quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
no meio do caminho
tinha uma escada no meio do caminho
no
meio do caminho tinha uma escada
nunca
me esquecerei que tinha uma biblioteca no último degrau
uma
biblioteca dedicada ao Nada
tinha
uma escada no meio do caminho
tinha
os cem olhos da tempestade de areia fina
tinha
a pintura de uma moça com brinco de pérolas no meio do caminho
e
os cem mil raios da Senhora,
tinha
um vazio no meio do caminho
nunca
me esquecerei do beijo que não tinha no meio do caminho
nem
da escada nem da biblioteca nem do nada
no
meio da escada tinha um caminho
mas
não são todos que desviam no meio das escadas
tinha
uma tempestade no meio do caminho
tinha
uma manta assurini awaeté no meio do Sonho
e
do mirante da casa do guarda do Belmonte se via
a escada, a biblioteca,
o
Nada, a Sina e o Vazio
nunca
esquecerei que tinha um caminho no meio da escada
nem
que no meio da escada tinha um caminho
e
que quase ninguém desvia em caminhos no meio de escadas
ainda
quando estes levem às cascatas de águas frescas
correndo
entre antigos pés de buritis
tinha
um silêncio no meio do caminho
no
meio do caminho tinha um silêncio
e
toda a potência que um corpo necessita:
seja
para desviar-se do previsto
ou
para escalar a escada até o topo
dez
de dezembro.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Teoria das próximas horas
para Claudio Reis,
nossos filhos nos antecedem
nossos
ancestrais estão adiante
a
cronologia é uma prisão de areia movediça
e
paredes de acrílico
fundamento
que resulta da sedimentação
grãos
de tinta expostos ao sol
sempre
à beira de um incêndio
caminhando
sobre fios descascados
e
sobre as folhas secas e as ruminações de Lilith
nossos
filhos nos antecedem
nossos
ancestrais estão adiante
um
telefonema, um imail, uma chamada de zap
podem
ser o suficiente para provocar um incêndio
de
proporções inimagináveis
a
cronologia é uma prisão da qual escapamos juntos
e
à qual jamais regressaremos.
Crato,
03 de dezembro de 2020.
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Tororó, por Claudia Rejanne.
estelar
continente paragua
afluente kariry açu
açude junco
mãe jaguar
arribe
caudasjorrou
machu pichu
amazonara
jara
já lá
jord AUM
Kakituramba veio de lá
no clarão do fogo e do rapé
dançou, cantou, comemorou
no baile matinal dos curumins
Claudia Rejanne.
terça-feira, 24 de novembro de 2020
ESPERANDO UN POEMA, Luljeta Lleshanaku
algo agreste, ni elaborado ni fuera de control,
algo imperturbable por las ofensas, un cuervo blanco
liberado de la oscuridad.
Las palabras que vienen naturalmente, sin apuntarle a nada,
una bala sin un blanco,
tiros de advertencia al cielo
en tierras recién ocupadas.
Un poema que brote de mi pecho
Y hasta que llegue
escucharé a mis hijos peleando en el cuarto de al lado
y arrojaré mi mirada a lo largo de la mesa
a un vaso de leche vacío
con un trazo de blanco alrededor del borde
mi cuello envuelto en plata
una servilleta en un aro servilletero
esperando que arriben los tardíos invitados...
Luljeta Lleshanaku
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
Ilha do desterro.
Bia era irmã dela e
Lúcia, sua melhor amiga.
sonhei com o Martim do clube de forró,
com o Manoel Gonçalves da cerâmica e
com Sara - só ela segue viva.
Hoje é a data que Maria nasceu,
cinco para uma da tarde,
Valle de Bravo - México.
Se eu fosse Bandeira,
teria aqui o suficiente para um poema,
mas não sou e estou desde as cinco esperando o telefone atender para cantar as mañanitas.
O poema se chamaria ilha do desterro.
teria cheiro de rio e a beleza de Bia.
teria gosto de rio e a coragem de Lúcia.
teria textura de rio e a seriedade de Célia.
O poema seria o vasto rio onde corre toda a saudade do mundo.
e até Bandeira teria que reconhecer que entre a Sina e o Nada transcorrem nossas vidas.
Ontem fui à praia do Montecristo,
onde deságua este poema no mar,
escrevi nas areias teu nome, Maria,
e ainda que uma noite de mil anos nos atravesse,
nem o vento, nem as águas, nem as mãos da imprudência,
serão capazes de apagar.
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
rosário de estrelas ou os passos de Ana na escuridão
para meus avós,
Depois de tanto tempo sem chuva restava pouca gente no povoado, quase nada. A neta e o avô escarafunchavam o barro das ideias reinventando as estrelas, soletrando os mistérios de suas crenças enquanto tratavam de cozinhar um pouco de milho e algo do feijão que ainda tinham. Faziam render o de comer escaldando a farinha nas águas noturnas da fé. Os peitos da menina saltavam como rãs, seus olhos vagavam como moscas e sua inteligência desafiava o comum que lhe arrodeava. O velho era espinho, era raio seco de sol, era sombra de juazeiro, era réstia empoeirada na rede do alpendre. Depois de tanto tempo sem chuva restavam apenas eles dois na casa grande da Timbaúba. O calorão aumentava, a fome ameaçava e a espinha dos dias se assanhava no sopro do vento que arrebanhava as últimas esperanças. Dessa vez não chegou governo, nunca havia chegado. Ainda umas últimas arribaçãs estendidas, sal entranhado nas asas esturricadas de orações sem memórias. Quando crescesse um tanto mais iriam ao mar: fazer carneiros de areia, ouvir quebrantar de ondas, conhecer as sereias de Homero. Enquanto não, se contentavam com o azeite das lamparinas. Com o rastrear de alguma raposa. E faziam fogo todas as tardes com as folhas secas de afugentar serpentes e víboras que passavam acolá. A brisa deliciava o corpo desidratado da neta, o avô sabia que já passava da hora e só temia que findasse antes. Tomava um trago e ruminava um inverno. Uma chuva grande, um pasto verde e a lembrança das graúnas na cerca. A morte se aproximava desfazendo qualquer aura e as querências da menina iam tomando a forma de feridas exiladas. O corpo não acompanhava o passo, a velha aflorava antes da mulher, em cada gesto renunciava suas misérias. A menina era órfã, seus pais se perderam no asfalto. A história era longa e o tempo minguava, nem boi nem boiada e os corações reconheciam-se em cada migalha de palavra, em cada cigarro de palha, naqueles afetos e silêncios sem mágoas que se prolongavam. O velho era o único que sabia de tudo, mas já era velho. Seu cavalo arquejava a alma. Os ossos dos tejos eram belos quando as mãos da menina os tocavam. Fabricava com eles sinfonias inesperadas, louvava a deus e à natureza, recriava o mundo e por pouco que fora tocava a sombra esquálida. Havia amor demais naquela sede retirada. Havia um tudo que já insinuava o nada. Era clareira muita que naqueles seres se escancarava. O temor as vezes os desabrigava. O rio tinha margens largas onde vez ou outra uma onça ainda se avistava. O velho era água que morria regando a flor que desabrochava. Nessa transferência de energia tudo se ia transformando, se refazendo a estouros de espoleta, rebentando como as borboletas que escapavam de um pigarro. As lembranças eram demasiadas, o tempo era escasso. O velho já sabia que não veria as novas águas, que não estaria ao seu lado quando sangrasse. A morte deixou de lado seu hábito enigmático e se revelou como um fato: acrescentando um quilo mais no alforje já bem pesado. Um dia antes de partir pensou romper o arco, relembrar os ecos dessa passagem luminosa, quebrantar o véu inquebrantável. Sua graça lhe mantém em pé o quanto falta. E quando ela dorme ele se transforma em anjo e com suas lágrimas enche novamente o oceano onde a menina irá pastorear carneiros quando for tão tarde.
Saiu com parecenças à avó. O jeito de destorcer os punhos traz muito da velha. Quando se deixa desacorrentar miragens percebe a desordem com que tudo passa. É avassaladora a fúria com que se acalma e vai vertendo suas meticulosidades. A menina sabe o que o velho sabe. Que mão tão essa acaricia o ventre, sana a chaga, e vai levando o desconhecido para o outro lado. No vazio se ocupam de uns dados ou de um par de cartas a uns ciganos comprados. Feitiços de um destino bem amarrado. Reviravolta desmanchada numa madrugada. Os lençóis amanhecem lagos. O velho fraqueja, a chuva tarda. Ainda há feijão. Ainda há milho. Uma que outra caça no mato. As pedras dessa igreja nasceram a meio passo. Entre chocalhos e badalos iam se refinando, auscultando o pulso, revisando os cascos. Houve um tempo em que tempo não havia, era só a ardência infinita se estendendo no planalto. Mas esse tempo só se transfigurava em tempo quando se assentava, quando decantado ia se definindo à ribeira em paragem. Era um tempo salpicado, tinha cheiro de café recém passado e suas fronteiras eram a vertigem do inominado. Neste tempo reinava o acaso, neste tempo se movia sem medo o impulso do abutre acossado. Neste tempo se ouvia o canto assinalado. Era o tempo morto de onde a vida brotava. Era o tempo anterior. O tempo escasso, desritmado. Sem escalas, sem compassos: alguma música para ouvidos nada delicados. E foi assim que tudo foi sendo semeado. Foi assim que a origem foi ganhando sua máscara parda, sua singela insígnia acinzentada. E no meio de tudo havia uma lágrima. E no desemboucadeiro um oceano com muitos carneiros. Antes do velho outro velho já chorava. Antes da lágrima outra lágrima. Por essa vereda iam as venerações da menina. Sua solidão seria terrível se não fosse sagrada. Mastigando aquele caldo de misticismos e outras constelações minerais seguia sua relação de presságios. Afinal de contas, a vida é uma estância, sem razão pra ser desagradável, sem intuição que lhe restitua a intenção de onde parte e desarvora. O cavalo do velho arquejava, a alma se reentranhava na carne. Grilo ou outro o sangue anunciava. As rãs e as moscas celebravam sua orgia, a menina parecia cada vez mais com uma coruja e tudo ao seu redor escurecia para que ela pudesse faiscar. Saiu com parecenças a avó é certo, catava os grãos traçando espirais, assassinando desvios desnecessários.
Um dia ela destrincha o redemoinho, pressente o velho, sem espanto nem teimosia de rinhas. Um dia ela... o corpo além desse céu tão arranhado, tudo sendo pressentido, rememorado. Um dia ela também conhecerá o diabo, suas artimanhas e pertencimentos, ela vai lograr, da carência a querescência é um salto, fácil para uma rã que tem os artefatos nítidos. Um dia ela me enterra, afaga meu repouso, atraca minha erva. Um dia ela vai ver o mar como ele é, o oceano dos carneiros pálidos, o fogo sempre termina por incendiar o arco. Era mania do velho pressentir assim tão memorioso e grávido. Já era arqueiro e arco. A menina será mais e será menos, será raiz e será galho, será bicho e será rastro, será sempre o que desde sempre foi: lua em movimento, astro... Ainda que se esforce não alcançará o sangue, será de outro o destino de abrasar essa intempérie que irrompe baixo a chita. Qual náufrago tentará suportar seu lastro, qual desânimo inquietará sua paciência? Coisas como essas povoando a madrugada beira, esses estilos arrebatados que a calmaria fresca desperta. A brasa acesa devorando a palha do cigarro, café já tantas vezes requentado no barro, amor de si buscando forças para o outro que ainda cisma e insiste em ser pássaro que vem ajudar o pensamento a romper a casca. Ela dormia. Dormia como se nada. E pode um peixe viver fora d’água? Pode árvore se esticar sem raiz? Já não sabia quase nada. Na verdade nunca soube muito. Sempre foi mais de pressentir. De ruminar. Cultivar suas próprias venerações. Dessas lógicas aparentadas do sangue. O outro lado era dela. O outro lado era pedra. O outro lado ia aparecendo nas rugas de sua testa. Barco perdido bem carregado – como se deixou ceifar por essa banalidade insólita? Nunca se sabe até que ponto um nome determina a arte. O dela era Ana, nome de santa; o dele: Estevão, nome de pirata. O sertão era vasto mais ainda mais vasto era seu barco. Desolado remeteu o pé contra a parede e embalou as cismas que àquela hora já se faziam confusas embora mansas, como os sentidos de quando voltava da casa das putas, como a cabeça de um jovem que herda uma herança, como uma mosca que sabe o desejo que arde no salto preciso da língua faminta do anfíbio, como uma iminência parda. Três colheradas de uma coalhada um tanto azeda. Pedaço de queijo seco. Talagada de cachaça. Velho não dorme, abundância de cavilações e espreitas. Quem iria preparar a terra quando chegassem as águas? Os anjos por certo, os mesmos anjos que agora lhe devolviam o sono. Assim lhe agarrou a tala e tudo que pressentira se fez fumaça. O velho dormiu como despertara, com uma leve sensação de que o que se percebe nunca se instala, que o deserto sempre está mais próximo que se desejara. A única certeza é que a menina sangraria no mesmo porto em que seu coração estancara. Ausência por ausência o sono foi se tecendo na casa. Ela era o que ele recordara. A chuva chegava com a mansidão dos gatos. Sereno. Neblina. Chuvisco. E enxurrada. Lágrima vai lágrima vem o suco vermelho foi inundando a casa. Primeiro parecia sonho depois trovoada. Animal que sangra tem suas próprias teimosias. Conhece outras insistências. Deflagra querências de outra linha. O marasmo chega de outra forma. A boca beija com outra ânsia. A morte se vê diferente. Tão certo como lição de tabuada, acendeu a vela e bebeu a lágrima. Era a primeira vez de tudo, a primeira vez que chorava. Sangrava pela primeira vez. Com as mãos suaves enterrava o velho nas penas de galinha que recheavam a almofada. Jogou a aguardente que sobrara sobre a pele sem voz. Perdeu a maciez das mãos cavando à terra pedregosa uma cova rasa. Deitou o velho na cama de piçarra. Já não tinha mais nada que fazer ali, a chuva era para os outros que retornavam. Botou roupa de ir à rua, cobriu tudo com atmosfera de domingo e deixou pra trás o que restava. Se voltaria não alcançava saber. Sentia que ia. Que era inevitável partir. Sabia que a morte era meia-irmã do amor. Assim como a vida... assim como o horror...
Os bicos dos seios já salivavam, os cabelos exigiam suas carícias. A estrada era larga, profunda. A vila era pequena e desprovida de promessas. Um vazio entre tantos outros, um santo morto entre os demais. Alguma fagulha de não se sabe o quê naquele carro que ia por lá manhã e à tarde regressava. O resto era o resto que nunca assumia alívios, nunca dizia sensatezes. O resto era o que pouco-a-pouco definhava. Quando beijou o pé da estátua sentiu amargar o céu da boca e cuspiu sem refletir. Toda a gente lhe olhava sem poder compreender. Era simples demais para tudo aquilo, era complexa demais para tão pouco. Os sapos já coaxavam alegrias pelo lago e as moscas pululavam feira em feira sem ressaibos. Um dia voltaria onde enterrara o velho. Flor na mão, vento na alma. Um dia voltaria à casa. O amargo desceu garganta abaixo com ossos revirados. Trocou os panos que aparavam o sangue, juntou os trapos que lhe deixaram, subiu na boléia da camionete e foi até o mais longe onde chegara. Tudo era estranho e alheio. As pessoas andavam como andavam. Os carros eram muitos. As casas não eram casas. Eram espigas de cimento ensimesmadas. Não se viam varandas não se arrastavam aqueles dizeres salpicados. Mas tinha algo de bom, de aprazível, em viver sem nenhuma amenidade. Tinha algo do que o velho chamaria o outro lado. Algo de desterro, algo de hemisfério, algo alumiado. Foi assim que foi o que foi. E o que foi era o que desde sempre tinha de ser. Foi assim que ela foi se vendo cidade. Foi se sendo outra menina. Foi matando o velho como quem mata uma sina. As rãs foram criando asas, a flecha farejando o alvo. Vez ou outra recordava as boiadas, os ciganos e as aves de arribaçãs. Mas já era dialeto outro o que alfabetizava seu corpo, o coro dos anjos desafinados descontentava seus acentos. E nessas marés de lembranças não se deixava enganar, a delicadeza era bela por ser violenta, o corpo sangrava para seguir vivo e com lágrimas foi inventando o mar. O primeiro homem acolheu como um carneiro. Apascentou-lhe. Sem juras nem confusões entregou-lhe o que lhe devia e retirou dele o que necessitava. Não perdia tempo escutando algaravias. Tinha juízo. Tinha amor. Tinha criado mais de mil insônias na imaginação. O carneiro era fresco e saiu dali carregado de felicidade. Ainda quis outra vez mais já era tarde, a relva estava mais além de sua imperícia. Com um deus no ventre Ana se abriu à tempestade. Se fez luz ao novo abrigo que surgia. Com aqueles passos leves de não acordar a noite foi seguindo sua travessia. E quem sabe as tantas línguas de que são capazes um corpo sabe também que a cada uma delas corresponde um abutre. A cidade se fez mais tranqüila por um instante. O sangue parou de escorrer por um bom tempo. O carneiro ainda insistiu mas a imensidão do céu se fez muito intensa para sua ira. Sonhou com o silêncio do velho e havia mais sons naquele silêncio que nos passos apressados da multidão. Sonhou com a vila, triste e melancólica vila de azulejos. Tudo era uma questão de chão. Ali estavam as estrelas, os planetas e o clarão da escuridão. Tudo era uma questão de estômago. De vísceras. A vida era um retiro, um desterro: fagulha de um sonho na escuridão... Um pouco de vinho, um pouco de pão. Foi o suficiente para chegar até ali. Foi o suficiente para adormecer como se não fosse órfã, como se não tivesse cicatrizes no joelho, como se o sol não fosse uma perpétua maldição.
nuno g.
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
sonho.
Despertei no Jaguaribe,
na ilhota para ser preciso.
Trazia às mãos umas unhas verdes,
compridas e bem feitas.
Um boiadeiro tangia umas vacas,
à sombra da ponte as garças e um cágado.
Havia uma feira dentro da água,
muitos violeiros, muitas putas e uns cães.
Um arco-íris na direção do Quixeré,
uma escuridão pros lados das Baraúnas.
Acordei mais surdo,
o tempo cobra – nestes tempos até os juros sabem à chumbo.
Cuscuz com ovo & café com leite.
Benjamin regressou. Desentupimos as bocas do fogão.
Tudo indica que esse ano não encontrará seu término em dezembro.
Já é novembro e a chuva não cessa:
é a terra chorando as águas do futuro...
nuno g.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
fósseis
onde antes a terra
escura e imberbe
agora os seres sedimentados
o mundo feito mais curto
de forma abrupta
e o horizonte subitamente estreitado
as cismas, as fagulhas, as artimanhas
e tudo o que deixa toda partida
a espreita do cego e o sêmen da fumaça
onde antes a descrença
com o sem sabor da virilidade extrema
e o escárnio metamorfoseando-se perpetuamente em cansaço
é na matéria que a memória se grava
tal qual o trono, artefato fósforo
e o céu azul que já não esconde de quê nos protege
o sono, o vento, a cordilheira
o velho maltrapilho e suas flores que curam
amarelo-milho aceso na névoa que a ti reluz e salva
onde antes a seiva dos mortos
agora a sombra da fé
e a imagem mimética dos seres sedimentados
onde antes a vulcânica palavra
vermelha e cálida
agora o silêncio angelical,
Maria acordou, me chama, eu vou.
nuno g.
Toróró, 20 de outubro de 2020
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
máquina de moer recordações
e onde antes as grandes perguntas
agora só a mesquinharia burocrática dos torpes
a miséria do espírito se propaga vertiginosamente
e nós tentamos retirar nossas cabeças do berço da guilhotina
Eles nos guiam. Eles nos exigem a fé.
o intolerável está por todos os lados.
meus olhos de gavião não apodrecem nem mesmo depois de terem morrido incontáveis vezes.
excluímos juntos qualquer saudade do dicionário.
também excluímos tudo o que já não estivera vivo no canto das onças.
recolhemos os farelos de ódio à sombra.
mastigamos carvão.
e como numa película ainda inédita
atravessamos o umbral e todas as conversações que mantem os mortos entre si.
do outro lado a pedra angular e o fundamento do Tempo.
a ferida de Silvio, o miado de Judite.
O sono de Maria.
recolhemos todas as mentiras que nos contaram.
recolhemos todas as calúnias e difamações que sofremos.
recolhemos todas as sementes que não frutificaram.
seja pela aridez do solo.
seja pela imperícia das mãos.
recolhemos os farelos no alforje.
vimos as caças passeando no jardim.
abandonamos os moribundos nos leitos hospitalares.
recolhemos o silêncio que não prescreve.
os desejos que não cessam.
as feridas que não curam.
os amores que não chegam.
compramos veneno para piolhos. compramos sexo nos confessionários.
e rezamos ao silício para que não nos traga mais nenhuma novidade.
qualquer farelo nos basta nesta hora de provação.
no alento do mito gravita o futuro desta civilização que se enterra com as próprias mãos.
nuno g.
Toróró, 21 de outubro do fim do mundo.
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
voto de pobreza - a mala.
Todos os anos vinha nos visitar.
Minha avó, sua cunhada, cozinhava doce de ameixa.
Comíamos com banana batida a garfo.
Ele me ensinou a ler e escrever cartas.
E a olhar as estrelas depois do jantar.
Era o único em que ele e o irmão, meu avô, coincidiam.
Os dois olhavam estrelas após a janta.
Todos os anos Raimundo trazia uma velha mala.
Voltava sempre com uma nova, presente familiar.
No outro ano regressava com uma mala ainda mais velha.
Raimundo morreu atropelado.
E até hoje espero religiosamente suas cartas.
nuno g.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
luto.
A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará manifesta profundo pesar com o falecimento de Raimundo Aniceto, o mestre Raimundo Aniceto, integrante da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do município do Crato, uma das mais importantes formações da cultura tradicional popular no Ceará e no Brasil. A Secult se solidariza com os integrantes da banda, com os familiares e amigos de mestre Antônio e com tantos quantos se acostumaram a aplaudi-lo, no sem-número de apresentações que sempre combinaram música e dança, tradição e presente, intensidade e alegria.
O toque do primeiro pife da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, comandado pelo Mestre Antônio, jamais será esquecido. Junto ao seu irmão, Antonio Aniceto, e a seus sobrinhos, Mestre Raimundo seguiu se apresentando até pouco tempo, desfilando destreza no pife e na dança, na elegância dos uniformes de cores vivas, na tradição secular das bandas cabaçais. Sempre em movimento, deixando como legado a descoberta e a admiração despertadas em novas gerações, graças à continuidade do trabalho dos Irmãos Aniceto.
Mestre Antônio se despediu aos 86 anos, foi responsável por manter viva uma das mais belas e marcantes expressões da cultura cearense, estando sempre pronto para transmitir conhecimentos e compartilhar histórias e vivências. Assim foi, por exemplo, com os novos integrantes da banda-mirim dos Irmãos Aniceto, reunindo garotos da comunidade, unidos e encantados pelo poder da tradição, da música, da brincadeira. Tudo com a simplicidade e a gentileza que sempre caracterizaram a presença do grupo, em inúmeras apresentações e em eventos especiais, como o Encontro Mestres do Mundo.
Contribuir para que os Irmãos Aniceto sigam adiante e tenham repercussão cada vez mais ampliada para sua obra é a melhor forma de homenagear Mestre Raimundo. Nosso agradecimento, mestre, por toda uma vida dedicada à cultura cearense.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
poesia.
sobreviverei a isso e esse é meu único temor real: meu único medo que não é imaginário.
não quero mais estar aqui, faz tempo.
a minha vida foi sempre uma luta corporal contra o luto, estou exausto.
tenho tanto apreço pelos meus contemporâneos quanto os vampiros ao alho.
eles só querem que isso passe, eu só quero ir à grande Aldeia.
nada nos une, nenhum nó nos ata.
nos próximos dicionários deveria se escrever dinheiro onde se lê alma.
não creio em amor, creio em Maria - ela também veio do que antecede o nada.
tem gente que escreve com palavras.
só sei escrever com as vísceras.
e quando escrevo silêncio, águas, mata,
é uma forma de orar.
é uma vela amarela que acendo.
é um pedido que faço.
não quero ser condenado a sobreviver ao fim do mundo.
com ter que ser e estar entre meus contemporâneos é uma punição que já basta.
os que me pensam pessimista estão longe.
os que não me pensam quase me agradam.
quando escrevo serpente invoco o veneno que ao parecer remédio é fantasma.
quando escrevo nada o que quero dizer é tempestade.
nuno g.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
Eliana e as onças
Eliana suicidou.
Ou como dizia Raimundo,
distraída que era saiu de casa pela janela.
Prefiro acreditar que conseguiu voar.
Trazia no sangue o sangue das onças.
Eu sei quando as ouço cantar.
Eu sei quando as vejo em procissão.
Acendo os vaga-lumes.
E não esqueço.
Eliana suicidou.
E quando em súplicas lhe atribuíram milagres.
Voltaram a violentá-la.
Crucificada outra vez como o índio de Chiapas.
De quem retiraram a infância para ter um Cristo à imagem e semelhança.
Os azulejos azuis, outra violência.
A ausência à lápide, mais violência.
O rosto tão branco quanto o leite.
E a voz das onças pousada ao ombro.
Subindo e descendo a escada espiralada.
Acendo os vaga-lumes.
A vela aos mortos e aos suicidados.
O vento entra.
É primavera.
Da janela: o juazeiro, a jurema, o dendê.
Ou como diria Raimundo,
a trindade vegetal.
Prefiro acreditar que conseguirei voar.
nuno g.
Toróró, 23/09/20
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
O ano do infinito
para Maria,
Sete vezes
dançaram os praiás sobre a coroa de sua cabeça.
Sete vezes
cruzamos os sete rios sem que as águas nos molhassem.
Sete
cânticos o jaguar encantado nos presenteou.
Nossa pele por
sete fogos atravessada.
Às vésperas
do oceano, do sal e do infinito.
Deixando as
árvores se desfolharem.
Segurando às
mãos a flor sem pétalas.
E ouvindo o
tempo.
Sentindo o
tempo.
Sabendo a
tempo.
Sete vezes
dançaram os praiás sobre a coroa de minha cabeça.
Sete rios
nos cruzaram sem nos molhar.
Sete
jaguares nos cantaram.
Sete fogos
atravessaram nossa pele.
Às vésperas
do oceano, do sal e do infinito.
Deixando as
folhas se libertarem das árvores.
Segurando às
mãos as pétalas sem flor.
Sendo ouvido
pelo tempo.
Sendo
sentido pelo tempo.
Sendo
conhecido pelo tempo.
Sabendo que
nada sabemos.
Que somos
menos.
E que as
onças curam ao cantar.
nuno g.
23/09/20
terça-feira, 22 de setembro de 2020
os guardiões da floresta e as ruínas do Asno-mor
Também foi dito que a mata não queima por ser úmida e que estamos à beira de sermos engolidos pela cristofobia.
Os guardiões escutam. Os da terra, os dos subterrâneos, os dos céus.
A insanidade beira o patético. O que eles querem nunca foi tão claro.
Têm apoio e avançam. Têm as armas e avançam. Têm a doença no coração e avançam.
Mas eles são mortais e passam antes de florescer.
Os índios e os caboclos bem sabem o que é um apocalipse.
Já viveram muitos e souberam guardar boas memórias.
Cristo, por supuesto, faz tempo se fez adepto à pajelança.
Há muito tempo, no livro das sete estrelas, foi assentado.
A insanidade, o patético e a enfermidade passam.
Os índios, os caboclos, as onças e as serpentes não.
As cidades do agronegócio já serão ruínas e se ajuntarão às ruínas de nossas chagas verticais.
Será um tempo longo, duro, difícil.
Mas ainda podemos aprender com as ciências indígenas os ensinamentos caboclos.
Ainda poderemos nos resguardar.
Eles sabem o que é um apocalipse e também sabem que sempre haverá quem guarde a mata das memórias e as clareiras do ser.
Não sabemos nada e sentimos que somos menos.
Que venham os guardiões e que nossa humildade os permita nos guiar.
Onças são para sempre.
Poesia também.
saravá!
domingo, 20 de setembro de 2020
As onças – lição do Jaguaribe
O que eles não sabem é que elas não morrem.
Nem o fogo
da cidade branca.
Nem a arma
esmaltada e bandeirante.
Nem o hálito
pode.
O que eles
não sabem é que um dia chove.
E que eles
sim morrem.
No Icó tem
uma casa encarnada.
O vermelho
dela não é tinta.
É sangue de menstruação.
É sangue de sussuarana.
O que eles
não sabem é que seus automóveis são uma extensão.
Que seus
sonhos de Miami são uma triste reedição.
Dos antigos
sonhos dos bárbaros de além-mar.
Sem a
valentia. Sem a inocência. Sem a coragem dos primeiros.
O que eles
não sabem é que seus apartamentos.
Só servem ao
vôo dos gaviões.
Que ao se
chocarem contra o chão.
Enfiam olhos
adentro a sífilis a gonorreia e a solidão.
Lhes devolvem
as escaras do tempo.
E gritam
não.
O que eles
não sabem é que onças reencarnam.
Eles não.
No Icó tem
uma cabeça de touro enterrada.
A maquiagem
do shopping não desfaz a escuridão.
Poconé e
Araguaia: ódio e salvação.
O que eles
não sabem é que onça canta.
Assobia, tripudia,
ora.
Tem onça que
é de Iemanjá.
Tem onça que
é de Iansã.
Tem onça que
se basta em sua primitiva santidade.
nuno g.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
sábado, 12 de setembro de 2020
Fantoches, por Francisco Espinhara
Os fantoches da rua Sete
Seguem cegos na procissão.
A puta diurna da Palma
Traz uma venérea na alma
E uma cova diária na mão.
Da Ponte Velha a secular ferrugem
Reticente ao trajeto branco da nuvem
Come o estrado, o arco, o vergão.
Os poetas esquecidos no beco
Transam sangue a trago seco
Dormem como trapos sobre o chão.
Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão.
Francisco Espinhara
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
flores siberianas, por Patti Smith
Flores siberianas são rosadas
como o bracelete de uma filha
pálido penhoar
postado contra uma janela
que não mais desse vista
Há sangue em toda parte
privado de sua cor de sangue
E o rosto do amor é nada
além da brancura do inverno
cobrindo a colina
abeto e pinheiro
gamo e galhada
tudo soprado
e no entanto desejamos
Dois olhos negros
Uma cabeça curvada
Uma coroa caída
Patti Smith
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
A alfabetização do éter
Meu pai por fim morreu.
Mais de trinta anos depois de seu corpo ter sido abatido
como um bicho.
Naquela noite não dormi e saí às quatro e meia da manhã em
busca de cigarros.
Fazia um frio intenso e não havia nada na rua.
Nem cães. Nem vendedores de tacos. Nem vendedoras de flautas
douradas.
Encontrei numa cantina às margens do lago e voltei fazendo
fumaça.
Passos rápidos. Uma viatura de polícia. O carro do lixo.
À minha espera um quarto em paz profunda.
O sono das mulheres depois do milagre.
A paz profunda do corpo de meu pai no bagageiro do avião.
Finalmente.
Mais de trinta anos depois.
Sentei na escadinha onde minha avó estivera sentada sete
dias atrás.
O corpo no bagageiro do avião como anos antes o corpo de
minha mãe.
Belém-Recife-Fortaleza.
Não lembro se havia lua no céu.
Não lembro de sentir frio apesar do tanto de frio que fazia.
Só a paz do sono pós-parto.
O cigarro entre os dedos.
E o silêncio que sempre antecede o amanhecer nos pueblos mexicanos.
A morte sorrindo com a boca atascada de pimenta.
Don Abel Hernández segurando a alça do caixão.
Embarcando o corpo no avião.
Sob o olhar assustado dos policiais do aeroporto.
E o silêncio que antecede o tiro do caçador contra o corpo
da cegonha que traz os bebês.
E eu ali. Parado. Fumando.
Na mesma escada em que minha vó esteve sete dias atrás.
Enterrando meu pai na mesma cova onde estava enterrada minha
mãe.
Esperando o dia amanhecer para escutar a canção que Maria,
recém nascida, entoaria.
O alfabeto escrevendo com éter o destino num último instante
de calmaria.
nuno g.
terça-feira, 18 de agosto de 2020
recife
nunca foi exatamente uma cidade
uma rocha na água, uma pedra
coberta de sal
nunca foi exatamente um lugar
uma memória de uma memória
apagada
algo feito do que antecede a
palavra
recife,
sempre sucedida por uma vírgula
uma queda e outra queda e
tubarões lendários e interdição
recife,
só tempo sem densidade
calabouço de reticências e
reticências e sal
nunca foi exatamente um carnaval
recife,
sem trocadilhos
sem marasmo
um cinema
um rio
uma farmácia
uma queda que não cessa
recife é uma fenda dentro
uma fenda que separa o músculo do
osso
a carne da alma
nunca foi exatamente um porto
nem uma estação ferroviária
recife,
marco zero de uma falta
nuno g.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
O poeta e a freira
À memória de José Alcides Pinto e Deolindo Tavares
O poeta sem descendentes me toca a porta.
Estou no banheiro e tenho papel higiênico às mãos.
A freira, sifilítica, pronuncia jaculatórias que, como
círculos de fumaça, não se fecham.
Estou no banheiro e o poeta sem descendentes não tem tempo para
esperas.
A freira, sifilítica, toca seu sexo como se nele houvesse
ainda a fenda da salvação.
Deus é o abismo insondável, como esse papel sujo de fezes.
Deus é o inominável, como a freira em sua loucura erótica
com navios e piratas.
O poeta me chuta a porta.
Entra na casa sem permissão.
Vasculha cada canto da jaula.
A freira, sifilítica e anoréxica, o convida à ceia.
Os dois comem pássaros vivos.
Deus, à guilhotina, como uma barata austríaca enfeitiçada.
Enquanto o rio corre para algum lugar depois do fim do
mundo.
A casa, feito chamas, torna mais bela a colina.
Nos parapeitos, vestígios das cabras e dos cigarros.
A freira goza, canções de suplícios e máquinas de devorar
leões.
Sua face é tão atrativa quanto as ruas.
E nada, apenas o nada, sobrevive no interior de seu hálito.
O poeta vomita as flores do seu próprio aniversário.
Entre elas as cabeças dos pássaros degolados.
Entre elas meus sonhos de depois de amanhã e de nunca mais.
Não paro de pensar em Bernardo e em sua busca da própria
alma.
Ele a escondeu dos maus e agora já não a encontra.
Traz sobre nós a vantagem de saber tê-la perdido.
No inferno isso é uma sabedoria.
Os cães latem. Maria dorme.
O tempo oscila entre a angústia e a epifania.
O poeta quebra os vidros das janelas.
Retira do bolso as receitas dos psiquiatras.
A casa escurece.
A luz se refugia nos cabelos e nas unhas.
A freira, frente ao cadáver, emudece.
Só o rio é indiferente.
Só a pedra não esquece o rumo da reza.
O amargo é o único refúgio do sagrado:
por isso é tão triste o último trago de café.
nuno g.
Cachoeira, 12 de agosto de 2020.
terça-feira, 11 de agosto de 2020
La casa, Stella Díaz Varín
Sin precedente en la historia de los indios manantiales,
y una cuenca abierta, para la mirada
de los ojos indiscretos colocada a la acera del abismo...
Y esta era mi morada.
Una víbora, encerrada en la jaula,
destinada a cualquier pájaro,
y una piedra caída temporalmente desde la cima,
una piedra nómade en busca de aventuras servía de puerta,
de mesa de comedor. ..
Qué queréis que se haga con estos materiales.
Nada. Sino escribir poesía melancólica.
Acaso, cuando la noche se despierte
debajo de los murciélagos,
no haya otra cosa sino una sensación,
y a estas vertientes
que a uno le aparecen desde el fondo de los ojos.
No haya
sino un alud de hijos de piedra,
de hijas de agua de hijos de árboles.
Entonces escribiré mi biografía
al uso de los poetas indecisos.
Miraré a través de una llama de cobalto
y distinguiré objetos olvidados;
como cuando dormía adosada a la pared
y todo parecía bello sin serlo.
Tomaré una de mis pequeñas flautas colgantes
y entonaré la canción del amor.
sábado, 8 de agosto de 2020
Luto
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Fragmento de "O homem da mão seca", Adélia Prado.
Séria fratura,
rigoroso inquérito.
Fora com os narradores performáticos,
que venham os maus poetas verdadeiros,
a honesta mediocridade:
Feliz Natal para todos
E um Ano Novo de prosperidade.
E ande a carroça. Devagar mas ande.
Adélia Prado
sexta-feira, 31 de julho de 2020
O mais bonito de todos os ofícios
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Luto de classes
sábado, 18 de julho de 2020
Teoria de um casarão do século XIX – sem nostalgia.
Ela lê os livros que a descobrem.
Ela lê os livros que a revelam.
Ela se lê nos livros que lhe dizem sobre não perder tempo.
Nem tudo é esquecimento.
Nem tudo é árvore.
Ela sente no corpo as sílabas que lhe pronunciam.
Ela sabe não haver mais salvação.
Ela sente na língua o sal do atlântico.
Ela se corrói, se revira e salta.
Ela vai se geografando savana – aqui não.
Ela vai, ainda que sem bússola, revisitando os fichamentos que lhe servem de mapa.
Ela é mais que ela.
Ela é ela e sua linhagem.
Ela está junta a seus ancestrais.
Nua, ouvindo jazz, ilhada.
Ela sabe que lá fora existe uma arma apontada desejando sua cabeça.
Ela sabe que lá fora existe um falo apontado desejando seu desejo.
Ela sabe que na solidão deste quarto respira uma saída.
Ela desarma a armadilha e corta os pulsos.
Ela é sua única herança.
E a cada página a miséria fica para trás.
nuno g.
quarta-feira, 8 de julho de 2020
Lá, por Ayla Andrade
Saudade eu tenho de outro tempo que eu sabia que não era feliz, mas achava que era. Achar que era feliz era a minha máxima. Era pelo menos real. A certeza de não ser feliz e permanecer achando.
Como aquele dia na praia, no sempre-verão da cidade, dias a fio arranjando como chegar no mar e de lá nunca mais sair.
Nunca mais sair é a nova regra do viver e de permanecer vivo. Permanecer por causa das pessoas de quem nem sou fã.
Fico em casa por mim mesma. Eu, a rede e esse trabalho incessante e desnecessário que me arranjaram mas que me garante o sustento.
Ayla Andrade
terça-feira, 7 de julho de 2020
CONSCIÊNCIA, por Renato Suttana
os que têm a consciência limpa.
Também já tive a consciência limpa,
agora a tenho vazia —
o que não impede que, a cada noite,
eu continue a chafurdar na insônia.
Têm um sono de pedra (é o que dizem)
os que respeitam os ditames
da moral e vivem segundo as conveniências
da razão. Mas isso não impede...
Por ora só tenho esta consciência vazia
e, em todas as noites, a insônia.
(O dia lá fora é frio e cinzento
e enfarruscado de norte a sul,
com ameaça de chuva:
é inverno, e inverno
em todos os quadrantes.)
Dormem como dormem os peixes,
porque têm a consciência tranquila.
Também já a tive tranquila,
agora a tenho vazia,
o que não é nenhuma vantagem.
(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia
e role de encontro
a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)
Dormem como dormem as pedras,
mas isso nada tem a ver com consciência.
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Lúcifer, o encantado
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Para o ano dos loucos, por Anne Sexton
Ai Maria, mãezinha frágil,
escuta-me, escuta-me agora
ainda que eu não saiba tuas palavras.
O rosário negro com o Cristo prateado
repousa profano em minha mão
pois sou a incrédula.
Cada conta dura e redonda entre meus dedos
é um anjinho negro.
Ai Maria, permite-me essa graça,
essa travessia,
ainda que eu seja feia,
submersa em meu próprio passado
e minha própria loucura.
Embora haja cadeiras,
estou deitada no chão.
Apenas minhas mãos estão vivas,
tocando as contas.
Palavra por palavra, tropeço.
Iniciante ainda, sinto tua boca tocar a minha.
Conto as contas como ondas,
martelando sobre mim.
Perco a conta, desanimo com o número delas,
doente, doente do calor do verão
e a janela acima de mim
é minha única ouvinte, meu ser acanhado.
Ela aceita tudo, me conforta.
Ela é a que dá alento,
e murmura,
bafejando os largos pulmões como um peixe enorme.
Cada vez mais perto,
chega a hora da minha morte
enquanto rearrumo meu rosto, retrocedo,
regrido, meu cabelo fica liso.
Tudo isso é morte.
Na mente há uma viela estreita chamada morte
e passo por ali como se estivesse n’ água.
Meu corpo é inútil.
Jaz imóvel, enrolado como um cachorro no tapete.
Entregou os pontos.
Não há palavras senão as aprendidas pela metade,
o Ave Maria e o cheia de graça.
Agora iniciei o ano sem palavras.
Noto a entrada esquisita e a voltagem exata.
Elas existem sem palavras.
Sem palavras pode-se tocar o pão
e receber nas mãos o pão,
sem som algum.
Ai Maria, médica afável,
vem com pós e ervas,
pois estou no centro.
É bem pequeno e o ar é cinzento,
como numa casa de máquinas
Passam-me o vinho como a uma criança dão o leite.
É ofertado num cálice delicado,
bojudo e de bordas finas.
O vinho em si é cor de piche, mosto e secreto.
O cálice ergue-se sozinho rumo à minha boca
e só percebo e entendo tudo isso
porque acontece.
Tenho medo de tossir
mas não falo,
medo de chuva, medo do cavaleiro
que entra galopando em minha boca.
O cálice entorna por si só
e estou em fogo.
Vejo dois filetes que descem queimando meu queixo.
Vejo-me como se fosse outra.
Fui cortada em duas.
Ai Maria, abre tuas pálpebras.
Estou nos domínios do silêncio,
o reino dos loucos e dos sonâmbulos.
Há sangue aqui
e eu o comi.
Ai mãe do ventre,
vim apenas em busca de sangue?
Ai mãezinha,
estou em meu juízo perfeito,
estou trancada na casa errada.
Anne Sexton
(agosto de 1963)