domingo, 13 de fevereiro de 2022

Amarelo.

Para Maria Alice,


quem vem comigo vem de longe

desde o tempo em que o mundo era mata

desde o tempo em que o dentro era idêntico ao fora

desde o tempo em que o acima correspondia ao abaixo

quem vem comigo vem de longe

desde o tempo em que o tempo era árvore de frutos roxos 

e em seus galhos pousavam pássaros amarelos

quem vem comigo vem de longe 

e nada sabe sobre o além da montanha

e nada sabe sobre o além das nuvens

quem vem comigo vem de longe

de mata antiga onde quando no céu reluzia o arco-íris

quem vem comigo te conhece desde antes do antes

quem vem contigo vem de longe

vem de antes do mundo ser mata

de um quando onde não havia ainda um fora e um dentro

de um quando não havia ainda um abaixo e um acima

quem vem contigo vem de longe

desde antes do tempo ser árvore

desde antes de existirem frutos ou pássaros

quem vem contigo anunciou o roxo e o amarelo

e sabe tudo sobre o além das montanhas

e conhece tudo sobre o além das nuvens

quem vem contigo é Tempo

fundador da mata, senhor do arco-íris

Árvore.


nuno g.

Toróró, 13 de fevereiro de 2022.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

As mortes e as mortes de meu pai

para Nuno Guedes Pereira


muitas e muitas vezes só desejei teu colo

ou uma morte suave e delicada como o beijo do inimigo

o que é o mesmo dito com outras palavras

muitas e muitas vezes cruzei as ruas da cidadela

entre ventos, poeira e raios de sol

a alça do caixão à mão direita

ou esse nome pesado sobre a coroa de meu destino

o que é o mesmo vivido com outros gestos

muitas e muitas vezes enterrei meu pai

entre as teias de aranha suspensas no quadro da sala

ou entre as dobras do redemoinho do esquecimento

o que é o mesmo pintado com outras cores

muitas e muitas vezes beijei a boca da insônia

e cavalguei no alazão acinzentado

como se soubesse que ao fim da estrada

me aguardava uma borboleta dourada

um menino com nome de archanjo

e a terra fria onde repousariam minhas densas carnes

tantas vezes escutei o cantar dos galos e o soar dos sinos prateados

e olhei com olhos de açoite o azul do céu

ouvindo o crepitar da lenha à ação do fogo

aqui meus guias em força e luz

e minha sina de ser sempre firme sobre todas as coisas

caminhar às águas ou ascender aos céus

o que é o mesmo pronunciado em outra língua

muitas e tantas vezes só desejei o sono

e não ter que nunca mais enterrar meu pai

sob o fundamento onde o mistério deitou raízes

ásperas, severas, inesgotáveis.


nuno g.

Toróró, 10 de fevereiro de 2022.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Estudo fino das cores ou o nascimento do Roxo.

para Maria Alice, 
para Você, 
para...


Entre o Azul e o Amarelo

Entre o Negro e o Vermelho

No lodaçal do pântano

Entre caranguejos e siris

Entre a lama e a lama

Nasceu o Roxo

E com ele Nanã, a Velha Senhora

E com ele Miguel, o Archanjo

Assim nasceu o Roxo

E com ele o amor de uma geração à outra

E com ele o mangue onde o doce se mescla ao salgado

E com ele os dias em que os seres de Ar assentam

E com garras e dentes

Vão enchendo de barro o lugar onde semearão

Entre o Amarelo e o Azul

Entre o Vermelho e o Negro

Entre os pássaros de todas as cores

Voando em direção à montanha mais alta

Onde se encontra a Árvore do Mundo

Entre as serpentes de todas as cores

Voando em direção à montanha mais antiga

Onde cresce a Árvore do Mundo

De onde brotam como frutas todas as cores do Mundo

O Azul, o Amarelo, o Negro, o Vermelho e o

Roxo.



nuno g.

Toróró, 25 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Canto à Serpente

me vesti com tuas lágrimas, Verdes

como a mata onde debulhamos as folhas de Tempo,

e subi a ladeira do Sonho

guiado por Ele, Vermelho e Preto

nascido no quando da terra da mata

e subi a ladeira das águas doces, Verdes

como as lágrimas tuas que debulhamos na mata

e me vesti com as folhas de Tempo

guiado por Ele, subi a colina agarrado às contas do santo Rosário

e me ajoelhei aos pés do cruzeiro

erguido no quando da terra da mata

entre as folhas de Tempo e as quedas de águas doces

entre o Sonho, a ladeira, a Serpente e as lágrimas.



nuno g.

Cachoeira, 20 de janeiro de 2022.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Quando tudo era mato



quando tudo era mato

só havia Caminho e Mistério

ainda a Morte

era Caminho era Mistério

quando tudo era mato

e ainda não havia nenhum labirinto

também o Terror

era Caminho e Mistério

quando tudo era mato

nasceu Dan – e com ela todas as cores

quando tudo era mato

tudo era Caminho era Mistério

até que Dan acendeu no coração das águas o fogo

entre o Terror e a Morte

entre o Tempo das coisas que ainda não chegaram

e o Tempo das coisas que não terminaram de dissolver

tudo era mato – Caminho e Mistério

o Terror era o Temor que nos albergava do labirinto da história

a Morte era quem nos acarinhava

e o Nada seguia sendo desconhecido

nossas mãos eram mais singelas

e delas emanava mais amor mais alegria

quando tudo era mato

as escamas do céu

também eram Caminho e Mistério

imenso escudo Azul e Amarelo

nos guardando do labirinto das feras

Dan, enrolada na árvore chamada Tempo

regressava assim aos confins do íntimo

ao Tempo onde tudo era mato

e o Nada não havia ainda

quando tudo era mato

o Povo da Palha se deixava ver

e sua voz se ouvia

quando tudo era mato

as plumas de Dan

reinavam sobre a memória do labirinto

as plumas de cores

entre o fogo e as águas

entre o mato e o mato

entre o Amarelo do ouro e o Azul

entre o Amarelo do mel e o Azul

entre o escudo e os olhos

entre os nossos pequenos sonhos noturnos

e o grande Sonho desse pássaro chamado Noite

que dorme na árvore de Tempo

junto a Dan, a serpente que traz todas as cores

quando tudo volta a ser mato

e ante a inexistência do Nada

tudo volta a ser o que era – Caminho e Mistério:

as escamas coloridas no céu

nos protegem uma vez mais do Terror da história

e do labirinto absurdo onde reina o Nada.



nuno g.

16 de janeiro de 2022.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Vamos gritar Piedade !, por Gaeth Castanheiro

No avesso havia um verso
Uma desavença inversa
Ao verso feito do avesso
Não há preço só há pressa
Só a presa se apressa em fugir
E esse verso feito ferro
Não o ferro de ferir
Mas o ferro de forjar
O ir e vir sempre indo
Sempre lindo
Sempre vindo como quem vai
E esse verso dentro do nosso avesso
Deixa aceso o fogo
Da poesia água
Que lavanda nossa eterna praça
Piedade poesia piedade.

Margareth Castanheiro

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Ciranda

meu coração-criança chora

mas o mundo não está para lágrimas

meu coração-criança grita

mas o tempo não está para gritos

tem muita gente morando nas ruas

tem muito silêncio nadando no rio

mataram meu pai tantas vezes

que já pouco importa

meu coração-criança se devora

mas o tempo e o mundo não estão para isso

peço perdão a deus e agradeço

pelo que não fiz

por não ter invertido o sentido dos versos de São Francisco

meu coração-criança abre janelas e portas

deixa entrar a brisa da madrugada

e o som dos grilos que rezam lá fora

meu coração-criança cansou

mas o mundo e o tempo não estão para cansaços

agradeço a deus e suplico perdão

pelo que não fiz

por não ter invertido os versos de São Francisco

mataram meu pai tantas vezes

que já pouco importa

tem muita fome passeando às ruas

tem muita sede dormindo às praças

meu coração-criança corre

atravessa os jardins da Senhora

mergulha nas espinhas oceânicas

em busca de uma nuvem

para fazer de montaria

meu coração-criança brinca de ser coral entre nenúfares

mas o tempo não está para brincadeiras

e o mundo é mais cortante e perigoso que qualquer coral

meu coração-criança dança

atravessa os labirintos da floresta

seguindo o serpentear da cobra coral

em busca de uma nuvem

para fazer de montaria

meu coração-criança não dorme

tem muita miséria nas cidades

tem muita matéria na memória

tem muita cegueira e densidade

meu coração-criança desperta

fora do mundo, longe do tempo

escala árvores como se fosse um gato

e como um gato escapa na imensidão do firmamento

mataram meu pai tantas vezes

que quase me convenceram que isso nada importa

meu coração-criança não esquece

grita chora e se devora

mas o tempo não está para gritos

nem o mundo está para lágrimas

meu coração-criança se alegra

de não ter invertido os versos de São Francisco

corre brinca dança celebra

ainda sabendo que o tempo não está para isso

meu coração-criança adormece

escala árvores como se fosse uma onça

e, onça que é, desaparece na imensidão Azul do firmamento.

nuno g.
Toróró, 02 de janeiro de 2022.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Navios do deserto

espalhei os bombons sobre sua cova

e ele sorriu: discreto arco-íris que se

desfez antes do pôr-do-sol

e da BR-101 vimos as águas ligeiras

despencando das alturas e erguendo

uma nuvem carregada de navios que

como os navios do deserto

flutuavam e flutuavam entre gotas

de águas e gotas

de areias entre a

solidão e o absurdo

entre cavalos, pedras e

desbotadas primaveras

 

as formigas, as flores, o ventre

do campo santo de espumas e mel

o discreto arco-íris-sorriso

dissolvendo em timidez antes

do beijo sabendo a sexo e oração

a chama pegou e o carro abandonou a estrada de terra

já no asfalto

uma lágrima tocou o tímpano

esquerdo, antes do pôr-do-sol

entre notícias de desabrigados

e promessas de ano-novo

espalhadas como bombons em covas de anjos

ou como navios de guerra

estrategicamente semeados

na oceânica aridez do deserto


nuno g.

Toróró, 27/12/21.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A terceira vela

Em tua cama de areia e pedra descansa, menino

E ainda assim, soterrado antes, hás de sonhar

Entre a torrente incessante de sonhos que é tua única realidade

Sempre retornará a imagem daquele efêmero instante

Em que nos meus braços teus olhos fechados

E teus cabelos encaracolados

Em tua cama de pedra e areia descansa, menino

Para nós, os nascidos, tudo se resume a efêmeros instantes

Ao contrário, para ti, natimorto

Nada é efêmero e só existe a estrada da eternidade

Descansa menino, descansa

Sob o fio de luz desta vela que te acendo,

Descansa,

E com tuas mãos morenas vais abrindo o caminho

Por onde passam as serpentes emplumadas

E a legião dos cegos missionários da floresta

Em tua cama azul e amarela, descansa meu menino

Descansa como descansarias na rede que te teceu a aranha rendeira

Descansa e escuta minha prece, menino

Entre a torrente incessante de teus sonhos

Sentirás o perfume destes incensos que te acendo

Ian, anjo entre anjos,

Luz, firmeza e a consciência profunda dos que se recusam a abandonar a eternidade.

 

Nuno g.

Toróró, 14 de dezembro de 2021.

sábado, 11 de dezembro de 2021

***

 QUEM ESTÁ CERTO ESTÁ ERRADO E QUEM ESTÁ ERRADO ESTÁ CERTO.


Padrinho Manoel Corrente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

gira de Mateus

                     para Claudio Reis,


todas as Marias são palestinas



Eles chegaram e bailaram a noite inteira

entre as nuvens e o cume da chapada

entre as árvores de Tempo

e as águas do amanhecer



todos os soldadinhos do Araripe são palestinos



Eles bailaram a noite inteira

entre meus sonhos trôpegos e o Sonho límpido da terra

entre o tempo das árvores

e as águas do entardecer



todos os espíritos são palestinos

inclusive os que nos estendem a mão

quando os rumores nos ameaçam



Eles sabiam que ali estavam guardados

e sob o escudo Azul ergueram a ciranda-matriz

colunas de salamandras e batalhões de encantados

ao som de pífanos e zabumbas

Eles também se sabiam palestinos

e desconheciam qualquer hesitação.



Eles dançaram a noite toda

entre as estrelas e as estrelas da madrugada

Eles eram muitos e tinham nomes sagrados:

Cachoeira, Mosquito, Império.

Margaridas de couro cravejadas no peito

e os três caminhos selados nas palmas do espelho.

Eles eram palestinos e herdeiros

e nunca nos deixaram esquecer

que até o mais agônico cortejo

é regido por uma austera e faiscante alegria.



Eles bailaram a noite toda

e como os Magos Reis da antiguidade

foram guiados por Vênus e Andrômeda

até o terreiro sagrado de Mestre Aldenir

xilogravado na lira esmerada de Walderêdo Gonçalves.



guiados pela lua

abriram os três caminhos:

fertilidade, delicadeza, alegria:

e a memória das coisas que nunca se devem esquecer.



Toróró, 07 de dezembro de 2021.

nuno g.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Morte (hora do delírio), por Junqueira Freire

Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem. Tu és o termo

De dois fantasmas que a existência formam,

— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.


Pensamento gentil de paz eterna,

Amiga morte, vem. Tu és o nada,

Tu és a ausência das moções da vida,

do prazer que nos custa a dor passada.


Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem. Tu és apenas

A visão mais real das que nos cercam,

Que nos extingues as visões terrenas.


Nunca temi tua destra,

Não vou o vulgo profano;

Nunca pensei que teu braço

Brande um punhal sobre-humano.


Nunca julguei-te em meus sonhos

Um esqueleto mirrado;

Nunca dei-te, pra voares,

Terrível ginete alado.


Nunca te dei uma foice

Dura, fina e recurvada;

Nunca chamei-te inimiga,

Ímpia, cruel, ou culpada.


Amei-te sempre: — pertencer-te quero

Para sempre também, amiga morte.

Quero o chão, quero a terra, - esse elemento

Que não se sente dos vaivéns da sorte.


Para tua hecatombe de um segundo

Não falta alguém? — Preencha-a comigo:

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.


Miríadas de vermes lá me esperam

Para nascer de meu fermento ainda,

Para nutrir-se de meu suco impuro,

Talvez me espera uma plantinha linda.


Vermes que sobre podridões refervem,

Plantinha que a raiz meus ossos fera,

Em vós minha alma e sentimento e corpo

Irão em partes agregar-se à terra.


E depois nada mais. Já não há tempo,

nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.

Agora o nada — esse real tão belo

Só nas terrenas vísceras deposto.


Facho que a morte ao lumiar apaga,

Foi essa alma fatal que nos aterra.

Consciência, razão, que nos afligem,

Deram em nada ao baquear em terra.


Única ideia mais real dos homens,

Morte feliz — eu quero-te comigo,

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.


Também desta vida à campa

Não transporto uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade.


E como um autômato infante

Que ainda não sabe mentir,

Ao pé da morte querida

Hei de insentato sorrir.


Por minha face sinistra

Meu pranto não correrá.

Em meus olhos moribundos

Terrores ninguém lerá.


Não achei na terra amores

Que merecessem os meus.

Não tenho um ente no mundo

A quem diga o meu - adeus.


Não posso da vida à campa

Transportar uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade.


Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:

Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.


                                         Junqueira Freire

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Os pássaros

os pássaros se foram – cruzando os céus.

deixando vazio o ninho,

onde antes as mil crianças

agora as brumas de amor e esperança

servindo de escudo, guardando o mistério profundo da pele.

 

os pássaros se foram – seus cânticos se ouvem ao telefone,

e apenas aterrissaram ao sul

pousou aqui o dedo em riste da terra

ofendida em seu pântano e degredo.

 

os pássaros se foram e o silêncio foi colorindo a casa,

a memória das chuvas do próximo março

e o grito de ódio empáfia arrogância e ameaça.

 

no lugar dos pássaros que partiram

a certeza de que regressarão em tempo mais breve

que qualquer ausência possa matar.

 

nuno g.

Toróró, 23 de novembro de 2021.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O jogo, por Patrícia Gonçalves Tenório

Volto
Ao começo
Ao mesmo
Ponto
Do Big Bang
À mesma
Luta
Comigo
E a vida

Tão desmesuradamente
Bela
E dura
E minha
E sim

Patrícia Gonçalves Tenório

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

15 de novembro.

Aqui chove.
E chove muito.
Chove como se chovesse sobre todo meu passado.
E ouço o som de cada gota sobre este telhado.
E olho esta casa que os deuses me deram.
E ouço cada som da chuva banhando este lugar.
E penso em todas as vezes que me pensei um corpo atado.
Um corpo interditado.
Um corpo sem vereda e sem atalho.
Minha pressa se desfaz e o rio segue sangrando.
Como um coelho degolado por um cão assustado.
Ou como um arbusto decepado pela fúria de um facão.
Aqui chove.
E o gosto de suas coxas não sai da minha boca.
Sou só saliva e barro.
E meus joelhos são penitência e oração.
A república ruiu - e com ela todas as fantasias eróticas da política.
Nenhuma semiótica no quintal.
Só a chuva.
Esta casa.
E a brasa do cigarro recordando uma antiga combustão.

nuno g.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Caminhos de sal

Existe um panteão esquecido pedindo passagem
Aracati / Quixeré / Feiticeiro
Sete flechas em meu corpo-encruzilhada
Se afogando na quentura de um sol radiante
Que não para de sangrar
A senhora de todas as ciganas tangeu os eguns que bailavam ao meu lado
Treme a terra / Geme o mar
Todos os santos / Todos os mortos
E como os bois de antanho subiram o leito do rio ao som do aboio
Sem esperança de chegar a algum lugar
Existe um panteão esquecido pedindo passagem
Aracati / Quixeré / Feiticeiro
Sete flechas em meu corpo-encruzilhada
Se afogando numa sombra que não para de bailar
Subindo o leito esturricado do rio em direção à vila do Icó
O corpo de tua mãe se redobrando pra dentro
Só tu se reconhecendo nestes retorcimentos tão íntimos
E não foi ela que com suas mãos alimentou a fome dessa cidade?
E não foi ela que carregou dentro nosso rio de sangue?
Hilda lavou os búzios lambuzados de mel
E abriu os caminhos do entendimento do escuro
Ainda sob a proteção do Amarelo e do Azul
Quando ela dança no arco-íris eu morro
E essa violência perpétua dos nomes me abrasando antes de qualquer chuva
Okê Arô -- sim, caçador, só temos uma flecha
Dai-nos firmeza e pontaria para atravessar estes caminhos de sal
Existe uma onça uivando no horizonte de calcário
Dai-nos fé e amor para escutarmos a voz que vem do outro lado.


nuno g.

sábado, 23 de outubro de 2021

Bixopá

o que é o Nada?

Uma porção de água doce no meio do deserto

 

uma Igreja de pedra

ferindo a solidão da paisagem

 

mangas, bananas e uma aquarela

conchinhas de unicórnio e som de flauta

 

arsenal de munição para as réstias da vida


nuno g.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

pátio São Pedro

Ela veio duas vezes

em dois corpos-fêmeas

numa falava português

na outra em desconhecida língua

os eguns desfilavam entre nós

como as contas de um terço de algodão & espinho

(à felicidade não restava nenhuma importância)

o preto-velho nos chamou

e nos serviu cachaça com tira-gosto

as luzes apagadas

o silêncio das alfaias

e o desespero de não chegar ao mar e lavar teus pés



nuno g.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

as flechas do Quixeré

me atravessaram como éguas atravessam um rio
deixaram feridas que só sua saliva cicatriza
e um sangue, talhado e doce
granulado como um pariká selvagem
a primeira, me lembrou seu olhar
e quando me disseram que o meu era o mais triste do mundo
a segunda, suas coxas
e quando elas desapareceram para sempre
a terceira, sua mão na minha
buscando água salgada pra criança brincar e subir

nuno g.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O coveiro.

para Gabriela Gonçalves,


A poesia

reescreve o trauma

na órbita do corpo

 

As velas

reacendem o trauma

na órbita do túmulo

 

A cidade tenta apagar o inapagável

A família tenta esquecer o inesquecível

O vento é um caboclo

E seu hino é feito de sílabas de areia

 

A calçada

reinstala o território inabitável:

Amanhã é o único nome para descrever o passado.

 

nuno g.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A cigana de Araci

para Claudio Reis,


foi Ela

com suas vestes coloridas

e seu punhal de renda

que abriu o horizonte de águas

e trouxe o sol


em Jardim

também foi Ela

com suas vestes coloridas

e seu punhal de renda

que abriu o horizonte de fogo

e trouxe as águas

que lavam setembro

e floram os cajus


Ela

a cigana de Araci

com a morte nos olhos

e flocos de neve nas mãos.


nuno g.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Recife, 1977.

para meu pai

para minha filha


São muitas pontes

Alguma deve ligar

Meus sonhos

Aos sonhos dos mortos

 

São muitos rios

Algum deve ligar

Meus sonhos

Aos sonhos dos vivos

 

Cidade-mangue

Marco-zero

Em cada semáforo reconheço

Um estilhaço de uma vida que poderia ter sido

 

Anoitece.

Amanhã o passado amanhecerá ainda mais vivo.

E não haverá pedra que o mate.

E não haverá futuro que já não tenha acontecido.

 

nuno g.

Recife, 03 de setembro de 2021.

sábado, 14 de agosto de 2021

constelação das águas turvas, por Demetrios Galvão

na lascividade do território-carne
nos absorvemos no desejo inebriado

– trânsito nas costas-alamedas dentro da flecha de Eros –

nos perdemos no cinema, na angústia dos outros
acordamos enjoados, tontos
ou não dormimos
pensamos em quem descansa dentro da ventania
olhando o sol dissipar as águas turvas da madrugada

do outro lado da cidade antiga
nossos delírios se acomodam
entre o ronronado dos gatos e canto dos galos

por vezes nos encontramos em tempos furtivos
na varanda fugaz dos nossos peitos

– meteoros volúveis se cruzam no
parque de diversões de nossas bocas.

Demetrios Galvão (Teresina/PI), poeta, coeditor na revista Acrobata e professor.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Certidão


para meu pai.

para o professor Paulo Emílio.

 

No fundo falso da mala a certidão de nascimento.

Foi assim que conheceu Fleury.

Foi assim que conheceu Ustra.

Foi assim que aprendeu que sob tortura toda carne se trai.

Sobreviveu.

E dedicou o resto dos anos de sua vida à arte de ensinar história da arte:

caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.

A certidão de nascimento era o único portigo por onde espiava o mundo.

O resto era clandestinidade e sonhos.

Envelheceu.

E dedicou sua velhice à construção de um museu na serra da Meruoca.

O fascismo voltou.

Fleury e Ustra foram promovidos a marechais de guerra.

A carne se arrepiou ao pressentimento da violência.

Todos aqui estão mortos, sem exceção.

Vasculho o armário.

Busco papéis e carimbos.

Ouço minha primeira vó, morta, chorando.

Ouço minha segunda vó, morta, me interrogando.

Ouço os estampidos da arma de fogo.

E olho nos olhos dos homens que mataram meu pai:

eles sabiam que ele era meu pai.

Encontro a segunda certidão de nascimento.

Sinto o amor sem mácula de meu avô.

A original se perdeu para sempre.

Caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.

Os sobrenomes são os mesmos:

ainda quando reduzidos às cinzas.

No fundo do armário nenhuma certidão de nascimento

                                       nenhum portigo para espiar o mundo

Só a clandestinidade, os sonhos e a traição da carne ante a intuição da violência.

Nada de papéis. Nada de carimbos.

Só o sorriso de uma criança asseando o corpo do pai com folhas de urtiga.

Nada de choro. Nada de interrogatórios.

Só a alegria de uma criança velando o corpo do pai.

O fascismo sobreviveu.

Dediquei minha vida à arte:

caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.

Envelheci.

Quem sabe um dia suba a serra da Meruoca e enterre

no fundo falso do museu este poema.

 

Nuno g.

Toróró, 8 de agosto de 2021.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

demolição

soube que o prédio desabou

como tudo mais em nosso tempo

como os olhos do mar

como as máscaras das instituições burguesas

como os céus que os pajés sustentaram por séculos

soube que o prédio desabou

e passei toda a semana ouvindo os passos do velho

e passei sete noites sonhando com os gestos do velho

e passei a terceira tarde inteira buscando a chave entre os escombros

soube que o prédio desabou

acendi uma grande fogueira no terreiro

e devagarzinho fui queimando memórias sem serventia

 

nuno g.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Aboio

                       Para Antonio Cornejo Polar

Iansã tangeu os eguns

Iansã tangeu os eguns

Iansã tangeu os eguns

 

Meia-lua, sol de boiadeiro,

Redemoinho e azul,

O sol, dourado, se esparramando no pasto,

A montanha, ferida

e os três chicotes no interior vazio do cálice.

domingo, 18 de julho de 2021

Dicionário

Minha alma correu grandes perigos ontem à noite.

O cavaleiro Azul me estendeu a mão e me salvou.

Voltei onde nunca tinha estado.

E vi coisas que não deveria ter visto.

E, por isso, jamais as poderia esquecer.

Minha alma atravessou grandes perigos ontem à noite.

O cavaleiro Azul me ergueu do chão e fez brotar raízes dos meus pés.

Voltei. Agradeci. Não esqueço.

Abri as asas e regressei para onde sempre estive.

O cavaleiro Azul sorriu.

E minha alma girou sobre o chão do terreiro.

Vulcões, terremotos, tempestades.

Minha alma pediu socorro e o cavaleiro Azul veio.

Com sua lança prateada e sua legião de crianças e cavalos.

As coisas que vi não sei narrar.

As palavras me escorrem como o sangue do galo sacrificado.

Vulcões, terremotos, tempestades.

E o cavaleiro Azul desencantado.

Minha alma caminhou até a fonte de águas doces.

Saciou sua sede e seguiu sua fiel jornada.

 

nuno g.

Toróró, 18 de julho de 2021

sexta-feira, 16 de julho de 2021

A farofa, o dendê, os pífanos

Dentes trincados, velas acesas.

Corpo de luz, Leminski à vitrine.

Esboço de amarelo mofado.

Algodão aos pés da tropa.

Ouro em pó e distância.

Velas acesas, dentes trincados.

Amanhecer de.

Esboço de carne e pássaros.

Terra devastada e.

Corpo de luz, vitrine devassada.

Em vão, ou quase.

Como se o som da noite fosse o vento de UAKTI.

Atravessando meu corpo de pífano desregrado.

A lua no céu, sorriso do gato.

Esboço do Nada.

Ponto riscado, azul de ilha.

Esboço, arco e.

Ciranda. A gira. E o lastro.

Removo a argila.

Cavalo castanho na beira da praia.

Ele chega. Me sagra.

E a gira segue nas pancadas do mar.

 

nuno g.

Toróró, 16 de julho de 2021.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

O cálice e os três chicotes

A lei. A lei. A lei.

O galo e o enforcado.

E o meu sonho de sempre sobre o meu rosto antes do nascimento.

Refletido na água.

Cravejado com espinhos de ferro & aço.

Brilhando na noite da mata.

Em meio às estrelas e aos dentes de minha mãe.

A lei. A lei. A lei.

A primavera se abrindo com o sangue do galo.

Gotejando na carta do enforcado.

A lei. A lei. A lei.

E o meu rosto de sonho sempre antes do nascimento.

Cavalgando Eleguá, o cavalo de pedra.

E sua crina lambuzada de mel.

Entre os seios e as coxas de minha mãe.

Como se na carne uma fenda aberta à outra carne.

E no coração do mistério um abismo a outro abismo.

Gotejando nos caules de milefólio.

A lei. A lei. A lei.

O galo, o sonho, o enforcado.

Sempre.

O Azul caminhando ao meu lado.

Com sua espada de metal e a serpente.

Um olho tatuado dentro do olho.

Como a noite e o rastro das asas.

O inverno, a seca, o rio que morre e renasce.

Fogo-fátuo ante o palácio dos eguns.

Meu dicionário, meus medos interditados.

A lei. A lei. A lei.

A testa toca o chão ao som do atabaque.

Meu rosto é o mesmo de sempre.

Meu rosto antecede meu nascimento.

O sangue do galo pinga sobre o metal da espada.

A lei. A lei. A lei.

Dentro do cálice os três chicotes trabalham.

A forja Dele. A crina de mel. O silêncio do outono.

A memória do curry e do shoyu, a fonte.

Todos os quintais vão se abrindo.

Escadas e jardins e escadas e jardins e.

Não há mais esperanças:

A vida pode finalmente florescer em paz.

 

nuno g.

Toróró, 12 de julho de 2021

sexta-feira, 2 de julho de 2021

CARTA DA VOLTA, Revista Pindaíba

 Recomeça....

 

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

 

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

              Miguel Torga

 

 

Saudações pindaibísticas!

Comparsas, a esfera voltou a girar! Em  2021 a revista Pindaíba completa 18 anos. Quatro edições publicadas e uma quinta prestes a ir ao prelo.

 

Há cinco anos lançamos a quarta edição e concluímos que já bastava. A Pindaíba deveria morrer pois fazia parte de um tempo que deixou de ser. Observamos as mudanças profundas que estavam acontecendo no mundo e também ao nosso redor, no nosso reduzido universo das relações próximas e pessoais... O velho Benfica dos anos 90 e começo dos anos 2000 (quando começamos) com seus bares de esquina e butiquins; o Brasil da era Lula e PT; a América Latina com seus governos nacionalistas e populares não mais existiam. Tudo se desfazia no ar e um novo mundo, com perspectivas sombrias, se manisfestava. Portanto, entendíamos que a quinta edição seria a derradeira. Se ainda teimássemos em fazer revista deveria ser uma outra, com novas características, que refletisse os “novos tempos”...

 

Embalados pela ideia da Morte da Pindaíba, logo organizamos a nova e última edição. Nos reunimos na Praça João Gentil, decidimos sobre o caráter da coletânea de contos e poemas, deliberamos sobre as matérias, recebemos os textos, criamos o projeto gráfico e fizemos a diagramação. A ideia era lançar ainda no ano de 2017. No entanto, como não poderia deixar de ser, a vida surpeendeu: nesse ano perdemos um comparsa muito querido, pindaibeiro mor, pelo seu modo de ser e encarar a existência; Carlos Jorge encarnava, como ninguém, o espírito contestador da Pindaíba. Para além, CJ  representava esse velho Benfica onde costumávamos nos perder noites afora, esse Benfica que havia passado. Ao meu ver, CJ  é o símbolo maior, pelo menos para nós pindaibeiros, dessa era de sonhos etílicos, de brisa e madrugadas marginais.

 

A partida inesperada de nosso amigo causou um refluxo. Os encontros na praça pararam de acontecer, a produção da quinta edição passou a operar em modo “banho-maria”, a esfera parou de girar... Essa paralisia perdurou até o fim de 2019, quando ventos de entusiasmo voltoaram a embaralhar nossas cabeleiras. Reavaliamos a ideia de matar a revista e a desconsideramos totalmente. PINDAÍBA VIVE! passou a ser nosso lema, o oposto. Avaliávamos agora que a morte já havia levado seu tributo; já tínhamos perdido o CJ. A Pindaíba não cederia mais nada à senhora contratante de Caronte, pelo menos não agora. Essa retomada merecia uma celebração. Organizamos uma confraternização de fim de ano na saudosa casa do Manoel, no Benfica, com a convicção de que no primeiro semestre de 2020 a revistinha seria lançada. Ledo engano. Mais uma vez a vida veio e nos deu uma rasteira. Iniciava-se naquele ano a Pandemia do Corona Vírus, acentuada aqui no país pela  nefasta polítca do flagelo Bozonazi e as serpentes golpistas. Tivemos que estacionar a esfera mais uma vez. Algo muito mais urgente requeria nossa atenção.

 

Pois bem, após esse histórico, me permitam afirmar que uma nova oportunidade se apresenta.  O povo tá ocupando as ruas novamente, dessa vez para protestar. Na verdade a maioria dos brasileiros nunca pôde deixar as ruas. O isolamento social, segundo estatísticas, só alcançou 27%  da população. A massa de trabalhadores continuou obrigada a dividir ônibus e metrôs lotados, assim como as linhas de montagem das grandes indústrias e comércios. Devemos aproveitar essa onda de protestos para se juntar às manifestações e também, com a vontade renovada, trazer a Pindaíba à luz.

 

A revista está pronta, terá 140 páginas. Além da coletânea COLÍRIOS E DELÍRIOS de poemas e contos, reunindo 34 autores, essa edição traz: 4HQs; entrevista com o grupo cearense de teatro Pícaros; entrevista com Jonnata  Doll; matéria sobre o poeta cratense Geraldo Urano; matéria sobre a cena marginal da literautura de Natal/RN; matéria sobre a literatura independente de Teresina/PI e a tradicional seção TÔ PUTO! (os “tô puto” serão acrescidos após uma campanha de divulgação).

 

Muito é preciso fazer. Vamos começar a etapa de divulgação e campanha financeira. É necessário o engajamento de todos, pois só é possível a publicação com o empenho coletivo dos pindaibeiros.

 

Vamos novamente nos reunir  na Praça João Gentil no sábado 17/06. Todos com máscaras e mantendo  o distanciamento proporcionado pelo espaço livre da praça. Na ocasião apresentaremos o boneco impresso para que os autores possam verificar a revisão; informaremos os valores da gráfica; discutiremos as atividades de divulgação e de venda e a participação da revista nas manifestações. Quando mais próximo, informaremos horário e a pauta de discussão mais específica. Os pindaibeiros que não puderem comparecer ou que ainda não se sentem seguros em participar de atividades desse porte, podem requerer  encontros pessoais na semana seguinte para esclarecimentos e ficar a par dos informes e encaminhamentos.

 

Sem mais no momento,

Abraços e Vida Longa à Revista Pindaíba!!!

 

André Dias

Fortaleza/CE. 29 de junho de 2021

quarta-feira, 30 de junho de 2021

quando os teus olhos O reconheceram

outra vez em fuga o cavalo:

em busca de seu dono e sob o batismo de teus olhos

outra vez sua crina banhada em mel:

em busca de seu destino de metal e mais-metal

como se a cada passo no pasto

abrisse nuvens e túneis

que O tornavam mais reconhecível aos olhos que selaram seu nome.


nuno g.