terça-feira, 6 de setembro de 2016

tradução: paisaje cubista: sergio mondragón



 paisagem cubista

Quero despertar numa cama de erva
com o joelho quero acariciar
o interior de uma flor amarela
em seguida beber de um córrego muito claro
e caminhar em direção ao sol;
quero viver no sol e esquecer do tempo
que meu olho e meu ouvido aprendam
uma linguagem sem roupa nem medo;
quero no meu nariz o hálito do sol
respirar ali legionárias criaturas
aladas e leves
que me renovem por dentro e por fora...

trad: nuno g.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

tradução: mandala: sergio mondragón



Quero deslizar pelas tuas mãos e teu pescoço
    como um molusco
quero tuas pernas ao redor de minha cintura
quero tocar dentro do teu corpo
aspirar tua respiração como uma fumaça visionária
          perder o equilíbrio entre teus braços

quero tocar tuas virilhas e teus cabelos e teus músculos outra vez
quero entrar no teu corpo como se entra na praia
em uma noite sem lua com a razão extraviada
quero me perder inteiro no campo do teu ser
desfalecer junto a ti
          
          correr em teus pensamentos

no conhecimento de ti

          ganhar o conhecimento

quero a ânfora de tua água
o receptáculo de teus devaneios espirituais e
      corpóreos
o cheiro da tua carne
a palavra tudo nos teus olhos em branco

quero subir ao ser no barco do teu corpo
te sustentar suspensa sobre os alcantilados
sobre os desfiladeiros horrendos de tuas palavras sem
      sentido

quero que o sol reflita no oco de tuas mãos
que em teu corpo empapado em teus sucos imortais
o mar se ponha a sonhar enquanto desfaz ondas frescas


trad: nuno g.

domingo, 4 de setembro de 2016

la sirena


Canto primero
# Brumas de Morelos

Terra. Amor. Umidade.
Minha sede, um palácio de
                               fogo, ar & ossos
               de criaturas novas
com imensos jardins
               onde transitam automóveis verdes
e a interminável memória de todas as gerações perdidas...
Terra. Amor. Umidade.
Cultivo outra vez o chão sem chão
  e minhas mãos de passarinho
    desgarradas & insensatas
tatuadas como um alebrije enfeitiçado
regressam ao arado
    primitivo & selvagem
de onde em verdade
    nunca haviam saído...
Terra. Amor. Liberdade.
Lágrimas me despetalam
nessas montanhas enchilladas
onde cavalos fantasmas
relincham corridos profanos
e nos alpendres os pássaros
assoviam reggae, jazz & lamentos variegados
embalando as criaturas novas
que em meus pulmões florescem:
sóis e luas e coelhos de pelúcia
                                brincando no jardim e
as crianças com seus sonhos de crianças
soprando uma vez mais a delicada brisa
que me afasta de mim e me aproxima
    meu coração ao coração azul da ilha...

Canto Segundo
 # Regresso ao mar ou a terra uma vez mais abandonada

Vengo a recorrer um titulo
trago asas nos pés
e não espero muitas coisas do dia que amanhece
entretanto sigo
                 ávido & faminto
      desnudo y con las manos abiertas
recolho as flores ressecadas no caminho
e os sonhos esbagaçados que deixei
nas sarjetas dessas calles retorcidas
trago um cálice & un par de aretes
                 prata de Taxco
                        ou Zacatecas
e eis que encontro amoroso abrigo
novas memórias novas vísceras que
                         pouco-a-pouco
             a velhos afetos se entrelaçam
como um tapete persa
     ou uma lenda sufi
senda mística, tortuosos caminho,
   minha pele, vinho amazônico,
       superfície transtornada & encruzilhada
do coração monástico
    que pulsa, no cais da ilha
         soterrado...

Canto tercero
# Más allá de la puerta del infierno

O sal. A sede. Olhar sereno.
Meu corpo, vulcão de sete-línguas
               raios & doces rios vocifera
alimentando cinzas, sementes & fosforescências
                                                                 outras
a sarça arde. Todos os sons,
            todas as sílabas, todos os sonhos
se fazem música.
Tempero o café. A tequila. A despedida.
   com o doce veneno do alacrán
que de Durango à ilha
             o céu domina
& aquieta a fera
      ressuscita o arcanjo
          dedilha a harpa
             tecla o piano
e amanhece esses versos
de gratidão, alegria
           & desenfreada paixão
aos inefáveis signos do zodíaco:
                    mistério, segredo, alucinação
, espaço breve & intermitente,
       amizades que respiram no éter
       raízes que brotam no silêncio efêmero que no vácuo se anuncia
entre os abismos repletos de nada
       dança uma pequena borboleta
imperatriz do milagre supremo
  haicai barroco que transubstancia
      o cálcio das ruínas & pesadelos
         em inigualável banquete:
cortejo de delícias & promessas anunciadas...

nuno g.
Tepoztlán, 19 de hongosto de 2016.

sábado, 3 de setembro de 2016

tradução: verano: sergio mondragón



verão

Floresceu o verão
se incendiou a erva
copularam as flores amarelas

julho e agosto nadaram no tempo
a garota avançou rompendo meios-dias brilhantes

eu a olhava deslumbrado
inventava sua imagem no frescor do coração
o mês maturou as uvas nos pátios
eu a olhava iluminar tudo com seus olhos
atear brasas debaixo da luz do sol
desnudar paisagens de fósforo y borbulhas
    e com chaves reluzentes
        abrir a porta do desejo

agosto crescia em direção ao centro de seu corpo
dourava sua pele junto às fontes
devorava as uvas
enquanto o tempo fiava meu destino
queimava as pestanas dos rios
e a garota detinha seu passo de cristais
     seus joelhos de sol resplandecentes


trad: nuno g.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

uma tarde com ivan búnin em guarulhos

"sondou a escuridão com os olhos e os ouvidos"
                                                 ivan búnin

entre nós dormita este segredo
uma alma à outra presenteou o par de brincos
um punhado de areia branca & uma colmeia de azuis sargaços
entre nós dormita este poema
um corpo ao outro espera
irrequieta serenidade
os deuses - ásperos, obscuros, indecifráveis - brincam
semeiam chispas: faíscas diminutas, larvas de luz
que, em breve, hão de florescer nas pedras...
entre nós dormita este desejo
esta distância: sombra amarela do amor de Mítia
& esta certeza de que até as pedras se movem
e só elas por intuição tão brusca sabem
o que na pele profunda da escuridão
  acesa, lhes espera:
é tudo amor, alma,
é tudo sofrimento e alegria inefável...

nuno g.
guarulhos, 04 de agosto de 2016.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

haiku: exercícios...

palavras mortas
rãs saltam
no vazio

palavras cálidas
gavião plana
no abismo do éter

nuno g.
Salgueiro, 1 de junho de 2016.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

outra vez, a ilha

Sábado: cerveja, feijoada, alice. As janelas abertas, escancaradas, exercendo sua devoção à passagem do tempo. Pedra antiga. Pedra tingida. Pedra estranhamente deseducada pela delicadeza. Pedra reverenciando o rio, a passagem, as vazantes: a fartura das vazantes. Sábado: paraguassú transubstanciado em Jaguaribe. Sábado, verso antigo encontrado entre teias de aranha: de tanto ser ilha perdi o temor dos naufrágios. Sábado: cachoeira de crianças no curiaxito resistindo aos arranha-céus, ao asfalto, às teorias pedagógicas que em doses homeopáticas anestesiam a má-consciência da pequena-burguesia febril.  Elvis está vivo, calamaro, o balanço da rede, tempo nublado. Fazia tempo que tudo não estava tão bem. Tudo parece está bem novamente. O mar voltou ao seu leito. Meus pés regressaram a algum chão. Me arde, calamaro, me está queimando. Olho a jangada, me distraio. Penso na viagem para a qual construí essa jangada. Penso em todo o material que utilizei nessa empreitada: as madeiras, o sal e os fios embaraçados de meu cabelo. A travessia é larga, o sertão é grande, os rios estão assoreados. Tentarei pelo mar, margeando a costa. Olhando as falésias. As dunas. Os corações de cristal. Os gaviões. Principalmente os gaviões. Ouvirei outra vez o canto das onças? Que cor terá esse canto agora? E com que mãos escalarei o velho paredão de pedra? Você estará lá? Encontrarei ninho em teus braços? Estarei sendo enganado por essa brisa?... Perdão, é que a vida me tornou um bocadinho cético, mas ainda anseio evitar o cinismo... ainda trago aquele desejo arcaico de retornar ao corpo em que nasci: aquele que tinha asas e sabia fabricar céus e arquitetar cosmogonias e depositá-las aos teus pés... oferenda de tiquira nas terras do araçagi... essa brisa que embala esse sábado... essa brisa... teus beijos... cidadão instigado... alguma música... essa brisa... teus pés em minhas mãos... teus lábios em meus lábios... os navios no horizonte... as ruínas na terceira margem... as onças cantando... o paredão de pedra... o mistério das terras do mato alto... o segredo do velho da carroça de fogo... os blues que compus enquanto você esteve por aí... os blues que compus quando estávamos aprendendo o ofício de purificar metais com fogo... os blues que compus quando aprendíamos a manejar esses instrumentos que temos agora... o silêncio não espera de nós arqueologias, o silêncio grita por um futuro... anêmonas, vestimentas de piratas e rebanhos de aves de arribação... é sábado – e a geografia dessa tarde extrai excessos de meu corpo, permito que essas forças me moldem, permito sua ação sobre meu desejo, me permito que ela me possua e que sinalize paragens desconhecidas, que converta todos os sintomas numa cálida memória de lugares inóspitos e suas esperas: ainda as mais longas, ainda as mais tardias, ainda as mais incertas...

nuno g.

Cachoeira, 16 de julho de 2016.

se ainda fossem possíveis cartas amorosas II

para marialice,

karina suicidou, sophia foi envenenada
a primeira você não conheceu
era uma boa menina
que gostava de fazer perguntas e andar desarrumada
a segunda você lembra bem
acendemos uma vela na sua cova
depositamos uma flor
e você me perguntou:
papai, como é que uma parte dela está aqui enterrada
e a outra no céu brilhando?
papai, como é que ela subiu e virou estrela
voando e sorrindo como um anjo?

eu você e ananda
olhando a chama em silêncio
quando eu não estiver mais aqui
siga sendo assim
respeite os mais velhos
venere os antepassados
fabrique signos com a memória
não traia
não minta
e nunca esqueça:
o mundo é mais antigo que você
besos pequeña
con cariño
tu papá  

nuno g.

cachoeira, 20 de julho de 2016.

domingo, 17 de julho de 2016

...

papai, hoje é domingo né? hoje a gente vai no cinema ver maria alice no país das maravilhas né?