um cisne branco e triste, longo e lasso
e puro, sobre a face oculta de nossa alma.
E a sua imagem lembra a imagem de um destino
de pureza e de amor que segue, passo a passo,
este sonho imortal como um cisne divino!
Eduardo Guimaraens
Rogo, rezo, imploro.
Aos anjos
Pelo sinal do caminho de regresso
ao corpo em que nasci.
nuno g.
Bebemos uma água suja
Que eles dizem
Que está limpa
Comemos uma ração podre
Que eles dizem
Que é comida
Vivemos sob uma luz turva
Que eles dizem
Que está vívida
Eles dizem muitas coisas
E a tudo damos graças
Mais tudo que temos
São essas coisas baratas
Maconha, cigarro e cachaça!
Rony Bonn.
Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
Annibal Teophilo
Quinze horas cruzando Minas Gerais.
As flores, as máscaras e os dois arco-íris na fronteira.
Quinze horas abandonando flechas no acostamento.
Quinze horas cruzando um Sonho absurdo e gigantesco.
Quinze horas nas veredas da mata de Tempo.
Quinze horas de guerra e oração dentro.
Itamaraju foi crescendo – o que era um quintal se fez um
céu.
E nossos corpos deitaram-se um sobre o outro.
Meus passos de vespa zumbindo no mercado.
Comprando frutas, comprando própolis, comprando cigarros.
Meus passos de mosca santificando a semana de um só dia.
Mastigando bolinhos caipiras na porta da barraca e lembrando.
De uma noite no vale dos buritis – penas brancas &
cobras corais.
O rapé. O pajé. A poeta. O irmão.
Itamaraju – palavra que desconheço o significado.
Pedra, como tudo que é pele à minha pele.
Quinze horas de lírios à sombra da segunda sombra da oiticica.
Jaguaribe; minha fome, minha sede, minha monástica aparição
às horas de rumores & neblinas
Itamaraju. Jurema.
(os raios que habitam teus lábios – e o meu perdão
saltitando como uma rã entre vossas mãos)
Caminhões & faróis altos.
Faróis altos.
Bananas, uma bolinha de plástico de máquina à moedas.
Quinze horas e nenhum cansaço.
A força límpida e cristalina da estrada.
Recolhimento pandêmico e notícias da terra.
Itamaraju – o oposto perfeito de esquecimento.
Pedra que guarda o que recebe.
Lugar onde se assenta.
ita /mar / azul
uma fotografia mais para o álbum.
nuno g.
Toróró, 14 de abril de 2021
dois seres de Ar
suspensos no espaço
entre estruturas metálicas
e abismos cósmicos
dois seres de Ar
suspensos no coração
de um buraco negro
dois seres de Ar
suspensos nas ruínas de um engenho
entre flores liliputianas
dois seres de Ar
se olhando à sombra
suspensos
no coração da água
dois seres de Ar
um olhando
o outro banhar os pés
entre liliputianas flores
dois seres de Ar
suspensos no fogo
como se o sangue
regasse com luz
o cúmplice
silêncio
do rio
nuno g.
Toróró, 16 de fevereiro de 2021.
Existe um grupo de pessoas no Brasil, que alguns veículos de mídia chamam de movimento e dizem ter mais de 150 mil membros, que defende que as escolas deveriam permanecer abertas, mesmo nos piores momentos de contágio da pandemia de covid-19. O nome que esse grupo de pessoas assumiu para si é "Escolas Abertas".
Os argumentos trazidos pelo grupo parecem nobres: as crianças, apartadas da escola, tem apresentado perda de aprendizagem, mais significativa para as de menor idade; a escola tem uma função social, inegável, ainda mais em um país pobre e desigual como o nosso, principalmente no que se refere à alimentação; os casos de violência e abuso em casa aumentaram com as escolas fechadas.
Tudo isso é verdade. Posso afirmar porque sou professor de duas redes, a pública e a privada, na maior cidade do país.
(Não sou uma raridade: são muitos os profissionais da minha categoria - sendo justo: são *muitas*, já que é uma categoria majoritariamente composta por mulheres - que ocupam toda a vida dando aula em duas escolas pra conseguir ter renda suficiente para se manter.)
Para além desses argumentos, o discurso do Escolas Abertas para o retorno das aulas presenciais se baseia na realidade de outros países, como o Reino Unido, onde as escolas não fecharam mesmo com lockdown. Por lá, testagens massivas foram feitas para garantir esse retorno. Mesmo assim, quando o contágio aumentou demais, as escolas fecharam de novo.
É aí que começa o problema: sabemos, eu, você que está lendo e as pessoas que compõem o Escolas Abertas, que isso não aconteceu - e nem vai acontecer - no Brasil.
Nem lockdown de verdade, nem testagem massiva - na rede pública de São Paulo, a prefeitura testou apenas 17,7% do total que havia prometido, e ainda com o tipo menos confiável de teste.
Essa testagem aconteceu toda no ano passado - ou seja, todas as pessoas testadas podem ter se contaminado desde então.
Além disso, que não é pouco, existem diferenças gigantes de estrutura entre as escolas do Reino Unido e as daqui - e, principalmente, entre a rede privada e a pública no Brasil.
As pessoas que compõe o Escolas Abertas tem, em sua maioria, os filhos matriculados na rede privada, em grande parte dos casos nas escolas mais caras. Lecionando nas duas redes, experimentei na pele as diferenças, gritantes, entre elas. Da merenda, que por pouco não virou ração nas escolas públicas municipais, aos passeios de campo, que banquei do bolso na EMEF onde trabalhava até ano passado. Diferenças que vão muito além das questões materiais, sobre as quais não vou me alongar. Fiquemos com apenas um fato: mais de 500 escolas públicas em São Paulo não abriram por não ter equipe de limpeza no dia programado para o retorno, semana passada - e nas que tem essa equipe, e retomaram as aulas, não faltam relatos e apontamentos de que são insuficientes.
Se formos analisar a ventilação nas salas de aula, já que o principal modo de transmissão do coronavírus é por transmissão aérea em ambientes fechados, a situação piora ainda mais, e atinge tanto as escolas públicas quanto as privadas. Mas também não quero explorar esse fato, porque, de novo, todos sabemos disso: eu, você, o Escolas Abertas e qualquer um que perca dois minutos lendo as redes sociais e as notícias nos últimos dias.
Mesmo assim, o "movimento" insiste no retorno.
Não quero entrar nos motivos dessa insistência, que vão muito além da perda cognitiva ou da saúde emocional das crianças. Escrevo aqui impulsionado por outra razão: externar dois desejos meus neste momento.
No último domingo, recebi a notícia da morte de uma atendente escolar, da rede pública, com quem trabalhei nos últimos três anos. Ela era três anos, também, mais nova do que eu, que estou prestes a entrar nos meus quarenta anos.
No mesmo dia, mais tarde, a avó dela também morreu.
Mesmo com essa notícia, uma entre tantas outras que tem surgido diariamente, o meu primeiro desejo, o maior dos dois, é retornar para a sala de aula. Porque o ensino remoto é horrível.
Mas só quando isso não significar um aumento exponencial na possibilidade de morte, minha e de todas as pessoas com quem irei interagir nas duas escolas em que leciono, no caminho de casa até a escola (uma hora de trem), de uma escola até a outra (mais duas horas) e depois de volta pra casa (outra hora inteira). E das pessoas que, depois disso, irão interagir com essas pessoas.
Quero retornar para a sala de aula, sim.
Quando isso não significar, para além da morte, o aumento também no risco de nunca mais poder entrar em sala de aula, já que cresce o número de pessoas com sequelas que - ainda não se sabe - podem ser permanentes, entre elas perda respiratória e, vejam só, déficit cognitivo. É o caso de uma amiga, também professora, com quem dei aula muitos anos e que hoje vive no Pará. Mesmo com sintomas leves, mais de seis meses depois de ter sido contaminada, ela ainda não recuperou completamente olfato e paladar e tem se confundido com coisas simples do dia a dia, como lembrar de desligar o fogão.
Quero retornar para a sala de aula.
Mas não para atender os desejos fúnebres de pessoas que nem sequer estarão lá, e que se sentem bem em apostar as vidas dos próprios filhos nesta loteria macabra.
É aqui que entra meu segundo desejo, ligado umbilicalmente ao primeiro, bem mais simples, e que diz respeito às pessoas que fazem parte e defendem o Escolas Abertas.
Para elas, todas elas, eu desejo a morte.
Não por ódio ou vingança, longe disso.
Mas pela simples reciprocidade.
Porque elas, como eu e você, sabem muito bem dos riscos que essa volta significa, no pior momento da pandemia até aqui, com mais de mil mortes diárias todos os dias. E seguem gritando pelo retorno, porque não se importam com a vida - a minha e a de todas as pessoas que trabalham nas escolas, professoras, coordenadoras, faxineiras, atendentes escolares e seus familiares.
Morte por morte, desprezo por desprezo, então, eu deixo aqui meu desejo de volta.
São Paulo, 23 de fevereiro de 2021.
Um professor.
Danilo Heitor Cajazeira
https://sempredesobedecer.wordpress.com/
neste manto azul de entendimento e abertura
nesta terra-terra de formigas e
assentamento
neste céu-sem-dogma, nesta carne que
cura e treme
neste manto azul de espera e fundação
neste fogo-fogo que consome e arde
neste esquecimento, neste cume do
esquecimento
nestas veias e artérias, neste sangue
que corre,
nestas três árvores, nestes indícios
de soberania
nesta carne que se ressente e que
caminha
entre enxames de vespas & abelhas
neste manto azul, que aos teus olhos
apareceram
entre os ínfimos grãos do sétimo
infinito
às margens das margens do reino de
Tempo
nuno g.
Um poeta escreve num Café
A velha pensou que escrevia uma carta para a mãe.
A adolescente, que escrevia para a namorada.
O menino, que desenhava.
O comerciante, que planejava um negócio.
O turista, que endereçava um cartão postal.
O contador, que calculava suas dívidas.
O homem da policia secreta caminhava lentamente em sua direção.
Mourid Barghouti
No hay nada que temer.
No hay nada que esperar.
Siempre se está más o menos vivo.
Siempre se está más o menos muerto.
César Vallejo in Contra el secreto profesional.
A noite,
deslocada
como asa de um cetáceo ferido.
Amortalhada
sempre que a pupila negue sua orfandade.
Mar
pomposo e grotesco seio;
quando
a claridade se faça em mim
não
necessitarei de vossa amada boca,
não
necessitarei do meloso solilóquio de tua vertigem.
Me
tens, como um peixe à sua escama,
miseravelmente
unida a ti,
levando-te
como uma criança canibal ao peito de sua mãe.
E
não hei de desperdiçar hora, para maldizer
tuas
parições de planetas fosforescentes
que
vomitas ao meu lado sem nenhuma delicadeza... ...
Esquecida
como árvore do deserto,
onde
transplanta o viajante seu êxtase sem experiência,
feliz
de abandonar o barco,
desejando
encontrar na terra
a
veia misteriosa da felicidade.
Navegante
audaz,
dissociador
do mar e da terra,
veia
obscura será teu caminho em direção ao infinito!
Quem,
senão o esquecimento,
quem
senão a medida de uma juventude posta de lado,
vem
em minha ajuda agora.
Agora
que tenho aprendido a pronunciar palavras
contra
Deus e seus signos
e
me ajoelho de hipocrisia ante os conhecidos.
Quando
em ângulo reto junto à uma porta
espero
a palavra de boa vinda.
E
só escuto dentro, ruído de copos
cheios
de um vinho generoso que jamais provarei...
Existem
continentes simples, de um só país
com
cidades elementares e casas de um piso
onde
poderia me abandonar
e
às cegas buscar o ócio e suas virtudes.
Mas
a lembrança apenas de tão buscado lugar,
me
pinta à cara um gesto de asco.
–
Como se penetrara à habitação do amor
e
me encontrara com três cadáveres
ante
uma janta inconclusa de ostras descompostas –.
Stella Díaz Varín
tradução: nuno g.
Tropecei, esta noite,
Num verso mais que estranho,
Único verso presente em todos os poemas reais
Ou possíveis de todas as línguas do mundo:
Primeiro hieróglifo, emblema de Hermes Trimegistos.
Verso em si ilegível e vazio embora necessário,
Verso perverso
Que nos condena a retornar, obliquamente,
A todos os poemas escritos até hoje,
E todos os futuros,
Um gonzo fechando,
Por dentro, um cubo hermético-metálico,
Que, mônada, espelha, em seu imo, todo o mundo externo.
Começo e fim de toda poesia,
Ou seu constante recomeçar?
Delirei, esta noite,
Um único verso,
(uni-verso),
que poeta algum jamais escreveu,
Face infinitesimal do Grande Diamante da Poesia ou do Ser,
Acesso a todos os demais versos,
Que se mostram, simul, ao leitor
Que eles próprios, nesse instante, criam.
Mas foi apenas um vislumbre:
Uma vez iluminado o Grande Diamante,
O verso volveu à sua aparente vacuidade
E dissolveu-se-lhe a cumplicidade com todos os demais,
Devolvendo-me ao ritual de meu dia-a-dia,
Mergulhando-me novamente em meu Não-Ser.
Bento Prado Jr.
Havia terra neles, e
cavavam.
Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que, segundo ouviam, queria tudo isto,
que, segundo ouviam, sabia tudo isto.
Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.
Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.
Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.
Paul Celan
trad. Yvette K. CentenoEu sonhei co'a velha estante
Da casa do meu avô
Lugar bonito e pujante
Onde este vate estudou
Uma lembrança ficou
Que me fere todo instante
O retrato que marcou
Do meu avô o semblante
Aquela estante modesta
Sempre fora minha festa
Sempre me dera alegria
Naquele local indulto
Eu tornei-me um homem culto
Relendo filosofia
Agostinho
o
carnaubal estava visivelmente abatido
tia
Neuza sonhara procurando deus
que,
como de costume, se ocultava
a
casa nunca me parecera tão real
embora
Maria ainda não estivesse chegado
na
estante, o álbum vermelho
com
o Cebolinha sacando uma foto da Mônica na capa
guardando
as fotografias de Eliana e seu filho na praia
dormimos,
tomamos café, comemos manga
a
praça vazia de domingo
o
carnaubal devastado
tia
Neuza sonhando como de costume
deus
nunca me parecera tão irreal
apesar
de minha certeza que era ele o que balançava a rede
o
telefone tocou, não era Maria
as
horas se curvavam ante a manhã
a
casa nunca me pareceu tão silenciosa
não
vi os mortos que a habitam
não
senti suas presenças
o
carnaubal estava em estado terminal
os
ácaros do progresso faziam o trabalho sujo
o
quadro de Eliana me esperava na casa ao lado
a
pressa me escapara no caminho
o
não, o cansaço e o sorriso
eram
mais do que suficientes para tornar o dia agradável
eu
também não ousaria pisar naqueles degraus onde a poeira se acumulara
se
há tanto tempo eu não soubesse que aquela madeira ainda suportaria o peso
o
relógio da sala estava quebrado
,
por um breve instante,
vislumbrei
entre seus ponteiros estacionados
a
precária imensidão de meu coração
nuno
g.
russas,
13 de dezembro.
tinha uma escada no meio do caminho
no
meio do caminho tinha uma escada
nunca
me esquecerei que tinha uma biblioteca no último degrau
uma
biblioteca dedicada ao Nada
tinha
uma escada no meio do caminho
tinha
os cem olhos da tempestade de areia fina
tinha
a pintura de uma moça com brinco de pérolas no meio do caminho
e
os cem mil raios da Senhora,
tinha
um vazio no meio do caminho
nunca
me esquecerei do beijo que não tinha no meio do caminho
nem
da escada nem da biblioteca nem do nada
no
meio da escada tinha um caminho
mas
não são todos que desviam no meio das escadas
tinha
uma tempestade no meio do caminho
tinha
uma manta assurini awaeté no meio do Sonho
e
do mirante da casa do guarda do Belmonte se via
a escada, a biblioteca,
o
Nada, a Sina e o Vazio
nunca
esquecerei que tinha um caminho no meio da escada
nem
que no meio da escada tinha um caminho
e
que quase ninguém desvia em caminhos no meio de escadas
ainda
quando estes levem às cascatas de águas frescas
correndo
entre antigos pés de buritis
tinha
um silêncio no meio do caminho
no
meio do caminho tinha um silêncio
e
toda a potência que um corpo necessita:
seja
para desviar-se do previsto
ou
para escalar a escada até o topo
dez
de dezembro.