sexta-feira, 6 de maio de 2022

Sonhos



Para Akira Kurosawa



Alta noite, o elefante subiu o rio na canoa.

Passarinho veio bem perto e olhou muito dentro.

Tão dentro que corpo se fez rio.

O Velho veio todo de branco.

Como os grãos de milho que seu braço arremessara em direção à pedra.

Um laço de cipó amarrou os pesadelos todos.

O Velho veio e me abraçou demoradamente.

Amanhecendo, o sol ainda despontando.

Uma lágrima escorrendo com medo dos pesadelos amarrados no laço.

Uma lágrima escorrendo com a alegria retida do abraço.

O Velho se foi. Todas as palavras ditas esquecidas.

Apenas a lembrança do abraço.

O medo dos pesadelos amarrados no laço.

E uma pequena alegria saltitando como uma rã sobre a lâmina d'água.



Nuno g.

Toróró, 05 de maio de 2022.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

mistério das águas e do tempo

tudo é pressentimento e intuição

os passos dos mortos que sobem e descem as escadas

o arco-íris que não se apresenta depois da tempestade

e a luta incessante e feroz entre a carne e a carne

tudo é pressentimento e intuição

os olhos da fera que habita a casamata

e o silêncio, rude e vago, que percorre os entrevãos da sombra

tudo é pressentimento e intuição

a memória, o caminho, a febre

não há outro selo que não seja o da infecção

não há outra via que não seja a da ascensão

por todos os lados o horizonte se estreita

ricos vestidos de ricos se comportam como ricos

enquanto os sábios regressam às selvas e com as mãos em formas de conchas

bebem uma vez mais a límpida água que corre nos rios

o tempo nos atravessa como uma flecha

miríade de flechas e cavalos castanhos

tudo é pressentimento e intuição

nada é em vão - o morto que aqui habita

procura uma boca que lhe abrace a voz

tudo é pressentimento e intuição

a chuva afaga a terra

os ricos se olham como ricos e se pensam ricos

nada lhes basta, nada lhes conforta, nada lhes pertence

os sábios regressam - sempre recordando as dificuldades inerentes a todo regresso

a luta incessante entre o espírito e o espírito

e os paralelepípedos da cidade mágica permanecem inalteráveis

a culpa, o pecado, a cisma

a chuva outra vez e todas suas indistintas promessas

tudo é pressentimento e intuição

nada é em vão - nem o medo, nem a tempestade

o solilóquio dos sábios é composto de música, delicadeza e abruptas revelações

tudo é pressentimento e intuição

a chuva afaga a terra, os olhos do cintilante se fecham,

tudo é turvo, tudo é ascensão:

tudo é pressentimento, tudo é intuição.


nuno g.

Toróró, 28 de abril de 22.


terça-feira, 26 de abril de 2022

asa cálida.

Não creio em coincidências, ou melhor, as desacredito desde antes de acontecerem.

Hoje encontrei uma asa seca no Livro de Adélia.

Os tijolos de minha humilde habitação vão resistindo bem à umidade do primeiro inverno.

Assim como meu Sonho vem resistindo às cento e oitenta mutações de estações.

Meu ombro ainda dói, é certo.

E entre espirros e animais de estimação vamos inaugurando cores.

A mulher que dorme ao meu lado traz a razão no corpo.

E ainda quando bate o vento desconheço-me.

Não desacredito de crença nenhuma.

Quatrocentas e quarenta e sete vezes neguei a mim mesmo.

Nem por isso temo algarismos graúdos.

Um peixe roeu o travesseiro.

A minha dor no ombro é nada ante a ferida do ombro de Cristo.

Sou pálido, antigo e azul.

Ao mesmo tempo.

Como aqueles mapas dos livros de história.

Desconfio severamente que a morte não existe. É um embuste, uma artimanha, um artifício.

O vento proclama e sussurra.

Simultaneamente.

Alguém afagou a parede do convento.

E ela amanheceu ardendo:

Laroyê - pixado em vermelho.

Como o sangue que infla a coroa do pênis.

Levei as crianças à escola.

E tornei a pensar na Senhora de Roxo parindo todas as coisas.

A erva acabou, a chuva passou e os cães estão infectados com carrapatos.

Estranha alegria descortinando a semana.

Quebramos um prato no alvoroço do despertar.

Água, gengibre, mel e alho.

Balneária e incorruptível solidão.

Os astros bailam, meu coração também.

Este cemitério onde semeio flores de São Miguel.

Uivo e existo em sua memória.

E o Cavaleiro da Lua se apresenta com seu séquito de Senhores.

A mulher ao meu lado traz a razão entranhada no corpo.

E quando goza vira terra e calmaria.

Suportar o caminho, refazer os atalhos.

Regar o silêncio dos mortos com café amargo.

Instaurar silêncios sobre os ruídos da relva.

Não creio em coincidências.

Desacredito da morte.

Entre a pixação do convento e a asa seca entre os versos de Adélia

tudo é Sonho, Pressentimento e Ruminação.

A mulher acorda.

Me beija a boca e me diz:

os mortos conhecem todas as línguas...


nuno g.

Toróró, 25 de abril de 2022.



sexta-feira, 22 de abril de 2022

hoje,

um casal de maritacas descansou no galho da mangueira

anteontem uma cobra passou também

Beth Carvalho deu aula

a bursite doeu.

e doeu. e doeu. e doeu.

você ardeu e me ardeu junto.

como se tudo agora fosse parte daquele amanhã

ou como se tudo que está acontecendo sempre estivesse acontecendo

você moveu coisas estacionadas desde há muito

um casal de maritacas descansou no galho da mangueira

a bursite doeu e doeu e doeu

a cobra se foi sem dizer quando volta

Beth Carvalho deu aula

os cães latiram

e nós ardemos.


nuno g.

toróró, 22 de abril de 22.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A dieta do Aroettowaraare

Moela de galinha e fígado por três dias.

Treze de macaxeira à vontade, cozida sem sal.

Vinte e quatro horas de pura água.

Farinha, carne de caça, tabaco e pariká.

Café à exaustão e sol.

Lama e coração de galinha.

Fogo fátuo.

Treze dias de macaxeira à vontade.

Vinte e quatro horas de pura água.

Carne de galo de guerra e prece.

Três dias de jejum e silêncio.

Banho, coragem e despedida.

Outra vez os cílios da morte e as feras do corpo.

Outra vez a imensidão da cegueira.

Até que a flecha cruze o roxo.

E todo o passado seja destituído de forma, conteúdo, sentido e função.


nuno g.

Toróró, 12 de abril de 22.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Psicologia de uma paisagem

Primeiro veio o infiltrado.

Veio de longe, muito longe.

E apagou o rastro das distâncias que percorrera.

Bateu a cabeça e morreu.

Seu corpo se dissolveu em pura música.

Em seguida veio o bebê.

Órfão.

Bateu a cabeça e morreu.

Depois vieram as águas.

Levaram os peixes e as redes dos pescadores.

Voltamos à aldeia.

Às mesmíssimas ilhas de pedras onde nasceram

o mausoléu, as sombras e a encruzilhada.

Fizemos uma grande fogueira no centro do mundo.

Banhamos em sal e ervas os colares e as coroas.

Voltamos à aldeia.

Ao mesmíssimo montículo de areia e solidão onde nasceram

as fúrias, a angústia e as aflições.

Choveu sete dias sobre o reino.

E só então entendemos o que a serpente nos dissera

sobre o nunca, o vazio e o nada.


nuno g.

Stella Maris, 10 de abril.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Hermenegildo

Hermenegildo cruzou outra vez o meu sonho.

Seu cavalo ainda era o mesmo.

Apesar da lança do tempo que agora trazia ao peito.

E ao despertar quase nada recordei.

Somente a conversa entre a minha tristeza e a tristeza de um amigo.

Numa praça onde quando colônia se vendiam escravos.

Um chafariz jorrando águas e machados.

E a memória de um céu amarelado por ondas vulcânicas.

As mensagens da morte nos chegando.

E Hermenegildo seguindo seu caminho.

Com seu cavalo e suas preces manuscritas.

Ainda era em tudo o mesmo.

Apesar da lança do tempo que agora lhe atravessava o peito.

Como um arabesco servindo de ponte.

Ou uma lua nova mergulhando entre o cruzeiro e as três marias.

Havia certa palidez em meus gestos.

E o sentido das coisas parecia para sempre perdido.

Entre os sedimentos porosos e as ruínas ósseas.

Uma leve brisa reacendeu meu cigarro.

E os sapos saltaram sobre as folhas de cartolina.

Não existe atalho. A ideia de salvação é um ato falho.

O laço, o chicote e as corriqueiras hesitações.

Apesar de tudo, Hermenegildo e seu cavalo seguiam sua jornada.


nuno g.

Toróró, 07 de abril de 2022.

terça-feira, 5 de abril de 2022

lírios brancos

chove sobre os séculos que me habitam

e sobre essa infinidade de objetos desconhecidos que me povoam

o entardecer nunca foi tão amarelo quanto ontem

e o laço nunca foi tão preciso e amoroso

chove sobre as dúvidas e aflições que me respiram

e sobre essa infinidade de estranhos afetos entre as ferrugens

o entardecer nunca foi tão roxo e sincero quanto ontem

e o chicote vibrou com a perfeição que exige todo mistério

todo poema é um tratado teológico

e a metafísica é um biscoito doce que se serve com café

fizemos spaguetti com ternura, josefinas, azeitonas e tomates

comemos no jardim com as mãos

olhando esperanças e louva-deuses

enquanto o laço e o chicote traçavam círculos concêntricos

sobre nossas cabeças

sobre nossos desalinhados cabelos

sobre nossas velhas roupas coloridas

Ele veio de longe e nos tocou com suas plumas de arara

percorremos uma vez mais nossas árvores genealógicas

guiados por seu sonho até a fronteira

onde seu avô buscava armas e oxigênio para a sobrevivência

a metafísica é um café amargo que se serve com biscoitos

a onça parda, a pintada e o maracajá

todos rezando sob as lágrimas de Oxalá

os tempos em que vestíamos negro desaparecendo no firmamento

e o gavião pairando sobre nossas delicadezas eróticas

pego um fósforo, acendo o cigarro

brinco de medir as distâncias entre o beijo e o escarro

ao contrário de Suassuna

que escrevia para espantar a morte

escrevemos para não esquecê-la

para sempre recordar que um dia ela chega

raios e tempestades sobre o que somos

e o que somos é sempre o último que nos chega

aos pés da Árvore nossos desejos mais sublimes

e todas aquelas imagens que brotam do pós-apocalipse

nenhum mal dura mil anos

todo poema é um tratado sobre nudez e eternidade

quem me sopra estes delírios com coisas reais?

quem acende entre minhas frestas estas súbitas intuições?

imprecisas inquietações que me flecham

e outras aparições inesperadas

tua avó cozinhando quirerinha

tua avó lapidando diamantes

tua avó fritando bolinhos caipiras

e o vento soprando do infinito

enquanto minhas mãos misturam o suco de limão ao açúcar mascavo

sonhando com os lírios brancos que colheram nos bambuzais...


nuno g.

Toróró, 05 de abril de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

Antropologia II.




Talvez não fossem as falésias de Icapuí.
Talvez fossem os despenhadeiros de Mar del Plata.
Cuscuz com ovo e tapioca com queijo.
Um cheiro que só essa cidade tem né papai!
A vela dos santos.
A vela dos mortos.
Os incensos.
Domingo se encompridando feito cobra que acorda.
O vestido da Inaê.
Um cheirinho que só os bebês têm né papai!
Domingo se encaraminholando feito cobra que anoitece.
A falta que faz um bebê ou um ferro de engomar.
Nem o sabão desencardiu a roupa de reza.
Batem as portas.
Batem as janelas.
Têm muita gente morta que anda comigo.
Adélia Prado também disse dos bebês que são velhinhos.
Adélia disse bonito como eu jamais diria.
O livro em que ela disse se chama:
Quero minha mãe.
Não era Icapuí.
Não era Mar del Plata.
Era a avenida Conde da Boa Vista.
Minha mãe não estava imóvel.
Nenhuma paz lhe habitava.
Seu corpo sem vida no asfalto.
Adélia outra vez:
A morte não existe, tudo gera.
Hermenegildo passou a cavalo.
Os bebês são mesmo os velhinhos que voltam.
Os que morrem regressam à floresta.
As portas batem.
As janelas também.
O vento tange essa procissão de mortos que andam comigo.
Em algum lugar eles seguirão me aguardando.
Com as mãos órfãs estendidas.
E uma tristeza irresistível no olhar.
A morte não existe, tudo gira.
Quase esquecemos os terríveis peixes pré-históricos.
O terror acende náuseas e esquecimentos.
Lembrar que existe uma praia chamada piedade me sufoca.
Ter vivido numa praia chamada futuro me agoniza.
O terror ilumina.
Balanço a rede empurrando o pé na parede de rústicos tijolos.
Esperando que a cobra entorpeça o desespero.
Hermenegildo passou de volta.
Existem feitiços que não podem existir sem sal.
Os bebês são muito mais velhos que nós.
A tristeza só pode ser o que é quando irresistível.


nuno g.
Cachoeira, 03 de abril de 2022.

antropologia.

Estávamos à beira de um penhasco muito alto.

Estávamos contentes e saudáveis.

Não nos comunicávamos.

Nem por palavras, nem por gestos.

Nem por quaisquer outros meios.

O penhasco era muito alto.

As falésias de Icapuí, talvez.

E no fundo uma água transparente.

Peixes pré-históricos ameaçadores.

Estávamos numa singela varanda.

O horizonte era imenso.

E nele se anunciava um arco-íris.

Uma queda seria fatal.

Estávamos imóveis e em paz.

Meu abdômen encharcado de abandono.

Aquele mesmo abandono que você com tanta razão detesta.

pai, quando eu corro muito

       quando eu brinco muito

       minha perna dói

filha, ainda quando eu não corro

         ainda quando eu não brinco

         todos os os meus ossos doem

Acordei bem e razoavelmente amoroso.

Algum dia teríamos que saltar no precipício.

Algum dia teríamos que nadar entre os ameaçadores peixes pré-históricos.

Éramos crianças não contaminadas por infantilismos.

Uma máquina de costurar havia costurado nossos corpos.

Estávamos imóveis e em paz.

Acorrentados à paz.

E nada sabíamos uns dos outros.

Nada além das linhas com as quais a máquina de costura nos costurara.

O penhasco era muito alto.

O horizonte era demasiado extenso.

Talvez estivéssemos em alguma das falésias de Icapuí.

Talvez.


nuno g.

Cachoeira, 01 de abril de 2022.

domingo, 20 de março de 2022

A estrela da montanha

O sol nasceu em Caçapava

Minhas mãos giraram lentamente a clepsidra

E o ontem despontou como horizonte

E o amanhã foi ficando para trás

Nos cobraram muitos pedágios

Até chegarmos ao cume da montanha

Até tocarmos as pétalas da estrela da montanha

Até sentarmos nas memórias que as pedras daqui guardam das pedras de lá

O sol nasceu em Lumiar

E outro Nuno, paraibano

Me estendeu as mãos lentamente

Apenas o som de pássaros e da clepsidra girando

Entre bambuzais e poços de água corrente e refrescante

E outro Nuno, pernambucano

Assumindo seu trono celestial

O buda gigantesco às margens da rodovia que cruza o Espírito Santo

Os peixinhos famintos da parada do Natureza

Os filhos de santo vestidos de branco

A ponte, o hino e o grito de guerra

Ansiedade, risos, doces árabes

Os cães, os gatos, a casinha na árvore

Xadrez, corpos encharcados de saudades

O violão encostado à parede

Benjamin, no parquinho, cobrando:

Quem é o pai de Deus?

Salve Lumiar, viva o Caminho

Saravá são José operário, 

Saravá.


nuno g 

19 de março.


quinta-feira, 17 de março de 2022

Serpentes, flautas, amendoins

Maria sonhou com uma serpente cor de areia

Magnólia me esperava as onze

Onze-e-meia, talvez:

Tio Nuno, sabia que é carnaval

e carnaval é uma festa dos deuses?

Que deuses Magui?

Os orixás

Lembrei de Nanã

Inaê chamou o mar e o mar veio

Lembrei de Nanã

As primeiras palavras que Iara nos disse:

A cachoeira de mamãe Oxum

Lembrei de Nanã

Ele nos esperou na UPA

Trazia uma criança no colo

E estava inquieto e falante

Ele dormiu conosco no acampamento

Sonhei com meu tio

Chupávamos picolés de limão

Sentados numa jangada de pedra

Éramos Ifá e Iroko

Maria confundiu são Vicente com são Sebastião:

Papalino, é aqui que a Francine mora agora?

Recordei Nanã no centro da floresta

Junto ao recém-nascido Miguel

E a serpente cor de areia tomou forma de arco-íris

E subiu aos céus.

 

nuno g.

Lumiar, 16 de março de 2022. 


segunda-feira, 7 de março de 2022

Asas pra que te quero, por Gaeth Castanheiro

Foi de repente

Nem era mais primavera

Mas havia flores no quintal

Havia pássaros passarinhando

Um passinho orquestrado de folia

Até cabia, era carnaval

Até pirata na pirataria

Seguia um passeio em sua nau

Saudade à vista !

Gritou a capitã em plena capitania

Que mania de só querer voar !

São três passarinhos fazendo ninho

Em todo cantinho da terra e do céu

Tudo bem se tem sol se tem chuva

E se tem mel

Passarinhos e flores

Sempre amanhecem no meu quintal


Gaeth Castanheiro

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Sangue.

quando me banhei no rio vermelho ainda não havia nascido

foi antes de minha mãe escutar o meu choro

foi antes do meu pai escutar o meu coração

quando me banhei no rio vermelho senti o frio tocar minha pele

e a força da luz arrebentar os véus de meus olhos

e a ardência do ar rasgar minhas vias respiratórias

ainda não havia nascido

quando me banhei no rio vermelho

meus pais ainda não haviam regressado ao reino dos mortos

e a lua, o sol e as estrelas já estavam ancoradas no firmamento

quando abandonei o mundo do Nada

e senti o sangue do rio lavando os cristais dos meus sonhos

ainda não havia nascido

e não habitava em mim nenhuma consciência sobre meu rosto

quando me banhei no rio vermelho

Uakti cruzou a mata com seu corpo-flauta

com seu corpo-flecha e com os pássaros

que me trouxeram as sementes antigas

quando me banhei no rio vermelho

ainda não existiam lágrimas em meu corpo

e meu espírito já não mais recordava os dias e as noites

em que vagabundeara pela face da terra

quando me banhei no rio vermelho

serpentes dançaram à minha volta

e o Azul e o Amarelo se entrelaçaram no escuro

foi antes do florescer das luzes

quando a terra ainda se chamava Pangeia

e o meu rosto se fez vermelho e vivo

e dele foram apagados quaisquer traços do Esquecimento

quando me banhei no rio vermelho

as mãos firmes e delicadas da Senhora de Roxo

moldaram com lama e água salobra

meu rosto, minha lucidez e a fugaz consciência

do despertencimento que rege meus aéreos movimentos.



nuno g.

Toróró, 17 de fevereiro de 22.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

estudo fino sobre as cores: o sentido do Verde

quem te cedeu as armas de caça?

quem te guiou quando estavas perdido?

acendestes o fogo com azeite de palma

acalmastes o vento com o canto do vento

e olhando as estrelas

viste passar o cortejo dos que aqui não estão

dentro de ti o Azul, o Vermelho e o Negro

dentro de ti os unguentos que serenam a dor

em tua flecha meus pensamentos

em teu caminho minha fé em brasas

acesa com o azeite e com o suor das tuas mãos

apascentada pelo canto dos ventos

não há sobra, não há sombra

o caleidoscópio gira e gira e gira

entretecendo com verdes fios 

o Invisível e o Reino da Matéria.


nuno g.

Toróró, 15 de fevereiro de 2022.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Amarelo.

Para Maria Alice,


quem vem comigo vem de longe

desde o tempo em que o mundo era mata

desde o tempo em que o dentro era idêntico ao fora

desde o tempo em que o acima correspondia ao abaixo

quem vem comigo vem de longe

desde o tempo em que o tempo era árvore de frutos roxos 

e em seus galhos pousavam pássaros amarelos

quem vem comigo vem de longe 

e nada sabe sobre o além da montanha

e nada sabe sobre o além das nuvens

quem vem comigo vem de longe

de mata antiga onde quando no céu reluzia o arco-íris

quem vem comigo te conhece desde antes do antes

quem vem contigo vem de longe

vem de antes do mundo ser mata

de um quando onde não havia ainda um fora e um dentro

de um quando não havia ainda um abaixo e um acima

quem vem contigo vem de longe

desde antes do tempo ser árvore

desde antes de existirem frutos ou pássaros

quem vem contigo anunciou o roxo e o amarelo

e sabe tudo sobre o além das montanhas

e conhece tudo sobre o além das nuvens

quem vem contigo é Tempo

fundador da mata, senhor do arco-íris

Árvore.


nuno g.

Toróró, 13 de fevereiro de 2022.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

As mortes e as mortes de meu pai

para Nuno Guedes Pereira


muitas e muitas vezes só desejei teu colo

ou uma morte suave e delicada como o beijo do inimigo

o que é o mesmo dito com outras palavras

muitas e muitas vezes cruzei as ruas da cidadela

entre ventos, poeira e raios de sol

a alça do caixão à mão direita

ou esse nome pesado sobre a coroa de meu destino

o que é o mesmo vivido com outros gestos

muitas e muitas vezes enterrei meu pai

entre as teias de aranha suspensas no quadro da sala

ou entre as dobras do redemoinho do esquecimento

o que é o mesmo pintado com outras cores

muitas e muitas vezes beijei a boca da insônia

e cavalguei no alazão acinzentado

como se soubesse que ao fim da estrada

me aguardava uma borboleta dourada

um menino com nome de archanjo

e a terra fria onde repousariam minhas densas carnes

tantas vezes escutei o cantar dos galos e o soar dos sinos prateados

e olhei com olhos de açoite o azul do céu

ouvindo o crepitar da lenha à ação do fogo

aqui meus guias em força e luz

e minha sina de ser sempre firme sobre todas as coisas

caminhar às águas ou ascender aos céus

o que é o mesmo pronunciado em outra língua

muitas e tantas vezes só desejei o sono

e não ter que nunca mais enterrar meu pai

sob o fundamento onde o mistério deitou raízes

ásperas, severas, inesgotáveis.


nuno g.

Toróró, 10 de fevereiro de 2022.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Estudo fino das cores ou o nascimento do Roxo.

para Maria Alice, 
para Você, 
para...


Entre o Azul e o Amarelo

Entre o Negro e o Vermelho

No lodaçal do pântano

Entre caranguejos e siris

Entre a lama e a lama

Nasceu o Roxo

E com ele Nanã, a Velha Senhora

E com ele Miguel, o Archanjo

Assim nasceu o Roxo

E com ele o amor de uma geração à outra

E com ele o mangue onde o doce se mescla ao salgado

E com ele os dias em que os seres de Ar assentam

E com garras e dentes

Vão enchendo de barro o lugar onde semearão

Entre o Amarelo e o Azul

Entre o Vermelho e o Negro

Entre os pássaros de todas as cores

Voando em direção à montanha mais alta

Onde se encontra a Árvore do Mundo

Entre as serpentes de todas as cores

Voando em direção à montanha mais antiga

Onde cresce a Árvore do Mundo

De onde brotam como frutas todas as cores do Mundo

O Azul, o Amarelo, o Negro, o Vermelho e o

Roxo.



nuno g.

Toróró, 25 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Canto à Serpente

me vesti com tuas lágrimas, Verdes

como a mata onde debulhamos as folhas de Tempo,

e subi a ladeira do Sonho

guiado por Ele, Vermelho e Preto

nascido no quando da terra da mata

e subi a ladeira das águas doces, Verdes

como as lágrimas tuas que debulhamos na mata

e me vesti com as folhas de Tempo

guiado por Ele, subi a colina agarrado às contas do santo Rosário

e me ajoelhei aos pés do cruzeiro

erguido no quando da terra da mata

entre as folhas de Tempo e as quedas de águas doces

entre o Sonho, a ladeira, a Serpente e as lágrimas.



nuno g.

Cachoeira, 20 de janeiro de 2022.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Quando tudo era mato



quando tudo era mato

só havia Caminho e Mistério

ainda a Morte

era Caminho era Mistério

quando tudo era mato

e ainda não havia nenhum labirinto

também o Terror

era Caminho e Mistério

quando tudo era mato

nasceu Dan – e com ela todas as cores

quando tudo era mato

tudo era Caminho era Mistério

até que Dan acendeu no coração das águas o fogo

entre o Terror e a Morte

entre o Tempo das coisas que ainda não chegaram

e o Tempo das coisas que não terminaram de dissolver

tudo era mato – Caminho e Mistério

o Terror era o Temor que nos albergava do labirinto da história

a Morte era quem nos acarinhava

e o Nada seguia sendo desconhecido

nossas mãos eram mais singelas

e delas emanava mais amor mais alegria

quando tudo era mato

as escamas do céu

também eram Caminho e Mistério

imenso escudo Azul e Amarelo

nos guardando do labirinto das feras

Dan, enrolada na árvore chamada Tempo

regressava assim aos confins do íntimo

ao Tempo onde tudo era mato

e o Nada não havia ainda

quando tudo era mato

o Povo da Palha se deixava ver

e sua voz se ouvia

quando tudo era mato

as plumas de Dan

reinavam sobre a memória do labirinto

as plumas de cores

entre o fogo e as águas

entre o mato e o mato

entre o Amarelo do ouro e o Azul

entre o Amarelo do mel e o Azul

entre o escudo e os olhos

entre os nossos pequenos sonhos noturnos

e o grande Sonho desse pássaro chamado Noite

que dorme na árvore de Tempo

junto a Dan, a serpente que traz todas as cores

quando tudo volta a ser mato

e ante a inexistência do Nada

tudo volta a ser o que era – Caminho e Mistério:

as escamas coloridas no céu

nos protegem uma vez mais do Terror da história

e do labirinto absurdo onde reina o Nada.



nuno g.

16 de janeiro de 2022.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Vamos gritar Piedade !, por Gaeth Castanheiro

No avesso havia um verso
Uma desavença inversa
Ao verso feito do avesso
Não há preço só há pressa
Só a presa se apressa em fugir
E esse verso feito ferro
Não o ferro de ferir
Mas o ferro de forjar
O ir e vir sempre indo
Sempre lindo
Sempre vindo como quem vai
E esse verso dentro do nosso avesso
Deixa aceso o fogo
Da poesia água
Que lavanda nossa eterna praça
Piedade poesia piedade.

Margareth Castanheiro

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Ciranda

meu coração-criança chora

mas o mundo não está para lágrimas

meu coração-criança grita

mas o tempo não está para gritos

tem muita gente morando nas ruas

tem muito silêncio nadando no rio

mataram meu pai tantas vezes

que já pouco importa

meu coração-criança se devora

mas o tempo e o mundo não estão para isso

peço perdão a deus e agradeço

pelo que não fiz

por não ter invertido o sentido dos versos de São Francisco

meu coração-criança abre janelas e portas

deixa entrar a brisa da madrugada

e o som dos grilos que rezam lá fora

meu coração-criança cansou

mas o mundo e o tempo não estão para cansaços

agradeço a deus e suplico perdão

pelo que não fiz

por não ter invertido os versos de São Francisco

mataram meu pai tantas vezes

que já pouco importa

tem muita fome passeando às ruas

tem muita sede dormindo às praças

meu coração-criança corre

atravessa os jardins da Senhora

mergulha nas espinhas oceânicas

em busca de uma nuvem

para fazer de montaria

meu coração-criança brinca de ser coral entre nenúfares

mas o tempo não está para brincadeiras

e o mundo é mais cortante e perigoso que qualquer coral

meu coração-criança dança

atravessa os labirintos da floresta

seguindo o serpentear da cobra coral

em busca de uma nuvem

para fazer de montaria

meu coração-criança não dorme

tem muita miséria nas cidades

tem muita matéria na memória

tem muita cegueira e densidade

meu coração-criança desperta

fora do mundo, longe do tempo

escala árvores como se fosse um gato

e como um gato escapa na imensidão do firmamento

mataram meu pai tantas vezes

que quase me convenceram que isso nada importa

meu coração-criança não esquece

grita chora e se devora

mas o tempo não está para gritos

nem o mundo está para lágrimas

meu coração-criança se alegra

de não ter invertido os versos de São Francisco

corre brinca dança celebra

ainda sabendo que o tempo não está para isso

meu coração-criança adormece

escala árvores como se fosse uma onça

e, onça que é, desaparece na imensidão Azul do firmamento.

nuno g.
Toróró, 02 de janeiro de 2022.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Navios do deserto

espalhei os bombons sobre sua cova

e ele sorriu: discreto arco-íris que se

desfez antes do pôr-do-sol

e da BR-101 vimos as águas ligeiras

despencando das alturas e erguendo

uma nuvem carregada de navios que

como os navios do deserto

flutuavam e flutuavam entre gotas

de águas e gotas

de areias entre a

solidão e o absurdo

entre cavalos, pedras e

desbotadas primaveras

 

as formigas, as flores, o ventre

do campo santo de espumas e mel

o discreto arco-íris-sorriso

dissolvendo em timidez antes

do beijo sabendo a sexo e oração

a chama pegou e o carro abandonou a estrada de terra

já no asfalto

uma lágrima tocou o tímpano

esquerdo, antes do pôr-do-sol

entre notícias de desabrigados

e promessas de ano-novo

espalhadas como bombons em covas de anjos

ou como navios de guerra

estrategicamente semeados

na oceânica aridez do deserto


nuno g.

Toróró, 27/12/21.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A terceira vela

Em tua cama de areia e pedra descansa, menino

E ainda assim, soterrado antes, hás de sonhar

Entre a torrente incessante de sonhos que é tua única realidade

Sempre retornará a imagem daquele efêmero instante

Em que nos meus braços teus olhos fechados

E teus cabelos encaracolados

Em tua cama de pedra e areia descansa, menino

Para nós, os nascidos, tudo se resume a efêmeros instantes

Ao contrário, para ti, natimorto

Nada é efêmero e só existe a estrada da eternidade

Descansa menino, descansa

Sob o fio de luz desta vela que te acendo,

Descansa,

E com tuas mãos morenas vais abrindo o caminho

Por onde passam as serpentes emplumadas

E a legião dos cegos missionários da floresta

Em tua cama azul e amarela, descansa meu menino

Descansa como descansarias na rede que te teceu a aranha rendeira

Descansa e escuta minha prece, menino

Entre a torrente incessante de teus sonhos

Sentirás o perfume destes incensos que te acendo

Ian, anjo entre anjos,

Luz, firmeza e a consciência profunda dos que se recusam a abandonar a eternidade.

 

Nuno g.

Toróró, 14 de dezembro de 2021.

sábado, 11 de dezembro de 2021

***

 QUEM ESTÁ CERTO ESTÁ ERRADO E QUEM ESTÁ ERRADO ESTÁ CERTO.


Padrinho Manoel Corrente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

gira de Mateus

                     para Claudio Reis,


todas as Marias são palestinas



Eles chegaram e bailaram a noite inteira

entre as nuvens e o cume da chapada

entre as árvores de Tempo

e as águas do amanhecer



todos os soldadinhos do Araripe são palestinos



Eles bailaram a noite inteira

entre meus sonhos trôpegos e o Sonho límpido da terra

entre o tempo das árvores

e as águas do entardecer



todos os espíritos são palestinos

inclusive os que nos estendem a mão

quando os rumores nos ameaçam



Eles sabiam que ali estavam guardados

e sob o escudo Azul ergueram a ciranda-matriz

colunas de salamandras e batalhões de encantados

ao som de pífanos e zabumbas

Eles também se sabiam palestinos

e desconheciam qualquer hesitação.



Eles dançaram a noite toda

entre as estrelas e as estrelas da madrugada

Eles eram muitos e tinham nomes sagrados:

Cachoeira, Mosquito, Império.

Margaridas de couro cravejadas no peito

e os três caminhos selados nas palmas do espelho.

Eles eram palestinos e herdeiros

e nunca nos deixaram esquecer

que até o mais agônico cortejo

é regido por uma austera e faiscante alegria.



Eles bailaram a noite toda

e como os Magos Reis da antiguidade

foram guiados por Vênus e Andrômeda

até o terreiro sagrado de Mestre Aldenir

xilogravado na lira esmerada de Walderêdo Gonçalves.



guiados pela lua

abriram os três caminhos:

fertilidade, delicadeza, alegria:

e a memória das coisas que nunca se devem esquecer.



Toróró, 07 de dezembro de 2021.

nuno g.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Morte (hora do delírio), por Junqueira Freire

Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem. Tu és o termo

De dois fantasmas que a existência formam,

— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.


Pensamento gentil de paz eterna,

Amiga morte, vem. Tu és o nada,

Tu és a ausência das moções da vida,

do prazer que nos custa a dor passada.


Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem. Tu és apenas

A visão mais real das que nos cercam,

Que nos extingues as visões terrenas.


Nunca temi tua destra,

Não vou o vulgo profano;

Nunca pensei que teu braço

Brande um punhal sobre-humano.


Nunca julguei-te em meus sonhos

Um esqueleto mirrado;

Nunca dei-te, pra voares,

Terrível ginete alado.


Nunca te dei uma foice

Dura, fina e recurvada;

Nunca chamei-te inimiga,

Ímpia, cruel, ou culpada.


Amei-te sempre: — pertencer-te quero

Para sempre também, amiga morte.

Quero o chão, quero a terra, - esse elemento

Que não se sente dos vaivéns da sorte.


Para tua hecatombe de um segundo

Não falta alguém? — Preencha-a comigo:

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.


Miríadas de vermes lá me esperam

Para nascer de meu fermento ainda,

Para nutrir-se de meu suco impuro,

Talvez me espera uma plantinha linda.


Vermes que sobre podridões refervem,

Plantinha que a raiz meus ossos fera,

Em vós minha alma e sentimento e corpo

Irão em partes agregar-se à terra.


E depois nada mais. Já não há tempo,

nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.

Agora o nada — esse real tão belo

Só nas terrenas vísceras deposto.


Facho que a morte ao lumiar apaga,

Foi essa alma fatal que nos aterra.

Consciência, razão, que nos afligem,

Deram em nada ao baquear em terra.


Única ideia mais real dos homens,

Morte feliz — eu quero-te comigo,

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.


Também desta vida à campa

Não transporto uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade.


E como um autômato infante

Que ainda não sabe mentir,

Ao pé da morte querida

Hei de insentato sorrir.


Por minha face sinistra

Meu pranto não correrá.

Em meus olhos moribundos

Terrores ninguém lerá.


Não achei na terra amores

Que merecessem os meus.

Não tenho um ente no mundo

A quem diga o meu - adeus.


Não posso da vida à campa

Transportar uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade.


Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:

Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.


                                         Junqueira Freire

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Os pássaros

os pássaros se foram – cruzando os céus.

deixando vazio o ninho,

onde antes as mil crianças

agora as brumas de amor e esperança

servindo de escudo, guardando o mistério profundo da pele.

 

os pássaros se foram – seus cânticos se ouvem ao telefone,

e apenas aterrissaram ao sul

pousou aqui o dedo em riste da terra

ofendida em seu pântano e degredo.

 

os pássaros se foram e o silêncio foi colorindo a casa,

a memória das chuvas do próximo março

e o grito de ódio empáfia arrogância e ameaça.

 

no lugar dos pássaros que partiram

a certeza de que regressarão em tempo mais breve

que qualquer ausência possa matar.

 

nuno g.

Toróró, 23 de novembro de 2021.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O jogo, por Patrícia Gonçalves Tenório

Volto
Ao começo
Ao mesmo
Ponto
Do Big Bang
À mesma
Luta
Comigo
E a vida

Tão desmesuradamente
Bela
E dura
E minha
E sim

Patrícia Gonçalves Tenório

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

15 de novembro.

Aqui chove.
E chove muito.
Chove como se chovesse sobre todo meu passado.
E ouço o som de cada gota sobre este telhado.
E olho esta casa que os deuses me deram.
E ouço cada som da chuva banhando este lugar.
E penso em todas as vezes que me pensei um corpo atado.
Um corpo interditado.
Um corpo sem vereda e sem atalho.
Minha pressa se desfaz e o rio segue sangrando.
Como um coelho degolado por um cão assustado.
Ou como um arbusto decepado pela fúria de um facão.
Aqui chove.
E o gosto de suas coxas não sai da minha boca.
Sou só saliva e barro.
E meus joelhos são penitência e oração.
A república ruiu - e com ela todas as fantasias eróticas da política.
Nenhuma semiótica no quintal.
Só a chuva.
Esta casa.
E a brasa do cigarro recordando uma antiga combustão.

nuno g.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Caminhos de sal

Existe um panteão esquecido pedindo passagem
Aracati / Quixeré / Feiticeiro
Sete flechas em meu corpo-encruzilhada
Se afogando na quentura de um sol radiante
Que não para de sangrar
A senhora de todas as ciganas tangeu os eguns que bailavam ao meu lado
Treme a terra / Geme o mar
Todos os santos / Todos os mortos
E como os bois de antanho subiram o leito do rio ao som do aboio
Sem esperança de chegar a algum lugar
Existe um panteão esquecido pedindo passagem
Aracati / Quixeré / Feiticeiro
Sete flechas em meu corpo-encruzilhada
Se afogando numa sombra que não para de bailar
Subindo o leito esturricado do rio em direção à vila do Icó
O corpo de tua mãe se redobrando pra dentro
Só tu se reconhecendo nestes retorcimentos tão íntimos
E não foi ela que com suas mãos alimentou a fome dessa cidade?
E não foi ela que carregou dentro nosso rio de sangue?
Hilda lavou os búzios lambuzados de mel
E abriu os caminhos do entendimento do escuro
Ainda sob a proteção do Amarelo e do Azul
Quando ela dança no arco-íris eu morro
E essa violência perpétua dos nomes me abrasando antes de qualquer chuva
Okê Arô -- sim, caçador, só temos uma flecha
Dai-nos firmeza e pontaria para atravessar estes caminhos de sal
Existe uma onça uivando no horizonte de calcário
Dai-nos fé e amor para escutarmos a voz que vem do outro lado.


nuno g.