quarta-feira, 23 de outubro de 2024
sobre poemas & pesadelos
terça-feira, 22 de outubro de 2024
deus te dê água de batismo
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
fotografia de aniversário
Chamava-se Ricardo.
Aparecia todos os anos no meu aniversário.
Trazia uma máquina fotográfica e um sorriso desses que mostram os dentes.
Eu esquecia que meu pai estava morto.
Eu esquecia que todos ali o detestavam.
Eu esquecia que trazíamos o mesmo nome ferrado às testas.
E me entregava à fantasia que o fotógrafo era meu pai.
Acabava a festa e ele partia.
Brinquedos, roupas, doces e salgados.
E a memória de que ao menos uma vez ao ano o espelho refletia minha imagem.
nuno g.
Toróró, 21/10/24
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
à sombra da cicatriz em flor
O coração de Judite é azul de nascença. Bistecas à beira-mar sua distração favorita. Silêncio sua maneira de dizer coisas impossíveis de serem ditas. Quando Judite pronuncia carne, ferida, ventre, lua, semente ou sangue tudo desanuvia. Judite tem a idade da terra e seu sonho é um rio onde correm todos os rios do mundo. Às quintas Judite se faz flecha; certeira, feroz e precisa. Como quando canta. Como quando baila. Como quando se faz criança e vai limpando a sujeira que nossos passos desajeitados vão deixando para trás. Judite reverbera, ecoa, alenta paróquias crônicas e vagos desesperos. Judite ensina alheamentos, derivas e postergações necessárias. Seu nome significa sertão, seus olhos desgostam do mar e seu abraço abriga esperas.
nuno g.
Toróró, 17/10/24.
brejo das borboletas
Nasceu um abacaxi no terreiro. Meu avô me preparou por uma década para sua morte, me ensinou a segurar a alça do caixão, a empunhar a pá pra jogar areia sobre a madeira e a caminhar sozinho na escuridão. Era tudo o que a anja viria a me exigir anos depois: ensina sua filha a viver sem você. Amanheceu nublado. Turistas pululando na cidade. E meus olhos procurando destecer as vozes entremeadas no vazio. Vaga promessa de arco-íris pairando na atmosfera. Meu avô se foi enquanto eu dormia. Me deixou uma biblioteca que me salvou os dias de terror e precipícios, um ódio que me acompanha como cão fiel e essa serpente que me protege da covardia do mundo.
nuno g.
Toróró, 17/10/24.
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
ponte sobre Banabuiú.
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
brilhantes pedras finas.
sábado, 12 de outubro de 2024
soleira.
Atravancado, sem-jeito, desconexo: meio como quase brutamontes próximo aquele Hercules Quasímodo que existiu algum dia dentro da miopia de Euclides. Nome de pia: Hermenegildo. Montaria: cavalo. Idade: desconhecida. Lugar de nascença: indeterminado. Hermenegildo sempre está de passagem e nada seria como é se assim não fosse, pois são suas mãos de passarinho que descortinam as montanhas e abrem os horizontes, são suas mãos de peixes que abrem as águas e os caminhos que levam aos mundos ali existentes, são suas mãos de lâminas que fendem as rochas e nos ensinam subterrâneos. Agora mesmo desponta em sua montaria o Velho, ao mesmo tempo em que anuncia sua certeira desaparição. Hermenegildo aqui significa flecha. Também significa vento. Mas antes de tudo significa oração.
nuno g.
Toróró, 12/10/24.
quarta-feira, 9 de outubro de 2024
diga a eles que não me matem
Juan Rulfo
Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.
Mas quando cresci e o procurei me disseram que, como ele, estava morto.
Irremediavelmente morto.
Foi como ouvir alguma música para ouvidos nada delicados.
Ainda assim meus tímpanos estouraram.
Foi como se num átimo de segundo mergulhassem meu corpo nas fossas marianas.
Ou na dorsal atlântica.
A terra devastada pelas chamas e o meu corpo carbonizado junto.
Num átimo de segundo arrastado à sepultura de águas oceânicas.
(os azulejos azuis eram os únicos peixes possíveis)
(e o único pássaro que conseguia seguir a cantar era o Assum Preto)
(cego pela ignorância e pela maldade humana)
Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.
Mas os homens que o mataram sabiam que trazíamos o mesmo nome de pia.
nuno g.
Toróró, 09/10/24.
sob águas profundas ou sessão sem pássaros
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
tupinambá
às vezes é preciso regressar - sem culpas.
o vento moveu as folhas.
e a tarde se esticou no varal.
terça-feira, 24 de setembro de 2024
regresso à morada dos mortos
No quiero
Que mis muertos descansen en paz
Tienen la obligación
De estar presentes
Vivientes en cada flor que me robo
Stella Díaz Varín
uma vez mais entre os que cruzaram a fronteira do rio
seus olhares desfigurados, suas fraturas expostas, seus corpos em escombros
seus sorrisos atados ao laço como animais de estimação
e meus braços remando contra todos os ventos
apenas a memória machucada içada como bandeira de um barco pirata
e o ranger de dentes ecoando no coração da árvore chamada Tempo
uma vez mais entre os que cruzaram todas as fronteiras
imperturbável e sereno ante a tempestade impenetrável
buscando apenas um lugar de repouso e descanso
sem saber como ensinar alguém a amar o que é em si detestável
suas feridas expostas, cicatrizes indesejáveis e a sombra da lua sobre as águas
apenas a memória machucada alçada à condição de sina inevitável
uma vez mais entre os que habitam a casa onírica das centopeias e caracóis
apenas o rio, o vento e o sangue do sol banhando a nudez das estrelas...
nuno g.
Toróró, 24/09/24.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
infância
para Maria Alice,
Tínhamos um pé de maxixe e um cavalo chamado Tempestade.
Antes de nós ele havia se chamado Trovão.
Comíamos pirão uma ou duas vezes por semana.
E colhíamos goiabas na varanda.
Tínhamos uma rede alvinegra.
Um lugar onde acendíamos fogueira quase todos os dias.
Uma cadela chamada Paçoca.
E um céu cheio de estrelas pairando sobre nós.
Tínhamos um rio que dormia e acordava ante nossos olhos.
E uma pequena cobra coral de estimação.
Brincávamos com as palhas dos milhos juninos.
Fazendo toda a família do Visconde de Sabugosa.
Uma vez ao ano seu Toróró nos trazia jabuticabas colhidas no terreiro.
E líamos muito. Líamos livros e folhas de plantas.
Estávamos cercados por juremas.
Fomos alguma vez a Cordisburgo.
E a tantos outros lugares que parece que não fizemos outra coisa senão viajar.
Assávamos carne aos fins de semana.
Nos divertíamos no balneário da Pitanga.
Íamos à praia do Montecristo sempre.
E éramos vistos muitas vezes nas Cabaceiras do Paraguaçu.
Depois adotamos João e não pararam mais de nascer cães em nossa casa.
Ganhamos uma gata de nome Judite que sempre recebia visitas de um gato que chamamos Anônimo.
Judite passou três dias debaixo da cama.
Não saia nem para comer.
Até que decidiu ficar e nunca mais voltou para debaixo da cama.
Depois veio a Pina, o Garfield e o Dino.
Seguíamos comendo maxixes e sonhando.
Seguíamos comendo pirão e sonhando.
Até que veio Ian, a cigana e tudo o mais que já sabemos.
Até que veio Larissa, Assucena e todas essas janelas que se abriram.
Ontem teve eclipse.
Eliana cobriu-se por alguns instantes com o véu das sombras.
Fiquei olhando como quem olha um espelho maravilhoso.
E vi novos maxixes nascendo entre as orelhas de Tempestade.
E vi cada uma das mil chuvas viradas que enchiam nossa casa de água.
E vi você caminhando entre pedrinhas amarelas e galáxias desconhecidas.
Uma onça te guiava entre despenhadeiros e montanhas.
Fiquei olhando como quem olha uma caverna.
E vi você ninando Assucena com as histórias do jaguar encantado.
Depois veio a Cristalina, o Come-e-Dorme e o Waldick.
Depois veio o Calabouço, o Álbum de família e o Dicionário.
E pouco antes do sol nascer essa infância foi se encarnando em letras azuis no papel.
nuno g.
Toróró, 18/09/24
cegueira
em terra de olhos turvos e neblina tóxica a cegueira reina
israelenses cegam libaneses com bipes que explodem
associações de cegos se revoltam contra a lucidez de Saramago
candidatos cegos insistem em convencer pessoas cegas a votar cegamente
o país arde em chamas criminosas e a fumaça nos cega
pastores cegos guiam rebanhos cegos ao inferno
hiperbolicamente antenados com a enfermidade que nos extingue
que em nós se extingue
e que nos impede ver como sair como entramos como sobrevivemos
neste tempo em que escatologia e história se fundem
como o zinco ao zinco
como o sinistro ao sinistro
como a ausência à ausência e à Ausência
em terra de cegos os eclipses passam quase desapercebidos
como nossas sombras ao atravessar a rua
ou como aquela bigorna de esquecimento que já não nos permite recordar
as centenas que ficaram cegas nas protestas chilenas
ou os libaneses de ontem que já começam a ser apenas um esquecimento mais
o que poderá nossa imaginação a partir dessas ruínas?
assim pixado no muro de Cachoeira
ao lado, escrito em tinta que não se vê,
: em terra de...
nuno g.
Toróró, 18/09/24
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
quando voltará a chover dendê sobre nossos passos
aqui a Serpente
quinta-feira, 12 de setembro de 2024
quinta-feira
Atirei mil flechas contra o sol.
O meu ódio é sagrado e reluzente.
Aprendi isso arrastando meus joelhos por léguas e léguas de solo pedregoso.
Derramei mil lágrimas no vazio da taça.
E vi a noite despencar sobre as ilusões humanas.
Servi feijão aos três irmãos.
E adorei o sol, a lua e as estrelas.
Adorei o rio, as onças e as borboletas.
Estendi no varal do horizonte o manto do Obscuro.
Entoei cânticos de sacrifício enquanto pensava em Gary Snyder em sua cabana no além.
Vivo numa época estúpida.
Cercado por ideias estúpidas nascidas de mentes estúpidas.
Devoro a estupidez da atmosfera como Alcides devorava as flores de aniversário.
Atirei mil sóis contra a primavera.
Inferno é uma singela palavra que me habituei a pronunciar com delicadeza.
O amor é sagrado e reluzente.
Como as areias de Tempo que escorrem entre meus dedos e cílios.
Assucena desayuna batata, ovo, cenoura e uvas.
Teresa vê tão longe que não alcanço.
Rude e violenta é essa obstinada tentativa de nos vender a felicidade a qualquer custo.
Alice dorme.
Larissa dorme.
Hermenegildo e o Velho cruzam a estrada de mãos dadas.
A estrada é sagrada e reluzente.
O choro de Assucena é sagrado e reluzente.
O sono de Alice é sagrado e reluzente.
O leite de Larissa é sagrado e reluzente.
O mundo é opaco, a mata é sombria.
O Ferreiro selvagem é iluminado e poderoso.
Roxo é muito mais que uma simples cor.
Toco a lama sagrada e reluzente em busca de fósseis preciosos.
E atiro minha última flecha contra o horizonte.
Em direção às águas, à palha e à voracidade de tudo que nos consome.
nuno g.
Toróró, 15 de agosto de 2024.
terça-feira, 13 de agosto de 2024
edifício Grão-Pará (sonho noir)
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
Ciranda de hoje, texto lido por Ayla Andrade no lançamento do Dicionário dos medos imaginários: morfemas.
O tempo é a melhor testemunha do quanto se vive.
Uma ciranda que roda, circulando mão a mão, na roda do tempo, enquanto se olha o céu.
Penso que vivo pouco e devagar. Olho pouco para trás. Mas é quando olho para o lado que vejo quantas mãos me seguram nessa ciranda.
Porque o tempo não para, e por vezes acelera ou recua, e é onde a ciranda se embaralha, algumas mãos se soltam, a gente tropeça e precisa depois correr, braço estendido, tentando alcançar o perdido.
A ciranda é potente e ciclicamente retorna ao ponto inicial. Suspeito que serve para recuperar o fôlego, sorrir de volta, ajeitar a coluna e... alcançar o perdido.
Nessa ciranda o tempo marca o tom, o compasso, o recomeço e por vezes, o fim. Por mais que nunca estejamos preparados ou desejosos do fim.
Mas rodando com a ciranda certa, mão a mão, com chuva ou sol, amor e um pouco de raiva, a gente chega ao fim, sorrindo.
Rodando cheguei até aqui. E quando olho para lado, ciranda que a vida me deu, vejo que o tempo me foi generoso: mão a mão, os amigos rodam comigo enquanto ainda olhamos o céu.
Ayla Andrade.
https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios?igsh=eHZma2FiYmxuZnRo
domingo, 11 de agosto de 2024
cemitério bizantino II
roupas estendidas no varal
e ainda essa sensação
de despertencer ao reino onde desperto
nuno g
11/08/24
sábado, 10 de agosto de 2024
cemitério bizantino
sonhei com uma fotografia de damário da cruz
meias sujas espalhadas no quintal
e a certeza de que não pertenço ao reino onde desperto
nuno g.
toróró, 10/08/24
quarta-feira, 7 de agosto de 2024
ante o Insondável
para Adélia Prado,
meus joelhos seguem sangrando de tanto chão
em trevas me reconheço e ouço as cem mil vozes que me habitam
relâmpagos e trovoadas me acendem e me estilhaçam
em cem mil vagalumes
estamos mergulhados na história, ou seja, no terror absoluto
atravessamos os tempos em que nossos corpos se fizeram vidro
fomos atravessados pelos tempos em que nossos corpos se fizeram metal
o homem da mão seca ainda acaricia meus cabelos
e sorri quando vejo meu avô quase-pássaro ousar o abandono do abismo
o homem da mão seca ainda me seca as lágrimas
quando recolho o sangue de minha mãe na calçada suja da Conde da Boa Vista
o homem da mão seca ainda tece curativo nos meus joelhos
quando desperto em Belém em meio ao tiroteio que matou meu pai
e penso: eles sabiam que ele era meu pai
meus joelhos seguem sangrando de tanto chão
na mata sombria reacendo minha devoção
e aprendo com o ferreiro a forjar silêncios
cem mil vagalumes me guiam
cem mil vozes me habitam
em cada poema respira uma breve e delicada oração
nuno g.
Toróró, 07 de agosto de 2024.
domingo, 4 de agosto de 2024
Afogados
a vida é uma besta selvagem.
Stella Díaz Varín
Não culpem o mar nem os pés.
Ainda menos as sereias e seus cânticos devocionais.
Não culpem o verde nem o sal.
Ainda menos as espumas brancas e cintilantes.
Não culpem o fogo nem a madeira.
Ainda menos o crepitar dos ossos ou o estalar das vertigens.
Apenas deixem que seus passos os conduzam ao inevitável afogar-se.
nuno g.
Toróró, 04 de agosto de 2024.
sexta-feira, 2 de agosto de 2024
Aparecida
Ela nunca esteve entre nós.
Talvez por isso podia falar de Eliana antes da queda.
De suas coxas brancas, seus êxtases e suas manhas.
Carregou o estigma da adoção como quem carrega um daimon de aço.
E o nome da santa indígena saída das águas de um rio.
Ela nunca esteve mesmo entre nós.
Não lhe reservaram convite nem lugar à mesa.
Talvez por isso podia passear com seus cães pela cidade.
O estigma sempre arrastado à coleira.
E pouca razão à ferocidade.
A lei do luto lhe levou à metrópole.
Casou. Enviuvou. Cruzou a fronteira da península.
E desapareceu numa Espanha de touros e esquecimentos.
nuno g.
Toróró, 03 de agosto de 2024.
domingo, 14 de julho de 2024
Devoção II
para Lou Reed & Nico,
O médico cubano me ligou ainda cedo.
Tardei a identificá-lo.
Me disse que tem três filhas.
Que vai vir à uma obrigação de terreiro.
E que muito deseja me rever.
Assucena comeu brócolis com banana.
A vida é um pesadelo com infinitos labirintos dentro.
Anos atrás Alice fez birra grande.
A praça da Sé de Avalon lotada.
Mestre Aldenir e seu reisado.
Se jogou no chão.
Gritou. Chorou. Esperneou.
Em nada parecia a Alice que eu conhecia.
Decidi seguir como se nada.
Cerveja. Dança. Alegria dos Mateus à praça.
No outro dia ela com calma disse:
Pai, sabe por que eu fiz birra ontem?
Nem ideia.
Pra você não esquecer que eu sou criança.
As mãos de Benício juntas às mãos da lua entre as nuvens.
Três onças seguindo Hermenegildo em sua montaria.
A garota do São Judas dormindo quase em paz.
O médico cubano me arrancou do pesadelo.
A vida é um labirinto com infinitos pesadelos dentro.
Voltei a fumar como antes.
O excesso de nicotina provoca um êxtase suave e delicado.
Talvez algum dia eu narre ao médico cubano.
Algo sobre em terreiros florescerem estrelas suicidadas.
nuno g.
Toróró, 14 de julho de 2024.
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Devoção
para Patti Smith,
Voltei a tomar café como antes.
O excesso de amargo provoca o mais adorável dos transes.
Come-e-Dorme morreu.
João morreu.
Carminha morreu.
Construíram um bairro inteiro sobre a lagoa da Catumbela.
Nele, um posto de saúde com a bela vista do que sobrou de águas e carnaúbas e garças.
Assucena ali tomou mais uma vacina.
Fiquei olhando os tapuias dançando sobre as casas.
Os ventos de agosto chegaram.
Vejo cavalos em disparada pelas calçadas do Benfica.
E a dama da noite recordando quando ali tudo era chácaras de fim de semana.
Depois de amanhã Alice chega.
Depois de amanhã é uma medida de tempo semelhante à das cem mil duzentas xícaras de café.
Sonhei com Adélia incendiando o pasto do Liu.
Finalmente tomava coragem.
Arranquei o carro e fui até a rua Ceará em Divinópolis.
Toquei na porta e ela abriu.
Lhe entreguei o Álbum de família e o Dicionário dos medos imaginários.
Ela leu num relampejo.
Olhou nos meus olhos e disparou: reze.
Despertei com o coração aos galopes.
Recordando todas as vezes que desisti de incluir Divinópolis na minha rota.
Temor de não ser digno de me apresentar onde deus fez morada.
Notícias trazidas pelo vento Aracati:
Um enxame de abelhas atacou ferozmente os dois habitantes da calçada de meu bisavô.
Um foi a óbito, outro se recupera no hospital.
Saudades da Dellany, memórias daquela despedida no Bixopá.
As aulas regressam lentamente, como os caracóis que perseguem a palavra.
Só na tragédia a lua realiza seu destino.
Existem histórias que nunca poderei narrar.
À primeira noite em São Bernardo das Éguas Russas sonhei que estava na Lagoa do Mato.
Dentro do verde e salgado mar do litoral leste.
Pari duas luas.
Peço permissão aos deuses para a história deste sonho narrar.
Palavras para descrever as falésias, as jangadas e aquele vazio de quando as ondas recuam.
Chico, em belas fotos com Claudio.
O Dono de Todas as Matas protegendo os dois.
Assucena brincando no parquinho reluzente do bairro Granjeiro.
Tia Neuza insistindo em botar cadeira na calçada.
Nenhum temor à morte.
Nenhum temor às italianas e ferozes abelhas.
Apenas o rio apagando suas últimas memórias.
E uma nova e estranha lucidez apontando no horizonte.
Segunda chega e domingo não.
Às quatro da manhã despertei com o cheiro das palavras de Adélia à chuva.
Come-e-Dorme foi submetido à eutanásia.
João livrou-se da corda para morrer em liberdade.
Larissa costura, costura e costura.
Tece as linhas do leite e da razão no tear onde se gestam estrelas.
Na minha mesa de trabalho repousa O viajante da solidão.
Dedicado de punho à Eliana Gonçalves no ano de 1969:
a Eliana
cordial homenagem
Artur Eduardo Benevides
Insistimos em saber o que fez Larissa chorar.
Não pudemos esquecer nem recordar.
Existe um deus asmático e sonâmbulo que me visita certas sextas-feiras.
Vem sempre acompanhado do meu tio Joãozito.
João Ferreira Lima, de pia.
Carteiro como Charles Bukowski.
Assucena desperta e chora.
Alice me chama e eu vou.
Um dia volto pra narrar a história do sonho das duas luas.
A mãe de umbigo de Assucena à porteira: ô de casa!
Larissa interrompe a tessitura e me chama: vem ver isso!
Desadormeço e avisto a filha do João à porteira.
Em tudo igual ao pai.
Ela olha pra corda abandonada no terreiro.
Pro cantinho vazio onde ele viveu seu destino.
E se vai.
Sem olhar para trás.
Sem saber que nunca mais seremos os mesmos de antes.
nuno g.
Toróró, 12 de julho de 2024.
sábado, 11 de maio de 2024
Alzira
para André Dias,
Amanheceu chovendo.
Em cada gota d'água uma estrada para o infinito.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Avançando entre os escombros de Gaza e a cegueira da classe média.
Amanheceu chovendo.
Em cada gota d'água uma estrada para o Nada.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Avançando entre montanhas e montanhas de cansaço.
Amanheceu chovendo.
Acender uma vela ou encher o filtro.
Enfiar as mãos no barro como se houvesse algum futuro depois da estupidez.
Tamarindos, acerolas e umbus-cajás.
Amanheceu chovendo.
Todos os automóveis verdes dos meus sonhos com os motores ligados.
Alzira olha Tempo.
Hermenegildo cruza as nuvens.
Um pássaro sobrevoa o rio onde a morte se fez esquecimento e náusea passageira.
Amanheceu chovendo.
Ouço os sussurros de Adélia.
Ouço os cânticos de Alcides.
Tudo é feitiço sobre a terra.
Tudo é encantamento e evaporação.
Alzira olha as vestes de Tempo.
Hermenegildo toca a nudez da estrela.
O mundo semeia novas tempestades.
E todos os automóveis verdes dos meus sonhos avançam sobre as flores nascidas na pedra.
nuno g.
Toróró, 11 de maio de 2024.
sexta-feira, 10 de maio de 2024
haiku de outubro
Assucena comeu uma borboleta,
só conseguimos salvar uma asa:
a miração do monge dissipou o horizonte.
toróró, 10 de maio de 2024.
a eternidade dos campos-santos ou a lucidez que reluz na lâmina do pessimismo
É que o cemitério de que lhes falo, respondia Pereda, é a cópia fiel da eternidade.
Roberto Bolaño
Estivemos em Cruz das Almas.
Passava das seis e, inevitávelmente, recordei que toda Cruz das Almas foi lugar de reza.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de bebedeira.
Que toda Cruz das Almas foi lugar de descanso.
Que toda Cruz das Almas é lugar de passagem.
Compramos Kombucha: dez litros.
Incensos, um par de roupas e empadas.
A porta do cemitério estava batida.
Acendi a vela ali mesmo, ao pé do muro branco.
E deixei os doces ao tempo.
Talvez chovesse de madrugada e apagasse a vela.
Talvez chovesse e dificultasse o trabalho das formigas.
Passava das seis.
Regressamos.
Ao ponto zero da experiência.
Mas agora tínhamos uma raquete de matar muriçocas.
Passava da meia-noite quando a chuva chegou.
Sonhei que, finalmente, estava na ilha caribeña.
Nada no sonho recordava a revolução.
E tudo parecia tão perdido quanto todos aqui.
Assucena comeu chuchu, sem convicção.
Come-e-Dorme, em agonia, segue sua guerra pela vida.
Estive em Cruz das Almas.
A vela segue no mesmo lugar.
Os doces também.
Tem sempre uma estrada aguardando nossos mais primitivos abandonos.
nuno g.
Toróró, 10 de maio de 2024.
quarta-feira, 8 de maio de 2024
O livro dos pequenos estremecimentos ou a trajetória da flecha em chamas
para Larissa, Alice & Assucena,
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
nada é em vão sob o sol,
essas mãos que pousam sobre o ventre da terra machucada
encharcadas de lama roxa e luz arcaica
são as mesmas mãos que nos guiaram quando andávamos pelas entranhas da terra.
Assucena brinca com uma borboleta - tudo arde,
onde antes olhos, agora sóis
essas estrelas que nos guiam
são as mesmas estrelas que nos guiaram à sombra da distração.
Assucena sonha com uma borboleta - tudo arde, nada é em vão.
Essas mãos convidam à ceia - o pão da terra é amargo.
Essas mãos convidam ao sono - quem teme o próprio medo não deve seguir.
Essas mãos convidam a passear por ruínas e escombros:
na cidade da imaginação tudo está sempre aceso.
Não existe vida fora do risco.
Não existe vida além da poesia.
Não existe vela que arda sem intenção.
Essa Senhora que nos deu a vida nos conceda agora e sempre memória.
Assucena sonha com todas as cores nesta tarde.
Um vento fresco corre pela casa.
Haverá sempre um porto à nossa espera.
nuno g.
Toróró, 08 de maio de 2024.
o mistério das pequenas doenças ou quando a carne do Sonho sangra
terça-feira, 23 de abril de 2024
dono das matas
Não sei onde anda a cigana de Araci.
Nem aquela outra que me falou da morte de Ian.
Menos ainda dessa terceira que me vendeu a figa de Assucena.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Ela me levou até um açude onde vi meu rosto refletido com precisão.
Foi tecendo minhas rugas por toda a noite.
Enquanto meu envelhecimento se fazia evidente.
Certa tristeza muito antiga pairava na atmosfera.
Certo descontentamento muito intenso rugia no campanário.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Senti medo, muito medo.
Senti frio, muito frio.
Despertei em meio à neblina.
Trazia um anel de prata no dedo.
E dóis sóis onde antes olhos.
A filha da Serpente ao meu lado.
O filho do Ferreiro e a suave memória de um sonho antigo.
Que não posso narrar.
Que não tenho permissão de narrar.
Não sei por onde andam as três ciganas.
Segui a cobra verde no caminho dos sonhos.
Outra vez até o noturno açude onde se refletia meu rosto.
E o tapete tecido com minhas rugas.
Adormeci e sonhei com o menino Azul e os sete escravos.
Vento frio ao amanhecer.
Mais que medo, angústia e algo de desespero.
Neblina e uma pedra no coração.
Anel de prata no dedo.
A filha da Serpente // O filho do Ferreiro.
A canoa subindo lentamente o rio.
O velho, o elefante e todas as minhas esperanças junto a eles.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre as águas.
Como no dia em que choveu grãos de milho branco sobre a cidade de espinhos e estrondos.
Uma senhora vestindo roxo abriu as mãos.
Havia sal e lama entre as linhas de suas palmas.
Um breu branco se instalou no tempo.
Hermenegildo passou trotando em seu cavalo.
Erguendo a poeira do chão.
E abrindo caminho para a chegada da lua de Wesak.
Forjada nas matas sombrias com a luz do ferro e a espada da compaixão.
nuno g.
Toróró, 23 de abril de 2024.
sábado, 20 de abril de 2024
eclipse
às vezes o silêncio grita
e tem sempre muito amor no silêncio
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os temores não-imaginários
às vezes o geólogo treme ante as camadas de terra entranhadas em seu corpo
e tem sempre muito amor em toda terra
às vezes a memória arde
e tem sempre muito amor no arder da memória
Tempo / velho amigo - te agradeço por cada passo
em direção à dissolução de todos os afetos não-imaginários
tem sempre muito amor em tudo que é amargo
ante às águas e o brilho
tocam meus joelhos os subterrâneos de mil faces
e reflete em suas lâminas os labirintos estreitos de onde venho
as montanhas de cansaço cansaço e mais cansaço
e sim, tem sempre muito amor no cansaço
tem sempre muito amor na distância
tudo que é vago atrai quem já não mais tem outro medo além dos imaginários
nuno g.
Toróró, 20 de abril de 2024.