sábado, 20 de fevereiro de 2021

Das coisas que me diz o fogo ou dos sonhos que sonham as pedras

neste manto azul de entendimento e abertura

nesta terra-terra de formigas e assentamento

neste céu-sem-dogma, nesta carne que cura e treme

neste manto azul de espera e fundação

neste fogo-fogo que consome e arde

neste esquecimento, neste cume do esquecimento

nestas veias e artérias, neste sangue que corre,

nestas três árvores, nestes indícios de soberania

nesta carne que se ressente e que caminha

entre enxames de vespas & abelhas

neste manto azul, que aos teus olhos apareceram

entre os ínfimos grãos do sétimo infinito

às margens das margens do reino de Tempo


nuno g.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

INTERPRETAÇÂO, por Mourid Barghouti

Um poeta escreve num Café

A velha pensou que escrevia uma carta para a mãe.

A adolescente, que escrevia para a namorada.

O menino, que desenhava.

O comerciante, que planejava um negócio.

O turista, que endereçava um cartão postal.

O contador, que calculava suas dívidas.

O homem da policia secreta caminhava lentamente em sua direção.


Mourid Barghouti

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Canto, por Antônio José Bezerra - o pajé

Eu canto a paz, que emana do coração
No oásis do sertão não posso cantar a dor

A linda flor que perfuma alegria
Conserva toda energia dessa terra de amor

Eu canto as matas
Canto os rios
Canto as fontes
Canto baixios e montes
Canto a luz do sol e sou

Uma semente que germina esperança
Que rega toda criança dessa terra que brotou

A tua essência é de quinta dimensão
Ilumina a escuridão do ser que não despertou

Pra uma conquista de luz em tempo passado
Cariri consolidado
Força do interior

Eu canto as matas
Canto os rios
Canto as fontes
Canto baixios e montes
Canto a luz do sol e sou

Uma semente que germina esperança
Que rega toda criança dessa terra que brotou
Que rega toda criança dessa terra que brotou
Cariri consolidado
Força do interior

Antônio José Bezerra - o pajé.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

À BEIRA-MAR — por RABINDRANATH TAGORE

À beira-mar de mundos infinitos, se encontram as crianças.

O céu infinito está imóvel sobre suas cabeças e a água inquieta é tumultuosa. À beira-mar de mundos infinitos, as crianças se encontram com gritos e danças.

Elas constroem suas casas com areia, e brincam com conchas vazias. Com folhas murchas tecem seus barcos e sorridentes os flutuam no vasto abismo. Crianças brincam à beira-mar de mundos.

Elas não sabem nadar, elas não sabem lançar redes. Pescadores de pérola mergulham em busca de pérolas, os comerciantes velejam nos seus navios, enquanto as crianças juntam seixos e os espalham novamente. Elas não procuram tesouros escondidos, elas não sabem lançar redes.

O mar sorrindo se levanta em ondas, e pálido brilha o sorriso da praia. Ondas ameaçadoras e mortais cantam baladas sem sentido para as crianças, como uma mãe enquanto balança o berço do seu bebê. O mar brinca com as crianças, e pálido brilha o sorriso da praia.

À beira-mar de mundos infinitos, se encontram as crianças. A tempestade vaga no céu sem caminhos, são destruídos navios na água sem rastro, a morte está nos países distantes, e as crianças brincam. À beira-mar de mundos infinitos é a grande reunião das crianças.

RABINDRANATH TAGORE

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

***

No hay nada que temer. 

No hay nada que esperar. 

Siempre se está más o menos vivo. 

Siempre se está más o menos muerto.


César Vallejo in Contra el secreto profesional.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Do espaço em direção a cá, como dois tempos - por Stella Díaz Varín

A noite,

deslocada como asa de um cetáceo ferido.

Amortalhada sempre que a pupila negue sua orfandade.

Mar pomposo e grotesco seio;

quando a claridade se faça em mim

não necessitarei de vossa amada boca,

não necessitarei do meloso solilóquio de tua vertigem.

 

 

Me tens, como um peixe à sua escama,

miseravelmente unida a ti,

levando-te como uma criança canibal ao peito de sua mãe.

E não hei de desperdiçar hora, para maldizer

tuas parições de planetas fosforescentes

que vomitas ao meu lado sem nenhuma delicadeza... ...

 

Esquecida como árvore do deserto,

onde transplanta o viajante seu êxtase sem experiência,

feliz de abandonar o barco,

desejando encontrar na terra

a veia misteriosa da felicidade.

Navegante audaz,

dissociador do mar e da terra,

veia obscura será teu caminho em direção ao infinito!   

 

Quem, senão o esquecimento,

quem senão a medida de uma juventude posta de lado,

vem em minha ajuda agora.

Agora que tenho aprendido a pronunciar palavras

contra Deus e seus signos

e me ajoelho de hipocrisia ante os conhecidos.

Quando em ângulo reto junto à uma porta

espero a palavra de boa vinda.

E só escuto dentro, ruído de copos

cheios de um vinho generoso que jamais provarei...

 

Existem continentes simples, de um só país

com cidades elementares e casas de um piso

onde poderia me abandonar

e às cegas buscar o ócio e suas virtudes.

Mas a lembrança apenas de tão buscado lugar,

me pinta à cara um gesto de asco.

 Como se penetrara à habitação do amor

e me encontrara com três cadáveres

ante uma janta inconclusa de ostras descompostas –.


Stella Díaz Varín

tradução: nuno g.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

ENSÉÑAME A BAILAR, por Roberto Bolaño

a mover mis manos entre el algodón de las nubes
a estirar mis piernas atrapadas por tus piernas
a conducir una moto por la arena
a pedalear en una bicicleta bajo alamedas de imaginación
a quedarme quieta como estatua de bronce
a quedarme inmóvil fumando Delicados en ntra. esquina
los reflectores azules del salón van a mostrar mi rostro
goteado de rimmel y arañazos, ustedes van a ver una constelación
de lágrimas en mis mejillas, voy a salir corriendo
enséñame a pegar mi cuerpo a tus heridas
enséñame a sostener tu corazón un ratito en mi mano
a abrir mis piernas como se abren las flores para el viento
para sí mismas, para el rocío de la tarde
enséñame a bailar, esta noche quiero seguirte el compás
abrirte las puertas de la azotea
llorar en tu soledad mientras desde tan arriba miramos
automóviles, camiones, autopistas llenas de policías y
máquinas ardiendo
enséñame a abrir las piernas y métemelo
contén mi histeria dentro de tus ojos
acaricia mis cabellos y mi miedo con tus labios
que tanta maldición han pronunciado, tanta sombra sostenido
enséñame a dormir, esto es el fin.


Roberto Bolaño

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O único verso, por Bento Prado Jr.

Tropecei, esta noite,

Num verso mais que estranho,

Único verso presente em todos os poemas reais

Ou possíveis de todas as línguas do mundo:

Primeiro hieróglifo, emblema de Hermes Trimegistos.

Verso em si ilegível e vazio embora necessário,

Verso perverso

Que nos condena a retornar, obliquamente,

A todos os poemas escritos até hoje,

E todos os futuros,

Um gonzo fechando,

Por dentro, um cubo hermético-metálico,

Que, mônada, espelha, em seu imo, todo o mundo externo.

Começo e fim de toda poesia,

Ou seu constante recomeçar?

Delirei, esta noite,

Um único verso,

(uni-verso),

que poeta algum jamais escreveu,

Face infinitesimal do Grande Diamante da Poesia ou do Ser,

Acesso a todos os demais versos,

Que se mostram, simul, ao leitor

Que eles próprios, nesse instante, criam.


Mas foi apenas um vislumbre:

Uma vez iluminado o Grande Diamante,

O verso volveu à sua aparente vacuidade

E dissolveu-se-lhe a cumplicidade com todos os demais,

Devolvendo-me ao ritual de meu dia-a-dia,

Mergulhando-me novamente em meu Não-Ser.


Bento Prado Jr.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

"Havia terra neles", de Paul Celan

Havia terra neles, e

cavavam.


Cavavam e cavavam, assim passava

o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,

que, segundo ouviam, queria tudo isto,

que, segundo ouviam, sabia tudo isto.


Cavavam e não ouviam mais nada;

não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,

não imaginavam qualquer espécie de linguagem.

Cavavam.


Veio um silêncio, veio também uma tempestade,

vieram os mares todos.

Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,

e aquilo que ali canta diz: eles cavam.


Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:

para onde íamos que não fomos para lado nenhum?

Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,

e no dedo acorda-nos o anel.


Paul Celan

trad. Yvette K. Centeno

domingo, 10 de janeiro de 2021

Na estante do meu avô, por Agostinho

Eu sonhei co'a velha estante

Da casa do meu avô

Lugar bonito e pujante

Onde este vate estudou


Uma lembrança ficou

Que me fere todo instante

O retrato que marcou

Do meu avô o semblante


Aquela estante modesta

Sempre fora minha festa

Sempre me dera alegria


Naquele local indulto

Eu tornei-me um homem culto

Relendo filosofia


Agostinho 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

2021, por M. França

lá naquela esquina tem vacina para a solidão
vc pega o auto o poema pelo avesso
vc pega pelo meu braço e comigo vem ver o mar
o mar nos enlaça na maresia de nossos sonhos.

o leviatã segue em orion, em alegria
neste ano, o carnaval vai passar
neste ano, o são joão terá folguedos e abraços
neste ano, o azul será turvo, cor de chumbo
azul de picasso, azul de modigliani
com toda chuva de ansiedade lá fora, vou pegar o guarda-chuva da poesia
com a sacola de miudezas em cognatos, em morfemas
em vetores, irei fazer uma prece, uma reza, uma oração
cada poema é uma oração
cada pintura é uma oração
cada sinfonia é uma oração.

a timidez dos festejos vespertinos
a solidão dos reveillon de 2020/2021
a crueza dos fardados fascistas
a mudez das crianças e dos velhos por entre máscaras
a palidez dos sonhos e o silêncio dos autos
não me assusta
não me faz desistir desse samba torto
essa febre, esse ritmo, essa toada
da formiga
da cigarra
do poeta
que te diz q o amor é o astrolábio dos sentimentos
e o medo, esse medo, terá o fim.
:a alegria é a prova dos noves.


M. França

domingo, 13 de dezembro de 2020

o não, o cansaço e um sorriso

o carnaubal estava visivelmente abatido

tia Neuza sonhara procurando deus

que, como de costume, se ocultava

a casa nunca me parecera tão real

embora Maria ainda não estivesse chegado

na estante, o álbum vermelho

com o Cebolinha sacando uma foto da Mônica na capa

guardando as fotografias de Eliana e seu filho na praia

dormimos, tomamos café, comemos manga

a praça vazia de domingo

o carnaubal devastado

tia Neuza sonhando como de costume

deus nunca me parecera tão irreal

apesar de minha certeza que era ele o que balançava a rede

o telefone tocou, não era Maria

as horas se curvavam ante a manhã

a casa nunca me pareceu tão silenciosa

não vi os mortos que a habitam

não senti suas presenças

o carnaubal estava em estado terminal

os ácaros do progresso faziam o trabalho sujo

o quadro de Eliana me esperava na casa ao lado

a pressa me escapara no caminho

o não, o cansaço e o sorriso

eram mais do que suficientes para tornar o dia agradável

eu também não ousaria pisar naqueles degraus onde a poeira se acumulara

se há tanto tempo eu não soubesse que aquela madeira ainda suportaria o peso

o relógio da sala estava quebrado

, por um breve instante,

vislumbrei entre seus ponteiros estacionados

a precária imensidão de meu coração

 

nuno g.

russas, 13 de dezembro.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020


 

no meio do caminho

tinha uma escada no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma escada

nunca me esquecerei que tinha uma biblioteca no último degrau

uma biblioteca dedicada ao Nada

tinha uma escada no meio do caminho

tinha os cem olhos da tempestade de areia fina

tinha a pintura de uma moça com brinco de pérolas no meio do caminho

e os cem mil raios da Senhora,

tinha um vazio no meio do caminho

nunca me esquecerei do beijo que não tinha no meio do caminho

nem da escada nem da biblioteca nem do nada

no meio da escada tinha um caminho

mas não são todos que desviam no meio das escadas

tinha uma tempestade no meio do caminho

tinha uma manta assurini awaeté no meio do Sonho

e do mirante da casa do guarda do Belmonte se via

a escada, a biblioteca,

o Nada, a Sina e o Vazio

nunca esquecerei que tinha um caminho no meio da escada

nem que no meio da escada tinha um caminho

e que quase ninguém desvia em caminhos no meio de escadas

ainda quando estes levem às cascatas de águas frescas

correndo entre antigos pés de buritis

tinha um silêncio no meio do caminho

no meio do caminho tinha um silêncio

e toda a potência que um corpo necessita:

seja para desviar-se do previsto

ou para escalar a escada até o topo


nuno g.

dez de dezembro.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Teoria das próximas horas

 para Claudio Reis,


nossos filhos nos antecedem

nossos ancestrais estão adiante

a cronologia é uma prisão de areia movediça

e paredes de acrílico

fundamento que resulta da sedimentação

grãos de tinta expostos ao sol

sempre à beira de um incêndio

caminhando sobre fios descascados

e sobre as folhas secas e as ruminações de Lilith

nossos filhos nos antecedem

nossos ancestrais estão adiante

um telefonema, um imail, uma chamada de zap

podem ser o suficiente para provocar um incêndio

de proporções inimagináveis

a cronologia é uma prisão da qual escapamos juntos

e à qual jamais regressaremos.

 

nuno g.

Crato, 03 de dezembro de 2020.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Tororó, por Claudia Rejanne.

Tororó
estelar
continente paragua
afluente kariry açu
açude junco
mãe jaguar
arribe
caudasjorrou
machu pichu
amazonara
jara
já lá
jord AUM

Kakituramba veio de lá
no clarão do fogo e do rapé
dançou, cantou, comemorou
no baile matinal dos curumins


Claudia Rejanne.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

ESPERANDO UN POEMA, Luljeta Lleshanaku

Estoy esperando un poema,
algo agreste, ni elaborado ni fuera de control,
algo imperturbable por las ofensas, un cuervo blanco
liberado de la oscuridad.

Las palabras que vienen naturalmente, sin apuntarle a nada,
una bala sin un blanco,
tiros de advertencia al cielo
en tierras recién ocupadas.

Un poema que brote de mi pecho

Y hasta que llegue
escucharé a mis hijos peleando en el cuarto de al lado
y arrojaré mi mirada a lo largo de la mesa
a un vaso de leche vacío
con un trazo de blanco alrededor del borde
mi cuello envuelto en plata
una servilleta en un aro servilletero
esperando que arriben los tardíos invitados...

Luljeta Lleshanaku

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Ilha do desterro.

Célia foi minha professora de datilografia,
Bia era irmã dela e
Lúcia, sua melhor amiga.

sonhei com o Martim do clube de forró,
com o Manoel Gonçalves da cerâmica e
com Sara - só ela segue viva.

Hoje é a data que Maria nasceu,
cinco para uma da tarde,
Valle de Bravo - México.

Se eu fosse Bandeira,
teria aqui o suficiente para um poema,
mas não sou e estou desde as cinco esperando o telefone atender para cantar as mañanitas.

O poema se chamaria ilha do desterro.
teria cheiro de rio e a beleza de Bia.
teria gosto de rio e a coragem de Lúcia.
teria textura de rio e a seriedade de Célia.

O poema seria o vasto rio onde corre toda a saudade do mundo.
e até Bandeira teria que reconhecer que entre a Sina e o Nada transcorrem nossas vidas.

Ontem fui à praia do Montecristo,
onde deságua este poema no mar,
escrevi nas areias teu nome, Maria,
e ainda que uma noite de mil anos nos atravesse,
nem o vento, nem as águas, nem as mãos da imprudência,
serão capazes de apagar.

nuno g.
23 de novembro.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

rosário de estrelas ou os passos de Ana na escuridão

para meus avós,

  Depois de tanto tempo sem chuva restava pouca gente no povoado, quase nada. A neta e o avô escarafunchavam o barro das ideias reinventando as estrelas, soletrando os mistérios de suas crenças enquanto tratavam de cozinhar um pouco de milho e algo do feijão que ainda tinham. Faziam render o de comer escaldando a farinha nas águas noturnas da fé. Os peitos da menina saltavam como rãs, seus olhos vagavam como moscas e sua inteligência desafiava o comum que lhe arrodeava. O velho era espinho, era raio seco de sol, era sombra de juazeiro, era réstia empoeirada na rede do alpendre. Depois de tanto tempo sem chuva restavam apenas eles dois na casa grande da Timbaúba. O calorão aumentava, a fome ameaçava e a espinha dos dias se assanhava no sopro do vento que arrebanhava as últimas esperanças. Dessa vez não chegou governo, nunca havia chegado. Ainda umas últimas arribaçãs estendidas, sal entranhado nas asas esturricadas de orações sem memórias. Quando crescesse um tanto mais iriam ao mar: fazer carneiros de areia, ouvir quebrantar de ondas, conhecer as sereias de Homero. Enquanto não, se contentavam com o azeite das lamparinas. Com o rastrear de alguma raposa. E faziam fogo todas as tardes com as folhas secas de afugentar serpentes e víboras que passavam acolá. A brisa deliciava o corpo desidratado da neta, o avô sabia que já passava da hora e só temia que findasse antes. Tomava um trago e ruminava um inverno. Uma chuva grande, um pasto verde e a lembrança das graúnas na cerca. A morte se aproximava desfazendo qualquer aura e as querências da menina iam tomando a forma de feridas exiladas. O corpo não acompanhava o passo, a velha aflorava antes da mulher, em cada gesto renunciava suas misérias. A menina era órfã, seus pais se perderam no asfalto. A história era longa e o tempo minguava, nem boi nem boiada e os corações reconheciam-se em cada migalha de palavra, em cada cigarro de palha, naqueles afetos e silêncios sem mágoas que se prolongavam. O velho era o único que sabia de tudo, mas já era velho. Seu cavalo arquejava a alma. Os ossos dos tejos eram belos quando as mãos da menina os tocavam. Fabricava com eles sinfonias inesperadas, louvava a deus e à natureza, recriava o mundo e por pouco que fora tocava a sombra esquálida. Havia amor demais naquela sede retirada. Havia um tudo que já insinuava o nada. Era clareira muita que naqueles seres se escancarava. O temor as vezes os desabrigava. O rio tinha margens largas onde vez ou outra uma onça ainda se avistava. O velho era água que morria regando a flor que desabrochava. Nessa transferência de energia tudo se ia transformando, se refazendo a estouros de espoleta, rebentando como as borboletas que escapavam de um pigarro. As lembranças eram demasiadas, o tempo era escasso. O velho já sabia que não veria as novas águas, que não estaria ao seu lado quando sangrasse. A morte deixou de lado seu hábito enigmático e se revelou como um fato: acrescentando um quilo mais no alforje já bem pesado. Um dia antes de partir pensou romper o arco, relembrar os ecos dessa passagem luminosa, quebrantar o véu inquebrantável. Sua graça lhe mantém em pé o quanto falta. E quando ela dorme ele se transforma em anjo e com suas lágrimas enche novamente o oceano onde a menina irá pastorear carneiros quando for tão tarde.

  Saiu com parecenças à avó. O jeito de destorcer os punhos traz muito da velha. Quando se deixa desacorrentar miragens percebe a desordem com que tudo passa. É avassaladora a fúria com que se acalma e vai vertendo suas meticulosidades. A menina sabe o que o velho sabe. Que mão tão essa acaricia o ventre, sana a chaga, e vai levando o desconhecido para o outro lado. No vazio se ocupam de uns dados ou de um par de cartas a uns ciganos comprados. Feitiços de um destino bem amarrado. Reviravolta desmanchada numa madrugada. Os lençóis amanhecem lagos. O velho fraqueja, a chuva tarda. Ainda há feijão. Ainda há milho. Uma que outra caça no mato. As pedras dessa igreja nasceram a meio passo. Entre chocalhos e badalos iam se refinando, auscultando o pulso, revisando os cascos. Houve um tempo em que tempo não havia, era só a ardência infinita se estendendo no planalto. Mas esse tempo só se transfigurava em tempo quando se assentava, quando decantado ia se definindo à ribeira em paragem. Era um tempo salpicado, tinha cheiro de café recém passado e suas fronteiras eram a vertigem do inominado. Neste tempo reinava o acaso, neste tempo se movia sem medo o impulso do abutre acossado. Neste tempo se ouvia o canto assinalado. Era o tempo morto de onde a vida brotava. Era o tempo anterior. O tempo escasso, desritmado. Sem escalas, sem compassos: alguma música para ouvidos nada delicados. E foi assim que tudo foi sendo semeado. Foi assim que a origem foi ganhando sua máscara parda, sua singela insígnia acinzentada. E no meio de tudo havia uma lágrima. E no desemboucadeiro um oceano com muitos carneiros. Antes do velho outro velho já chorava. Antes da lágrima outra lágrima. Por essa vereda iam as venerações da menina. Sua solidão seria terrível se não fosse sagrada. Mastigando aquele caldo de misticismos e outras constelações minerais seguia sua relação de presságios. Afinal de contas, a vida é uma estância, sem razão pra ser desagradável, sem intuição que lhe restitua a intenção de onde parte e desarvora. O cavalo do velho arquejava, a alma se reentranhava na carne. Grilo ou outro o sangue anunciava. As rãs e as moscas celebravam sua orgia, a menina parecia cada vez mais com uma coruja e tudo ao seu redor escurecia para que ela pudesse faiscar. Saiu com parecenças a avó é certo, catava os grãos traçando espirais, assassinando desvios desnecessários. 

  Um dia ela destrincha o redemoinho, pressente o velho, sem espanto nem teimosia de rinhas. Um dia ela... o corpo além desse céu tão arranhado, tudo sendo pressentido, rememorado. Um dia ela também conhecerá o diabo, suas artimanhas e pertencimentos, ela vai lograr, da carência a querescência é um salto, fácil para uma rã que tem os artefatos nítidos. Um dia ela me enterra, afaga meu repouso, atraca minha erva. Um dia ela vai ver o mar como ele é, o oceano dos carneiros pálidos, o fogo sempre termina por incendiar o arco. Era mania do velho pressentir assim tão memorioso e grávido. Já era arqueiro e arco. A menina será mais e será menos, será raiz e será galho, será bicho e será rastro, será sempre o que desde sempre foi: lua em movimento, astro... Ainda que se esforce não alcançará o sangue, será de outro o destino de abrasar essa intempérie que irrompe baixo a chita. Qual náufrago tentará suportar seu lastro, qual desânimo inquietará sua paciência? Coisas como essas povoando a madrugada beira, esses estilos arrebatados que a calmaria fresca desperta. A brasa acesa devorando a palha do cigarro, café já tantas vezes requentado no barro, amor de si buscando forças para o outro que ainda cisma e insiste em ser pássaro que vem ajudar o pensamento a romper a casca. Ela dormia. Dormia como se nada. E pode um peixe viver fora d’água? Pode árvore se esticar sem raiz? Já não sabia quase nada. Na verdade nunca soube muito. Sempre foi mais de pressentir. De ruminar. Cultivar suas próprias venerações. Dessas lógicas aparentadas do sangue. O outro lado era dela. O outro lado era pedra. O outro lado ia aparecendo nas rugas de sua testa. Barco perdido bem carregado – como se deixou ceifar por essa banalidade insólita? Nunca se sabe até que ponto um nome determina a arte. O dela era Ana, nome de santa; o dele: Estevão, nome de pirata. O sertão era vasto mais ainda mais vasto era seu barco. Desolado remeteu o pé contra a parede e embalou as cismas que àquela hora já se faziam confusas embora mansas, como os sentidos de quando voltava da casa das putas, como a cabeça de um jovem que herda uma herança, como uma mosca que sabe o desejo que arde no salto preciso da língua faminta do anfíbio, como uma iminência parda. Três colheradas de uma coalhada um tanto azeda. Pedaço de queijo seco. Talagada de cachaça. Velho não dorme, abundância de cavilações e espreitas. Quem iria preparar a terra quando chegassem as águas? Os anjos por certo, os mesmos anjos que agora lhe devolviam o sono. Assim lhe agarrou a tala e tudo que pressentira se fez fumaça. O velho dormiu como despertara, com uma leve sensação de que o que se percebe nunca se instala, que o deserto sempre está mais próximo que se desejara. A única certeza é que a menina sangraria no mesmo porto em que seu coração estancara. Ausência por ausência o sono foi se tecendo na casa. Ela era o que ele recordara. A chuva chegava com a mansidão dos gatos. Sereno. Neblina. Chuvisco. E enxurrada. Lágrima vai lágrima vem o suco vermelho foi inundando a casa. Primeiro parecia sonho depois trovoada. Animal que sangra tem suas próprias teimosias. Conhece outras insistências. Deflagra querências de outra linha. O marasmo chega de outra forma. A boca beija com outra ânsia. A morte se vê diferente. Tão certo como lição de tabuada, acendeu a vela e bebeu a lágrima. Era a primeira vez de tudo, a primeira vez que chorava. Sangrava pela primeira vez. Com as mãos suaves enterrava o velho nas penas de galinha que recheavam a almofada. Jogou a aguardente que sobrara sobre a pele sem voz. Perdeu a maciez das mãos cavando à terra pedregosa uma cova rasa. Deitou o velho na cama de piçarra. Já não tinha mais nada que fazer ali, a chuva era para os outros que retornavam. Botou roupa de ir à rua, cobriu tudo com atmosfera de domingo e deixou pra trás o que restava. Se voltaria não alcançava saber. Sentia que ia. Que era inevitável partir. Sabia que a morte era meia-irmã do amor. Assim como a vida... assim como o horror...

  Os bicos dos seios já salivavam, os cabelos exigiam suas carícias. A estrada era larga, profunda. A vila era pequena e desprovida de promessas. Um vazio entre tantos outros, um santo morto entre os demais. Alguma fagulha de não se sabe o quê naquele carro que ia por lá manhã e à tarde regressava. O resto era o resto que nunca assumia alívios, nunca dizia sensatezes. O resto era o que pouco-a-pouco definhava. Quando beijou o pé da estátua sentiu amargar o céu da boca e cuspiu sem refletir. Toda a gente lhe olhava sem poder compreender. Era simples demais para tudo aquilo, era complexa demais para tão pouco. Os sapos já coaxavam alegrias pelo lago e as moscas pululavam feira em feira sem ressaibos. Um dia voltaria onde enterrara o velho. Flor na mão, vento na alma. Um dia voltaria à casa. O amargo desceu garganta abaixo com ossos revirados. Trocou os panos que aparavam o sangue, juntou os trapos que lhe deixaram, subiu na boléia da camionete e foi até o mais longe onde chegara. Tudo era estranho e alheio. As pessoas andavam como andavam. Os carros eram muitos. As casas não eram casas. Eram espigas de cimento ensimesmadas. Não se viam varandas não se arrastavam aqueles dizeres salpicados. Mas tinha algo de bom, de aprazível, em viver sem nenhuma amenidade. Tinha algo do que o velho chamaria o outro lado. Algo de desterro, algo de hemisfério, algo alumiado. Foi assim que foi o que foi. E o que foi era o que desde sempre tinha de ser. Foi assim que ela foi se vendo cidade. Foi se sendo outra menina. Foi matando o velho como quem mata uma sina. As rãs foram criando asas, a flecha farejando o alvo. Vez ou outra recordava as boiadas, os ciganos e as aves de arribaçãs. Mas já era dialeto outro o que alfabetizava seu corpo, o coro dos anjos desafinados descontentava seus acentos. E nessas marés de lembranças não se deixava enganar, a delicadeza era bela por ser violenta, o corpo sangrava para seguir vivo e com lágrimas foi inventando o mar. O primeiro homem acolheu como um carneiro. Apascentou-lhe. Sem juras nem confusões entregou-lhe o que lhe devia e retirou dele o que necessitava. Não perdia tempo escutando algaravias. Tinha juízo. Tinha amor. Tinha criado mais de mil insônias na imaginação. O carneiro era fresco e saiu dali carregado de felicidade. Ainda quis outra vez mais já era tarde, a relva estava mais além de sua imperícia. Com um deus no ventre Ana se abriu à tempestade. Se fez luz ao novo abrigo que surgia. Com aqueles passos leves de não acordar a noite foi seguindo sua travessia. E quem sabe as tantas línguas de que são capazes um corpo sabe também que a cada uma delas corresponde um abutre. A cidade se fez mais tranqüila por um instante. O sangue parou de escorrer por um bom tempo. O carneiro ainda insistiu mas a imensidão do céu se fez muito intensa para sua ira. Sonhou com o silêncio do velho e havia mais sons naquele silêncio que nos passos apressados da multidão. Sonhou com a vila, triste e melancólica vila de azulejos. Tudo era uma questão de chão. Ali estavam as estrelas, os planetas e o clarão da escuridão. Tudo era uma questão de estômago. De vísceras. A vida era um retiro, um desterro: fagulha de um sonho na escuridão... Um pouco de vinho, um pouco de pão. Foi o suficiente para chegar até ali. Foi o suficiente para adormecer como se não fosse órfã, como se não tivesse cicatrizes no joelho, como se o sol não fosse uma perpétua maldição.        

nuno g.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

sonho.

Despertei no Jaguaribe,

na ilhota para ser preciso.

Trazia às mãos umas unhas verdes,

compridas e bem feitas.

Um boiadeiro tangia umas vacas,

à sombra da ponte as garças e um cágado.

Havia uma feira dentro da água,

muitos violeiros, muitas putas e uns cães.

Um arco-íris na direção do Quixeré,

uma escuridão pros lados das Baraúnas.

Acordei mais surdo,

o tempo cobra – nestes tempos até os juros sabem à chumbo.

Cuscuz com ovo & café com leite.

Benjamin regressou. Desentupimos as bocas do fogão.

Tudo indica que esse ano não encontrará seu término em dezembro.


Já é novembro e a chuva não cessa:

é a terra chorando as águas do futuro... 


nuno g.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

fósseis

para ângela calou,

onde antes a terra
escura e imberbe
agora os seres sedimentados

o mundo feito mais curto
de forma abrupta
e o horizonte subitamente estreitado

as cismas, as fagulhas, as artimanhas
e tudo o que deixa toda partida
a espreita do cego e o sêmen da fumaça

onde antes a descrença
com o sem sabor da virilidade extrema
e o escárnio metamorfoseando-se perpetuamente em cansaço

é na matéria que a memória se grava
tal qual o trono, artefato fósforo
e o céu azul que já não esconde de quê nos protege

o sono, o vento, a cordilheira
o velho maltrapilho e suas flores que curam
amarelo-milho aceso na névoa que a ti reluz e salva

onde antes a seiva dos mortos
agora a sombra da fé
e a imagem mimética dos seres sedimentados

onde antes a vulcânica palavra
vermelha e cálida
agora o silêncio angelical,

Maria acordou, me chama, eu vou.

nuno g.
Toróró, 20 de outubro de 2020

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

máquina de moer recordações

recolhemos os farelos de ódio à sombra
e onde antes as grandes perguntas
agora só a mesquinharia burocrática dos torpes
a miséria do espírito se propaga vertiginosamente
e nós tentamos retirar nossas cabeças do berço da guilhotina
Eles nos guiam. Eles nos exigem a fé.
o intolerável está por todos os lados.
meus olhos de gavião não apodrecem nem mesmo depois de terem morrido incontáveis vezes.
excluímos juntos qualquer saudade do dicionário.
também excluímos tudo o que já não estivera vivo no canto das onças.
recolhemos os farelos de ódio à sombra.
mastigamos carvão.
e como numa película ainda inédita
atravessamos o umbral e todas as conversações que mantem os mortos entre si.
do outro lado a pedra angular e o fundamento do Tempo.
a ferida de Silvio, o miado de Judite.
O sono de Maria.
recolhemos todas as mentiras que nos contaram.
recolhemos todas as calúnias e difamações que sofremos.
recolhemos todas as sementes que não frutificaram.
seja pela aridez do solo.
seja pela imperícia das mãos.
recolhemos os farelos no alforje.
vimos as caças passeando no jardim.
abandonamos os moribundos nos leitos hospitalares.
recolhemos o silêncio que não prescreve.
os desejos que não cessam.
as feridas que não curam.
os amores que não chegam.
compramos veneno para piolhos. compramos sexo nos confessionários.
e rezamos ao silício para que não nos traga mais nenhuma novidade.
qualquer farelo nos basta nesta hora de provação.
no alento do mito gravita o futuro desta civilização que se enterra com as próprias mãos.


nuno g.
Toróró, 21 de outubro do fim do mundo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

voto de pobreza - a mala.

Raimundo era padre, vivia em Minas.
Todos os anos vinha nos visitar.
Minha avó, sua cunhada, cozinhava doce de ameixa.
Comíamos com banana batida a garfo.
Ele me ensinou a ler e escrever cartas.
E a olhar as estrelas depois do jantar.
Era o único em que ele e o irmão, meu avô, coincidiam.
Os dois olhavam estrelas após a janta.
Todos os anos Raimundo trazia uma velha mala.
Voltava sempre com uma nova, presente familiar.
No outro ano regressava com uma mala ainda mais velha.
Raimundo morreu atropelado.
E até hoje espero religiosamente suas cartas.

nuno g.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

luto.

 A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará manifesta profundo pesar com o falecimento de Raimundo Aniceto, o mestre Raimundo Aniceto, integrante da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do município do Crato, uma das mais importantes formações da cultura tradicional popular no Ceará e no Brasil. A Secult se solidariza com os integrantes da banda, com os familiares e amigos de mestre Antônio e com tantos quantos se acostumaram a aplaudi-lo, no sem-número de apresentações que sempre combinaram música e dança, tradição e presente, intensidade e alegria.

O toque do primeiro pife da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, comandado pelo Mestre Antônio, jamais será esquecido. Junto ao seu irmão, Antonio Aniceto, e a seus sobrinhos, Mestre Raimundo seguiu se apresentando até pouco tempo, desfilando destreza no pife e na dança, na elegância dos uniformes de cores vivas, na tradição secular das bandas cabaçais. Sempre em movimento, deixando como legado a descoberta e a admiração despertadas em novas gerações, graças à continuidade do trabalho dos Irmãos Aniceto.

Mestre Antônio  se despediu aos 86 anos, foi responsável por manter viva uma das mais belas e marcantes expressões da cultura cearense, estando sempre pronto para transmitir conhecimentos e compartilhar histórias e vivências. Assim foi, por exemplo, com os novos integrantes da banda-mirim dos Irmãos Aniceto, reunindo garotos da comunidade, unidos e encantados pelo poder da tradição, da música, da brincadeira. Tudo com a simplicidade e a gentileza que sempre caracterizaram a presença do grupo, em inúmeras apresentações e em eventos especiais, como o Encontro Mestres do Mundo.

Contribuir para que os Irmãos Aniceto sigam adiante e tenham repercussão cada vez mais ampliada para sua obra é a melhor forma de homenagear Mestre Raimundo. Nosso agradecimento, mestre, por toda uma vida dedicada à cultura cearense.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

poesia.

Porque assim como há fantasmas que parecem remédios, 
assim há remédios que parecem fantasmas. 
Cousa notável, que o mesmo que lhes metia medo como perigo, 
os livrou da tempestade como remédio.
Padre Antônio Vieira

chegou aqui e mergulhou o que sou nas águas do silêncio.
sobreviverei a isso e esse é meu único temor real: meu único medo que não é imaginário.

não quero mais estar aqui, faz tempo.
a minha vida foi sempre uma luta corporal contra o luto, estou exausto.

tenho tanto apreço pelos meus contemporâneos quanto os vampiros ao alho.
eles só querem que isso passe, eu só quero ir à grande Aldeia.
nada nos une, nenhum nó nos ata.

nos próximos dicionários deveria se escrever dinheiro onde se lê alma.
não creio em amor, creio em Maria - ela também veio do que antecede o nada.

tem gente que escreve com palavras.
só sei escrever com as vísceras.
e quando escrevo silêncio, águas, mata, 
é uma forma de orar.
é uma vela amarela que acendo.
é um pedido que faço.

não quero ser condenado a sobreviver ao fim do mundo.
com ter que ser e estar entre meus contemporâneos é uma punição que já basta.

os que me pensam pessimista estão longe.
os que não me pensam quase me agradam.

quando escrevo serpente invoco o veneno que ao parecer remédio é fantasma.
quando escrevo nada o que quero dizer é tempestade.

nuno g.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Eliana e as onças

Eliana suicidou.

Ou como dizia Raimundo,

distraída que era saiu de casa pela janela.

Prefiro acreditar que conseguiu voar.

Trazia no sangue o sangue das onças.

Eu sei quando as ouço cantar.

Eu sei quando as vejo em procissão.

Acendo os vaga-lumes.

E não esqueço.

Eliana suicidou.

E quando em súplicas lhe atribuíram milagres.

Voltaram a violentá-la.

Crucificada outra vez como o índio de Chiapas.

De quem retiraram a infância para ter um Cristo à imagem e semelhança.

Os azulejos azuis, outra violência.

A ausência à lápide, mais violência.

O rosto tão branco quanto o leite.

E a voz das onças pousada ao ombro.

Subindo e descendo a escada espiralada.

Acendo os vaga-lumes.

A vela aos mortos e aos suicidados.

O vento entra.

É primavera.

Da janela: o juazeiro, a jurema, o dendê.

Ou como diria Raimundo,

a trindade vegetal.

Prefiro acreditar que conseguirei voar.


nuno g.

Toróró, 23/09/20

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O ano do infinito

                                                                                              para Maria,

Sete vezes dançaram os praiás sobre a coroa de sua cabeça.

Sete vezes cruzamos os sete rios sem que as águas nos molhassem.

Sete cânticos o jaguar encantado nos presenteou.

Nossa pele por sete fogos atravessada.

Às vésperas do oceano, do sal e do infinito.

Deixando as árvores se desfolharem.

Segurando às mãos a flor sem pétalas.

E ouvindo o tempo.

Sentindo o tempo.

Sabendo a tempo.

Sete vezes dançaram os praiás sobre a coroa de minha cabeça.

Sete rios nos cruzaram sem nos molhar.

Sete jaguares nos cantaram.

Sete fogos atravessaram nossa pele.

Às vésperas do oceano, do sal e do infinito.

Deixando as folhas se libertarem das árvores.

Segurando às mãos as pétalas sem flor.

Sendo ouvido pelo tempo.

Sendo sentido pelo tempo.

Sendo conhecido pelo tempo.

Sabendo que nada sabemos.

Que somos menos.

E que as onças curam ao cantar.

 

nuno g.

23/09/20

terça-feira, 22 de setembro de 2020

os guardiões da floresta e as ruínas do Asno-mor

Hoje foi dito e assentado na ONU, pelo fascista-mor desta terra, que são os caboclos e os índios os que queimam a mata.
Também foi dito que a mata não queima por ser úmida e que estamos à beira de sermos engolidos pela cristofobia.
Os guardiões escutam. Os da terra, os dos subterrâneos, os dos céus.
A insanidade beira o patético. O que eles querem nunca foi tão claro.
Têm apoio e avançam. Têm as armas e avançam. Têm a doença no coração e avançam.
Mas eles são mortais e passam antes de florescer.
Os índios e os caboclos bem sabem o que é um apocalipse.
Já viveram muitos e souberam guardar boas memórias.
Cristo, por supuesto, faz tempo se fez adepto à pajelança.
Há muito tempo, no livro das sete estrelas, foi assentado.
A insanidade, o patético e a enfermidade passam.
Os índios, os caboclos, as onças e as serpentes não.
As cidades do agronegócio já serão ruínas e se ajuntarão às ruínas de nossas chagas verticais.
Será um tempo longo, duro, difícil.
Mas ainda podemos aprender com as ciências indígenas os ensinamentos caboclos.
Ainda poderemos nos resguardar.
Eles sabem o que é um apocalipse e também sabem que sempre haverá quem guarde a mata das memórias e as clareiras do ser.
Não sabemos nada e sentimos que somos menos.
Que venham os guardiões e que nossa humildade os permita nos guiar.
Onças são para sempre.
Poesia também.
saravá!

nuno g.

domingo, 20 de setembro de 2020

As onças – lição do Jaguaribe

O que eles não sabem é que elas não morrem.

Nem o fogo da cidade branca.

Nem a arma esmaltada e bandeirante.

Nem o hálito pode.

O que eles não sabem é que um dia chove.

E que eles sim morrem.

No Icó tem uma casa encarnada.

O vermelho dela não é tinta.

É sangue de menstruação.

É sangue de sussuarana.

O que eles não sabem é que seus automóveis são uma extensão.

Que seus sonhos de Miami são uma triste reedição.

Dos antigos sonhos dos bárbaros de além-mar.

Sem a valentia. Sem a inocência. Sem a coragem dos primeiros.

O que eles não sabem é que seus apartamentos.

Só servem ao vôo dos gaviões.

Que ao se chocarem contra o chão.

Enfiam olhos adentro a sífilis a gonorreia e a solidão.

Lhes devolvem as escaras do tempo.

E gritam não.

O que eles não sabem é que onças reencarnam.

Eles não.

No Icó tem uma cabeça de touro enterrada.

A maquiagem do shopping não desfaz a escuridão.

Poconé e Araguaia: ódio e salvação.

O que eles não sabem é que onça canta.

Assobia, tripudia, ora.

Tem onça que é de Iemanjá.

Tem onça que é de Iansã.

Tem onça que se basta em sua primitiva santidade.


nuno g.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

sábado, 12 de setembro de 2020

Fantoches, por Francisco Espinhara

Os fantoches da rua Sete 

Seguem cegos na procissão.


A puta diurna da Palma

Traz uma venérea na alma

E uma cova diária na mão.


Da Ponte Velha a secular ferrugem

Reticente ao trajeto branco da nuvem

Come o estrado, o arco, o vergão.


Os poetas esquecidos no beco

Transam sangue a trago seco

Dormem como trapos sobre o chão.


Recife, musa, maldição

Cadela suja, traiçoeira

Seta certeira

Encantada cidade do cão.


Francisco Espinhara

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

flores siberianas, por Patti Smith

Flores siberianas são rosadas

como o bracelete de uma filha

pálido penhoar

postado contra uma janela

que não mais desse vista

Há sangue em toda parte

privado de sua cor de sangue

E o rosto do amor é nada

além da brancura do inverno

cobrindo a colina

abeto e pinheiro

gamo e galhada

tudo soprado

e no entanto desejamos

Dois olhos negros

Uma cabeça curvada

Uma coroa caída


Patti Smith

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A alfabetização do éter

Meu pai por fim morreu.

Mais de trinta anos depois de seu corpo ter sido abatido como um bicho.

 

Naquela noite não dormi e saí às quatro e meia da manhã em busca de cigarros.

Fazia um frio intenso e não havia nada na rua.

Nem cães. Nem vendedores de tacos. Nem vendedoras de flautas douradas.

Encontrei numa cantina às margens do lago e voltei fazendo fumaça.

Passos rápidos. Uma viatura de polícia. O carro do lixo.

À minha espera um quarto em paz profunda.

O sono das mulheres depois do milagre.

 

A paz profunda do corpo de meu pai no bagageiro do avião.

Finalmente.

Mais de trinta anos depois.

Sentei na escadinha onde minha avó estivera sentada sete dias atrás.

O corpo no bagageiro do avião como anos antes o corpo de minha mãe.

Belém-Recife-Fortaleza.

Não lembro se havia lua no céu.

Não lembro de sentir frio apesar do tanto de frio que fazia.

Só a paz do sono pós-parto.

O cigarro entre os dedos.

E o silêncio que sempre antecede o amanhecer nos pueblos mexicanos.  

 

A morte sorrindo com a boca atascada de pimenta.

Don Abel Hernández segurando a alça do caixão.

Embarcando o corpo no avião.

Sob o olhar assustado dos policiais do aeroporto.

E o silêncio que antecede o tiro do caçador contra o corpo da cegonha que traz os bebês.

E eu ali. Parado. Fumando.

Na mesma escada em que minha vó esteve sete dias atrás.

Enterrando meu pai na mesma cova onde estava enterrada minha mãe.

Esperando o dia amanhecer para escutar a canção que Maria, recém nascida, entoaria.

 

O alfabeto escrevendo com éter o destino num último instante de calmaria.


nuno g.