Muitas flautas e do outro lado do rio, outro rio. Muitas flautas e do outro lado do fogo, outro fogo. Muitas flautas e do outro lado do silêncio, outro silêncio. Muitas flautas e um longo dia com um sol demorado. Muitas flautas e do outro lado da água, os mortos. Os mortos nadando e se refrescando e sorrindo e. Do outro lado da morte, outra morte – e depois dela, outra morte ainda e uma morte mais e outra morte numa série de encadeamento infinito. Muitas flautas e do outro lado do infinito, outro infinito. Muitas flautas. E além das flautas, o trem. O trem que segue seguindo às Minas Gerais todos os dias. O trem com seu maquinista hiper-simpático. O trem e a neblina que chegou antes. A neblina que não quis esse ano esperar os festejos de junho. A neblina e tudo o que lhe é próprio: a umidade e os seres que vivem na cor cinza. Na neblina, nossos medos imaginários se comportam como cães fiéis e famintos. Na neblina, o rio é mais serpente do que antes. Na neblina, tudo que reluz é promessa de firmamento, anunciação e café quente. Na neblina, o rio é tão serpente como nunca. Na neblina, nossos corpos se sentem frágeis, adoráveis e transparentes. As sombras angelicais e a crina do vento. Na neblina, nós e o nada ante o tempo dissolvido. De joelhos, sangrando de tanto chão. Locomovendo-se em direção à miséria que ainda não ousamos nomear. Cio de onça, a coleção de escaravelhos, chave de harmonia. Asas nos pés sonhando trens que vão às minas. Hora da água: roguemos ao silêncio como da primeira vez. Hora das frestas: roguemos ao infinito e à nova eternidade que nos paquera como paquerávamos nas matinês. Hora dos precipícios e das cousas mortas: assim. Muitas flautas e café. E, do outro lado, mais café e som de flautas. Passa o carro do ovo, passam pássaros, passa a nuvem e o trem. Tudo parece estar indo às minas. A luz requentada de uma lua de agosto cintila nos olhos de Judite. Hoje, nem pensar em voltas-de-rua. Hoje, sabemos algo mais sobre a eternidade e, por supuesto, somos menos.
08/09 de abril de 2020.
nuno g.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
terça-feira, 3 de março de 2020
sábado, 21 de dezembro de 2019
Ian
Papai, ele quis ir ficar com o vovô nuno!
Ele vai conhecer o vovô nuno antes de mim...
Maria Alice
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
terno da alvorada
Os anos em Cachoeira sempre
terminam antes, ainda é novembro quando a cidade se fantasia e dança pelas ruas
ao som da charanga se despedindo de tudo o que já é passado. A oração em frente
à Minerva, o sino da capela, a saudação à Nossa Senhora do Rosário, o feijão na
faceira, a subida da ladeira do Monte, a descida do Curiaxito, o arrastão da
rua da feira, a visão do alto do Rosarinho, as águas do rio Pitanga e o
despacho final na praça Dr. Milton assentam sob o solo desta cidade prateada os
fundamentos do novo ano que se inicia. Assim tem sido desde ao menos cem anos –
assim foi hoje. O sol é escaldante e a alegria redesenha as faces que amanhã
tornarão a assumir suas feições cotidianas quando os mandús regressarem à terra
dos mortos e as cabeçorras aos porões desses casarões em ruínas. Em Cachoeira
os reis magos não se atrasam e entre os presentes que trazem se encontram as
armas que necessitaremos amanhã. Entre o largo do Caquende e a imponência
majestosa do convento do Carmo a Senhora de Vermelho vai rodando e distribuindo
seus raios entre os fiéis, empoleirados nas escadarias e janelas muitos são os
que olham o cortejo de Tempo. Aqui, em Cachoeira, a chegança dos reis magos
coincide com o aniversário de Maria e quando isso ocorre sempre já nos encontramos
um passo à frente na linha tênue que organiza o transcorrer dos dias. Na rua do
Brega pisamos em mel e escutamos os ecos das conversações que vão passando à
história e no jardim grande deixamos escapar nossas orações de agradecimento por
termos sobrevivido até aqui. Ogum se delicia no bar América: os dias de trégua
são a única primavera que conhecem os filhos do deus da guerra. As crianças
correm, se pintam, chutam as latas de cervejas abandonadas no trajeto e
assopram os cabelos desalinhados da deusa de seios enormes. Cachoeira – a maior
das menores cidades do mundo – sofre de antecipação e enterra na véspera o ano
que agoniza. A charanga embala os sonhos, as angústias, os desejos e as
desilusões dos que a acompanham. A charanga marca o ritmo dos que dançam
violentamente banhando com seu suor os paralelepípedos. As famílias se reúnem,
os amigos se abraçam, os amantes se entreolham e o domingo goteja numa
clepsidra de vidro. Em Cachoeira o ano sempre termina num domingo e a primeira
segunda-feira que floresce é sempre um dia fora do tempo. Na terça, a charanga
voltará às ruas para o terno da saudade – e se alguém tem ainda alguma lágrima
para derramar poderá fazer nesse derradeiro instantâneo da festa. Depois tudo
voltará a ser como antes. Quem brigou no embalo terá que esperar até novembro
para revidar – e como sabem esperar os fiéis cachoeiranos. Os fogos são muitos
e é o estampido deles que adormece a tarântula do paraguassú até que na
terça-feira – no terno da saudade – a charanga venha tocar às margens do velho
e silencioso rio lhe recordando que já é hora de começar a tecer todas as
coisas que devem existir. É uma honra que se paga com uma caixa de cerveja a
visita da charanga à casa de alguém – é uma dívida que se adquire a dádiva de
vir de tão longe celebrar assim as passagens que tem que ser feitas. Assim foi
hoje – assim será sempre. Os mais sensíveis podem ser irreversivelmente
afetados pelo ritmo da charanga – até os mais insensíveis são afetados pelo
despertar da tarântula. O comércio reabre. Os da universidade se afastam. O
mercado ressuscita. O rio se cala. A ressaca da cidade, despida de suas
fantasias prateadas, vai se esvaindo. As famílias regressam às suas intimidades
e recatos. As crianças voltam às escolas. Os instrumentos da charanga descansam
na Lira Siciliana e na Minerva. Deixamos de esperar pois já aprendemos que volverá.
Quem vomitou fogo carregará olhos acesos por todo o ano. Quem viu as cinzas de
que são feitas as carnes será noite por todo o ano. Quem derramou sangue nos
paralelepípedos conhecerá a beleza das cicatrizes. Quem não suportou a
inclemência do sol será engolido pelo demônio do esquecimento. Aqui, o ano
acabou antes, como sempre. Ainda é novembro e já estamos em 2020. Um velho e
bom amigo me escreve: o inferno não prospera onde há esperança – eu lhe
respondo: a desgraça não vinga onde toca a charanga. A pulsação do que
nos move para além dos precipícios que nos foram destinados é um prodígio. Que
Nossa Senhora d’Ajuda conceda luz a quem é da luz e escuro a quem é do escuro
& que a memória dos mandús conserve eternamente amolado o fio mineral de
nossos corações. Amém.
nuno g.
Cachoeira, 17 de novembro de
2019.
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Rito fúnebre
para claudio reis e
seu menino, o lorde basquiat
Eram
sete os cavalos e traziam sal nas crinas e memória de flores perfumadas. Eram
sete e saltavam sobre a relva e corriam como o vento e partiam anunciando a
chegança de barcos e mais barcos e mais barcos abarrotados de horizontes e mais
horizontes e mais horizontes. Eram sete barcos e setecentos horizontes montados
sobre sete cavalos que traziam sal nas crinas e memória de perfumadas flores.
Eram sete cavalos com olhos de chuva e patas de areia. Eram sete cavalos que
como o Atlântico suportavam o peso de setecentos barcos e sete mil horizontes.
Eram sete cavalos com olhos de noite e neblina navegando no rio de nossos
corações. Eram setecentos mil rios dentro de um só coração. Eram águas e águas
e águas e memórias de flores perfumadas que embriagavam os sete cavalos e
arrepiavam suas crinas embranquecidas de sal. Eram nove e meia da manhã quando
ele partiu como um raio que quase não produziu trovão. Vi o céu relampejar de
dentro do fosso escuro em que eu estava. Suei e suei e suei como a tampa de uma
cuscuzeira cozinhando macaxeira num fogão à lenha. Vi seus olhos nos olhos dos
sete cavalos. Vi sua tristeza nos sete horizontes esfumaçados. Vi sua coragem
nos sete mil barcos singrando o oceano de meu coração. Eram nove e meia da
manhã e ele já não estava mais entre nós. Eram nove e meia da manhã e seu
espírito se despediu do seu corpo de quatro patas e pelugem alvinegra e partiu.
Eram sete cavalos embriagados saltitando no pasto e escapando das víboras
venenosas semeadas pelos homens barbudos que vieram nos barcos de além-mar. Era
uma chuva que chegava sempre que brincávamos em volta do fogo. Era uma neblina
tão intensa que nossos olhos se fizeram olhos de noite para sobreviver à
errância. Era domingo e ele já não mais estava entre nós e eu vi teus olhos nos
olhos dele que brilhavam nos olhos dos sete cavalos e eu senti o perfume dele
no perfume que emanava dos sete cavalos e eu guardei a memória dele nos sais de
cristais que esbranquiçavam as sete crinas. Eram sete montanhas, sete mares e
uma moto. Uma medalha de São Bento exorcizava o medo. Uma medalha de São Bento
exorcizava a culpa. Uma medalha de São Bento exorcizava a ausência. Eram sete
estradas feitas especialmente para sete cavalos. Eram sete milhões de anos
reduzidos a um feixe de sete milhões de raios de luz numa manhã de domingo. Tua
dor me tocou a pele. Tua tristeza me tocou os ossos. Te entreguei de volta o
chão que um dia me entregastes e deixei que nele permanecessem os sete cavalos
e a memória de alfazema e sândalo. Meu chão é teu e esse domingo é nosso. Sem
saber estivestes aqui buscando a água da leveza na fonte dos metais pesados.
Sem saber viestes abandonar teus excessos nesta caverna onde tudo é excessivo.
Meus cavalos são teus e teus olhos brilharam nos olhos deles quando ele partiu.
Teu chão te devolvo: com afeto, estima e barcos acostumados aos mares revoltos
por tempestades. Eram nove e meia da manhã quando agarrei a primeira víbora e
com os dentes afiados arranquei fora sua cabeça. Eram nove e meia da manhã
quando saciei minha sede com o sangue dessa víbora e com seu chocalho fiz um
colar para o mais antigo dos sete cavalos. Banhei esse chocalho em alfazema e
sândalo e fiz reluzir toda a memória nele contida. Era um cavalo dócil e com
ares infantis que tempos atrás tu acoplara à tua moto para exorcizar tudo o que
pudesse te fazer dano. Era um cavalo como um cavalo foi Basquiat na primeira
infância perdida de Alice. Era um cavalo exorcista como a medalha de São Bento
e sua inscrição em latim. Era domingo e estávamos juntos em algum lugar que não
era aqui nem acolá, num lugar que era estrada atravessando nuvens e rios
cardíacos em direção ao mar. No meu sonho tua tristeza foi recebida por sete
cavalos que te pediram para deixar ele ir para outro lugar. Em meu destino tu
foste um chão para minhas sementes de ar. Hoje tua tristeza é minha e esse
domingo é nosso até que o atabaque receba o açoite último das mãos
avassaladoras daquele que nunca se deixa revelar.
nuno
g.
Cachoeira,
07 de julho de 2019.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
terça-feira, 30 de julho de 2019
A capoeira do Gomes ou regresso ao jardim dos homens comuns
Acenderam
um primeiro fogo na capoeira atrás da serra. Nenhum deles sabia o nome exato
daquela capoeira e a batizaram como sendo a capoeira do Gomes, era a marca do
atum em lata que lhes serviu de primeira refeição naquela clareira onde fizeram
aquele primeiro fogo e passaram aquela primeira noite sem nada que os separasse
de um céu estrelado e infinito e misterioso e enigmático e cada um deles àquela
noite pensou em tudo o que tinha vivido até então e em cada sentimento que lhes
tocara sentir ao largo de suas vidas antes de finalmente chegarem àquela
clareira e acenderem aquele primeiro fogo e passarem a noite em claro olhando
aquele oceano de estrelas e todos ali sabiam que aquela não era uma simples
noite qualquer como todas as outras e todos ali sentiam no mais íntimo de suas
vísceras e entranhas e músculos e ossos e veias e dentro mesmo da gordura de
seus tutanos e dentro de suas próprias medulas que nada mais seria como antes e
todos olhavam em silêncio profundo e inesgotável aquelas chamas daquele
primeiro fogo e todos pensavam com seus corações contritos e fervorosos que
daqui a pouco o sol iria nascer e esse não seria um nascer do sol qualquer como
todos os outros dias de sol que viveram em suas perambulações secretas pelos
recônditos abismos e pelas crateras insondáveis pelas quais passaram nesses
anos todos em que estiveram vagando por sobre essa terra e pensavam que nunca
souberam nem chegariam a saber por quê raios de coisas vieram parar aqui neste
planeta a carregarem consigo essa estranha veneração pelos abismos e pelo verde
das folhas e pela alegria dos bichos e pelos sonhos e todos os mundos loucos
que se abrem e se revelam nos sonhos incompreensíveis que todos nós carregamos
conosco e as legiões de fantasmas que nos acompanham em longos cortejos que
emergem dos tempos passados e dos tempos anteriores aos tempos passados e dos
tempos anteriores a esses tempos anteriores trazendo consigo estandartes com
símbolos tão antigos que nada na memória daqueles homens lhe permitia capturar
o sentido que tiveram algum dia para os ancestrais de seus ancestrais que os
gravaram em couro pelos campos abertos destes sertões e pelas várzeas que
separam estes sertões do mar esverdeado e das dunas de areias brancas e das
falésias avermelhadas e dos urubus bailarinos que se alimentam de peixes que a
ressaca do mar vomita nas areias da praia. A noite foi fria e aquele primeiro
fogo foi bem mais que providencial, ainda que todos eles estivessem absortos o
suficiente em seus próprios transes e mergulhados com tal intensidade num
ritual pessoal de rememoração que em nada lhes atingia o frio e o fogo lhes
servia mais que qualquer outra coisa de guia e condutor na longa viagem pela
teia de ciclos infindáveis de mortes e nascimentos e outras mortes e outros
nascimentos e outras mortes e mistério e sofrimento e lama e por tudo o mais
que parecia definitivamente perdido e oculto na passagem inexorável do tempo e
agora sim eles entendiam que o tempo guardava sim suas dobras e nessas dobras
repousavam muitas sementes de coisas que até aquele momento pareciam esquecidas
em algum insólito rincão da vasta e efêmera eternidade em que suspenso, como
uma jangada do litoral leste da província do Siará Grande, se encontrava o
ponto minúsculo e insignificante do efêmero instante presente. Ventou muito
enquanto aqueles homens atravessavam com braçadas fortes as camadas
sedimentadas de areias de águas e de tempos: as grandes porções geográficas de
dor, mistério, lama e sofrimento com suas aprazíveis ilhas de alegria, gozo e
serenidade. Ventou muito, mas ninguém deu nenhuma importância a isso. Estavam
todos em transe e quando o sol os arrancou com violência do transe em que
estavam já não eram mais os mesmos. Tiveram que trabalhar duro. Levantar as
choupanas, cobrir com palhas os abrigos clandestinos e varar as madrugadas
recebendo as armas e os alimentos e as flores que lhes chegavam quando a
escuridão se fazia absoluta e cobria tudo com os seus setecentos véus. Não se
olhavam rosto-a-rosto, nunca. Não queriam saber nada uns dos outros, nada. Isso
seria perigoso demais. Era a lei da guerra. Todos ali sabiam que na tortura
toda carne se trai e não saber de nada era a única medida de segurança eficaz
para evitar o infortúnio das traições. Esqueceram os próprios nomes e as datas
dos próprios aniversários. Aprenderam a beber água diretamente do rio.
Aprenderam a caçar, a pescar e a ler os sinais celestes. Foram descobrindo
dentro de si mesmos uma nova humanidade e uma nova maneira de seguir caminhando
sobre a terra e um novo jeito de sentir e de comer e de trepar e de executar
cada gesto do corpo e de olhar e de assimilar cada cheiro novo e começaram a
aprender a falar com as pedras e a escutar as pedras, a falar com o rio e a
escutar o rio, a falar com a noite e a escutar a noite e começaram a entender
que cada um deles era só uma ínfima parte de uma gigantesca teia de seres vivos
interligados uns com os outros por uma enigmática e gigantesca teia de afetos e
de energias e que tudo que acontecesse com cada um deles afetaria diretamente a
todos eles e às pedras e ao rio e à noite e ainda assim sabiam que não deveriam
olhar rosto-a-rosto nem saber o nome nem a data de nascimento nem qualquer
outra coisa que seria caguetada sob a violência covarde dos instrumentos de
tortura espalhados como armadilhas nas rotas incertas dos seus destinos. Comeram
atum em lata e nomearam aquela capoeira com a alcunha de capoeira do Gomes.
Acenderam um primeiro fogo e desceram em botes precários de madeira a cachoeira
das eras e viram coisas de outros tempos e ouviram vozes de outras épocas e
sentiram cheiros de mundos desconhecidos e devoraram alimentos que nunca haviam
vistos e se deram conta que eram feitos de matérias e elementos que nem
imaginavam serem passíveis de existência e caminharam em círculos em volta do
segundo fogo e caminharam em círculos em volta do terceiro fogo e assim por
diante até que perderam a conta e já todos os fogos eram um só fogo que ardia e
queimava e transformava em pó tudo o que precisava ser reduzido à cinzas e eram
muitas as coisas que clamavam por regressar ao seu estado originário, à sua
condição de cinzas. Mas o fogo era também algo perigoso, sua fumaça poderia
denunciar o acampamento, poderia trazer ao coração daquela irmandade os
instrumentos metálicos de morte e de tortura, poderia trazer a ira e a
impiedade e a cólera e o delírio dos obscuros. Os processos corriam seguindo
ritos sumários, a cegueira e o rigor agiam de maneira implacável e as execuções
se converteram em rotina e os deuses que cuidavam da justiça foram ofendidos,
foram insultados, foram condenados ao exílio perpétuo e desde o exílio seguiram
trabalhando e mantiveram vivas suas esperanças e redobraram suas forças e
aprenderam coisas que não sabiam e se lembraram de outras que já haviam
esquecido e viram vagalumes piscando e piscando e piscando e ouviram onças cantando
e cantando e cantando e sentiram as gotas grossas da chuva molhando seus
cabelos molhando suas pálpebras molhando as palhas de carnaúba com que cobriram
o corpo e foram planejando centenas e centenas de pequenas e delicadas
insurreições e foram acendendo milhares de centelhas de pensamentos de revolta
e de angústia e zilhões e zilhões de faíscas de sonhos febris de amor e de
serenidade enquanto as pedras deseducavam cada célula de seus corpos biológicos
e cada sentimento de suas estruturas psíquicas e cada espécie do ecossistema
próprio que servia de habitat às suas indevassáveis individualidades. Tudo isso
se passou atrás daquela serra, dentro daquela neblina. O mês era o de agosto e
chovia muito. A capoeira eu sei bem onde fica, mas não posso te levar lá. No
meio dela, enterrado a sete palmos de fundura, tem uma lata enferrujada de
atum. Isso é tudo o que me foi permitido te revelar hoje. Morte, mistério, dor,
sofrimento, lama e o heroísmo e as pequenas glórias de homens comuns que
decidiram abandonar tudo que já não fazia mais sentido e se reunirem em volta
do fogo e escutarem as línguas da pedra e do fogo e que foram levados por essas
línguas através de ruínas e de paisagens decrépitas e puderam assim sobreviver
àqueles tempos de violência e de instrumentos metálicos de tortura e de
traições gratuitas e de bizarras vulgaridades. Aqueles homens nunca mais seriam
os mesmos. Eles estavam definitivamente alterados. Haviam sido arrancados de
suas órbitas e agora dançavam com a grande serpente e agora sorriam como
crianças e agora sabiam que não haveria mais volta e que o planeta seguia
girando e que eles estavam soltos na via láctea e suas raízes e âncoras haviam
sido decepadas para sempre pela guilhotina implacável do tempo. Isso é tudo o
que me foi permitido te revelar hoje. Isso é tudo. Essa é a parte que me foi
permitido te contar sobre o caminho de dor, sofrimento, lama e pequenas glórias
e pérolas de serenidade que percorreram aqueles homens em sua longa jornada de
regresso ao jardim dos homens comuns. Adiós.
nuno
g.
Cachoeira,
30 de julho de 2019.
sábado, 13 de julho de 2019
Às divindades sequestradas
Descumprimos as prescrições,
esquecemos as oferendas, rompemos as interdições. O céu se fez vermelho de
sangue e a água dos rios ferveu como nos primórdios da criação. Foi longo o
caminho que levou os decaídos ao poder e durante este tempo nós estivemos
festejando. Nos distraímos, deixamos de lado nossas abluções. Eles foram
crescendo, ganhando espaço a pulso, infestando o labirinto de pulgas, piolhos e
ratos. Quando acordamos já era tarde e não havia ar que não estivesse
contaminado e então nos demos conta que nosso fogo estava apagado e enquanto
dançávamos esquecemos de alimentá-lo. Dormimos em demasia, não acendemos as
velas necessárias e deixamos o incenso mofar. Eles procriaram em tempo hábil,
cumpriram todas as normas e os prazos, se apossaram do pouco que havíamos
guardado e nos olharam com olhos de escárnio. Invocamos a chuva e a chuva não
veio, desaprendemos a extrair o sal das pedras, dos vegetais e das águas do
mar. Eles nos ofereceram risadas de escárnio. Foram apagando as luzes do
labirinto até que tudo estivesse em completa escuridão. E nós, encurralados
pela quantidade excepcional de feras baixamos as cabeças e fomos desfazendo
nossos pactos antigos. Entregamos tudo. Nossas roupas, nossos alimentos, nossos
utensílios de higiene e, por último, nossa preciosa dor. Eles queimaram nossas
flores, escarraram em nosso jardim e pisotearam nossa horta. Eram muitos e
traziam no semblante a memória da peste. Eles eram rudes e gravaram em nossa
pele a memória da peste. Eles sabiam à morte e foram implacáveis com os nossos
anos de descaso. Nossos membros estavam atrofiados e nada havia para colher nos
campos que não havíamos semeados. A voracidade com que se apossaram de tudo não
nos permitiu reação, estávamos atônitos e o único que nos restava era uma
inútil catarse. Vimos os faróis de seus automóveis cruzando as avenidas. Vimos
os faróis de seus automóveis se alastrando pelas ruas menores. E quando os mais
violentos deles se espalharam como brasas pelos becos de nossas vilas e aldeias
entendemos que já era demasiado tarde e não nos restava mais nada além das mãos
com as quais escrevíamos palavras confusas e versos desconexos no ar gelado que
escapava da boca deles e dominava a atmosfera. O preço da nossa distração
estava sendo cobrado com mais juros e correção do que havíamos imaginado. A
chuva não chegava. Nada crescia nos campos. A peste se propagava entristecendo
todos nossos animais. Entregamos tudo enquanto dançávamos. Deixamos de orar e
de vigiar quando orar e vigiar era o que mais necessitávamos. Nossas casas
estavam tomadas pela umidade e pelo musgo e não mais nos servia de abrigo.
Estávamos nus caminhando sobre a terra arrasada e o único que víamos era uma
que outra catarse desnecessária. Eles exibiam nos cumes das montanhas suas
novas habilidades. Eles executavam com perfeição seus malabarismos obedecendo à
exatas equações matemáticas que desconhecíamos as fórmulas e as composições.
Quando um de nós caía, exausto pela jornada, eles se limitavam a escarrar sobre
o cadáver. Quando um de nós chorava, tomado pelo clamor ante a certeza do insuportável,
eles se limitavam a escarrar sobre estas lágrimas. Fomos fúteis e o preço de
nossa futilidade estava sendo cobrado. Eles vinham de longe e traziam a força
que acumularam enquanto nós deixávamos escapar entre os dedos as sementes que
nos foram ofertadas. Vimos as máquinas metálicas chegando e destroçando os
gravetos de nossas barricadas. A nossa língua, reduzida à máxima vulgaridade,
se revelava incapaz de comunicar o que sentíamos e o que pensávamos. O
labirinto era deles e os minotauros dominavam toda a terra. Não havia onde se
esconder, não havia onde se ocultar. Nossos pensamentos estavam congelados,
nossos músculos estavam paralisados, nossos desejos estavam enfermos e nossos
sonhos haviam se convertido irremediavelmente em pesadelos que não conseguíamos
decifrar. Escrevíamos frases sem sentido no ar e essas frases se convertiam em
nossos novos e imprevistos algozes. Escutávamos o ressoar dos chicotes que
açoitavam a tristeza de nossos pequeninos animais domésticos abatidos sobre a
terra arrasada. Eles imprimiram seus selos esotéricos por todas as partes. Eles
ofereciam nosso sangue à sede das perversas entidades que lhe acompanhavam. E a
sede era infinita assim como infinito era o séquito dos seres decaídos que lhe
acompanhavam. Nossos dedos atrofiados queimavam antes de tocar o ar onde
pretendiam escrever qualquer coisa que nos salvasse. Todos os roteiros haviam
sido queimados. Todas as bússolas estavam desnorteadas. Eles davam o compasso.
Eles imprimiam o ritmo. Eles zombavam de todo o tempo em que distraídos
assistimos a dissolução dos reinos circulares. Buscávamos ervas para cozinhar
um chá e não as encontrávamos. Buscávamos chão para enterrar os náufragos e
chão não havia. Eles eram muitos e estavam por toda a terra. A nossa aflição
era imensa e o sol não dava conta de evaporar o mar de lágrimas em que
estávamos mergulhados. Nossas crianças nos olhavam com olhares de súplica e
nenhuma reação nossa era capaz de aplacar desespero tanto. Tamanha era a ferida
que não cicatrizava. Não havia remédio, não havia consolo, não havia estação
onde repousar nossa tormenta. Eles estavam dentro de nós, circulavam por nossas
veias e artérias e se apossavam de nossas múltiplas terminações nervosas. Eram
falanges e falanges e falanges incontáveis. Traziam a memória sem-fim de nossos
crimes de nossos pecados de nossas inércias. Conheciam nossos pontos fracos e
atacavam sem trégua ou piedade. Cortaram nossos cabelos, deceparam nossas
cabeças e ofereceram nosso sangue aos bastardos de todas as eras. O futuro era
deles e isso nos ensinavam enfiando à estocadas espinhos afiados em nossos
corações aquáticos. Desaprendemos a dançar. Desaprendemos a rezar.
Desaprendemos a simplicidade de nossas primeiras brincadeiras. A peste se
espalhava. Os piolhos nos devoravam. Nossa carne, inflamada por tudo que não
havíamos feito a tempo, fedia como fedem os esgotos das grandes cidades. Eles
sequestraram nossas divindades. Era a última parte do plano que com a frieza de
um dramaturgo perverso e audaz executavam à luz do dia. Nada tinham a esconder.
Nada temiam. O mundo era deles e só nos restava ajoelhar perante a obscuridade
que os sustentava. Nossas mãos tremiam como varas verdes. Nosso umbral de areia
movediça nos tragava sem que pudéssemos sequer assimilar as desrazões e as suspeitas
que nos conduziram até agora. Os incensos não ardiam. As velas não queimavam.
As canoas não se sustentavam sobre as lâminas de água. O veneno não aderia às
flechas. Nossos animais não mais brincavam em nossos jardins. Eles haviam
sequestrado nossos deuses e agora era tarde. Eles haviam sequestrado nossos
deuses e o aqui se convertera num campo próspero e fértil à proliferação de
toda a miséria. A tristeza corroía nossas almas e a cegueira em que nossa
distração nos mergulhara se desfazia junto às ilusões que nos permitiram seguir
vivos. A embriaguez passara rápido demais e a realidade se apresentava com uma
crueza inédita e uma crueldade despovoada de qualquer máscara ou disfarce e
isso nos parecia insuportável. O labirinto era deles e apagado foram todos os
fios que poderiam nos conduzir para além do vale de medo, culpa e lágrimas em
que estávamos mergulhados. O que estava acontecendo não podia ser real, mas
sabíamos que se tratava da única realidade possível. Nossa angústia os
alimentava. Nossa paralisia os enchia de gozo e prazer. Todas as possibilidades
estavam reduzidas a nada. Todas as esferas imaginárias que abasteceram nossas
necessidades energéticas se desfizeram no ar ao simples contato com o bafo
deles. A descrença povoou nossos reinos circulares e toda nossa fé se revelou
ser um amontoado de quimeras tolas e fantasias inúteis. Eles sorriam. Eles
cuspiam. Eles esbravejavam. Tudo era escárnio. Tudo apodrecia. Tudo se
dissolvia. Tudo nos aniquilava. Já havíamos passado por tudo aquilo, mas
havíamos nos esquecido. Não era a primeira vez que eles venciam a batalha. Não
era a primeira vez que nos despojavam de tudo o que nós éramos. Não era a
primeira vez que nos víamos reduzidos a nada. Mas havíamos nos esquecido de
tudo isso. Havíamos esquecido da façanha do Alecrim. Havíamos esquecido da
chuva de asteroides. Havíamos esquecido das memoráveis batalhas. Estávamos em
transe e eles estavam dentro de nossos corpos. Estávamos em transe e eles
estavam dentro de nossos sonhos mais íntimos. Estávamos em transe e as
trombetas deles não nos permitiam escutar nenhuma canção de ninar. As ondas do
mar de fogo chegavam aos nossos pés como outrora chegava a alegria de nossos
doces animais domésticos. A ira deles era maior que nossa esperança. As feras
estavam soltas e o campo tornara-se um lugar terrivelmente perigoso. As
borboletas sucumbiam à bestialidade dos indevassáveis. O silêncio de nossas
divindades nos evaporava e cada segundo se estendia ao infinito e prolongava o
terror que nos açoitava. Nossas armas não funcionavam. Nossas preces voltavam
ao lugar de origem como bumerangues enfeitiçados. Nossos cotovelos estavam
mergulhados em lagos de ácidos e os mais perversos e insensatos demônios
circulavam sem resistências ou obstáculos pelas ruínas do que outrora foi nossa
floresta sagrada e nossos templos adoráveis. Implorávamos por chuva e a chuva
não chegava. Implorávamos por um lugar de descanso e lugares de descanso não se
apresentavam. Desejávamos um instante de trégua, mas instantes de trégua no
horizonte não surgiam. Éramos cada vez mais menos e estávamos acossados. Nossos
pés estropiados pelos paralelepípedos não encontravam forças para seguir. Não
havia para onde ir. Não havia onde se esconder. Nossa jornada chegara ao fim.
Eles venceram. Eles dominaram o labirinto. Eles nos impuseram suas sentenças e
as executaram com a frieza de um dramaturgo amaldiçoado e ressentido. Nossos
caminhos estavam fechados e nossas oferendas não eram recebidas pelo senhor de
todas as encruzilhadas. Nossas mãos tremiam. Nossa carne queimava em brasas.
Nossos sonhos estavam convertidos em pesadelos indecifráveis. Nossas crianças
nos olhavam com aflição e nós não encontrávamos reação que as apaziguasse.
Nossos animais estavam enfermos e morriam sem que encontrássemos maneira de
confortá-los. Tudo nos recordava que era tarde demais e que todo nosso otimismo
se perdera irremediavelmente no coração das trevas. Tudo nos recordava que era
tarde demais e que nossa terra prometida se perdera na fugacidade do vento.
Tudo nos recordava que só nos restava o vale de lágrimas das antigas profecias.
Tudo nos recordava a supremacia deles. Tudo nos recordava a nova hegemonia.
Tudo nos recordava o tempo que desperdiçamos celebrando o que ainda não
possuíamos. Tudo nos açoitava e a aflição de nossas crianças multiplicava a
nossa dor. O selo deles estava impresso em cada sinal da peste que se abatia
sobre nossos animais. A nossa horta estava morta. O nosso campo se transformara
num piscar de olhos numa terra árida e a sequidão dela se entranhava em cada
célula dos novos corpos que habitávamos agora. Fazia frio e não encontrávamos
agasalhos. Tínhamos fome e não encontrávamos alimentos. Queríamos orar e
vigiar, mas nos foram roubadas as palavras e os gestos. Nossa jornada chegara
ao fim e sequer podíamos recordar dos apocalipses anteriores pelos quais
havíamos passado. Tudo estava reduzido à cinzas. A nossa dor era imensa, a
nossa devoção não encontrava alvo. Como um bumerangue o nosso descaso e as
nossas pretensões retornavam ao vazio onde floresceram. Eles sequestraram o que
éramos. Roubaram de nós o que fomos. Apossaram-se de nossos corpos e alteraram
irremediavelmente nossa capacidade de sentir. Eles se fizeram a matéria com a
qual poderíamos moldar o que viríamos a ser. Eles se tornaram o que somos.
Nossa distração os fez crescer. Nosso esquecimento os alimentou. As brasas do
ódio que trouxeram consumiram nossa imaginação. Eles eram muitos e se
reproduziam como vermes sob a lama. Nossa impotência se fez maior que a nossa
capacidade de veneração. E as doenças se alastraram por nossas vilas e aldeias
sem que sequer chegássemos a compreender as desrazões do que ocorria. Era tarde
demais. Queríamos morrer e a morte não chegava. Queríamos desistir e os nossos
corpos já não obedeciam. Queríamos descer uma terceira vez aos infernos e as
portas dos infernos não se abriam. Nossos desejos estavam distantes demais da
realidade e eles haviam se convertido em realidade numa velocidade rápida
demais. Andamos distraídos por muito tempo e isso era imperdoável. Eles eram
implacáveis e aprendemos isso da pior maneira possível. Eles eram senhores das
nossas náuseas moribundas e nossas náuseas eram tudo o que nos restava. Nossos
corações sangravam e não havia remédio que estancasse a sangria desatada. A
noite seria longa e tenebrosa, só a inércia movia nossos passos pelos caminhos
de trevas que adentrávamos. Não havia estrelas no céu. Não havia ciclos lunares
a nos orientar. Não havia astros se movendo na abóbada celeste. Nossas velas
não acendiam. Nossos incensos não perfumavam. Nossa distração e nosso
esquecimento não eram perdoados. O vale de lágrimas se expandia sobre a terra
prometida como um buraco negro se expande num universo recém-parido por uma
divindade sequestrada. Nossos membros não obedeciam a nossos comandos. Nossos
sentimentos não correspondiam às nossas necessidades. Nosso espírito não
habitava nosso corpo e nossas mentes se dispersavam como uma boiada que
atravessa uma terrível tempestade. As feridas não cicatrizavam. Não tínhamos
ervas para cozinhar os chás. O nosso medo alimentava a voracidade dos que nos
consumiam. Estávamos enferrujando e nossos ouvidos não suportavam os ruídos que
produziam o movimento de nossos corpos oxidados. Era tarde demais. Eles beberam
nosso sangue. Eles comeram nossa carne. Eles torturaram o nosso sol até a
morte. Eles nos deixaram vivos apenas pelo sádico prazer de assistir a nossa
procissão se arrastar eternamente nessa árida terra que nos ofertaram. Fomos
nos transformando em escamas de um lagarto sem órgãos. Fomos nos transformando
numa serpente inútil que vaga sem direção buscando as asas que lhe foram
decepadas. Fomos transformados em esqueletos descarnados que com suas pupilas
dilatadas vociferam às margens de ilhas brutalmente dissecadas. E como
desejando com incalculável avidez romper de maneira total e irreversível qualquer
elo entre nós e nossas expectativas chegaram os cavaleiros leprosos das galáxias
ocidentais e montaram seus acampamentos e ceifaram os vestígios da última e
mais primitiva de todas as constelações que por séculos e séculos houvera sido nosso
acalanto, nossa promessa, nossa aprazível morada.
nuno g.
Cachoeira, 13 de julho de 2019.
quarta-feira, 3 de julho de 2019
Visão agônica de um cavalo branco relinchando na neblina ou os cem mil degraus da escada espiralada no interior da roda de samsara
para os que chegam
quando cessam as tempestades
Assentei
um santo neste chão de barro quando tinha onze anos. Assentei um santo neste
chão de barro quando tinha onze anos e fiz dele o fundamento do destino todo.
Assentei um santo neste chão de barro, enterrei seu corpo e com a fúria de meu
joelho esquerdo soquei esse mesmo chão de barro. Soquei este chão de barro até
que em pedra se fizesse o barro deste chão onde assentei um santo quando tinha
ainda onze anos. E quando em pedra se converteu esta parcela de chão de barro
nela esfreguei esse meu joelho esquerdo que de tanto atritar nesse chão de
macio barro transfigurado em áspero mineral jorrou sangue como em Caldas do
Jorro jorra termal água. E esse sangue que jorrou de meu joelho esquerdo
irrigou cada veio do áspero mineral que outrora fora macio barro. E de cada
veio desse chão de pedra que um dia fora chão de barro floresceu uma flor negra
que por intuição e ignorância batizei de tulipa de mil fogos. E em cada uma
dessas flores negras que por intuição e ignorância batizei de tulipa de mil
fogos surgiram mil pétalas que na forma na textura e na viscosidade se
assemelhavam a mil línguas de algum animal selvagem. Reparei que meus pelos se
arrepiavam à simples proximidade dessas pétalas que pareciam línguas que
cresceram em flores negras que batizei de tulipas e que nasceram da pedra em
que se converteu o barro com que enterrei o corpo do meu santo e todos os seus
íntimos pertences. Acendi uma vela, acendi um incenso, rezei em língua que
desconheço a gramática, a sintaxe, a fonética e a origem. Os hieróglifos que
gravei nesta pedra com o sangue que jorrou de meu joelho esquerdo eram a
transcrição de um canto muito arcaico e severo. Os hieróglifos que gravei nesta
pedra áspera com o sangue que jorrou de meu esquerdo joelho em chamas eram a
transcrição musical do uivo de três indecifráveis onças selvagens pertencentes
a distintas raças e habitats. Uma era parda, outra era russa e a terceira
pintada. Cada uma delas trazia gravada em cada pata uma digital inusitada. A
primeira trazia como selo uma espécie de cruz duas vezes cortada e que na raiz
trazia um círculo que não se fechava. A segunda trazia uma chave enfeitiçada
que cambiava de cor a cada mirada e que parecia feita de movediça areia de tal
maneira que sua embocadura se movia como águas de maré. A terceira trazia uma
pirâmide que de tão branca meus olhos identificaram rapidamente como sendo
feita de sal. Com essas patas imprimiram essas onças selvagens todos os
arabescos que envolvem os hieróglifos que inconscientemente eu gravara naquela
pedra em que se convertera o barro da parcela de chão onde assentei meu santo e
todos seus pertences íntimos forjando assim o fundamento e o labirinto daquele
que viria ser meu inescapável destino. Acendi nessa pedra uma vela e sua chama
era azul. Acendi nesta pedra uma vela e de sua chama azul escapavam faíscas
azuis. Acendi nesta pedra uma vela e na lâmina das faíscas azuis que escapavam
de sua chama também azul vi refletidos os olhos da primeira onça, a parda. Seus
olhos eram da cor das esmeraldas verdes que os navios negreiros contrabandeavam
da África e desembarcavam nos portos destas colônias onde seguimos assentando
santos e convertendo em ásperas pedras macios chãos de barro. Acendi uma
segunda vela e vi os olhos da segunda onça e estes eram brancos como são
brancas as hóstias imaculadas depois de pelas mãos do vento consagradas. Acendi
uma terceira e derradeira vela que possuía uma cera que ao invés de parafina
era constituída por átomos e moléculas oriundas de distintos objetos
astronômicos amalgamados por uma seiva escura de forte odor e sabor forte que
em muito me lembrava a resina de uma planta amazônica que um pajé de beiços
esticados me ensinara num sonho que tive em algum momento de minha primeira
infância. Assentei um santo neste ponto exato, suspenso no meio do nada e
equidistante de toda e qualquer estrela de nossa humilde galáxia. Assentei um
santo neste sertão e como não tinha lágrimas o reguei com sangue, com esperma e
com a primeira saliva do amanhecer. O sangue se fez flor, do esperma nasceram
as três onças e a saliva cristalizou como cristaliza o mel das jandaíras em sua
mais primitiva florada. Desses cristais me alimentei por anos alternando épocas
de voracidade e parcimônia. Desses cristais retirei as substâncias que me
compõem e que formataram este corpo tal como se apresenta hoje. Nunca utilizei
outra ferramenta para colher esses cristais que não as próprias mãos e, por
escassez permanente de água, nessas mãos sempre havia algo de poeira algo de
suor algo da indevassável e inquebrantável veneração pelo santo assentado neste
chão de barro. Esqueci de tudo, menos disso. Me afastei de todos, menos deste
santuário de barro em pedra transubstanciado. Minha fé, meu coração e todos os
palimpsestos que produzi foram sendo ali depositados. Minha fé, meu coração e
esses palimpsestos todos foram se sedimentando de acordo com seus pesos suas
texturas e a substância de suas cores e vontades originando esse santuário. Mil
foram os degraus que eu percorri no interior deste labirinto. Mil foram os
náufragos que eu vi serem engolidos pela ausência de águas. Mil foram as
serpentes que encontrei decepadas nas margens dos degraus dessa escada
espiralada. Mil foram os dias que se passaram desde que assentei aquele santo
neste chão de barro. Mil foram os anos que se passaram enquanto eu
intencionalmente arranhava meu joelho esquerdo nesta pedra áspera. Mil foram as
lágrimas que não chorei. Mil foram as ausências que se transfiguraram em mil
fantasmas e cada um deles era portador de mil presságios. Nunca cortei os
cabelos, nunca fiz a barba. Tive mil corpos, habitei mil moradas. Sangrei como
goza um vulcão quando em erupção sente esvaziar-se do insuportável calor do
magma em estado líquido. Sangrei como um bode sacrificado na sombra de uma
oiticica em homenagem ao nascimento de uma criança. Sangrei como sangra um
cometa ou um asteroide que desgarrado de sua órbita se decompõe ao se aproximar
da atmosfera de algum planeta. Sangrei como uma fada de pulsos abertos quando a
borboleta das terras geladas do norte lhe rói a pele, os cílios e os ossos.
Sangrei como sangram as onças selvagens quando sonham com seus ancestrais que
viveram o tempo da chegança dos conquistadores com suas carabinas, suas
cegueiras e o relinchar ensurdecedor de seus cavalos. Sangrei e suei, suei e
sangrei. E o meu corpo se fez pífano. E o meu joelho se fez abismo: buraco
negro, ferida aberta e permanente cavilação. E o meu corpo se fez mangue e de
mangue foi se transformando em semi-árido e logo regressou a ser sertão. E o
meu corpo seguiu pulsando em absoluta arritmia e foi se desfazendo de suas
folhas de suas cascas e de todas as cicatrizes por ele espalhadas. O meu corpo
se tornou abruptamente florescente e começou a irradiar ondas de mil cores. O
meu corpo se fez chão de barro se fez chão de pedra se fez onça parda se fez
onça russa se fez onça pintada. O meu corpo se fez corpo do santo por minhas
mãos assentado. O meu corpo se fez canto se fez olho e se fez cera de espécie
rara. O meu corpo se fez assentamento, destino e fundamento de uma tragédia
silenciada. Enfim, o meu corpo se fez nada e desprovido de corpo pude regressar
ao leito pedregoso do rio seco que foi minha primeira morada. Desprovido de
corpo pude regressar até onde, apesar de nunca ter saído, nunca havia estado.
Desprovido de corpo pude outra vez abraçar as pessoas por quem nutria algum
afeto. Desprovido de corpo pude brincar de ser vegetal e sonhar os sonhos
selvagens que só os vegetais podem sonhar com plenitude. Desprovido das
ausências sedimentadas de meu santuário fui separando os grãos de poeira e as
gotas de suor em minhas mãos acumuladas. Minha mãe, meu pai e o gavião foram os
primeiros órgãos que voltaram a ganhar forma. E eram formas de unhas de algum
predador já extinto. Eram unhas negras, roxas e afiadas como nenhuma outra lâmina
neste mundo tenha sido vista. Eram unhas que feriam fundo a carne e sentiam
imenso prazer em atravessar as camadas de pele, músculo e gordura das presas
que caçavam. Rompiam veias, nervos e artérias com a mesma facilidade com que
uma faca quente atravessa um tacho de manteiga. Foi destas unhas que voltei a
nascer. Elas foram o embrião deste novo corpo que agora se apresenta. Minha
mãe, meu pai e o gavião. Os três dispostos numa encruzilhada numa tal forma que
denunciava todo o carinho investido na preparação daquela oferenda. O segundo a
nascer foram os joelhos e depois os cotovelos e depois os pulsos e todas as
dobradiças do novo corpo. Depois o sangue depois o sêmen depois o suor e depois
todos os líquidos. Quando enfim senti que tinha novamente língua lambi minha
nova pele e senti o seu sabor. Quando enfim senti que possuía dentes outra vez
mordi e mastiguei meus próprios músculos a fim de reconhecer seu sabor. Quando
senti uma vez mais narinas no meio da imensidão da cara ainda sem rugas cravos
ou espinhas aspirei todo o oxigênio do universo e gozei com a ardência deste
oxigênio ocupando os vácuos de minhas entranhas. As montanhas eram enormes, o
mar era imenso e o meu novo corpo era pequeno como o corpo de uma formiga. As
montanhas eram enormes, o mar era imenso e o meu corpo era escuro como o
não-lugar onde enterrei o corpo de meu santo e seus pertences íntimos. Tudo
estava fora do lugar e só sobrevivera meu destino e meu fundamento. As flores
negras e o canto das onças. As montanhas e o mar. O sangue e o suor. A matilha
de espíritos decaídos em sua jornada solitária pela terra do invisível. Os
fragmentos de astros desfeitos na implosão que se seguiu à sua entrada na
órbita de nosso miserável planeta. E aquelas unhas fantasmagóricas parindo meus
novos corpos que se alinhavam em fila indiana como se fossem membros de alguma
corte marcial de zumbis produzidos pela magia do vodu. Minha testa se inclinou
até a pedra e suavemente se deixou arranhar por sua aridez. E durante mil anos
minha testa sangrou ao atrito com a pedra que um dia foi barro, onde um dia
assentei meu santo. Até que a pedra tocou meu crâneo e descobriu que este era
feito de matéria mais dura que ela. E como se fosse uma broca de diamante meu
crâneo foi comendo a pedra e esta foi esfacelando em grãos de areia que em
seguida se transformavam em macio barro. E quando nada mais restava que não
fosse barro acendi uma vela e um incenso. Vi onças, flores negras e úmidos
cristais. Comi os cristais com as mãos como um dia havia comido o feijão de
Ogum. E enquanto comia os cristais sentia minha pele se arrepiar como se
arrepiara cada vez que eu me aproximara das flores negras que batizei de
tulipas. Ouvi as onças cantarem e vi os invasores chegarem com suas carabinas e
sua sede inextinguível. O cavalo branco ainda relinchava na neblina e meus pés
haviam percorrido os cem mil degraus da escada espiralada no interior de
samsara. Estendi a mão e levei meu último corpo até o chão de barro onde quando
tinha onze anos assentei um santo. Ele disse adeus, uma lágrima escorreu pela
minha face e sem dizer palavra nenhuma me recolhi ao silêncio fulgurante de um
sol completamente desconhecido suspenso num mar de éter, desprovido de
fundamento, de destino e de qualquer promessa ou raiz que lhe conferisse
lógica, sentido ou razão.
nuno
g.
Cachoeira,
01 de julho de 2019.
terça-feira, 28 de maio de 2019
sem título
por amor
obrigaram-me a ajoelhar
e escancararam-me o corpo
fazendo de mim
parte da coletiva oferenda
eternamente
estuprada
por este
falso branco
Francisco Welligton Barbosa Jr
quinta-feira, 23 de maio de 2019
إلى حمار-ب
¿
هكذا
إذًا
لِ
نجعل
من
أرضنا
أرضًا
موعودة
ولِ
نجعل
من
أرض
بوليفار
قطاعَ
غزة
و
من
صعيد
البيرو
ضفة
غربية
?
نونو ج.
tradução: Shadi Rohana
هكذا
إذًا
لِ
نجعل
من
أرضنا
أرضًا
موعودة
ولِ
نجعل
من
أرض
بوليفار
قطاعَ
غزة
و
من
صعيد
البيرو
ضفة
غربية
?
نونو ج.
tradução: Shadi Rohana
quarta-feira, 8 de maio de 2019
O jardim dos baobás
Nossos passos, nossas promessas e
o suor dos nossos
corpos
saindo de casa forte ao meio-dia e
caminhando em
direção ao antigo
sem nenhuma morbosidade no ventre ou
no olhar
meu ex-apartamento,
meu ex-marido e meu
pânico de lagartixas
as crianças burguesas brincando no parque da
jaqueira
o tédio estampado na cara dos porteiros dos
arranha-céus
os automóveis se arrastando no asfalto e dando voltas
sobre si mesmos
meu segundo
ex-apartamento, meu segundo ex-marido e meu
eterno pânico de lagartixas
o rio pedindo socorro e zombando dos
sorrisos que o
aniquilam todos os dias
as sirenes domingueiras, os semáforos domingueiros
as famílias
domingueiras empurrando carrinhos de bebês
e se
empanturrando de doces e guloseimas domingueiras
Nossos passos chegando ao Derby e
descansando da
pressa contida nas
derrotas da
vida toda
sua mão acariciando minha suave ereção espontânea
sua mão acariciando a fauna e a flora
deste repositório
de agudas infecções
a juventude protestante passa entoando cânticos de
louvor à própria
desgraça
o fiteiro nos regala uma água com gás bem gelada
simpáticos policiais nos dizem boa tarde
professores universitários e taxistas cegos e profissionais
liberais
disputam cada
centímetro de asfalto
com uma
voracidade miserável
fotografias publicadas diretamente no instagram e nas
orelhas dos
livros que aguardam por ser escritos
minha mão acaricia sua buceta
meu ex-apartamento,
meu ex-marido,
meu pânico de lagartixas
uma segunda ereção espontânea e
vendedores de
mapas para personagens de fábulas
Nossos passos tocando o mistério encravado nas unhas de glitter
da avenida conde
da boa vista
as crianças burguesas brincando no parque
a saudade
mastigando o terror e a
carcaça dos
inimigos destroçados
o sangue ainda fresco – apesar dos
quarenta anos
passados – avermelha a quentura do asfalto...
as coxas brancas, o sonho branco,
o sêmen azulado
expostos à
curiosidade dos infames
jornalistas de plantão
expostos à curiosidade infame dos
desavisados
transeuntes
expostos à miséria moral dos disfarces carnavalescos...
a juventude protestante enchendo nosso saco
com seus cânticos
desgraçados
o rio gritando por socorro
minha ex-morada, meu
ex-bancário aposentado,
minhas lagartixas de estimação se
alimentando dos cupins do armário
os ônibus, as bicicletas e as notas de rodapé
destes edifícios
nos olhando com suas enormes e assustadoras
pupilas
dilatas
o cinema, o rio e o martírio dos heróis de 17 nos olhando
com seus cabelos
assanhados
– aos pés de qual destas pontes estará
a famigerada
estátua?
a qual destas nuvens me levará esta
escada
espiralada?
quem deterá o apodrecimento irreversível
desta cidade de
siris e homens pálidos? –
o fiteiro nos regala uma água com gás
suficientemente
gelada
alimentamos os pombos com pipocas
enquanto vemos as
florzinhas universitárias
ensaiando
passos de frevo requentado
& um cortejo de eguns desfilando
ao som de um
maracatu rural
Nossos passos, nossos pensamentos, nossos ancestrais
se arrastam em
direção ao pátio do terço
onde três anos atrás conversei com uma pomba-gira alucinada
tuas mãos lambuzadas de dendê & leite maltado
agarram meu pau
como quem
agarra a voz
do oráculo antes que ele pronuncie
qualquer
palavra
a feirinha com seus pratinhos de
cuscuz macaxeira
e charque e
suas
bonequinhas de pano
e seus
yodas vestidos de frade
– aos pés de qual dessas pontes
estará a estátua?
–
águas, edifícios, velas, siris contaminados,
calçadas
ensanguentadas
minha mão alisa sua bunda e suas unhas traçam arabescos
indecifráveis na pele que
reveste minhas
omoplatas
escarro na tua boca e te beijo enquanto você sorri com uma
ferocidade delicada
é linda a cidade que
eu escolhi para amar
dez reais um acarajé sem cadáveres
pipocas aos pombos e facções de jovens se degladiando entre
as
esculturas
soníferas de Brennand
minhas dívidas saltando como
rãs e formulários
e formulários e formulários
se acumulando
na minha caixa de imails há anos abandonada
as bonequinhas de pano me olhando de soslaio
enquanto minha
borboletinha se refresca
na cachoeira
da solidão em alguma praia da ilha do desterro
uma terceira e última ereção
neste calvário
nesta peregrinação de lábios em busca dos lábios de uma
estátua
tua carne ardendo – acesa pela selvageria das tapas recebidas na madrugada passada
Nossos passos, nossas mãos, nossa franciscana devoção
amordaçando o
oráculo improvisado e
todas suas
bestiais palavras sobre sacrifícios
sobre futuros e
sobre
o nada
recorremos a Ascenso Ferreira,
mas ele é só uma
escultura de bronze e
esculturas de
bronze não proferem palavras
recorremos ao fiteiro,
mas fiteiros só
regalam gasosas engarrafadas
recorremos à moça que passeia distraída,
mas a moça só
sabe de drogas sexo & farra
jogamos pipocas aos peixes que
sobrevivem em
meio ao distúrbio agourento
destas premonitórias águas
e disparamos projéteis, asnos, insultos, lagartixas,
psiquiatras e metáforas
contra uma
ansiosa réplica abandonada do tradicionalíssimo galo da madrugada
tomamos uma limonada com sal e
dispensamos os
ansiolíticos
enquanto você
se diverte redefinindo as
angustiadas fronteiras de minhas cicatrizes inflamadas
por quê já não mais
aqueles tapas na minha cara?
as paredes pintadas do estacionamento da
católica
universidade
as portas fechadas do bar central
o baobá imperial às margens do rio que sussurra em guerra
contra essa cidade que
há séculos e
séculos e séculos o estrangula o asfixia o esmaga
holandeses, judeus, árabes e mercenários de origens
imaginárias
saltitam como
coelhos endiabrados por todas as partes dessa cidade
adoradores do profeta em verniz de ébano carregando cântaros
abarrotados de águas
traficadas do rio
oxum
onde se
afogam ratazanas com dentes e orelhas cor de
esmeralda
enquanto o sol vai se despedindo no horizonte uma vez mais e
nossos silêncios
atravessam de
mãos dadas a ponte Buarque de Macedo e guiados pelas
informações
do google maps se aproximam
finalmente da estátua
– você fotografa, eu reverencio...
um mendigo me solicita um cigarro
e, inevitavelmente, penso:
existe mais filosofia
neste cigarro
que em toda a moral do
cristianismo
pegamos um uber e
regressamos à casa forte,
à sua adorável e
charmosa caixinha de fósforos.
nuno g.
Recife, 06 de maio de 2019.
sábado, 27 de abril de 2019
Posicionamento das lideranças, Xamãs, Pajés e associações da Terra Indígena Yanomami sobre vídeo divulgado na página oficial do presidente Jair Bolsonaro.
Boa Vista, Roraima, 18 de abril de 2019
No dia 17 de abril, o presidente Bolsonaro recebeu indígenas em Brasília. Nós Yanomami e Ye’kwana assistimos ao vídeo divulgado na página oficial do presidente das redes sociais e viemos responder o que foi dito em nome do povo Yanomami.
O Yanomami que aparece falando com o presidente não representa o povo Yanomami. Estamos reunidas 06 associações da Terra Indígena Yanomami, pajés, xamãs e lideranças Yanomami e Ye’kwana. Nós sim representamos o povo Yanomami e Ye’kwana, escolhidos por nossas comunidades para falar em nome delas. Somos mais de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, que vivemos na Terra Indígena Yanomami.
Nós aqui sabemos os nossos direitos. Não somos crianças, somos lideranças e representantes do povo e não estamos sendo manipulados pelas ONGs, como foi falado. Sabemos quem são nossos parceiros. Desde antes da terra ser demarcada eles estavam do nosso lado e continuam defendendo nossos direitos.
O Governo Federal precisa cumprir com seus deveres Constitucionais e garantir os direitos indígenas escritos no artigo 231 dessa Carta Magna: é dever do Estado cuidar da saúde, da educação e proteger nosso território. O Governo deve fortalecer a Funai para que ela tenha condições de trabalhar pelos direitos dos povos indígenas.
Os povos Yanomami e Ye’kwana não vivem pobres, como também foi dito. Nossa riqueza não é poder vender a terra, tirar o ouro. Nossa riqueza é viver bem na nossa terra, a floresta, ter os rios limpos, a saúde do povo. Somos contra legalizar o garimpo no nosso território. O ouro para nós deve ficar embaixo da terra. Queremos renda que vem dos nossos próprios projetos que respeitam nossa floresta, como estamos fazendo em nossas comunidades. Nós somos os legítimos brasileiros, originários da terra, onde nascemos e onde vamos morrer. Não queremos ser igual aos não indígenas. Falando português, podemos virar dentista, advogado, mas o nosso sangue continua Yanomami e Ye’kwana.
Hutukara Associação Yanomami- HAY
Associação Wanasseduume Ye'kwana - SEDUUME
Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes- AYRCA
Associação das Mulheres Yanomami Kumirãyõma- AMYK
Associação Kurikama Yanomami- KURIKAMA
Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima- TANER
No dia 17 de abril, o presidente Bolsonaro recebeu indígenas em Brasília. Nós Yanomami e Ye’kwana assistimos ao vídeo divulgado na página oficial do presidente das redes sociais e viemos responder o que foi dito em nome do povo Yanomami.
O Yanomami que aparece falando com o presidente não representa o povo Yanomami. Estamos reunidas 06 associações da Terra Indígena Yanomami, pajés, xamãs e lideranças Yanomami e Ye’kwana. Nós sim representamos o povo Yanomami e Ye’kwana, escolhidos por nossas comunidades para falar em nome delas. Somos mais de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, que vivemos na Terra Indígena Yanomami.
Nós aqui sabemos os nossos direitos. Não somos crianças, somos lideranças e representantes do povo e não estamos sendo manipulados pelas ONGs, como foi falado. Sabemos quem são nossos parceiros. Desde antes da terra ser demarcada eles estavam do nosso lado e continuam defendendo nossos direitos.
O Governo Federal precisa cumprir com seus deveres Constitucionais e garantir os direitos indígenas escritos no artigo 231 dessa Carta Magna: é dever do Estado cuidar da saúde, da educação e proteger nosso território. O Governo deve fortalecer a Funai para que ela tenha condições de trabalhar pelos direitos dos povos indígenas.
Os povos Yanomami e Ye’kwana não vivem pobres, como também foi dito. Nossa riqueza não é poder vender a terra, tirar o ouro. Nossa riqueza é viver bem na nossa terra, a floresta, ter os rios limpos, a saúde do povo. Somos contra legalizar o garimpo no nosso território. O ouro para nós deve ficar embaixo da terra. Queremos renda que vem dos nossos próprios projetos que respeitam nossa floresta, como estamos fazendo em nossas comunidades. Nós somos os legítimos brasileiros, originários da terra, onde nascemos e onde vamos morrer. Não queremos ser igual aos não indígenas. Falando português, podemos virar dentista, advogado, mas o nosso sangue continua Yanomami e Ye’kwana.
Hutukara Associação Yanomami- HAY
Associação Wanasseduume Ye'kwana - SEDUUME
Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes- AYRCA
Associação das Mulheres Yanomami Kumirãyõma- AMYK
Associação Kurikama Yanomami- KURIKAMA
Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima- TANER
sábado, 13 de abril de 2019
quinta-feira, 11 de abril de 2019
ao Asno-Mor
¿
assim
que
transformar
nossa
terra
em
terra
prometida
é
converter
a
cuna
de
Bolívar
em
franja de gaza
e
o
alto peru
em
margem ocidental
?
nuno g.
assim
que
transformar
nossa
terra
em
terra
prometida
é
converter
a
cuna
de
Bolívar
em
franja de gaza
e
o
alto peru
em
margem ocidental
?
nuno g.
domingo, 7 de abril de 2019
Horas Malditas, por Fagundes Varela
Há umas horas na noite,
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia
Como as horas de Maria
Debruçada aos pés da cruz.
Tredos abortos do tempo,
Cadeias de maldição,
Vertem gelo nas artérias,
E sufocam, deletérias,
Do poeta a inspiração.
Nessas horas tumulares
Tudo é frio e desolado;
O pensador vacilante
Julga ver a cada instante
Lívido espectro a seu lado.
Quer falar, porém seus lábios
Recusam-lhe obedecer,
Medrosos de ouvir nos ares
Uma voz de outros lugares
Que venha os interromper.
Se abre a janela, as planícies
Vê de aspecto aterrador;
As plantas frias, torcidas,
Parece que esmorecidas
Pedem socorro ao Senhor.
As charnecas lamacentas
Exalam podres miasmas;
E os fogos fosforescentes
Passam rápidos, frementes
Como um bando de fantasmas.
E a razão vacila e treme,
Coalha-se o sangue nas veias,
Mas as horas sonolentas
Vão-se arrastando cruentas
Ao som das brônzeas cadeias.
Oh! essas tremendas
Tenho-as sentido demais!
E os males que me causaram,
Os traços que me deixaram
Não se apagarão jamais!
Fagundes Varela
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia
Como as horas de Maria
Debruçada aos pés da cruz.
Tredos abortos do tempo,
Cadeias de maldição,
Vertem gelo nas artérias,
E sufocam, deletérias,
Do poeta a inspiração.
Nessas horas tumulares
Tudo é frio e desolado;
O pensador vacilante
Julga ver a cada instante
Lívido espectro a seu lado.
Quer falar, porém seus lábios
Recusam-lhe obedecer,
Medrosos de ouvir nos ares
Uma voz de outros lugares
Que venha os interromper.
Se abre a janela, as planícies
Vê de aspecto aterrador;
As plantas frias, torcidas,
Parece que esmorecidas
Pedem socorro ao Senhor.
As charnecas lamacentas
Exalam podres miasmas;
E os fogos fosforescentes
Passam rápidos, frementes
Como um bando de fantasmas.
E a razão vacila e treme,
Coalha-se o sangue nas veias,
Mas as horas sonolentas
Vão-se arrastando cruentas
Ao som das brônzeas cadeias.
Oh! essas tremendas
Tenho-as sentido demais!
E os males que me causaram,
Os traços que me deixaram
Não se apagarão jamais!
Fagundes Varela
sábado, 6 de abril de 2019
sonho com rimbaud, por patti smith
sou uma viúva. pode ser em chalerville pode ser
em qualquer lugar. ele caminha atrás da charrua. as
campinas. o jovem arthur se esconde pela fazenda
(roche?). o gerador o poço artesiano. atira cacos de vidro
verde aliás lascas de cristal. acerta meu olho.
estou no andar de cima. no quarto fazendo um curativo.
ele entra. se aproxima da cama. suas faces coradas.
arrogante & mãos enormes. sexy como o inferno. que
aconteceu ele pergunta se fazendo de inocente. inocente
demais. tiro a bandagem. mostro meu olho uma nojeira
sangrenta: um sonho de edgar allan poe. ele se assusta.
atiro à queima-roupa. alguém fez isto. você. ele cai a
meus pés. chora em meu colo. toco seu cabelo, mas
queimo os dedos. densa raposa de fogo. cabelo dourado
macio. aquela inconfundível tonalidade ruiva. rubedo.
espanto vermelho. cabelo do Único.
cristo eu o quero. imundo filho da puta. ele lambe minha
mão. mantenho a calma. vai depressa tua mãe te espera.
ele levanta. está indo embora. mas não sem antes me
olhar com aqueles seus frios olhos azuis de assassino. ele
hesita é meu. estamos na cama. levo uma faca suave à sua
garganta. deixo cair. nos agarramos. devoro seu escalpo.
piolhos do tamanho de dedos de criança.
o caviar do seu crânio.
arthur arthur. estamos em aden, abissínia. fodendo &
fumando. nos beijamos. mas é mais que isso. blues.
charco azulado. mancha à tona da lagoa. percepções
ampliadas, alma vital. baía cristalina. explosão de bolas
de vidro coloridas. rasgadura de tecidos de tenda árabe.
se abrindo, aberta como uma caverna, aberta ao máximo.
rendição total.
patti smith
em qualquer lugar. ele caminha atrás da charrua. as
campinas. o jovem arthur se esconde pela fazenda
(roche?). o gerador o poço artesiano. atira cacos de vidro
verde aliás lascas de cristal. acerta meu olho.
estou no andar de cima. no quarto fazendo um curativo.
ele entra. se aproxima da cama. suas faces coradas.
arrogante & mãos enormes. sexy como o inferno. que
aconteceu ele pergunta se fazendo de inocente. inocente
demais. tiro a bandagem. mostro meu olho uma nojeira
sangrenta: um sonho de edgar allan poe. ele se assusta.
atiro à queima-roupa. alguém fez isto. você. ele cai a
meus pés. chora em meu colo. toco seu cabelo, mas
queimo os dedos. densa raposa de fogo. cabelo dourado
macio. aquela inconfundível tonalidade ruiva. rubedo.
espanto vermelho. cabelo do Único.
cristo eu o quero. imundo filho da puta. ele lambe minha
mão. mantenho a calma. vai depressa tua mãe te espera.
ele levanta. está indo embora. mas não sem antes me
olhar com aqueles seus frios olhos azuis de assassino. ele
hesita é meu. estamos na cama. levo uma faca suave à sua
garganta. deixo cair. nos agarramos. devoro seu escalpo.
piolhos do tamanho de dedos de criança.
o caviar do seu crânio.
arthur arthur. estamos em aden, abissínia. fodendo &
fumando. nos beijamos. mas é mais que isso. blues.
charco azulado. mancha à tona da lagoa. percepções
ampliadas, alma vital. baía cristalina. explosão de bolas
de vidro coloridas. rasgadura de tecidos de tenda árabe.
se abrindo, aberta como uma caverna, aberta ao máximo.
rendição total.
patti smith
sexta-feira, 5 de abril de 2019
1977 – fragmento
o nome dEle é ogum
e foi escrito nas areias da beira-mar
dEle é o céu
dEle é a noite
nEle a verdade do sangue
o nome dEle é ogum
e foi escrito por um frade nas areias da beira-mar
nuno g.
quinta-feira, 4 de abril de 2019
o diamante selvagem (tentativa de lapidação de um delírio)
à memória de josé alcides pinto
o Indecifrável roçou sua pele de algas
e sussurrou-lhe um breve salmo
ele, em êxtase, apenas pôde recordar
rosário, hóstia e língua
e uma suave ardência de
clamor & veneração
meus seios sussurram preces em tuas mãos
sílaba a sílaba, blasfêmia e furor
os meus feitiços roçam os céus de tua fome
sete vezes, Sinal da Cruz, na carne incandescente
trazia nos bicos dos seios duas gotas de lágrimas
e sabia que o sal repousado em seus mamilos
era o único capaz de aplacar o mistério da sua sede
coração curandeiro carniceiro carcará
fareja róseos anjinhos,
lambendo suas rezas, rosários e ladainhas
sete vezes, preparo unguentos, para o amante acometido
sete vezes, tempero a febre, com beberagens e artemísias
os sinais de nascença espalhados pelo meu corpo, as cicatrizes
estremecem os altares, as catedrais góticas do teu sossego
e os teus lábios, em obscena devoção, repetem:
abyssus abyssum invocat
o corpo fendido e fraturado buscando
o corpo eterno e sem mácula do absoluto
chagas em chamas, produzindo um canto
que conserve o rangido de todas as couraças
e todo o inferno das contradições dessa teologia da carne
sua consciência é um pântano
seus nervos foram tocados pela ira das Fúrias.
o meu espírito é devastado pelo Implacável.
a pele, um piano incendiado,
troando uma infernal partitura
o corpo em demolição ainda pulsa
caçando o sangue celestial, a cura.
nuno g & anna apolinário
sexta-feira, 22 de março de 2019
The dead father, por Carl Rakosi
Let me be an old dog in a corner
or a pair of favorite slippers
by your bed
and hear again about your early life
and have you care for me forever.
Carl Rakosi
or a pair of favorite slippers
by your bed
and hear again about your early life
and have you care for me forever.
Carl Rakosi
terça-feira, 19 de março de 2019
as pupilas do marinheiro de Acatitlán
não paro de suar
derreto como um sorvete exposto ao sol
cozinho como um brócolis submetido ao vapor
procuro uma loja de aluguel de fantasias para devolver o disfarce de carnaval mas não encontro
pressinto que ausências prolongadas estão secretamente interligadas a isso
e que vastos túneis iluminados podem me levar a algum lugar
mas não ouço resposta
só o abafado sem-fim do silêncio
germinando como se fosse uma semente proscrita do meu dicionário
se eu não fosse tímido te ofertaria algum desejo perverso
mas existem coisas que só podem ser ditas em táxis com barreiras acústicas
a caminho de aeroportos aos quais nunca mais se regressará
não paro de suar
e meus cabelos ensopados não encontram um gramado para descansar
derreto e reformo meus projetos de anoitecer
a lua tá crescendo
e com ela a memória de uma reclusão casual que parece se estender ao infinito
a minha carne hoje imploraria pela violência de outra carne
se não estivesse tão ocupada em afastar de si
todas as obrigações
não paro de suar
e de pensar em como seria abrir as janelas da casa e permitir a entrada do vento
a minha carne explode como a pupila de uma flor selvagem
abandonada num canteiro periférico da província.
nuno g.
derreto como um sorvete exposto ao sol
cozinho como um brócolis submetido ao vapor
procuro uma loja de aluguel de fantasias para devolver o disfarce de carnaval mas não encontro
pressinto que ausências prolongadas estão secretamente interligadas a isso
e que vastos túneis iluminados podem me levar a algum lugar
mas não ouço resposta
só o abafado sem-fim do silêncio
germinando como se fosse uma semente proscrita do meu dicionário
se eu não fosse tímido te ofertaria algum desejo perverso
mas existem coisas que só podem ser ditas em táxis com barreiras acústicas
a caminho de aeroportos aos quais nunca mais se regressará
não paro de suar
e meus cabelos ensopados não encontram um gramado para descansar
derreto e reformo meus projetos de anoitecer
a lua tá crescendo
e com ela a memória de uma reclusão casual que parece se estender ao infinito
a minha carne hoje imploraria pela violência de outra carne
se não estivesse tão ocupada em afastar de si
todas as obrigações
não paro de suar
e de pensar em como seria abrir as janelas da casa e permitir a entrada do vento
a minha carne explode como a pupila de uma flor selvagem
abandonada num canteiro periférico da província.
nuno g.
segunda-feira, 18 de março de 2019
ablução
o som da missa invade a casa.
maria dorme.
fumo um cigarro atrás do outro e cozinho um jerimum para fazer um caldo.
a noite tem reggae na praça.
faz tempo que não vou a uma festa de largo.
queria que as minhas palavras roçassem a língua dos anjos.
ressuscitassem o viço que os sucessivos naufrágios afogaram.
e povoassem o meu esôfago de lactobacilos.
a vizinha lava roupas,
ouço a água escorrendo e sinto o cheiro de sabão.
a vizinha cultiva passarinhos em gaiola,
maria bola planos infalíveis para libertá-los.
faz tempo que nenhuma mulher me devora.
as vezes sinto saudade do despertencimento que habita o corpo depois do coito.
a missa termina e o silêncio me convida a dormir um pouco mais.
separo resquícios do que fui e junto à couve para a sopa.
maria virou vegana, misturo seu sonho às ervilhas que separei para o pequeno-almoço.
quando acordarmos ainda haverá uma infinidade de máscaras a se desfazer.
fazia tempo que o Indecifrável não soprava com tanta força,
os ventos que descem das colinas provocam marulhos & mirações.
nuno g.
maria dorme.
fumo um cigarro atrás do outro e cozinho um jerimum para fazer um caldo.
a noite tem reggae na praça.
faz tempo que não vou a uma festa de largo.
queria que as minhas palavras roçassem a língua dos anjos.
ressuscitassem o viço que os sucessivos naufrágios afogaram.
e povoassem o meu esôfago de lactobacilos.
a vizinha lava roupas,
ouço a água escorrendo e sinto o cheiro de sabão.
a vizinha cultiva passarinhos em gaiola,
maria bola planos infalíveis para libertá-los.
faz tempo que nenhuma mulher me devora.
as vezes sinto saudade do despertencimento que habita o corpo depois do coito.
a missa termina e o silêncio me convida a dormir um pouco mais.
separo resquícios do que fui e junto à couve para a sopa.
maria virou vegana, misturo seu sonho às ervilhas que separei para o pequeno-almoço.
quando acordarmos ainda haverá uma infinidade de máscaras a se desfazer.
fazia tempo que o Indecifrável não soprava com tanta força,
os ventos que descem das colinas provocam marulhos & mirações.
nuno g.
domingo, 17 de março de 2019
DOMUS DESIDERIO, por Anna Apolinário
Minhas mãos tateiam os pulmões acesos do quarto
Em deja vu aveludado e voluptuoso
Os sussurros alucinantes do fogo
Estão tatuados secretamente
Nas paredes e no entorno
A voz pétrea de Ariano me convida a espiar
Por dentro das letras e labaredas de seu livro fabuloso
O poema é um pequeno animal mágico
Verde viscoso, saltando das páginas
A linguagem ilícita dos corpos, arderá por toda a noite
Com o sexo em brasa, desenhei um meridiano obsceno neste leito
Nua e clandestina, plantei uma tempestade em lençóis alheios.
Anna Apolinário
Em deja vu aveludado e voluptuoso
Os sussurros alucinantes do fogo
Estão tatuados secretamente
Nas paredes e no entorno
A voz pétrea de Ariano me convida a espiar
Por dentro das letras e labaredas de seu livro fabuloso
O poema é um pequeno animal mágico
Verde viscoso, saltando das páginas
A linguagem ilícita dos corpos, arderá por toda a noite
Com o sexo em brasa, desenhei um meridiano obsceno neste leito
Nua e clandestina, plantei uma tempestade em lençóis alheios.
Anna Apolinário
quinta-feira, 14 de março de 2019
BREVE HISTORIA DE MI VIDA, por Stella Díaz Varín
Comando soldados.
Y les he dicho acerca del peligro
de esconder las armas
bajo las ojeras.
Ellos no están de acuerdo.
Y como están todo el tiempo discutiendo
siempre traen perdida la batalla.
Uno ya no puede valerse de nadie.
Yo no puedo estar en todo;
para eso pago cada gota de sangre
que se derrama en el infierno.
En el invierno, debo dedicarme
a oxidar uno que otro sepulcro.
Y en primavera, construyo diques
destinados a los naufragios.
Así es, en fin...
Las cuatro estaciones del año
no me contemplan, sino trabajando.
Enhebro agujas
para que las viudas jóvenes
cierren los ojos de sus maridos,
y desperdicio minutos, atisbando
a la entrada de una flor de espliego
de una simple abeja,
para separarla en dos,
y verla desplazarse:
la cabeza hacia el sur
y el abdomen hacia la cordillera.
Así es
como el día de Pascua de Resurrección
me encuentra fatigada,
y sin la sombra habitual
que nos hace tan humanos
al decir de la gente.
Stella Díaz Varín
Y les he dicho acerca del peligro
de esconder las armas
bajo las ojeras.
Ellos no están de acuerdo.
Y como están todo el tiempo discutiendo
siempre traen perdida la batalla.
Uno ya no puede valerse de nadie.
Yo no puedo estar en todo;
para eso pago cada gota de sangre
que se derrama en el infierno.
En el invierno, debo dedicarme
a oxidar uno que otro sepulcro.
Y en primavera, construyo diques
destinados a los naufragios.
Así es, en fin...
Las cuatro estaciones del año
no me contemplan, sino trabajando.
Enhebro agujas
para que las viudas jóvenes
cierren los ojos de sus maridos,
y desperdicio minutos, atisbando
a la entrada de una flor de espliego
de una simple abeja,
para separarla en dos,
y verla desplazarse:
la cabeza hacia el sur
y el abdomen hacia la cordillera.
Así es
como el día de Pascua de Resurrección
me encuentra fatigada,
y sin la sombra habitual
que nos hace tan humanos
al decir de la gente.
Stella Díaz Varín
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
XII, por Karine Kelly
Caminho pelas ruas pedindo licença por ser mulher
Caminho pela casa da mãe pedindo licença por ser triste
Caminho entre os amigos pedindo licença por ser criança
Caminho entre os amores pedindo desculpa por ser simples
E no arrebol, quando o coração em claroescuro desdobra e acelera em trottoir
Coloco meu casaco ocre, busco
na noite
pés pra caminhar.
Karine Kelly
Caminho pela casa da mãe pedindo licença por ser triste
Caminho entre os amigos pedindo licença por ser criança
Caminho entre os amores pedindo desculpa por ser simples
E no arrebol, quando o coração em claroescuro desdobra e acelera em trottoir
Coloco meu casaco ocre, busco
na noite
pés pra caminhar.
Karine Kelly
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
o veneno dos sobrenomes, por Demetrios Galvão
a opulência açucarada
do trópico
e a herança cordial-reacionária
de cada dia.
impossível não falar
das capitanias
e dos rosários,
da inocência natural
corrompida,
do suor negro
e seu sal
distante.
o reluzir mineral e as
bandeiras genocidas.
as entranhas abertas
com o sonho-muscular
de cada braçada
aventureira,
contaminando a seiva
vital.
a língua estrangeira
penetrando o sotaque
da floresta
um desejo sem gentileza
se alastrando
pelos veios molhados,
nomeando o silêncio
adormecido.
ficou o veneno
dos sobrenomes
e as marcas
de uma estranha
herança.
Demetrios Galvão, maio, 2017
do trópico
e a herança cordial-reacionária
de cada dia.
impossível não falar
das capitanias
e dos rosários,
da inocência natural
corrompida,
do suor negro
e seu sal
distante.
o reluzir mineral e as
bandeiras genocidas.
as entranhas abertas
com o sonho-muscular
de cada braçada
aventureira,
contaminando a seiva
vital.
a língua estrangeira
penetrando o sotaque
da floresta
um desejo sem gentileza
se alastrando
pelos veios molhados,
nomeando o silêncio
adormecido.
ficou o veneno
dos sobrenomes
e as marcas
de uma estranha
herança.
Demetrios Galvão, maio, 2017
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
Signo, por Anna Apolinário
Coração: amuleto de constelar abismos
Miríade implodida no tambor de ilusões
Palidez sangrada no papel
Ruído oceânico da Saudade
Anna Apolinário
Miríade implodida no tambor de ilusões
Palidez sangrada no papel
Ruído oceânico da Saudade
Anna Apolinário
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
a saudade é um mar
a saudade é um mar,
verde
& cheio de algas cor de esmeralda...
sim, ela voltou pra casa
aterrizou quando o sol estava a pino
e me trouxe um abraço que durou quarenta e cinco dias
na terra dos peixes-árvores descansamos
comendo carambolas e goiabas e
umas quantas colheradas de paçoca
(secada no mesmo varal, pilada no mesmo pilão)
em Belém buscamos a filha de Felícia
e quando chegamos em casa
ela encarnou Eva no princípio do mundo
e foi nomeando seus novos amigos
a filha de Felícia ganhou o nome de Alice
e o jabuti recebeu a alcunha de Jabuticaba
fomos pro jardim grande andar de bicicleta
e ao regressar, faminta, ela me pediu com aquele olhar cúmplice que é só nosso:
papai, faz pirão pra mim jantar,
desde que eu tava no avião que eu desejava comer o seu pirão
claro que eu faço filha,
e vamos comer pirão com quê?
tem inhame papai?
jantamos: pirão de galinha com inhame
começamos a ler as reinações de narizinho
papai, esse livro é muito engraçado!
mais divertido do que os episódios do filme!
Jabuticaba dormiu
Alice dormiu
Maria dormiu
verde
& cheio de algas cor de esmeralda...
sim, ela voltou pra casa
aterrizou quando o sol estava a pino
e me trouxe um abraço que durou quarenta e cinco dias
na terra dos peixes-árvores descansamos
comendo carambolas e goiabas e
umas quantas colheradas de paçoca
(secada no mesmo varal, pilada no mesmo pilão)
em Belém buscamos a filha de Felícia
e quando chegamos em casa
ela encarnou Eva no princípio do mundo
e foi nomeando seus novos amigos
a filha de Felícia ganhou o nome de Alice
e o jabuti recebeu a alcunha de Jabuticaba
fomos pro jardim grande andar de bicicleta
e ao regressar, faminta, ela me pediu com aquele olhar cúmplice que é só nosso:
papai, faz pirão pra mim jantar,
desde que eu tava no avião que eu desejava comer o seu pirão
claro que eu faço filha,
e vamos comer pirão com quê?
tem inhame papai?
jantamos: pirão de galinha com inhame
começamos a ler as reinações de narizinho
papai, esse livro é muito engraçado!
mais divertido do que os episódios do filme!
Jabuticaba dormiu
Alice dormiu
Maria dormiu
serenamente ajuntei ao nosso álbum de família
essa fotografia
salgada e verde como o mar
e cheia de algas cor de esmeralda...
nuno g.
cachoeira, 03 de fevereiro de 2019
essa fotografia
salgada e verde como o mar
e cheia de algas cor de esmeralda...
nuno g.
cachoeira, 03 de fevereiro de 2019
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Hibernación, por Jimena Arnolfi
En tiempos de autopromoción constante
lo mejor es esconderse
hibernar como un animal
de sangre caliente
entrar en un sueño profundo
que el latido sea más lento
que la temperatura descienda
ahorrar energías
usar las reservas almacenadas
de los meses más cálidos
mutar en una refugiada,
invencible.
Jimena Arnolfi
lo mejor es esconderse
hibernar como un animal
de sangre caliente
entrar en un sueño profundo
que el latido sea más lento
que la temperatura descienda
ahorrar energías
usar las reservas almacenadas
de los meses más cálidos
mutar en una refugiada,
invencible.
Jimena Arnolfi
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
paçoca
para maria,
a carne secando à sombra
joãozito não gostava de melancia
magnólia falando sobre recife
ontem choveu
benedito joga video game
moscas e brinquedos no chão
chá de boldo, ayahuasca e alcachofra
a chuva chega
viro as carnes no varal
a saudade nocauteia a tarde
espinheira santa e leite de janaguba
uma carta para débora e seus irmãos
sobre mateus e catirinas
a chuva engrossa
a saudade também
a carne secando à sombra
matusalém mofado flutuando na tela da TV apagada
(...)
nuno g.
a carne secando à sombra
joãozito não gostava de melancia
magnólia falando sobre recife
ontem choveu
benedito joga video game
moscas e brinquedos no chão
chá de boldo, ayahuasca e alcachofra
a chuva chega
viro as carnes no varal
a saudade nocauteia a tarde
espinheira santa e leite de janaguba
uma carta para débora e seus irmãos
sobre mateus e catirinas
a chuva engrossa
a saudade também
a carne secando à sombra
matusalém mofado flutuando na tela da TV apagada
(...)
nuno g.
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