quinta-feira, 10 de setembro de 2020

flores siberianas, por Patti Smith

Flores siberianas são rosadas

como o bracelete de uma filha

pálido penhoar

postado contra uma janela

que não mais desse vista

Há sangue em toda parte

privado de sua cor de sangue

E o rosto do amor é nada

além da brancura do inverno

cobrindo a colina

abeto e pinheiro

gamo e galhada

tudo soprado

e no entanto desejamos

Dois olhos negros

Uma cabeça curvada

Uma coroa caída


Patti Smith

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A alfabetização do éter

Meu pai por fim morreu.

Mais de trinta anos depois de seu corpo ter sido abatido como um bicho.

 

Naquela noite não dormi e saí às quatro e meia da manhã em busca de cigarros.

Fazia um frio intenso e não havia nada na rua.

Nem cães. Nem vendedores de tacos. Nem vendedoras de flautas douradas.

Encontrei numa cantina às margens do lago e voltei fazendo fumaça.

Passos rápidos. Uma viatura de polícia. O carro do lixo.

À minha espera um quarto em paz profunda.

O sono das mulheres depois do milagre.

 

A paz profunda do corpo de meu pai no bagageiro do avião.

Finalmente.

Mais de trinta anos depois.

Sentei na escadinha onde minha avó estivera sentada sete dias atrás.

O corpo no bagageiro do avião como anos antes o corpo de minha mãe.

Belém-Recife-Fortaleza.

Não lembro se havia lua no céu.

Não lembro de sentir frio apesar do tanto de frio que fazia.

Só a paz do sono pós-parto.

O cigarro entre os dedos.

E o silêncio que sempre antecede o amanhecer nos pueblos mexicanos.  

 

A morte sorrindo com a boca atascada de pimenta.

Don Abel Hernández segurando a alça do caixão.

Embarcando o corpo no avião.

Sob o olhar assustado dos policiais do aeroporto.

E o silêncio que antecede o tiro do caçador contra o corpo da cegonha que traz os bebês.

E eu ali. Parado. Fumando.

Na mesma escada em que minha vó esteve sete dias atrás.

Enterrando meu pai na mesma cova onde estava enterrada minha mãe.

Esperando o dia amanhecer para escutar a canção que Maria, recém nascida, entoaria.

 

O alfabeto escrevendo com éter o destino num último instante de calmaria.


nuno g.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

recife

nunca foi exatamente uma cidade

uma rocha na água, uma pedra coberta de sal

nunca foi exatamente um lugar

uma memória de uma memória apagada

algo feito do que antecede a palavra

recife,

sempre sucedida por uma vírgula

uma queda e outra queda e

tubarões lendários e interdição

recife,

só tempo sem densidade

calabouço de reticências e reticências e sal

nunca foi exatamente um carnaval

recife,

sem trocadilhos

sem marasmo

um cinema

um rio

uma farmácia

uma queda que não cessa

recife é uma fenda dentro

              uma fenda que separa o músculo do osso

a carne da alma

nunca foi exatamente um porto

nem uma estação ferroviária

recife,

marco zero de uma falta


nuno g.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O poeta e a freira

 À memória de José Alcides Pinto e Deolindo Tavares

 

O poeta sem descendentes me toca a porta.

Estou no banheiro e tenho papel higiênico às mãos.

A freira, sifilítica, pronuncia jaculatórias que, como círculos de fumaça, não se fecham.

Estou no banheiro e o poeta sem descendentes não tem tempo para esperas.

A freira, sifilítica, toca seu sexo como se nele houvesse ainda a fenda da salvação.

Deus é o abismo insondável, como esse papel sujo de fezes.

Deus é o inominável, como a freira em sua loucura erótica com navios e piratas.

O poeta me chuta a porta.

Entra na casa sem permissão.

Vasculha cada canto da jaula.

A freira, sifilítica e anoréxica, o convida à ceia.

Os dois comem pássaros vivos.

Deus, à guilhotina, como uma barata austríaca enfeitiçada.

Enquanto o rio corre para algum lugar depois do fim do mundo.

A casa, feito chamas, torna mais bela a colina.

Nos parapeitos, vestígios das cabras e dos cigarros.

A freira goza, canções de suplícios e máquinas de devorar leões.

Sua face é tão atrativa quanto as ruas.

E nada, apenas o nada, sobrevive no interior de seu hálito.

O poeta vomita as flores do seu próprio aniversário.

Entre elas as cabeças dos pássaros degolados.

Entre elas meus sonhos de depois de amanhã e de nunca mais.

Não paro de pensar em Bernardo e em sua busca da própria alma.

Ele a escondeu dos maus e agora já não a encontra.

Traz sobre nós a vantagem de saber tê-la perdido.

No inferno isso é uma sabedoria.

Os cães latem. Maria dorme.

O tempo oscila entre a angústia e a epifania.

O poeta quebra os vidros das janelas.

Retira do bolso as receitas dos psiquiatras.

A casa escurece.

A luz se refugia nos cabelos e nas unhas.

A freira, frente ao cadáver, emudece.

Só o rio é indiferente.

Só a pedra não esquece o rumo da reza.

O amargo é o único refúgio do sagrado:

por isso é tão triste o último trago de café.

 

nuno g.

Cachoeira, 12 de agosto de 2020.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

La casa, Stella Díaz Varín

Dejaban mi cabellera colgando desde el tronco de la puerta como trofeo.
Sin precedente en la historia de los indios manantiales,
y una cuenca abierta, para la mirada
de los ojos indiscretos colocada a la acera del abismo...
Y esta era mi morada.
Una víbora, encerrada en la jaula,
destinada a cualquier pájaro,
y una piedra caída temporalmente desde la cima,
una piedra nómade en busca de aventuras servía de puerta,
de mesa de comedor. ..

Qué queréis que se haga con estos materiales.
Nada. Sino escribir poesía melancólica.

Acaso, cuando la noche se despierte
debajo de los murciélagos,
no haya otra cosa sino una sensación,
y a estas vertientes
que a uno le aparecen desde el fondo de los ojos.

No haya
sino un alud de hijos de piedra,
de hijas de agua de hijos de árboles.

Entonces escribiré mi biografía
al uso de los poetas indecisos.
Miraré a través de una llama de cobalto
y distinguiré objetos olvidados;
como cuando dormía adosada a la pared
y todo parecía bello sin serlo.
Tomaré una de mis pequeñas flautas colgantes
y entonaré la canción del amor.

sábado, 8 de agosto de 2020

Luto

A Prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso, Brasil), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos) comunicam o falecimento Dom Pedro Casaldáliga Pla, CMF, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso) e Missionário Claretiano, ocorrido neste dia 08 de agosto de 2020 às 9:40 horas (horário de Brasília), na cidade de Batatais, estado de São Paulo, Brasil.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Fragmento de "O homem da mão seca", Adélia Prado.

Séria fratura,

rigoroso  inquérito.

Fora com os narradores performáticos,

que venham os maus poetas verdadeiros,

a honesta mediocridade:

Feliz Natal para todos

E um Ano Novo de prosperidade.

E ande a carroça. Devagar mas ande.


Adélia Prado

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O mais bonito de todos os ofícios



para uma amiga filósofa, 
em seu refúgio de insurretas cartas

Houve um tempo em que todas as manhãs eles acordavam e sentavam em algum canto à espera de pessoas que queriam dizer algo. Elas chegavam, às vezes envergonhadas outras vezes desaforadas, e lhes diziam o que queriam dizer. Eles traduziam aquilo em palavras, botavam os pontos precisos para impor o ritmo necessário, envelopavam e recebiam o pago. Esse tempo não existe mais, todos agora acreditam ser capazes de dizer por si mesmo o que querem: é um tempo de tristeza e de completo divórcio com a realidade. Escrever uma carta é saber fingir, com tanta intensidade que se chega a sentir que o que se escreve resiste à pesada acareação com o que se sente de fato. Escrever uma carta é se esquecer que quando se escreve deixamos que fale o que somos, o que vive em silêncio e reclusão, o que é ao mesmo tempo travessia e muralha. O tempo, numa carta, é sempre outro. Nunca se deixa alcançar: nele toda perseguição é frustrada. Agora, que todos creem saber dizer de si por si mesmo não encontramos mais esses homens que ao escrever nossas cartas nos revelavam. Ficaram mais pobre os amores, menos pesados os lutos e as experiências foram perdendo suas intensidades. A arte do fingimento é em tudo o oposto da mentira e da vulgaridade. A palavra água deve molhar, a palavra fogo deve queimar, a palavra incenso deve perfumar e a palavra serpente só faz sentido se capaz de envenenar. Ouvi dizer que por aí andam a medir as cartas contando os caracteres que as compõem: nada mais ilustrativo da miséria que habitamos. Escrever cartas é como abrir uma oferenda – deve seguir certos preceitos, deve se abandonar certos pudores tão necessários no cotidiano. A mensagem é sempre o que menos importa – ela se resolve com a linguagem ordinária. Sei que não faltará quem me reprove e afirme que esse ofício se extinguiu com a alfabetização em massa e sei também que sim muitos que buscavam esse serviço o faziam por não dominar a arte da escrita. Mas não é desses que eu falo, não são esses o que aqui importam. Falo daqueles que sabiam que o que sentiam e desejavam dizer estava além das palavras que traziam semeadas. Falo daqueles que não sabiam fingir e que buscavam na imaginação alheia o fingimento necessário à toda verdade. E sim, toda mentira tem na verdade sua própria condição de possibilidade. Ou como me disse uma amiga filósofa: a mentira é uma exigência da verdade. Assim como a urgência e o desespero são exigências da serenidade. Que tempo triste em que ninguém oferece sua imaginação ao outro, sua capacidade de fingir e sua perícia em tentar dizer o que, por definição, não pode ser jamais dito. Quando se escreve uma carta o que menos importa é o que se quer dizer: isso se pode fazer de qualquer jeito. Uma carta exige uma forma, exige uma maneira, exige um estilo. Como qualquer lágrima exige o sal ou qualquer chuva uma alegria. As cartas são na verdade a prova mais cabal que estamos vivos. Os fingimentos que nelas forjamos são o que nos permitem seguir. Se ainda houvessem pessoas e cartas não haveria tanta reclamação sobre ficar em casa por tanto tempo e rapidamente descobriríamos que não é tão mal estarmos juntos a nós mesmos. Se ainda houvessem esses que nos traduzem e se tivéssemos a humildade de reconhecer que não somos capazes, recorreríamos a eles para que nos dissessem com suas palavras, com seus sinais de pontuação e com todos os outros apetrechos do universo da gramática. Ser escritor em nosso tempo é isso: escrever cartas impossíveis para pessoas que não existem mais. É acordar bem cedo, olhar o céu e escrever o amanhecer para que a morte se demore um pouco mais a chegar. É mais comum do que se pensa escrever uma palavra enquanto se sente outra, por isso cada escritor tem seu próprio dicionário. Para uns chuva é alegria, para outros: tristeza. Antes, quando não se sabia como associar as duas coisas era só buscar ajuda com quem com toda energia a essa tarefa se dedicava. Esses já não existem mais e as pessoas agora recorrem aos livros de autoajuda que não são livros nem ajudam ninguém: só engordam as contas bancárias dos farsantes que os escrevem e a arrogância dos fascistas que os tomam por literatura. O mais bonito de todos os ofícios já não existe mais: todos agora acreditam que são capazes de sentir o que dizem e se vestem com trajes de inocências como se fossemos capazes de sentir sem os necessários fingimentos que exige toda e qualquer verdade. O mais bonito de todos os ofícios já não existe mais, vivemos um tempo de completo divórcio com o imaginário instituinte de toda e qualquer realidade: ao nos desfazermos dos fingimentos imaginários tornamos impossível e inalcançável a autenticidade das experiências e substituímos o poético e as angústias que nos são necessárias pelas inutilidades amontoadas nas prateleiras das livrarias contemporâneas. Toda carta é um pressentimento: a beleza daquele ofício, que já não existe mais, consistia em não nos deixar esquecer que não é possível existir, sem a mentira, nenhuma verdade.

nuno g.
Cachoeira, 31 de julho de 2020

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Luto de classes


Nas pandemias, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Nas crises econômicas, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Nas pandemias, como no cotidiano: quem tem privilégios se resguarda, pobres são enterrados.
Pandemias não são guerras: essa é só uma metáfora abusiva e gasta.
Nas guerras, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Nas guerras, nas pandemias, no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
No fascismo, como no cotidiano: ricos sobrevivem, pobres são enterrados.
Amanhã nos noticiários teremos tudo junto e misturado:
Pandemia, crise, fascismo e guerra,
como no cotidiano:
Ricos seguirão sobrevivendo.
Pobres seguirão sendo enterrados.

nuno g.
Cachoeira, 23 de julho de 2020.

sábado, 18 de julho de 2020

Teoria de um casarão do século XIX – sem nostalgia.

o banzo é uma transcendência diante dos traumas seculares
Davi Nunes

Ela lê os livros que a descobrem.
Ela lê os livros que a revelam.
Ela se lê nos livros que lhe dizem sobre não perder tempo.
Nem tudo é esquecimento.
Nem tudo é árvore.
Ela sente no corpo as sílabas que lhe pronunciam.
Ela sabe não haver mais salvação.
Ela sente na língua o sal do atlântico.
Ela se corrói, se revira e salta.
Ela vai se geografando savana – aqui não.
Ela vai, ainda que sem bússola, revisitando os fichamentos que lhe servem de mapa.
Ela é mais que ela.
Ela é ela e sua linhagem.
Ela está junta a seus ancestrais.
Nua, ouvindo jazz, ilhada.
Ela sabe que lá fora existe uma arma apontada desejando sua cabeça.
Ela sabe que lá fora existe um falo apontado desejando seu desejo.
Ela sabe que na solidão deste quarto respira uma saída.
Ela desarma a armadilha e corta os pulsos.
Ela é sua única herança.
E a cada página a miséria fica para trás.

nuno g.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Lá, por Ayla Andrade

Saudade eu sinto de nada. Saudade nem da palavra saudade. Não tenho saudade de pessoas. Nem gosto de pessoas. Nem de cartas.
Saudade eu tenho de outro tempo que eu sabia que não era feliz, mas achava que era. Achar que era feliz era a minha máxima. Era pelo menos real. A certeza de não ser feliz e permanecer achando.
Como aquele dia na praia, no sempre-verão da cidade, dias a fio arranjando como chegar no mar e de lá nunca mais sair.
Nunca mais sair é a nova regra do viver e de permanecer vivo. Permanecer por causa das pessoas de quem nem sou fã.
Fico em casa por mim mesma. Eu, a rede e esse trabalho incessante e desnecessário que me arranjaram mas que me garante o sustento.

No fim a gente vai morrer em casa, com o armário cheio de comida e com lembrança de uma saudade vaga.

Ayla Andrade

terça-feira, 7 de julho de 2020

CONSCIÊNCIA, por Renato Suttana

Dormem bem (é o que dizem)
os que têm a consciência limpa.
Também já tive a consciência limpa,
agora a tenho vazia —
o que não impede que, a cada noite,
eu continue a chafurdar na insônia.

Têm um sono de pedra (é o que dizem)
os que respeitam os ditames
da moral e vivem segundo as conveniências
da razão. Mas isso não impede...
Por ora só tenho esta consciência vazia
e, em todas as noites, a insônia.

(O dia lá fora é frio e cinzento
e enfarruscado de norte a sul,
com ameaça de chuva:
é inverno, e inverno
em todos os quadrantes.)

Dormem como dormem os peixes,
porque têm a consciência tranquila.
Também já a tive tranquila,
agora a tenho vazia,
o que não é nenhuma vantagem.
(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia
e role de encontro
a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)

Dormem como dormem as pedras,
mas isso nada tem a ver com consciência.

Renato Suttana

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Lúcifer, o encantado

Saudade mesmo sinto é das palavras que as pessoas escreviam nas cartas. Hoje, já não existem mais pessoas, já não existem mais cartas – o tempo sim existe, esse deus miserável que por temor ao próprio destino segue engolindo os próprios filhos como os mágicos de circo outrora engoliam fogo-fátuo. Saudade é como um dente podre implorando pra ser arrancado: ser poeta é aguentar nos ombros até a beleza de um cadáver. Não de um cadáver qualquer. Um cadáver de velho tem obrigação de trazer paz. Pelo que viveu. Pelo que sonhou. Pela ameaça que seria o futuro caso seguisse se recusando a ir ao outro lado, a regressar à morada originária. Ser poeta é aguentar nos ombros a beleza do cadáver de uma criança morta. Não te olhando. Não te chorando. Não te pedindo mais nada. Saudade sinto é das coisas que nunca vivi e que sei não me estarem reservadas. Nunca tive tanta comida no armário e posso ficar dias a fio sem fazer nada. Saudade sinto é das rezas, dos cânticos, das ladainhas e da falta de misericórdia que alegrava nossas mais terríveis madrugadas. Ouço o asno do vizinho. Ouço as galinhas da casa de farinha. Desligo o telefone. Os cães latem. Saudade eu sinto é do meu irmão Claudio. O resto tá perfeito. Não ter que ir à universidade. Não ter que escutar professores universitários. Não ter que fazer nada. Quando o mundo some só nos resta a vontade. Já enterrei dois filhos. Já enterrei pai e mãe. Já enterrei avô e avó. Já enterrei meu primo mais próximo. Sou especialista em enterrar cadáveres. Saudade eu tenho de quando fascista era um ser raro: um substantivo pesado, quase-excluído do dicionário. Do que mais sinto saudade é do ato profano de ter saudade. De vagar no labirinto de livros à procura de uma libélula solitária. Os amigos estão bem. Tenho saudade da chuva e do direito de destruir aquários: libertar as esponjas, as algas e todos os seres de sal aprisionados. Não tenho saudades de nada. Amo a casa que vivo. Amo o corpo que tenho. E quando me dizem adeus sou profundamente grato. Não há nada que me faça sair deste campo esférico que habito: o nada me respira, o nunca me pertence e o jamais é dom e é graça. As flores desconhecem a saudade, os espinhos também. Minhas mãos foram feitas para empunhar pás de areia / para enterrar entes queridos – a iluminação destes versos me acompanha: como me acompanham os tapuias jaguaribanos e o árido e inclemente sol do sertão de minha infância. Estamos cercados de trogloditas armados e isso não muda nada. Estamos cercados de impiedade e isso não quer dizer nada. A intolerância é um mais entre tantos signos com os quais fomos ferrados: e sim somos apenas um rebanho mais entre tantos outros. As nossas vacinas não serão capazes de extinguir as colmeias de vírus da terra: graças aos deuses, já exterminamos demasiadas espécies, já acumulamos demasiado karma. Agradeço a onipresença do café. Agradeço a onipotência do amargo. Agradeço a onisciência do insólito. Sei que agora sabemos que somos menos e só nos resta fazer deste mantra nossa nova forma de oração: o resto é sabotagem e desconsideração.

nuno g.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Para o ano dos loucos, por Anne Sexton

uma oração

Ai Maria, mãezinha frágil,
escuta-me, escuta-me agora
ainda que eu não saiba tuas palavras.
O rosário negro com o Cristo prateado
repousa profano em minha mão
pois sou a incrédula.
Cada conta dura e redonda entre meus dedos
é um anjinho negro.
Ai Maria, permite-me essa graça,
essa travessia,
ainda que eu seja feia,
submersa em meu próprio passado
e minha própria loucura.
Embora haja cadeiras,
estou deitada no chão.
Apenas minhas mãos estão vivas,
tocando as contas.
Palavra por palavra, tropeço.
Iniciante ainda, sinto tua boca tocar a minha.

Conto as contas como ondas,
martelando sobre mim.
Perco a conta, desanimo com o número delas,
doente, doente do calor do verão
e a janela acima de mim
é minha única ouvinte, meu ser acanhado.
Ela aceita tudo, me conforta.
Ela é a que dá alento,
e murmura,
bafejando os largos pulmões como um peixe enorme.

Cada vez mais perto,
chega a hora da minha morte
enquanto rearrumo meu rosto, retrocedo,
regrido, meu cabelo fica liso.
Tudo isso é morte.
Na mente há uma viela estreita chamada morte
e passo por ali como se estivesse n’ água.
Meu corpo é inútil.
Jaz imóvel, enrolado como um cachorro no tapete.
Entregou os pontos.
Não há palavras senão as aprendidas pela metade,
o Ave Maria e o cheia de graça.
Agora iniciei o ano sem palavras.
Noto a entrada esquisita e a voltagem exata.
Elas existem sem palavras.
Sem palavras pode-se tocar o pão
e receber nas mãos o pão,
sem som algum.

Ai Maria, médica afável,
vem com pós e ervas,
pois estou no centro.
É bem pequeno e o ar é cinzento,
como numa casa de máquinas
Passam-me o vinho como a uma criança dão o leite.
É ofertado num cálice delicado,
bojudo e de bordas finas.
O vinho em si é cor de piche, mosto e secreto.
O cálice ergue-se sozinho rumo à minha boca
e só percebo e entendo tudo isso
porque acontece.

Tenho medo de tossir
mas não falo,
medo de chuva, medo do cavaleiro
que entra galopando em minha boca.
O cálice entorna por si só
e estou em fogo.
Vejo dois filetes que descem queimando meu queixo.
Vejo-me como se fosse outra.
Fui cortada em duas.

Ai Maria, abre tuas pálpebras.
Estou nos domínios do silêncio,
o reino dos loucos e dos sonâmbulos.
Há sangue aqui
e eu o comi.
Ai mãe do ventre,
vim apenas em busca de sangue?
Ai mãezinha,
estou em meu juízo perfeito,
estou trancada na casa errada.

Anne Sexton
(agosto de 1963)
tradução: Renato Marques de Oliveira

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Proyecto de un beso- Leopoldo María Panero

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.
Te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra.

Te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde.

Te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra.

Te mataré mañana cuando la luna salga,
y al salir de aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación.

Te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida.

Te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas.

Te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.

Leopoldo María Panero
Poema del libro El último hombre, 1984.

sábado, 27 de junho de 2020

Serenidade, por Leopoldo María Panero

                        Para Martin Heidegger

Só há duas coisas : o meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência só se acende
quando o ser é contra ela:
e é assim que todo o conhecimento
e a matriz de toda a figura
é uma ferida,
e só quem chora
é imortal.
E a noite, mãe da sabedoria,
tem a forma inacabável do pranto.

Leopoldo María Panero
tradução: Luis Costa

sexta-feira, 19 de junho de 2020

***

Del amor sólo queda el cuerpo:
Una biología vigorosa y atractiva
con la que me solazo y sueño

En vez de amor tengo poemas
por quienes ser feliz y ser sufrido
los rememoro en mi intimidad
presiento su llegada a mi vida
los maldigo cuando no se entregan
recuerdo siempre cómo han venido

Amor es algo que aprendí en Platón
y en él quemé una larga adolescencia
en la que casi siempre se mostró esquivo
Mas en ese tiempo no sabía de poemas
y mi alma incompleta necesitaba alguien
para ser ella un todo consigo misma
Escribía cartas para que me amaran
ahora amo a los otros en mí y escribo

raúl gomez jattin

domingo, 14 de junho de 2020

5000


São esses os mortos contados no Ceará até agora.
Sabemos que esse número é menor, muito menor que o de fato.
Ontem trezentos fascistas tentaram invadir o congresso nacional.
Ninguém foi preso, ninguém foi morto, ninguém foi espancado.
É que entre eles não havia ninguém que fosse alvo.
Anteontem outros fascistas invadiram hospitais.
A mando do Asno-mor, autoproclamado tirano desta republiqueta infernal.
Ninguém foi preso, ninguém foi morto, ninguém foi espancado.
É que entre eles não havia alvo.
Um jovem é espancado na periferia de São Paulo.
O filho de uma empregada doméstica cai de uma torre no Recife.
Um estudante negro “suspeito” de roubar um carro é preso em Salvador:
Ele não sabia dirigir e foi sequestrado quando voltava da caixa onde foi receber os famigerados seiscentos reais.
Ninguém vai ser preso, ninguém vai ser morto, ninguém vai ser espancado.
São só notícias banais: é só a rotina desta nossa republiqueta infernal.
O ministro da economia faz a contabilidade: com os anciãos mortos ele zera o déficit da previdência social.
O ministro da justiça faz a contabilidade: com os mortos da favela ele equaliza a mão de obra de reserva e diminui o exército de desempregados que poderia levar adiante uma revolução indesejada.
O ministro da educação desfila sua ignorância pelas ruas de Brasília: selfies alegóricas para uma triste posteridade.
Os shoppings estão abertos, as igrejas evangélicas também.
O ministro da saúde escova a farda e amontoa nos gabinetes mais militares: todos especializados em pandemias e problemas sanitários.
O Kuarup foi cancelado: os pajés sabem que os mortos podem esperar – a memória da peste é sábia conselheira.
Com alguma sorte faz sol, dá praia, e na falta de algo melhor vamos todos desfilar nosso racismo, nossa truculência, nossa infinita devoção à barbárie.
Perco o sono e passo a noite em claro pensando: como daqui a uns anos vamos explicar a nossas crianças que vimos tudo isso acontecer e não fizemos nada.
Com que olhos olharemos nos olhos de nossos filhos quando os olhos deles nos pedirem que nos expliquem como permitimos que o mundo que os legamos fosse ainda pior que o mundo que herdamos.
Até Roberto Jeferson, o canalha ressuscitado, aos quatro ventos brada: anistiamos os militares que nos salvaram e a eles agora recorremos que outra vez nos salvem.
Abro os jornais e vejo: Monica Bergamo, Eliane Cantanhêde e Vera Magalhães esbravejando a torto e a direito como se não houvessem semeado isso.
Silvio Santos, Major Curió, Hermanos Weintraub e Olavo de Carvalho: todos condecorados com medalhas de mérito e honrarias.
O ministro do meio ambiente age rápido: o vírus escancarou a porteira passemos a boiada rapidamente.
Damares, a que vê Jesus em pé de goiaba e que por caridade adotou uma indígena, se emociona ao ver navios militares distribuindo a peste na floresta.
Sim, acabou: já basta.
Chega de ler liberais arrependidos disfarçando que não sabiam de nada.
Chega de fazer de conta que os fascistas não são necessários aos sonhos neoliberais de nossa republiqueta com delírios escravocratas.
É domingo. Faz sol. Não vai dar praia.
O meu temor é não ter palavras quando minha filha crescer e me perguntar:
Papai, você viu tudo isso acontecer e não fez nada?

nuno g.
14 de junho de 2020.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

261

261 cearenses foram enterrados hoje.
Carla Zambelli diz que tinha pedras naqueles caixões.
O asno-mor manda a gente tomar tubaína.
A voz do presidente do supremo no roda-viva dizendo:
democracia é assim mesmo
atravessada na goela.
Sempre tem um túnel no fim da luz: o nome dele é poesia.
Depois que a gente enterra a esperança
a geografia do céu ganha fronteiras que desconhecíamos.
Esperar que tudo volte ao normal é falta de imaginação:
Não existe volta e o que chamávamos de normal está morto.
Amanhã é só o nome que inventamos para a delicada arte de conviver com fantasmas

nuno g..

quinta-feira, 14 de maio de 2020

nós e as divindades

sonhei com o mar e meu pés deixavam uma trilha de pegadas nas areias. havia vento, muito vento. e havia também uma música suave e bela que acompanhava meus passos. eu estava só e só caminhava entre muitos outros. eu olhava o mar e o mar me olhava com seus olhos de sal. sonhei com um mar muito antigo de águas calmas e nesse sonhava eu caminhava com uma serenidade absurda. havia muitas outras pessoas entre os grãos de areia, mas eu estava só. nada afetava minha paz e o fato de saber que elas estavam mortas a muito tempo me tranquilizava. sonhei com o mar e com as tantas léguas que caminhei para chegar até ele. muitas foram as montanhas que ficaram para trás e extensa a várzea que me levou até ele. sonhei com enormes olhos de sal e mil tentáculos. uma música suave e bela acompanhava meus passos. deixei uma trilha de pegadas nas areias e apesar do vento todo que ventava essas marcas não se apagavam. era inverno, fazia frio, apesar do sol a pino. meus dedos eram longos como os de um velho pianista enfeitiçado e nenhum mal me habitava. sonhei com o mar e com todas as distâncias que nos separam. havia cavalos, havia cabras, havia som de chocalhos. meu corpo estava fendido e trespassado por espinhos alaranjados como os raios do sol. na minha boca havia fogo e era doce o fogo. na minha boca havia memória de luas das guerras antigas. na minha boca havia atrocidades em excesso. o mar, o vento, as areias. eu estava só, apesar de todos os que me rodeavam. não sentia cansaço, apesar de saber o tanto que havia caminhado até chegar ali. as feridas em meus pés denunciavam a existência de um longo e tortuoso passado e os meus cílios cintilantes anunciavam que em breve outra alma encarnaria em meu corpo desabitado. fazia sol, mas era frio. havia música e minha imagem não refletia nas águas. havia cavalos com um só corno e cabras que se perdiam admirando a abóbada celestial. era maio, era o mês dos nossos aniversários e de alguma forma eu pressentia que nas funduras de alguma fossa oceânica nossas alegrias haviam se reencontrado: ainda que por um breve e inusitado instante, ainda que não estivéssemos acordados e que nosso hálito conservasse gotículas microscópicas de éter extraviado. era maio e maio sempre foi o mês de nossos aniversários. sonhei com o mar e com enormes olhos de sal aferrados a mil tentáculos. despertei tarde e me alimentei com sementes como me ensinaram os pássaros. revisei as correspondências e acariciei a onça estendida no sofá. agradeci às divindades aquele sonho e tomei mais um café - o amargo é ainda mais delicado quando sonhamos com o mar e despertamos encharcados de sal. arranquei fora os espinhos alaranjados de sol - o amargo é ainda mais delicado quando sonhamos com cabras, cavalos e chocalhos. a serpente veio, me abraçou e nos acariciamos como se a eternidade houvesse finalmente se instalado entre essas ruínas onde acampamos. despertei, me alimentei de sementes como me ensinaram os pássaros e me recolhi na medula óssea do mês de maio. mês de nossos aniversários. mês em que recordo que tudo passa e só por isso seguimos aqui. tomei um último café - e agradeci uma última vez às divindades a existência insólita do amargo.


nuno g.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

quarta-feira, 6 de maio de 2020

A MOITA , por marialice

eu sou uma moita que procura outra moita que achei outra moita que viramos gêmeas
eu e ela procuramos outra moita
FIM

marialice

segunda-feira, 27 de abril de 2020

quarentena


chove e quando chove a terra se alegra
chove e nas águas da chuva vivem as divindades
chove e a suavidade da chuva não oculta a beleza do mundo
chove e faz escuro como nunca antes
chove, filha, e os teus olhos brilham mais que o de costume
chove, filha, e tuas brincadeiras se estendem como os lagartos nos lajedos
chove, filha, e já não sabemos mais se amanhece ou se ainda é madrugada
chove, filha, e na cidade os que até ontem nos abraçavam usam máscaras e nos cumprimentam à distância
chove, filha, e as aldeias onde costumávamos passear estão fechadas pela sabedoria dos que não esquecem de quando a varíola arruinou a vida
chove, filha, e você dorme e sonha com mais um dia de loucuras e aventuras
chove, filha, sobre essa casa que não sendo nossa já é parte do nosso sonho e da nossa semeadura
chove, filha, chove sobre nossos cabelos como choveu um dia sobre a gare de Astapovo
chove como um dia choveu sobre o mar de Neruda
como um dia choveu sobre as pálpebras de Cleópatra
chove e nossos amigos estão enclausurados
chove e seus olhos brilham como duas serpentes que iluminam o futuro
chove e nós não choramos ao ninar teu irmão morto
chove e nós não nos entristecemos ao ninar teu irmão morto
chove e nós acendemos velas, incensos e estrelas no céu
chove e nós alimentamos os cães e aprendemos com Judite a resistir
chove e nós seguimos com nossos planos de viajar por estar terra onde nascemos
de caminhar entre as lhamas do deserto de sal
de escalar as pirâmides relendo os versos da Colorina
chove, os fascistas estão cada dia mais empoderados
o mundo está cada dia mais sinistro e acovardado
os abraços estão suspensos e toda a lógica do tempo foi dissolvida num passe de mágica
chove sobre o vírus da biologia e sobre o fermento da linguagem
sobre os positivistas, os oportunistas e sobre a cova do teu irmão morto
chove e os açudes estão abarrotados
chove e as bibliotecas estão fechadas
chove e as moscas da semana santa não vão embora
chove e nossas línguas são as das serpentes que te acompanham
chove e recordamos os sonhos de São Tomé
chove e recordamos o trem da graciosa
chove e tomamos água de umburana
chove e derramamos um fio de azeite sobre o macarrão com brócolis
chove e não queremos que tudo passe
chove e aprendemos que seria uma estupidez desejar a normalidade
chove e vamos deixando que os animais nos ensinem as artes da nova realidade
chove e a chuva dissolve tudo o que é ridículo e até ontem parecia ser importante
chove e aqui estamos
sem nenhuma noção do tempo
sem nenhuma vontade de fazer de conta que não aconteceu nada
sem nenhum temor às criaturas demoníacas que ameaçam desabar os céus
chove e nós adoramos a chuva como os antigos
chove e nós bebemos as águas da chuva como os antigos
chove e nós limpamos toda a fuligem de asfalto que trazíamos à pele
chove e nós cuidamos de teu irmão morto
chove e nós rimos dos cães destruindo nossos óculos
                                                                       nossos celulares
                                                                       nossa impotência ante o destino
chove e mesmo sob a chuva acendemos o fogo
chove e mesmo sob a chuva adoramos o fogo
chove e mesmo sob a chuva nós tecemos nossa casa de vidro
chove e nós escutamos o que nos diz a chuva
chove e nós veneramos e reverenciamos o que nos sopra o fogo
chove e nós nos aproximamos do que se encontra longe
chove e esta terra nos abraça
chove e este rio nos afaga
chove e rezamos e comemos pipoca e assistimos desenhos animados
chove e nós corremos sob a chuva sem nenhuma veste que oculte a beleza de nossos corpos
chove e nós aceitamos a carícia dos deuses
chove e sorrimos e nos alegramos e agradecemos essa certeza de que nada será como antes
chove e sabemos que os generais planejam matar uma parcela da humanidade
chove e sabemos que nossos pés têm asas e sabem galopar
chove e nossas intimidades guardam a dor preciosa com que se fazem as delicadezas
chove e nós devoramos o que aprendemos a cozinhar
chove e nós vestimos o que aprendemos a tecer
chove e nós sonhamos os medos que perdemos
chove e a chuva nos protege
do vírus, do fascismo e de toda a maldade do mundo
chove e a chuva nos traz os versos que nos ajudam a respirar
chove e a chuva nos traz a memória de um futuro que nos pertencerá
chove sobre a necropolítica e os tiranos amordaçados no porão
chove sobre o silêncio dos cúmplices e sobre a pilha de fariseus amontoados nas cidades
chove sobre as cidades e suas cicatrizes
chove sobre o sangue que pulsa no olhar feroz da coruja branca
chove sobre a ceia imunda dos assassinos de Marielle
chove sobre o luto de Vivian
chove sobre o estandarte de couro onde ferramos o brasão da agônica esperança
filha, chove sobre a cova de teu irmão morto
chove e não posso ir até lá acender sua vela
e não posso ir até lá acender seu incenso
e não posso ir até lá aquecer seu frio
chove e sei que você o tem em seus braços
chove e sei que Vivian o traz em seus braços
chove e sei que os fascistas venceram e
que o sinal está fechado para nós que somos jovens
chove e sei que sim já somos como nossos pais
chove sobre o mistério inescrutável da santíssima Trindade
chove sobre as armas de Ogum Beira-Mar
chove sobre a magia da sereia desse rio que é todos os rios
filha, chove sobre a pele fria dessas víboras que vêm até teus pés
filha, chove sobre estas serpentes que te acompanham como acompanha o sal ao mar
filha, chove sobre nós
sobre nossos desejos
sobre nossas vontades
e como nossos ancestrais somos por esta chuva abençoados
o ar segue alimentando o fogo
e os ossos dos mortos ainda faíscam na memória desta imensidão que nos abriga
filha, o que está ocorrendo não é algo que vá passar
filha, o que está ocorrendo nos atravessa como um raio atravessa uma pedra
filha, o que está ocorrendo também tem sua beleza
também guarda seu ensinamento
também nos ajuda a seguir caminhando em direção ao nada
filha, não haverá mais outro dia como os que haviam antes
as palavras que tínhamos já não tem mais serventia
já não descrevem o que vivemos
                                 o que sentimos
                                 o que pensamos
o jaguar ainda vive – e só ele pode nos fazer sorrir neste silêncio
o jaguar ainda vive – e nele repousa nossa aurora
o jaguar tem hoje a cor de nossos ossos
o jaguar tem hoje a cor dos ossos de nossos mortos
não existe lugar para onde retornar
tudo está contaminado
e fomos nós que contaminamos tudo
mas ainda chove
e a chuva nos traz uma sensação imprevista de fúria e felicidade
a chuva nos traz a memória de homens que a varíola levou aos infernos
a chuva nos traz a memória devastadora da cólera
a chuva nos faz sorrir e desejar que nunca mais nada volte ao normal
a chuva, a neblina, o porvir
a pele do jaguar, as serpentes que te acompanham
e essa doçura com que tu manipulas venenos
nossa impaciência e nossa maneira única de rolar no chão
de tocar a lama
de afastar as moscas que se recusaram a ir depois da semana santa
nossos cães, teu irmão morto e a memória de Janaína que já teria mais de vinte anos
tua gata, a neblina e a esperança que nada volte ao normal
enquanto chove vamos montando nosso lego
estudando os caminhos pelos quais passaremos com nosso carro-casa
desde esse aprazível precipício até a margem indizível onde sete anos atrás enterramos
teu umbigo, tua placenta e todas
as remotas certezas que trouxestes das vidas passadas,
chove sobre nossas fosforescentes carcaças,
chove...

nuno g.
Cachoeira, 27 de abril de 2020

sábado, 18 de abril de 2020

Nove marzo duemilaventi, de Mariangela Gualtieri

Questo ti voglio dire
ci dovevamo fermare.
Lo sapevamo. Lo sentivamo tutti
ch’era troppo furioso
il nostro fare. Stare dentro le cose.
Tutti fuori di noi.
Agitare ogni ora — farla fruttare.

Ci dovevamo fermare
e non ci riuscivamo.
Andava fatto insieme.
Rallentare la corsa.
Ma non ci riuscivamo.
Non c’era sforzo umano
che ci potesse bloccare.

E poiché questo
era desiderio tacito comune
come un inconscio volere —
forse la specie nostra ha ubbidito
slacciato le catene che tengono blindato
il nostro seme. Aperto
le fessure più segrete
e fatto entrare.
Forse per questo dopo c’è stato un salto
di specie — dal pipistrello a noi.
Qualcosa in noi ha voluto spalancare.
Forse, non so.

Adesso siamo a casa.

È portentoso quello che succede.
E c’è dell’oro, credo, in questo tempo strano.
Forse ci sono doni.
Pepite d’oro per noi. Se ci aiutiamo.
C’è un molto forte richiamo
della specie ora e come specie adesso
deve pensarsi ognuno. Un comune destino
ci tiene qui. Lo sapevamo. Ma non troppo bene.
O tutti quanti o nessuno.

È potente la terra. Viva per davvero.
Io la sento pensante d’un pensiero
che noi non conosciamo.
E quello che succede? Consideriamo
se non sia lei che muove.
Se la legge che tiene ben guidato
l’universo intero, se quanto accade mi chiedo
non sia piena espressione di quella legge
che governa anche noi — proprio come
ogni stella — ogni particella di cosmo.

Se la materia oscura fosse questo
tenersi insieme di tutto in un ardore
di vita, con la spazzina morte che viene
a equilibrare ogni specie.
Tenerla dentro la misura sua, al posto suo,
guidata. Non siamo noi
che abbiamo fatto il cielo.

Una voce imponente, senza parola
ci dice ora di stare a casa, come bambini
che l’hanno fatta grossa, senza sapere cosa,
e non avranno baci, non saranno abbracciati.
Ognuno dentro una frenata
che ci riporta indietro, forse nelle lentezze
delle antiche antenate, delle madri.

Guardare di più il cielo,
tingere d’ocra un morto. Fare per la prima volta
il pane. Guardare bene una faccia. Cantare
piano piano perché un bambino dorma. Per la prima volta
stringere con la mano un’altra mano
sentire forte l’intesa. Che siamo insieme.
Un organismo solo. Tutta la specie
la portiamo in noi. Dentro noi la salviamo.

A quella stretta
di un palmo col palmo di qualcuno
a quel semplice atto che ci è interdetto ora —
noi torneremo con una comprensione dilatata.
Saremo qui, più attenti credo. Più delicata
la nostra mano starà dentro il fare della vita.
Adesso lo sappiamo quanto è triste
stare lontani un metro.

Mariangela Gualtieri

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Voltas-de-rua

Se for para lanchar lá, na estrela; se for pra levar à casa, na São Francisco. Vivian deu de observar as flores e me acordou assim: essas florzinhas brancas murcham no fim do dia e se abrem pela manhã! Cheiro de cuscuz e incenso, água com desinfetante e roupas pelo chão. Coelho, chocolate e um poema de uma páscoa que vai longe. Se for para lanchar lá, na estrela: domingo sem café demora mais a acender, domingo de chuva desconhece meio-dia. Esse ano a quaresma acaba, mas a quarentena segue: acordamos e o Asno-mor ainda estava lá. Ele e sua quadrilha. Ele e os valores que são o pão nosso e o fermento da estupidez que nos assola a cada dia. Ele e os seus traidores pelejando para provar a si mesmos que eles não são assim: são. Se for para levar à casa, na São Francisco: perto demais da divina comédia humana, longe do porto desabitado onde descansa meu coração selvagem. Cheiro de cuscuz e incenso, abril despedaçado pelos quatro cantos da casa. Água com desinfetante, cigarros e ausência de café. Memória de um poema antigo da páscoa de dois mil e dezesseis – passageira e acinzentada. O medo dos medos imaginários desabrochando em meio ao meu medo do teu medo de Górki. Envelhecendo sob o fascismo, envelhecendo, envelhecendo – com proeza e fascínio, envelhecendo, simplesmente – em busca de um refúgio onde inexistam adjetivos. Cheiro de cuscuz, incenso e ovo de chocolate. Os índios da América Central sempre desconfiaram da ressurreição, esse ano a quaresma recebeu uma overdose de fermento. Sem pressa, caminho à mercearia em busca de um pouco de pó de café. Sem pressa, escrevo e fumo. Sem pressa, minha ironia sorri ao escutar eles dizendo que não eram o que são e que nunca serão o que são. Sem pressa, esfrego o rodo e lavo o chão da casa. Ouço Belchior: eu tenho medo e medo está por fora / o medo anda dentro do teu coração. Se for para lanchar lá, na estrela; se for para levar à casa, na São Francisco: faca de ponta e meu punhal que corta / e o fantasma escondido no porão. Sonhei com duas serpentes e uma inexplicável saraivada de fogos de artifício. Uma das serpentes era grande, a outra pequena. Tenho lido mais sobre política do que deveria – temo me contaminar. Era quatro da manhã e os cães já haviam estragado meu celular, os óculos de Vivian e a varinha mágica de Alice. Não resisti e me deparei com uma constatação terrível e óbvia – ainda mais terrível por óbvia: numerados de a à j os dez fatos incontestáveis do fascismo tupiniquim. A famiglia no poder, Lincoln Secco às quatro da manhã: feliz páscoa rebanho! Necessito urgentemente de café: longo, forte, amargo. Os antigos diziam que chegaria o tempo em que a roda grande giraria dentro da órbita da roda pequena: imagino que a serpente pequena devorou a serpente grande e que esse foi o fim do sonho. Tenho vinte e cinco anos de sonho e de sangue. O Asno-mor tem razão: ele representa e representa muito; o resto é farsa, miopia e desejos nossos confundidos com expectativas. Tem muito agrotóxico envenenando a terra, os rios tão abarrotados de química e ignorância. Tem muito antibiótico nas prateleiras da farmácia, nossos corpos tão abarrotados de veneno e solidão. Tem muito general no governo e muito capital querendo executar a necropolítica. Acendo outro cigarro, regresso à rede na varanda. As serpentes e os fogos de artifício, inexplicáveis. Na terra é pleno abril. Abro as janelas e deixo a chuva molhar o domingo. Banho menino-deus com o pouco de ayahuasca que me resta. E espero, sem pressa, a hora certa de ir à mercearia em busca de um pouco de pó de café. Antes uma guerra, seria melhor – comentou dona Antônia. Só os poetas e os seres que rastejam conseguem ver na neblina, me escreveu Gabriel. As flores brancas murcham ao entardecer e voltam a abrir quando amanhece! – observou Vivian. Tendo mandioca pra gente fazer farinha tá bom meu filho, falou a mulher do Moura enquanto fumava um cigarro de palha sentada nas madeiras do forno da casa de farinha. Fervo a água, o aroma de café incendeia o domingo: feliz páscoa, lembrarei deste dia quando a primeira peste passar. Todos lembraremos. Dos óculos, do celular e da varinha mágica que os cães destruíram. Todos lembraremos. Das dez razões, enumeradas por Lincoln Secco, pelas quais a segunda peste será mais duradoura e devastadora que essa primeira. Sim, Lincoln, um pouco de positivismo muita falta tem feito ao mundo – e agora, que aprendi isso da maneira mais árdua possível, posso celebrar, sem pavor nem pânico, o agônico prazer de zombar do espanto deles se negando a reconhecerem a própria imagem refletida no espelho d’água.

nuno g.
Cachoeira 12 de abril de 2020
.

sábado, 11 de abril de 2020

me(n)ta(l)fisicamente

viv(e)ian
em algum lugar – além deste canto de pássaros
viv(e)ian
em algum não-lugar – além desta ópera enfadonha de sapos
viv(e)ian
em algum rincão perdido do vale das maçãs
viv(e)ian
em algum lugar qualquer daquela floresta de abikus
viv(e)ian
em alguma das ilhas para onde voam as crianças d’água
viv(e)ian
em tua mãe, em tua irmã, em mim
viv(e)ian
nessa distância, nesse silêncio, nesse inchaço
viv(e)ian
no pão com manteiga, no arroz com feijão, na rosa dos ventos
viv(e)ian
nas andorinhas embaladas nos sinos dos presépios
nos mugidos das vacas assustadas pela chuva
nos meus cabelos assanhados
& na brasa acesa de meus cigarros
viv(e)ian
nas cartas não-correspondidas
na pintura de esperma & fezes que adorna o galho podre da árvore
no dente ausente na boca do girassol
na carne tatuada pelos ferozes extraterrestres
viv(e)ian
nos mísseis que os iranianos prometem atirar nas Colinas de Golã
nos arabescos de nossas mirações matinais
nas migrações dos elefantes ao cemitério onde nasceram
viv(e)ian
e me diz o que te soprou aquele vento
viv(e)ian
e me diz o que te ardeu aquele fogo
viv(e)ian
e segue
livre
à
sangria sem ave
sem aleluia
& sem disfarce
viv(e)ian
em mim, em tua irmã, em tua mãe
que em ti se fez lágrima & placenta desbotada
viv(e)ian
e nos abandona
ao vazio que ecoa e nos clama
viv(e)ian
por que nós sim não sabíamos voar
nem semear clorofila no quintal
viv(e)ian
neste terreno baldio que é o sagrado coração da terra
nas pérolas deste terço e na circunferência do sexo de tua mãe
no brilho do olhar de tua irmã
viv(e)ian
e não fale com as paredes do oásis
viv(e)ian
e ignore as fronteiras do deserto
viv(e)ian
e corre sem-pressa até os trilhos onde corre o trem do futuro
viv(e)ian
e se desfaz do peso desta matéria que te envolvia
viv(e)ian
e distribui flores entre os símios que escrevem poesia
dorme Ian,
dorme e descansa
deixei a rede armada na varanda
um chá pronto à margem da fogueira
e essas palavras de despedida lavradas em campos de centeio & ervas finas.

Toróró, 04 de janeiro de 2020.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

chelsea girl

Muitas flautas e do outro lado do rio, outro rio. Muitas flautas e do outro lado do fogo, outro fogo. Muitas flautas e do outro lado do silêncio, outro silêncio. Muitas flautas e um longo dia com um sol demorado. Muitas flautas e do outro lado da água, os mortos. Os mortos nadando e se refrescando e sorrindo e. Do outro lado da morte, outra morte – e depois dela, outra morte ainda e uma morte mais e outra morte numa série de encadeamento infinito. Muitas flautas e do outro lado do infinito, outro infinito. Muitas flautas. E além das flautas, o trem. O trem que segue seguindo às Minas Gerais todos os dias. O trem com seu maquinista hiper-simpático. O trem e a neblina que chegou antes. A neblina que não quis esse ano esperar os festejos de junho. A neblina e tudo o que lhe é próprio: a umidade e os seres que vivem na cor cinza. Na neblina, nossos medos imaginários se comportam como cães fiéis e famintos. Na neblina, o rio é mais serpente do que antes. Na neblina, tudo que reluz é promessa de firmamento, anunciação e café quente. Na neblina, o rio é tão serpente como nunca. Na neblina, nossos corpos se sentem frágeis, adoráveis e transparentes. As sombras angelicais e a crina do vento. Na neblina, nós e o nada ante o tempo dissolvido. De joelhos, sangrando de tanto chão. Locomovendo-se em direção à miséria que ainda não ousamos nomear. Cio de onça, a coleção de escaravelhos, chave de harmonia. Asas nos pés sonhando trens que vão às minas. Hora da água: roguemos ao silêncio como da primeira vez. Hora das frestas: roguemos ao infinito e à nova eternidade que nos paquera como paquerávamos nas matinês. Hora dos precipícios e das cousas mortas: assim. Muitas flautas e café. E, do outro lado, mais café e som de flautas. Passa o carro do ovo, passam pássaros, passa a nuvem e o trem. Tudo parece estar indo às minas. A luz requentada de uma lua de agosto cintila nos olhos de Judite. Hoje, nem pensar em voltas-de-rua. Hoje, sabemos algo mais sobre a eternidade e, por supuesto, somos menos.

08/09 de abril de 2020.
nuno g.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Ian


Papai, ele quis ir ficar com o vovô nuno!
Ele vai conhecer o vovô nuno antes de mim...

Maria Alice

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

terno da alvorada


Os anos em Cachoeira sempre terminam antes, ainda é novembro quando a cidade se fantasia e dança pelas ruas ao som da charanga se despedindo de tudo o que já é passado. A oração em frente à Minerva, o sino da capela, a saudação à Nossa Senhora do Rosário, o feijão na faceira, a subida da ladeira do Monte, a descida do Curiaxito, o arrastão da rua da feira, a visão do alto do Rosarinho, as águas do rio Pitanga e o despacho final na praça Dr. Milton assentam sob o solo desta cidade prateada os fundamentos do novo ano que se inicia. Assim tem sido desde ao menos cem anos – assim foi hoje. O sol é escaldante e a alegria redesenha as faces que amanhã tornarão a assumir suas feições cotidianas quando os mandús regressarem à terra dos mortos e as cabeçorras aos porões desses casarões em ruínas. Em Cachoeira os reis magos não se atrasam e entre os presentes que trazem se encontram as armas que necessitaremos amanhã. Entre o largo do Caquende e a imponência majestosa do convento do Carmo a Senhora de Vermelho vai rodando e distribuindo seus raios entre os fiéis, empoleirados nas escadarias e janelas muitos são os que olham o cortejo de Tempo. Aqui, em Cachoeira, a chegança dos reis magos coincide com o aniversário de Maria e quando isso ocorre sempre já nos encontramos um passo à frente na linha tênue que organiza o transcorrer dos dias. Na rua do Brega pisamos em mel e escutamos os ecos das conversações que vão passando à história e no jardim grande deixamos escapar nossas orações de agradecimento por termos sobrevivido até aqui. Ogum se delicia no bar América: os dias de trégua são a única primavera que conhecem os filhos do deus da guerra. As crianças correm, se pintam, chutam as latas de cervejas abandonadas no trajeto e assopram os cabelos desalinhados da deusa de seios enormes. Cachoeira – a maior das menores cidades do mundo – sofre de antecipação e enterra na véspera o ano que agoniza. A charanga embala os sonhos, as angústias, os desejos e as desilusões dos que a acompanham. A charanga marca o ritmo dos que dançam violentamente banhando com seu suor os paralelepípedos. As famílias se reúnem, os amigos se abraçam, os amantes se entreolham e o domingo goteja numa clepsidra de vidro. Em Cachoeira o ano sempre termina num domingo e a primeira segunda-feira que floresce é sempre um dia fora do tempo. Na terça, a charanga voltará às ruas para o terno da saudade – e se alguém tem ainda alguma lágrima para derramar poderá fazer nesse derradeiro instantâneo da festa. Depois tudo voltará a ser como antes. Quem brigou no embalo terá que esperar até novembro para revidar – e como sabem esperar os fiéis cachoeiranos. Os fogos são muitos e é o estampido deles que adormece a tarântula do paraguassú até que na terça-feira – no terno da saudade – a charanga venha tocar às margens do velho e silencioso rio lhe recordando que já é hora de começar a tecer todas as coisas que devem existir. É uma honra que se paga com uma caixa de cerveja a visita da charanga à casa de alguém – é uma dívida que se adquire a dádiva de vir de tão longe celebrar assim as passagens que tem que ser feitas. Assim foi hoje – assim será sempre. Os mais sensíveis podem ser irreversivelmente afetados pelo ritmo da charanga – até os mais insensíveis são afetados pelo despertar da tarântula. O comércio reabre. Os da universidade se afastam. O mercado ressuscita. O rio se cala. A ressaca da cidade, despida de suas fantasias prateadas, vai se esvaindo. As famílias regressam às suas intimidades e recatos. As crianças voltam às escolas. Os instrumentos da charanga descansam na Lira Siciliana e na Minerva. Deixamos de esperar pois já aprendemos que volverá. Quem vomitou fogo carregará olhos acesos por todo o ano. Quem viu as cinzas de que são feitas as carnes será noite por todo o ano. Quem derramou sangue nos paralelepípedos conhecerá a beleza das cicatrizes. Quem não suportou a inclemência do sol será engolido pelo demônio do esquecimento. Aqui, o ano acabou antes, como sempre. Ainda é novembro e já estamos em 2020. Um velho e bom amigo me escreve: o inferno não prospera onde há esperança – eu lhe respondo: a desgraça não vinga onde toca a charanga. A pulsação do que nos move para além dos precipícios que nos foram destinados é um prodígio. Que Nossa Senhora d’Ajuda conceda luz a quem é da luz e escuro a quem é do escuro & que a memória dos mandús conserve eternamente amolado o fio mineral de nossos corações. Amém.

nuno g.
Cachoeira, 17 de novembro de 2019.