aqui não para de chover.
eu não paro de enferrujar.
nuno g.
Os fantoches da rua Sete
Seguem cegos na procissão.
A puta diurna da Palma
Traz uma venérea na alma
E uma cova diária na mão.
Da Ponte Velha a secular ferrugem
Reticente ao trajeto branco da nuvem
Come o estrado, o arco, o vergão.
Os poetas esquecidos no beco
Transam sangue a trago seco
Dormem como trapos sobre o chão.
Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão.
Francisco Espinhara
Flores siberianas são rosadas
como o bracelete de uma filha
pálido penhoar
postado contra uma janela
que não mais desse vista
Há sangue em toda parte
privado de sua cor de sangue
E o rosto do amor é nada
além da brancura do inverno
cobrindo a colina
abeto e pinheiro
gamo e galhada
tudo soprado
e no entanto desejamos
Dois olhos negros
Uma cabeça curvada
Uma coroa caída
Patti Smith
Meu pai por fim morreu.
Mais de trinta anos depois de seu corpo ter sido abatido
como um bicho.
Naquela noite não dormi e saí às quatro e meia da manhã em
busca de cigarros.
Fazia um frio intenso e não havia nada na rua.
Nem cães. Nem vendedores de tacos. Nem vendedoras de flautas
douradas.
Encontrei numa cantina às margens do lago e voltei fazendo
fumaça.
Passos rápidos. Uma viatura de polícia. O carro do lixo.
À minha espera um quarto em paz profunda.
O sono das mulheres depois do milagre.
A paz profunda do corpo de meu pai no bagageiro do avião.
Finalmente.
Mais de trinta anos depois.
Sentei na escadinha onde minha avó estivera sentada sete
dias atrás.
O corpo no bagageiro do avião como anos antes o corpo de
minha mãe.
Belém-Recife-Fortaleza.
Não lembro se havia lua no céu.
Não lembro de sentir frio apesar do tanto de frio que fazia.
Só a paz do sono pós-parto.
O cigarro entre os dedos.
E o silêncio que sempre antecede o amanhecer nos pueblos mexicanos.
A morte sorrindo com a boca atascada de pimenta.
Don Abel Hernández segurando a alça do caixão.
Embarcando o corpo no avião.
Sob o olhar assustado dos policiais do aeroporto.
E o silêncio que antecede o tiro do caçador contra o corpo
da cegonha que traz os bebês.
E eu ali. Parado. Fumando.
Na mesma escada em que minha vó esteve sete dias atrás.
Enterrando meu pai na mesma cova onde estava enterrada minha
mãe.
Esperando o dia amanhecer para escutar a canção que Maria,
recém nascida, entoaria.
O alfabeto escrevendo com éter o destino num último instante
de calmaria.
nuno g.
nunca foi exatamente uma cidade
uma rocha na água, uma pedra
coberta de sal
nunca foi exatamente um lugar
uma memória de uma memória
apagada
algo feito do que antecede a
palavra
recife,
sempre sucedida por uma vírgula
uma queda e outra queda e
tubarões lendários e interdição
recife,
só tempo sem densidade
calabouço de reticências e
reticências e sal
nunca foi exatamente um carnaval
recife,
sem trocadilhos
sem marasmo
um cinema
um rio
uma farmácia
uma queda que não cessa
recife é uma fenda dentro
uma fenda que separa o músculo do
osso
a carne da alma
nunca foi exatamente um porto
nem uma estação ferroviária
recife,
marco zero de uma falta
nuno g.
À memória de José Alcides Pinto e Deolindo Tavares
O poeta sem descendentes me toca a porta.
Estou no banheiro e tenho papel higiênico às mãos.
A freira, sifilítica, pronuncia jaculatórias que, como
círculos de fumaça, não se fecham.
Estou no banheiro e o poeta sem descendentes não tem tempo para
esperas.
A freira, sifilítica, toca seu sexo como se nele houvesse
ainda a fenda da salvação.
Deus é o abismo insondável, como esse papel sujo de fezes.
Deus é o inominável, como a freira em sua loucura erótica
com navios e piratas.
O poeta me chuta a porta.
Entra na casa sem permissão.
Vasculha cada canto da jaula.
A freira, sifilítica e anoréxica, o convida à ceia.
Os dois comem pássaros vivos.
Deus, à guilhotina, como uma barata austríaca enfeitiçada.
Enquanto o rio corre para algum lugar depois do fim do
mundo.
A casa, feito chamas, torna mais bela a colina.
Nos parapeitos, vestígios das cabras e dos cigarros.
A freira goza, canções de suplícios e máquinas de devorar
leões.
Sua face é tão atrativa quanto as ruas.
E nada, apenas o nada, sobrevive no interior de seu hálito.
O poeta vomita as flores do seu próprio aniversário.
Entre elas as cabeças dos pássaros degolados.
Entre elas meus sonhos de depois de amanhã e de nunca mais.
Não paro de pensar em Bernardo e em sua busca da própria
alma.
Ele a escondeu dos maus e agora já não a encontra.
Traz sobre nós a vantagem de saber tê-la perdido.
No inferno isso é uma sabedoria.
Os cães latem. Maria dorme.
O tempo oscila entre a angústia e a epifania.
O poeta quebra os vidros das janelas.
Retira do bolso as receitas dos psiquiatras.
A casa escurece.
A luz se refugia nos cabelos e nas unhas.
A freira, frente ao cadáver, emudece.
Só o rio é indiferente.
Só a pedra não esquece o rumo da reza.
O amargo é o único refúgio do sagrado:
por isso é tão triste o último trago de café.
nuno g.
Cachoeira, 12 de agosto de 2020.
Séria fratura,
rigoroso inquérito.
Fora com os narradores performáticos,
que venham os maus poetas verdadeiros,
a honesta mediocridade:
Feliz Natal para todos
E um Ano Novo de prosperidade.
E ande a carroça. Devagar mas ande.
Adélia Prado