domingo, 14 de junho de 2020

5000


São esses os mortos contados no Ceará até agora.
Sabemos que esse número é menor, muito menor que o de fato.
Ontem trezentos fascistas tentaram invadir o congresso nacional.
Ninguém foi preso, ninguém foi morto, ninguém foi espancado.
É que entre eles não havia ninguém que fosse alvo.
Anteontem outros fascistas invadiram hospitais.
A mando do Asno-mor, autoproclamado tirano desta republiqueta infernal.
Ninguém foi preso, ninguém foi morto, ninguém foi espancado.
É que entre eles não havia alvo.
Um jovem é espancado na periferia de São Paulo.
O filho de uma empregada doméstica cai de uma torre no Recife.
Um estudante negro “suspeito” de roubar um carro é preso em Salvador:
Ele não sabia dirigir e foi sequestrado quando voltava da caixa onde foi receber os famigerados seiscentos reais.
Ninguém vai ser preso, ninguém vai ser morto, ninguém vai ser espancado.
São só notícias banais: é só a rotina desta nossa republiqueta infernal.
O ministro da economia faz a contabilidade: com os anciãos mortos ele zera o déficit da previdência social.
O ministro da justiça faz a contabilidade: com os mortos da favela ele equaliza a mão de obra de reserva e diminui o exército de desempregados que poderia levar adiante uma revolução indesejada.
O ministro da educação desfila sua ignorância pelas ruas de Brasília: selfies alegóricas para uma triste posteridade.
Os shoppings estão abertos, as igrejas evangélicas também.
O ministro da saúde escova a farda e amontoa nos gabinetes mais militares: todos especializados em pandemias e problemas sanitários.
O Kuarup foi cancelado: os pajés sabem que os mortos podem esperar – a memória da peste é sábia conselheira.
Com alguma sorte faz sol, dá praia, e na falta de algo melhor vamos todos desfilar nosso racismo, nossa truculência, nossa infinita devoção à barbárie.
Perco o sono e passo a noite em claro pensando: como daqui a uns anos vamos explicar a nossas crianças que vimos tudo isso acontecer e não fizemos nada.
Com que olhos olharemos nos olhos de nossos filhos quando os olhos deles nos pedirem que nos expliquem como permitimos que o mundo que os legamos fosse ainda pior que o mundo que herdamos.
Até Roberto Jeferson, o canalha ressuscitado, aos quatro ventos brada: anistiamos os militares que nos salvaram e a eles agora recorremos que outra vez nos salvem.
Abro os jornais e vejo: Monica Bergamo, Eliane Cantanhêde e Vera Magalhães esbravejando a torto e a direito como se não houvessem semeado isso.
Silvio Santos, Major Curió, Hermanos Weintraub e Olavo de Carvalho: todos condecorados com medalhas de mérito e honrarias.
O ministro do meio ambiente age rápido: o vírus escancarou a porteira passemos a boiada rapidamente.
Damares, a que vê Jesus em pé de goiaba e que por caridade adotou uma indígena, se emociona ao ver navios militares distribuindo a peste na floresta.
Sim, acabou: já basta.
Chega de ler liberais arrependidos disfarçando que não sabiam de nada.
Chega de fazer de conta que os fascistas não são necessários aos sonhos neoliberais de nossa republiqueta com delírios escravocratas.
É domingo. Faz sol. Não vai dar praia.
O meu temor é não ter palavras quando minha filha crescer e me perguntar:
Papai, você viu tudo isso acontecer e não fez nada?

nuno g.
14 de junho de 2020.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

261

261 cearenses foram enterrados hoje.
Carla Zambelli diz que tinha pedras naqueles caixões.
O asno-mor manda a gente tomar tubaína.
A voz do presidente do supremo no roda-viva dizendo:
democracia é assim mesmo
atravessada na goela.
Sempre tem um túnel no fim da luz: o nome dele é poesia.
Depois que a gente enterra a esperança
a geografia do céu ganha fronteiras que desconhecíamos.
Esperar que tudo volte ao normal é falta de imaginação:
Não existe volta e o que chamávamos de normal está morto.
Amanhã é só o nome que inventamos para a delicada arte de conviver com fantasmas

nuno g..

quinta-feira, 14 de maio de 2020

nós e as divindades

sonhei com o mar e meu pés deixavam uma trilha de pegadas nas areias. havia vento, muito vento. e havia também uma música suave e bela que acompanhava meus passos. eu estava só e só caminhava entre muitos outros. eu olhava o mar e o mar me olhava com seus olhos de sal. sonhei com um mar muito antigo de águas calmas e nesse sonhava eu caminhava com uma serenidade absurda. havia muitas outras pessoas entre os grãos de areia, mas eu estava só. nada afetava minha paz e o fato de saber que elas estavam mortas a muito tempo me tranquilizava. sonhei com o mar e com as tantas léguas que caminhei para chegar até ele. muitas foram as montanhas que ficaram para trás e extensa a várzea que me levou até ele. sonhei com enormes olhos de sal e mil tentáculos. uma música suave e bela acompanhava meus passos. deixei uma trilha de pegadas nas areias e apesar do vento todo que ventava essas marcas não se apagavam. era inverno, fazia frio, apesar do sol a pino. meus dedos eram longos como os de um velho pianista enfeitiçado e nenhum mal me habitava. sonhei com o mar e com todas as distâncias que nos separam. havia cavalos, havia cabras, havia som de chocalhos. meu corpo estava fendido e trespassado por espinhos alaranjados como os raios do sol. na minha boca havia fogo e era doce o fogo. na minha boca havia memória de luas das guerras antigas. na minha boca havia atrocidades em excesso. o mar, o vento, as areias. eu estava só, apesar de todos os que me rodeavam. não sentia cansaço, apesar de saber o tanto que havia caminhado até chegar ali. as feridas em meus pés denunciavam a existência de um longo e tortuoso passado e os meus cílios cintilantes anunciavam que em breve outra alma encarnaria em meu corpo desabitado. fazia sol, mas era frio. havia música e minha imagem não refletia nas águas. havia cavalos com um só corno e cabras que se perdiam admirando a abóbada celestial. era maio, era o mês dos nossos aniversários e de alguma forma eu pressentia que nas funduras de alguma fossa oceânica nossas alegrias haviam se reencontrado: ainda que por um breve e inusitado instante, ainda que não estivéssemos acordados e que nosso hálito conservasse gotículas microscópicas de éter extraviado. era maio e maio sempre foi o mês de nossos aniversários. sonhei com o mar e com enormes olhos de sal aferrados a mil tentáculos. despertei tarde e me alimentei com sementes como me ensinaram os pássaros. revisei as correspondências e acariciei a onça estendida no sofá. agradeci às divindades aquele sonho e tomei mais um café - o amargo é ainda mais delicado quando sonhamos com o mar e despertamos encharcados de sal. arranquei fora os espinhos alaranjados de sol - o amargo é ainda mais delicado quando sonhamos com cabras, cavalos e chocalhos. a serpente veio, me abraçou e nos acariciamos como se a eternidade houvesse finalmente se instalado entre essas ruínas onde acampamos. despertei, me alimentei de sementes como me ensinaram os pássaros e me recolhi na medula óssea do mês de maio. mês de nossos aniversários. mês em que recordo que tudo passa e só por isso seguimos aqui. tomei um último café - e agradeci uma última vez às divindades a existência insólita do amargo.


nuno g.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

quarta-feira, 6 de maio de 2020

A MOITA , por marialice

eu sou uma moita que procura outra moita que achei outra moita que viramos gêmeas
eu e ela procuramos outra moita
FIM

marialice

segunda-feira, 27 de abril de 2020

quarentena


chove e quando chove a terra se alegra
chove e nas águas da chuva vivem as divindades
chove e a suavidade da chuva não oculta a beleza do mundo
chove e faz escuro como nunca antes
chove, filha, e os teus olhos brilham mais que o de costume
chove, filha, e tuas brincadeiras se estendem como os lagartos nos lajedos
chove, filha, e já não sabemos mais se amanhece ou se ainda é madrugada
chove, filha, e na cidade os que até ontem nos abraçavam usam máscaras e nos cumprimentam à distância
chove, filha, e as aldeias onde costumávamos passear estão fechadas pela sabedoria dos que não esquecem de quando a varíola arruinou a vida
chove, filha, e você dorme e sonha com mais um dia de loucuras e aventuras
chove, filha, sobre essa casa que não sendo nossa já é parte do nosso sonho e da nossa semeadura
chove, filha, chove sobre nossos cabelos como choveu um dia sobre a gare de Astapovo
chove como um dia choveu sobre o mar de Neruda
como um dia choveu sobre as pálpebras de Cleópatra
chove e nossos amigos estão enclausurados
chove e seus olhos brilham como duas serpentes que iluminam o futuro
chove e nós não choramos ao ninar teu irmão morto
chove e nós não nos entristecemos ao ninar teu irmão morto
chove e nós acendemos velas, incensos e estrelas no céu
chove e nós alimentamos os cães e aprendemos com Judite a resistir
chove e nós seguimos com nossos planos de viajar por estar terra onde nascemos
de caminhar entre as lhamas do deserto de sal
de escalar as pirâmides relendo os versos da Colorina
chove, os fascistas estão cada dia mais empoderados
o mundo está cada dia mais sinistro e acovardado
os abraços estão suspensos e toda a lógica do tempo foi dissolvida num passe de mágica
chove sobre o vírus da biologia e sobre o fermento da linguagem
sobre os positivistas, os oportunistas e sobre a cova do teu irmão morto
chove e os açudes estão abarrotados
chove e as bibliotecas estão fechadas
chove e as moscas da semana santa não vão embora
chove e nossas línguas são as das serpentes que te acompanham
chove e recordamos os sonhos de São Tomé
chove e recordamos o trem da graciosa
chove e tomamos água de umburana
chove e derramamos um fio de azeite sobre o macarrão com brócolis
chove e não queremos que tudo passe
chove e aprendemos que seria uma estupidez desejar a normalidade
chove e vamos deixando que os animais nos ensinem as artes da nova realidade
chove e a chuva dissolve tudo o que é ridículo e até ontem parecia ser importante
chove e aqui estamos
sem nenhuma noção do tempo
sem nenhuma vontade de fazer de conta que não aconteceu nada
sem nenhum temor às criaturas demoníacas que ameaçam desabar os céus
chove e nós adoramos a chuva como os antigos
chove e nós bebemos as águas da chuva como os antigos
chove e nós limpamos toda a fuligem de asfalto que trazíamos à pele
chove e nós cuidamos de teu irmão morto
chove e nós rimos dos cães destruindo nossos óculos
                                                                       nossos celulares
                                                                       nossa impotência ante o destino
chove e mesmo sob a chuva acendemos o fogo
chove e mesmo sob a chuva adoramos o fogo
chove e mesmo sob a chuva nós tecemos nossa casa de vidro
chove e nós escutamos o que nos diz a chuva
chove e nós veneramos e reverenciamos o que nos sopra o fogo
chove e nós nos aproximamos do que se encontra longe
chove e esta terra nos abraça
chove e este rio nos afaga
chove e rezamos e comemos pipoca e assistimos desenhos animados
chove e nós corremos sob a chuva sem nenhuma veste que oculte a beleza de nossos corpos
chove e nós aceitamos a carícia dos deuses
chove e sorrimos e nos alegramos e agradecemos essa certeza de que nada será como antes
chove e sabemos que os generais planejam matar uma parcela da humanidade
chove e sabemos que nossos pés têm asas e sabem galopar
chove e nossas intimidades guardam a dor preciosa com que se fazem as delicadezas
chove e nós devoramos o que aprendemos a cozinhar
chove e nós vestimos o que aprendemos a tecer
chove e nós sonhamos os medos que perdemos
chove e a chuva nos protege
do vírus, do fascismo e de toda a maldade do mundo
chove e a chuva nos traz os versos que nos ajudam a respirar
chove e a chuva nos traz a memória de um futuro que nos pertencerá
chove sobre a necropolítica e os tiranos amordaçados no porão
chove sobre o silêncio dos cúmplices e sobre a pilha de fariseus amontoados nas cidades
chove sobre as cidades e suas cicatrizes
chove sobre o sangue que pulsa no olhar feroz da coruja branca
chove sobre a ceia imunda dos assassinos de Marielle
chove sobre o luto de Vivian
chove sobre o estandarte de couro onde ferramos o brasão da agônica esperança
filha, chove sobre a cova de teu irmão morto
chove e não posso ir até lá acender sua vela
e não posso ir até lá acender seu incenso
e não posso ir até lá aquecer seu frio
chove e sei que você o tem em seus braços
chove e sei que Vivian o traz em seus braços
chove e sei que os fascistas venceram e
que o sinal está fechado para nós que somos jovens
chove e sei que sim já somos como nossos pais
chove sobre o mistério inescrutável da santíssima Trindade
chove sobre as armas de Ogum Beira-Mar
chove sobre a magia da sereia desse rio que é todos os rios
filha, chove sobre a pele fria dessas víboras que vêm até teus pés
filha, chove sobre estas serpentes que te acompanham como acompanha o sal ao mar
filha, chove sobre nós
sobre nossos desejos
sobre nossas vontades
e como nossos ancestrais somos por esta chuva abençoados
o ar segue alimentando o fogo
e os ossos dos mortos ainda faíscam na memória desta imensidão que nos abriga
filha, o que está ocorrendo não é algo que vá passar
filha, o que está ocorrendo nos atravessa como um raio atravessa uma pedra
filha, o que está ocorrendo também tem sua beleza
também guarda seu ensinamento
também nos ajuda a seguir caminhando em direção ao nada
filha, não haverá mais outro dia como os que haviam antes
as palavras que tínhamos já não tem mais serventia
já não descrevem o que vivemos
                                 o que sentimos
                                 o que pensamos
o jaguar ainda vive – e só ele pode nos fazer sorrir neste silêncio
o jaguar ainda vive – e nele repousa nossa aurora
o jaguar tem hoje a cor de nossos ossos
o jaguar tem hoje a cor dos ossos de nossos mortos
não existe lugar para onde retornar
tudo está contaminado
e fomos nós que contaminamos tudo
mas ainda chove
e a chuva nos traz uma sensação imprevista de fúria e felicidade
a chuva nos traz a memória de homens que a varíola levou aos infernos
a chuva nos traz a memória devastadora da cólera
a chuva nos faz sorrir e desejar que nunca mais nada volte ao normal
a chuva, a neblina, o porvir
a pele do jaguar, as serpentes que te acompanham
e essa doçura com que tu manipulas venenos
nossa impaciência e nossa maneira única de rolar no chão
de tocar a lama
de afastar as moscas que se recusaram a ir depois da semana santa
nossos cães, teu irmão morto e a memória de Janaína que já teria mais de vinte anos
tua gata, a neblina e a esperança que nada volte ao normal
enquanto chove vamos montando nosso lego
estudando os caminhos pelos quais passaremos com nosso carro-casa
desde esse aprazível precipício até a margem indizível onde sete anos atrás enterramos
teu umbigo, tua placenta e todas
as remotas certezas que trouxestes das vidas passadas,
chove sobre nossas fosforescentes carcaças,
chove...

nuno g.
Cachoeira, 27 de abril de 2020

sábado, 18 de abril de 2020

Nove marzo duemilaventi, de Mariangela Gualtieri

Questo ti voglio dire
ci dovevamo fermare.
Lo sapevamo. Lo sentivamo tutti
ch’era troppo furioso
il nostro fare. Stare dentro le cose.
Tutti fuori di noi.
Agitare ogni ora — farla fruttare.

Ci dovevamo fermare
e non ci riuscivamo.
Andava fatto insieme.
Rallentare la corsa.
Ma non ci riuscivamo.
Non c’era sforzo umano
che ci potesse bloccare.

E poiché questo
era desiderio tacito comune
come un inconscio volere —
forse la specie nostra ha ubbidito
slacciato le catene che tengono blindato
il nostro seme. Aperto
le fessure più segrete
e fatto entrare.
Forse per questo dopo c’è stato un salto
di specie — dal pipistrello a noi.
Qualcosa in noi ha voluto spalancare.
Forse, non so.

Adesso siamo a casa.

È portentoso quello che succede.
E c’è dell’oro, credo, in questo tempo strano.
Forse ci sono doni.
Pepite d’oro per noi. Se ci aiutiamo.
C’è un molto forte richiamo
della specie ora e come specie adesso
deve pensarsi ognuno. Un comune destino
ci tiene qui. Lo sapevamo. Ma non troppo bene.
O tutti quanti o nessuno.

È potente la terra. Viva per davvero.
Io la sento pensante d’un pensiero
che noi non conosciamo.
E quello che succede? Consideriamo
se non sia lei che muove.
Se la legge che tiene ben guidato
l’universo intero, se quanto accade mi chiedo
non sia piena espressione di quella legge
che governa anche noi — proprio come
ogni stella — ogni particella di cosmo.

Se la materia oscura fosse questo
tenersi insieme di tutto in un ardore
di vita, con la spazzina morte che viene
a equilibrare ogni specie.
Tenerla dentro la misura sua, al posto suo,
guidata. Non siamo noi
che abbiamo fatto il cielo.

Una voce imponente, senza parola
ci dice ora di stare a casa, come bambini
che l’hanno fatta grossa, senza sapere cosa,
e non avranno baci, non saranno abbracciati.
Ognuno dentro una frenata
che ci riporta indietro, forse nelle lentezze
delle antiche antenate, delle madri.

Guardare di più il cielo,
tingere d’ocra un morto. Fare per la prima volta
il pane. Guardare bene una faccia. Cantare
piano piano perché un bambino dorma. Per la prima volta
stringere con la mano un’altra mano
sentire forte l’intesa. Che siamo insieme.
Un organismo solo. Tutta la specie
la portiamo in noi. Dentro noi la salviamo.

A quella stretta
di un palmo col palmo di qualcuno
a quel semplice atto che ci è interdetto ora —
noi torneremo con una comprensione dilatata.
Saremo qui, più attenti credo. Più delicata
la nostra mano starà dentro il fare della vita.
Adesso lo sappiamo quanto è triste
stare lontani un metro.

Mariangela Gualtieri

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Voltas-de-rua

Se for para lanchar lá, na estrela; se for pra levar à casa, na São Francisco. Vivian deu de observar as flores e me acordou assim: essas florzinhas brancas murcham no fim do dia e se abrem pela manhã! Cheiro de cuscuz e incenso, água com desinfetante e roupas pelo chão. Coelho, chocolate e um poema de uma páscoa que vai longe. Se for para lanchar lá, na estrela: domingo sem café demora mais a acender, domingo de chuva desconhece meio-dia. Esse ano a quaresma acaba, mas a quarentena segue: acordamos e o Asno-mor ainda estava lá. Ele e sua quadrilha. Ele e os valores que são o pão nosso e o fermento da estupidez que nos assola a cada dia. Ele e os seus traidores pelejando para provar a si mesmos que eles não são assim: são. Se for para levar à casa, na São Francisco: perto demais da divina comédia humana, longe do porto desabitado onde descansa meu coração selvagem. Cheiro de cuscuz e incenso, abril despedaçado pelos quatro cantos da casa. Água com desinfetante, cigarros e ausência de café. Memória de um poema antigo da páscoa de dois mil e dezesseis – passageira e acinzentada. O medo dos medos imaginários desabrochando em meio ao meu medo do teu medo de Górki. Envelhecendo sob o fascismo, envelhecendo, envelhecendo – com proeza e fascínio, envelhecendo, simplesmente – em busca de um refúgio onde inexistam adjetivos. Cheiro de cuscuz, incenso e ovo de chocolate. Os índios da América Central sempre desconfiaram da ressurreição, esse ano a quaresma recebeu uma overdose de fermento. Sem pressa, caminho à mercearia em busca de um pouco de pó de café. Sem pressa, escrevo e fumo. Sem pressa, minha ironia sorri ao escutar eles dizendo que não eram o que são e que nunca serão o que são. Sem pressa, esfrego o rodo e lavo o chão da casa. Ouço Belchior: eu tenho medo e medo está por fora / o medo anda dentro do teu coração. Se for para lanchar lá, na estrela; se for para levar à casa, na São Francisco: faca de ponta e meu punhal que corta / e o fantasma escondido no porão. Sonhei com duas serpentes e uma inexplicável saraivada de fogos de artifício. Uma das serpentes era grande, a outra pequena. Tenho lido mais sobre política do que deveria – temo me contaminar. Era quatro da manhã e os cães já haviam estragado meu celular, os óculos de Vivian e a varinha mágica de Alice. Não resisti e me deparei com uma constatação terrível e óbvia – ainda mais terrível por óbvia: numerados de a à j os dez fatos incontestáveis do fascismo tupiniquim. A famiglia no poder, Lincoln Secco às quatro da manhã: feliz páscoa rebanho! Necessito urgentemente de café: longo, forte, amargo. Os antigos diziam que chegaria o tempo em que a roda grande giraria dentro da órbita da roda pequena: imagino que a serpente pequena devorou a serpente grande e que esse foi o fim do sonho. Tenho vinte e cinco anos de sonho e de sangue. O Asno-mor tem razão: ele representa e representa muito; o resto é farsa, miopia e desejos nossos confundidos com expectativas. Tem muito agrotóxico envenenando a terra, os rios tão abarrotados de química e ignorância. Tem muito antibiótico nas prateleiras da farmácia, nossos corpos tão abarrotados de veneno e solidão. Tem muito general no governo e muito capital querendo executar a necropolítica. Acendo outro cigarro, regresso à rede na varanda. As serpentes e os fogos de artifício, inexplicáveis. Na terra é pleno abril. Abro as janelas e deixo a chuva molhar o domingo. Banho menino-deus com o pouco de ayahuasca que me resta. E espero, sem pressa, a hora certa de ir à mercearia em busca de um pouco de pó de café. Antes uma guerra, seria melhor – comentou dona Antônia. Só os poetas e os seres que rastejam conseguem ver na neblina, me escreveu Gabriel. As flores brancas murcham ao entardecer e voltam a abrir quando amanhece! – observou Vivian. Tendo mandioca pra gente fazer farinha tá bom meu filho, falou a mulher do Moura enquanto fumava um cigarro de palha sentada nas madeiras do forno da casa de farinha. Fervo a água, o aroma de café incendeia o domingo: feliz páscoa, lembrarei deste dia quando a primeira peste passar. Todos lembraremos. Dos óculos, do celular e da varinha mágica que os cães destruíram. Todos lembraremos. Das dez razões, enumeradas por Lincoln Secco, pelas quais a segunda peste será mais duradoura e devastadora que essa primeira. Sim, Lincoln, um pouco de positivismo muita falta tem feito ao mundo – e agora, que aprendi isso da maneira mais árdua possível, posso celebrar, sem pavor nem pânico, o agônico prazer de zombar do espanto deles se negando a reconhecerem a própria imagem refletida no espelho d’água.

nuno g.
Cachoeira 12 de abril de 2020
.

sábado, 11 de abril de 2020

me(n)ta(l)fisicamente

viv(e)ian
em algum lugar – além deste canto de pássaros
viv(e)ian
em algum não-lugar – além desta ópera enfadonha de sapos
viv(e)ian
em algum rincão perdido do vale das maçãs
viv(e)ian
em algum lugar qualquer daquela floresta de abikus
viv(e)ian
em alguma das ilhas para onde voam as crianças d’água
viv(e)ian
em tua mãe, em tua irmã, em mim
viv(e)ian
nessa distância, nesse silêncio, nesse inchaço
viv(e)ian
no pão com manteiga, no arroz com feijão, na rosa dos ventos
viv(e)ian
nas andorinhas embaladas nos sinos dos presépios
nos mugidos das vacas assustadas pela chuva
nos meus cabelos assanhados
& na brasa acesa de meus cigarros
viv(e)ian
nas cartas não-correspondidas
na pintura de esperma & fezes que adorna o galho podre da árvore
no dente ausente na boca do girassol
na carne tatuada pelos ferozes extraterrestres
viv(e)ian
nos mísseis que os iranianos prometem atirar nas Colinas de Golã
nos arabescos de nossas mirações matinais
nas migrações dos elefantes ao cemitério onde nasceram
viv(e)ian
e me diz o que te soprou aquele vento
viv(e)ian
e me diz o que te ardeu aquele fogo
viv(e)ian
e segue
livre
à
sangria sem ave
sem aleluia
& sem disfarce
viv(e)ian
em mim, em tua irmã, em tua mãe
que em ti se fez lágrima & placenta desbotada
viv(e)ian
e nos abandona
ao vazio que ecoa e nos clama
viv(e)ian
por que nós sim não sabíamos voar
nem semear clorofila no quintal
viv(e)ian
neste terreno baldio que é o sagrado coração da terra
nas pérolas deste terço e na circunferência do sexo de tua mãe
no brilho do olhar de tua irmã
viv(e)ian
e não fale com as paredes do oásis
viv(e)ian
e ignore as fronteiras do deserto
viv(e)ian
e corre sem-pressa até os trilhos onde corre o trem do futuro
viv(e)ian
e se desfaz do peso desta matéria que te envolvia
viv(e)ian
e distribui flores entre os símios que escrevem poesia
dorme Ian,
dorme e descansa
deixei a rede armada na varanda
um chá pronto à margem da fogueira
e essas palavras de despedida lavradas em campos de centeio & ervas finas.

Toróró, 04 de janeiro de 2020.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

chelsea girl

Muitas flautas e do outro lado do rio, outro rio. Muitas flautas e do outro lado do fogo, outro fogo. Muitas flautas e do outro lado do silêncio, outro silêncio. Muitas flautas e um longo dia com um sol demorado. Muitas flautas e do outro lado da água, os mortos. Os mortos nadando e se refrescando e sorrindo e. Do outro lado da morte, outra morte – e depois dela, outra morte ainda e uma morte mais e outra morte numa série de encadeamento infinito. Muitas flautas e do outro lado do infinito, outro infinito. Muitas flautas. E além das flautas, o trem. O trem que segue seguindo às Minas Gerais todos os dias. O trem com seu maquinista hiper-simpático. O trem e a neblina que chegou antes. A neblina que não quis esse ano esperar os festejos de junho. A neblina e tudo o que lhe é próprio: a umidade e os seres que vivem na cor cinza. Na neblina, nossos medos imaginários se comportam como cães fiéis e famintos. Na neblina, o rio é mais serpente do que antes. Na neblina, tudo que reluz é promessa de firmamento, anunciação e café quente. Na neblina, o rio é tão serpente como nunca. Na neblina, nossos corpos se sentem frágeis, adoráveis e transparentes. As sombras angelicais e a crina do vento. Na neblina, nós e o nada ante o tempo dissolvido. De joelhos, sangrando de tanto chão. Locomovendo-se em direção à miséria que ainda não ousamos nomear. Cio de onça, a coleção de escaravelhos, chave de harmonia. Asas nos pés sonhando trens que vão às minas. Hora da água: roguemos ao silêncio como da primeira vez. Hora das frestas: roguemos ao infinito e à nova eternidade que nos paquera como paquerávamos nas matinês. Hora dos precipícios e das cousas mortas: assim. Muitas flautas e café. E, do outro lado, mais café e som de flautas. Passa o carro do ovo, passam pássaros, passa a nuvem e o trem. Tudo parece estar indo às minas. A luz requentada de uma lua de agosto cintila nos olhos de Judite. Hoje, nem pensar em voltas-de-rua. Hoje, sabemos algo mais sobre a eternidade e, por supuesto, somos menos.

08/09 de abril de 2020.
nuno g.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Ian


Papai, ele quis ir ficar com o vovô nuno!
Ele vai conhecer o vovô nuno antes de mim...

Maria Alice

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

terno da alvorada


Os anos em Cachoeira sempre terminam antes, ainda é novembro quando a cidade se fantasia e dança pelas ruas ao som da charanga se despedindo de tudo o que já é passado. A oração em frente à Minerva, o sino da capela, a saudação à Nossa Senhora do Rosário, o feijão na faceira, a subida da ladeira do Monte, a descida do Curiaxito, o arrastão da rua da feira, a visão do alto do Rosarinho, as águas do rio Pitanga e o despacho final na praça Dr. Milton assentam sob o solo desta cidade prateada os fundamentos do novo ano que se inicia. Assim tem sido desde ao menos cem anos – assim foi hoje. O sol é escaldante e a alegria redesenha as faces que amanhã tornarão a assumir suas feições cotidianas quando os mandús regressarem à terra dos mortos e as cabeçorras aos porões desses casarões em ruínas. Em Cachoeira os reis magos não se atrasam e entre os presentes que trazem se encontram as armas que necessitaremos amanhã. Entre o largo do Caquende e a imponência majestosa do convento do Carmo a Senhora de Vermelho vai rodando e distribuindo seus raios entre os fiéis, empoleirados nas escadarias e janelas muitos são os que olham o cortejo de Tempo. Aqui, em Cachoeira, a chegança dos reis magos coincide com o aniversário de Maria e quando isso ocorre sempre já nos encontramos um passo à frente na linha tênue que organiza o transcorrer dos dias. Na rua do Brega pisamos em mel e escutamos os ecos das conversações que vão passando à história e no jardim grande deixamos escapar nossas orações de agradecimento por termos sobrevivido até aqui. Ogum se delicia no bar América: os dias de trégua são a única primavera que conhecem os filhos do deus da guerra. As crianças correm, se pintam, chutam as latas de cervejas abandonadas no trajeto e assopram os cabelos desalinhados da deusa de seios enormes. Cachoeira – a maior das menores cidades do mundo – sofre de antecipação e enterra na véspera o ano que agoniza. A charanga embala os sonhos, as angústias, os desejos e as desilusões dos que a acompanham. A charanga marca o ritmo dos que dançam violentamente banhando com seu suor os paralelepípedos. As famílias se reúnem, os amigos se abraçam, os amantes se entreolham e o domingo goteja numa clepsidra de vidro. Em Cachoeira o ano sempre termina num domingo e a primeira segunda-feira que floresce é sempre um dia fora do tempo. Na terça, a charanga voltará às ruas para o terno da saudade – e se alguém tem ainda alguma lágrima para derramar poderá fazer nesse derradeiro instantâneo da festa. Depois tudo voltará a ser como antes. Quem brigou no embalo terá que esperar até novembro para revidar – e como sabem esperar os fiéis cachoeiranos. Os fogos são muitos e é o estampido deles que adormece a tarântula do paraguassú até que na terça-feira – no terno da saudade – a charanga venha tocar às margens do velho e silencioso rio lhe recordando que já é hora de começar a tecer todas as coisas que devem existir. É uma honra que se paga com uma caixa de cerveja a visita da charanga à casa de alguém – é uma dívida que se adquire a dádiva de vir de tão longe celebrar assim as passagens que tem que ser feitas. Assim foi hoje – assim será sempre. Os mais sensíveis podem ser irreversivelmente afetados pelo ritmo da charanga – até os mais insensíveis são afetados pelo despertar da tarântula. O comércio reabre. Os da universidade se afastam. O mercado ressuscita. O rio se cala. A ressaca da cidade, despida de suas fantasias prateadas, vai se esvaindo. As famílias regressam às suas intimidades e recatos. As crianças voltam às escolas. Os instrumentos da charanga descansam na Lira Siciliana e na Minerva. Deixamos de esperar pois já aprendemos que volverá. Quem vomitou fogo carregará olhos acesos por todo o ano. Quem viu as cinzas de que são feitas as carnes será noite por todo o ano. Quem derramou sangue nos paralelepípedos conhecerá a beleza das cicatrizes. Quem não suportou a inclemência do sol será engolido pelo demônio do esquecimento. Aqui, o ano acabou antes, como sempre. Ainda é novembro e já estamos em 2020. Um velho e bom amigo me escreve: o inferno não prospera onde há esperança – eu lhe respondo: a desgraça não vinga onde toca a charanga. A pulsação do que nos move para além dos precipícios que nos foram destinados é um prodígio. Que Nossa Senhora d’Ajuda conceda luz a quem é da luz e escuro a quem é do escuro & que a memória dos mandús conserve eternamente amolado o fio mineral de nossos corações. Amém.

nuno g.
Cachoeira, 17 de novembro de 2019.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Rito fúnebre



para claudio reis e seu menino, o lorde basquiat

Eram sete os cavalos e traziam sal nas crinas e memória de flores perfumadas. Eram sete e saltavam sobre a relva e corriam como o vento e partiam anunciando a chegança de barcos e mais barcos e mais barcos abarrotados de horizontes e mais horizontes e mais horizontes. Eram sete barcos e setecentos horizontes montados sobre sete cavalos que traziam sal nas crinas e memória de perfumadas flores. Eram sete cavalos com olhos de chuva e patas de areia. Eram sete cavalos que como o Atlântico suportavam o peso de setecentos barcos e sete mil horizontes. Eram sete cavalos com olhos de noite e neblina navegando no rio de nossos corações. Eram setecentos mil rios dentro de um só coração. Eram águas e águas e águas e memórias de flores perfumadas que embriagavam os sete cavalos e arrepiavam suas crinas embranquecidas de sal. Eram nove e meia da manhã quando ele partiu como um raio que quase não produziu trovão. Vi o céu relampejar de dentro do fosso escuro em que eu estava. Suei e suei e suei como a tampa de uma cuscuzeira cozinhando macaxeira num fogão à lenha. Vi seus olhos nos olhos dos sete cavalos. Vi sua tristeza nos sete horizontes esfumaçados. Vi sua coragem nos sete mil barcos singrando o oceano de meu coração. Eram nove e meia da manhã e ele já não estava mais entre nós. Eram nove e meia da manhã e seu espírito se despediu do seu corpo de quatro patas e pelugem alvinegra e partiu. Eram sete cavalos embriagados saltitando no pasto e escapando das víboras venenosas semeadas pelos homens barbudos que vieram nos barcos de além-mar. Era uma chuva que chegava sempre que brincávamos em volta do fogo. Era uma neblina tão intensa que nossos olhos se fizeram olhos de noite para sobreviver à errância. Era domingo e ele já não mais estava entre nós e eu vi teus olhos nos olhos dele que brilhavam nos olhos dos sete cavalos e eu senti o perfume dele no perfume que emanava dos sete cavalos e eu guardei a memória dele nos sais de cristais que esbranquiçavam as sete crinas. Eram sete montanhas, sete mares e uma moto. Uma medalha de São Bento exorcizava o medo. Uma medalha de São Bento exorcizava a culpa. Uma medalha de São Bento exorcizava a ausência. Eram sete estradas feitas especialmente para sete cavalos. Eram sete milhões de anos reduzidos a um feixe de sete milhões de raios de luz numa manhã de domingo. Tua dor me tocou a pele. Tua tristeza me tocou os ossos. Te entreguei de volta o chão que um dia me entregastes e deixei que nele permanecessem os sete cavalos e a memória de alfazema e sândalo. Meu chão é teu e esse domingo é nosso. Sem saber estivestes aqui buscando a água da leveza na fonte dos metais pesados. Sem saber viestes abandonar teus excessos nesta caverna onde tudo é excessivo. Meus cavalos são teus e teus olhos brilharam nos olhos deles quando ele partiu. Teu chão te devolvo: com afeto, estima e barcos acostumados aos mares revoltos por tempestades. Eram nove e meia da manhã quando agarrei a primeira víbora e com os dentes afiados arranquei fora sua cabeça. Eram nove e meia da manhã quando saciei minha sede com o sangue dessa víbora e com seu chocalho fiz um colar para o mais antigo dos sete cavalos. Banhei esse chocalho em alfazema e sândalo e fiz reluzir toda a memória nele contida. Era um cavalo dócil e com ares infantis que tempos atrás tu acoplara à tua moto para exorcizar tudo o que pudesse te fazer dano. Era um cavalo como um cavalo foi Basquiat na primeira infância perdida de Alice. Era um cavalo exorcista como a medalha de São Bento e sua inscrição em latim. Era domingo e estávamos juntos em algum lugar que não era aqui nem acolá, num lugar que era estrada atravessando nuvens e rios cardíacos em direção ao mar. No meu sonho tua tristeza foi recebida por sete cavalos que te pediram para deixar ele ir para outro lugar. Em meu destino tu foste um chão para minhas sementes de ar. Hoje tua tristeza é minha e esse domingo é nosso até que o atabaque receba o açoite último das mãos avassaladoras daquele que nunca se deixa revelar.

nuno g.
Cachoeira, 07 de julho de 2019.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

terça-feira, 30 de julho de 2019

A capoeira do Gomes ou regresso ao jardim dos homens comuns


Acenderam um primeiro fogo na capoeira atrás da serra. Nenhum deles sabia o nome exato daquela capoeira e a batizaram como sendo a capoeira do Gomes, era a marca do atum em lata que lhes serviu de primeira refeição naquela clareira onde fizeram aquele primeiro fogo e passaram aquela primeira noite sem nada que os separasse de um céu estrelado e infinito e misterioso e enigmático e cada um deles àquela noite pensou em tudo o que tinha vivido até então e em cada sentimento que lhes tocara sentir ao largo de suas vidas antes de finalmente chegarem àquela clareira e acenderem aquele primeiro fogo e passarem a noite em claro olhando aquele oceano de estrelas e todos ali sabiam que aquela não era uma simples noite qualquer como todas as outras e todos ali sentiam no mais íntimo de suas vísceras e entranhas e músculos e ossos e veias e dentro mesmo da gordura de seus tutanos e dentro de suas próprias medulas que nada mais seria como antes e todos olhavam em silêncio profundo e inesgotável aquelas chamas daquele primeiro fogo e todos pensavam com seus corações contritos e fervorosos que daqui a pouco o sol iria nascer e esse não seria um nascer do sol qualquer como todos os outros dias de sol que viveram em suas perambulações secretas pelos recônditos abismos e pelas crateras insondáveis pelas quais passaram nesses anos todos em que estiveram vagando por sobre essa terra e pensavam que nunca souberam nem chegariam a saber por quê raios de coisas vieram parar aqui neste planeta a carregarem consigo essa estranha veneração pelos abismos e pelo verde das folhas e pela alegria dos bichos e pelos sonhos e todos os mundos loucos que se abrem e se revelam nos sonhos incompreensíveis que todos nós carregamos conosco e as legiões de fantasmas que nos acompanham em longos cortejos que emergem dos tempos passados e dos tempos anteriores aos tempos passados e dos tempos anteriores a esses tempos anteriores trazendo consigo estandartes com símbolos tão antigos que nada na memória daqueles homens lhe permitia capturar o sentido que tiveram algum dia para os ancestrais de seus ancestrais que os gravaram em couro pelos campos abertos destes sertões e pelas várzeas que separam estes sertões do mar esverdeado e das dunas de areias brancas e das falésias avermelhadas e dos urubus bailarinos que se alimentam de peixes que a ressaca do mar vomita nas areias da praia. A noite foi fria e aquele primeiro fogo foi bem mais que providencial, ainda que todos eles estivessem absortos o suficiente em seus próprios transes e mergulhados com tal intensidade num ritual pessoal de rememoração que em nada lhes atingia o frio e o fogo lhes servia mais que qualquer outra coisa de guia e condutor na longa viagem pela teia de ciclos infindáveis de mortes e nascimentos e outras mortes e outros nascimentos e outras mortes e mistério e sofrimento e lama e por tudo o mais que parecia definitivamente perdido e oculto na passagem inexorável do tempo e agora sim eles entendiam que o tempo guardava sim suas dobras e nessas dobras repousavam muitas sementes de coisas que até aquele momento pareciam esquecidas em algum insólito rincão da vasta e efêmera eternidade em que suspenso, como uma jangada do litoral leste da província do Siará Grande, se encontrava o ponto minúsculo e insignificante do efêmero instante presente. Ventou muito enquanto aqueles homens atravessavam com braçadas fortes as camadas sedimentadas de areias de águas e de tempos: as grandes porções geográficas de dor, mistério, lama e sofrimento com suas aprazíveis ilhas de alegria, gozo e serenidade. Ventou muito, mas ninguém deu nenhuma importância a isso. Estavam todos em transe e quando o sol os arrancou com violência do transe em que estavam já não eram mais os mesmos. Tiveram que trabalhar duro. Levantar as choupanas, cobrir com palhas os abrigos clandestinos e varar as madrugadas recebendo as armas e os alimentos e as flores que lhes chegavam quando a escuridão se fazia absoluta e cobria tudo com os seus setecentos véus. Não se olhavam rosto-a-rosto, nunca. Não queriam saber nada uns dos outros, nada. Isso seria perigoso demais. Era a lei da guerra. Todos ali sabiam que na tortura toda carne se trai e não saber de nada era a única medida de segurança eficaz para evitar o infortúnio das traições. Esqueceram os próprios nomes e as datas dos próprios aniversários. Aprenderam a beber água diretamente do rio. Aprenderam a caçar, a pescar e a ler os sinais celestes. Foram descobrindo dentro de si mesmos uma nova humanidade e uma nova maneira de seguir caminhando sobre a terra e um novo jeito de sentir e de comer e de trepar e de executar cada gesto do corpo e de olhar e de assimilar cada cheiro novo e começaram a aprender a falar com as pedras e a escutar as pedras, a falar com o rio e a escutar o rio, a falar com a noite e a escutar a noite e começaram a entender que cada um deles era só uma ínfima parte de uma gigantesca teia de seres vivos interligados uns com os outros por uma enigmática e gigantesca teia de afetos e de energias e que tudo que acontecesse com cada um deles afetaria diretamente a todos eles e às pedras e ao rio e à noite e ainda assim sabiam que não deveriam olhar rosto-a-rosto nem saber o nome nem a data de nascimento nem qualquer outra coisa que seria caguetada sob a violência covarde dos instrumentos de tortura espalhados como armadilhas nas rotas incertas dos seus destinos. Comeram atum em lata e nomearam aquela capoeira com a alcunha de capoeira do Gomes. Acenderam um primeiro fogo e desceram em botes precários de madeira a cachoeira das eras e viram coisas de outros tempos e ouviram vozes de outras épocas e sentiram cheiros de mundos desconhecidos e devoraram alimentos que nunca haviam vistos e se deram conta que eram feitos de matérias e elementos que nem imaginavam serem passíveis de existência e caminharam em círculos em volta do segundo fogo e caminharam em círculos em volta do terceiro fogo e assim por diante até que perderam a conta e já todos os fogos eram um só fogo que ardia e queimava e transformava em pó tudo o que precisava ser reduzido à cinzas e eram muitas as coisas que clamavam por regressar ao seu estado originário, à sua condição de cinzas. Mas o fogo era também algo perigoso, sua fumaça poderia denunciar o acampamento, poderia trazer ao coração daquela irmandade os instrumentos metálicos de morte e de tortura, poderia trazer a ira e a impiedade e a cólera e o delírio dos obscuros. Os processos corriam seguindo ritos sumários, a cegueira e o rigor agiam de maneira implacável e as execuções se converteram em rotina e os deuses que cuidavam da justiça foram ofendidos, foram insultados, foram condenados ao exílio perpétuo e desde o exílio seguiram trabalhando e mantiveram vivas suas esperanças e redobraram suas forças e aprenderam coisas que não sabiam e se lembraram de outras que já haviam esquecido e viram vagalumes piscando e piscando e piscando e ouviram onças cantando e cantando e cantando e sentiram as gotas grossas da chuva molhando seus cabelos molhando suas pálpebras molhando as palhas de carnaúba com que cobriram o corpo e foram planejando centenas e centenas de pequenas e delicadas insurreições e foram acendendo milhares de centelhas de pensamentos de revolta e de angústia e zilhões e zilhões de faíscas de sonhos febris de amor e de serenidade enquanto as pedras deseducavam cada célula de seus corpos biológicos e cada sentimento de suas estruturas psíquicas e cada espécie do ecossistema próprio que servia de habitat às suas indevassáveis individualidades. Tudo isso se passou atrás daquela serra, dentro daquela neblina. O mês era o de agosto e chovia muito. A capoeira eu sei bem onde fica, mas não posso te levar lá. No meio dela, enterrado a sete palmos de fundura, tem uma lata enferrujada de atum. Isso é tudo o que me foi permitido te revelar hoje. Morte, mistério, dor, sofrimento, lama e o heroísmo e as pequenas glórias de homens comuns que decidiram abandonar tudo que já não fazia mais sentido e se reunirem em volta do fogo e escutarem as línguas da pedra e do fogo e que foram levados por essas línguas através de ruínas e de paisagens decrépitas e puderam assim sobreviver àqueles tempos de violência e de instrumentos metálicos de tortura e de traições gratuitas e de bizarras vulgaridades. Aqueles homens nunca mais seriam os mesmos. Eles estavam definitivamente alterados. Haviam sido arrancados de suas órbitas e agora dançavam com a grande serpente e agora sorriam como crianças e agora sabiam que não haveria mais volta e que o planeta seguia girando e que eles estavam soltos na via láctea e suas raízes e âncoras haviam sido decepadas para sempre pela guilhotina implacável do tempo. Isso é tudo o que me foi permitido te revelar hoje. Isso é tudo. Essa é a parte que me foi permitido te contar sobre o caminho de dor, sofrimento, lama e pequenas glórias e pérolas de serenidade que percorreram aqueles homens em sua longa jornada de regresso ao jardim dos homens comuns. Adiós.

nuno g.
Cachoeira, 30 de julho de 2019.

sábado, 13 de julho de 2019

Às divindades sequestradas


   Descumprimos as prescrições, esquecemos as oferendas, rompemos as interdições. O céu se fez vermelho de sangue e a água dos rios ferveu como nos primórdios da criação. Foi longo o caminho que levou os decaídos ao poder e durante este tempo nós estivemos festejando. Nos distraímos, deixamos de lado nossas abluções. Eles foram crescendo, ganhando espaço a pulso, infestando o labirinto de pulgas, piolhos e ratos. Quando acordamos já era tarde e não havia ar que não estivesse contaminado e então nos demos conta que nosso fogo estava apagado e enquanto dançávamos esquecemos de alimentá-lo. Dormimos em demasia, não acendemos as velas necessárias e deixamos o incenso mofar. Eles procriaram em tempo hábil, cumpriram todas as normas e os prazos, se apossaram do pouco que havíamos guardado e nos olharam com olhos de escárnio. Invocamos a chuva e a chuva não veio, desaprendemos a extrair o sal das pedras, dos vegetais e das águas do mar. Eles nos ofereceram risadas de escárnio. Foram apagando as luzes do labirinto até que tudo estivesse em completa escuridão. E nós, encurralados pela quantidade excepcional de feras baixamos as cabeças e fomos desfazendo nossos pactos antigos. Entregamos tudo. Nossas roupas, nossos alimentos, nossos utensílios de higiene e, por último, nossa preciosa dor. Eles queimaram nossas flores, escarraram em nosso jardim e pisotearam nossa horta. Eram muitos e traziam no semblante a memória da peste. Eles eram rudes e gravaram em nossa pele a memória da peste. Eles sabiam à morte e foram implacáveis com os nossos anos de descaso. Nossos membros estavam atrofiados e nada havia para colher nos campos que não havíamos semeados. A voracidade com que se apossaram de tudo não nos permitiu reação, estávamos atônitos e o único que nos restava era uma inútil catarse. Vimos os faróis de seus automóveis cruzando as avenidas. Vimos os faróis de seus automóveis se alastrando pelas ruas menores. E quando os mais violentos deles se espalharam como brasas pelos becos de nossas vilas e aldeias entendemos que já era demasiado tarde e não nos restava mais nada além das mãos com as quais escrevíamos palavras confusas e versos desconexos no ar gelado que escapava da boca deles e dominava a atmosfera. O preço da nossa distração estava sendo cobrado com mais juros e correção do que havíamos imaginado. A chuva não chegava. Nada crescia nos campos. A peste se propagava entristecendo todos nossos animais. Entregamos tudo enquanto dançávamos. Deixamos de orar e de vigiar quando orar e vigiar era o que mais necessitávamos. Nossas casas estavam tomadas pela umidade e pelo musgo e não mais nos servia de abrigo. Estávamos nus caminhando sobre a terra arrasada e o único que víamos era uma que outra catarse desnecessária. Eles exibiam nos cumes das montanhas suas novas habilidades. Eles executavam com perfeição seus malabarismos obedecendo à exatas equações matemáticas que desconhecíamos as fórmulas e as composições. Quando um de nós caía, exausto pela jornada, eles se limitavam a escarrar sobre o cadáver. Quando um de nós chorava, tomado pelo clamor ante a certeza do insuportável, eles se limitavam a escarrar sobre estas lágrimas. Fomos fúteis e o preço de nossa futilidade estava sendo cobrado. Eles vinham de longe e traziam a força que acumularam enquanto nós deixávamos escapar entre os dedos as sementes que nos foram ofertadas. Vimos as máquinas metálicas chegando e destroçando os gravetos de nossas barricadas. A nossa língua, reduzida à máxima vulgaridade, se revelava incapaz de comunicar o que sentíamos e o que pensávamos. O labirinto era deles e os minotauros dominavam toda a terra. Não havia onde se esconder, não havia onde se ocultar. Nossos pensamentos estavam congelados, nossos músculos estavam paralisados, nossos desejos estavam enfermos e nossos sonhos haviam se convertido irremediavelmente em pesadelos que não conseguíamos decifrar. Escrevíamos frases sem sentido no ar e essas frases se convertiam em nossos novos e imprevistos algozes. Escutávamos o ressoar dos chicotes que açoitavam a tristeza de nossos pequeninos animais domésticos abatidos sobre a terra arrasada. Eles imprimiram seus selos esotéricos por todas as partes. Eles ofereciam nosso sangue à sede das perversas entidades que lhe acompanhavam. E a sede era infinita assim como infinito era o séquito dos seres decaídos que lhe acompanhavam. Nossos dedos atrofiados queimavam antes de tocar o ar onde pretendiam escrever qualquer coisa que nos salvasse. Todos os roteiros haviam sido queimados. Todas as bússolas estavam desnorteadas. Eles davam o compasso. Eles imprimiam o ritmo. Eles zombavam de todo o tempo em que distraídos assistimos a dissolução dos reinos circulares. Buscávamos ervas para cozinhar um chá e não as encontrávamos. Buscávamos chão para enterrar os náufragos e chão não havia. Eles eram muitos e estavam por toda a terra. A nossa aflição era imensa e o sol não dava conta de evaporar o mar de lágrimas em que estávamos mergulhados. Nossas crianças nos olhavam com olhares de súplica e nenhuma reação nossa era capaz de aplacar desespero tanto. Tamanha era a ferida que não cicatrizava. Não havia remédio, não havia consolo, não havia estação onde repousar nossa tormenta. Eles estavam dentro de nós, circulavam por nossas veias e artérias e se apossavam de nossas múltiplas terminações nervosas. Eram falanges e falanges e falanges incontáveis. Traziam a memória sem-fim de nossos crimes de nossos pecados de nossas inércias. Conheciam nossos pontos fracos e atacavam sem trégua ou piedade. Cortaram nossos cabelos, deceparam nossas cabeças e ofereceram nosso sangue aos bastardos de todas as eras. O futuro era deles e isso nos ensinavam enfiando à estocadas espinhos afiados em nossos corações aquáticos. Desaprendemos a dançar. Desaprendemos a rezar. Desaprendemos a simplicidade de nossas primeiras brincadeiras. A peste se espalhava. Os piolhos nos devoravam. Nossa carne, inflamada por tudo que não havíamos feito a tempo, fedia como fedem os esgotos das grandes cidades. Eles sequestraram nossas divindades. Era a última parte do plano que com a frieza de um dramaturgo perverso e audaz executavam à luz do dia. Nada tinham a esconder. Nada temiam. O mundo era deles e só nos restava ajoelhar perante a obscuridade que os sustentava. Nossas mãos tremiam como varas verdes. Nosso umbral de areia movediça nos tragava sem que pudéssemos sequer assimilar as desrazões e as suspeitas que nos conduziram até agora. Os incensos não ardiam. As velas não queimavam. As canoas não se sustentavam sobre as lâminas de água. O veneno não aderia às flechas. Nossos animais não mais brincavam em nossos jardins. Eles haviam sequestrado nossos deuses e agora era tarde. Eles haviam sequestrado nossos deuses e o aqui se convertera num campo próspero e fértil à proliferação de toda a miséria. A tristeza corroía nossas almas e a cegueira em que nossa distração nos mergulhara se desfazia junto às ilusões que nos permitiram seguir vivos. A embriaguez passara rápido demais e a realidade se apresentava com uma crueza inédita e uma crueldade despovoada de qualquer máscara ou disfarce e isso nos parecia insuportável. O labirinto era deles e apagado foram todos os fios que poderiam nos conduzir para além do vale de medo, culpa e lágrimas em que estávamos mergulhados. O que estava acontecendo não podia ser real, mas sabíamos que se tratava da única realidade possível. Nossa angústia os alimentava. Nossa paralisia os enchia de gozo e prazer. Todas as possibilidades estavam reduzidas a nada. Todas as esferas imaginárias que abasteceram nossas necessidades energéticas se desfizeram no ar ao simples contato com o bafo deles. A descrença povoou nossos reinos circulares e toda nossa fé se revelou ser um amontoado de quimeras tolas e fantasias inúteis. Eles sorriam. Eles cuspiam. Eles esbravejavam. Tudo era escárnio. Tudo apodrecia. Tudo se dissolvia. Tudo nos aniquilava. Já havíamos passado por tudo aquilo, mas havíamos nos esquecido. Não era a primeira vez que eles venciam a batalha. Não era a primeira vez que nos despojavam de tudo o que nós éramos. Não era a primeira vez que nos víamos reduzidos a nada. Mas havíamos nos esquecido de tudo isso. Havíamos esquecido da façanha do Alecrim. Havíamos esquecido da chuva de asteroides. Havíamos esquecido das memoráveis batalhas. Estávamos em transe e eles estavam dentro de nossos corpos. Estávamos em transe e eles estavam dentro de nossos sonhos mais íntimos. Estávamos em transe e as trombetas deles não nos permitiam escutar nenhuma canção de ninar. As ondas do mar de fogo chegavam aos nossos pés como outrora chegava a alegria de nossos doces animais domésticos. A ira deles era maior que nossa esperança. As feras estavam soltas e o campo tornara-se um lugar terrivelmente perigoso. As borboletas sucumbiam à bestialidade dos indevassáveis. O silêncio de nossas divindades nos evaporava e cada segundo se estendia ao infinito e prolongava o terror que nos açoitava. Nossas armas não funcionavam. Nossas preces voltavam ao lugar de origem como bumerangues enfeitiçados. Nossos cotovelos estavam mergulhados em lagos de ácidos e os mais perversos e insensatos demônios circulavam sem resistências ou obstáculos pelas ruínas do que outrora foi nossa floresta sagrada e nossos templos adoráveis. Implorávamos por chuva e a chuva não chegava. Implorávamos por um lugar de descanso e lugares de descanso não se apresentavam. Desejávamos um instante de trégua, mas instantes de trégua no horizonte não surgiam. Éramos cada vez mais menos e estávamos acossados. Nossos pés estropiados pelos paralelepípedos não encontravam forças para seguir. Não havia para onde ir. Não havia onde se esconder. Nossa jornada chegara ao fim. Eles venceram. Eles dominaram o labirinto. Eles nos impuseram suas sentenças e as executaram com a frieza de um dramaturgo amaldiçoado e ressentido. Nossos caminhos estavam fechados e nossas oferendas não eram recebidas pelo senhor de todas as encruzilhadas. Nossas mãos tremiam. Nossa carne queimava em brasas. Nossos sonhos estavam convertidos em pesadelos indecifráveis. Nossas crianças nos olhavam com aflição e nós não encontrávamos reação que as apaziguasse. Nossos animais estavam enfermos e morriam sem que encontrássemos maneira de confortá-los. Tudo nos recordava que era tarde demais e que todo nosso otimismo se perdera irremediavelmente no coração das trevas. Tudo nos recordava que era tarde demais e que nossa terra prometida se perdera na fugacidade do vento. Tudo nos recordava que só nos restava o vale de lágrimas das antigas profecias. Tudo nos recordava a supremacia deles. Tudo nos recordava a nova hegemonia. Tudo nos recordava o tempo que desperdiçamos celebrando o que ainda não possuíamos. Tudo nos açoitava e a aflição de nossas crianças multiplicava a nossa dor. O selo deles estava impresso em cada sinal da peste que se abatia sobre nossos animais. A nossa horta estava morta. O nosso campo se transformara num piscar de olhos numa terra árida e a sequidão dela se entranhava em cada célula dos novos corpos que habitávamos agora. Fazia frio e não encontrávamos agasalhos. Tínhamos fome e não encontrávamos alimentos. Queríamos orar e vigiar, mas nos foram roubadas as palavras e os gestos. Nossa jornada chegara ao fim e sequer podíamos recordar dos apocalipses anteriores pelos quais havíamos passado. Tudo estava reduzido à cinzas. A nossa dor era imensa, a nossa devoção não encontrava alvo. Como um bumerangue o nosso descaso e as nossas pretensões retornavam ao vazio onde floresceram. Eles sequestraram o que éramos. Roubaram de nós o que fomos. Apossaram-se de nossos corpos e alteraram irremediavelmente nossa capacidade de sentir. Eles se fizeram a matéria com a qual poderíamos moldar o que viríamos a ser. Eles se tornaram o que somos. Nossa distração os fez crescer. Nosso esquecimento os alimentou. As brasas do ódio que trouxeram consumiram nossa imaginação. Eles eram muitos e se reproduziam como vermes sob a lama. Nossa impotência se fez maior que a nossa capacidade de veneração. E as doenças se alastraram por nossas vilas e aldeias sem que sequer chegássemos a compreender as desrazões do que ocorria. Era tarde demais. Queríamos morrer e a morte não chegava. Queríamos desistir e os nossos corpos já não obedeciam. Queríamos descer uma terceira vez aos infernos e as portas dos infernos não se abriam. Nossos desejos estavam distantes demais da realidade e eles haviam se convertido em realidade numa velocidade rápida demais. Andamos distraídos por muito tempo e isso era imperdoável. Eles eram implacáveis e aprendemos isso da pior maneira possível. Eles eram senhores das nossas náuseas moribundas e nossas náuseas eram tudo o que nos restava. Nossos corações sangravam e não havia remédio que estancasse a sangria desatada. A noite seria longa e tenebrosa, só a inércia movia nossos passos pelos caminhos de trevas que adentrávamos. Não havia estrelas no céu. Não havia ciclos lunares a nos orientar. Não havia astros se movendo na abóbada celeste. Nossas velas não acendiam. Nossos incensos não perfumavam. Nossa distração e nosso esquecimento não eram perdoados. O vale de lágrimas se expandia sobre a terra prometida como um buraco negro se expande num universo recém-parido por uma divindade sequestrada. Nossos membros não obedeciam a nossos comandos. Nossos sentimentos não correspondiam às nossas necessidades. Nosso espírito não habitava nosso corpo e nossas mentes se dispersavam como uma boiada que atravessa uma terrível tempestade. As feridas não cicatrizavam. Não tínhamos ervas para cozinhar os chás. O nosso medo alimentava a voracidade dos que nos consumiam. Estávamos enferrujando e nossos ouvidos não suportavam os ruídos que produziam o movimento de nossos corpos oxidados. Era tarde demais. Eles beberam nosso sangue. Eles comeram nossa carne. Eles torturaram o nosso sol até a morte. Eles nos deixaram vivos apenas pelo sádico prazer de assistir a nossa procissão se arrastar eternamente nessa árida terra que nos ofertaram. Fomos nos transformando em escamas de um lagarto sem órgãos. Fomos nos transformando numa serpente inútil que vaga sem direção buscando as asas que lhe foram decepadas. Fomos transformados em esqueletos descarnados que com suas pupilas dilatadas vociferam às margens de ilhas brutalmente dissecadas. E como desejando com incalculável avidez romper de maneira total e irreversível qualquer elo entre nós e nossas expectativas chegaram os cavaleiros leprosos das galáxias ocidentais e montaram seus acampamentos e ceifaram os vestígios da última e mais primitiva de todas as constelações que por séculos e séculos houvera sido nosso acalanto, nossa promessa, nossa aprazível morada.

nuno g.
Cachoeira, 13 de julho de 2019.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Visão agônica de um cavalo branco relinchando na neblina ou os cem mil degraus da escada espiralada no interior da roda de samsara


para os que chegam quando cessam as tempestades

  Assentei um santo neste chão de barro quando tinha onze anos. Assentei um santo neste chão de barro quando tinha onze anos e fiz dele o fundamento do destino todo. Assentei um santo neste chão de barro, enterrei seu corpo e com a fúria de meu joelho esquerdo soquei esse mesmo chão de barro. Soquei este chão de barro até que em pedra se fizesse o barro deste chão onde assentei um santo quando tinha ainda onze anos. E quando em pedra se converteu esta parcela de chão de barro nela esfreguei esse meu joelho esquerdo que de tanto atritar nesse chão de macio barro transfigurado em áspero mineral jorrou sangue como em Caldas do Jorro jorra termal água. E esse sangue que jorrou de meu joelho esquerdo irrigou cada veio do áspero mineral que outrora fora macio barro. E de cada veio desse chão de pedra que um dia fora chão de barro floresceu uma flor negra que por intuição e ignorância batizei de tulipa de mil fogos. E em cada uma dessas flores negras que por intuição e ignorância batizei de tulipa de mil fogos surgiram mil pétalas que na forma na textura e na viscosidade se assemelhavam a mil línguas de algum animal selvagem. Reparei que meus pelos se arrepiavam à simples proximidade dessas pétalas que pareciam línguas que cresceram em flores negras que batizei de tulipas e que nasceram da pedra em que se converteu o barro com que enterrei o corpo do meu santo e todos os seus íntimos pertences. Acendi uma vela, acendi um incenso, rezei em língua que desconheço a gramática, a sintaxe, a fonética e a origem. Os hieróglifos que gravei nesta pedra com o sangue que jorrou de meu joelho esquerdo eram a transcrição de um canto muito arcaico e severo. Os hieróglifos que gravei nesta pedra áspera com o sangue que jorrou de meu esquerdo joelho em chamas eram a transcrição musical do uivo de três indecifráveis onças selvagens pertencentes a distintas raças e habitats. Uma era parda, outra era russa e a terceira pintada. Cada uma delas trazia gravada em cada pata uma digital inusitada. A primeira trazia como selo uma espécie de cruz duas vezes cortada e que na raiz trazia um círculo que não se fechava. A segunda trazia uma chave enfeitiçada que cambiava de cor a cada mirada e que parecia feita de movediça areia de tal maneira que sua embocadura se movia como águas de maré. A terceira trazia uma pirâmide que de tão branca meus olhos identificaram rapidamente como sendo feita de sal. Com essas patas imprimiram essas onças selvagens todos os arabescos que envolvem os hieróglifos que inconscientemente eu gravara naquela pedra em que se convertera o barro da parcela de chão onde assentei meu santo e todos seus pertences íntimos forjando assim o fundamento e o labirinto daquele que viria ser meu inescapável destino. Acendi nessa pedra uma vela e sua chama era azul. Acendi nesta pedra uma vela e de sua chama azul escapavam faíscas azuis. Acendi nesta pedra uma vela e na lâmina das faíscas azuis que escapavam de sua chama também azul vi refletidos os olhos da primeira onça, a parda. Seus olhos eram da cor das esmeraldas verdes que os navios negreiros contrabandeavam da África e desembarcavam nos portos destas colônias onde seguimos assentando santos e convertendo em ásperas pedras macios chãos de barro. Acendi uma segunda vela e vi os olhos da segunda onça e estes eram brancos como são brancas as hóstias imaculadas depois de pelas mãos do vento consagradas. Acendi uma terceira e derradeira vela que possuía uma cera que ao invés de parafina era constituída por átomos e moléculas oriundas de distintos objetos astronômicos amalgamados por uma seiva escura de forte odor e sabor forte que em muito me lembrava a resina de uma planta amazônica que um pajé de beiços esticados me ensinara num sonho que tive em algum momento de minha primeira infância. Assentei um santo neste ponto exato, suspenso no meio do nada e equidistante de toda e qualquer estrela de nossa humilde galáxia. Assentei um santo neste sertão e como não tinha lágrimas o reguei com sangue, com esperma e com a primeira saliva do amanhecer. O sangue se fez flor, do esperma nasceram as três onças e a saliva cristalizou como cristaliza o mel das jandaíras em sua mais primitiva florada. Desses cristais me alimentei por anos alternando épocas de voracidade e parcimônia. Desses cristais retirei as substâncias que me compõem e que formataram este corpo tal como se apresenta hoje. Nunca utilizei outra ferramenta para colher esses cristais que não as próprias mãos e, por escassez permanente de água, nessas mãos sempre havia algo de poeira algo de suor algo da indevassável e inquebrantável veneração pelo santo assentado neste chão de barro. Esqueci de tudo, menos disso. Me afastei de todos, menos deste santuário de barro em pedra transubstanciado. Minha fé, meu coração e todos os palimpsestos que produzi foram sendo ali depositados. Minha fé, meu coração e esses palimpsestos todos foram se sedimentando de acordo com seus pesos suas texturas e a substância de suas cores e vontades originando esse santuário. Mil foram os degraus que eu percorri no interior deste labirinto. Mil foram os náufragos que eu vi serem engolidos pela ausência de águas. Mil foram as serpentes que encontrei decepadas nas margens dos degraus dessa escada espiralada. Mil foram os dias que se passaram desde que assentei aquele santo neste chão de barro. Mil foram os anos que se passaram enquanto eu intencionalmente arranhava meu joelho esquerdo nesta pedra áspera. Mil foram as lágrimas que não chorei. Mil foram as ausências que se transfiguraram em mil fantasmas e cada um deles era portador de mil presságios. Nunca cortei os cabelos, nunca fiz a barba. Tive mil corpos, habitei mil moradas. Sangrei como goza um vulcão quando em erupção sente esvaziar-se do insuportável calor do magma em estado líquido. Sangrei como um bode sacrificado na sombra de uma oiticica em homenagem ao nascimento de uma criança. Sangrei como sangra um cometa ou um asteroide que desgarrado de sua órbita se decompõe ao se aproximar da atmosfera de algum planeta. Sangrei como uma fada de pulsos abertos quando a borboleta das terras geladas do norte lhe rói a pele, os cílios e os ossos. Sangrei como sangram as onças selvagens quando sonham com seus ancestrais que viveram o tempo da chegança dos conquistadores com suas carabinas, suas cegueiras e o relinchar ensurdecedor de seus cavalos. Sangrei e suei, suei e sangrei. E o meu corpo se fez pífano. E o meu joelho se fez abismo: buraco negro, ferida aberta e permanente cavilação. E o meu corpo se fez mangue e de mangue foi se transformando em semi-árido e logo regressou a ser sertão. E o meu corpo seguiu pulsando em absoluta arritmia e foi se desfazendo de suas folhas de suas cascas e de todas as cicatrizes por ele espalhadas. O meu corpo se tornou abruptamente florescente e começou a irradiar ondas de mil cores. O meu corpo se fez chão de barro se fez chão de pedra se fez onça parda se fez onça russa se fez onça pintada. O meu corpo se fez corpo do santo por minhas mãos assentado. O meu corpo se fez canto se fez olho e se fez cera de espécie rara. O meu corpo se fez assentamento, destino e fundamento de uma tragédia silenciada. Enfim, o meu corpo se fez nada e desprovido de corpo pude regressar ao leito pedregoso do rio seco que foi minha primeira morada. Desprovido de corpo pude regressar até onde, apesar de nunca ter saído, nunca havia estado. Desprovido de corpo pude outra vez abraçar as pessoas por quem nutria algum afeto. Desprovido de corpo pude brincar de ser vegetal e sonhar os sonhos selvagens que só os vegetais podem sonhar com plenitude. Desprovido das ausências sedimentadas de meu santuário fui separando os grãos de poeira e as gotas de suor em minhas mãos acumuladas. Minha mãe, meu pai e o gavião foram os primeiros órgãos que voltaram a ganhar forma. E eram formas de unhas de algum predador já extinto. Eram unhas negras, roxas e afiadas como nenhuma outra lâmina neste mundo tenha sido vista. Eram unhas que feriam fundo a carne e sentiam imenso prazer em atravessar as camadas de pele, músculo e gordura das presas que caçavam. Rompiam veias, nervos e artérias com a mesma facilidade com que uma faca quente atravessa um tacho de manteiga. Foi destas unhas que voltei a nascer. Elas foram o embrião deste novo corpo que agora se apresenta. Minha mãe, meu pai e o gavião. Os três dispostos numa encruzilhada numa tal forma que denunciava todo o carinho investido na preparação daquela oferenda. O segundo a nascer foram os joelhos e depois os cotovelos e depois os pulsos e todas as dobradiças do novo corpo. Depois o sangue depois o sêmen depois o suor e depois todos os líquidos. Quando enfim senti que tinha novamente língua lambi minha nova pele e senti o seu sabor. Quando enfim senti que possuía dentes outra vez mordi e mastiguei meus próprios músculos a fim de reconhecer seu sabor. Quando senti uma vez mais narinas no meio da imensidão da cara ainda sem rugas cravos ou espinhas aspirei todo o oxigênio do universo e gozei com a ardência deste oxigênio ocupando os vácuos de minhas entranhas. As montanhas eram enormes, o mar era imenso e o meu novo corpo era pequeno como o corpo de uma formiga. As montanhas eram enormes, o mar era imenso e o meu corpo era escuro como o não-lugar onde enterrei o corpo de meu santo e seus pertences íntimos. Tudo estava fora do lugar e só sobrevivera meu destino e meu fundamento. As flores negras e o canto das onças. As montanhas e o mar. O sangue e o suor. A matilha de espíritos decaídos em sua jornada solitária pela terra do invisível. Os fragmentos de astros desfeitos na implosão que se seguiu à sua entrada na órbita de nosso miserável planeta. E aquelas unhas fantasmagóricas parindo meus novos corpos que se alinhavam em fila indiana como se fossem membros de alguma corte marcial de zumbis produzidos pela magia do vodu. Minha testa se inclinou até a pedra e suavemente se deixou arranhar por sua aridez. E durante mil anos minha testa sangrou ao atrito com a pedra que um dia foi barro, onde um dia assentei meu santo. Até que a pedra tocou meu crâneo e descobriu que este era feito de matéria mais dura que ela. E como se fosse uma broca de diamante meu crâneo foi comendo a pedra e esta foi esfacelando em grãos de areia que em seguida se transformavam em macio barro. E quando nada mais restava que não fosse barro acendi uma vela e um incenso. Vi onças, flores negras e úmidos cristais. Comi os cristais com as mãos como um dia havia comido o feijão de Ogum. E enquanto comia os cristais sentia minha pele se arrepiar como se arrepiara cada vez que eu me aproximara das flores negras que batizei de tulipas. Ouvi as onças cantarem e vi os invasores chegarem com suas carabinas e sua sede inextinguível. O cavalo branco ainda relinchava na neblina e meus pés haviam percorrido os cem mil degraus da escada espiralada no interior de samsara. Estendi a mão e levei meu último corpo até o chão de barro onde quando tinha onze anos assentei um santo. Ele disse adeus, uma lágrima escorreu pela minha face e sem dizer palavra nenhuma me recolhi ao silêncio fulgurante de um sol completamente desconhecido suspenso num mar de éter, desprovido de fundamento, de destino e de qualquer promessa ou raiz que lhe conferisse lógica, sentido ou razão.

nuno g.
Cachoeira, 01 de julho de 2019.

terça-feira, 28 de maio de 2019

sem título


por amor
obrigaram-me a ajoelhar
e escancararam-me o corpo
fazendo de mim
parte da coletiva oferenda
eternamente
estuprada
por este
falso branco


Francisco Welligton Barbosa Jr