sexta-feira, 11 de novembro de 2022

crônica cachoeirana.

Ignez e Santi não foram à escola.

Bernardinho todo um cavalheiro, como sempre.

Duas carteiras de camel, por favor.

E seu Ivo suspirando por uma espanhola de vinte anos atrás.

O fósforo, por gentileza.

E o taxista resmungando:

Deus é uma pessoa tão nobre que não se mete na vida de seu ninguém.

Léo sorrindo na ladeira.

Valentina sorrindo na casa de farinha.

Procurando o Come-e-Dorme com o olhar.

O cabelo todo arrumado.

O caminhão do lixo chega: 07:10.

A água da embasa nada.

As contas e ameaças de corte não atrasam.

É novembro: mês dos mortos e de Nossa Senhora D'Ajuda.

A charanga está afinada.

Os filhotes da Pina brincam na casa.

Larissa dorme.

Maria está a caminho da escola.

O cuscuz no vapor do fogo.

Escrever é destino.

Imensidão.


nuno g.

Toróró, 11/11/22

domingo, 6 de novembro de 2022

Ora-pro-nóbis

I.

quando eu crescer vou ser governadora da Bahia

quando eu crescer vou ser arquiteta, youtuber e organizadora de festa,

voltou a repetir Olívia antes da febre.


Sonhei com um morcego me mordendo a coxa numa lagoa de Salvador.

Dico punk me deu uma muda de ora-pro-nóbis.

Tia Nalva leu seus contos mais uma vez.

Maria comeu lasanha.

Conversei com o rio.

Ele me narrou histórias ciganas.

Ele me narrou a história de um anjo muito poderoso e de suas guerras.

O telefone tocou.

O telefone voltou a tocar.

Quando o suco de limão chegou eu estava quase chorando.

Meus olhos liam a dedicatória de Gleyza.

Meus olhos liam os agradecimentos de Gleyza.

Duas chamadas perdidas: 85.

Maria me lê enquanto escrevo.

Boceja, ainda em despertar.

pai, eu quero meu pai.

Um pássaro canta.

Pai, vem ver isso.

Ele ficou louco.

O muro.

Pai, vem ver isso que desilusão.

O vizinho ficou louco.

Ele está mesmo fazendo um muro.

Nós não temos muro.

Temos cerca-viva.

Plantei a muda de ora-pro-nóbis.

E desejei melhoras a Olívia.


II.


A muda, em verdade, era três.

Plantamos as três.

Não esquecer de lembrar.

Às vezes a gramática retorce destinos.

Ele me respondeu

E aí?

Só me passou o número da secretária para resolver tudo com ela

Não sei

A terceira camada era sobre aspiração humana ao inquebrantável.

E todas as lições dos metais e do underground.

É mesmo nos subterrâneos que floresce o entendimento das coisas da ordem do Sutil.

Muitas outras coisas me atravessaram.

Mas não convém falar delas aqui.

Isso não é um diário -- é um dicionário.

Um dicionário de medos imaginários enfrentando-se a uma fé inteiramente selvagem.


III.


Ofertamos flores do Curiaxito à Senhora do Rio.

Cobra-coral.


nuno g.

05/11/22

sábado, 5 de novembro de 2022

motörhead.

 I.


Sonhei que Gleizer me visitava de surpresa.

Sonhar com alegrias não é coisa nada boa, me disse dona Antônia.

A cidade engarrafada como os pensamentos na minha cabeça.

Francisca foi mordida por um mico.

Se não escrevo, enlouqueço.

Lari dorme de ressaca.

O caminhão de materiais de construção atropela a paz da manhã.

Maria come cream cracker com manteiga.

E tenta aprender a atirar de arco-e-flecha.

O dia está nublado como os pensamentos na minha cabeça.

Se não escrevo, enlouqueço.

A cidade está cheia de pessoas.

E muitas delas tem cabeças de formiga.

Sonhar com alegrias não é coisa boa, repetiu dona Antônia.

A gira não para.


II.


Ontem teve atabaques na praça.

Palavras de esperança & sorrisos.

Crianças brincando e a charanga d'Ajuda.

O brinquedo ficou na casa de Olívia.

A névoa aqui - em nossos desbotados corações.

A gira segue.


III.


A placenta de Maria tinha forma de coração e cor esbranquiçada.

Excesso de cálcio.

Excesso de tempo no útero.

O trem, os ônibus e as pessoas com cabeças de formiga engarrafaram a ponte.

Sete pães de sal e duas broas, por favor.

A fascista espanhola fugiu pra gringa.

O vizinho da frente decidiu construir um muro.

Lari desce a escada.

Maria tosse e joga no celular.

Dick, o cão, devora a ração dos gatos.

a gira, Gira.


IV.



(...)


Quer um café?

Não.

Toma um própolis.

Se eu tomar eu vomito.


(...)


Não esqueço a cigana que anteviu e nos anunciou a morte de Ian.

Quase dezembro.

As macaxeiras crescem.

As bananeiras crescem.

Os jerimuns crescem.

As laranjeiras, os limoeiros, os abacateiros crescem.

Só o baobá não resistiu.

À umidade.

Ou à ausência de uma serpente a lhe ceder chão.


(...)


Maria brinca de correr puxando uma linha para que Garfield a persiga.

É tempo de lagartas de fogo, muitas.

Como as flores de maturis dos tabuleiros cearenses.


(...)


Encontrei a agente de saúde que João mordeu semana passada.

Passa bem.

Sanhaçu.


V.


Chove.

Sobre o agora e sobre o ontem.

Sobre as coisas estranhas do agora.

Sobre as coisas estranhas de ontem.

Cada um de nós tem uma digital distinta.

literalmente, papai,

eu vejo minha digital

quando eu era pequena eu pensava que eu estava doente

por causa da digital

eu achava a digital estranha

eu via esse círculo no meu dedo e eu:

oxe!

Chove.

Sobre o agora e sobre o amanhã.

O brinquedo ficou na casa de Olívia.

Iremos lá daqui a pouco.

O que aconteceu ontem feriu.

Não lembrar de esquecer.

Às vezes a gramática traça destinos. 


VI.



Estou considerado não ir.

Quando tocou pra Senhora de Roxo você começou a chorar.

Quando tocou pra Senhora dos Raios você parou de chorar.

Maria chama no skype.

Nada atende.

A força da vida é maior que a nossa imaginação.

A razão atende a uma diminuta parcela da existência.

Belchior na vitrola.

A felicidade é uma arma quente.

É óbvio que ele não falava da felicidade.

Ele falava da poesia.

Como Camões naquele famigerado soneto.

Ele não falava do amor.

E sim da poesia.

Qualquer poema se distingue do tema sobre o qual versa.

Todo poema é sobre a poesia.

Pai, posso tirar a música pra assistir?

Pode.

O som do acendedor automático do fogão entre os pingos d'água da chuva.

Gleizer me disse: hay que desfrutar.

Sem perder o sentido do vigiai, pensei com meus botões.

A água desse rio pertence a quem me desdiz com mais carinho.

João e Night Day conversaram sobre o Viva Deus e a terra vermelha.

A cartografia e a geologia são mais úteis à poesia que a história e a antropologia.

Os celulares que batem foto são o estado terminal da arte da fotografia.

É óbvio agora que o meu encantamento pelo velho feiticeiro tem muitas camadas.

Tem broa que eu comprei pra você.

Muchas gracias!

Se quiser te passo um café.

Você fez duas xícaras com tudo isso aqui de pó?

A primeira delas tem a ver com meu avô.

Com seu semblante, sua morte e a espuma que saía de sua boca quando dentro do caixão.

A segunda tem a ver com seu destino mesmo.

De caminhar sempre sozinho e permanecer fora mesmo quando inteiramente imerso.

As outras Tempo disse ainda não ser hora de saber.

Nesse mundo tem tempo pra tudo.

E sua voz soava como a voz de Milton.

As onças são as divindades que sustentam a esperança quando não há mais esperança.

Você sabe que já vai dar duas e meia né?

Sei, termino de escrever isso aqui e vou.

Namastê.


VII.


Ao que habita a estrela cravada na pedra.

Só quem não deve, não teme.

E todos devemos.

Laroyê.


nuno g.

Toróró, 04/11/22

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

milho branco, vela acesa.

Sonhei que tomava uma cerveja.

Faz anos que não tomo cerveja.

Estava suficientemente gelada, 

mas o que me agradava é que não havia homens com cabeças de formiga.

Nem mulheres com cabeças de formiga.

Havia somente um bar vazio e tranquilo.

Com as paredes antigas de bares antigos.

Silêncio, cumplicidade, calmaria.

A paz é sempre relativa.

Envelhecer exige sabedoria.

Minhas mãos saíram do magma em ebulição.

Areia nos meus olhos.

Ventos e sonhos antigos.

Uma simples cerveja gelada.

Sem nenhum olhar pousado sobre meu corpo.

Sem nada com cabeça de formiga transitando no espaço.

Isso era realmente o que mais me agradava.

Somente um antigo bar.

Vazio, tranquilo e distante.


nuno g.

Toróró, 03 de novembro de 22,


segunda-feira, 31 de outubro de 2022

30/10/22

Manhã.


Tenho areia nos olhos.

Ossos frágeis, quebradiços.

Creio em deus e em seus intermediários.

Santos, caboclos, orixás.

Caminho no deserto desde antes da formação dos oásis.

A delicadeza é uma semente espinhosa.

Tenho areia nos olhos.

Água no interior dos dentes.

E me perco com insistência.

Creio no fogo sobre todas as coisas.

Creio no fogo dentro de todas as coisas.

Creio no fogo.

Onde habito tudo é noite.

Me alimento de restos e sou atravessado por futuros.

Tenho areia nos olhos.

Tenho areia nos ossos.

Não creio em nada além do caminho.

Não creio em nada além do deserto.

Não creio em nada que não tenha cheiro de mata.

Tenho areia nos olhos.

Ouço canções que já não mais são entoadas.

Converso com o rio.

Só Maria me faz ainda querer estar aqui.

Estar aqui e seguir.

Maria acorda e olha os três gatinhos amamentando no centro da sala.

Os acarinha, sorri e volta a dormir.

Trago mais mortos no corpo do que sementes.

Hoje é véspera de trovoada.

Maria me disse: papai, amanhã vai ser o caos.

Não existe verdade fora do ato de mastigar a terra.

Ontem a lua se pôs bonita.

Creio na lua.

Em seus ciclos e em suas sombras.

Olho o semblante dos mortos no espelho.

Eles choram.

Se curvam ante o declínio da esperança de Tempo.

Sou somente uma criança com areia nos olhos.

E esses vulcões que me nascem à pele.

Anunciam aparições e promessas.

Maria sonha e em seu sonho sou só uma criança com areia nos olhos.


Tarde.


(...)

quando a face do polegar assentou à lâmina do leitor ótico

revi as pessoas da zona rural com suas melhores roupas de domingo

                                                com seus melhores perfumes de domingo

perguntando umas às outras:

já perdeu a honra?

quando as mãos da mesária arrumaram meu dedo sobre a lâmina do leitor ótico

minhas unhas roídas ficaram demasiadamente expostas

e certa vergonha / certa aflição

veio à tona

como um golfinho que salta em direção às nuvens ou às estrelas


onde habito, habita a noite

onde habito, habita o frio

são rápidos e ligeiros como raios os passos da história se dissolvendo em pura política

e quando a história se dissolve em pura política

o reinado do terror se instaura no trono de Tempo

Maria pressentiu o caos,

a razão no corpo de L. se assustou com o cadáver que em sonho enterrara no jardim

creio no sol sobre todas as coisas

creio no sol dentro de todas as coisas

creio no sol


quando a face do polegar assentou à lâmina do leitor ótico

revi meu avô na sessão eleitoral da prefeitura

votando em cédula de papel

no coronel Adauto Bezerra

certa vergonha / certa angústia / certa aflição

e as pessoas da zona rural com a poeira avermelhada da piçarra das várzeas

                                            com suas melhores roupas de domingo

                                            com seus melhores perfumes de domingo

perguntando umas às outras:

já perdeu a honra?


(...)


Noite.


a estrela cintilou no céu.

fogos na terra.

que haja mais justiça.

que haja mais sonho e comida.

diversão & arte.


e que os fascistas todos marchem ao inferno.


nuno g.

Toróró.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Nenúfares II

para Jack Kerouac & Gary Snider,


Sonhei com Bruno lendo paradiso de Lezama Lima no quarto 217 do Overlook hotel.

Chovia muito e havia estilhaços de granadas ricocheteando por todos os lados.

Gerardo Machado, Fulgencio Batista e Golbery do Couto e Silva tomavam drinks na janela.

Sonhei com bernardinho saltando a porteira do sítio.

Sonhei com André Dias desenhando a palavra nenúfares na soleira do dicionário.

Chovia muito.

Sobre as plantações de papoula.

Sobre os cílios e as pálpebras de Neruda.

Sobre as cartas do tarot de Jodorowsky.

Sonhei com todos os meus sonhos encharcados por uma chuva de séculos.

Sonhei com o escárnio, a mentira e as infinitas perversões do ego.

Sonhei com cinzas e com armadilhas.

Sonhei com meus dois abikus em sua floresta.

Sonhei com Claudio Reis entre lírios brancos.

Sonhei com os sonhos da mulher que traz no corpo a razão.

Sonhei com a morte e com suas sedutoras artimanhas.

Sonhei com a chuva, com as granadas e com os agrimensores do Palácio dos Einhejar.

Sonhei com arquivos labirínticos e com a fé selvagem.

Sonhei com o assassinato de meu pai.

Sonhei com o suicídio de minha mãe.

Sonhei com os tapuias do Jaguaribe.

Sonhei com a chuva de mil séculos e com os erês de Tempo.

Sonhei, sonhei, sonhei...


nuno g.

Toróró, 25/10/22.


Nenúfares

Sonhei que estávamos próximos ao Bosque de Chapultepec.

Tato, Lupe e eu.

Havia formigas e latas de uma aguardente chamada el tiburón.

Não haviam deuses nem nada além de formigas.

E de pessoas com caras de formiga.

Eu ia até o banheiro mas não conseguia urinar.

Pois pessoas com cara de formiga se amontoavam no banheiro.

Num banco de praça metálico uma velha senhora de óculos lia os detetives selvagens.

Não havia mistérios nem nada.

Apenas cães metálicos e sombra de gatos cruzando a noite mexicana.

Quando acordei chovia.

Era véspera de trovoada e o sorriso de Valentina estava no meio do céu.

Como uma lua iluminando as águas que caíam como lágrimas.

E formavam o rosto de Hilda Hilst no ar.

Estávamos saudáveis, felizes e cheios de saudade.

Mas algo de nosso sangue e nossa juventude havia se esvaído.

Sonhei com Claudio Reis e Mardônio França.

E perambulávamos pela noite cachoeirana.

Como três palhaços endiabrados que recém haviam entendido.

Que em toda esquina existe a probabilidade de se encontrar uma lâmpada com um gênio engarrafado.

O despertador tocou.

Hora de acordar Maria para ir à escola.

O dia nublado. 

A recordação de Valentina sorrindo em seu dia.

Cartas de tarot espalhadas sobre o chão da casa.

E notícias do fim do mundo gotejando sobre o telhado.

Gotejando sobre os cães no terreiro e sobre o sangue e a juventude que havíamos perdido.

Maria se negava a levantar.

Papai, por que hoje você me acordou mais cedo?

Não filha, já são 05:39.

Enquanto escovava os dentes recordei do sonho com a mãe de santo tomando ayahuasca.

E as notícias do fim do mundo seguiram gotejando sobre o telhado.

Maria, finalmente, desceu as escadas.

O som de seus passos nos degraus de madeira entrava no meu corpo.

E se unia ao som de meu coração enferrujado.

A palavra que esqueci me perturbava.

Como se o dicionário ainda estivesse incompleto.

E tudo o que me trouxe até aqui se revelasse frágil e precário.

Maria escovou os dentes, penteou os cabelos, passou mel nas unhas e sorriu.

Recordei de um sonho muito antigo.

De um sonho terrível com o espírito lunar de minha mãe.

Gabriel me ligou: as crianças acordaram doente aqui.

Maria deitou no sofá.

Seguia chovendo.

E as notícias do fim do mundo estavam infiltradas em cada gota de água que caía...


nuno g.

Toróró, 25/10/22

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Seguimento.

 para Allen Ginsberg,


Sonhei com a família Pascoal e com os monges beneditinos.

Uma atmosfera de canto gregoriano.

Compramos um obi, branco.

No fogo, as águas.

Na pedra, as águas.

E nas vestes brancas todas as cores.

Sonhei com um mangue e com comida feita à base de fetos humanos.

Sonhei com um velório e um prato de ervas sobre a mesa.

Sonhei com parentes desconhecidos.

Pequenas dívidas de rua.

Treze reais na miscelânea da Faceira.

Trinta e seis reais no Mário da feira.

Haverá outra vez um tempo em que as diferenças não sejam um fardo?

Os fascistas atiraram granadas contra os federais.

Saudades de Durruti e dos carbonários.

Haverá outra vez um tempo em que o amor não traga o peso do mundo?

A poesia é a ciência das passagens.

A arte de decifrar rastros antigos de vozes quase esquecidas.

No rio, as águas.

E em seu espelho a esperança de regressar ao corpo em que nasci.


nuno g.

Toróró, 24/10/22.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Balada dos sonhos da infância.

Hoje, no mercado São Paulo.

Ou seria na farmácia Pague Menos?

A mulher me atendia ao caixa.

Usava um broche escrito:

Suicídio não é tabu.

Eu comentei, legal!

Foi do setembro amarelo?

Ela respondeu: não.

Sem pensar tornei a perguntar:

Você também tem suicidas na família?

Ela, com a naturalidade de quem nega algo evidente, não.

Quando criança tive vários sonhos que se repetiam.

Em um deles eu ia visitar um presídio.

Ao final da visita o carcereiro sempre me barrava a saída.

Eu era agora então um presidiário.

E acordava.

Nunca cheguei a saber como era a vida daquele presidiário.

Assim como não sei qual relação existe entre esse sonho e aquele broche.


nuno g.

Toróró, 13/10/22.


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

O tuaregue IV

Todas as manhãs agora chove.

São as lágrimas do Senhor lavando a terra para a semeadura dos Lírios Brancos.

Lavando o deserto.

Se não fosse árduo e difícil não haveria dor no nascer.

Ontem Ele veio.

Trazia boas notícias de longe e muita pressa no corpo.

Tem coisas que só nascem depois de acesos todos os fogos.

Seus pés deixaram uma trilha de mel.

Seguimos.


nuno g.

Toróró, 12/10/22.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O tuaregue III

Acaraú.

Rio que corre do outro lado das areias.


A fé a fio.

Amolado.

Que corta o fogo e as águas.


O que não sabe cantar / O que não sabe dançar

O que traz a doença dentro e não quer partir.


A Rainha dos Céus chorando sobre nós.

Amalá.


nuno g.

Toróró, 11/10/22. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O tuaregue II

Após a missa, os tambores.

E outra vez aquele canto noturno de deserto africano.


Maria comeu grão de bico.

Os erês brincaram com Larissa.

Acaçás.


Abriu-se a porta da capela.

Viva Santo Antônio.


Amanheceu chovendo.

E um enorme arco-íris floresceu sobre o rio.


nuno g.

Toróró, 10/10/22.

domingo, 9 de outubro de 2022

O tuaregue.

Sonhei com Milton, uma gente muita simples e uma praça chamada Bom Jardim.

Havia também um ônibus que nos levava a todos.

*  *  *

As moedas de mãos em mãos até chegar à cabaça.

Meu estômago mais revirado que de hábito.

A primeira limpeza. A segunda limpeza.

E o rio levando o que deve ser levado.

*  *  *

Desfazer laços é tarefa árdua.

Sempre à sombra o que nos acaricia ferozmente.


nuno g.

09/10/22.

 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

angústia.

Hoje mais um Yanomami foi morto a tiros.

As fronteiras da expansão colonialista seguem sob as mesmas regras de antanho.

O vale-tudo do genocídio do século XVI voltou à flor da pele da história.

Os representantes do colonialismo interno decidiram abandonar o pudor.

Assumiram abertamente o fascismo como forma política legítima.

O teatro dos arrependidos não nos comova nem nos ilusione.

Neoliberalismo econômico.

Neopentecostalismo religioso.

Racismo cultural, vulgaridade estética e pseudonacionalismo.

Todos se juntam para salvar a democracia.

Todos agora se veem obrigados a apoiar o partido dos trabalhadores.

Envergonhados e estratégicos.

Esperaram a eleição de um fascista.

Esperaram quatro anos de um governo fascista.

Esperaram o segundo turno.

Esperaram a eleição dos piores para o senado e a câmera.

Esperaram para negociar uma vez mais.

Esperaram para garantir que o governo do partido dos trabalhadores não mudará nada.

Apenas salvará o sistema das garras do fascismo.

Hoje a iminência de um conflito nuclear mundial é maior que em todas as décadas passadas.

E isso soa até esperançoso.

Quase revolucionário.

Como levantar e sair de casa num país em que 43,2% das pessoas se assume fascista?

Todos armados. Todos donos de si.

Narcisistas admirando no espelho do palácio da alvorada a imagem refletida de sua própria ignorância.

Arrotando preconceitos e má-fé.

As aldeias infestadas de pistoleiros.

As universidades acossadas pela falta de verba e por uma desconfiança de tudo que seja saber.

Os piores venceram. Os que permitiram sua vitória agora se chegam marotamente.

Talvez percebam que as forças que despertaram escapam ao seu controle.

Quando João Batista Figueiredo sancionou a lei da anistia começou a semear o hoje.

Alimentaram o Inominável décadas esbravejando atrocidades no parlamento.

Agora fica claro: era preciso ter à mão um projeto autoritário.

Caso algo desse errado sempre teriam a quem recorrer.

Recorreram.

Aqui chegamos.

Uma pequena parte é só ignorância, três por cento talvez.

O resto é isso mesmo: identidade de valores.

Fetiche militarista e ódio a tudo que remeta às memórias que nos fazem ser o que somos.

Os de Canudos tinham razão.

Os do Caldeirão também.

Nem pra guerra esse rincão parece servir, mas um dia chega.

A corda tá esticada.

Aqui e na Ucrânia.

Estamos todos doentes, faz tempo.

Enquanto houver fé, terreiro e poesia haverá esperança.

Mais cada vez temos menos fé, menos terreiro e menos poesia.

Tudo é negócio e no mundo dos negócios outra vez vale-tudo.

Como no século XVI. 

Conquistadores e bandeirantes.

Já esquecemos o estardalhaço que foi quando pixaram a estátua do Borba Gato?

Já esquecemos o vigor da nossa polícia defendendo os relógios da globo nos 500 anos?

Hoje o país acorda com mais armas e menos livros.

Universidades ameaçadas de fecharem por não poder pagar conta de água e de luz.

Aldeias indígenas invadidas por garimpeiros e pistoleiros.

Agronegócio não é ecológico, é óbvio e ululante.

No século XVI se debatia o direito à escravidão, hoje também.

No século XVI se discutia se os outros tinham alma, hoje também.

A classe média se move atarantada.

Os setores algo esclarecidos das elites tem esperança.

Eleger o partido dos trabalhadores em condições tais que não possa governar.

Refém do agronegócio.

Refém dos banqueiros.

Refém da miséria moral e estética da massa evangélica.

Refém de si mesmo e de sua política de alianças perpétuas e negociações espúrias.

É só mais um capítulo de um longo massacre.

Haverão outros, caso a hecatombe nuclear não se concretize.

Aqui na matéria, com a visão turva como é toda visão da matéria.

Parece mesmo ser o fim de alguma coisa que não sabemos nomear.

Todo fim é também um começo.

Assim como toda morte é um nascimento.

A democracia morreu pela sua própria incapacidade de isolar os que a ameaçavam.

A tolerância aos intolerantes nos trouxe até aqui.

Talvez esteja próximo o tempo em que o céu desabará sobre nossas cabeças.

Que neste tempo não haja anistia, nem esquecimento.

E que os que estão nesta guerra há cinco séculos nos ensinem a sobreviver e a manejar as armas.


nuno g.

Toróró, 07/10/22.



quarta-feira, 5 de outubro de 2022

devoção II

para Janaína, Maria Alice e Ian,




Ele veio mais uma vez.
Levou Tempestade, seu cavalo.
O sol amarelou o mundo.
O fascismo fazendo ferver a terra.
a jangada que voa no mar
voa no meu coração

As águas do Jaguaribe são sim as águas de todos os rios.
Ele veio uma vez mais.
Para não esquecermos que a terra que pisamos é cemitério indígena.
E que quando as onças cantam futuro e passado se tornam sinônimos.
Ele veio e disse: desconfiem.
Que o neocolonialismo seja sinônimo de neofascismo assusta.
Só quem deseja matar uma vez mais os mortos não sente temor e ódio.
Nós estamos vivos.
Conectados ao sangue tapuia que corre naquele rio.
As águas do Jaguaribe são sim o sangue que corre nas minhas veias.
Ele veio. O sol brilhou majestoso.
Tempestade se foi.
O galo também.
Quando eu morrer se escreva à lápide com a tinta do meu sangue:
a morte de meus pais não foi em vão
e que a jangada siga singrando entre o mar de constelações...



nuno g.
Toróró, 04/10/22

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Devoção.

 para Mardônio França & Claudio Reis,


Ele veio cedo - muito cedo.

Outra vez em seu Ivo - entre um menor e um winston.

A voz entre cinzas, neblina e outras sílabas.

Teu irmão te precisa.

Depois de um longo e prolongado silêncio.

João matou um galo.

O fascismo passou no teste - a ilusão mostrou que tem poder.

Outra vez em seu Ivo - entre um menor e um winston.

O som do pássaro na gaiola.

O som do rádio.

Estórias de sexo & dinheiro.

A fruta só dá no tempo.

Ele veio cedo outra vez.

Levou um galo.

Trouxe notícias nada boas.

Veio recordar não deixar esquecer.

Que esse chão é nosso.

O mensageiro das asas nos pés.

O menino das mil travessuras.

Veio recordar que o fascismo é a pior das ilusões.

Que a matéria nos ofusca a visão.

Que o Senhor da Vida é também o Senhor da Morte.

E que a palha, o ar, o fogo e as águas estão unidas no Tempo.


nuno g.

Toróró, 04/10/22.

sábado, 1 de outubro de 2022

sonhos

Sonhei com Inaê três vezes.

Na lua seguinte sonhei com os guardiões de Tempo:

sustentando as colunas do Astral.

Umas luas antes sonhei com Ernesto e seu Caminho Amarelo.

Quando acordei havia uma cobra de duas cabeças em casa.

Dino a atalhou atrás do armário branco.

A esperança e a morte são boas amigas.

Na estrada os fascistas trocavam sorrisos como se o amanhã lhes pertencesse.

Sonhei com Benedito e Maria.

Eles se banhavam no rio enquanto as onças uivavam na serra.

Um gato deitou no meu colo e juntos cruzamos a madrugada.

Seu pelo era macio e suas orelhas eram espetadas.

Sonhei com Inaê três vezes.

Nas três ela era uma senhora muita velha.

Coberta de flores roxas e lama de mangue.

As canções do motorhead me recordam muitas coisas.

Olhar as juremas floridas espanta tristezas.

Feridas servem para saber que estamos vivos.

O fascismo nos ensina a desconfiar de amabilidades.

Sonhei com Inaê três vezes.

Em outra lua sonhei com o Senhor da Justiça.

Ele trazia às mãos uns lírios brancos da Mãe d'água.

Devolvemos a cobra de duas cabeças ao mato.

E quando acordei o dinossauro não estava mais na sala.


nuno g.

Toróró, 01/10/22.


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Iluminura II

As juremas floresceram.

Cintilante invadiu a roça dos sonhos para comer os pés de macaxeira.

Os cães latiram e despertaram Moura.

Tia Norma, perdida no poço das onças, me pedia para lhe guiar pelo Caminho Amarelo de Ernesto.

Ignez chegou, Maria partiu: foram para a escola outra vez.

Botei água pro café, tomei um rapé, acendi um cigarro.

E sorri pensando que todos os sonhos que não consigo lembrar estão reunidos em algum lugar.


nuno g.

Toróró, 29/09/22. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

iluminura

Tia Neuza fez aniversário:

noventa  e uma primaveras.

Pina pariu:

três lindos gatos alvinegros.

O fascismo seguiu mordendo nossos calcanhares:

a razão burocrática também.

Choveu.

Maria fez prova de geografia.

Comemos feijão com pirão.

A lua, amarela, se pôs pontualmente às oito horas na serra de Muritiba.

Maria comeu macarrão.

Com tomates, pimentão, ervilhas e champignons em conserva.

O vento Aracati veio até aqui.

De jangada até o Montecristo.

Guiado pela alma do Jacaré, o pescador.

Depois de saveiro, pelo Paraguassú.

Acariciou a Pedra da Baleia.

E se foi, cantando:

como costumam cantar os ventos que atravessam as peles de Tempo.


nuno g.

Toróró, 28 de setembro de 2022.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

A morte e a morte de Tempestade

Tempestade morreu: regressou às terras de seu dono.

De onde nunca desejou ter saído.

A cadelinha de Ignez também morreu.

Antes de morrer saiu fogo de seus olhos.

Uma flor em chamas.

Também o cavalo do caçador se foi.

Três mortes antes do amanhecer.

Na floresta dos sonhos uma grande festa.

Aqui na terra o pesadelo fascista.

Tempestade sabia muitas coisas.

Entre elas o caminho dos currais velhos de cor.

O cavalo do caçador seguiu a flecha do Velho.

Ontem me narraram três sonhos.

Hoje me narraram três mortes.

A fogueira segue acesa na encruzilhada.

Dos três nomes que possuíram o corpo de Tempestade.

Foi este último que o acompanhou à partida.

O fascismo não nos fará esquecermos o que não somos.

Nem será capaz de deter nosso caminho em direção ao que podemos ser.

Tempestade sabia muitas coisas.

Na lua cavalga Hermenegildo.

Cleonice traz entre os dedos uma esperança verde.

Em meio a neblina, Tempo sorri.

E o cortejo de encantados segue entoando seus cânticos febris.


nuno g.

Toróró, 27/09/22

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

sonhos.

banhos, serpentes, eguns.

ruas estreitas e muitas águas.

os fascistas voltaram ao poder na Itália.

a fogueira segue acesa na encruzilhada.


nuno g.

Toróró, 26/09/22.


domingo, 25 de setembro de 2022

cemitério indígena.

era uma vez.

ossos & penas debulhados.

entre grãos de nada.

e camadas e camadas de esquecimento.

era uma vez.

um chão onde antes dançavam os tapuias.

onde antes se fartavam de alegria corpos e corações.

era uma vez uma menina.

com um matulão de sonhos.

e um candeeiro de larva vulcânica.

era uma vez a morte.

e a chegada dos nossos.

com suas armas e sua ignorância.

e seu deus esfomeado de ouro e prata.

era uma vez um futuro.

ossos & penas debulhados.

entre grãos de nada e eternidade.

entre chispas de fogo fátuo e desmemoria.

onde não dançavam corpos tristes e corações vazios.

era uma vez um recém-renascido.

andando entre arranha-céus e um deslumbrante céu sem nuvens.

banhando-se num rio de águas antigas.

ouvindo onças imortais.

embalando-se nas redes de Tempo.

entre-nuvens. entre-árvores. entre forasteiros-familiares.

era uma vez um sonho.

entre pontes e fragrâncias.

com uma saudade do mar: verde e absoluto.

era uma vez cães que latiam e latiam sem parar.

ossos & penas debulhados num chão indígena.

e uma leve esperança nas mãos que guiam a passagem.

era uma vez um guerreiro que guerreava com delicadeza e suavidade.

era uma vez um fogo inextinguível.

era uma vez

era uma vez

era uma vez...


nuno g.

Toróró, 25/09/22.

sábado, 24 de setembro de 2022

chuva.

Hermenegildo cruzou meu sonho a trote.
Tempestade cintilava.
Pina pariu.
Tiros em Divinópolis: onde antes só a poesia primorosa de Adélia.

*  *  *

O corpo-água e a história do menino afogado.
O corpo-fogo e a história das chamas e labaredas.
A pedra, o sorriso e a névoa.
Nossos corpos em pedaços ou a história como mapa.
Artefato caseiro que explode a procissão dos dias.

*  *  *

Não esqueço e sigo.
No rumo do horizonte.
Estrada que trilhou Cleonice.
Antes de receber a estrela e a farda.

*  *  *

Esmeralda veio na linha do mar.
Aos pés do ferreiro da mata assentou seu ponto e se firmou.
Arco-íris no céu, serpente na terra.
Celebrar os mortos é apascentar o que nos ameaça.
Entre o Nada e o Nada muitas coisas se movem.
As pétalas das aves de arribaçãs são promessas de mais-vida.

*  *  *

Um vaso de violetas roxas aos pés do pescador.
Coroa-de-frade no ori da casa.
Hermenegildo, Cleonice, Tempestade.
Esmeralda é sereia da linha do mar.
Esmeralda é devoção, alfazema e passagem.

Tudo passa.
O raio fulminante do jaguar nos atravessa.
Entre as águas e o fogo, areia.
Machado à beira-mar.

nuno g.
Toróró, 24/09/22.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

viernes entre nuvens.

As oiticicas não pegaram.

*  *  *

A carne também se amacia.

Igualmente ao espírito.

*  *  *

O futuro está atrás.

O passado à frente.

As batatas-doces sim vingaram.

E o candeeiro seguiu cumprindo seu intuito.

Nos lembrando que à nossa volta faz escuro.

Recordando que cura e perdão não são estações, são caminhos.

Ainda quando isso queira dizer acender feridas necessárias.

Ou mesmo que a nossa limitada percepção não nos permita mais escrever com nuvens.


nuno g.

toróró, 23/09/22.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

miércoles de sol.

para Sergio Mondragón,

Maria Luísa sonhou com um palácio.
Cheio de flores.
Verdes, azuis e rosas.

*  *  *

Bernardo - gritaram Inês, Maria e Santiago.
No exato instante em que o sol nascia.

*  *  *

Enquanto buscávamos a forma animal de nossa alma.
Tempo brincava de esconder-revelar e semear.

*  *  *

A saia branca girou no terreiro.
Não era sonho - era futuro que já ocorreu.

*  *  *

Muita névoa.
Óleo vazando da caixa de marcha.
João perseguindo a própria liberdade.

*  *  *

Na floresta você é o jaguar.
E as onças criaram asas e seguiram seu voo. 

*  *  *

Um Vento chamado Aracati percorreu nossas entranhas mais uma vez.
Sob o Machado, a luz áspera e o corpo sem corpo da salamandra do fogo.

*  *  *

Enquanto Tempo, em forma de Sussuarana, brincava.
Esconder-revelar, o palácio da Rainha da Floresta.
Suas flores semeadas e suas fogueiras sempre acesas.

*  *  *

No céu azul da floresta, o Gavião. 
E no chão, a Serpente.
Com suas plumas de mil cores.
Entrançada à saia branca.

*  *  *

Aracati, o Vento - arrastou ao sal o que já não servia mais.

nuno g.
Toróró, 21, setembro, 22.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

o sonho do cego do Caquende

até os cegos te contam os sonhos?

*  *  *

Formou-se e se viu obrigada, por falta de trabalho, à mudar para Minas.

Chorava. Chorava. Chorava.

Morava no Guarany - que todos, nessa cidade, sabem onde é.

Que todos sabem a Quem pertence.

*  *  *

O excesso de umidade apodreceu as raízes do Baobá.

Ou talvez tenha sido mesmo a ausência de uma serpente enrodilhada em veneração.

*  *  *

Claudio nos lembrou do aniversário do mateus Cachoeira.

Foi Tempo quem me mandou substituir diário por dicionário.

Saber menos. Confiar mais. Seguir.


nuno g.

Toróró, 16/09/22.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

meu avô.

gosto de olhar as árvores crescerem.
em silêncio.
gosto de ouvir as árvores crescerem.
deitado à rede.
vez ou outra um passarinho rompe o silêncio.
é como se meu avô me visitasse.
nessas horas meu pensamento se desgarra da distração onde vive.
e quase toca algo de matéria.
passarinho avoa, meu avô se vai.
e meu pensamento volta à distração onde vive.
gosto do nada e de todas as coisas que vivem dentro do nada.
tenho horror à palavra que só existe em representação.
tenho horror à palavra que é seta apontando pra fora.
por isso uma das minhas palavras favoritas é víscera.
também gosto de amarelo que quando se junta com caminho sempre me lembra Ernesto.
e todas as lonjuras onde nossos passos teriam tocado se ele não partisse tão antes.
gosto de pensar que um dia tudo isso passa.
essas árvores vão ter virado floresta.
e meu corpo vai estar sob esta terra.

*  *  *

gosto de pensar que já vivi aqui outras vezes.
e que algum dia renascerei entre essas pedras que amo.
e esse rio será águas límpidas.
serei aquele pássaro e o homem deitado na rede será meu avô.
ele me ouvirá cantar e o meu canto o salvará mais uma vez.

nuno g.
toróró, 14 de setembro de 22.

domingo, 11 de setembro de 2022

as três estrelas.

para Larissa Gonçalves, Bruno Gonçalves e Maria Alice Gonçalves 


Foi uma cigana que me disse:

meu filho vai enfrentar demanda difícil,

mas vai vencer.

Três anos depois a mesma cigana.

Batendo fotos no estacionamento de um centro comercial.

Nos guardamos na casa de uma filha das águas doces.

E vimos a lua de prata e fino entendimento.

Os aviões fazendo a volta antes de zarpar ao sul.

E o som do mar ecoando no espelho de Tempo.

A voz de Milton ainda no corpo.

A voz de Deus.

A voz de Miguel, o Archanjo.

A voz de Yauaretê. 

A voz de Iararana. 

A voz da Sussuarana.

A voz do jaguar encantado.

A voz dos sonhos e da infância.

A voz das onças e de Aracati.

Dormimos num motel.

Mas não fizemos nada do que se espera daqueles que dormem em motéis.

Dormimos apenas.

E eu não pude recordar dos sonhos que tive aquela noite.

Menos ainda esquecer quão importante eles eram.

Escutei os sonhos dela.

Sobre carros, avós e confirmação.

Obrigado Milton.

Obrigado Cigana.

Obrigado povo das águas.

Em tempos de dependência e morte.

Só sobreviverá o que for amor.

O resto será já cinzas e esquecimento.

Quando as três estrelas iluminarem outra vez a escama da praia.

O resto será já passagem feita.

Ex-voto. Ex-corpo. Ex-memória-da-escuridão.

A voz de Milton. O trem de ferro.

As palavras rearranjadas de forma a expressar uma imensurável amplidão.

Obrigado Milton.

Eles todos passarão.

Você não. Você nunca.

A voz de Dom Pedro Casaldáliga.

No quilombo. Na aldeia. No terreiro.

Nas três estrelas que iluminam as ruínas dessa nação.

A voz do Jequitinhonha.

A voz do Araguaia.

A voz do Jaguaribe.

Eles todos passarão.

Sua voz não.


nuno g.

Toróró, 11/09/22

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

cambono II

na curva da  estrada, à noite, o cavalo de Hermenegildo cintila.

*  *  *

as promessas do sol ressuscitam à voz do Deus da Guerra.

*  *  *

samsara não é uma palavra, é uma dança que nos ensina.

*  *  *

rios e serpentes, montanhas e corpos esquartejados.

*  *  *

longe daqui uma aranha tece o Destino.

estamos sempre em outro lugar e o que somos será sempre impronunciável.


nuno g.

toróró, 09/09/22.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

cambono.

Sonhei com Dick, o cão.

Ele estava desplumado e triste.

Como um rio ante as represas que o impedem de chegar ao mar.

*  *  *

No sonho também havia outras coisas que não consigo lembrar.

As coisas que realmente interessam estão sempre em outro lugar.

Como as lágrimas que só afloram quando a distração nos leva a sentir o esquecido.

*  *  *

Em outro sonho eu cavava uma cova.

E quanto mais eu cavava menos espaço vazio havia.

Meu corpo superava em matéria o vácuo que minhas mãos lhe destinavam.

*  *  *

Cleonice foi coroada Senhora e Madrinha.

Por um instante senti que poderia alcançar alguma compreensão.


nuno g.

Toróró, 08/setembro/22.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

a báscula do julgamento III

Garfield se entrelaça às nossas pernas como um cipó na árvore de Tempo.
Hermenegildo segue passando todas as tardes montado em seu cavalo.
Tempestade pasta e nos guarda do abismo.

*  *  *

Perdão e cura não são estações, são caminhos.

*  *  *

Lírios brancos em sonhos cheios de urgências.

*  *  *

Onde mais andaria o Cristo senão entre os famélicos?
Qual força seria suficiente para impedir o rio de chegar ao mar?
Dino caça. Pina dorme. Dick passeia.

*  *  *

As flores roxas de São Miguel semeiam o horizonte.

nuno g.
Toróró, setembro de 2022.

domingo, 4 de setembro de 2022

a báscula do julgamento II

A procissão marchava dividida em duas fileiras.

Eles haviam desaprendido a língua portuguesa.

Caminhavam em silêncio.

Apenas o som dos passos sobre os irregulares paralelepípedos.

*  *  *

Maria me abraçou à sombra do pé de cacau.

*  *  *

Os maracás tocaram com força e intensidade.

As chamadas foram entoadas com firmeza.

Cleonice se ergueu e cruzou o Azul e o Branco até a mesa do centro.

*  *  *

Recebeu a graça do Tucum e a benção da Rainha.

O sol, a lua e as estrelas brilharam.

As varas do caule de milefólio foram consultadas.

*  *  *

Maria me abraçou.

A luz invadiu o quarto.

Enquanto os encantados dançavam ao redor das brasas que resistiram à madrugada.


nuno g.

toróró, domingo de 2022.


sábado, 3 de setembro de 2022

a báscula do julgamento.

Judite desapareceu.

Stella se matou.

Hermenegildo segue passando todas as tardes em seu cavalo.

*  *  *

papai, cadê as três estrelas que a lari me deu?

E os seus lábios se moveram pronunciando sílaba-a-sílaba o conto uruguayo.

*  *  *

Nunca encontramos o corpo.

Nem os filhotes.

Os jerimuns brotaram.

Entre as juremas e o mar.

*  *  *

Alguma tosse povoando o inverno de setembro.

A cidade girando sobre si mesma como um pião.

*  *  *

Cuscuz com ovos e um sonho qualquer.

Na desimportância de uma distração a manhã se consumindo.

E os tomates avermelhando a horta.


nuno g.

Toróró, sábado de 2022.