quarta-feira, 12 de outubro de 2022

O tuaregue IV

Todas as manhãs agora chove.

São as lágrimas do Senhor lavando a terra para a semeadura dos Lírios Brancos.

Lavando o deserto.

Se não fosse árduo e difícil não haveria dor no nascer.

Ontem Ele veio.

Trazia boas notícias de longe e muita pressa no corpo.

Tem coisas que só nascem depois de acesos todos os fogos.

Seus pés deixaram uma trilha de mel.

Seguimos.


nuno g.

Toróró, 12/10/22.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O tuaregue III

Acaraú.

Rio que corre do outro lado das areias.


A fé a fio.

Amolado.

Que corta o fogo e as águas.


O que não sabe cantar / O que não sabe dançar

O que traz a doença dentro e não quer partir.


A Rainha dos Céus chorando sobre nós.

Amalá.


nuno g.

Toróró, 11/10/22. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O tuaregue II

Após a missa, os tambores.

E outra vez aquele canto noturno de deserto africano.


Maria comeu grão de bico.

Os erês brincaram com Larissa.

Acaçás.


Abriu-se a porta da capela.

Viva Santo Antônio.


Amanheceu chovendo.

E um enorme arco-íris floresceu sobre o rio.


nuno g.

Toróró, 10/10/22.

domingo, 9 de outubro de 2022

O tuaregue.

Sonhei com Milton, uma gente muita simples e uma praça chamada Bom Jardim.

Havia também um ônibus que nos levava a todos.

*  *  *

As moedas de mãos em mãos até chegar à cabaça.

Meu estômago mais revirado que de hábito.

A primeira limpeza. A segunda limpeza.

E o rio levando o que deve ser levado.

*  *  *

Desfazer laços é tarefa árdua.

Sempre à sombra o que nos acaricia ferozmente.


nuno g.

09/10/22.

 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

angústia.

Hoje mais um Yanomami foi morto a tiros.

As fronteiras da expansão colonialista seguem sob as mesmas regras de antanho.

O vale-tudo do genocídio do século XVI voltou à flor da pele da história.

Os representantes do colonialismo interno decidiram abandonar o pudor.

Assumiram abertamente o fascismo como forma política legítima.

O teatro dos arrependidos não nos comova nem nos ilusione.

Neoliberalismo econômico.

Neopentecostalismo religioso.

Racismo cultural, vulgaridade estética e pseudonacionalismo.

Todos se juntam para salvar a democracia.

Todos agora se veem obrigados a apoiar o partido dos trabalhadores.

Envergonhados e estratégicos.

Esperaram a eleição de um fascista.

Esperaram quatro anos de um governo fascista.

Esperaram o segundo turno.

Esperaram a eleição dos piores para o senado e a câmera.

Esperaram para negociar uma vez mais.

Esperaram para garantir que o governo do partido dos trabalhadores não mudará nada.

Apenas salvará o sistema das garras do fascismo.

Hoje a iminência de um conflito nuclear mundial é maior que em todas as décadas passadas.

E isso soa até esperançoso.

Quase revolucionário.

Como levantar e sair de casa num país em que 43,2% das pessoas se assume fascista?

Todos armados. Todos donos de si.

Narcisistas admirando no espelho do palácio da alvorada a imagem refletida de sua própria ignorância.

Arrotando preconceitos e má-fé.

As aldeias infestadas de pistoleiros.

As universidades acossadas pela falta de verba e por uma desconfiança de tudo que seja saber.

Os piores venceram. Os que permitiram sua vitória agora se chegam marotamente.

Talvez percebam que as forças que despertaram escapam ao seu controle.

Quando João Batista Figueiredo sancionou a lei da anistia começou a semear o hoje.

Alimentaram o Inominável décadas esbravejando atrocidades no parlamento.

Agora fica claro: era preciso ter à mão um projeto autoritário.

Caso algo desse errado sempre teriam a quem recorrer.

Recorreram.

Aqui chegamos.

Uma pequena parte é só ignorância, três por cento talvez.

O resto é isso mesmo: identidade de valores.

Fetiche militarista e ódio a tudo que remeta às memórias que nos fazem ser o que somos.

Os de Canudos tinham razão.

Os do Caldeirão também.

Nem pra guerra esse rincão parece servir, mas um dia chega.

A corda tá esticada.

Aqui e na Ucrânia.

Estamos todos doentes, faz tempo.

Enquanto houver fé, terreiro e poesia haverá esperança.

Mais cada vez temos menos fé, menos terreiro e menos poesia.

Tudo é negócio e no mundo dos negócios outra vez vale-tudo.

Como no século XVI. 

Conquistadores e bandeirantes.

Já esquecemos o estardalhaço que foi quando pixaram a estátua do Borba Gato?

Já esquecemos o vigor da nossa polícia defendendo os relógios da globo nos 500 anos?

Hoje o país acorda com mais armas e menos livros.

Universidades ameaçadas de fecharem por não poder pagar conta de água e de luz.

Aldeias indígenas invadidas por garimpeiros e pistoleiros.

Agronegócio não é ecológico, é óbvio e ululante.

No século XVI se debatia o direito à escravidão, hoje também.

No século XVI se discutia se os outros tinham alma, hoje também.

A classe média se move atarantada.

Os setores algo esclarecidos das elites tem esperança.

Eleger o partido dos trabalhadores em condições tais que não possa governar.

Refém do agronegócio.

Refém dos banqueiros.

Refém da miséria moral e estética da massa evangélica.

Refém de si mesmo e de sua política de alianças perpétuas e negociações espúrias.

É só mais um capítulo de um longo massacre.

Haverão outros, caso a hecatombe nuclear não se concretize.

Aqui na matéria, com a visão turva como é toda visão da matéria.

Parece mesmo ser o fim de alguma coisa que não sabemos nomear.

Todo fim é também um começo.

Assim como toda morte é um nascimento.

A democracia morreu pela sua própria incapacidade de isolar os que a ameaçavam.

A tolerância aos intolerantes nos trouxe até aqui.

Talvez esteja próximo o tempo em que o céu desabará sobre nossas cabeças.

Que neste tempo não haja anistia, nem esquecimento.

E que os que estão nesta guerra há cinco séculos nos ensinem a sobreviver e a manejar as armas.


nuno g.

Toróró, 07/10/22.



quarta-feira, 5 de outubro de 2022

devoção II

para Janaína, Maria Alice e Ian,




Ele veio mais uma vez.
Levou Tempestade, seu cavalo.
O sol amarelou o mundo.
O fascismo fazendo ferver a terra.
a jangada que voa no mar
voa no meu coração

As águas do Jaguaribe são sim as águas de todos os rios.
Ele veio uma vez mais.
Para não esquecermos que a terra que pisamos é cemitério indígena.
E que quando as onças cantam futuro e passado se tornam sinônimos.
Ele veio e disse: desconfiem.
Que o neocolonialismo seja sinônimo de neofascismo assusta.
Só quem deseja matar uma vez mais os mortos não sente temor e ódio.
Nós estamos vivos.
Conectados ao sangue tapuia que corre naquele rio.
As águas do Jaguaribe são sim o sangue que corre nas minhas veias.
Ele veio. O sol brilhou majestoso.
Tempestade se foi.
O galo também.
Quando eu morrer se escreva à lápide com a tinta do meu sangue:
a morte de meus pais não foi em vão
e que a jangada siga singrando entre o mar de constelações...



nuno g.
Toróró, 04/10/22

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Devoção.

 para Mardônio França & Claudio Reis,


Ele veio cedo - muito cedo.

Outra vez em seu Ivo - entre um menor e um winston.

A voz entre cinzas, neblina e outras sílabas.

Teu irmão te precisa.

Depois de um longo e prolongado silêncio.

João matou um galo.

O fascismo passou no teste - a ilusão mostrou que tem poder.

Outra vez em seu Ivo - entre um menor e um winston.

O som do pássaro na gaiola.

O som do rádio.

Estórias de sexo & dinheiro.

A fruta só dá no tempo.

Ele veio cedo outra vez.

Levou um galo.

Trouxe notícias nada boas.

Veio recordar não deixar esquecer.

Que esse chão é nosso.

O mensageiro das asas nos pés.

O menino das mil travessuras.

Veio recordar que o fascismo é a pior das ilusões.

Que a matéria nos ofusca a visão.

Que o Senhor da Vida é também o Senhor da Morte.

E que a palha, o ar, o fogo e as águas estão unidas no Tempo.


nuno g.

Toróró, 04/10/22.

sábado, 1 de outubro de 2022

sonhos

Sonhei com Inaê três vezes.

Na lua seguinte sonhei com os guardiões de Tempo:

sustentando as colunas do Astral.

Umas luas antes sonhei com Ernesto e seu Caminho Amarelo.

Quando acordei havia uma cobra de duas cabeças em casa.

Dino a atalhou atrás do armário branco.

A esperança e a morte são boas amigas.

Na estrada os fascistas trocavam sorrisos como se o amanhã lhes pertencesse.

Sonhei com Benedito e Maria.

Eles se banhavam no rio enquanto as onças uivavam na serra.

Um gato deitou no meu colo e juntos cruzamos a madrugada.

Seu pelo era macio e suas orelhas eram espetadas.

Sonhei com Inaê três vezes.

Nas três ela era uma senhora muita velha.

Coberta de flores roxas e lama de mangue.

As canções do motorhead me recordam muitas coisas.

Olhar as juremas floridas espanta tristezas.

Feridas servem para saber que estamos vivos.

O fascismo nos ensina a desconfiar de amabilidades.

Sonhei com Inaê três vezes.

Em outra lua sonhei com o Senhor da Justiça.

Ele trazia às mãos uns lírios brancos da Mãe d'água.

Devolvemos a cobra de duas cabeças ao mato.

E quando acordei o dinossauro não estava mais na sala.


nuno g.

Toróró, 01/10/22.


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Iluminura II

As juremas floresceram.

Cintilante invadiu a roça dos sonhos para comer os pés de macaxeira.

Os cães latiram e despertaram Moura.

Tia Norma, perdida no poço das onças, me pedia para lhe guiar pelo Caminho Amarelo de Ernesto.

Ignez chegou, Maria partiu: foram para a escola outra vez.

Botei água pro café, tomei um rapé, acendi um cigarro.

E sorri pensando que todos os sonhos que não consigo lembrar estão reunidos em algum lugar.


nuno g.

Toróró, 29/09/22. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

iluminura

Tia Neuza fez aniversário:

noventa  e uma primaveras.

Pina pariu:

três lindos gatos alvinegros.

O fascismo seguiu mordendo nossos calcanhares:

a razão burocrática também.

Choveu.

Maria fez prova de geografia.

Comemos feijão com pirão.

A lua, amarela, se pôs pontualmente às oito horas na serra de Muritiba.

Maria comeu macarrão.

Com tomates, pimentão, ervilhas e champignons em conserva.

O vento Aracati veio até aqui.

De jangada até o Montecristo.

Guiado pela alma do Jacaré, o pescador.

Depois de saveiro, pelo Paraguassú.

Acariciou a Pedra da Baleia.

E se foi, cantando:

como costumam cantar os ventos que atravessam as peles de Tempo.


nuno g.

Toróró, 28 de setembro de 2022.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

A morte e a morte de Tempestade

Tempestade morreu: regressou às terras de seu dono.

De onde nunca desejou ter saído.

A cadelinha de Ignez também morreu.

Antes de morrer saiu fogo de seus olhos.

Uma flor em chamas.

Também o cavalo do caçador se foi.

Três mortes antes do amanhecer.

Na floresta dos sonhos uma grande festa.

Aqui na terra o pesadelo fascista.

Tempestade sabia muitas coisas.

Entre elas o caminho dos currais velhos de cor.

O cavalo do caçador seguiu a flecha do Velho.

Ontem me narraram três sonhos.

Hoje me narraram três mortes.

A fogueira segue acesa na encruzilhada.

Dos três nomes que possuíram o corpo de Tempestade.

Foi este último que o acompanhou à partida.

O fascismo não nos fará esquecermos o que não somos.

Nem será capaz de deter nosso caminho em direção ao que podemos ser.

Tempestade sabia muitas coisas.

Na lua cavalga Hermenegildo.

Cleonice traz entre os dedos uma esperança verde.

Em meio a neblina, Tempo sorri.

E o cortejo de encantados segue entoando seus cânticos febris.


nuno g.

Toróró, 27/09/22

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

sonhos.

banhos, serpentes, eguns.

ruas estreitas e muitas águas.

os fascistas voltaram ao poder na Itália.

a fogueira segue acesa na encruzilhada.


nuno g.

Toróró, 26/09/22.


domingo, 25 de setembro de 2022

cemitério indígena.

era uma vez.

ossos & penas debulhados.

entre grãos de nada.

e camadas e camadas de esquecimento.

era uma vez.

um chão onde antes dançavam os tapuias.

onde antes se fartavam de alegria corpos e corações.

era uma vez uma menina.

com um matulão de sonhos.

e um candeeiro de larva vulcânica.

era uma vez a morte.

e a chegada dos nossos.

com suas armas e sua ignorância.

e seu deus esfomeado de ouro e prata.

era uma vez um futuro.

ossos & penas debulhados.

entre grãos de nada e eternidade.

entre chispas de fogo fátuo e desmemoria.

onde não dançavam corpos tristes e corações vazios.

era uma vez um recém-renascido.

andando entre arranha-céus e um deslumbrante céu sem nuvens.

banhando-se num rio de águas antigas.

ouvindo onças imortais.

embalando-se nas redes de Tempo.

entre-nuvens. entre-árvores. entre forasteiros-familiares.

era uma vez um sonho.

entre pontes e fragrâncias.

com uma saudade do mar: verde e absoluto.

era uma vez cães que latiam e latiam sem parar.

ossos & penas debulhados num chão indígena.

e uma leve esperança nas mãos que guiam a passagem.

era uma vez um guerreiro que guerreava com delicadeza e suavidade.

era uma vez um fogo inextinguível.

era uma vez

era uma vez

era uma vez...


nuno g.

Toróró, 25/09/22.

sábado, 24 de setembro de 2022

chuva.

Hermenegildo cruzou meu sonho a trote.
Tempestade cintilava.
Pina pariu.
Tiros em Divinópolis: onde antes só a poesia primorosa de Adélia.

*  *  *

O corpo-água e a história do menino afogado.
O corpo-fogo e a história das chamas e labaredas.
A pedra, o sorriso e a névoa.
Nossos corpos em pedaços ou a história como mapa.
Artefato caseiro que explode a procissão dos dias.

*  *  *

Não esqueço e sigo.
No rumo do horizonte.
Estrada que trilhou Cleonice.
Antes de receber a estrela e a farda.

*  *  *

Esmeralda veio na linha do mar.
Aos pés do ferreiro da mata assentou seu ponto e se firmou.
Arco-íris no céu, serpente na terra.
Celebrar os mortos é apascentar o que nos ameaça.
Entre o Nada e o Nada muitas coisas se movem.
As pétalas das aves de arribaçãs são promessas de mais-vida.

*  *  *

Um vaso de violetas roxas aos pés do pescador.
Coroa-de-frade no ori da casa.
Hermenegildo, Cleonice, Tempestade.
Esmeralda é sereia da linha do mar.
Esmeralda é devoção, alfazema e passagem.

Tudo passa.
O raio fulminante do jaguar nos atravessa.
Entre as águas e o fogo, areia.
Machado à beira-mar.

nuno g.
Toróró, 24/09/22.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

viernes entre nuvens.

As oiticicas não pegaram.

*  *  *

A carne também se amacia.

Igualmente ao espírito.

*  *  *

O futuro está atrás.

O passado à frente.

As batatas-doces sim vingaram.

E o candeeiro seguiu cumprindo seu intuito.

Nos lembrando que à nossa volta faz escuro.

Recordando que cura e perdão não são estações, são caminhos.

Ainda quando isso queira dizer acender feridas necessárias.

Ou mesmo que a nossa limitada percepção não nos permita mais escrever com nuvens.


nuno g.

toróró, 23/09/22.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

miércoles de sol.

para Sergio Mondragón,

Maria Luísa sonhou com um palácio.
Cheio de flores.
Verdes, azuis e rosas.

*  *  *

Bernardo - gritaram Inês, Maria e Santiago.
No exato instante em que o sol nascia.

*  *  *

Enquanto buscávamos a forma animal de nossa alma.
Tempo brincava de esconder-revelar e semear.

*  *  *

A saia branca girou no terreiro.
Não era sonho - era futuro que já ocorreu.

*  *  *

Muita névoa.
Óleo vazando da caixa de marcha.
João perseguindo a própria liberdade.

*  *  *

Na floresta você é o jaguar.
E as onças criaram asas e seguiram seu voo. 

*  *  *

Um Vento chamado Aracati percorreu nossas entranhas mais uma vez.
Sob o Machado, a luz áspera e o corpo sem corpo da salamandra do fogo.

*  *  *

Enquanto Tempo, em forma de Sussuarana, brincava.
Esconder-revelar, o palácio da Rainha da Floresta.
Suas flores semeadas e suas fogueiras sempre acesas.

*  *  *

No céu azul da floresta, o Gavião. 
E no chão, a Serpente.
Com suas plumas de mil cores.
Entrançada à saia branca.

*  *  *

Aracati, o Vento - arrastou ao sal o que já não servia mais.

nuno g.
Toróró, 21, setembro, 22.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

o sonho do cego do Caquende

até os cegos te contam os sonhos?

*  *  *

Formou-se e se viu obrigada, por falta de trabalho, à mudar para Minas.

Chorava. Chorava. Chorava.

Morava no Guarany - que todos, nessa cidade, sabem onde é.

Que todos sabem a Quem pertence.

*  *  *

O excesso de umidade apodreceu as raízes do Baobá.

Ou talvez tenha sido mesmo a ausência de uma serpente enrodilhada em veneração.

*  *  *

Claudio nos lembrou do aniversário do mateus Cachoeira.

Foi Tempo quem me mandou substituir diário por dicionário.

Saber menos. Confiar mais. Seguir.


nuno g.

Toróró, 16/09/22.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

meu avô.

gosto de olhar as árvores crescerem.
em silêncio.
gosto de ouvir as árvores crescerem.
deitado à rede.
vez ou outra um passarinho rompe o silêncio.
é como se meu avô me visitasse.
nessas horas meu pensamento se desgarra da distração onde vive.
e quase toca algo de matéria.
passarinho avoa, meu avô se vai.
e meu pensamento volta à distração onde vive.
gosto do nada e de todas as coisas que vivem dentro do nada.
tenho horror à palavra que só existe em representação.
tenho horror à palavra que é seta apontando pra fora.
por isso uma das minhas palavras favoritas é víscera.
também gosto de amarelo que quando se junta com caminho sempre me lembra Ernesto.
e todas as lonjuras onde nossos passos teriam tocado se ele não partisse tão antes.
gosto de pensar que um dia tudo isso passa.
essas árvores vão ter virado floresta.
e meu corpo vai estar sob esta terra.

*  *  *

gosto de pensar que já vivi aqui outras vezes.
e que algum dia renascerei entre essas pedras que amo.
e esse rio será águas límpidas.
serei aquele pássaro e o homem deitado na rede será meu avô.
ele me ouvirá cantar e o meu canto o salvará mais uma vez.

nuno g.
toróró, 14 de setembro de 22.

domingo, 11 de setembro de 2022

as três estrelas.

para Larissa Gonçalves, Bruno Gonçalves e Maria Alice Gonçalves 


Foi uma cigana que me disse:

meu filho vai enfrentar demanda difícil,

mas vai vencer.

Três anos depois a mesma cigana.

Batendo fotos no estacionamento de um centro comercial.

Nos guardamos na casa de uma filha das águas doces.

E vimos a lua de prata e fino entendimento.

Os aviões fazendo a volta antes de zarpar ao sul.

E o som do mar ecoando no espelho de Tempo.

A voz de Milton ainda no corpo.

A voz de Deus.

A voz de Miguel, o Archanjo.

A voz de Yauaretê. 

A voz de Iararana. 

A voz da Sussuarana.

A voz do jaguar encantado.

A voz dos sonhos e da infância.

A voz das onças e de Aracati.

Dormimos num motel.

Mas não fizemos nada do que se espera daqueles que dormem em motéis.

Dormimos apenas.

E eu não pude recordar dos sonhos que tive aquela noite.

Menos ainda esquecer quão importante eles eram.

Escutei os sonhos dela.

Sobre carros, avós e confirmação.

Obrigado Milton.

Obrigado Cigana.

Obrigado povo das águas.

Em tempos de dependência e morte.

Só sobreviverá o que for amor.

O resto será já cinzas e esquecimento.

Quando as três estrelas iluminarem outra vez a escama da praia.

O resto será já passagem feita.

Ex-voto. Ex-corpo. Ex-memória-da-escuridão.

A voz de Milton. O trem de ferro.

As palavras rearranjadas de forma a expressar uma imensurável amplidão.

Obrigado Milton.

Eles todos passarão.

Você não. Você nunca.

A voz de Dom Pedro Casaldáliga.

No quilombo. Na aldeia. No terreiro.

Nas três estrelas que iluminam as ruínas dessa nação.

A voz do Jequitinhonha.

A voz do Araguaia.

A voz do Jaguaribe.

Eles todos passarão.

Sua voz não.


nuno g.

Toróró, 11/09/22

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

cambono II

na curva da  estrada, à noite, o cavalo de Hermenegildo cintila.

*  *  *

as promessas do sol ressuscitam à voz do Deus da Guerra.

*  *  *

samsara não é uma palavra, é uma dança que nos ensina.

*  *  *

rios e serpentes, montanhas e corpos esquartejados.

*  *  *

longe daqui uma aranha tece o Destino.

estamos sempre em outro lugar e o que somos será sempre impronunciável.


nuno g.

toróró, 09/09/22.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

cambono.

Sonhei com Dick, o cão.

Ele estava desplumado e triste.

Como um rio ante as represas que o impedem de chegar ao mar.

*  *  *

No sonho também havia outras coisas que não consigo lembrar.

As coisas que realmente interessam estão sempre em outro lugar.

Como as lágrimas que só afloram quando a distração nos leva a sentir o esquecido.

*  *  *

Em outro sonho eu cavava uma cova.

E quanto mais eu cavava menos espaço vazio havia.

Meu corpo superava em matéria o vácuo que minhas mãos lhe destinavam.

*  *  *

Cleonice foi coroada Senhora e Madrinha.

Por um instante senti que poderia alcançar alguma compreensão.


nuno g.

Toróró, 08/setembro/22.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

a báscula do julgamento III

Garfield se entrelaça às nossas pernas como um cipó na árvore de Tempo.
Hermenegildo segue passando todas as tardes montado em seu cavalo.
Tempestade pasta e nos guarda do abismo.

*  *  *

Perdão e cura não são estações, são caminhos.

*  *  *

Lírios brancos em sonhos cheios de urgências.

*  *  *

Onde mais andaria o Cristo senão entre os famélicos?
Qual força seria suficiente para impedir o rio de chegar ao mar?
Dino caça. Pina dorme. Dick passeia.

*  *  *

As flores roxas de São Miguel semeiam o horizonte.

nuno g.
Toróró, setembro de 2022.

domingo, 4 de setembro de 2022

a báscula do julgamento II

A procissão marchava dividida em duas fileiras.

Eles haviam desaprendido a língua portuguesa.

Caminhavam em silêncio.

Apenas o som dos passos sobre os irregulares paralelepípedos.

*  *  *

Maria me abraçou à sombra do pé de cacau.

*  *  *

Os maracás tocaram com força e intensidade.

As chamadas foram entoadas com firmeza.

Cleonice se ergueu e cruzou o Azul e o Branco até a mesa do centro.

*  *  *

Recebeu a graça do Tucum e a benção da Rainha.

O sol, a lua e as estrelas brilharam.

As varas do caule de milefólio foram consultadas.

*  *  *

Maria me abraçou.

A luz invadiu o quarto.

Enquanto os encantados dançavam ao redor das brasas que resistiram à madrugada.


nuno g.

toróró, domingo de 2022.


sábado, 3 de setembro de 2022

a báscula do julgamento.

Judite desapareceu.

Stella se matou.

Hermenegildo segue passando todas as tardes em seu cavalo.

*  *  *

papai, cadê as três estrelas que a lari me deu?

E os seus lábios se moveram pronunciando sílaba-a-sílaba o conto uruguayo.

*  *  *

Nunca encontramos o corpo.

Nem os filhotes.

Os jerimuns brotaram.

Entre as juremas e o mar.

*  *  *

Alguma tosse povoando o inverno de setembro.

A cidade girando sobre si mesma como um pião.

*  *  *

Cuscuz com ovos e um sonho qualquer.

Na desimportância de uma distração a manhã se consumindo.

E os tomates avermelhando a horta.


nuno g.

Toróró, sábado de 2022.


quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Areia de cemitério

 para Ian Gonçalves,


A charanga d'Ajuda despertou o Caquende.

Arco-íris nenhum no céu.

Os convites de domingo se desmanchando como sorvetes ante a ira do sol.

Um amigo, filho de Odé, soltou sua angústia:

Então tenho que matar meus pais!?

A frase, tal como pronunciara, soava hesitante. 

Não chegava a ser uma pergunta nem uma exclamação.

Ou era as duas coisas a um só tempo.

As certezas se desmanchando ante o fascismo.

Era uma vez uma cidade onde corria um rio.

E junto com ele corriam os tapuias.

Nossos antepassados chegaram e construíram ali um forte.

Os traíram. Os perseguiram. Os mataram. Os expulsaram daquelas terras.

Um desses tapuias virou vento.

Seu nome é Aracati.

Sua presença me protegeu a infância.

Junto com ele vinham as onças.

Suçuaranas. Pardas. Castanhas.

Eram minhas melhores amigas.

Seu uivo me ninava.

Em meus sonhos regressavam memórias de um tempo anterior ao colonialismo.

Dois dias depois o arco-íris chegou.

Rastejando como uma serpente sobre o rio.

Não me deixando esquecer que todo chão que piso é cemitério.

E que a mesma lama roxa onde nasceram todas as formas de vida.

É o lugar onde nos encontraremos com a morte algum dia.

Botei as moedas que tinha no saco das ofertas da festa.

E a charanga seguiu pra despertar a Faceira.

Seus deuses, seus pescadores e seus indígenas.

Segui meu rumo e no mais improvável dos acasos.

Encontrei Dom Mario Benedetti. 

Na praça do Lavrador em Cruz das Almas.

Ele me recorda que o Nacional de Montevidéu.

Está nas semifinais da sulamericana.

O Ceará não.

Às vezes a vida se decide nos pênaltis.

Como quando um dedo aperta um gatilho.

Ou quando alguém salta de um arranha-céu.

O índio que me acompanha me acaricia os cabelos.

Ouço seu ponto cantado.

Vejo seu ponto riscado.

Tateio com a língua seus lábios feridos.

Entendo assim a coexistência do doce e do amargo.

Atravesso sua mirada como um raio ou uma lança atravessam uma chaga.

Entendo assim a coexistência da tristeza e da alegria.

Recordo o vale dos jaguares tapuias de onde vim.

Recordo os fortes traços indígenas nas feições de meus sobrinhos.

Em seus corpos e trejeitos.

Nem tudo o colonialismo mata.

Nem tudo o fascismo faz perecer.

O futuro é sempre o que está soterrado.

E todo passado aguarda ainda o tempo de amanhecer.

A areia de cemitério que trago nos olhos, no tórax e nas mãos.

Vem de longe, muito longe.

Vem daquele velho túmulo de azulejos azuis que já não existe mais.

Vem das margens daquele rio que o sangue dos tapuias avermelhou as águas.

E foi sobre ela que Ogum, irmão de Odé, serviu seu feijão.

Aracati, seu filho, comeu com as mãos.

Antes que a serpente das sete cores tornasse a cruzar os céus.

Antes que a procissão dos encantados tornasse a cruzar o horizonte.


nuno g.

Toróró, 21/25 de agosto de 22.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

doces águas.

Dino, o gato filósofo, espreitando na porteira.

Come-e-Dorme, o cão, dormindo sobre o calor das brasas da fogueira de ontem.

Um menino vestindo uma camisa com o Machado do Senhor.

Foi com um beijo que Judas traiu Jesus - me disse seu Antônio.

Também me disse seu Ivo do mercado.

A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.

Tudo teria sido mais suave se você não tivesse morrido,

mas agora eu sei que você precisava morrer.

Era isso que eu te diria hoje mãe.

Te diria também que ontem o dia foi bonito bonito.

Que sua neta cresce bem, que os tomates já foram colhidos e que as pimentas brotaram.

Pai, tudo seria mais suave se não tivessem te matado,

mas eu sempre soube que eles precisavam te matar.

Era isso que eu te diria hoje.

Te diria também que tua neta tem uma casa na árvore.

Que ontem trocamos os curativos de João e Cristalina.

E que as macaxeiras e batatas-doces vão crescendo muito bem.

A chuva voltou e com ela sentimentos bons e singelos.

Meu avô, ontem claudinha me mandou um poema que me lembrou de você.

De seu desespero, seu hálito de cachaça e seu imenso amor.

Era isso que eu te diria.

Te diria também que está tudo bem.

Ontem foi um dia lindo. Choveu e comemos bistecas de porco com batatas ao forno.

O Ceará perdeu o derby, mas não doeu tanto.

Esse mês aqui tem muitas flores e pipocas, vovô

- e entre pétalas e grãos sempre vejo suas lágrimas.

Era isso que eu te diria meu querido avô.

Apesar da tosse, tudo está no seu lugar.

Ainda fumo e talvez o cigarro me mate como lhe matou um dia.

O resto das coisas que eu te diria não cabem em palavras meu avô.

E você, mais que eu, bem sabe.

Levei as crianças na escola.

Passei um café.

Tomei um rapé.

E escrevi esta oração no meu dicionário:

paternidade é o caminho que nos leva de volta à casa onde nascemos.


nuno g.

Toróró, 15 de agosto de 2022. 

terça-feira, 9 de agosto de 2022

O Senhor que habita a Pedra

O que tudo vê.

O que tudo sabe.

O que aqui estava quando não estávamos ainda.

O que conhece nosso rosto antes mesmo do nosso nascimento.

O que nos guia em nossa distração.

O que é rude e áspero por ser entendimento em estado bruto.

O que nos cuida quando perdidos.

O que nos reconduz ao nosso coração quando farrapos.

O que nos reconcilia com o escuro de dentro e com o excesso de luz lá de fora.

O que nos permite as canções da lua e a coragem do amor.

O que nos ampara quando caídos erramos pelos subterrâneos.

O que é água quando somos sede.

O que não diferencia sonho e realidade.

O que não nos permite desistir.

O que nos quebra os ossos quando hesitamos ante o necessário.

O que nos desperta quando o engano nos seduz.

O que é mais Velho do que o mais velho de nossos desejos.

O que é pensamento em perpétua sedimentação.

O que é larva no interior de nossa memória.

O que é futuro arcaico e passo firme em direção ao amanhã.

O que se desdobra sempre e outra vez.

O que com seu sopro faz emergir na árvore de Tempo a face do que somos.

O que é o que sempre desconhecemos de nós mesmos.

O que nos acompanha, nos cura e nos mata, com amor e ferocidade.

O que é, simultaneamente, terror e delicadeza.

O que habita a Pedra e a Palha.

O que nos cura.

O que nos mata.

O que nos escuta.

O que dança e não nos abandona.

O que sabe da formação geológica da terra e das almas.

O que se transmuta em pássaro quando quer voar.

Em serpente quando quer guiar.

E em esquecimento quando quer nos proteger do Nada e seus maus agouros.

O que é mais velho e mais terno

- pois mais caminhos já percorreu nessa gira.

O que aqui ainda estará quando nós já não mais estaremos.

O Senhor que habita a Pedra, a Palha e o destino das almas deste mundo.

O que tudo vê.

O que tudo sabe.

Siga guiando nossos passos.

Siga regendo nossa peregrinação.

Além.


nuno g.

toróró, 09/08/22.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Os pescadores da Faceira.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

As lavras das mangabeiras pelas mesmas mãos que chamavam a Serpente.

Toda uma vida talvez não seja suficiente para regressar à casa onde se nasce.

A igrejinha de Nossa Senhora da Conceição perdida entre as voçorocas de um sonho.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

Todas as passagens fechadas.

Os pescadores em volta do fogo cultuando o Velho.

A Senhora das Sementes cultuando a Senhora das Serpentes.

Toda uma vida talvez não seja suficiente.

Era o primeiro dia de agosto.

A dor no osso do joelho esquerdo do Ferreiro que fazia as joias.

Em sua casa de palha, numa capoeira no meio do verde da mata.

Sozinho e em silêncio.

Trabalhando o ferro como quem ora.

O Velho veio em sua forma de pássaro.

Junto com ele a Senhora das Sementes.

Junto com ele a Senhora das Serpentes.

Junto com ele o Ferreiro das Doces Águas.

Junto com ele o Menino da Encruzilhada.

Licença - e meus olhos entraram na casa de palha.

Licença - e meus olhos cruzaram o verde da mata.

Licença - e meus olhos tocaram o roxo do vestido e se encharcaram de lama.

O Velho partiu e deixou seu canto de pássaro.

O osso em trauma e uma névoa nos pensamentos.

Na pedra do rio uma criança.

Na praia os pescadores repetindo:

somos parentes e temos toda a vida para regressarmos à casa

- mas talvez uma vida não seja suficiente.


nuno g.

Toróró, 03 de agosto de 2022.  


sábado, 30 de julho de 2022

Ayê

Noêmia sonhou com os três porquinhos.

Assim me narrou Bernardo ao amanhecer.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem sândalo.

Penso em Ogum Beira-Mar.

Penso em Ogum-Iara.

Penso em Ogum Megê.

Penso em Ogum.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Assim como eu tenho a escuridão e a rutilância.

Ela me ensina uma foto de Francine.

Remoçada. Jovial. Renascida.

Me alegra a alegria dos que cruzei ao caminho.

Penso no Sétimo e no seu reino do sertão.

Me revelando seu nome em sonho.

E soltando gargalhadas de marfim e calcário.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem parafina.

O horror está em todos os lados.

Penso na Pombagira entoando canções ciganas.

Só a poesia importa - o resto o sol da morte dissolve todos os dias.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Assim como eu tenho uma infância mergulhada em mentiras e covardia.

Chove. Chove. Chove.

Chove e falta água nas torneiras e nas descargas.

Penso em Ogum e rezo à Adélia.

Quem sabe Ele também em sonho me revela Seu nome.

Todas as perversões entregues ao dicionário da noite.

A moça que vende café preto e mixto quente.

A moça simples que vende broas de milho.

Ser mulher é ser bruxa.

É trazer dentro a força que resiste à nadificação.

Rezo à Adélia - como se minhas mãos fossem espumas.

Ouço o Sétimo gargalhando no sertão.

Recordou o sonho em que me revelou Seu nome.

Recordo o hálito de cachaça, benção e proteção.

Soterrado vivo - meu coração dispara como um cavalo.

Meio-irmão dos raios, meio-irmão dos trovões.

Penso em Rimbaud - o poeta é mesmo um místico selvagem.

Avesso às amarras de qualquer doutrinação.

Entregue à semântica das tempestades.

Nas curvas que sobem a serra duas placas chamam a atenção.

Pastel do Alemão - em negro e vermelho.

Deus julgará a todos - em amarelo-ouro.

A cidade do Senhor de São Félix fica para trás.

Penso em Artaud entre os tarahumaras.

Buscando ressuscitar divindades em seu gélido coração.

A mulher que dorme ao meu lado tem a razão no corpo.

Sonha com Miguel - como eu sonhei algum dia.

Chove. Faz frio. E falta água nos canos.

Meu Ori sente a irresistível atração do Orum.

O Ayê me quer aqui.


nuno g.

Toróró. 27 de julho de 2022.




segunda-feira, 18 de julho de 2022

Orum

para Serena Assumpção,

I.


Nasci em cidade nenhuma.

Nasci em um rio.

Entre ferros d'água e espelhos de pedra.

Nasci às margens e às avessas.

Como uma pluma sem cão.

Uivando em dialeto acalanto.

Nasci como nascem as ilhas.

Num instante de distração do rio.

Mãos dadas ao escuro.

Olhar posto à imensidão.

Nasci mil vezes em uma só vida.

No rio onde nascem todos os rios.

No rio onde nascem todas as ilhas.

No rio onde as águas estão em permanente estado de distração.

Às avessas. Às margens.

Como uma pluma sem a ferocidade do cão.


II.


Não quero mais estar aqui.

Mas sigo.

Penso nos meus filhos no Orum.

Penso nos meus pais no Orum.

Penso no Orum.

Mas sigo.

Entre mares de azeite e encruzilhadas de farinha.

Com a precisão com que se movem as ruínas de um engenho.

E sigo.


III.


Beira-fogo, sina, artefato.

Na minha morte meu corpo coberto de sementes e nada.

A matéria cega devolvida à terra.

E o meu espírito à imensidão.

Orum.


nuno g.

Cachoeira, 17 de julho de 2022.

domingo, 17 de julho de 2022

os lírios do cotidiano e os sonhos que os ventos trazem.

havia tendas - como nas caravanas ciganas que acampavam sob as oiticicas.

e quando acordei o sonho ainda estava lá - escorrendo em sua voz ao telefone

e se amalgamando às fotos do Velho 

que esperaram quatro décadas para chegar aos meus olhos.

havia um bebê - como no dia em que me levaram na mata para conhecer Miguel.

e quando acordei as tendas ainda estavam lá e sua voz escorrendo como óleo

entre as teias e as flores e as crianças.

havia tantas camadas de febre e esquecimento sobre as pequenas coisas do amanhecer

que parecia ser impossível qualquer despertar.

havia muita água doce e uma gargalhada sincera aprisionada numa garrafa.

havia tendas e fogueiras e alguém aprendendo as primeiras letras.

sua voz escorrendo no telefone, uma fotografia antiga e um arrepio à pele.

somos o que esquecemos e sangramos para que o nada não soterre o amanhã.

somos o sangue que derramamos sobre a terra.

somos também a terra onde se erguem as tendas.

e sim, no seu sonho ela era a mais bela das mulheres daquele rio.

ela te disse como se chamava e te entregou mais uma vez a infância de Maria.

quando acordei a foto estava lá - e nela todo o passado que me foi negado.

havia lírios, sonhos e águas doces.

quando pronunciei teu nome tua voz me chegou ao telefone.

só no óleo certas esperanças alcançam sobreviver.


nuno g.

Toróró, 17 de julho de 22.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

entre Serrinha e Santa Bárbara.

à margem esquerda da estrada

atrás, muito atrás, do brejo onde as garças pousam

o arco-íris se apresentou

e conversamos sobre todas as cores

uma suave distração

e obrigamos um caminhão verde a frear na subida

um cafezinho e entramos na cidade antiga

notícias do fascismo, bolo de milho, saudades

animais domésticos e uma bela noite

no outro dia a chuva

notícias de uma despedida

e as luzes de alerta sanitário piscando no céu

à margem esquerda da estrada

atrás, muito atrás, do horizonte que nossos olhos alcançam

pulsa uma força imensa que não sabemos nomear


nuno g.

Toróró, 11 de julho de 22,

sexta-feira, 8 de julho de 2022

a cabeça de touro e a igreja de Nossa Senhora da Conceição

Vazaram todas as águas.

Da bexiga de Alice.

Do radiador do pirata.

Um gordo numa moto nos guiou à oficina Edson & irmãos.

Passamos pela igreja suspensa.

Recordei da cabeça de touro enterrada ali.

E do gavião morto no asfalto na entrada da serra do Pereiro.

No porta-malas as mudas de oiticica.

O queijo, a nata, a paçoca, a manteiga da terra, o doce de leite e o Sonho.

A lembrança do serrote do Peixe onde não fomos.

E de todas as outras coisas que nunca aconteceram.


nuno g.

Icó, 07 de julho de 22.