sexta-feira, 26 de maio de 2017

desapontamento antibiográfico V: sangue, sêmen & mágoas.

caio, tens toda razão,
o coração não passa de um morango mofado
trancafiado num armário escuro
à prova de balas...


nuno g.

terça-feira, 23 de maio de 2017

desapontamento antibiográfico IV: a queda do céu, gente com buraco no peito & escadas para o nada.

Quando abri os olhos
  já era tarde:
o céu já havia caído
  e o buraco já estava lá
– cinzas, ossos, perfume & seda –
  era tudo que restava
um rio calado, uma cidade enfadada
  – cílios de arame farpado –
na boca até o mel sabendo a amargo...

quando abri os olhos
os mortos já estavam mortos
o fogo já em estado fátuo
– alma tem tempo próprio
se demora pra assentar coisas de dentro
limpar os trastes, arrumar a casa
se desfazer das tranqueiras
jogar fora o lixo acumulado nas entranhas
– alma vive longe
é a víscera que quando inflama canta
é o jardim que floresce quando machucado...

quando abri os olhos
esses cílios de arame farpado já estavam aqui
– cinzas, ossos, perfume & seda –
  era tudo que restava
onça ainda cantava
pedra ainda ensinava
e distante daqui,
  bem distante
corria um rio que ainda marulhava
respirava uma cidade que ainda dançava
&
embora fosse tarde
o céu já tivesse caído
e o buraco no peito fosse irremediável
havia um menino que paria borboletas
                                   tinha na pele todas as idades
e insistia em brincar de
  – com escaravelhos & estrelas –
    construir escadas
      que
        invariavelmente
          levariam outra vez
           ao nada de sempre...



nuno g.

sábado, 20 de maio de 2017

desapontamento antibiográfico I: cantares mexicanos.

tenho que te dizer
e sinto – muito –
só deus saberá quanto
você nunca esteve aqui – mesmo –
por isso talvez tenha doído mais    
por isso agora não mais
e saiba: sinto
por meus cantares mexicanos abandonados na calçada – nada –
todos os anos de león-portilla
– filologia, história, crítica & memória –  
esquecidos naquela federação de olhos ávidos
sugando seiva de árvore seca
– quase-morta –
nada muito mesmo sinto – agor
e isso tudo tão assintomático
explicitando a obviedade do fato
você nunca esteve aqui
, perdão, por ter de te comunicar,
os cantares mexicanos – nada –
desde o início estava claro
mas a paixão cega:
tua língua jamais seria capaz de soletrar o amor em náhuatl...


nuno g.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

RELÓGIO DE PONTO, por ALBERTO DA CUNHA MELO

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

ALBERTO DA CUNHA MELO

segunda-feira, 15 de maio de 2017

...

o sadismo e a imprudência andam de mãos dadas
¡aguas!
até uma flor pode chegar a ser descartável

nuno g.

domingo, 14 de maio de 2017

...

não sou nenhum erudito
embora tenha lido algo
não sou nenhum pervertido
embora alguma pornografia tenha consumido de fato
nunca fui proletário
embora tenha uma filha e algumas horas de vida com trabalho tenha gastado
não sou muito jovem nem velho
embora goste de vestir preto e saiba bem caminhar com cajado
de alcoólatra ou junkie passo longe
embora dificilmente dispense as alucinações induzidas
meu tempo é como meus olhos
esticado pros lados horizontais
raso na vertical
e tem por centro um sol esquecido
que em tudo se assemelha
à pupila dilatada...

nuno g.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

...

Olho e o que vejo me assusta. Bem menos que o assombro que me acompanhava antes. Que me fez ser o que fui por anos e anos. Tímido, recluso e ensimesmado. A poesia foi a mão que me disse venha, o mundo não é assim de todo mal e se sim é algo perigoso esse risco vale a pena, pois no fim das contas é tudo que se tem, é tudo que se pode aqui onde estamos, agarrei essa mão de com força, como quem não tem nada mais, como quem se encontra ante o último abraço. Tempo passou, rio correu, gente veio gente se foi. Primeiro pensei que quando muito algo havia já atingido por poder cantar um blues pra esfarinhar os ossos da saudade – não era nada ainda, ou melhor: era só um bom começo; favorável a persistência, diriam os caules de milefólio. Pé quente cabeça fria, em frente sempre. Coisa melhor haveria de vir. Caldeirão que muito se mexe apura o chá que se cozinha. Ainda que se demais se mexa se estraga o feitiço. Arquitetura difícil, magia braba e delicada – obrigação de ofício, imposição do destino, sina carregada & benção de poder aniquilar algazarra toda e escutar onças cantando: de poder no meio da estúpida sucessão de imagens e futilidades olhar e ver a arcaica carroça de fogo passeando pelo vale sagrado. Ainda olho e o que vejo me assusta, mesmo sabendo tudo o que sei – mesmo tendo sobrevivido a tudo que sobrevivi. Exu me chamou e me mandou escolher. Exu me soprou um segredo que é nosso: os que sobrevivem ou os que transcendem, mas isso depende da força que tu conserva nas tuas pernas, da natureza das asas que florescem em teu espírito, das capoeiras que abrem a foice da tua imaginação. Ninguém nessa vida é maior do que pode ser. Façanha nenhuma se pode empreender para além daquele repertório que nos antecede. Só o amor abre brecha. Perdão não é pra todo mundo, compaixão muito menos. É que não são só palavras. São larvas são musgos são esperas que nos antecedem e que aguardam oxigênio de gestos nossos. São sentimentos, silêncios, abrigos antigos que espreitam nossos passos desengonçados e sussurram enquanto estamos perdidos. A tristeza ou a alegria independem do intento que move nossa fábula. A história é antiga e não nos é dado conhecer sua origem e sua trajetória, mas por um desejo estranho e tortas veredas nos chegam os instrumentos as ferramentas os mecanismos para seguir caminhando e reconectando as linhas de força que escapam à nossa vã e obcecada razão. O mundo nos antecede como o punhal antecede à mão do que o amola. Como a presa antecede à fome do abutre que a persegue. Como a ilha ao náufrago que encontra areia para seu sono e descanso à sua ânsia de entregar-se à pureza de seus delírios. Ainda sabendo disso tudo olho e o que vejo me assusta. Escrevo. Enlouqueço. Entorpeço meus sentidos e abro minha pele ao que me trouxer o amanhã. Semeei um jardim e água não havia. Semeei em terra infértil. Hoje exu venceu. No susto dos meus olhos uma delicada borboleta acena de longe dissolvendo todas as promessas que não sobreviveram à véspera...

nuno g.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Um Cartão de Visita, por Alberto da Cunha Melo

Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.

Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.

Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.

É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.

Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.


Alberto da Cunha Melo

segunda-feira, 8 de maio de 2017

alívio, paralelepípedo de muitos lados.

nem todo mundo está pronto / pra receber as lições azuis do parto / tem gente que se afoga no próprio leite / tem gente que arma arapucas / tem gente que mata passarinhos / tem quem não mereça a cusparada que recebe / tem quem pense encontrar na morte a liberdade / tem quem ache que esquecimento se vende em farmácia / tem gente que é larva / gente que é vírus / gente que é lixo / nem todo mundo está pronto / pra receber as lições azuis do parto / tem quem ache que a vida é farra / tem quem sabe que o mundo é fera / tem quem pense ser possível ignorar o musgo da ressaca / tem gente que é vento / tem gente que é pedra / tem gente que é água / nem todo mundo está pronto / nem todo mundo é gente / pra uns o arco-íris é belo / pra outros é fardo / esporro / escarro / tem gente que é fogo / tem gente que é poeira / tem gente que é nada / tem gente que vive / tem gente que atrapalha / tem canto que é carne / tem quem não vale a maconha que fuma / tem canto que é faca / tem gente que é fardo / tem canto que é alma / tem gente que é só disfarce: que não vale sequer a pica que chupa / tem quem faz do próprio ego – régua medida compasso – imperativo ético da própria desgraça / nem todo mundo está pronto pra ter coração de palha / pra se deixar acolher no ninho e ser dádiva / tem gente que é nuvem: uva que apodrece antes de virar passa / tem poema que se faz com espinho & promessa de umidade / tem poema que é verde e dá flor / tem poema que é belo & áspero / tem poema que é resistente & delicado / tem poema que é cactos: oração de 116 bodes & 116 cabras.

nuno g.

Cachoeira, 18 de abril de 2017

a terceira dança do tempo

Algumas cicatrizes servem para nos lembrar do que não repetir. 
Outras nos dão vontade de sangrar novamente.

ayla andrade

pela terceira vez arranhei meu joelho na superfície da pedra
pela terceira vez sangrei em reverência e adoração
pela terceira vez engoli o silêncio e mastiguei o horizonte

nuno g.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

gracias craterdãm, gracias cachoeira, gracias fortaleza

ainda & sempre sob a má influência dos signos do zodíaco.


20 anos do cacos de cristo: 40 de planeta terra: solidão amor desesperança: o inferno no coração: fiapos de nuvens distorcidas escorrendo entre os dedos: camisa negra, calça jeans, ao som de lou reed: mantra de rutilância & escuridão: pupilas dilatadas & uma procissão de fantasmas: à sombra do sol esquecido, protegido por um daimon arcaico: pedra, rio, onça, imensidão: borboleta pousada no ombro esquerdo: sobrevoando os vales dos suicidas dos traidores dos mutilados: cultivando oceanos áridos: caminhando nos labirintos do calabouço de reticências: cruzando a floresta do esquecimento num alucinado automóvel verde: com os joelhos sangrando de tanto chão: anjo vermelho, alga marinha, mãos de passarinho: hálito de cachaça estrangulando a garganta aberta do inimigo: aprendiz do aprendiz de feiticeiro: magia & perda: costurando uma lua nova com os restos dos restos de sonhos apedrejados: fígado carcomido destilando o veneno das serpentes: regendo a frágil sinfonia do mito cósmico: venerando o amolador de punhais, o gavião e a estrela venérea que gravita entre os imperturbáveis anéis de saturno: girando a delicada roda de samsara e esperando a terceira dança do tempo: gratidão gratidão gratidão: janaína, marialice & a tarântula do paraguassú: carroças de fogo, cantos de onças, paredões de pedra: insano caleidoscópio girando entre ressentidas estrelas: nau insensata, jangada de náufragos: alguma música para ouvidos nada delicados: nenhuma paz, todos os rios, qualquer alegria: perfect day & que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês.


nuno g.

domingo, 2 de abril de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

...



Ontem foi domingo e depois do churrasco fui ao parquinho da faceira na atividade das crianças. Tinha um monte delas lá. Pintando a parede com spray. Sendo pintadas. Ouvindo a contação de estórias. Correndo. Bagunçando. Testando os limites. Todos os limites. Os delas. Os dos pais. Os do mundo. Alice não estava lá. Eu não havia tomado sequer um gole de álcool. Já conheço todos os parquinhos da região. Gosto disso. Gosto de ver Alice brincando. E quando ela não está comigo simplesmente gosto de imaginar como ela estaria brincando se estivesse ali. Os domingos são ainda mais vagarosos de passar quando Alice não está aqui. Os domingos são sempre vagarosos. Mesmo com churrasco, praia ou parquinhos. Mesmo quando se decide encher a lata e esquecer de tudo. As coisas todas já não me interessam muito. Pago minhas contas, vou aos parquinhos e deixo as memórias tristes fluírem pelo esgoto dos domingos.

nuno g.
Cachoeira, 20 de março de 2017

...



Noite de sábado. A ressaca da vida toda chutando meu fígado. Dor na nuca. Dor nos ombros. Dor no tendão. O dia todo choveu. Raios, relâmpagos, trovões, uma trepada e uma soneca. Nada mais tem muito sentido. Nem esse rio, nem essa cidade, nem essas pessoas todas que aparecem na minha frente. É difícil seguir em frente assim. É difícil recuperar toda a energia que jogamos nas ruínas. É difícil ficar em casa ouvindo Lou Reed cantar perfect day comendo macarrão com frango sem lembrar da vida que poderia ter sido. Pelo menos a campainha está quebrada e posso ficar tranquilo que ninguém tocará essa porta. Ao menos por essa noite.

Às vezes saio de casa pra cabeça não explodir. Muitas vezes na verdade. Irreparável erro é não matar as pessoas que nos toca matar. Mandar pro inferno quem temos que mandar. Isso sim não nos será perdoado no dia do juízo final. Deixar certos filhos da puta andando por aí como se nada. Cada um de nós deveria ser o anjo exterminador. Talvez o mundo se tornasse algo melhor. Ou não. How do you speak to an angel. Phoda-se.

nuno g.
18 de março de 2017.

...



É tudo muito estranho. Demasiado cinzento tudo. Andamos andamos andamos e nada surge no horizonte. Nenhuma cidade. Nenhum rio. Nada de novo na paisagem. As mesmas colinas, as mesmas palavras, o mesmo ritmo. O trem caminha para o abismo. Isso é irreversível. Assim como nós caminhamos pra morte. Joelhos ensanguentados no chão. Reverência. Agradecimento. Tédio. Náusea. Apatia. E essa leve sensação de que todas as vísceras estão definitivamente fora de lugar...

O mundo deu outra volta. O mundo dá muitas voltas. Algumas a nosso favor. Outras contra. Os fracos ficam esbagaçados pelo meio do caminho. Simplesmente é assim que a coisa toda funciona. Nada além disso. Ou você é forte o suficiente para desfrutar das ondas favoráveis e sobreviver às que desabam sobre você ou você é só uma vítima de nada disfarçado de ser humano. Não há muito o que fazer além disso. Segunda-feira de manhã nada parece muito misterioso nem enigmático. Tudo está claro. O horizonte está limpo. O mundo vai seguir dando voltas. Algumas a nosso favor outras contra nós. Só nos resta ser mineral o suficiente pra não ficar pelo caminho. Choramingando como um imbecil que desperdiçou todo o amor e viu escorrer entre os dedos todas as oportunidades de atingir a perfeição. Acordo. Abro os olhos. E penso. O que é realmente importante agora? E isso é tudo. O resto é ignorância e escuridão. O resto é egoísmo. O resto é desprezo, cinzas e a infinita estupidez humana.


nuno g.
Cachoeira, 06 de março de 17.

quarta-feira, 8 de março de 2017

...

ei garoto não era você que sempre estava caindo fora e que sempre se ligava nas pessoas que estavam caindo fora e que simplesmente achava que tudo aqui dentro estava demasiado apodrecido e sem vida e que todo esse mau cheiro era simplesmente insuportável e que não havia nada mais que se pudesse fazer do que sair por aí e perambular tentando mover os círculos concêntricos de sua própria loucura enquanto tratava de demolir todos os pontos-de-vista que surgissem na sua frente e toda e qualquer certeza que se apossasse da sua mente ou de seu coração... Ei garoto, não era você que sempre se vestia de negro, ouvia lou reed e amava as ruínas? Não foi você que escreveu aquele poema que falava sobre flores roubadas, primeiro milhão de amores, feridas, enigmas, maconha e um certo concerto de Patti Smith?  Acho que lembro bem de você garoto: andando pelas ruas, fumando um cigarro e cantarolando i wanna be your dog. O que aconteceu com tudo isso garoto? Por que estás a chorar tão copiosamente na calçada dessa igreja? Levante a cabeça. Caia fora outra vez. Que meteoro destroçou tudo aquilo? Ao menos vejo que você ainda se veste de negro, não cortou os cabelos e ainda tem esse olhar de fuzil. Mas se percebe que a vida foi dura demais contigo. Se percebe que teus velhos sonhos estão todos arruinados e que te faltam forças para reconstruir tudo outra vez. Você soube que dylan recebeu o nobel de literatura? Você ainda escreve poemas? Como deixastes te fazer tão refém? Tão catatônico agora? Levanta garoto. Olha outra vez o horizonte. Sacode essa névoa impenetrável. Abandona essa cara sombria. Vamos garoto. A vida segue apesar de tudo. Apesar de qualquer coisa. Apesar de toda a merda que as pessoas fazem com aquelas que elas realmente gostam. O que passou com aquele garoto que falava sobre a não-interferência e que fazia ninhos com gravetos recolhidos nas beiras das estradas? Ei garoto esse não é você, esse não parece você, esse é ainda mais estranho mais triste e mais autodestrutivo do que você. Apesar de tudo nunca conheci ninguém que tivesse tanta facilidade de tocar as nuvens com as mãos como você e agora te encontro aqui chorando nessa calçada de igreja e me pergunto sobre o que realmente aconteceu contigo durante esses anos que não nos encontramos. Aceita um cigarro? Vou buscar um café pra nós... ei garoto você segue com essa cabeça baixa! Levante essa cabeça – é simples, você sabe melhor que qualquer outro, você também sabe exatamente o que está acontecendo – é simples, ela quer lhe matar, ela precisa lhe matar, não existe outra maneira dela crescer, você pode entender isso facilmente, nada cresce sem matar alguma coisa, ninguém cresce sem matar o que ama e o que amamos sempre termina por nos atacar ferozmente, você sempre soube disso garoto, erga a cabeça, respire fundo, olhe para o céu e siga – você sabe que não pode morrer agora, você sabe que a estrada ainda é sua companheira, você sabe que tudo termina mesmo escorrendo pra algum esgoto, não se deixe abater, não se deixe esmorecer, não se renda tão facilmente, ainda existe oxigênio suficiente na atmosfera, você ainda tem um coração, você ainda não perdeu toda a fé. Lá fora tem um coelho mágico te esperando pra brincar um pouco mais nos jardins do paraíso...

nuno g. 

Cachoeira, 05 de março de 17.

sob a flauta de pan

hoje é domingo: dia de cinema!
bernardo acordou querendo doce-de-leite
desejando que o mundo fosse feito de sorvete
você acordou querendo carinho
como se soubesse que hoje é domingo de partida
eu acordei com saudade do sonho
sem vontade de acordar
suco de maracujá, bolachas de centeio com manteiga
café e espinho atravessado na garganta
saudade da vida que poderia ter sido
certeza de que as horas passarão devagar até as pipocas...

nuno g.

cachoeira, 05 de março de 17.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Meus olhos, por Maria Luise Weissmann

Quando tu vens,
meus olhos voltam-se
à escuridão
como à morte.

Desde que deixaram-te
entrar, (traidores!),
agora vivem sempre
sob a guilhotina.

Maria Luise Weissmann
trad: Gabriel Rübinger-Betti

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

se ainda fossem possíveis cartas amorosas 1977 ou oração à lua grande no alto do rosarinho


para marialice,

querida filha
ontem a lua nasceu grande
dizem que ainda maior do que aquela que iluminou tua imaginação na chapada do apodi
meus olhos nela encontraram o brilho dos teus
nela revi todos os 365 banhos de erva que te dei
nela a alegria infinita de uma lembrança que já parece tão distante
de você contemplando meu choro minha coragem desmedida e desabrigada
de sua voz tão sábia tão antiga tão certeira como a flecha do arqueiro zen
tá doendo papai né? vou te dar um beijinho e vai passar viu...
papai, aqui no ceará a luz nasce das pedras...
querida filha
desde que você saiu da barriga de sua mãe
– e você sabe quanto resistiu: era sua maneira delicada de nos ensinar a esperar... –
o mundo girou girou girou e muitas luas se passaram
até chegar esse dia que a lua nasceu tão grande
que todos dizem ser a maior de todas as luas
eu na verdade não sei se isso seja verdade
mas estou certo que saí de casa pra esperá-la no alto do rosarinho
onde mataram por esses dias dois adolescentes
onde recitei um dia pra tu madre quando ela ainda era
a gueixa mais linda no meio da multidão
celebrando a mais cachoeirana de todas as alvoradas...
querida filha
ontem a lua nasceu grande
e olhando o brilho dos teus olhos no brilho dela
me deparei com minha missão abreviada
&
meu lunário perpétuo esparramando-se sobre uma espera
sobre a trajetória obliqua de uma flecha que na mais profunda solidão
reencontra-se vasto sorriso estampado em negra bandeira de nau que se quer insensata:
meu lunário perpétuo fustigando com curta vara meu coração oráculo
flutuando sobre vazios sedimentados por tantos séculos e silêncios
e pragas e egoísmos e maldiçoes e

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

São Paulo vestida de preto:, por Barbara Uila

tentação fulminante rasteja

um cheiro familiar

becos e avenidas se encontrando

na calada da noite usurpa

as últimas horas do grito

dois gatos pretos que

reviram o lixo acalmando

a fome do ano todo


São Paulo vestida de preto:

bairros longínquos onde o

amor é o porteiro que abre

a porta com seu sorriso de

curinga prestes a dar o golpe


São Paulo vestida de preto:

minha terceira guerra mundial

transbordando bairros

do centro


São Paulo vestida de preto:

Santa Cecilia acendendo a

pólvora do craque


São Paulo vestida de preto:

ônibus acelerado na Faria

Lima arromba meus tímpanos


São Paulo vestida de preto:

onde o diabo carrega seu

enorme instrumento musical

e onde danço sua música em

tom de partida…



Barbara Uila

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Terra em transe, por m. frança.

para nuno gonçalves, o domador das éguas selvagens do espírito do alto jaguaribe


ele veio e seu novelo espiral
de palavras
enredos
loucos saltos no meio da rua
ele saltou
foi no paraíso de dante e voltou pelo inferno de dario
na companhia de dom sebastião
o antonio conselheiro do sertão do ceará
quixeramobim é um verso alexandrino
quisera eu ter querubins no auto de natal
deus salve a rainha porque o rei está nu
a muito tempo
só o menino, o poeta e o profeta avistaram

nunca o tempo foi para frente
por isso essa infecção
essa asia do cotidiano
esses tardios nazistas pelo campo de centeio
será a cajuína cristalina de teresina a salvação
ou vamos ficar com a rendição dos astronautas

se a vida é um coquetel molotov
e vertigem da tv é um mandamento
quero é sambar no benfica com meu amor
e
como já dizia
belchior: viver e entender a vida é muito melhor.

salve salte dance meu louco diamante.


m. frança

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

sólo un poco aquí... Nezahuacóyotl.



Yo Nezahualcóyotl lo pregunto: ¿Acaso de veras se vive con raíz en la tierra?
Nada es para siempre en la tierra: sólo un poco aquí.
Aunque sea de jade se quiebra, aunque sea de oro se rompe,
aunque sea plumaje de quetzal se desgarra.
No para siempre en la tierra: sólo un poco aquí.

Nezahuacóyotl.

domingo, 9 de outubro de 2016

ode à chapada do araripe & à cavalaria sertaneja



para claudio reis & marialice & virginia

era noite, fazia calor e um anjo percorria a madrugada da cidade de Kraterdam
era noite, alta lua despencava sobre os fósseis
era noite, havia uma fogueira acesa e estávamos ali
os três, inteiros, cada um com suas próprias sentenças no olhar
era noite, fazia calor, éramos seis mãos em busca
                                       éramos a lenta respiração da terra
havíamos retornado a pouco da casa da bruxa
no alto da serra
lá comemos, tomamos cervejas, fumamos e conversamos e conversamos e
alice brincou com os animais do jardim
deliciou-se com o escorregador de madeira e o balanço de pneu
desfrutou do balançar da rede
recebeu com graça os paparicos que as bruxas grandes devotam às recém-iniciadas
o guru, em silêncio, apenas sorria
o guru, sem ansiedade, me apresentava outra vez o horizonte
e sentia certo regozijo ante a cegueira que a desesperação instalara em meu coração
o guru, desacreditava aquela desmedida toda
                                                     desfazia inocências
a bruxa fez feijão verde
cozinhou cuscuz tapioca fez chá & café no bule
cozinhou carneiro jogou o tarot e recebeu as senhoras pra tirar o terço
levamos uma nossa senhora azul numa casinha de madeira
uma ressaca leve
& ossos & cinzas & catarro & sede & lembranças boas
faz tempo que essa noite passou
mas hoje algo dela respira aqui
algo do horizonte que se abriu naquela noite
&
que foi o começo de um fim que parecia não ter fim...


nuno g.
Cachoeira, 09 de outubro de 2016.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

poema sem começo & sem fim



I.

hare krishna hare daime hare dharma
ogum guerreia contra o exército invencível de kali yuga
carros de som mendigando comprando extorquindo votos
o rio, alheio, respira a saudade que canta para meu coração
nas várzeas do Jaguaribe: teus olhos sorriem ao som dos stooges:
as mães são fascinantes: seja quando seduzem, seja quando se matam
as crianças tomam banho no quintal
a neta do velho punk que um dia homenageou a rainha britânica com uma pistola de sexo
ilumina teu banho
perfuma as águas que minam de teu corpo hacia minha sede...
ônibus incendiados ao norte do cais da ilha
g. se recusa a ir caminhar na praia
escrevo um poema sem começo & sem fim
reinvento minha pele invocando tuas aparições em meus sonhos
me reúno ao aprendiz de bruxo em sua memorável escalada ao popocateptl
em seus passeios circulares pelo inframundo
as crianças seguem se divertindo no quintal
sigo escrevendo o poema sem começo & sem fim
o ruído dos carros segue implorando votos
a nudez deste sábado te converteu num mantra recitado às margens de um paraguassú
com trejeitos de jaguaribe...
araçagi: que essa oferenda de tiquira dendê e baião-de-dois
abra nossos atalhos, nossas veredas:
que as divindades sertanejas
– arcaicas, obscuras, indecifráveis, ásperas, enigmáticas & incoerentes –
abençoem e protejam as clareiras & capoeiras abertas nas várzeas
no mar de carnaúbas
nos olhos das oiticicas
na chama de querosene:
língua bifurcada do candeeiro...

II.

este poema é para ti e para qualquer resquício de teu ceticismo
esse poema é o ácido que dissolve hesitações e afugenta receios
esse poema é uma chuva de pétalas de açucenas sobre teus cabelos bagunçados pelas minhas    
                                                              mãos
este poema é um casarão de pedra que construí para ser vossa mais agradável morada
             – delicado abrigo de teu sutil encantamento –
esse poema é uma nuvem de borboletas amarelas bendizendo teus passos na escuridão
esse poema é o antídoto exato para a melancolia de tuas domingueiras tardes nas terras do
                                                               açaí
esse poema é uma engrenagem que num passe de mágica abole a distância que nos separa
esse poema é uma praia banhada por água doce estendida aos teus pés
este poema é o sol que acaricia teu corpo
este poema é o sal do desejo consultando as varetas de caule de milefólio
       sobre o momento propício para se misturar ao teu mel
esse poema é minha maneira de te amar devagarinho
esse poema é o canto de minha sede e o onírico labirinto onde aprisionaram a deusa
                                          veneração
este poema é um tucano sobre um mandacaru ou um cardeiro ou um galho de ipê florido
que semeei em teus cílios ou em teus lábios num instante
de infinita felicidade & absoluta distração
este poema é teu gozo sussurrando:
sofrendo de urgências meu poeta?
esse poema é um conto sufi extraído do sermão proferido por sidarta gautama
       nas ruínas do himalaia
esse poema é a memória e a redimissao de uma noite solitária entre os guarás rosados
       de uma Alcântara silenciosa em que o único que se escutava
       era os estalos os gemidos os sussurros de um casal de estranhos
       fodendo no chalé ao lado...

III.

meu coração é um oráculo em erupção...
ternura, carinho e desejo beirando tuas tardes...
meu coração é as velas do mucuripe saindo pra pescar...
meu coração é um colibri andino recitando chelsea girl acompanhado
     por um cortejo de improváveis quenas...
meu coração é as crianças brincando de índios fazendo transações com gnomos & bruxas...
meu coração ...
meu coração...
meu...


cachoeira, 01 de outubro de 2016.
nuno g.