quarta-feira, 23 de outubro de 2024

sobre poemas & pesadelos

para Larissa,


Existe uma relação íntima entre poemas e pesadelos.

Assim como existe uma íntima relação entre rios e sertões.

Hoje mesmo fui habitado por um pesadelo.

Nele havia uma locadora de filmes tão antiga que se assemelhava a um antiquário.

Havia também o corpo de uma mulher assassinada oculto no quintal.

Havia um filme com a imagem manchada pelo sangue que se colou à fita.

E uma vela que acendemos quando encontramos o corpo da vítima.

Existe uma relação muito íntima entre o futuro e o passado.

Assim como existe algo que aproxima o voo dos gaviões aos túneis subterrâneos.

Acender uma vela é algo muito semelhante a escrever um poema.

Nos faz dar conta do escuro que nos envolve.

Nos faz não esquecer que somos mais do que sabemos sobre nós.

nuno g.
Toróró, 23/10/24.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

deus te dê água de batismo

dona Antônia sonhou com cobra verde:

traição Ceará, traição.

Assucena comeu cuscuz, comeu churrasco, comeu feijão.


O tempo segue nublado e abafado:

trovoada em gestação, Ceará.

Hermenegildo se perdeu mais uma vez no horizonte...


nuno g.

Toróró, 22/10/24.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

fotografia de aniversário

Chamava-se Ricardo.

Aparecia todos os anos no meu aniversário.

Trazia uma máquina fotográfica e um sorriso desses que mostram os dentes.

Eu esquecia que meu pai estava morto.

Eu esquecia que todos ali o detestavam.

Eu esquecia que trazíamos o mesmo nome ferrado às testas.

E me entregava à fantasia que o fotógrafo era meu pai.

Acabava a festa e ele partia.

Brinquedos, roupas, doces e salgados.

E a memória de que ao menos uma vez ao ano o espelho refletia minha imagem.


nuno g.

Toróró, 21/10/24


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

à sombra da cicatriz em flor

       O coração de Judite é azul de nascença. Bistecas à beira-mar sua distração favorita. Silêncio sua maneira de dizer coisas impossíveis de serem ditas. Quando Judite pronuncia carne, ferida, ventre, lua, semente ou sangue tudo desanuvia. Judite tem a idade da terra e seu sonho é um rio onde correm todos os rios do mundo. Às quintas Judite se faz flecha; certeira, feroz e precisa. Como quando canta. Como quando baila. Como quando se faz criança e vai limpando a sujeira que nossos passos desajeitados vão deixando para trás. Judite reverbera, ecoa, alenta paróquias crônicas e vagos desesperos. Judite ensina alheamentos, derivas e postergações necessárias. Seu nome significa sertão, seus olhos desgostam do mar e seu abraço abriga esperas.


nuno g.

Toróró, 17/10/24. 

brejo das borboletas

      Nasceu um abacaxi no terreiro. Meu avô me preparou por uma década para sua morte, me ensinou a segurar a alça do caixão, a empunhar a pá pra jogar areia sobre a madeira e a caminhar sozinho na escuridão. Era tudo o que a anja viria a me exigir anos depois: ensina sua filha a viver sem você. Amanheceu nublado. Turistas pululando na cidade. E meus olhos procurando destecer as vozes entremeadas no vazio. Vaga promessa de arco-íris pairando na atmosfera. Meu avô se foi enquanto eu dormia. Me deixou uma biblioteca que me salvou os dias de terror e precipícios, um ódio que me acompanha como cão fiel e essa serpente que me protege da covardia do mundo.


nuno g.

Toróró, 17/10/24.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

ponte sobre Banabuiú.

     Meu avô também era ponte, conectava meu corpo ao corpo da morte e meus sonhos aos sonhos dos russos do século XIX. Meu avô também era silêncio e sofreguidão, tudo nele se recusava a sedimentar. Eu era demasiado criança para entender o mundo que meu avô em mim moldava e sequer suspeitava das razões que faziam o rio se avermelhar quando suas mãos cortavam as águas. Meu avô estendeu o amarelo para que Ernesto seguisse caminhando além do paredão de pedra que é a chapada do Apodi. Tentou abrir meus olhos antes que os seus se apagassem, mas era tarde. Ele morreu e com ele se foi minha primeira infância. Depois voltou em forma de pássaro e lamento. Hoje, segue sendo ponte, entre meu canto e a impossibilidade de qualquer perdão.

nuno g.
Toróró, 16/10/24.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

brilhantes pedras finas.

   Alzira cuida - e isso diz muito, quase tudo. No quase o que a esse narrar interessa: espécie de interstício entre o nada e o nada ou pequeno e indecifrável vácuo entre o osso e o osso. Como naquele chão sem chão que habitamos quando sinceros, ou seja, quando abandonamos os livros de história e os miseráveis manuais religiosos. Os cabelos de Alzira, o olhar de Alzira, a forma como o silêncio de Alzira se move dentro de nós. Abrindo túneis, semeando serpentes, nos conduzindo do deserto às águas e das águas ao deserto. Alzira e o quase são em essência o mesmo. Assim como o que ela ensina e o que já sabemos em tudo coincidem. Alzira veste roxo, ama a lama e quando canta serena até o coração de Tempo. Alzira aqui significa soslaio ou aquela que vê o que nos impede de ver. Por isso também lhe chamam ocasionalmente de lua indecifrável ou de Senhora das coisas que aconteceram antes dos acontecimentos que nos moldam. Alzira também significa respeito, caminho estreito e pérolas resplandecentes.


nuno g.
Toróró, 14/10/24.

sábado, 12 de outubro de 2024

soleira.

    Atravancado, sem-jeito, desconexo: meio como quase brutamontes próximo aquele Hercules Quasímodo que existiu algum dia dentro da miopia de Euclides. Nome de pia: Hermenegildo. Montaria: cavalo. Idade: desconhecida. Lugar de nascença: indeterminado. Hermenegildo sempre está de passagem e nada seria como é se assim não fosse, pois são suas mãos de passarinho que descortinam as montanhas e abrem os horizontes, são suas mãos de peixes que abrem as águas e os caminhos que levam aos mundos ali existentes, são suas mãos de lâminas que fendem as rochas e nos ensinam subterrâneos. Agora mesmo desponta em sua montaria o Velho, ao mesmo tempo em que anuncia sua certeira desaparição. Hermenegildo aqui significa flecha. Também significa vento. Mas antes de tudo significa oração.


nuno g.

Toróró, 12/10/24.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

diga a eles que não me matem

É um bocado difícil crescer sabendo 
que a coisa a que podemos agarrar-nos para criar raízes está morta.

Juan Rulfo


Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.

Mas quando cresci e o procurei me disseram que, como ele, estava morto.

Irremediavelmente morto.

Foi como ouvir alguma música para ouvidos nada delicados.

Ainda assim meus tímpanos estouraram.

Foi como se num átimo de segundo mergulhassem meu corpo nas fossas marianas.

Ou na dorsal atlântica.

A terra devastada pelas chamas e o meu corpo carbonizado junto.

Num átimo de segundo arrastado à sepultura de águas oceânicas.


(os azulejos azuis eram os únicos peixes possíveis)

(e o único pássaro que conseguia seguir a cantar era o Assum Preto)

(cego pela ignorância e pela maldade humana)


Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.

Mas os homens que o mataram sabiam que trazíamos o mesmo nome de pia.


nuno g.

Toróró, 09/10/24.




sob águas profundas ou sessão sem pássaros

da terra devastada às profundezas oceânicas 

num átimo de segundo e o chão esturricado do rio seco

                                     e os cactos e o céu sem nuvens

desapareceram e em seu lugar

as fossas marianas enterradas sob quilômetros e quilômetros de águas

                                     e nenhuma fumaça traçando o caminho de volta à superfície

à terra devastada e abandonada com alegria e tristeza

                                                   com pesar e alívio

                                                   com o terror arcaico e primitivo de um mito esquecido

serpentes, serpentes e mais serpentes

trocando sucessivamente de peles e substituindo suas cores por novas cores

num movimento incessante e lisérgico

apenas o que agora em si mesmo permanecia gravitando

sem nenhum centro sem nenhum norte sem flores sem balanças sem juízos de valores

distante o suficiente de tudo o que soava detestável

mas também distante do agradável cântico dos pássaros

quase livre não fosse o pânico do sal

e a consciência fraturada ainda

como uma ferida entre o osso e o osso

ou como a saudade enferma de um deserto onde se constituíra

num átimo de segundo e estava dentro do coração do último medo imaginário

residindo na oposição de uma tarde sem sol

(todas as tardes nas fossas marianas são tardes sem sol)

e a ausência de fumaça torturando a mente

como o martelo lunar torturaria a bigorna de Apolo

quase pânico não fosse a liberdade do sal

e a voz suave da serpente

transitando à memória imberbe da terra devastada

onde um átimo de segundo antes

se encontrava

(todo gesto aqui é extensão de um silêncio que antecede)

o fio de prata e fumaça se extinguindo

e as águas evaporando todas as formas que permitiram ao si mesmo existir


nuno g.
Toróró, 09/10/24.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

tupinambá

às vezes é preciso regressar - sem culpas.


o vento moveu as folhas.

e a tarde se esticou no varal.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

regresso à morada dos mortos

No quiero

Que mis muertos descansen en paz

Tienen la obligación

De estar presentes

Vivientes en cada flor que me robo

Stella Díaz Varín


uma vez mais entre os que cruzaram a fronteira do rio

seus olhares desfigurados, suas fraturas expostas, seus corpos em escombros

seus sorrisos atados ao laço como animais de estimação

e meus braços remando contra todos os ventos

apenas a memória machucada içada como bandeira de um barco pirata

e o ranger de dentes ecoando no coração da árvore chamada Tempo


uma vez mais entre os que cruzaram todas as fronteiras

imperturbável e sereno ante a tempestade impenetrável

buscando apenas um lugar de repouso e descanso

sem saber como ensinar alguém a amar o que é em si detestável

suas feridas expostas, cicatrizes indesejáveis e a sombra da lua sobre as águas

apenas a memória machucada alçada à condição de sina inevitável


uma vez mais entre os que habitam a casa onírica das centopeias e caracóis

apenas o rio, o vento e o sangue do sol banhando a nudez das estrelas...


nuno g.

Toróró, 24/09/24.




quarta-feira, 18 de setembro de 2024

infância

para Maria Alice,


Tínhamos um pé de maxixe e um cavalo chamado Tempestade.

Antes de nós ele havia se chamado Trovão.

Comíamos pirão uma ou duas vezes por semana.

E colhíamos goiabas na varanda.

Tínhamos uma rede alvinegra.

Um lugar onde acendíamos fogueira quase todos os dias.

Uma cadela chamada Paçoca.

E um céu cheio de estrelas pairando sobre nós.

Tínhamos um rio que dormia e acordava ante nossos olhos.

E uma pequena cobra coral de estimação.

Brincávamos com as palhas dos milhos juninos.

Fazendo toda a família do Visconde de Sabugosa.

Uma vez ao ano seu Toróró nos trazia jabuticabas colhidas no terreiro.

E líamos muito. Líamos livros e folhas de plantas.

Estávamos cercados por juremas.

Fomos alguma vez a Cordisburgo.

E a tantos outros lugares que parece que não fizemos outra coisa senão viajar.

Assávamos carne aos fins de semana.

Nos divertíamos no balneário da Pitanga.

Íamos à praia do Montecristo sempre.

E éramos vistos muitas vezes nas Cabaceiras do Paraguaçu.

Depois adotamos João e não pararam mais de nascer cães em nossa casa.

Ganhamos uma gata de nome Judite que sempre recebia visitas de um gato que chamamos Anônimo.

Judite passou três dias debaixo da cama.

Não saia nem para comer.

Até que decidiu ficar e nunca mais voltou para debaixo da cama.

Depois veio a Pina, o Garfield e o Dino.

Seguíamos comendo maxixes e sonhando.

Seguíamos comendo pirão e sonhando.

Até que veio Ian, a cigana e tudo o mais que já sabemos.

Até que veio Larissa, Assucena e todas essas janelas que se abriram.

Ontem teve eclipse.

Eliana cobriu-se por alguns instantes com o véu das sombras.

Fiquei olhando como quem olha um espelho maravilhoso.

E vi novos maxixes nascendo entre as orelhas de Tempestade.

E vi cada uma das mil chuvas viradas que enchiam nossa casa de água.

E vi você caminhando entre pedrinhas amarelas e galáxias desconhecidas.

Uma onça te guiava entre despenhadeiros e montanhas.

Fiquei olhando como quem olha uma caverna.

E vi você ninando Assucena com as histórias do jaguar encantado.

Depois veio a Cristalina, o Come-e-Dorme e o Waldick.

Depois veio o Calabouço, o Álbum de família e o Dicionário.

E pouco antes do sol nascer essa infância foi se encarnando em letras azuis no papel.


nuno g.

Toróró, 18/09/24

cegueira

em terra de olhos turvos e neblina tóxica a cegueira reina

israelenses cegam libaneses com bipes que explodem

associações de cegos se revoltam contra a lucidez de Saramago

candidatos cegos insistem em convencer pessoas cegas a votar cegamente

o país arde em chamas criminosas e a fumaça nos cega

pastores cegos guiam rebanhos cegos ao inferno

hiperbolicamente antenados com a enfermidade que nos extingue

                                                                             que em nós se extingue

e que nos impede ver como sair como entramos como sobrevivemos

neste tempo em que escatologia e história se fundem

como o zinco ao zinco

como o sinistro ao sinistro

como a ausência à ausência e à Ausência

em terra de cegos os eclipses passam quase desapercebidos

como nossas sombras ao atravessar a rua

ou como aquela bigorna de esquecimento que já não nos permite recordar

as centenas que ficaram cegas nas protestas chilenas

ou os libaneses de ontem que já começam a ser apenas um esquecimento mais

o que poderá nossa imaginação a partir dessas ruínas?

assim pixado no muro de Cachoeira

ao lado, escrito em tinta que não se vê, 

: em terra de...


nuno g.

Toróró, 18/09/24


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

quando voltará a chover dendê sobre nossos passos

para larissa gonçalves,


enquanto você sonhava com um mar de serpentes

meus braços remavam entre serpentes marinhas

e os meus olhos caçavam um búzio para se perderem definitivamente

enquanto você sonhava com um mar de serpentes

meus braços remavam nas águas da própria sombra

e meus olhos adentravam a imagem de um coração sem dentes

enquanto você sonhava

as serpentes me guiavam entre os perigos exaustivos

até o interior do búzio onde ecoava o choro de Assucena


nuno g.
Toróró, 16/09/24

aqui a Serpente

ante o túmulo de meu tio Edson 
agradeci o ocorrido em dezembro de 1978
com a mesma intensidade em que lamentava

ante o túmulo de meu tio Edson
percorri outra vez todo o longo caminho que me trouxe até aqui
e recordei um sonho antigo com o poeta de Itabira

ante o túmulo de meu tio Edson
todas as serpentes que atravessam uma vida
e os olhos de Gabi iluminando o meu propósito de não ter propósito nenhum

nuno g.
Toróró, 16/09/24.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

quinta-feira

Atirei mil flechas contra o sol.

O meu ódio é sagrado e reluzente.

Aprendi isso arrastando meus joelhos por léguas e léguas de solo pedregoso.

Derramei mil lágrimas no vazio da taça.

E vi a noite despencar sobre as ilusões humanas.

Servi feijão aos três irmãos.

E adorei o sol, a lua e as estrelas.

Adorei o rio, as onças e as borboletas.

Estendi no varal do horizonte o manto do Obscuro.

Entoei cânticos de sacrifício enquanto pensava em Gary Snyder em sua cabana no além.

Vivo numa época estúpida.

Cercado por ideias estúpidas nascidas de mentes estúpidas.

Devoro a estupidez da atmosfera como Alcides devorava as flores de aniversário.

Atirei mil sóis contra a primavera.

Inferno é uma singela palavra que me habituei a pronunciar com delicadeza.

O amor é sagrado e reluzente.

Como as areias de Tempo que escorrem entre meus dedos e cílios.

Assucena desayuna batata, ovo, cenoura e uvas.

Teresa vê tão longe que não alcanço.

Rude e violenta é essa obstinada tentativa de nos vender a felicidade a qualquer custo.


Alice dorme.

Larissa dorme.

Hermenegildo e o Velho cruzam a estrada de mãos dadas.

A estrada é sagrada e reluzente.

O choro de Assucena é sagrado e reluzente.

O sono de Alice é sagrado e reluzente.

O leite de Larissa é sagrado e reluzente.

O mundo é opaco, a mata é sombria.

O Ferreiro selvagem é iluminado e poderoso.

Roxo é muito mais que uma simples cor.

Toco a lama sagrada e reluzente em busca de fósseis preciosos.

E atiro minha última flecha contra o horizonte.

Em direção às águas, à palha e à voracidade de tudo que nos consome.


nuno g.

Toróró, 15 de agosto de 2024.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

edifício Grão-Pará (sonho noir)

Voltou a ser o que sempre foi: um cárcere.
Gleizer apareceu cuspindo ossos.
A princípio pensei tratar-se de ossos de galinha.
Daqueles que faziam meu avô evitar comer galinha em restaurantes.
Mas eram ossos humanos.
Revestidos de cartilagens frescas e nervos expostos.
Larissa fez pasta de amendoim.
As fezes de Assucena amanheceram verdes.
Como o lodo do rio da infância.
Como os olhos do gato maracajá morto aqui semana passada.
Três taças de café ao som de Ventania.
Garfield, o gato gordo, come a batata doce que cai da mesa.
Luís transforma o berço em cama montessori.
A vida pesa. Montanhas e montanhas de cansaço sobre meus ombros.
Vertigem. Pulsação acelerada. Ressentimentos geológicos se movendo à luz do sol.
Recordo à voz de uma amiga prostituta que me repetia.
É só um trabalho poeta, como qualquer outro.
Até que se apaixonou por um caminhoneiro e partiu.
Com sua cigana de estimação e alguma culpa entre os cílios.
Acendo mais um cigarro e ouço a voz de Ayla.
Esse cigarro te mata.
Desconfio de tudo e de todos.
Suave e delicada paranoia no olhar em direção ao Nada.
Saudades dos tempos da pandemia e de todos os refúgios que me mantiveram vivo.
O telefone toca: Assucena desperta.
Alice nos envia três mil mensagens telepáticas por segundo.
Não chove. É agosto. Escoro minha angústia na palha.
E clamo ao Velho alguma fé numa paz que sei impossível.

nuno g.
Toróró, 13 de agosto de 2024.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Ciranda de hoje, texto lido por Ayla Andrade no lançamento do Dicionário dos medos imaginários: morfemas.

 



O tempo é a melhor testemunha do quanto se vive.

Uma ciranda que roda, circulando mão a mão, na roda do tempo, enquanto se olha o céu.

Penso que vivo pouco e devagar. Olho pouco para trás. Mas é quando olho para o lado que vejo quantas mãos me seguram nessa ciranda. 

Porque o tempo não para, e por vezes acelera ou recua, e é onde a ciranda se embaralha, algumas mãos se soltam, a gente tropeça e precisa depois correr, braço estendido, tentando alcançar o perdido. 

A ciranda é potente e ciclicamente retorna ao ponto inicial. Suspeito que serve para recuperar o fôlego, sorrir de volta, ajeitar a coluna e... alcançar o perdido. 

Nessa ciranda o tempo marca o tom, o compasso, o recomeço e por vezes, o fim. Por mais que nunca estejamos preparados ou desejosos do fim. 

Mas rodando com a ciranda certa, mão a mão, com chuva ou sol, amor e um pouco de raiva, a gente chega ao fim, sorrindo. 

Rodando cheguei até aqui. E quando olho para lado, ciranda que a vida me deu, vejo que o tempo me foi generoso: mão a mão, os amigos rodam comigo enquanto ainda olhamos o céu.


Ayla Andrade.


https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios?igsh=eHZma2FiYmxuZnRo

 





domingo, 11 de agosto de 2024

cemitério bizantino II

roupas estendidas no varal

e ainda essa sensação

de despertencer ao reino onde desperto


nuno g

11/08/24

sábado, 10 de agosto de 2024

cemitério bizantino

sonhei com uma fotografia de damário da cruz

meias sujas espalhadas no quintal

e a certeza de que não pertenço ao reino onde desperto


nuno g.

toróró, 10/08/24

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

ante o Insondável

           para Adélia Prado,


meus joelhos seguem sangrando de tanto chão

em trevas me reconheço e ouço as cem mil vozes que me habitam

relâmpagos e trovoadas me acendem e me estilhaçam

em cem mil vagalumes

estamos mergulhados na história, ou seja, no terror absoluto

atravessamos os tempos em que nossos corpos se fizeram vidro

fomos atravessados pelos tempos em que nossos corpos se fizeram metal

o homem da mão seca ainda acaricia meus cabelos

e sorri quando vejo meu avô quase-pássaro ousar o abandono do abismo

o homem da mão seca ainda me seca as lágrimas

quando recolho o sangue de minha mãe na calçada suja da Conde da Boa Vista

o homem da mão seca ainda tece curativo nos meus joelhos

quando desperto em Belém em meio ao tiroteio que matou meu pai

e penso: eles sabiam que ele era meu pai

meus joelhos seguem sangrando de tanto chão

na mata sombria reacendo minha devoção

e aprendo com o ferreiro a forjar silêncios

cem mil vagalumes me guiam

cem mil vozes me habitam

em cada poema respira uma breve e delicada oração


nuno g.

Toróró, 07 de agosto de 2024.

domingo, 4 de agosto de 2024

Afogados

a vida é uma besta selvagem.

Stella Díaz Varín 



Não culpem o mar nem os pés.

Ainda menos as sereias e seus cânticos devocionais.

Não culpem o verde nem o sal.

Ainda menos as espumas brancas e cintilantes.

Não culpem o fogo nem a madeira.

Ainda menos o crepitar dos ossos ou o estalar das vertigens.


Apenas deixem que seus passos os conduzam ao inevitável afogar-se.


nuno g.

Toróró, 04 de agosto de 2024.



sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Aparecida

Ela nunca esteve entre nós.

Talvez por isso podia falar de Eliana antes da queda.

De suas coxas brancas, seus êxtases e suas manhas.

Carregou o estigma da adoção como quem carrega um daimon de aço.

E o nome da santa indígena saída das águas de um rio.

Ela nunca esteve mesmo entre nós.

Não lhe reservaram convite nem lugar à mesa.

Talvez por isso podia passear com seus cães pela cidade.

O estigma sempre arrastado à coleira.

E pouca razão à ferocidade.

A lei do luto lhe levou à metrópole.

Casou. Enviuvou. Cruzou a fronteira da península.

E desapareceu numa Espanha de touros e esquecimentos.


nuno g.

Toróró, 03 de agosto de 2024.














domingo, 14 de julho de 2024

Devoção II

 para Lou Reed & Nico,


O médico cubano me ligou ainda cedo.

Tardei a identificá-lo.

Me disse que tem três filhas.

Que vai vir à uma obrigação de terreiro.

E que muito deseja me rever.

Assucena comeu brócolis com banana.

A vida é um pesadelo com infinitos labirintos dentro.

Anos atrás Alice fez birra grande.

A praça da Sé de Avalon lotada.

Mestre Aldenir e seu reisado. 

Se jogou no chão.

Gritou. Chorou. Esperneou.

Em nada parecia a Alice que eu conhecia.

Decidi seguir como se nada.

Cerveja. Dança. Alegria dos Mateus à praça.

No outro dia ela com calma disse:

Pai, sabe por que eu fiz birra ontem?

Nem ideia.

Pra você não esquecer que eu sou criança.

As mãos de Benício juntas às mãos da lua entre as nuvens.

Três onças seguindo Hermenegildo em sua montaria.

A garota do São Judas dormindo quase em paz.

O médico cubano me arrancou do pesadelo.

A vida é um labirinto com infinitos pesadelos dentro.

Voltei a fumar como antes.

O excesso de nicotina provoca um êxtase suave e delicado.

Talvez algum dia eu narre ao médico cubano.

Algo sobre em terreiros florescerem estrelas suicidadas.


nuno g.

Toróró, 14 de julho de 2024.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Devoção

 para Patti Smith,


Voltei a tomar café como antes.

O excesso de amargo provoca o mais adorável dos transes.

Come-e-Dorme morreu.

João morreu.

Carminha morreu.

Construíram um bairro inteiro sobre a lagoa da Catumbela.

Nele, um posto de saúde com a bela vista do que sobrou de águas e carnaúbas e garças.

Assucena ali tomou mais uma vacina.

Fiquei olhando os tapuias dançando sobre as casas.

Os ventos de agosto chegaram.

Vejo cavalos em disparada pelas calçadas do Benfica.

E a dama da noite recordando quando ali tudo era chácaras de fim de semana.

Depois de amanhã Alice chega.

Depois de amanhã é uma medida de tempo semelhante à das cem mil duzentas xícaras de café.

Sonhei com Adélia incendiando o pasto do Liu.

Finalmente tomava coragem.

Arranquei o carro e fui até a rua Ceará em Divinópolis.

Toquei na porta e ela abriu.

Lhe entreguei o Álbum de família e o Dicionário dos medos imaginários.

Ela leu num relampejo.

Olhou nos meus olhos e disparou: reze.

Despertei com o coração aos galopes.

Recordando todas as vezes que desisti de incluir Divinópolis na minha rota.

Temor de não ser digno de me apresentar onde deus fez morada.

Notícias trazidas pelo vento Aracati:

Um enxame de abelhas atacou ferozmente os dois habitantes da calçada de meu bisavô.

Um foi a óbito, outro se recupera no hospital.

Saudades da Dellany, memórias daquela despedida no Bixopá.

As aulas regressam lentamente, como os caracóis que perseguem a palavra.

Só na tragédia a lua realiza seu destino.

Existem histórias que nunca poderei narrar.

À primeira noite em São Bernardo das Éguas Russas sonhei que estava na Lagoa do Mato.

Dentro do verde e salgado mar do litoral leste.

Pari duas luas.

Peço permissão aos deuses para a história deste sonho narrar.

Palavras para descrever as falésias, as jangadas e aquele vazio de quando as ondas recuam.

Chico, em belas fotos com Claudio.

O Dono de Todas as Matas protegendo os dois.

Assucena brincando no parquinho reluzente do bairro Granjeiro.

Tia Neuza insistindo em botar cadeira na calçada.

Nenhum temor à morte.

Nenhum temor às italianas e ferozes abelhas.

Apenas o rio apagando suas últimas memórias.

E uma nova e estranha lucidez apontando no horizonte.

Segunda chega e domingo não.

Às quatro da manhã despertei com o cheiro das palavras de Adélia à chuva.

Come-e-Dorme foi submetido à eutanásia.

João livrou-se da corda para morrer em liberdade.

Larissa costura, costura e costura.

Tece as linhas do leite e da razão no tear onde se gestam estrelas.

Na minha mesa de trabalho repousa O viajante da solidão.

Dedicado de punho à Eliana Gonçalves no ano de 1969:

a Eliana

cordial homenagem

Artur Eduardo Benevides

Insistimos em saber o que fez Larissa chorar.

Não pudemos esquecer nem recordar.

Existe um deus asmático e sonâmbulo que me visita certas sextas-feiras.

Vem sempre acompanhado do meu tio Joãozito.

João Ferreira Lima, de pia.

Carteiro como Charles Bukowski.

Assucena desperta e chora.

Alice me chama e eu vou.

Um dia volto pra narrar a história do sonho das duas luas.

A mãe de umbigo de Assucena à porteira: ô de casa!

Larissa interrompe a tessitura e me chama: vem ver isso!

Desadormeço e avisto a filha do João à porteira.

Em tudo igual ao pai.

Ela olha pra corda abandonada no terreiro.

Pro cantinho vazio onde ele viveu seu destino.

E se vai. 

Sem olhar para trás.

Sem saber que nunca mais seremos os mesmos de antes.


nuno g.

Toróró, 12 de julho de 2024. 


sábado, 11 de maio de 2024

Alzira

para André Dias,


Amanheceu chovendo.

Em cada gota d'água uma estrada para o infinito.

Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.

Avançando entre os escombros de Gaza e a cegueira da classe média.

Amanheceu chovendo.

Em cada gota d'água uma estrada para o Nada.

Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.

Avançando entre montanhas e montanhas de cansaço.

Amanheceu chovendo.

Acender uma vela ou encher o filtro.

Enfiar as mãos no barro como se houvesse algum futuro depois da estupidez.

Tamarindos, acerolas e umbus-cajás.

Amanheceu chovendo.

Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.

Alzira olha Tempo.

Hermenegildo cruza as nuvens.

Um pássaro sobrevoa o rio onde a morte se fez esquecimento e náusea passageira.

Amanheceu chovendo.

Ouço os sussurros de Adélia.

Ouço os cânticos de Alcides.

Tudo é feitiço sobre a terra.

Tudo é encantamento e evaporação.

Alzira olha as vestes de Tempo.

Hermenegildo toca a nudez da estrela.

O mundo semeia novas tempestades.

E todos os automóveis verdes dos meus sonhos avançam sobre as flores nascidas na pedra.


nuno g.

Toróró, 11 de maio de 2024.



sexta-feira, 10 de maio de 2024

haiku de outubro

Assucena comeu uma borboleta,

só conseguimos salvar uma asa:

a miração do monge dissipou o horizonte.


toróró, 10 de maio de 2024.

a eternidade dos campos-santos ou a lucidez que reluz na lâmina do pessimismo

 É que o cemitério de que lhes falo, respondia Pereda, é a cópia fiel da eternidade.

Roberto Bolaño


Estivemos em Cruz das Almas.

Passava das seis e, inevitávelmente, recordei que toda Cruz das Almas foi lugar de reza.

Que toda Cruz das Almas foi lugar de bebedeira.

Que toda Cruz das Almas foi lugar de descanso.

Que toda Cruz das Almas é lugar de passagem.

Compramos Kombucha: dez litros.

Incensos, um par de roupas e empadas.

A porta do cemitério estava batida.

Acendi a vela ali mesmo, ao pé do muro branco.

E deixei os doces ao tempo.

Talvez chovesse de madrugada e apagasse a vela.

Talvez chovesse e dificultasse o trabalho das formigas.

Passava das seis.

Regressamos.

Ao ponto zero da experiência.

Mas agora tínhamos uma raquete de matar muriçocas.

Passava da meia-noite quando a chuva chegou.

Sonhei que, finalmente, estava na ilha caribeña.

Nada no sonho recordava a revolução.

E tudo parecia tão perdido quanto todos aqui.

Assucena comeu chuchu, sem convicção.

Come-e-Dorme, em agonia, segue sua guerra pela vida.


Estive em Cruz das Almas.

A vela segue no mesmo lugar.

Os doces também.

Tem sempre uma estrada aguardando nossos mais primitivos abandonos.


nuno g.

Toróró, 10 de maio de 2024. 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O livro dos pequenos estremecimentos ou a trajetória da flecha em chamas

para Larissa, Alice & Assucena,


Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,

nada é em vão sob o sol,

essas mãos que pousam sobre o ventre da terra machucada 

encharcadas de lama roxa e luz arcaica

são as mesmas mãos que nos guiaram quando andávamos pelas entranhas da terra.


Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,

onde antes olhos, agora sóis

essas estrelas que nos guiam

são as mesmas estrelas que nos guiaram à sombra da distração.


Assucena sonha com uma borboleta - tudo arde, nada é em vão.

Essas mãos convidam à ceia - o pão da terra é amargo.

Essas mãos convidam ao sono - quem teme o próprio medo não deve seguir.

Essas mãos convidam a passear por ruínas e escombros:

na cidade da imaginação tudo está sempre aceso.

Não existe vida fora do risco.

Não existe vida além da poesia.

Não existe vela que arda sem intenção.

Essa Senhora que nos deu a vida nos conceda agora e sempre memória.


Assucena sonha com todas as cores nesta tarde.

Um vento fresco corre pela casa.

Haverá sempre um porto à nossa espera.


nuno g.

Toróró, 08 de maio de 2024.


o mistério das pequenas doenças ou quando a carne do Sonho sangra

Assucena come tangerina com alegria.
As mãos feridas pousam sobre a folha agônica.
Quando lhe perguntarem: tudo bem ou como estás sorria, apenas.
Esse fogo nos lábios, essas farpas entre os dentes.
O que eu quero, meu bem, é o que está sempre distante.
Senhora Obscena, eu também não me movo de mim e te agradeço.
Assucena resiste. O suco da tangerina escorre pelo queixo.
Esse fogo nos lábios de Tempo, essas carícias angelicais entre as mais discretas náuseas.
Quando me perguntarem: conhecestes a felicidade e o contentamento? receberão a mais brilhante das respostas - não importa.
As mãos e a memória das feridas sobre a folha que já é asa de pássaro livre.
Sob os escombros do viaduto, o silêncio de Orides.
Meu bem, só o que está sempre distante importa.
Antes de curar é preciso amar a ferida.
Uma e outra vez,
Além.

nuno g.
Toróró, 08 de maio de 2024

terça-feira, 23 de abril de 2024

dono das matas

Não sei onde anda a cigana de Araci.

Nem aquela outra que me falou da morte de Ian.

Menos ainda dessa terceira que me vendeu a figa de Assucena.

Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.

Ela me levou até um açude onde vi meu rosto refletido com precisão.

Foi tecendo minhas rugas por toda a noite.

Enquanto meu envelhecimento se fazia evidente.

Certa tristeza muito antiga pairava na atmosfera.

Certo descontentamento muito intenso rugia no campanário.

Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.

Senti medo, muito medo.

Senti frio, muito frio.

Despertei em meio à neblina.

Trazia um anel de prata no dedo.

E dóis sóis onde antes olhos.

A filha da Serpente ao meu lado.

O filho do Ferreiro e a suave memória de um sonho antigo.

Que não posso narrar. 

Que não tenho permissão de narrar.

Não sei por onde andam as três ciganas.

Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.

Outra vez até o noturno açude onde se refletia meu rosto.

E o tapete tecido com minhas rugas.

Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.

Vento frio ao amanhecer.

Mais que medo, angústia e algo de desespero.

Neblina e uma pedra no coração.

Anel de prata no dedo.

A filha da Serpente // O filho do Ferreiro.

A canoa subindo lentamente o rio.

O velho, o elefante e todas as minhas esperanças junto a eles.

Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre as águas.

Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre a cidade de espinhos e estrondos.

Uma senhora vestindo roxo abriu as mãos.

Havia sal e lama entre as linhas de suas palmas.

Um breu branco se instalou no tempo.

Hermenegildo passou trotando em seu cavalo.

Erguendo a poeira do chão.

E abrindo caminho para a chegada da lua de Wesak.

Forjada nas matas sombrias com a luz do ferro e a espada da compaixão.


nuno g.

Toróró, 23 de abril de 2024.

sábado, 20 de abril de 2024

eclipse

às vezes o silêncio grita

e tem sempre muito amor no silêncio

Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo

em direção à dissolução de todos os temores não-imaginários

às vezes o geólogo treme ante as camadas de terra entranhadas em seu corpo

e tem sempre muito amor em toda terra

às vezes a memória arde

e tem sempre muito amor no arder da memória

Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo

em direção à dissolução de todos os afetos não-imaginários

tem sempre muito amor em tudo que é amargo

ante às águas e o brilho

tocam meus joelhos os subterrâneos de mil faces

e reflete em suas lâminas os labirintos estreitos de onde venho

as montanhas de cansaço cansaço e mais cansaço

e sim, tem sempre muito amor no cansaço

tem sempre muito amor na distância

tudo que é vago atrai quem já não mais tem outro medo além dos imaginários


nuno g.

Toróró, 20 de abril de 2024.