o que é o Nada?
Uma porção de água doce no meio do deserto
uma Igreja de pedra
ferindo a solidão da paisagem
mangas, bananas e uma aquarela
conchinhas de unicórnio e som de flauta
arsenal de munição para as réstias da vida
nuno g.
o que é o Nada?
Uma porção de água doce no meio do deserto
uma Igreja de pedra
ferindo a solidão da paisagem
mangas, bananas e uma aquarela
conchinhas de unicórnio e som de flauta
arsenal de munição para as réstias da vida
nuno g.
para Gabriela Gonçalves,
A poesia
reescreve o trauma
na órbita do corpo
As velas
reacendem o trauma
na órbita do túmulo
A cidade tenta apagar o inapagável
A família tenta esquecer o inesquecível
O vento é um caboclo
E seu hino é feito de sílabas de areia
A calçada
reinstala o território inabitável:
Amanhã é o único nome para descrever o passado.
nuno g.
para Claudio Reis,
foi Ela
com suas vestes coloridas
e seu punhal de renda
que abriu o horizonte de águas
e trouxe o sol
em Jardim
também foi Ela
com suas vestes coloridas
e seu punhal de renda
que abriu o horizonte de fogo
e trouxe as águas
que lavam setembro
e floram os cajus
Ela
a cigana de Araci
com a morte nos olhos
e flocos de neve nas mãos.
nuno g.
para meu pai
para minha filha
São muitas pontes
Alguma deve ligar
Meus sonhos
Aos sonhos dos mortos
São muitos rios
Algum deve ligar
Meus sonhos
Aos sonhos dos vivos
Cidade-mangue
Marco-zero
Em cada semáforo reconheço
Um estilhaço de uma vida que poderia ter sido
Anoitece.
Amanhã o passado amanhecerá ainda mais vivo.
E não haverá pedra que o mate.
E não haverá futuro que já não tenha acontecido.
nuno g.
Recife, 03 de setembro de 2021.
para meu pai.
para o professor
Paulo Emílio.
No fundo falso da mala a certidão de nascimento.
Foi assim que conheceu Fleury.
Foi assim que conheceu Ustra.
Foi assim que aprendeu que sob tortura toda carne se trai.
Sobreviveu.
E dedicou o resto dos anos de sua vida à arte de ensinar
história da arte:
caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.
A certidão de nascimento era o único portigo por onde espiava
o mundo.
O resto era clandestinidade e sonhos.
Envelheceu.
E dedicou sua velhice à construção de um museu na serra da
Meruoca.
O fascismo voltou.
Fleury e Ustra foram promovidos a marechais de guerra.
A carne se arrepiou ao pressentimento da violência.
Todos aqui estão mortos, sem exceção.
Vasculho o armário.
Busco papéis e carimbos.
Ouço minha primeira vó, morta, chorando.
Ouço minha segunda vó, morta, me interrogando.
Ouço os estampidos da arma de fogo.
E olho nos olhos dos homens que mataram meu pai:
eles sabiam que ele era meu pai.
Encontro a segunda certidão de nascimento.
Sinto o amor sem mácula de meu avô.
A original se perdeu para sempre.
Caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.
Os sobrenomes são os mesmos:
ainda quando reduzidos às cinzas.
No fundo do armário nenhuma certidão de nascimento
nenhum portigo para espiar o mundo
Só a clandestinidade, os sonhos e a traição da carne ante a
intuição da violência.
Nada de papéis. Nada de carimbos.
Só o sorriso de uma criança asseando o corpo do pai com
folhas de urtiga.
Nada de choro. Nada de interrogatórios.
Só a alegria de uma criança velando o corpo do pai.
O fascismo sobreviveu.
Dediquei minha vida à arte:
caligrafia islâmica, tatuagens maoris, bauhaus.
Envelheci.
Quem sabe um dia suba a serra da Meruoca e enterre
no fundo falso do museu este poema.
Nuno g.
Toróró, 8 de agosto de 2021.
soube que o prédio desabou
como tudo mais em nosso tempo
como os olhos do mar
como as máscaras das instituições burguesas
como os céus que os pajés sustentaram por séculos
soube que o prédio desabou
e passei toda a semana ouvindo os passos do velho
e passei sete noites sonhando com os gestos do velho
e passei a terceira tarde inteira buscando a chave entre os
escombros
soube que o prédio desabou
acendi uma grande fogueira no terreiro
e devagarzinho fui queimando memórias sem serventia
nuno g.
Para Antonio Cornejo Polar
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Iansã tangeu os eguns
Meia-lua, sol de boiadeiro,
Redemoinho e azul,
O sol, dourado, se esparramando no pasto,
A montanha, ferida
e os três chicotes no
interior vazio do cálice.
Minha alma correu grandes perigos ontem à noite.
O cavaleiro Azul me estendeu a mão e me salvou.
Voltei onde nunca tinha estado.
E vi coisas que não deveria ter visto.
E, por isso, jamais as poderia esquecer.
Minha alma atravessou grandes perigos ontem à noite.
O cavaleiro Azul me ergueu do chão e fez brotar raízes dos
meus pés.
Voltei. Agradeci. Não esqueço.
Abri as asas e regressei para onde sempre estive.
O cavaleiro Azul sorriu.
E minha alma girou sobre o chão do terreiro.
Vulcões, terremotos, tempestades.
Minha alma pediu socorro e o cavaleiro Azul veio.
Com sua lança prateada e sua legião de crianças e cavalos.
As coisas que vi não sei narrar.
As palavras me escorrem como o sangue do galo sacrificado.
Vulcões, terremotos, tempestades.
E o cavaleiro Azul desencantado.
Minha alma caminhou até a fonte de águas doces.
Saciou sua sede e seguiu sua fiel jornada.
nuno g.
Toróró, 18 de julho de 2021
Dentes trincados, velas acesas.
Corpo de luz, Leminski à vitrine.
Esboço de amarelo mofado.
Algodão aos pés da tropa.
Ouro em pó e distância.
Velas acesas, dentes trincados.
Amanhecer de.
Esboço de carne e pássaros.
Terra devastada e.
Corpo de luz, vitrine devassada.
Em vão, ou quase.
Como se o som da noite fosse o vento de UAKTI.
Atravessando meu corpo de pífano desregrado.
A lua no céu, sorriso do gato.
Esboço do Nada.
Ponto riscado, azul de ilha.
Esboço, arco e.
Ciranda. A gira. E o lastro.
Removo a argila.
Cavalo castanho na beira da praia.
Ele chega. Me sagra.
E a gira segue nas pancadas do mar.
nuno g.
Toróró, 16 de julho de 2021.
A lei. A lei. A lei.
O galo e o enforcado.
E o meu sonho de sempre sobre o meu rosto antes do
nascimento.
Refletido na água.
Cravejado com espinhos de ferro & aço.
Brilhando na noite da mata.
Em meio às estrelas e aos dentes de minha mãe.
A lei. A lei. A lei.
A primavera se abrindo com o sangue do galo.
Gotejando na carta do enforcado.
A lei. A lei. A lei.
E o meu rosto de sonho sempre antes do nascimento.
Cavalgando Eleguá, o cavalo de pedra.
E sua crina lambuzada de mel.
Entre os seios e as coxas de minha mãe.
Como se na carne uma fenda aberta à outra carne.
E no coração do mistério um abismo a outro abismo.
Gotejando nos caules de milefólio.
A lei. A lei. A lei.
O galo, o sonho, o enforcado.
Sempre.
O Azul caminhando ao meu lado.
Com sua espada de metal e a serpente.
Um olho tatuado dentro do olho.
Como a noite e o rastro das asas.
O inverno, a seca, o rio que morre e renasce.
Fogo-fátuo ante o palácio dos eguns.
Meu dicionário, meus medos interditados.
A lei. A lei. A lei.
A testa toca o chão ao som do atabaque.
Meu rosto é o mesmo de sempre.
Meu rosto antecede meu nascimento.
O sangue do galo pinga sobre o metal da espada.
A lei. A lei. A lei.
Dentro do cálice os três chicotes trabalham.
A forja Dele. A crina de mel. O silêncio do outono.
A memória do curry e do shoyu, a fonte.
Todos os quintais vão se abrindo.
Escadas e jardins e escadas e jardins e.
Não há mais esperanças:
A vida pode finalmente florescer em paz.
nuno g.
Toróró, 12 de julho de 2021
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos
que deres,
Nesse caminho
duro
Do futuro
Dá-os em
liberdade.
Enquanto não
alcances
Não descanses.
De nenhum
fruto queiras só metade.
E, nunca
saciado,
Vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a
sonhar e vendo
O logro da
aventura.
És homem, não
te esqueças!
Só é tua a
loucura
Onde, com
lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Saudações pindaibísticas!
Comparsas, a esfera voltou a girar!
Em 2021 a revista Pindaíba completa 18
anos. Quatro edições publicadas e uma quinta prestes a ir ao prelo.
Há cinco anos lançamos a quarta edição
e concluímos que já bastava. A Pindaíba deveria morrer pois fazia parte de um
tempo que deixou de ser. Observamos as mudanças profundas que estavam
acontecendo no mundo e também ao nosso redor, no nosso reduzido universo das
relações próximas e pessoais... O velho Benfica dos anos 90 e começo dos anos
2000 (quando começamos) com seus bares de esquina e butiquins; o Brasil da era
Lula e PT; a América Latina com seus governos nacionalistas e populares não
mais existiam. Tudo se desfazia no ar e um novo mundo, com perspectivas
sombrias, se manisfestava. Portanto, entendíamos que a quinta edição seria a
derradeira. Se ainda teimássemos em fazer revista deveria ser uma outra, com
novas características, que refletisse os “novos tempos”...
Embalados pela ideia da Morte da
Pindaíba, logo organizamos a nova e última edição. Nos reunimos na Praça João
Gentil, decidimos sobre o caráter da coletânea de contos e poemas, deliberamos
sobre as matérias, recebemos os textos, criamos o projeto gráfico e fizemos a
diagramação. A ideia era lançar ainda no ano de 2017. No entanto, como não
poderia deixar de ser, a vida surpeendeu: nesse ano perdemos um comparsa muito
querido, pindaibeiro mor, pelo seu modo de ser e encarar a existência; Carlos
Jorge encarnava, como ninguém, o espírito contestador da Pindaíba. Para além,
CJ representava esse velho Benfica onde
costumávamos nos perder noites afora, esse Benfica que havia passado. Ao meu
ver, CJ é o símbolo maior, pelo menos
para nós pindaibeiros, dessa era de sonhos etílicos, de brisa e madrugadas
marginais.
A partida inesperada de nosso amigo
causou um refluxo. Os encontros na praça pararam de acontecer, a produção da
quinta edição passou a operar em modo “banho-maria”, a esfera parou de girar...
Essa paralisia perdurou até o fim de 2019, quando ventos de entusiasmo
voltoaram a embaralhar nossas cabeleiras. Reavaliamos a ideia de matar a
revista e a desconsideramos totalmente. PINDAÍBA VIVE! passou a ser nosso lema,
o oposto. Avaliávamos agora que a morte já havia levado seu tributo; já
tínhamos perdido o CJ. A Pindaíba não cederia mais nada à senhora contratante
de Caronte, pelo menos não agora. Essa retomada merecia uma celebração.
Organizamos uma confraternização de fim de ano na saudosa casa do Manoel, no
Benfica, com a convicção de que no primeiro semestre de 2020 a revistinha seria
lançada. Ledo engano. Mais uma vez a vida veio e nos deu uma rasteira.
Iniciava-se naquele ano a Pandemia do Corona Vírus, acentuada aqui no país
pela nefasta polítca do flagelo Bozonazi
e as serpentes golpistas. Tivemos que estacionar a esfera mais uma vez. Algo
muito mais urgente requeria nossa atenção.
Pois bem, após esse histórico, me
permitam afirmar que uma nova oportunidade se apresenta. O povo tá ocupando as ruas novamente, dessa
vez para protestar. Na verdade a maioria dos brasileiros nunca pôde deixar as
ruas. O isolamento social, segundo estatísticas, só alcançou 27% da população. A massa de trabalhadores
continuou obrigada a dividir ônibus e metrôs lotados, assim como as linhas de
montagem das grandes indústrias e comércios. Devemos aproveitar essa onda de
protestos para se juntar às manifestações e também, com a vontade renovada,
trazer a Pindaíba à luz.
A revista está pronta, terá 140
páginas. Além da coletânea COLÍRIOS E DELÍRIOS de poemas e contos, reunindo 34
autores, essa edição traz: 4HQs; entrevista com o grupo cearense de teatro
Pícaros; entrevista com Jonnata Doll;
matéria sobre o poeta cratense Geraldo Urano; matéria sobre a cena marginal da
literautura de Natal/RN; matéria sobre a literatura independente de Teresina/PI
e a tradicional seção TÔ PUTO! (os “tô puto” serão acrescidos após uma campanha
de divulgação).
Muito é preciso fazer. Vamos começar a
etapa de divulgação e campanha financeira. É necessário o engajamento de todos,
pois só é possível a publicação com o empenho coletivo dos pindaibeiros.
Vamos novamente nos reunir na Praça João Gentil no sábado 17/06. Todos
com máscaras e mantendo o distanciamento
proporcionado pelo espaço livre da praça. Na ocasião apresentaremos o boneco
impresso para que os autores possam verificar a revisão; informaremos os
valores da gráfica; discutiremos as atividades de divulgação e de venda e a
participação da revista nas manifestações. Quando mais próximo, informaremos
horário e a pauta de discussão mais específica. Os pindaibeiros que não puderem
comparecer ou que ainda não se sentem seguros em participar de atividades desse
porte, podem requerer encontros pessoais
na semana seguinte para esclarecimentos e ficar a par dos informes e
encaminhamentos.
Sem mais no momento,
Abraços e Vida Longa à Revista
Pindaíba!!!
André Dias
Fortaleza/CE.
29 de junho de 2021
outra vez em fuga o cavalo:
em busca de seu dono e sob o batismo de teus olhos
outra vez sua crina banhada em mel:
em busca de seu destino de metal e mais-metal
como se a cada passo no pasto
abrisse nuvens e túneis
que O tornavam mais reconhecível aos olhos que selaram seu
nome.
nuno g.
De que carne cá dentro vem
aquilo que em mim tenta e pode
escrever o que estou lendo
de outrem?
Não propriamente posse —
antes uma disposição
que internamente se impõe:
o corpo inteiramente votado
ao trânsito dum longo transe.
Não sei de que mais me envolva
tantas horas – nem dos distúrbios
do amor e respetivo sexo.
Cúpida presa mira longe texto.
Correntes desenrolam-me outra
coisa que não seca, conquanto
subam e desçam, carrossel
esconso, áspero silvado
ora escarpa, ora dossel
fluvial, Ó quanta líbido
discípulos da vertigem (à
falta de mais certeiro nome —
sanguíneo pneuma?) pode
trasladar a carne o canhão
para a fome espiritual?
Margarida Vale de Gato
o que você chama de paz eu chamo terror / e sim, há sangue correndo entre essas águas do Jaguaribe / a minha insônia traz nome, não O revelo / meu fastio, minha insolência, meu despertencimento / só O que não se reconhece ao espelho interessa / essa fábrica de narcisos engrossando fileiras de algoritmos desenfreados / tenho a madrugada, a neblina e o meu coração cheio de covas abertas e gotas de / o gato mia / o gato foge / o gato se encurrala em seu próprio labirinto como um fauno / como um asno / como um avestruz de penas ruivas / as fezes sobre os sonhos e os dias de adoração ao Senhor / quaresma / quaresma / quaresma / e a nova penitência / como num filme antigo / preto-e-branco / como o manto sagrado do Ceará / o que você chama terror eu chamo paz / e sim, tarda em arder a sarça / a minha revelação traz nome: insônia / tenho a madrugada / a neblina / e esse leve rumor de asas que não me deixa esquecer que atrás da imagem refletida na água evapora tudo o que é sagrado.
nuno g.
Um Sonho existe em nós como um cisne num lago
de água profunda e clara e em cujo fundo existe
outro cisne alvo e triste, e ainda mais alvo e triste
que a sua forma real de um tom dolente e vago.
Nada: e os gestos que tem, de carícia e de afago,
lembram da imagem tênue, onde a tristeza insiste
por ser mais alva, a graça inversa em que consiste
a dolente mudez de um espelho pressago.
Um cisne existe em nós como um sonho de calma,
plácido, um cisne branco e triste, longo e lasso
e puro, sobre a face oculta de nossa alma.
E a sua imagem lembra a imagem de um destino
de pureza e de amor que segue, passo a passo,
este sonho imortal como um cisne divino!
Eduardo Guimaraens
Rogo, rezo, imploro.
Aos anjos
Pelo sinal do caminho de regresso
ao corpo em que nasci.
nuno g.
Bebemos uma água suja
Que eles dizem
Que está limpa
Comemos uma ração podre
Que eles dizem
Que é comida
Vivemos sob uma luz turva
Que eles dizem
Que está vívida
Eles dizem muitas coisas
E a tudo damos graças
Mais tudo que temos
São essas coisas baratas
Maconha, cigarro e cachaça!
Rony Bonn.
Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
Annibal Teophilo
Quinze horas cruzando Minas Gerais.
As flores, as máscaras e os dois arco-íris na fronteira.
Quinze horas abandonando flechas no acostamento.
Quinze horas cruzando um Sonho absurdo e gigantesco.
Quinze horas nas veredas da mata de Tempo.
Quinze horas de guerra e oração dentro.
Itamaraju foi crescendo – o que era um quintal se fez um
céu.
E nossos corpos deitaram-se um sobre o outro.
Meus passos de vespa zumbindo no mercado.
Comprando frutas, comprando própolis, comprando cigarros.
Meus passos de mosca santificando a semana de um só dia.
Mastigando bolinhos caipiras na porta da barraca e lembrando.
De uma noite no vale dos buritis – penas brancas &
cobras corais.
O rapé. O pajé. A poeta. O irmão.
Itamaraju – palavra que desconheço o significado.
Pedra, como tudo que é pele à minha pele.
Quinze horas de lírios à sombra da segunda sombra da oiticica.
Jaguaribe; minha fome, minha sede, minha monástica aparição
às horas de rumores & neblinas
Itamaraju. Jurema.
(os raios que habitam teus lábios – e o meu perdão
saltitando como uma rã entre vossas mãos)
Caminhões & faróis altos.
Faróis altos.
Bananas, uma bolinha de plástico de máquina à moedas.
Quinze horas e nenhum cansaço.
A força límpida e cristalina da estrada.
Recolhimento pandêmico e notícias da terra.
Itamaraju – o oposto perfeito de esquecimento.
Pedra que guarda o que recebe.
Lugar onde se assenta.
ita /mar / azul
uma fotografia mais para o álbum.
nuno g.
Toróró, 14 de abril de 2021
dois seres de Ar
suspensos no espaço
entre estruturas metálicas
e abismos cósmicos
dois seres de Ar
suspensos no coração
de um buraco negro
dois seres de Ar
suspensos nas ruínas de um engenho
entre flores liliputianas
dois seres de Ar
se olhando à sombra
suspensos
no coração da água
dois seres de Ar
um olhando
o outro banhar os pés
entre liliputianas flores
dois seres de Ar
suspensos no fogo
como se o sangue
regasse com luz
o cúmplice
silêncio
do rio
nuno g.
Toróró, 16 de fevereiro de 2021.
Existe um grupo de pessoas no Brasil, que alguns veículos de mídia chamam de movimento e dizem ter mais de 150 mil membros, que defende que as escolas deveriam permanecer abertas, mesmo nos piores momentos de contágio da pandemia de covid-19. O nome que esse grupo de pessoas assumiu para si é "Escolas Abertas".
Os argumentos trazidos pelo grupo parecem nobres: as crianças, apartadas da escola, tem apresentado perda de aprendizagem, mais significativa para as de menor idade; a escola tem uma função social, inegável, ainda mais em um país pobre e desigual como o nosso, principalmente no que se refere à alimentação; os casos de violência e abuso em casa aumentaram com as escolas fechadas.
Tudo isso é verdade. Posso afirmar porque sou professor de duas redes, a pública e a privada, na maior cidade do país.
(Não sou uma raridade: são muitos os profissionais da minha categoria - sendo justo: são *muitas*, já que é uma categoria majoritariamente composta por mulheres - que ocupam toda a vida dando aula em duas escolas pra conseguir ter renda suficiente para se manter.)
Para além desses argumentos, o discurso do Escolas Abertas para o retorno das aulas presenciais se baseia na realidade de outros países, como o Reino Unido, onde as escolas não fecharam mesmo com lockdown. Por lá, testagens massivas foram feitas para garantir esse retorno. Mesmo assim, quando o contágio aumentou demais, as escolas fecharam de novo.
É aí que começa o problema: sabemos, eu, você que está lendo e as pessoas que compõem o Escolas Abertas, que isso não aconteceu - e nem vai acontecer - no Brasil.
Nem lockdown de verdade, nem testagem massiva - na rede pública de São Paulo, a prefeitura testou apenas 17,7% do total que havia prometido, e ainda com o tipo menos confiável de teste.
Essa testagem aconteceu toda no ano passado - ou seja, todas as pessoas testadas podem ter se contaminado desde então.
Além disso, que não é pouco, existem diferenças gigantes de estrutura entre as escolas do Reino Unido e as daqui - e, principalmente, entre a rede privada e a pública no Brasil.
As pessoas que compõe o Escolas Abertas tem, em sua maioria, os filhos matriculados na rede privada, em grande parte dos casos nas escolas mais caras. Lecionando nas duas redes, experimentei na pele as diferenças, gritantes, entre elas. Da merenda, que por pouco não virou ração nas escolas públicas municipais, aos passeios de campo, que banquei do bolso na EMEF onde trabalhava até ano passado. Diferenças que vão muito além das questões materiais, sobre as quais não vou me alongar. Fiquemos com apenas um fato: mais de 500 escolas públicas em São Paulo não abriram por não ter equipe de limpeza no dia programado para o retorno, semana passada - e nas que tem essa equipe, e retomaram as aulas, não faltam relatos e apontamentos de que são insuficientes.
Se formos analisar a ventilação nas salas de aula, já que o principal modo de transmissão do coronavírus é por transmissão aérea em ambientes fechados, a situação piora ainda mais, e atinge tanto as escolas públicas quanto as privadas. Mas também não quero explorar esse fato, porque, de novo, todos sabemos disso: eu, você, o Escolas Abertas e qualquer um que perca dois minutos lendo as redes sociais e as notícias nos últimos dias.
Mesmo assim, o "movimento" insiste no retorno.
Não quero entrar nos motivos dessa insistência, que vão muito além da perda cognitiva ou da saúde emocional das crianças. Escrevo aqui impulsionado por outra razão: externar dois desejos meus neste momento.
No último domingo, recebi a notícia da morte de uma atendente escolar, da rede pública, com quem trabalhei nos últimos três anos. Ela era três anos, também, mais nova do que eu, que estou prestes a entrar nos meus quarenta anos.
No mesmo dia, mais tarde, a avó dela também morreu.
Mesmo com essa notícia, uma entre tantas outras que tem surgido diariamente, o meu primeiro desejo, o maior dos dois, é retornar para a sala de aula. Porque o ensino remoto é horrível.
Mas só quando isso não significar um aumento exponencial na possibilidade de morte, minha e de todas as pessoas com quem irei interagir nas duas escolas em que leciono, no caminho de casa até a escola (uma hora de trem), de uma escola até a outra (mais duas horas) e depois de volta pra casa (outra hora inteira). E das pessoas que, depois disso, irão interagir com essas pessoas.
Quero retornar para a sala de aula, sim.
Quando isso não significar, para além da morte, o aumento também no risco de nunca mais poder entrar em sala de aula, já que cresce o número de pessoas com sequelas que - ainda não se sabe - podem ser permanentes, entre elas perda respiratória e, vejam só, déficit cognitivo. É o caso de uma amiga, também professora, com quem dei aula muitos anos e que hoje vive no Pará. Mesmo com sintomas leves, mais de seis meses depois de ter sido contaminada, ela ainda não recuperou completamente olfato e paladar e tem se confundido com coisas simples do dia a dia, como lembrar de desligar o fogão.
Quero retornar para a sala de aula.
Mas não para atender os desejos fúnebres de pessoas que nem sequer estarão lá, e que se sentem bem em apostar as vidas dos próprios filhos nesta loteria macabra.
É aqui que entra meu segundo desejo, ligado umbilicalmente ao primeiro, bem mais simples, e que diz respeito às pessoas que fazem parte e defendem o Escolas Abertas.
Para elas, todas elas, eu desejo a morte.
Não por ódio ou vingança, longe disso.
Mas pela simples reciprocidade.
Porque elas, como eu e você, sabem muito bem dos riscos que essa volta significa, no pior momento da pandemia até aqui, com mais de mil mortes diárias todos os dias. E seguem gritando pelo retorno, porque não se importam com a vida - a minha e a de todas as pessoas que trabalham nas escolas, professoras, coordenadoras, faxineiras, atendentes escolares e seus familiares.
Morte por morte, desprezo por desprezo, então, eu deixo aqui meu desejo de volta.
São Paulo, 23 de fevereiro de 2021.
Um professor.
Danilo Heitor Cajazeira
https://sempredesobedecer.wordpress.com/
neste manto azul de entendimento e abertura
nesta terra-terra de formigas e
assentamento
neste céu-sem-dogma, nesta carne que
cura e treme
neste manto azul de espera e fundação
neste fogo-fogo que consome e arde
neste esquecimento, neste cume do
esquecimento
nestas veias e artérias, neste sangue
que corre,
nestas três árvores, nestes indícios
de soberania
nesta carne que se ressente e que
caminha
entre enxames de vespas & abelhas
neste manto azul, que aos teus olhos
apareceram
entre os ínfimos grãos do sétimo
infinito
às margens das margens do reino de
Tempo
nuno g.
Um poeta escreve num Café
A velha pensou que escrevia uma carta para a mãe.
A adolescente, que escrevia para a namorada.
O menino, que desenhava.
O comerciante, que planejava um negócio.
O turista, que endereçava um cartão postal.
O contador, que calculava suas dívidas.
O homem da policia secreta caminhava lentamente em sua direção.
Mourid Barghouti
No hay nada que temer.
No hay nada que esperar.
Siempre se está más o menos vivo.
Siempre se está más o menos muerto.
César Vallejo in Contra el secreto profesional.