sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Efigênia

       Em silêncio chegou antes das nove. Serviu-se de uma xícara de café forte. Pernas cruzadas e olhar perdido no horizonte. Nos narrou seu encontro com o gato e a serpente, de como se engalfinhavam na estrada de terra e da sua cisma sobre se brincavam ou se tentavam matar um ao outro ou se faziam as duas coisas simultaneamente. Vestido de chita e algodão enfeitado com rendas e bordados. Foi a primeira vez que olhamos Efigênia, embora algo nela me fizesse desconfiar que há muito nos olhava desde algum rincão do além. Assemelhada às nuvens, cabelos emplumados e tecida em muitas rugas. Era toda silêncio e coragem, daquelas que nos exige a vida quando não mais suporta em si o desejo intenso de mais vida. Retiramos os alfinetes da mesa e servimos torradas amanteigadas de pão dormido, como quem serve certas esperanças ainda empoeiradas pelos anos em que dormiu à sepultura. Uma aranha correu no teto da casa e um vento com extensa biografia cruzou as margens daquela primeira aproximação entre seres que sabem à memória do escuro e que carregam vastidões entre as linhas ciganas das palmas das mãos.



nuno g.

Toróró, 08/11/24

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

a sereiazinha de betelgeuse

  Nada nem ninguém sabe sobre seu nascimento: nem data, nem local, nem a exata posição dos astros naquele momento. O que sim se sabe é de certas intuições que lhe são próprias: a capacidade de acentuar destinos e revelar movimentos sutis. O que sim se percebe em qualquer contato com ela é sua delicadeza extrema e a exímia habilidade de direcionar gestos para aproximações que requerem atenção extrema e pequenos cuidados. É da água doce, mas vagueia alheia pelo mar quando sente necessário. Maneja o arco-e-flecha e se regozija observando meteoros e asteroides: como se revelasse certa saudade de outro tempo, outro lugar e outra história. Não é dada à paciências, mas conhece o tempo certo de ressurgir e se ausentar. Ainda sendo das águas, sabe bem se mover sobre a terra. Entre ela e a lua algo vive e nesse algo quase sempre mãos trêmulas acendem velas.

nuno g.
Toróró, 07 de novembro de 2024.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

intenção

Vela acesa na encruzilhada entre o rio e o mar.

Chegamos à praia e chegaram as crianças.

Qual é seu nome?

Maria Alice! 

E o dele? 

Ian!

Falta só Janaína!

Essa sim já está no mar!

À noite o Ceará venceu o Avaí.

Assucena despencou da cama e feriu o nariz.

No outro dia o vento maternal do Montecristo lhe acariciou a face.

Recordei que aquela praia também se chamava Araripe.

Nome doce como os doces que deixamos sobre o túmulo antes de vir ao sal.

Nome que as marisqueiras encontraram para essa margem oriental da barra do Paraguassú.

Enviamos a Alice uma última foto de Assucena engatinhando entre as flores da pousada.

Botem no mar pra Iemanjá! - Botamos!

O Sport perdeu pro Operário.

E amanhecemos em Cachoeira às vésperas da série A.


nuno g.

04 a 06/11/24.
praia do Montecristo/ alto do Toróró.


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

sobre sonhos & poemas

para Maria Assucena,


Hoje soube quanto viemos de longe.

Andávamos a cavalo num mundo muito distante daqui.

Havia um rio e em suas margens.

Hermenegildo, Alzira, Judite, Adélia e outros seres.

A sereiazinha de betelgeuse às águas.

Tua mãe me entregava já montado.

E cavalgávamos tempo adentro, sonho adentro.

Aquele rio se chamava poesia, aquelas várzeas recendiam à história.

Despertei segundo antes que o milho pregasse na panela.


nuno g.

Toróró, 01/11/24

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

tratado de ontologia

Existe uma relação íntima entre os nomes e os destinos.

Entre o olho que olha a borra do café, os búzios, as entranhas dos animais.

E a espera ansiosa do que se entrega à leitura do mistério.

Existe uma relação íntima entre o desejo e as posições dos astros.

Não nos movemos de nós.

E sabemos todos do fio invisível de prata que nos conecta à musica dos mortos.


nuno g.
Toróró, 31/10/24

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

A fada do dente

para Maria Alice,


O primeiro caiu na casa de Olívia.

Dani guardou e me entregou.

Inaugurei assim a caixinha de fósforos.

Vieram os outros.

Dormiam embaixo do travesseiro.

De madrugada despertavam e se recolhiam à caixinha de fósforos.

Amanhecia sempre uma moeda onde antes o dente.

Até que um dia a fada veio em silêncio e levou consigo a caixinha.

Nem em sonho senti rumor ou pressentimento de sua presença.

E por vários anos senti saudades do colar com o qual pretendia substituir suas ausências.


nuno g.

Toróró, 30/10/24.


terça-feira, 29 de outubro de 2024

flores de são Miguel - breve história de uma casa

para Maria Alice,


Não recordo o dia da semana.

Descemos a colina caminhando.

Acendemos uma vela na porteira a quatro mãos.

E outras dentro da casa de tijolinhos rústicos.

Estendemos uma toalha e fizemos um piquenique.

Brincamos, conversamos e lemos algum livro.

Dormimos como anjos na casa que vimos florescer.

No outro dia não havia água para escovarmos os dentes.

Fomos à padaria e pedimos dois mixtos com suco de laranja integral.

Voltamos à casa do Almirante até que Zenildo viesse consertar a descarga.

Chamamos Lula que fez um gato e clareou os cômodos.

Descemos outra vez a colina.

Deitamos na rede e ficamos sorrindo como árvores na chuva.


nuno g.

Toróró, 30/10/24.

sábado, 26 de outubro de 2024

Artesão das Matas Sombrias

na planta dos meus pés

raízes e frutos são sinônimos exatos

assim como equívocos são ondas sonoras

ecos das distâncias que me habitam

e que me fazem gritar não

a plenos pulmões

e chorar rios sem misericórdia

na planta dos meus pés

a morte e a lucidez são apenas detalhes

e o que realmente importa

é a inocência das canções

e os passos perdidos do último poeta romântico

e a voz de deus pairando sobre as montanhas da terra

hoje é um dia que não deveria existir

e amanhã é só uma incerta probabilidade de flecha

desorientada pela fumaça dos fumantes que caminham pela orla

na planta dos meus pés

coração de pássaro perdido

cansado, cansado, cansado, cansado, cansado, cansado, cansado...


toróró, 26 de outubro de 2024.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

sobre poemas & pesadelos II

 para Larissa,


Era para ser apenas um passeio agradável e despretensioso.

Mas quase nunca as coisas chegam a ser o que imaginamos que deveriam ser.

Saímos da praia de Iracema onde não havia nada nem ninguém.

Nem o bode Ioiô, nem o poeta Mario Gomes, nem a jangada de pedra.

Caminhamos por ruas vazias até o passeio público.

Nem o baobá habitava mais aquele lugar.

Até a praça do Ferreira tudo era cenário pós-guerra.

Muito lixo acumulado, ausência de pássaros, nenhuma pessoa.

Havia uma entrada para o subterrâneo no meio da praça.

Descemos e encontramos apenas um homem imberbe fumando crack.

Seguimos até a praça do Carmo.

Montanhas de lixo e ausências acumuladas.

Acordamos no Benfica sem Airton Monte, sem seu Chaguinha, sem nada.

Só um pesadelo a mais de quem com pesadelos a muito está habituado.

A terra devastada que herdei se prolongando sobre a memória de uma cidade solar.

A terra devastada que herdei se estendendo sobre a espinha dorsal de uma cidade que 

    há muito decidiu dar de costas aos seus e olhar fixamente o mar.

A terra devastada sobre uma cidade devastada por arranha-céus sem sentido e sonhos de 

     aquários.

Era para ser só um passeio agradável e despretensioso.

Mas terminou sendo um pesadelo.

Sobre a fé enferrujando.

E sobre todas as coisas que não nos deixam esquecer que somos menos e habitamos o nada.


nuno g.

Toróró, 24/10/24.


 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

sobre poemas & pesadelos

para Larissa,


Existe uma relação íntima entre poemas e pesadelos.

Assim como existe uma íntima relação entre rios e sertões.

Hoje mesmo fui habitado por um pesadelo.

Nele havia uma locadora de filmes tão antiga que se assemelhava a um antiquário.

Havia também o corpo de uma mulher assassinada oculto no quintal.

Havia um filme com a imagem manchada pelo sangue que se colou à fita.

E uma vela que acendemos quando encontramos o corpo da vítima.

Existe uma relação muito íntima entre o futuro e o passado.

Assim como existe algo que aproxima o voo dos gaviões aos túneis subterrâneos.

Acender uma vela é algo muito semelhante a escrever um poema.

Nos faz dar conta do escuro que nos envolve.

Nos faz não esquecer que somos mais do que sabemos sobre nós.

nuno g.
Toróró, 23/10/24.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

deus te dê água de batismo

dona Antônia sonhou com cobra verde:

traição Ceará, traição.

Assucena comeu cuscuz, comeu churrasco, comeu feijão.


O tempo segue nublado e abafado:

trovoada em gestação, Ceará.

Hermenegildo se perdeu mais uma vez no horizonte...


nuno g.

Toróró, 22/10/24.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

fotografia de aniversário

Chamava-se Ricardo.

Aparecia todos os anos no meu aniversário.

Trazia uma máquina fotográfica e um sorriso desses que mostram os dentes.

Eu esquecia que meu pai estava morto.

Eu esquecia que todos ali o detestavam.

Eu esquecia que trazíamos o mesmo nome ferrado às testas.

E me entregava à fantasia que o fotógrafo era meu pai.

Acabava a festa e ele partia.

Brinquedos, roupas, doces e salgados.

E a memória de que ao menos uma vez ao ano o espelho refletia minha imagem.


nuno g.

Toróró, 21/10/24


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

à sombra da cicatriz em flor

       O coração de Judite é azul de nascença. Bistecas à beira-mar sua distração favorita. Silêncio sua maneira de dizer coisas impossíveis de serem ditas. Quando Judite pronuncia carne, ferida, ventre, lua, semente ou sangue tudo desanuvia. Judite tem a idade da terra e seu sonho é um rio onde correm todos os rios do mundo. Às quintas Judite se faz flecha; certeira, feroz e precisa. Como quando canta. Como quando baila. Como quando se faz criança e vai limpando a sujeira que nossos passos desajeitados vão deixando para trás. Judite reverbera, ecoa, alenta paróquias crônicas e vagos desesperos. Judite ensina alheamentos, derivas e postergações necessárias. Seu nome significa sertão, seus olhos desgostam do mar e seu abraço abriga esperas.


nuno g.

Toróró, 17/10/24. 

brejo das borboletas

      Nasceu um abacaxi no terreiro. Meu avô me preparou por uma década para sua morte, me ensinou a segurar a alça do caixão, a empunhar a pá pra jogar areia sobre a madeira e a caminhar sozinho na escuridão. Era tudo o que a anja viria a me exigir anos depois: ensina sua filha a viver sem você. Amanheceu nublado. Turistas pululando na cidade. E meus olhos procurando destecer as vozes entremeadas no vazio. Vaga promessa de arco-íris pairando na atmosfera. Meu avô se foi enquanto eu dormia. Me deixou uma biblioteca que me salvou os dias de terror e precipícios, um ódio que me acompanha como cão fiel e essa serpente que me protege da covardia do mundo.


nuno g.

Toróró, 17/10/24.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

ponte sobre Banabuiú.

     Meu avô também era ponte, conectava meu corpo ao corpo da morte e meus sonhos aos sonhos dos russos do século XIX. Meu avô também era silêncio e sofreguidão, tudo nele se recusava a sedimentar. Eu era demasiado criança para entender o mundo que meu avô em mim moldava e sequer suspeitava das razões que faziam o rio se avermelhar quando suas mãos cortavam as águas. Meu avô estendeu o amarelo para que Ernesto seguisse caminhando além do paredão de pedra que é a chapada do Apodi. Tentou abrir meus olhos antes que os seus se apagassem, mas era tarde. Ele morreu e com ele se foi minha primeira infância. Depois voltou em forma de pássaro e lamento. Hoje, segue sendo ponte, entre meu canto e a impossibilidade de qualquer perdão.

nuno g.
Toróró, 16/10/24.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

brilhantes pedras finas.

   Alzira cuida - e isso diz muito, quase tudo. No quase o que a esse narrar interessa: espécie de interstício entre o nada e o nada ou pequeno e indecifrável vácuo entre o osso e o osso. Como naquele chão sem chão que habitamos quando sinceros, ou seja, quando abandonamos os livros de história e os miseráveis manuais religiosos. Os cabelos de Alzira, o olhar de Alzira, a forma como o silêncio de Alzira se move dentro de nós. Abrindo túneis, semeando serpentes, nos conduzindo do deserto às águas e das águas ao deserto. Alzira e o quase são em essência o mesmo. Assim como o que ela ensina e o que já sabemos em tudo coincidem. Alzira veste roxo, ama a lama e quando canta serena até o coração de Tempo. Alzira aqui significa soslaio ou aquela que vê o que nos impede de ver. Por isso também lhe chamam ocasionalmente de lua indecifrável ou de Senhora das coisas que aconteceram antes dos acontecimentos que nos moldam. Alzira também significa respeito, caminho estreito e pérolas resplandecentes.


nuno g.
Toróró, 14/10/24.

sábado, 12 de outubro de 2024

soleira.

    Atravancado, sem-jeito, desconexo: meio como quase brutamontes próximo aquele Hercules Quasímodo que existiu algum dia dentro da miopia de Euclides. Nome de pia: Hermenegildo. Montaria: cavalo. Idade: desconhecida. Lugar de nascença: indeterminado. Hermenegildo sempre está de passagem e nada seria como é se assim não fosse, pois são suas mãos de passarinho que descortinam as montanhas e abrem os horizontes, são suas mãos de peixes que abrem as águas e os caminhos que levam aos mundos ali existentes, são suas mãos de lâminas que fendem as rochas e nos ensinam subterrâneos. Agora mesmo desponta em sua montaria o Velho, ao mesmo tempo em que anuncia sua certeira desaparição. Hermenegildo aqui significa flecha. Também significa vento. Mas antes de tudo significa oração.


nuno g.

Toróró, 12/10/24.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

diga a eles que não me matem

É um bocado difícil crescer sabendo 
que a coisa a que podemos agarrar-nos para criar raízes está morta.

Juan Rulfo


Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.

Mas quando cresci e o procurei me disseram que, como ele, estava morto.

Irremediavelmente morto.

Foi como ouvir alguma música para ouvidos nada delicados.

Ainda assim meus tímpanos estouraram.

Foi como se num átimo de segundo mergulhassem meu corpo nas fossas marianas.

Ou na dorsal atlântica.

A terra devastada pelas chamas e o meu corpo carbonizado junto.

Num átimo de segundo arrastado à sepultura de águas oceânicas.


(os azulejos azuis eram os únicos peixes possíveis)

(e o único pássaro que conseguia seguir a cantar era o Assum Preto)

(cego pela ignorância e pela maldade humana)


Meu pai não se chamava Guadalupe Terreros.

Mas os homens que o mataram sabiam que trazíamos o mesmo nome de pia.


nuno g.

Toróró, 09/10/24.




sob águas profundas ou sessão sem pássaros

da terra devastada às profundezas oceânicas 

num átimo de segundo e o chão esturricado do rio seco

                                     e os cactos e o céu sem nuvens

desapareceram e em seu lugar

as fossas marianas enterradas sob quilômetros e quilômetros de águas

                                     e nenhuma fumaça traçando o caminho de volta à superfície

à terra devastada e abandonada com alegria e tristeza

                                                   com pesar e alívio

                                                   com o terror arcaico e primitivo de um mito esquecido

serpentes, serpentes e mais serpentes

trocando sucessivamente de peles e substituindo suas cores por novas cores

num movimento incessante e lisérgico

apenas o que agora em si mesmo permanecia gravitando

sem nenhum centro sem nenhum norte sem flores sem balanças sem juízos de valores

distante o suficiente de tudo o que soava detestável

mas também distante do agradável cântico dos pássaros

quase livre não fosse o pânico do sal

e a consciência fraturada ainda

como uma ferida entre o osso e o osso

ou como a saudade enferma de um deserto onde se constituíra

num átimo de segundo e estava dentro do coração do último medo imaginário

residindo na oposição de uma tarde sem sol

(todas as tardes nas fossas marianas são tardes sem sol)

e a ausência de fumaça torturando a mente

como o martelo lunar torturaria a bigorna de Apolo

quase pânico não fosse a liberdade do sal

e a voz suave da serpente

transitando à memória imberbe da terra devastada

onde um átimo de segundo antes

se encontrava

(todo gesto aqui é extensão de um silêncio que antecede)

o fio de prata e fumaça se extinguindo

e as águas evaporando todas as formas que permitiram ao si mesmo existir


nuno g.
Toróró, 09/10/24.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

tupinambá

às vezes é preciso regressar - sem culpas.


o vento moveu as folhas.

e a tarde se esticou no varal.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

regresso à morada dos mortos

No quiero

Que mis muertos descansen en paz

Tienen la obligación

De estar presentes

Vivientes en cada flor que me robo

Stella Díaz Varín


uma vez mais entre os que cruzaram a fronteira do rio

seus olhares desfigurados, suas fraturas expostas, seus corpos em escombros

seus sorrisos atados ao laço como animais de estimação

e meus braços remando contra todos os ventos

apenas a memória machucada içada como bandeira de um barco pirata

e o ranger de dentes ecoando no coração da árvore chamada Tempo


uma vez mais entre os que cruzaram todas as fronteiras

imperturbável e sereno ante a tempestade impenetrável

buscando apenas um lugar de repouso e descanso

sem saber como ensinar alguém a amar o que é em si detestável

suas feridas expostas, cicatrizes indesejáveis e a sombra da lua sobre as águas

apenas a memória machucada alçada à condição de sina inevitável


uma vez mais entre os que habitam a casa onírica das centopeias e caracóis

apenas o rio, o vento e o sangue do sol banhando a nudez das estrelas...


nuno g.

Toróró, 24/09/24.




quarta-feira, 18 de setembro de 2024

infância

para Maria Alice,


Tínhamos um pé de maxixe e um cavalo chamado Tempestade.

Antes de nós ele havia se chamado Trovão.

Comíamos pirão uma ou duas vezes por semana.

E colhíamos goiabas na varanda.

Tínhamos uma rede alvinegra.

Um lugar onde acendíamos fogueira quase todos os dias.

Uma cadela chamada Paçoca.

E um céu cheio de estrelas pairando sobre nós.

Tínhamos um rio que dormia e acordava ante nossos olhos.

E uma pequena cobra coral de estimação.

Brincávamos com as palhas dos milhos juninos.

Fazendo toda a família do Visconde de Sabugosa.

Uma vez ao ano seu Toróró nos trazia jabuticabas colhidas no terreiro.

E líamos muito. Líamos livros e folhas de plantas.

Estávamos cercados por juremas.

Fomos alguma vez a Cordisburgo.

E a tantos outros lugares que parece que não fizemos outra coisa senão viajar.

Assávamos carne aos fins de semana.

Nos divertíamos no balneário da Pitanga.

Íamos à praia do Montecristo sempre.

E éramos vistos muitas vezes nas Cabaceiras do Paraguaçu.

Depois adotamos João e não pararam mais de nascer cães em nossa casa.

Ganhamos uma gata de nome Judite que sempre recebia visitas de um gato que chamamos Anônimo.

Judite passou três dias debaixo da cama.

Não saia nem para comer.

Até que decidiu ficar e nunca mais voltou para debaixo da cama.

Depois veio a Pina, o Garfield e o Dino.

Seguíamos comendo maxixes e sonhando.

Seguíamos comendo pirão e sonhando.

Até que veio Ian, a cigana e tudo o mais que já sabemos.

Até que veio Larissa, Assucena e todas essas janelas que se abriram.

Ontem teve eclipse.

Eliana cobriu-se por alguns instantes com o véu das sombras.

Fiquei olhando como quem olha um espelho maravilhoso.

E vi novos maxixes nascendo entre as orelhas de Tempestade.

E vi cada uma das mil chuvas viradas que enchiam nossa casa de água.

E vi você caminhando entre pedrinhas amarelas e galáxias desconhecidas.

Uma onça te guiava entre despenhadeiros e montanhas.

Fiquei olhando como quem olha uma caverna.

E vi você ninando Assucena com as histórias do jaguar encantado.

Depois veio a Cristalina, o Come-e-Dorme e o Waldick.

Depois veio o Calabouço, o Álbum de família e o Dicionário.

E pouco antes do sol nascer essa infância foi se encarnando em letras azuis no papel.


nuno g.

Toróró, 18/09/24

cegueira

em terra de olhos turvos e neblina tóxica a cegueira reina

israelenses cegam libaneses com bipes que explodem

associações de cegos se revoltam contra a lucidez de Saramago

candidatos cegos insistem em convencer pessoas cegas a votar cegamente

o país arde em chamas criminosas e a fumaça nos cega

pastores cegos guiam rebanhos cegos ao inferno

hiperbolicamente antenados com a enfermidade que nos extingue

                                                                             que em nós se extingue

e que nos impede ver como sair como entramos como sobrevivemos

neste tempo em que escatologia e história se fundem

como o zinco ao zinco

como o sinistro ao sinistro

como a ausência à ausência e à Ausência

em terra de cegos os eclipses passam quase desapercebidos

como nossas sombras ao atravessar a rua

ou como aquela bigorna de esquecimento que já não nos permite recordar

as centenas que ficaram cegas nas protestas chilenas

ou os libaneses de ontem que já começam a ser apenas um esquecimento mais

o que poderá nossa imaginação a partir dessas ruínas?

assim pixado no muro de Cachoeira

ao lado, escrito em tinta que não se vê, 

: em terra de...


nuno g.

Toróró, 18/09/24


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

quando voltará a chover dendê sobre nossos passos

para larissa gonçalves,


enquanto você sonhava com um mar de serpentes

meus braços remavam entre serpentes marinhas

e os meus olhos caçavam um búzio para se perderem definitivamente

enquanto você sonhava com um mar de serpentes

meus braços remavam nas águas da própria sombra

e meus olhos adentravam a imagem de um coração sem dentes

enquanto você sonhava

as serpentes me guiavam entre os perigos exaustivos

até o interior do búzio onde ecoava o choro de Assucena


nuno g.
Toróró, 16/09/24

aqui a Serpente

ante o túmulo de meu tio Edson 
agradeci o ocorrido em dezembro de 1978
com a mesma intensidade em que lamentava

ante o túmulo de meu tio Edson
percorri outra vez todo o longo caminho que me trouxe até aqui
e recordei um sonho antigo com o poeta de Itabira

ante o túmulo de meu tio Edson
todas as serpentes que atravessam uma vida
e os olhos de Gabi iluminando o meu propósito de não ter propósito nenhum

nuno g.
Toróró, 16/09/24.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

quinta-feira

Atirei mil flechas contra o sol.

O meu ódio é sagrado e reluzente.

Aprendi isso arrastando meus joelhos por léguas e léguas de solo pedregoso.

Derramei mil lágrimas no vazio da taça.

E vi a noite despencar sobre as ilusões humanas.

Servi feijão aos três irmãos.

E adorei o sol, a lua e as estrelas.

Adorei o rio, as onças e as borboletas.

Estendi no varal do horizonte o manto do Obscuro.

Entoei cânticos de sacrifício enquanto pensava em Gary Snyder em sua cabana no além.

Vivo numa época estúpida.

Cercado por ideias estúpidas nascidas de mentes estúpidas.

Devoro a estupidez da atmosfera como Alcides devorava as flores de aniversário.

Atirei mil sóis contra a primavera.

Inferno é uma singela palavra que me habituei a pronunciar com delicadeza.

O amor é sagrado e reluzente.

Como as areias de Tempo que escorrem entre meus dedos e cílios.

Assucena desayuna batata, ovo, cenoura e uvas.

Teresa vê tão longe que não alcanço.

Rude e violenta é essa obstinada tentativa de nos vender a felicidade a qualquer custo.


Alice dorme.

Larissa dorme.

Hermenegildo e o Velho cruzam a estrada de mãos dadas.

A estrada é sagrada e reluzente.

O choro de Assucena é sagrado e reluzente.

O sono de Alice é sagrado e reluzente.

O leite de Larissa é sagrado e reluzente.

O mundo é opaco, a mata é sombria.

O Ferreiro selvagem é iluminado e poderoso.

Roxo é muito mais que uma simples cor.

Toco a lama sagrada e reluzente em busca de fósseis preciosos.

E atiro minha última flecha contra o horizonte.

Em direção às águas, à palha e à voracidade de tudo que nos consome.


nuno g.

Toróró, 15 de agosto de 2024.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

edifício Grão-Pará (sonho noir)

Voltou a ser o que sempre foi: um cárcere.
Gleizer apareceu cuspindo ossos.
A princípio pensei tratar-se de ossos de galinha.
Daqueles que faziam meu avô evitar comer galinha em restaurantes.
Mas eram ossos humanos.
Revestidos de cartilagens frescas e nervos expostos.
Larissa fez pasta de amendoim.
As fezes de Assucena amanheceram verdes.
Como o lodo do rio da infância.
Como os olhos do gato maracajá morto aqui semana passada.
Três taças de café ao som de Ventania.
Garfield, o gato gordo, come a batata doce que cai da mesa.
Luís transforma o berço em cama montessori.
A vida pesa. Montanhas e montanhas de cansaço sobre meus ombros.
Vertigem. Pulsação acelerada. Ressentimentos geológicos se movendo à luz do sol.
Recordo à voz de uma amiga prostituta que me repetia.
É só um trabalho poeta, como qualquer outro.
Até que se apaixonou por um caminhoneiro e partiu.
Com sua cigana de estimação e alguma culpa entre os cílios.
Acendo mais um cigarro e ouço a voz de Ayla.
Esse cigarro te mata.
Desconfio de tudo e de todos.
Suave e delicada paranoia no olhar em direção ao Nada.
Saudades dos tempos da pandemia e de todos os refúgios que me mantiveram vivo.
O telefone toca: Assucena desperta.
Alice nos envia três mil mensagens telepáticas por segundo.
Não chove. É agosto. Escoro minha angústia na palha.
E clamo ao Velho alguma fé numa paz que sei impossível.

nuno g.
Toróró, 13 de agosto de 2024.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Ciranda de hoje, texto lido por Ayla Andrade no lançamento do Dicionário dos medos imaginários: morfemas.

 



O tempo é a melhor testemunha do quanto se vive.

Uma ciranda que roda, circulando mão a mão, na roda do tempo, enquanto se olha o céu.

Penso que vivo pouco e devagar. Olho pouco para trás. Mas é quando olho para o lado que vejo quantas mãos me seguram nessa ciranda. 

Porque o tempo não para, e por vezes acelera ou recua, e é onde a ciranda se embaralha, algumas mãos se soltam, a gente tropeça e precisa depois correr, braço estendido, tentando alcançar o perdido. 

A ciranda é potente e ciclicamente retorna ao ponto inicial. Suspeito que serve para recuperar o fôlego, sorrir de volta, ajeitar a coluna e... alcançar o perdido. 

Nessa ciranda o tempo marca o tom, o compasso, o recomeço e por vezes, o fim. Por mais que nunca estejamos preparados ou desejosos do fim. 

Mas rodando com a ciranda certa, mão a mão, com chuva ou sol, amor e um pouco de raiva, a gente chega ao fim, sorrindo. 

Rodando cheguei até aqui. E quando olho para lado, ciranda que a vida me deu, vejo que o tempo me foi generoso: mão a mão, os amigos rodam comigo enquanto ainda olhamos o céu.


Ayla Andrade.


https://www.instagram.com/dicionariodosmedosimaginarios?igsh=eHZma2FiYmxuZnRo

 





domingo, 11 de agosto de 2024

cemitério bizantino II

roupas estendidas no varal

e ainda essa sensação

de despertencer ao reino onde desperto


nuno g

11/08/24

sábado, 10 de agosto de 2024

cemitério bizantino

sonhei com uma fotografia de damário da cruz

meias sujas espalhadas no quintal

e a certeza de que não pertenço ao reino onde desperto


nuno g.

toróró, 10/08/24

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

ante o Insondável

           para Adélia Prado,


meus joelhos seguem sangrando de tanto chão

em trevas me reconheço e ouço as cem mil vozes que me habitam

relâmpagos e trovoadas me acendem e me estilhaçam

em cem mil vagalumes

estamos mergulhados na história, ou seja, no terror absoluto

atravessamos os tempos em que nossos corpos se fizeram vidro

fomos atravessados pelos tempos em que nossos corpos se fizeram metal

o homem da mão seca ainda acaricia meus cabelos

e sorri quando vejo meu avô quase-pássaro ousar o abandono do abismo

o homem da mão seca ainda me seca as lágrimas

quando recolho o sangue de minha mãe na calçada suja da Conde da Boa Vista

o homem da mão seca ainda tece curativo nos meus joelhos

quando desperto em Belém em meio ao tiroteio que matou meu pai

e penso: eles sabiam que ele era meu pai

meus joelhos seguem sangrando de tanto chão

na mata sombria reacendo minha devoção

e aprendo com o ferreiro a forjar silêncios

cem mil vagalumes me guiam

cem mil vozes me habitam

em cada poema respira uma breve e delicada oração


nuno g.

Toróró, 07 de agosto de 2024.

domingo, 4 de agosto de 2024

Afogados

a vida é uma besta selvagem.

Stella Díaz Varín 



Não culpem o mar nem os pés.

Ainda menos as sereias e seus cânticos devocionais.

Não culpem o verde nem o sal.

Ainda menos as espumas brancas e cintilantes.

Não culpem o fogo nem a madeira.

Ainda menos o crepitar dos ossos ou o estalar das vertigens.


Apenas deixem que seus passos os conduzam ao inevitável afogar-se.


nuno g.

Toróró, 04 de agosto de 2024.



sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Aparecida

Ela nunca esteve entre nós.

Talvez por isso podia falar de Eliana antes da queda.

De suas coxas brancas, seus êxtases e suas manhas.

Carregou o estigma da adoção como quem carrega um daimon de aço.

E o nome da santa indígena saída das águas de um rio.

Ela nunca esteve mesmo entre nós.

Não lhe reservaram convite nem lugar à mesa.

Talvez por isso podia passear com seus cães pela cidade.

O estigma sempre arrastado à coleira.

E pouca razão à ferocidade.

A lei do luto lhe levou à metrópole.

Casou. Enviuvou. Cruzou a fronteira da península.

E desapareceu numa Espanha de touros e esquecimentos.


nuno g.

Toróró, 03 de agosto de 2024.