quarta-feira, 30 de junho de 2021

quando os teus olhos O reconheceram

outra vez em fuga o cavalo:

em busca de seu dono e sob o batismo de teus olhos

outra vez sua crina banhada em mel:

em busca de seu destino de metal e mais-metal

como se a cada passo no pasto

abrisse nuvens e túneis

que O tornavam mais reconhecível aos olhos que selaram seu nome.


nuno g.

terça-feira, 29 de junho de 2021

T r a n s o m á t i c a, por Margarida Vale de Gato


De que carne cá dentro vem

aquilo que em mim tenta e pode

escrever o que estou lendo

de outrem?

           Não propriamente posse —

antes uma disposição

que internamente se impõe:

o corpo inteiramente votado

ao trânsito dum longo transe.


Não sei de que mais me envolva

tantas horas – nem dos distúrbios

do amor e respetivo sexo.


Cúpida presa mira longe texto.


Correntes desenrolam-me outra

coisa que não seca, conquanto

subam e desçam, carrossel

esconso, áspero silvado

ora escarpa, ora dossel

fluvial, Ó quanta líbido

discípulos da vertigem (à

falta de mais certeiro nome —

sanguíneo pneuma?) pode

trasladar a carne o canhão

para a fome espiritual?


Margarida Vale de Gato 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

sedimentação / destilação / fermentação (procedimentos poéticos)

o que você chama de paz eu chamo terror / e sim, há sangue correndo entre essas águas do Jaguaribe / a minha insônia traz nome, não O revelo / meu fastio, minha insolência, meu despertencimento / só O que não se reconhece ao espelho interessa / essa fábrica de narcisos engrossando fileiras de algoritmos desenfreados / tenho a madrugada, a neblina e o meu coração cheio de covas abertas e gotas de / o gato mia / o gato foge / o gato se encurrala em seu próprio labirinto como um fauno / como um asno / como um avestruz de penas ruivas / as fezes sobre os sonhos e os dias de adoração ao Senhor / quaresma / quaresma / quaresma / e a nova penitência / como num filme antigo / preto-e-branco / como o manto sagrado do Ceará / o que você chama terror eu chamo paz / e sim, tarda em arder a sarça / a minha revelação traz nome: insônia / tenho a madrugada / a neblina / e esse leve rumor de asas que não me deixa esquecer que atrás da imagem refletida na água evapora tudo o que é sagrado.


nuno g.

domingo, 6 de junho de 2021

Sobre o Cisne de Stéphane Mallarmé, por Eduardo Guimaraens

Um Sonho existe em nós como um cisne num lago

de água profunda e clara e em cujo fundo existe

outro cisne alvo e triste, e ainda mais alvo e triste

que a sua forma real de um tom dolente e vago.


Nada: e os gestos que tem, de carícia e de afago,

lembram da imagem tênue, onde a tristeza insiste

por ser mais alva, a graça inversa em que consiste

a dolente mudez de um espelho pressago.


Um cisne existe em nós como um sonho de calma,

plácido, um cisne branco e triste, longo e lasso

e puro, sobre a face oculta de nossa alma.


E a sua imagem lembra a imagem de um destino

de pureza e de amor que segue, passo a passo,

este sonho imortal como um cisne divino!


Eduardo Guimaraens

terça-feira, 18 de maio de 2021

Jaculatória II

Rogo, rezo, imploro.

Aos anjos

Pelo sinal do caminho de regresso

ao corpo em que nasci.


nuno g.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

O Povo como Templo, por Guenádi Aigui

e as almas que nem velas se acendem uma a outra



Guenádi Aigui

Aldeia de Romáchkovo

6 de janeiro de 2002, véspera de Natal

(trad. jerusa pires ferreira)

terça-feira, 20 de abril de 2021

Amém Senhor, por Rony Bonn

Bebemos uma água suja

Que eles dizem

Que está limpa

Comemos uma ração podre

Que eles dizem

Que é comida

Vivemos sob uma luz turva

Que eles dizem

Que está vívida

Eles dizem muitas coisas

E a tudo damos graças

Mais tudo que temos

São essas coisas baratas

Maconha, cigarro e cachaça!


Rony Bonn.

sábado, 17 de abril de 2021

A cegonha, por Annibal Teophilo

 Em solitária, plácida cegonha,

Imersa num cismar ignoto e vago,

Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,

Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?


Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha

Talvez, que o conde de um palácio mago,

Loura fada perversa, em tredo afago,

Mudou nessa pernalta erma e tristonha.


Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso

Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada

Qual morosa, tenaz, paciente lesma,


Ao vê-la assim mirar-se na água, penso

Ver a Dúvida Humana debruçada

Sobre a angústia infinita de si mesma.


Annibal Teophilo

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Itamaraju – poema da estrada

Quinze horas cruzando Minas Gerais.

As flores, as máscaras e os dois arco-íris na fronteira.

Quinze horas abandonando flechas no acostamento.

Quinze horas cruzando um Sonho absurdo e gigantesco.

Quinze horas nas veredas da mata de Tempo.

Quinze horas de guerra e oração dentro.

Itamaraju foi crescendo – o que era um quintal se fez um céu.

E nossos corpos deitaram-se um sobre o outro.

Meus passos de vespa zumbindo no mercado.

Comprando frutas, comprando própolis, comprando cigarros.

Meus passos de mosca santificando a semana de um só dia.

Mastigando bolinhos caipiras na porta da barraca e lembrando.

De uma noite no vale dos buritis – penas brancas & cobras corais.

O rapé. O pajé. A poeta. O irmão.

Itamaraju – palavra que desconheço o significado.

Pedra, como tudo que é pele à minha pele.

Quinze horas de lírios à sombra da segunda sombra da oiticica.

Jaguaribe; minha fome, minha sede, minha monástica aparição

às horas de rumores & neblinas

Itamaraju. Jurema.

(os raios que habitam teus lábios – e o meu perdão saltitando como uma rã entre vossas mãos)

Caminhões & faróis altos.

Faróis altos.

Bananas, uma bolinha de plástico de máquina à moedas.

Quinze horas e nenhum cansaço.

A força límpida e cristalina da estrada.

Recolhimento pandêmico e notícias da terra.

Itamaraju – o oposto perfeito de esquecimento.

Pedra que guarda o que recebe.

Lugar onde se assenta.

ita /mar / azul

uma fotografia mais para o álbum.

 

nuno g.

Toróró, 14 de abril de 2021

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Primeiro Verbete Involucionário em Agônica Pandemia, por Felipe Franklin Neto

V@cyna.

Do pandêmico brutal; mortal; bestial; racista; classista; infectocêntrico; viral; Do Vate é destro; vade; desgoverno; genocídio necropolítico; sultanato miliciano; carbonato de mentiras insalubres; bioindústria farmacêutica; crime organizado; a mercantilização e a financeirização da; de olho numa; pesquisa na outra; imunização; a mitologia do gado e o coeficiente do rebanho; a imunidade de; do; como; percentualismo; momento em que nenhuma conta fecha quando é o seu na reta; universalização; democratização; popularização; saberes populares e ancestrais; " Vacinar ou não vacinar?" eis a falsa, inoculada e inócua questão; indigestão pública; o que pode o corpo; pergunta; retórica; geopolítica; briga; disputa; concorrência; amizade; intriga; mesquinharia; pangeia; Pachamama; virolândia; momento logístico e histórico da história logística e operacional do ato de; vacinar; ato de se libertar de uma pandemia deixando o braço ser picado pelo sentimento de esperança; agulha; centelha; certeza; científica; sensível; senil vais com as outras; outros; alfabeto sumério de gêneros; que vida é essa que te jaz; faz; delirar; impele; lockdown; fakedown; mortandade festiva; aglomerações; índices; picos; curvas; mentalidades; ilusórias; sacudidas; nero; necro; política; fazer festas em momento de; espanto; interrogação; exclamação; afirmação; inquietação; sonegação; do provérbio sistêmico e único de saúde: "É melhor prevenir do que intubar! " exclamou a enfermeira aos parentes enfermos; comércio e contrabando de oxigênio; falta de estrutura e organização municipal e estadual por conta da indigestão federal; forças desalmadas; despreparadas; Patetazuello; sem zelo; ria; rua; ruajoelhe-se seu cabra; safado; China; Cuba; solidariedade; EUA; a que te tens de regresso; avanço; corporações; mineração de dados em picos pandêmicos; as Gates do Bill; Trumpicídios; Bin Baden; What Laden; lados; assimetrias; defeitos laterais; status; quo; vacinis; patentes; quebra de; agentes; reagentes; matérias primas que estruturam; organizam; funcionam; a vacina; princípios ativos; disputa pela cadeia produtiva da; enquanto que; coisa; absurdo; Diz- se daquilo que; simboliza a; em momento de; a necessidade universal e democrática; popular; horizontal; no intuito de; parar com isso; avançar para parar com isso; com; nós; vós; planeta; vozes; relação predatória entre seres humanos, capital e natureza; persecutória; especismo; fábrica de pandemias sociedades atônitas; à vista: custo; curto, médio e longo; prazo; paparazzo; arrazo; afasto; arrasto; nefasto; corrida civilizatória, holográfica, fotográfica e audiovisual para chegar à vacina; os sérios nessa história; invenção; as ilusões perdidas; os pessimismos; os otimismos; os realismos; os cinismos; os progressismos; os reacionarismos; inscritos nas análises conjunturais e estruturais de todos esses espectros; mercados; totalitários; fascistas; de possibilidades; animosidades; terraplanismo; cada quadradinho forinha do seu lugar; abusotantismo; obscurantismo; a incrível e ardorosa guerra e luta contra essas tentativas para além do bem e do mal e dos maniqueísmos sem recair em; relativismos; tentativa cotidiana de; quem dá mais; quem tem menos; comprar ou dadivar; soletre a gramática ativa da ação; o rico, vacina, o pobre, chacina; desigualdade estrutural, social, política e econômica em relação ao acesso; ao conhecimento; à produção, circulação e distribuição das; vacinas; mais uma vez revelada; escancarada; aloprada; remoída; e vaticinada; infectologia; virologia; saúde pública; saneamento básico; atenção primária, secundária, terciária, quaternária, incendiária; sangue nos olhos; luta; dor; sofrimento; agonia; esperança; desilusão; compaixão; empatia; sintonia; vacinar; atinar; atiçar; a tabela periódica de civis sentimentos; planetária; lucros exorbitantes; covas aviltantes; mercado da morte; estatísticas; campanhas locais, municipais, estaduais, federais, continentais, hemisféricas, intergaláticas; microscopia biológica, física e química; macroscopia política, econômica e ambiental, voos sem escalas; siderais; vacina; letra jota; vogal a; consoante; dissonante; desmororalização; continua; capetão cloroquina; gripezinha; do ato de imaginar o que se passa no coração - e na mente; de um; bossal; inominável; mentira institucionalizada; a verdade afugentará; será; oxalá; cada dia novos abris.


Felipe Franklin Neto

sexta-feira, 26 de março de 2021

gravidade

dois seres de Ar

suspensos no espaço

entre estruturas metálicas

e abismos cósmicos

dois seres de Ar

suspensos no coração

de um buraco negro

dois seres de Ar

suspensos nas ruínas de um engenho

entre flores liliputianas

dois seres de Ar

se olhando à sombra

suspensos

no coração da água

dois seres de Ar

um olhando

o outro banhar os pés

entre liliputianas flores

dois seres de Ar

suspensos no fogo

como se o sangue

regasse com luz

o cúmplice

silêncio

do rio



nuno g.

Toróró, 16 de fevereiro de 2021.

sábado, 6 de março de 2021

Sobre escolas e desejos de volta, por Danilo Heitor Cajazeira

Existe um grupo de pessoas no Brasil, que alguns veículos de mídia chamam de movimento e dizem ter mais de 150 mil membros, que defende que as escolas deveriam permanecer abertas, mesmo nos piores momentos de contágio da pandemia de covid-19. O nome que esse grupo de pessoas assumiu para si é "Escolas Abertas".

Os argumentos trazidos pelo grupo parecem nobres: as crianças, apartadas da escola, tem apresentado perda de aprendizagem, mais significativa para as de menor idade; a escola tem uma função social, inegável, ainda mais em um país pobre e desigual como o nosso, principalmente no que se refere à alimentação; os casos de violência e abuso em casa aumentaram com as escolas fechadas.

Tudo isso é verdade. Posso afirmar porque sou professor de duas redes, a pública e a privada, na maior cidade do país. 

(Não sou uma raridade: são muitos os profissionais da minha categoria - sendo justo: são *muitas*, já que é uma categoria majoritariamente composta por mulheres - que ocupam toda a vida dando aula em duas escolas pra conseguir ter renda suficiente para se manter.)

Para além desses argumentos, o discurso do Escolas Abertas para o retorno das aulas presenciais se baseia na realidade de outros países, como o Reino Unido, onde as escolas não fecharam mesmo com lockdown. Por lá, testagens massivas foram feitas para garantir esse retorno. Mesmo assim, quando o contágio aumentou demais, as escolas fecharam de novo. 

É aí que começa o problema: sabemos, eu, você que está lendo e as pessoas que compõem o Escolas Abertas, que isso não aconteceu - e nem vai acontecer - no Brasil.

Nem lockdown de verdade, nem testagem massiva - na rede pública de São Paulo, a prefeitura testou apenas 17,7% do total que havia prometido, e ainda com o tipo menos confiável de teste.

Essa testagem aconteceu toda no ano passado - ou seja, todas as pessoas testadas podem ter se contaminado desde então.

Além disso, que não é pouco, existem diferenças gigantes de estrutura entre as escolas do Reino Unido e as daqui - e, principalmente, entre a rede privada e a pública no Brasil. 

As pessoas que compõe o Escolas Abertas tem, em sua maioria, os filhos matriculados na rede privada, em grande parte dos casos nas escolas mais caras. Lecionando nas duas redes, experimentei na pele as diferenças, gritantes, entre elas. Da merenda, que por pouco não virou ração nas escolas públicas municipais, aos passeios de campo, que banquei do bolso na EMEF onde trabalhava até ano passado. Diferenças que vão muito além das questões materiais, sobre as quais não vou me alongar. Fiquemos com apenas um fato: mais de 500 escolas públicas em São Paulo não abriram por não ter equipe de limpeza no dia programado para o retorno, semana passada - e nas que tem essa equipe, e retomaram as aulas, não faltam relatos e apontamentos de que são insuficientes. 

Se formos analisar a ventilação nas salas de aula, já que o principal modo de transmissão do coronavírus é por transmissão aérea em ambientes fechados, a situação piora ainda mais, e atinge tanto as escolas públicas quanto as privadas. Mas também não quero explorar esse fato, porque, de novo, todos sabemos disso: eu, você, o Escolas Abertas e qualquer um que perca dois minutos lendo as redes sociais e as notícias nos últimos dias.

Mesmo assim, o "movimento" insiste no retorno.

Não quero entrar nos motivos dessa insistência, que vão muito além da perda cognitiva ou da saúde emocional das crianças. Escrevo aqui impulsionado por outra razão: externar dois desejos meus neste momento.

No último domingo, recebi a notícia da morte de uma atendente escolar, da rede pública, com quem trabalhei nos últimos três anos. Ela era três anos, também, mais nova do que eu, que estou prestes a entrar nos meus quarenta anos.

No mesmo dia, mais tarde, a avó dela também morreu.

Mesmo com essa notícia, uma entre tantas outras que tem surgido diariamente, o meu primeiro desejo, o maior dos dois, é retornar para a sala de aula. Porque o ensino remoto é horrível. 

Mas só quando isso não significar um aumento exponencial na possibilidade de morte, minha e de todas as pessoas com quem irei interagir nas duas escolas em que leciono, no caminho de casa até a escola (uma hora de trem), de uma escola até a outra (mais duas horas) e depois de volta pra casa (outra hora inteira). E das pessoas que, depois disso, irão interagir com essas pessoas.

Quero retornar para a sala de aula, sim. 

Quando isso não significar, para além da morte, o aumento também no risco de nunca mais poder entrar em sala de aula, já que cresce o número de pessoas com sequelas que - ainda não se sabe - podem ser permanentes, entre elas perda respiratória e, vejam só, déficit cognitivo. É o caso de uma amiga, também professora, com quem dei aula muitos anos e que hoje vive no Pará. Mesmo com sintomas leves, mais de seis meses depois de ter sido contaminada, ela ainda não recuperou completamente olfato e paladar e tem se confundido com coisas simples do dia a dia, como lembrar de desligar o fogão.

Quero retornar para a sala de aula.

Mas não para atender os desejos fúnebres de pessoas que nem sequer estarão lá, e que se sentem bem em apostar as vidas dos próprios filhos nesta loteria macabra.

É aqui que entra meu segundo desejo, ligado umbilicalmente ao primeiro, bem mais simples, e que diz respeito às pessoas que fazem parte e defendem o Escolas Abertas.

Para elas, todas elas, eu desejo a morte.

Não por ódio ou vingança, longe disso. 

Mas pela simples reciprocidade.

Porque elas, como eu e você, sabem muito bem dos riscos que essa volta significa, no pior momento da pandemia até aqui, com mais de mil mortes diárias todos os dias. E seguem gritando pelo retorno, porque não se importam com a vida - a minha e a de todas as pessoas que trabalham nas escolas, professoras, coordenadoras, faxineiras, atendentes escolares e seus familiares.

Morte por morte, desprezo por desprezo, então, eu deixo aqui meu desejo de volta.


São Paulo, 23 de fevereiro de 2021.

Um professor.

Danilo Heitor Cajazeira

https://sempredesobedecer.wordpress.com/


sábado, 20 de fevereiro de 2021

Das coisas que me diz o fogo ou dos sonhos que sonham as pedras

neste manto azul de entendimento e abertura

nesta terra-terra de formigas e assentamento

neste céu-sem-dogma, nesta carne que cura e treme

neste manto azul de espera e fundação

neste fogo-fogo que consome e arde

neste esquecimento, neste cume do esquecimento

nestas veias e artérias, neste sangue que corre,

nestas três árvores, nestes indícios de soberania

nesta carne que se ressente e que caminha

entre enxames de vespas & abelhas

neste manto azul, que aos teus olhos apareceram

entre os ínfimos grãos do sétimo infinito

às margens das margens do reino de Tempo


nuno g.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

INTERPRETAÇÂO, por Mourid Barghouti

Um poeta escreve num Café

A velha pensou que escrevia uma carta para a mãe.

A adolescente, que escrevia para a namorada.

O menino, que desenhava.

O comerciante, que planejava um negócio.

O turista, que endereçava um cartão postal.

O contador, que calculava suas dívidas.

O homem da policia secreta caminhava lentamente em sua direção.


Mourid Barghouti

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Canto, por Antônio José Bezerra - o pajé

Eu canto a paz, que emana do coração
No oásis do sertão não posso cantar a dor

A linda flor que perfuma alegria
Conserva toda energia dessa terra de amor

Eu canto as matas
Canto os rios
Canto as fontes
Canto baixios e montes
Canto a luz do sol e sou

Uma semente que germina esperança
Que rega toda criança dessa terra que brotou

A tua essência é de quinta dimensão
Ilumina a escuridão do ser que não despertou

Pra uma conquista de luz em tempo passado
Cariri consolidado
Força do interior

Eu canto as matas
Canto os rios
Canto as fontes
Canto baixios e montes
Canto a luz do sol e sou

Uma semente que germina esperança
Que rega toda criança dessa terra que brotou
Que rega toda criança dessa terra que brotou
Cariri consolidado
Força do interior

Antônio José Bezerra - o pajé.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

À BEIRA-MAR — por RABINDRANATH TAGORE

À beira-mar de mundos infinitos, se encontram as crianças.

O céu infinito está imóvel sobre suas cabeças e a água inquieta é tumultuosa. À beira-mar de mundos infinitos, as crianças se encontram com gritos e danças.

Elas constroem suas casas com areia, e brincam com conchas vazias. Com folhas murchas tecem seus barcos e sorridentes os flutuam no vasto abismo. Crianças brincam à beira-mar de mundos.

Elas não sabem nadar, elas não sabem lançar redes. Pescadores de pérola mergulham em busca de pérolas, os comerciantes velejam nos seus navios, enquanto as crianças juntam seixos e os espalham novamente. Elas não procuram tesouros escondidos, elas não sabem lançar redes.

O mar sorrindo se levanta em ondas, e pálido brilha o sorriso da praia. Ondas ameaçadoras e mortais cantam baladas sem sentido para as crianças, como uma mãe enquanto balança o berço do seu bebê. O mar brinca com as crianças, e pálido brilha o sorriso da praia.

À beira-mar de mundos infinitos, se encontram as crianças. A tempestade vaga no céu sem caminhos, são destruídos navios na água sem rastro, a morte está nos países distantes, e as crianças brincam. À beira-mar de mundos infinitos é a grande reunião das crianças.

RABINDRANATH TAGORE

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

***

No hay nada que temer. 

No hay nada que esperar. 

Siempre se está más o menos vivo. 

Siempre se está más o menos muerto.


César Vallejo in Contra el secreto profesional.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Do espaço em direção a cá, como dois tempos - por Stella Díaz Varín

A noite,

deslocada como asa de um cetáceo ferido.

Amortalhada sempre que a pupila negue sua orfandade.

Mar pomposo e grotesco seio;

quando a claridade se faça em mim

não necessitarei de vossa amada boca,

não necessitarei do meloso solilóquio de tua vertigem.

 

 

Me tens, como um peixe à sua escama,

miseravelmente unida a ti,

levando-te como uma criança canibal ao peito de sua mãe.

E não hei de desperdiçar hora, para maldizer

tuas parições de planetas fosforescentes

que vomitas ao meu lado sem nenhuma delicadeza... ...

 

Esquecida como árvore do deserto,

onde transplanta o viajante seu êxtase sem experiência,

feliz de abandonar o barco,

desejando encontrar na terra

a veia misteriosa da felicidade.

Navegante audaz,

dissociador do mar e da terra,

veia obscura será teu caminho em direção ao infinito!   

 

Quem, senão o esquecimento,

quem senão a medida de uma juventude posta de lado,

vem em minha ajuda agora.

Agora que tenho aprendido a pronunciar palavras

contra Deus e seus signos

e me ajoelho de hipocrisia ante os conhecidos.

Quando em ângulo reto junto à uma porta

espero a palavra de boa vinda.

E só escuto dentro, ruído de copos

cheios de um vinho generoso que jamais provarei...

 

Existem continentes simples, de um só país

com cidades elementares e casas de um piso

onde poderia me abandonar

e às cegas buscar o ócio e suas virtudes.

Mas a lembrança apenas de tão buscado lugar,

me pinta à cara um gesto de asco.

 Como se penetrara à habitação do amor

e me encontrara com três cadáveres

ante uma janta inconclusa de ostras descompostas –.


Stella Díaz Varín

tradução: nuno g.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

ENSÉÑAME A BAILAR, por Roberto Bolaño

a mover mis manos entre el algodón de las nubes
a estirar mis piernas atrapadas por tus piernas
a conducir una moto por la arena
a pedalear en una bicicleta bajo alamedas de imaginación
a quedarme quieta como estatua de bronce
a quedarme inmóvil fumando Delicados en ntra. esquina
los reflectores azules del salón van a mostrar mi rostro
goteado de rimmel y arañazos, ustedes van a ver una constelación
de lágrimas en mis mejillas, voy a salir corriendo
enséñame a pegar mi cuerpo a tus heridas
enséñame a sostener tu corazón un ratito en mi mano
a abrir mis piernas como se abren las flores para el viento
para sí mismas, para el rocío de la tarde
enséñame a bailar, esta noche quiero seguirte el compás
abrirte las puertas de la azotea
llorar en tu soledad mientras desde tan arriba miramos
automóviles, camiones, autopistas llenas de policías y
máquinas ardiendo
enséñame a abrir las piernas y métemelo
contén mi histeria dentro de tus ojos
acaricia mis cabellos y mi miedo con tus labios
que tanta maldición han pronunciado, tanta sombra sostenido
enséñame a dormir, esto es el fin.


Roberto Bolaño

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O único verso, por Bento Prado Jr.

Tropecei, esta noite,

Num verso mais que estranho,

Único verso presente em todos os poemas reais

Ou possíveis de todas as línguas do mundo:

Primeiro hieróglifo, emblema de Hermes Trimegistos.

Verso em si ilegível e vazio embora necessário,

Verso perverso

Que nos condena a retornar, obliquamente,

A todos os poemas escritos até hoje,

E todos os futuros,

Um gonzo fechando,

Por dentro, um cubo hermético-metálico,

Que, mônada, espelha, em seu imo, todo o mundo externo.

Começo e fim de toda poesia,

Ou seu constante recomeçar?

Delirei, esta noite,

Um único verso,

(uni-verso),

que poeta algum jamais escreveu,

Face infinitesimal do Grande Diamante da Poesia ou do Ser,

Acesso a todos os demais versos,

Que se mostram, simul, ao leitor

Que eles próprios, nesse instante, criam.


Mas foi apenas um vislumbre:

Uma vez iluminado o Grande Diamante,

O verso volveu à sua aparente vacuidade

E dissolveu-se-lhe a cumplicidade com todos os demais,

Devolvendo-me ao ritual de meu dia-a-dia,

Mergulhando-me novamente em meu Não-Ser.


Bento Prado Jr.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

"Havia terra neles", de Paul Celan

Havia terra neles, e

cavavam.


Cavavam e cavavam, assim passava

o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,

que, segundo ouviam, queria tudo isto,

que, segundo ouviam, sabia tudo isto.


Cavavam e não ouviam mais nada;

não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,

não imaginavam qualquer espécie de linguagem.

Cavavam.


Veio um silêncio, veio também uma tempestade,

vieram os mares todos.

Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,

e aquilo que ali canta diz: eles cavam.


Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:

para onde íamos que não fomos para lado nenhum?

Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,

e no dedo acorda-nos o anel.


Paul Celan

trad. Yvette K. Centeno

domingo, 10 de janeiro de 2021

Na estante do meu avô, por Agostinho

Eu sonhei co'a velha estante

Da casa do meu avô

Lugar bonito e pujante

Onde este vate estudou


Uma lembrança ficou

Que me fere todo instante

O retrato que marcou

Do meu avô o semblante


Aquela estante modesta

Sempre fora minha festa

Sempre me dera alegria


Naquele local indulto

Eu tornei-me um homem culto

Relendo filosofia


Agostinho 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

2021, por M. França

lá naquela esquina tem vacina para a solidão
vc pega o auto o poema pelo avesso
vc pega pelo meu braço e comigo vem ver o mar
o mar nos enlaça na maresia de nossos sonhos.

o leviatã segue em orion, em alegria
neste ano, o carnaval vai passar
neste ano, o são joão terá folguedos e abraços
neste ano, o azul será turvo, cor de chumbo
azul de picasso, azul de modigliani
com toda chuva de ansiedade lá fora, vou pegar o guarda-chuva da poesia
com a sacola de miudezas em cognatos, em morfemas
em vetores, irei fazer uma prece, uma reza, uma oração
cada poema é uma oração
cada pintura é uma oração
cada sinfonia é uma oração.

a timidez dos festejos vespertinos
a solidão dos reveillon de 2020/2021
a crueza dos fardados fascistas
a mudez das crianças e dos velhos por entre máscaras
a palidez dos sonhos e o silêncio dos autos
não me assusta
não me faz desistir desse samba torto
essa febre, esse ritmo, essa toada
da formiga
da cigarra
do poeta
que te diz q o amor é o astrolábio dos sentimentos
e o medo, esse medo, terá o fim.
:a alegria é a prova dos noves.


M. França

domingo, 13 de dezembro de 2020

o não, o cansaço e um sorriso

o carnaubal estava visivelmente abatido

tia Neuza sonhara procurando deus

que, como de costume, se ocultava

a casa nunca me parecera tão real

embora Maria ainda não estivesse chegado

na estante, o álbum vermelho

com o Cebolinha sacando uma foto da Mônica na capa

guardando as fotografias de Eliana e seu filho na praia

dormimos, tomamos café, comemos manga

a praça vazia de domingo

o carnaubal devastado

tia Neuza sonhando como de costume

deus nunca me parecera tão irreal

apesar de minha certeza que era ele o que balançava a rede

o telefone tocou, não era Maria

as horas se curvavam ante a manhã

a casa nunca me pareceu tão silenciosa

não vi os mortos que a habitam

não senti suas presenças

o carnaubal estava em estado terminal

os ácaros do progresso faziam o trabalho sujo

o quadro de Eliana me esperava na casa ao lado

a pressa me escapara no caminho

o não, o cansaço e o sorriso

eram mais do que suficientes para tornar o dia agradável

eu também não ousaria pisar naqueles degraus onde a poeira se acumulara

se há tanto tempo eu não soubesse que aquela madeira ainda suportaria o peso

o relógio da sala estava quebrado

, por um breve instante,

vislumbrei entre seus ponteiros estacionados

a precária imensidão de meu coração

 

nuno g.

russas, 13 de dezembro.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020


 

no meio do caminho

tinha uma escada no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma escada

nunca me esquecerei que tinha uma biblioteca no último degrau

uma biblioteca dedicada ao Nada

tinha uma escada no meio do caminho

tinha os cem olhos da tempestade de areia fina

tinha a pintura de uma moça com brinco de pérolas no meio do caminho

e os cem mil raios da Senhora,

tinha um vazio no meio do caminho

nunca me esquecerei do beijo que não tinha no meio do caminho

nem da escada nem da biblioteca nem do nada

no meio da escada tinha um caminho

mas não são todos que desviam no meio das escadas

tinha uma tempestade no meio do caminho

tinha uma manta assurini awaeté no meio do Sonho

e do mirante da casa do guarda do Belmonte se via

a escada, a biblioteca,

o Nada, a Sina e o Vazio

nunca esquecerei que tinha um caminho no meio da escada

nem que no meio da escada tinha um caminho

e que quase ninguém desvia em caminhos no meio de escadas

ainda quando estes levem às cascatas de águas frescas

correndo entre antigos pés de buritis

tinha um silêncio no meio do caminho

no meio do caminho tinha um silêncio

e toda a potência que um corpo necessita:

seja para desviar-se do previsto

ou para escalar a escada até o topo


nuno g.

dez de dezembro.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Teoria das próximas horas

 para Claudio Reis,


nossos filhos nos antecedem

nossos ancestrais estão adiante

a cronologia é uma prisão de areia movediça

e paredes de acrílico

fundamento que resulta da sedimentação

grãos de tinta expostos ao sol

sempre à beira de um incêndio

caminhando sobre fios descascados

e sobre as folhas secas e as ruminações de Lilith

nossos filhos nos antecedem

nossos ancestrais estão adiante

um telefonema, um imail, uma chamada de zap

podem ser o suficiente para provocar um incêndio

de proporções inimagináveis

a cronologia é uma prisão da qual escapamos juntos

e à qual jamais regressaremos.

 

nuno g.

Crato, 03 de dezembro de 2020.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Tororó, por Claudia Rejanne.

Tororó
estelar
continente paragua
afluente kariry açu
açude junco
mãe jaguar
arribe
caudasjorrou
machu pichu
amazonara
jara
já lá
jord AUM

Kakituramba veio de lá
no clarão do fogo e do rapé
dançou, cantou, comemorou
no baile matinal dos curumins


Claudia Rejanne.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

ESPERANDO UN POEMA, Luljeta Lleshanaku

Estoy esperando un poema,
algo agreste, ni elaborado ni fuera de control,
algo imperturbable por las ofensas, un cuervo blanco
liberado de la oscuridad.

Las palabras que vienen naturalmente, sin apuntarle a nada,
una bala sin un blanco,
tiros de advertencia al cielo
en tierras recién ocupadas.

Un poema que brote de mi pecho

Y hasta que llegue
escucharé a mis hijos peleando en el cuarto de al lado
y arrojaré mi mirada a lo largo de la mesa
a un vaso de leche vacío
con un trazo de blanco alrededor del borde
mi cuello envuelto en plata
una servilleta en un aro servilletero
esperando que arriben los tardíos invitados...

Luljeta Lleshanaku

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Ilha do desterro.

Célia foi minha professora de datilografia,
Bia era irmã dela e
Lúcia, sua melhor amiga.

sonhei com o Martim do clube de forró,
com o Manoel Gonçalves da cerâmica e
com Sara - só ela segue viva.

Hoje é a data que Maria nasceu,
cinco para uma da tarde,
Valle de Bravo - México.

Se eu fosse Bandeira,
teria aqui o suficiente para um poema,
mas não sou e estou desde as cinco esperando o telefone atender para cantar as mañanitas.

O poema se chamaria ilha do desterro.
teria cheiro de rio e a beleza de Bia.
teria gosto de rio e a coragem de Lúcia.
teria textura de rio e a seriedade de Célia.

O poema seria o vasto rio onde corre toda a saudade do mundo.
e até Bandeira teria que reconhecer que entre a Sina e o Nada transcorrem nossas vidas.

Ontem fui à praia do Montecristo,
onde deságua este poema no mar,
escrevi nas areias teu nome, Maria,
e ainda que uma noite de mil anos nos atravesse,
nem o vento, nem as águas, nem as mãos da imprudência,
serão capazes de apagar.

nuno g.
23 de novembro.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

rosário de estrelas ou os passos de Ana na escuridão

para meus avós,

  Depois de tanto tempo sem chuva restava pouca gente no povoado, quase nada. A neta e o avô escarafunchavam o barro das ideias reinventando as estrelas, soletrando os mistérios de suas crenças enquanto tratavam de cozinhar um pouco de milho e algo do feijão que ainda tinham. Faziam render o de comer escaldando a farinha nas águas noturnas da fé. Os peitos da menina saltavam como rãs, seus olhos vagavam como moscas e sua inteligência desafiava o comum que lhe arrodeava. O velho era espinho, era raio seco de sol, era sombra de juazeiro, era réstia empoeirada na rede do alpendre. Depois de tanto tempo sem chuva restavam apenas eles dois na casa grande da Timbaúba. O calorão aumentava, a fome ameaçava e a espinha dos dias se assanhava no sopro do vento que arrebanhava as últimas esperanças. Dessa vez não chegou governo, nunca havia chegado. Ainda umas últimas arribaçãs estendidas, sal entranhado nas asas esturricadas de orações sem memórias. Quando crescesse um tanto mais iriam ao mar: fazer carneiros de areia, ouvir quebrantar de ondas, conhecer as sereias de Homero. Enquanto não, se contentavam com o azeite das lamparinas. Com o rastrear de alguma raposa. E faziam fogo todas as tardes com as folhas secas de afugentar serpentes e víboras que passavam acolá. A brisa deliciava o corpo desidratado da neta, o avô sabia que já passava da hora e só temia que findasse antes. Tomava um trago e ruminava um inverno. Uma chuva grande, um pasto verde e a lembrança das graúnas na cerca. A morte se aproximava desfazendo qualquer aura e as querências da menina iam tomando a forma de feridas exiladas. O corpo não acompanhava o passo, a velha aflorava antes da mulher, em cada gesto renunciava suas misérias. A menina era órfã, seus pais se perderam no asfalto. A história era longa e o tempo minguava, nem boi nem boiada e os corações reconheciam-se em cada migalha de palavra, em cada cigarro de palha, naqueles afetos e silêncios sem mágoas que se prolongavam. O velho era o único que sabia de tudo, mas já era velho. Seu cavalo arquejava a alma. Os ossos dos tejos eram belos quando as mãos da menina os tocavam. Fabricava com eles sinfonias inesperadas, louvava a deus e à natureza, recriava o mundo e por pouco que fora tocava a sombra esquálida. Havia amor demais naquela sede retirada. Havia um tudo que já insinuava o nada. Era clareira muita que naqueles seres se escancarava. O temor as vezes os desabrigava. O rio tinha margens largas onde vez ou outra uma onça ainda se avistava. O velho era água que morria regando a flor que desabrochava. Nessa transferência de energia tudo se ia transformando, se refazendo a estouros de espoleta, rebentando como as borboletas que escapavam de um pigarro. As lembranças eram demasiadas, o tempo era escasso. O velho já sabia que não veria as novas águas, que não estaria ao seu lado quando sangrasse. A morte deixou de lado seu hábito enigmático e se revelou como um fato: acrescentando um quilo mais no alforje já bem pesado. Um dia antes de partir pensou romper o arco, relembrar os ecos dessa passagem luminosa, quebrantar o véu inquebrantável. Sua graça lhe mantém em pé o quanto falta. E quando ela dorme ele se transforma em anjo e com suas lágrimas enche novamente o oceano onde a menina irá pastorear carneiros quando for tão tarde.

  Saiu com parecenças à avó. O jeito de destorcer os punhos traz muito da velha. Quando se deixa desacorrentar miragens percebe a desordem com que tudo passa. É avassaladora a fúria com que se acalma e vai vertendo suas meticulosidades. A menina sabe o que o velho sabe. Que mão tão essa acaricia o ventre, sana a chaga, e vai levando o desconhecido para o outro lado. No vazio se ocupam de uns dados ou de um par de cartas a uns ciganos comprados. Feitiços de um destino bem amarrado. Reviravolta desmanchada numa madrugada. Os lençóis amanhecem lagos. O velho fraqueja, a chuva tarda. Ainda há feijão. Ainda há milho. Uma que outra caça no mato. As pedras dessa igreja nasceram a meio passo. Entre chocalhos e badalos iam se refinando, auscultando o pulso, revisando os cascos. Houve um tempo em que tempo não havia, era só a ardência infinita se estendendo no planalto. Mas esse tempo só se transfigurava em tempo quando se assentava, quando decantado ia se definindo à ribeira em paragem. Era um tempo salpicado, tinha cheiro de café recém passado e suas fronteiras eram a vertigem do inominado. Neste tempo reinava o acaso, neste tempo se movia sem medo o impulso do abutre acossado. Neste tempo se ouvia o canto assinalado. Era o tempo morto de onde a vida brotava. Era o tempo anterior. O tempo escasso, desritmado. Sem escalas, sem compassos: alguma música para ouvidos nada delicados. E foi assim que tudo foi sendo semeado. Foi assim que a origem foi ganhando sua máscara parda, sua singela insígnia acinzentada. E no meio de tudo havia uma lágrima. E no desemboucadeiro um oceano com muitos carneiros. Antes do velho outro velho já chorava. Antes da lágrima outra lágrima. Por essa vereda iam as venerações da menina. Sua solidão seria terrível se não fosse sagrada. Mastigando aquele caldo de misticismos e outras constelações minerais seguia sua relação de presságios. Afinal de contas, a vida é uma estância, sem razão pra ser desagradável, sem intuição que lhe restitua a intenção de onde parte e desarvora. O cavalo do velho arquejava, a alma se reentranhava na carne. Grilo ou outro o sangue anunciava. As rãs e as moscas celebravam sua orgia, a menina parecia cada vez mais com uma coruja e tudo ao seu redor escurecia para que ela pudesse faiscar. Saiu com parecenças a avó é certo, catava os grãos traçando espirais, assassinando desvios desnecessários. 

  Um dia ela destrincha o redemoinho, pressente o velho, sem espanto nem teimosia de rinhas. Um dia ela... o corpo além desse céu tão arranhado, tudo sendo pressentido, rememorado. Um dia ela também conhecerá o diabo, suas artimanhas e pertencimentos, ela vai lograr, da carência a querescência é um salto, fácil para uma rã que tem os artefatos nítidos. Um dia ela me enterra, afaga meu repouso, atraca minha erva. Um dia ela vai ver o mar como ele é, o oceano dos carneiros pálidos, o fogo sempre termina por incendiar o arco. Era mania do velho pressentir assim tão memorioso e grávido. Já era arqueiro e arco. A menina será mais e será menos, será raiz e será galho, será bicho e será rastro, será sempre o que desde sempre foi: lua em movimento, astro... Ainda que se esforce não alcançará o sangue, será de outro o destino de abrasar essa intempérie que irrompe baixo a chita. Qual náufrago tentará suportar seu lastro, qual desânimo inquietará sua paciência? Coisas como essas povoando a madrugada beira, esses estilos arrebatados que a calmaria fresca desperta. A brasa acesa devorando a palha do cigarro, café já tantas vezes requentado no barro, amor de si buscando forças para o outro que ainda cisma e insiste em ser pássaro que vem ajudar o pensamento a romper a casca. Ela dormia. Dormia como se nada. E pode um peixe viver fora d’água? Pode árvore se esticar sem raiz? Já não sabia quase nada. Na verdade nunca soube muito. Sempre foi mais de pressentir. De ruminar. Cultivar suas próprias venerações. Dessas lógicas aparentadas do sangue. O outro lado era dela. O outro lado era pedra. O outro lado ia aparecendo nas rugas de sua testa. Barco perdido bem carregado – como se deixou ceifar por essa banalidade insólita? Nunca se sabe até que ponto um nome determina a arte. O dela era Ana, nome de santa; o dele: Estevão, nome de pirata. O sertão era vasto mais ainda mais vasto era seu barco. Desolado remeteu o pé contra a parede e embalou as cismas que àquela hora já se faziam confusas embora mansas, como os sentidos de quando voltava da casa das putas, como a cabeça de um jovem que herda uma herança, como uma mosca que sabe o desejo que arde no salto preciso da língua faminta do anfíbio, como uma iminência parda. Três colheradas de uma coalhada um tanto azeda. Pedaço de queijo seco. Talagada de cachaça. Velho não dorme, abundância de cavilações e espreitas. Quem iria preparar a terra quando chegassem as águas? Os anjos por certo, os mesmos anjos que agora lhe devolviam o sono. Assim lhe agarrou a tala e tudo que pressentira se fez fumaça. O velho dormiu como despertara, com uma leve sensação de que o que se percebe nunca se instala, que o deserto sempre está mais próximo que se desejara. A única certeza é que a menina sangraria no mesmo porto em que seu coração estancara. Ausência por ausência o sono foi se tecendo na casa. Ela era o que ele recordara. A chuva chegava com a mansidão dos gatos. Sereno. Neblina. Chuvisco. E enxurrada. Lágrima vai lágrima vem o suco vermelho foi inundando a casa. Primeiro parecia sonho depois trovoada. Animal que sangra tem suas próprias teimosias. Conhece outras insistências. Deflagra querências de outra linha. O marasmo chega de outra forma. A boca beija com outra ânsia. A morte se vê diferente. Tão certo como lição de tabuada, acendeu a vela e bebeu a lágrima. Era a primeira vez de tudo, a primeira vez que chorava. Sangrava pela primeira vez. Com as mãos suaves enterrava o velho nas penas de galinha que recheavam a almofada. Jogou a aguardente que sobrara sobre a pele sem voz. Perdeu a maciez das mãos cavando à terra pedregosa uma cova rasa. Deitou o velho na cama de piçarra. Já não tinha mais nada que fazer ali, a chuva era para os outros que retornavam. Botou roupa de ir à rua, cobriu tudo com atmosfera de domingo e deixou pra trás o que restava. Se voltaria não alcançava saber. Sentia que ia. Que era inevitável partir. Sabia que a morte era meia-irmã do amor. Assim como a vida... assim como o horror...

  Os bicos dos seios já salivavam, os cabelos exigiam suas carícias. A estrada era larga, profunda. A vila era pequena e desprovida de promessas. Um vazio entre tantos outros, um santo morto entre os demais. Alguma fagulha de não se sabe o quê naquele carro que ia por lá manhã e à tarde regressava. O resto era o resto que nunca assumia alívios, nunca dizia sensatezes. O resto era o que pouco-a-pouco definhava. Quando beijou o pé da estátua sentiu amargar o céu da boca e cuspiu sem refletir. Toda a gente lhe olhava sem poder compreender. Era simples demais para tudo aquilo, era complexa demais para tão pouco. Os sapos já coaxavam alegrias pelo lago e as moscas pululavam feira em feira sem ressaibos. Um dia voltaria onde enterrara o velho. Flor na mão, vento na alma. Um dia voltaria à casa. O amargo desceu garganta abaixo com ossos revirados. Trocou os panos que aparavam o sangue, juntou os trapos que lhe deixaram, subiu na boléia da camionete e foi até o mais longe onde chegara. Tudo era estranho e alheio. As pessoas andavam como andavam. Os carros eram muitos. As casas não eram casas. Eram espigas de cimento ensimesmadas. Não se viam varandas não se arrastavam aqueles dizeres salpicados. Mas tinha algo de bom, de aprazível, em viver sem nenhuma amenidade. Tinha algo do que o velho chamaria o outro lado. Algo de desterro, algo de hemisfério, algo alumiado. Foi assim que foi o que foi. E o que foi era o que desde sempre tinha de ser. Foi assim que ela foi se vendo cidade. Foi se sendo outra menina. Foi matando o velho como quem mata uma sina. As rãs foram criando asas, a flecha farejando o alvo. Vez ou outra recordava as boiadas, os ciganos e as aves de arribaçãs. Mas já era dialeto outro o que alfabetizava seu corpo, o coro dos anjos desafinados descontentava seus acentos. E nessas marés de lembranças não se deixava enganar, a delicadeza era bela por ser violenta, o corpo sangrava para seguir vivo e com lágrimas foi inventando o mar. O primeiro homem acolheu como um carneiro. Apascentou-lhe. Sem juras nem confusões entregou-lhe o que lhe devia e retirou dele o que necessitava. Não perdia tempo escutando algaravias. Tinha juízo. Tinha amor. Tinha criado mais de mil insônias na imaginação. O carneiro era fresco e saiu dali carregado de felicidade. Ainda quis outra vez mais já era tarde, a relva estava mais além de sua imperícia. Com um deus no ventre Ana se abriu à tempestade. Se fez luz ao novo abrigo que surgia. Com aqueles passos leves de não acordar a noite foi seguindo sua travessia. E quem sabe as tantas línguas de que são capazes um corpo sabe também que a cada uma delas corresponde um abutre. A cidade se fez mais tranqüila por um instante. O sangue parou de escorrer por um bom tempo. O carneiro ainda insistiu mas a imensidão do céu se fez muito intensa para sua ira. Sonhou com o silêncio do velho e havia mais sons naquele silêncio que nos passos apressados da multidão. Sonhou com a vila, triste e melancólica vila de azulejos. Tudo era uma questão de chão. Ali estavam as estrelas, os planetas e o clarão da escuridão. Tudo era uma questão de estômago. De vísceras. A vida era um retiro, um desterro: fagulha de um sonho na escuridão... Um pouco de vinho, um pouco de pão. Foi o suficiente para chegar até ali. Foi o suficiente para adormecer como se não fosse órfã, como se não tivesse cicatrizes no joelho, como se o sol não fosse uma perpétua maldição.        

nuno g.