terça-feira, 7 de junho de 2022

entre feiticeiros e despertencimentos.

chove sobre a colina sagrada

o frio penetra minha omoplata

sem pedir licença

acende a bursite

o chão de lama, escorregadio

e a cidade com seus paralelepípedos centenários

e sua ponte de ferro & ferrugem & tempo

os gatos invadem a casa

como os degraus da escadaria amarela

invadem os sonhos

chove sobre a colina sagrada

ao longe, a pedra da baleia e um saveiro

venta e no vento vêm vozes e mais vozes

de aquém, de além, de cima, de baixo da direita e da

esquerda da esquerda da

chuva que cai sobre a colina sagrada

da chuva que molha os centenários paralelepípedos

da chuva que afoga todas as coisas de ontem de anteontem

como a areia da sepultura da serpente

apenas os olhos expostos ao sol

o frio, a guerra, o parapeito de madeira e estrela

tudo se move como se movem as pedras

a cidade, o vento e as frutas pintadas a óleo

os gatos, o som da casa de farinha, tilintar de copos e nada

aos palmos medindo a distância de todas as órbitas

e cruzando o mundo como um trem mineiro fora dos trilhos

abarrotado de bugigangas


nuno g.

Toróró, 07 de junho de 22.


quinta-feira, 2 de junho de 2022

as águas do Jaguaribe

 para Dellany Oliveira,


todos os rios, o rio

e em seu leito de várzeas todos os sonhos

correndo em direção ao outro lado

como se a noite fosse mesmo um pássaro

e as estrelas seus ninhos

todos os rios, o rio

e em seu leito canoas, jangadas, saveiros

correndo em direção ao outro lado

como se os pássaros fossem mesmo noturnos

e a única forma de aplacar a sede

seguisse sendo beber o fogo

todos os rios, o rio

e suas nuvens correndo em direção ao outro lado

como se o tempo fosse apenas um calafrio passageiro

ou o osso de um mártir encontrado entre os lajedos

todos os rios, o rio

correndo entre o esquecimento e a loucura

e atirando flores nos despenhadeiros da chapada

todos os sonhos, o sonho

correndo entre o lodo e as pedras

como se a única forma de saciar a fome fosse jejuar ao sereno

amanhece na pedreira - o galo canta

Aracati chega, apascenta, acarinha

e canta devagarzinho antigas canções de ninar

sobre túmulos de azulejos azuis e vespas dançarinas

sobre árvores de raízes pardas e onças tão imensas quanto o coração da lua

todas as onças, a onça

Sussuarana chega, espreita e se vai

boqueirão de vertigens, caleidoscópio de estrelas

a força da tempestade, o som dos sinos,

o sangue das sete aldeias correndo pro mar

amanhece - devagarzinho

todas as noites, a noite

se enrolando como uma serpente colorida

entre as névoas que não se desfazem

e as promessas que não se cumprem

todas as águas nas águas deste rio

todas as pedras nas várzeas deste rio

todos os sonhos nos sonhos deste rio

um deus que dança e usa espada chega e assenta

desalvoroça, destorce, semeia ramas de tempestades

sorri e ascende

sete aldeias sangrando, uma cabeça de touro enterrada na vila do Icó

e o campanário da catedral atingido por um raio

o rio corre e com ele correm todos os rios

o rio corre e com ele correm todas as embarcações

o rio corre e com ele corre o meu coração...


nuno g.

Toróró, 02 de junho de 22.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

a fogueira do Senhor da Justiça

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas farei do seu fogo minha morada.

E guardarei junto aos lírios brancos que recebi.

A memória de como a serpente me salvou das lágrimas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas guardarei a história de Jó e seus ensinamentos. 

Sobre a vida, os escombros, os retalhos.

Junto ao beijo que nesse seio amanheceu.

Não guardarei dos golpes e punhaladas senão a memória da guerra.

E aquele fatídico hino que falava a língua das labaredas e das chamas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Serei o último a bailar no fogo.

Serei o último a caminhar sobre as brasas.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas o guardarei comigo contra todo esquecimento.

Te entrego minhas cicatrizes e meu corpo destroçado.

Te entrego a alegria que me trouxe a serpente em seu barco.

Já tem milho verde na feira.

Já tem amendoim na feira.

Já tem lenha separada no terreiro.

Para acender teu fogo, minha morada.

Te entrego os lírios brancos e todas as minhas fraquezas.

Te entrego meu afogamento nas lágrimas do pai injustiçado.

Não pronunciarei teu nome, não sou digno.

Mas renascerei das cinzas e darei vivas à serpente.

Guardarei no coração do mar este fogo, minha morada.

E não mais permitirei que outra voz que não a do vento me alimente.

Guardarei teu nome não pronunciado.

Junto ao segundo beijo que nesse seio amanheceu.

Farei do teu fogo minha morada.

O habitarei como algum dia habitei as lágrimas.

E o alimentarei com os lírios brancos ainda úmidos de doces águas.

Guardarei a serpente e os cânticos em sua memória.

Guardarei suas cores e o ritmo em que navega seu barco.

Guardarei as nuvens onde ela fez morada.

Neste terceiro beijo que amanhece nesse seio.

Acende o fogo que ilumina o chão deste terreiro.

A sombra do semblante distorcido. 

E as plumas do gavião cicatrizado.

Guardarei a morte e sua memória sagrada.

Fonte da vida, foice de todas as iniquidades.

Não pronunciarei seu nome, não sou digno.

Mas farei do teu fogo minha sagrada morada.

O alimentarei com lírios brancos e doces águas.

Servirei com as mãos impuras o mel que recolhi nas encruzilhadas.

Guardarei seu nome no silêncio desta árvore.

Não sou digno. Só teu fogo saberá do que passou.

No silêncio desta árvore onde habita o Impronunciável.

Estarei sempre em guarda. Contra todo esquecimento que nos ameaça.

Serei eu mesmo a memória de todas as lágrimas.

Serei este fogo. Estes beijos amanhecidos nesse seio.

Serei eu mesmo a fogueira que será minha última morada.

Serei teu nome e nele arderá toda a ferocidade. 

E todos os vestígios de um jaguar em azul reencantado.


nuno g.

Toróró, 27 de maio de 22.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Ápeiron


Também tentei tocar com as mãos o indeterminável

E molhar com suor os círculos concêntricos das origens

E foi com os olhos, mais precisamente com os cílios

Que acariciei os círculos concêntricos dos fins

Sorri, quando seus lábios me falaram sobre desistências

& outras coisas impossíveis

Também tentei farejar a luz do esquecimento

& dizer o indizível

Abri os jornais e vi os bombardeiros russos e chineses sobrevoando os céus do oriente

Abri os jornais e vi os diplomatas chineses afirmando:

Tratamos lobos com espingardas

Fiquei imaginando como seria isso escrito em hieróglifo

Fiquei imaginando como seria isso escrito em ideograma

Fiquei imaginando como seria o mundo se não temêssemos a morte

Ouvi o som do escuro e separei a maisena, a vaselina, o suco de limão

Para preparar a massa de biscuit e modelar outra vez o infinito

Abri outra vez os jornais e vi os militares detalhando seus planos para os próximos anos

Orei a Anaximandro e em silêncio bebi o chá que me serviram as montanhas

Talvez essas nuvens guardem as formas da escrita 

Capazes de representar os círculos concêntricos do indeterminável

Orei a Anaximandro, repousei a cabeça na pedra delicada

E sonhei com a linguagem do infinito


nuno g.

25 de maio de 22.


domingo, 22 de maio de 2022

a menina que sonhava com terreiros

 para Gabriela Gonçalves & Larissa Gonçalves,


Eles somos nós

De uma maneira que a linguagem não alcança

Nenhuma linguagem

Nem a do corpo

Nem a da fala

Menos ainda a do pensamento

Açucena é um nome bonito

Cheira bem, soa bem, reverbera

Nós somos eles

De uma maneira que não alcançamos entender

Nem com nenhuma linguagem

Nem quando nos esvaziamos

Mas nunca estivemos realmente vazios

Estamos sempre entre uma ficção e outra

Mas quando sonhamos

Já não somos os mesmos

Já somos eles

E eles são o que somos

O vento chega, refresca e parte

O vento sempre volta ao mesmo lugar onde nasceu


nuno g.

Mata de São João, maio, 2022.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A sepultura da cobra e o salto da rã

 para Marialice,


Uma concha cor de esmeralda, uma pata de siri, uma estrela do mar

Crustáceos voadores, peixes com patas à luz da lama

Suave água amarelada - espelho da terra

As mãos de Ignez, as mãos de Alice

O sorriso de um peixe com patas e sombrero

Deixando cócegas para trás

Os olhos da cobra desenterrados

Para que ela veja o salto da rã

E o azul do infinito se derramando sobre o céu amarelo

Sob o olhar da Senhora de Roxo

E do dono do destino de todas as almas

Caminho não se esquece, sonho se semeia

Hoje nasceu uma nova árvore na antiga praia

Sob as bênçãos do pintor fugitivo de asas alaranjadas

E as graças do caranguejo perfumado de patas lilases

Caminho não se esquece, sonho floresce

E se colhe - como lírios selvagens entre os bambuzais

E os magníficos corais do Além.


A lua cheia iluminou a aldeia

E as pedras da sepultura da serpente

A lua cheia iluminou o mar que sempre esteve aqui

Acendeu os búzios de nossos contra-eguns

E o silêncio prateado nas folhas da árvore sem-nome

A lua cheia iluminou a aldeia

E os magníficos corais do Além.


nuno g.

Montecristo, 15 de maio de 2022. 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Teologia do Vento.

 O fogo é a lucidez, a parafina é o samsara.

Lama Padma Samten


Vinte e três caminhos movediços.

Uma serpente morta na estrada.

O sono, a lei, a melancolia.

Outra vez e sempre a rã saltitando na lâmina d’água.

Vinte e três movimentos em direção à Quietude.

Hacia o que se pode ver desde o cume das sete montanhas.

Ou ao que se pode não pensar quando silencia o monge zen.

Vinte e três espelhos ante o transcurso das horas.

Uma serpente morta na estrada.

O sono, a lei, a melancolia.

Outra vez e sempre a rã saltitando na lâmina d’água. 

Sete montanhas, um monge zen e vinte e três reverências à Quietude.

Ataraxia, a sombra nos guarda.

Nos bendiz, nos reza.

A sombra é desdobrável e assemelha-se a uma onça que ignora o amanhã.


nuno g.

Toróró, 12 de maio de 22.


segunda-feira, 9 de maio de 2022

O castelo da Rainha.


Tudo que não invento é falso.

Manoel de Barros

Foi para lá que ela me disse que ia antes de partir.

Quando chorou não o fez pela guerra, mas pelo pressentimento da vitória.

Havia tanto mel entre os vinte e três pássaros que a noite decidiu tardar além do previsto.

Cobra coral, o silêncio dos meus joelhos sobre o sangue de vosso sagrado chão.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

Curumim soprou com fé desde o bambuzal:

Não se celebra antes, sonho bom se desfaz.

Quando chorou não o fez pela guerra, mas pela intuição do sol.

Havia tanto mel entre as serpentes que choveu.

E quando Curumim soprou a flauta os sons de Uakti despertaram.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

Havia mel, demasiado mel, entre as pipocas.

Foi para lá que ela disse que íamos antes de partirmos.

Quando chorei não o fiz pela guerra, mas pelos cânticos que anunciaram seus propósitos.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

E as bênçãos da cobra coral caíram sobre nós como as águas do dilúvio.

Xangô reinou sobre todas as coisas.

Curumim brincou com as estrelas.

Curumim brincou com a lua.

Curumim se lambuzou de mel e se foi.

Quando choramos não foi pela guerra, mas pela força do vento que soprava da flauta.

Não se celebra antes, sonho bom se desfaz.

E Xangô, finalmente, reinou soberano sobre todas as coisas.



nuno g.

Toróró. 09 de maio de 2022.

sábado, 7 de maio de 2022

Romantismo.

Vivemos uma ficção.

Estamos imersos num pesadelo.

O apocalipse deixou de ser um gênero literário.

Convertido em horizonte histórico avassalador.

O fascismo assumiu o comando do relógio do tempo.

O que nós buscamos se afasta de nós como o azeite da água.

A relação entre terror e realidade foi equacionada pela perversão.

Não escutamos. Não entendemos. Não vemos.

E os gritos de nossos sonhos já não nos flecham.

Quando as mãos sem cor apertaram o gatilho não puderam esquecer meu choro.

Olhei dentro do armário anos a fio o semblante dela.

E suas pernas torneadas e seu corpo esbagaçado na calçada.

Ainda assim permanecia bela e inviolável, soprou o coveiro. 

Voltamos à ficção.

Mergulhamos uma vez mais no pesadelo.

Os submarinos, as armas nucleares e a falência psíquica.

Quando as ruas foram cobertas com folhas de maniva.

Quando choveu meteoros uma última vez.

Quando a perversão tornou-se o equalizador da canção do terror e da perversão.

Paramos de sonhar. Paramos de entender. Paramos.

E ainda sem escutar ou sem ver a fantasia persecutória prosseguia.

Os disparos, o salto e a teia de mentiras.

O que buscávamos se afastando como o azeite da água.

E os mortos em silêncio trabalhando em prol da incertidumbre.

Nas cidades invisíveis da floresta negra o sol atômico e as películas de culto.

As pernas torneadas entre as peças de antiquário.

O balé de delfines no deserto do Atacama.

Os gritos de nossas flechas já não sonham.

Só a montanha impávida e colossal saberá nos mover daqui.

O tempo desintegrará todos os relógios.

E os subterrâneos da terra voltarão a sorrir.

Só os que morreram muitas vezes saberão nos guiar para fora do pesadelo.

Só os que conhecem a terra dos mortos saberão restituir ossos ao corpo da realidade.

Só os que falam a língua dos pássaros e das nuvens entoarão canções de amor e utopia.

O balé de flores sob o asfalto derrotado.

E os afetos que nos atravessam como quando entendemos 

que também os apocalipses guardam em segredo seus mais indecifráveis propósitos.


nuno g.

06 de maio de 22.


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Sonhos



Para Akira Kurosawa



Alta noite, o elefante subiu o rio na canoa.

Passarinho veio bem perto e olhou muito dentro.

Tão dentro que corpo se fez rio.

O Velho veio todo de branco.

Como os grãos de milho que seu braço arremessara em direção à pedra.

Um laço de cipó amarrou os pesadelos todos.

O Velho veio e me abraçou demoradamente.

Amanhecendo, o sol ainda despontando.

Uma lágrima escorrendo com medo dos pesadelos amarrados no laço.

Uma lágrima escorrendo com a alegria retida do abraço.

O Velho se foi. Todas as palavras ditas esquecidas.

Apenas a lembrança do abraço.

O medo dos pesadelos amarrados no laço.

E uma pequena alegria saltitando como uma rã sobre a lâmina d'água.



Nuno g.

Toróró, 05 de maio de 2022.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

mistério das águas e do tempo

tudo é pressentimento e intuição

os passos dos mortos que sobem e descem as escadas

o arco-íris que não se apresenta depois da tempestade

e a luta incessante e feroz entre a carne e a carne

tudo é pressentimento e intuição

os olhos da fera que habita a casamata

e o silêncio, rude e vago, que percorre os entrevãos da sombra

tudo é pressentimento e intuição

a memória, o caminho, a febre

não há outro selo que não seja o da infecção

não há outra via que não seja a da ascensão

por todos os lados o horizonte se estreita

ricos vestidos de ricos se comportam como ricos

enquanto os sábios regressam às selvas e com as mãos em formas de conchas

bebem uma vez mais a límpida água que corre nos rios

o tempo nos atravessa como uma flecha

miríade de flechas e cavalos castanhos

tudo é pressentimento e intuição

nada é em vão - o morto que aqui habita

procura uma boca que lhe abrace a voz

tudo é pressentimento e intuição

a chuva afaga a terra

os ricos se olham como ricos e se pensam ricos

nada lhes basta, nada lhes conforta, nada lhes pertence

os sábios regressam - sempre recordando as dificuldades inerentes a todo regresso

a luta incessante entre o espírito e o espírito

e os paralelepípedos da cidade mágica permanecem inalteráveis

a culpa, o pecado, a cisma

a chuva outra vez e todas suas indistintas promessas

tudo é pressentimento e intuição

nada é em vão - nem o medo, nem a tempestade

o solilóquio dos sábios é composto de música, delicadeza e abruptas revelações

tudo é pressentimento e intuição

a chuva afaga a terra, os olhos do cintilante se fecham,

tudo é turvo, tudo é ascensão:

tudo é pressentimento, tudo é intuição.


nuno g.

Toróró, 28 de abril de 22.


terça-feira, 26 de abril de 2022

asa cálida.

Não creio em coincidências, ou melhor, as desacredito desde antes de acontecerem.

Hoje encontrei uma asa seca no Livro de Adélia.

Os tijolos de minha humilde habitação vão resistindo bem à umidade do primeiro inverno.

Assim como meu Sonho vem resistindo às cento e oitenta mutações de estações.

Meu ombro ainda dói, é certo.

E entre espirros e animais de estimação vamos inaugurando cores.

A mulher que dorme ao meu lado traz a razão no corpo.

E ainda quando bate o vento desconheço-me.

Não desacredito de crença nenhuma.

Quatrocentas e quarenta e sete vezes neguei a mim mesmo.

Nem por isso temo algarismos graúdos.

Um peixe roeu o travesseiro.

A minha dor no ombro é nada ante a ferida do ombro de Cristo.

Sou pálido, antigo e azul.

Ao mesmo tempo.

Como aqueles mapas dos livros de história.

Desconfio severamente que a morte não existe. É um embuste, uma artimanha, um artifício.

O vento proclama e sussurra.

Simultaneamente.

Alguém afagou a parede do convento.

E ela amanheceu ardendo:

Laroyê - pixado em vermelho.

Como o sangue que infla a coroa do pênis.

Levei as crianças à escola.

E tornei a pensar na Senhora de Roxo parindo todas as coisas.

A erva acabou, a chuva passou e os cães estão infectados com carrapatos.

Estranha alegria descortinando a semana.

Quebramos um prato no alvoroço do despertar.

Água, gengibre, mel e alho.

Balneária e incorruptível solidão.

Os astros bailam, meu coração também.

Este cemitério onde semeio flores de São Miguel.

Uivo e existo em sua memória.

E o Cavaleiro da Lua se apresenta com seu séquito de Senhores.

A mulher ao meu lado traz a razão entranhada no corpo.

E quando goza vira terra e calmaria.

Suportar o caminho, refazer os atalhos.

Regar o silêncio dos mortos com café amargo.

Instaurar silêncios sobre os ruídos da relva.

Não creio em coincidências.

Desacredito da morte.

Entre a pixação do convento e a asa seca entre os versos de Adélia

tudo é Sonho, Pressentimento e Ruminação.

A mulher acorda.

Me beija a boca e me diz:

os mortos conhecem todas as línguas...


nuno g.

Toróró, 25 de abril de 2022.



sexta-feira, 22 de abril de 2022

hoje,

um casal de maritacas descansou no galho da mangueira

anteontem uma cobra passou também

Beth Carvalho deu aula

a bursite doeu.

e doeu. e doeu. e doeu.

você ardeu e me ardeu junto.

como se tudo agora fosse parte daquele amanhã

ou como se tudo que está acontecendo sempre estivesse acontecendo

você moveu coisas estacionadas desde há muito

um casal de maritacas descansou no galho da mangueira

a bursite doeu e doeu e doeu

a cobra se foi sem dizer quando volta

Beth Carvalho deu aula

os cães latiram

e nós ardemos.


nuno g.

toróró, 22 de abril de 22.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A dieta do Aroettowaraare

Moela de galinha e fígado por três dias.

Treze de macaxeira à vontade, cozida sem sal.

Vinte e quatro horas de pura água.

Farinha, carne de caça, tabaco e pariká.

Café à exaustão e sol.

Lama e coração de galinha.

Fogo fátuo.

Treze dias de macaxeira à vontade.

Vinte e quatro horas de pura água.

Carne de galo de guerra e prece.

Três dias de jejum e silêncio.

Banho, coragem e despedida.

Outra vez os cílios da morte e as feras do corpo.

Outra vez a imensidão da cegueira.

Até que a flecha cruze o roxo.

E todo o passado seja destituído de forma, conteúdo, sentido e função.


nuno g.

Toróró, 12 de abril de 22.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Psicologia de uma paisagem

Primeiro veio o infiltrado.

Veio de longe, muito longe.

E apagou o rastro das distâncias que percorrera.

Bateu a cabeça e morreu.

Seu corpo se dissolveu em pura música.

Em seguida veio o bebê.

Órfão.

Bateu a cabeça e morreu.

Depois vieram as águas.

Levaram os peixes e as redes dos pescadores.

Voltamos à aldeia.

Às mesmíssimas ilhas de pedras onde nasceram

o mausoléu, as sombras e a encruzilhada.

Fizemos uma grande fogueira no centro do mundo.

Banhamos em sal e ervas os colares e as coroas.

Voltamos à aldeia.

Ao mesmíssimo montículo de areia e solidão onde nasceram

as fúrias, a angústia e as aflições.

Choveu sete dias sobre o reino.

E só então entendemos o que a serpente nos dissera

sobre o nunca, o vazio e o nada.


nuno g.

Stella Maris, 10 de abril.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Hermenegildo

Hermenegildo cruzou outra vez o meu sonho.

Seu cavalo ainda era o mesmo.

Apesar da lança do tempo que agora trazia ao peito.

E ao despertar quase nada recordei.

Somente a conversa entre a minha tristeza e a tristeza de um amigo.

Numa praça onde quando colônia se vendiam escravos.

Um chafariz jorrando águas e machados.

E a memória de um céu amarelado por ondas vulcânicas.

As mensagens da morte nos chegando.

E Hermenegildo seguindo seu caminho.

Com seu cavalo e suas preces manuscritas.

Ainda era em tudo o mesmo.

Apesar da lança do tempo que agora lhe atravessava o peito.

Como um arabesco servindo de ponte.

Ou uma lua nova mergulhando entre o cruzeiro e as três marias.

Havia certa palidez em meus gestos.

E o sentido das coisas parecia para sempre perdido.

Entre os sedimentos porosos e as ruínas ósseas.

Uma leve brisa reacendeu meu cigarro.

E os sapos saltaram sobre as folhas de cartolina.

Não existe atalho. A ideia de salvação é um ato falho.

O laço, o chicote e as corriqueiras hesitações.

Apesar de tudo, Hermenegildo e seu cavalo seguiam sua jornada.


nuno g.

Toróró, 07 de abril de 2022.

terça-feira, 5 de abril de 2022

lírios brancos

chove sobre os séculos que me habitam

e sobre essa infinidade de objetos desconhecidos que me povoam

o entardecer nunca foi tão amarelo quanto ontem

e o laço nunca foi tão preciso e amoroso

chove sobre as dúvidas e aflições que me respiram

e sobre essa infinidade de estranhos afetos entre as ferrugens

o entardecer nunca foi tão roxo e sincero quanto ontem

e o chicote vibrou com a perfeição que exige todo mistério

todo poema é um tratado teológico

e a metafísica é um biscoito doce que se serve com café

fizemos spaguetti com ternura, josefinas, azeitonas e tomates

comemos no jardim com as mãos

olhando esperanças e louva-deuses

enquanto o laço e o chicote traçavam círculos concêntricos

sobre nossas cabeças

sobre nossos desalinhados cabelos

sobre nossas velhas roupas coloridas

Ele veio de longe e nos tocou com suas plumas de arara

percorremos uma vez mais nossas árvores genealógicas

guiados por seu sonho até a fronteira

onde seu avô buscava armas e oxigênio para a sobrevivência

a metafísica é um café amargo que se serve com biscoitos

a onça parda, a pintada e o maracajá

todos rezando sob as lágrimas de Oxalá

os tempos em que vestíamos negro desaparecendo no firmamento

e o gavião pairando sobre nossas delicadezas eróticas

pego um fósforo, acendo o cigarro

brinco de medir as distâncias entre o beijo e o escarro

ao contrário de Suassuna

que escrevia para espantar a morte

escrevemos para não esquecê-la

para sempre recordar que um dia ela chega

raios e tempestades sobre o que somos

e o que somos é sempre o último que nos chega

aos pés da Árvore nossos desejos mais sublimes

e todas aquelas imagens que brotam do pós-apocalipse

nenhum mal dura mil anos

todo poema é um tratado sobre nudez e eternidade

quem me sopra estes delírios com coisas reais?

quem acende entre minhas frestas estas súbitas intuições?

imprecisas inquietações que me flecham

e outras aparições inesperadas

tua avó cozinhando quirerinha

tua avó lapidando diamantes

tua avó fritando bolinhos caipiras

e o vento soprando do infinito

enquanto minhas mãos misturam o suco de limão ao açúcar mascavo

sonhando com os lírios brancos que colheram nos bambuzais...


nuno g.

Toróró, 05 de abril de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

Antropologia II.




Talvez não fossem as falésias de Icapuí.
Talvez fossem os despenhadeiros de Mar del Plata.
Cuscuz com ovo e tapioca com queijo.
Um cheiro que só essa cidade tem né papai!
A vela dos santos.
A vela dos mortos.
Os incensos.
Domingo se encompridando feito cobra que acorda.
O vestido da Inaê.
Um cheirinho que só os bebês têm né papai!
Domingo se encaraminholando feito cobra que anoitece.
A falta que faz um bebê ou um ferro de engomar.
Nem o sabão desencardiu a roupa de reza.
Batem as portas.
Batem as janelas.
Têm muita gente morta que anda comigo.
Adélia Prado também disse dos bebês que são velhinhos.
Adélia disse bonito como eu jamais diria.
O livro em que ela disse se chama:
Quero minha mãe.
Não era Icapuí.
Não era Mar del Plata.
Era a avenida Conde da Boa Vista.
Minha mãe não estava imóvel.
Nenhuma paz lhe habitava.
Seu corpo sem vida no asfalto.
Adélia outra vez:
A morte não existe, tudo gera.
Hermenegildo passou a cavalo.
Os bebês são mesmo os velhinhos que voltam.
Os que morrem regressam à floresta.
As portas batem.
As janelas também.
O vento tange essa procissão de mortos que andam comigo.
Em algum lugar eles seguirão me aguardando.
Com as mãos órfãs estendidas.
E uma tristeza irresistível no olhar.
A morte não existe, tudo gira.
Quase esquecemos os terríveis peixes pré-históricos.
O terror acende náuseas e esquecimentos.
Lembrar que existe uma praia chamada piedade me sufoca.
Ter vivido numa praia chamada futuro me agoniza.
O terror ilumina.
Balanço a rede empurrando o pé na parede de rústicos tijolos.
Esperando que a cobra entorpeça o desespero.
Hermenegildo passou de volta.
Existem feitiços que não podem existir sem sal.
Os bebês são muito mais velhos que nós.
A tristeza só pode ser o que é quando irresistível.


nuno g.
Cachoeira, 03 de abril de 2022.

antropologia.

Estávamos à beira de um penhasco muito alto.

Estávamos contentes e saudáveis.

Não nos comunicávamos.

Nem por palavras, nem por gestos.

Nem por quaisquer outros meios.

O penhasco era muito alto.

As falésias de Icapuí, talvez.

E no fundo uma água transparente.

Peixes pré-históricos ameaçadores.

Estávamos numa singela varanda.

O horizonte era imenso.

E nele se anunciava um arco-íris.

Uma queda seria fatal.

Estávamos imóveis e em paz.

Meu abdômen encharcado de abandono.

Aquele mesmo abandono que você com tanta razão detesta.

pai, quando eu corro muito

       quando eu brinco muito

       minha perna dói

filha, ainda quando eu não corro

         ainda quando eu não brinco

         todos os os meus ossos doem

Acordei bem e razoavelmente amoroso.

Algum dia teríamos que saltar no precipício.

Algum dia teríamos que nadar entre os ameaçadores peixes pré-históricos.

Éramos crianças não contaminadas por infantilismos.

Uma máquina de costurar havia costurado nossos corpos.

Estávamos imóveis e em paz.

Acorrentados à paz.

E nada sabíamos uns dos outros.

Nada além das linhas com as quais a máquina de costura nos costurara.

O penhasco era muito alto.

O horizonte era demasiado extenso.

Talvez estivéssemos em alguma das falésias de Icapuí.

Talvez.


nuno g.

Cachoeira, 01 de abril de 2022.

domingo, 20 de março de 2022

A estrela da montanha

O sol nasceu em Caçapava

Minhas mãos giraram lentamente a clepsidra

E o ontem despontou como horizonte

E o amanhã foi ficando para trás

Nos cobraram muitos pedágios

Até chegarmos ao cume da montanha

Até tocarmos as pétalas da estrela da montanha

Até sentarmos nas memórias que as pedras daqui guardam das pedras de lá

O sol nasceu em Lumiar

E outro Nuno, paraibano

Me estendeu as mãos lentamente

Apenas o som de pássaros e da clepsidra girando

Entre bambuzais e poços de água corrente e refrescante

E outro Nuno, pernambucano

Assumindo seu trono celestial

O buda gigantesco às margens da rodovia que cruza o Espírito Santo

Os peixinhos famintos da parada do Natureza

Os filhos de santo vestidos de branco

A ponte, o hino e o grito de guerra

Ansiedade, risos, doces árabes

Os cães, os gatos, a casinha na árvore

Xadrez, corpos encharcados de saudades

O violão encostado à parede

Benjamin, no parquinho, cobrando:

Quem é o pai de Deus?

Salve Lumiar, viva o Caminho

Saravá são José operário, 

Saravá.


nuno g 

19 de março.


quinta-feira, 17 de março de 2022

Serpentes, flautas, amendoins

Maria sonhou com uma serpente cor de areia

Magnólia me esperava as onze

Onze-e-meia, talvez:

Tio Nuno, sabia que é carnaval

e carnaval é uma festa dos deuses?

Que deuses Magui?

Os orixás

Lembrei de Nanã

Inaê chamou o mar e o mar veio

Lembrei de Nanã

As primeiras palavras que Iara nos disse:

A cachoeira de mamãe Oxum

Lembrei de Nanã

Ele nos esperou na UPA

Trazia uma criança no colo

E estava inquieto e falante

Ele dormiu conosco no acampamento

Sonhei com meu tio

Chupávamos picolés de limão

Sentados numa jangada de pedra

Éramos Ifá e Iroko

Maria confundiu são Vicente com são Sebastião:

Papalino, é aqui que a Francine mora agora?

Recordei Nanã no centro da floresta

Junto ao recém-nascido Miguel

E a serpente cor de areia tomou forma de arco-íris

E subiu aos céus.

 

nuno g.

Lumiar, 16 de março de 2022. 


segunda-feira, 7 de março de 2022

Asas pra que te quero, por Gaeth Castanheiro

Foi de repente

Nem era mais primavera

Mas havia flores no quintal

Havia pássaros passarinhando

Um passinho orquestrado de folia

Até cabia, era carnaval

Até pirata na pirataria

Seguia um passeio em sua nau

Saudade à vista !

Gritou a capitã em plena capitania

Que mania de só querer voar !

São três passarinhos fazendo ninho

Em todo cantinho da terra e do céu

Tudo bem se tem sol se tem chuva

E se tem mel

Passarinhos e flores

Sempre amanhecem no meu quintal


Gaeth Castanheiro

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Sangue.

quando me banhei no rio vermelho ainda não havia nascido

foi antes de minha mãe escutar o meu choro

foi antes do meu pai escutar o meu coração

quando me banhei no rio vermelho senti o frio tocar minha pele

e a força da luz arrebentar os véus de meus olhos

e a ardência do ar rasgar minhas vias respiratórias

ainda não havia nascido

quando me banhei no rio vermelho

meus pais ainda não haviam regressado ao reino dos mortos

e a lua, o sol e as estrelas já estavam ancoradas no firmamento

quando abandonei o mundo do Nada

e senti o sangue do rio lavando os cristais dos meus sonhos

ainda não havia nascido

e não habitava em mim nenhuma consciência sobre meu rosto

quando me banhei no rio vermelho

Uakti cruzou a mata com seu corpo-flauta

com seu corpo-flecha e com os pássaros

que me trouxeram as sementes antigas

quando me banhei no rio vermelho

ainda não existiam lágrimas em meu corpo

e meu espírito já não mais recordava os dias e as noites

em que vagabundeara pela face da terra

quando me banhei no rio vermelho

serpentes dançaram à minha volta

e o Azul e o Amarelo se entrelaçaram no escuro

foi antes do florescer das luzes

quando a terra ainda se chamava Pangeia

e o meu rosto se fez vermelho e vivo

e dele foram apagados quaisquer traços do Esquecimento

quando me banhei no rio vermelho

as mãos firmes e delicadas da Senhora de Roxo

moldaram com lama e água salobra

meu rosto, minha lucidez e a fugaz consciência

do despertencimento que rege meus aéreos movimentos.



nuno g.

Toróró, 17 de fevereiro de 22.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

estudo fino sobre as cores: o sentido do Verde

quem te cedeu as armas de caça?

quem te guiou quando estavas perdido?

acendestes o fogo com azeite de palma

acalmastes o vento com o canto do vento

e olhando as estrelas

viste passar o cortejo dos que aqui não estão

dentro de ti o Azul, o Vermelho e o Negro

dentro de ti os unguentos que serenam a dor

em tua flecha meus pensamentos

em teu caminho minha fé em brasas

acesa com o azeite e com o suor das tuas mãos

apascentada pelo canto dos ventos

não há sobra, não há sombra

o caleidoscópio gira e gira e gira

entretecendo com verdes fios 

o Invisível e o Reino da Matéria.


nuno g.

Toróró, 15 de fevereiro de 2022.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Amarelo.

Para Maria Alice,


quem vem comigo vem de longe

desde o tempo em que o mundo era mata

desde o tempo em que o dentro era idêntico ao fora

desde o tempo em que o acima correspondia ao abaixo

quem vem comigo vem de longe

desde o tempo em que o tempo era árvore de frutos roxos 

e em seus galhos pousavam pássaros amarelos

quem vem comigo vem de longe 

e nada sabe sobre o além da montanha

e nada sabe sobre o além das nuvens

quem vem comigo vem de longe

de mata antiga onde quando no céu reluzia o arco-íris

quem vem comigo te conhece desde antes do antes

quem vem contigo vem de longe

vem de antes do mundo ser mata

de um quando onde não havia ainda um fora e um dentro

de um quando não havia ainda um abaixo e um acima

quem vem contigo vem de longe

desde antes do tempo ser árvore

desde antes de existirem frutos ou pássaros

quem vem contigo anunciou o roxo e o amarelo

e sabe tudo sobre o além das montanhas

e conhece tudo sobre o além das nuvens

quem vem contigo é Tempo

fundador da mata, senhor do arco-íris

Árvore.


nuno g.

Toróró, 13 de fevereiro de 2022.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

As mortes e as mortes de meu pai

para Nuno Guedes Pereira


muitas e muitas vezes só desejei teu colo

ou uma morte suave e delicada como o beijo do inimigo

o que é o mesmo dito com outras palavras

muitas e muitas vezes cruzei as ruas da cidadela

entre ventos, poeira e raios de sol

a alça do caixão à mão direita

ou esse nome pesado sobre a coroa de meu destino

o que é o mesmo vivido com outros gestos

muitas e muitas vezes enterrei meu pai

entre as teias de aranha suspensas no quadro da sala

ou entre as dobras do redemoinho do esquecimento

o que é o mesmo pintado com outras cores

muitas e muitas vezes beijei a boca da insônia

e cavalguei no alazão acinzentado

como se soubesse que ao fim da estrada

me aguardava uma borboleta dourada

um menino com nome de archanjo

e a terra fria onde repousariam minhas densas carnes

tantas vezes escutei o cantar dos galos e o soar dos sinos prateados

e olhei com olhos de açoite o azul do céu

ouvindo o crepitar da lenha à ação do fogo

aqui meus guias em força e luz

e minha sina de ser sempre firme sobre todas as coisas

caminhar às águas ou ascender aos céus

o que é o mesmo pronunciado em outra língua

muitas e tantas vezes só desejei o sono

e não ter que nunca mais enterrar meu pai

sob o fundamento onde o mistério deitou raízes

ásperas, severas, inesgotáveis.


nuno g.

Toróró, 10 de fevereiro de 2022.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Estudo fino das cores ou o nascimento do Roxo.

para Maria Alice, 
para Você, 
para...


Entre o Azul e o Amarelo

Entre o Negro e o Vermelho

No lodaçal do pântano

Entre caranguejos e siris

Entre a lama e a lama

Nasceu o Roxo

E com ele Nanã, a Velha Senhora

E com ele Miguel, o Archanjo

Assim nasceu o Roxo

E com ele o amor de uma geração à outra

E com ele o mangue onde o doce se mescla ao salgado

E com ele os dias em que os seres de Ar assentam

E com garras e dentes

Vão enchendo de barro o lugar onde semearão

Entre o Amarelo e o Azul

Entre o Vermelho e o Negro

Entre os pássaros de todas as cores

Voando em direção à montanha mais alta

Onde se encontra a Árvore do Mundo

Entre as serpentes de todas as cores

Voando em direção à montanha mais antiga

Onde cresce a Árvore do Mundo

De onde brotam como frutas todas as cores do Mundo

O Azul, o Amarelo, o Negro, o Vermelho e o

Roxo.



nuno g.

Toróró, 25 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Canto à Serpente

me vesti com tuas lágrimas, Verdes

como a mata onde debulhamos as folhas de Tempo,

e subi a ladeira do Sonho

guiado por Ele, Vermelho e Preto

nascido no quando da terra da mata

e subi a ladeira das águas doces, Verdes

como as lágrimas tuas que debulhamos na mata

e me vesti com as folhas de Tempo

guiado por Ele, subi a colina agarrado às contas do santo Rosário

e me ajoelhei aos pés do cruzeiro

erguido no quando da terra da mata

entre as folhas de Tempo e as quedas de águas doces

entre o Sonho, a ladeira, a Serpente e as lágrimas.



nuno g.

Cachoeira, 20 de janeiro de 2022.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Quando tudo era mato



quando tudo era mato

só havia Caminho e Mistério

ainda a Morte

era Caminho era Mistério

quando tudo era mato

e ainda não havia nenhum labirinto

também o Terror

era Caminho e Mistério

quando tudo era mato

nasceu Dan – e com ela todas as cores

quando tudo era mato

tudo era Caminho era Mistério

até que Dan acendeu no coração das águas o fogo

entre o Terror e a Morte

entre o Tempo das coisas que ainda não chegaram

e o Tempo das coisas que não terminaram de dissolver

tudo era mato – Caminho e Mistério

o Terror era o Temor que nos albergava do labirinto da história

a Morte era quem nos acarinhava

e o Nada seguia sendo desconhecido

nossas mãos eram mais singelas

e delas emanava mais amor mais alegria

quando tudo era mato

as escamas do céu

também eram Caminho e Mistério

imenso escudo Azul e Amarelo

nos guardando do labirinto das feras

Dan, enrolada na árvore chamada Tempo

regressava assim aos confins do íntimo

ao Tempo onde tudo era mato

e o Nada não havia ainda

quando tudo era mato

o Povo da Palha se deixava ver

e sua voz se ouvia

quando tudo era mato

as plumas de Dan

reinavam sobre a memória do labirinto

as plumas de cores

entre o fogo e as águas

entre o mato e o mato

entre o Amarelo do ouro e o Azul

entre o Amarelo do mel e o Azul

entre o escudo e os olhos

entre os nossos pequenos sonhos noturnos

e o grande Sonho desse pássaro chamado Noite

que dorme na árvore de Tempo

junto a Dan, a serpente que traz todas as cores

quando tudo volta a ser mato

e ante a inexistência do Nada

tudo volta a ser o que era – Caminho e Mistério:

as escamas coloridas no céu

nos protegem uma vez mais do Terror da história

e do labirinto absurdo onde reina o Nada.



nuno g.

16 de janeiro de 2022.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Vamos gritar Piedade !, por Gaeth Castanheiro

No avesso havia um verso
Uma desavença inversa
Ao verso feito do avesso
Não há preço só há pressa
Só a presa se apressa em fugir
E esse verso feito ferro
Não o ferro de ferir
Mas o ferro de forjar
O ir e vir sempre indo
Sempre lindo
Sempre vindo como quem vai
E esse verso dentro do nosso avesso
Deixa aceso o fogo
Da poesia água
Que lavanda nossa eterna praça
Piedade poesia piedade.

Margareth Castanheiro

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Ciranda

meu coração-criança chora

mas o mundo não está para lágrimas

meu coração-criança grita

mas o tempo não está para gritos

tem muita gente morando nas ruas

tem muito silêncio nadando no rio

mataram meu pai tantas vezes

que já pouco importa

meu coração-criança se devora

mas o tempo e o mundo não estão para isso

peço perdão a deus e agradeço

pelo que não fiz

por não ter invertido o sentido dos versos de São Francisco

meu coração-criança abre janelas e portas

deixa entrar a brisa da madrugada

e o som dos grilos que rezam lá fora

meu coração-criança cansou

mas o mundo e o tempo não estão para cansaços

agradeço a deus e suplico perdão

pelo que não fiz

por não ter invertido os versos de São Francisco

mataram meu pai tantas vezes

que já pouco importa

tem muita fome passeando às ruas

tem muita sede dormindo às praças

meu coração-criança corre

atravessa os jardins da Senhora

mergulha nas espinhas oceânicas

em busca de uma nuvem

para fazer de montaria

meu coração-criança brinca de ser coral entre nenúfares

mas o tempo não está para brincadeiras

e o mundo é mais cortante e perigoso que qualquer coral

meu coração-criança dança

atravessa os labirintos da floresta

seguindo o serpentear da cobra coral

em busca de uma nuvem

para fazer de montaria

meu coração-criança não dorme

tem muita miséria nas cidades

tem muita matéria na memória

tem muita cegueira e densidade

meu coração-criança desperta

fora do mundo, longe do tempo

escala árvores como se fosse um gato

e como um gato escapa na imensidão do firmamento

mataram meu pai tantas vezes

que quase me convenceram que isso nada importa

meu coração-criança não esquece

grita chora e se devora

mas o tempo não está para gritos

nem o mundo está para lágrimas

meu coração-criança se alegra

de não ter invertido os versos de São Francisco

corre brinca dança celebra

ainda sabendo que o tempo não está para isso

meu coração-criança adormece

escala árvores como se fosse uma onça

e, onça que é, desaparece na imensidão Azul do firmamento.

nuno g.
Toróró, 02 de janeiro de 2022.