quinta-feira, 23 de maio de 2019

إلى حمار-ب

¿
هكذا
إذًا
لِ
نجعل
من
أرضنا
أرضًا
موعودة
ولِ
نجعل
من
أرض
بوليفار
قطاعَ
غزة
و
من
صعيد
البيرو
ضفة
غربية
?

نونو ج.

tradução: Shadi Rohana

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O jardim dos baobás


Nossos passos, nossas promessas e
   o suor dos nossos corpos
saindo de casa forte ao meio-dia e
   caminhando em direção ao antigo
sem nenhuma morbosidade no ventre ou
   no olhar
meu ex-apartamento, meu ex-marido e meu
   pânico de lagartixas
as crianças burguesas brincando no parque da
    jaqueira
o tédio estampado na cara dos porteiros dos
    arranha-céus
os automóveis se arrastando no asfalto e dando voltas
    sobre si mesmos
meu segundo ex-apartamento, meu segundo ex-marido e meu
    eterno pânico de lagartixas
o rio pedindo socorro e zombando dos
     sorrisos que o aniquilam todos os dias
as sirenes domingueiras, os semáforos domingueiros
     as famílias domingueiras empurrando carrinhos de bebês
          e se empanturrando de doces e guloseimas domingueiras
Nossos passos chegando ao Derby e
     descansando da pressa contida nas
         derrotas da vida toda
sua mão acariciando minha suave ereção espontânea
sua mão acariciando a fauna e a flora
     deste repositório de agudas infecções
a juventude protestante passa entoando cânticos de
     louvor à própria desgraça
o fiteiro nos regala uma água com gás bem gelada
simpáticos policiais nos dizem boa tarde
professores universitários e taxistas cegos e profissionais liberais
     disputam cada centímetro de asfalto
        com uma voracidade miserável
fotografias publicadas diretamente no instagram e nas
     orelhas dos livros que aguardam por ser escritos
minha mão acaricia sua buceta
meu ex-apartamento, meu ex-marido,
     meu pânico de lagartixas
uma segunda ereção espontânea e
     vendedores de mapas para personagens de fábulas
Nossos passos tocando o mistério encravado nas unhas de glitter
     da avenida conde da boa vista
as crianças burguesas brincando no parque
     a saudade mastigando o terror e a
          carcaça dos inimigos destroçados
o sangue ainda fresco – apesar dos
     quarenta anos passados – avermelha a quentura do asfalto...
as coxas brancas, o sonho branco,
     o sêmen azulado
          expostos à curiosidade dos infames
               jornalistas de plantão
expostos à curiosidade infame dos
     desavisados transeuntes
expostos à miséria moral dos disfarces carnavalescos...
a juventude protestante enchendo nosso saco
     com seus cânticos desgraçados
o rio gritando por socorro
minha ex-morada, meu ex-bancário aposentado,
     minhas lagartixas de estimação se alimentando dos cupins do armário
os ônibus, as bicicletas e as notas de rodapé
     destes edifícios nos olhando com suas enormes e assustadoras
          pupilas dilatas
o cinema, o rio e o martírio dos heróis de 17 nos olhando
     com seus cabelos assanhados
– aos pés de qual destas pontes estará
     a famigerada estátua?
a qual destas nuvens me levará esta
     escada espiralada?
quem deterá o apodrecimento irreversível
     desta cidade de siris e homens pálidos? –
o fiteiro nos regala uma água com gás
     suficientemente gelada
alimentamos os pombos com pipocas
     enquanto vemos as florzinhas universitárias
          ensaiando passos de frevo requentado
& um cortejo de eguns desfilando
     ao som de um maracatu rural
Nossos passos, nossos pensamentos, nossos ancestrais
     se arrastam em direção ao pátio do terço
onde três anos atrás conversei com uma pomba-gira alucinada
tuas mãos lambuzadas de dendê & leite maltado
     agarram meu pau como quem
         agarra a voz do oráculo antes que ele pronuncie
              qualquer palavra
a feirinha com seus pratinhos de
     cuscuz macaxeira e charque e
          suas bonequinhas de pano
               e seus yodas vestidos de frade
– aos pés de qual dessas pontes
     estará a estátua? –    
águas, edifícios, velas, siris contaminados,
     calçadas ensanguentadas
minha mão alisa sua bunda e suas unhas traçam arabescos indecifráveis na pele que
     reveste minhas omoplatas
escarro na tua boca e te beijo enquanto você sorri com uma ferocidade delicada
é linda a cidade que eu escolhi para amar
dez reais um acarajé sem cadáveres
pipocas aos pombos e facções de jovens se degladiando entre as
     esculturas soníferas de Brennand
minhas dívidas saltando como
     rãs e formulários e formulários e formulários
         se acumulando na minha caixa de imails há anos abandonada
as bonequinhas de pano me olhando de soslaio
     enquanto minha borboletinha se refresca
          na cachoeira da solidão em alguma praia da ilha do desterro
uma terceira e última ereção
     neste calvário
nesta peregrinação de lábios em busca dos lábios de uma estátua
tua carne ardendo – acesa pela selvageria das tapas recebidas na madrugada passada
Nossos passos, nossas mãos, nossa franciscana devoção
     amordaçando o oráculo improvisado e
          todas suas bestiais palavras sobre sacrifícios
               sobre futuros e
                    sobre o nada
recorremos a Ascenso Ferreira,
    mas ele é só uma escultura de bronze e
         esculturas de bronze não proferem palavras
recorremos ao fiteiro,
     mas fiteiros só regalam gasosas engarrafadas
recorremos à moça que passeia distraída,
     mas a moça só sabe de drogas sexo & farra
jogamos pipocas aos peixes que
     sobrevivem em meio ao distúrbio agourento
                  destas premonitórias águas
e disparamos projéteis, asnos, insultos, lagartixas, psiquiatras e metáforas
     contra uma ansiosa réplica abandonada do tradicionalíssimo galo da madrugada
tomamos uma limonada com sal e
     dispensamos os ansiolíticos
         enquanto você se diverte redefinindo as
             angustiadas fronteiras de minhas cicatrizes inflamadas
por quê já não mais aqueles tapas na minha cara?
as paredes pintadas do estacionamento da
     católica universidade
as portas fechadas do bar central
o baobá imperial às margens do rio que sussurra em guerra contra essa cidade que
     há séculos e séculos e séculos o estrangula o asfixia o esmaga
holandeses, judeus, árabes e mercenários de origens imaginárias
     saltitam como coelhos endiabrados por todas as partes dessa cidade
adoradores do profeta em verniz de ébano carregando cântaros abarrotados de águas
    traficadas do rio oxum
         onde se afogam ratazanas com dentes e orelhas cor de
              esmeralda
enquanto o sol vai se despedindo no horizonte uma vez mais e nossos silêncios
      atravessam de mãos dadas a ponte Buarque de Macedo e guiados pelas
           informações do google maps se aproximam finalmente da estátua
– você fotografa, eu reverencio...
um mendigo me solicita um cigarro
e, inevitavelmente, penso:
existe mais filosofia neste cigarro
que em toda a moral do cristianismo
pegamos um uber e regressamos à casa forte,
     à sua adorável e charmosa caixinha de fósforos.

nuno g.
Recife, 06 de maio de 2019.




sábado, 27 de abril de 2019

Posicionamento das lideranças, Xamãs, Pajés e associações da Terra Indígena Yanomami sobre vídeo divulgado na página oficial do presidente Jair Bolsonaro.

Boa Vista, Roraima, 18 de abril de 2019


No dia 17 de abril, o presidente Bolsonaro recebeu indígenas em Brasília. Nós Yanomami e Ye’kwana assistimos ao vídeo divulgado na página oficial do presidente das redes sociais e viemos responder o que foi dito em nome do povo Yanomami.

O Yanomami que aparece falando com o presidente não representa o povo Yanomami. Estamos reunidas 06 associações da Terra Indígena Yanomami, pajés, xamãs e lideranças Yanomami e Ye’kwana. Nós sim representamos o povo Yanomami e Ye’kwana, escolhidos por nossas comunidades para falar em nome delas. Somos mais de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, que vivemos na Terra Indígena Yanomami.

Nós aqui sabemos os nossos direitos. Não somos crianças, somos lideranças e representantes do povo e não estamos sendo manipulados pelas ONGs, como foi falado. Sabemos quem são nossos parceiros. Desde antes da terra ser demarcada eles estavam do nosso lado e continuam defendendo nossos direitos.

O Governo Federal precisa cumprir com seus deveres Constitucionais e garantir os direitos indígenas escritos no artigo 231 dessa Carta Magna: é dever do Estado cuidar da saúde, da educação e proteger nosso território. O Governo deve fortalecer a Funai para que ela tenha condições de trabalhar pelos direitos dos povos indígenas.

Os povos Yanomami e Ye’kwana não vivem pobres, como também foi dito. Nossa riqueza não é poder vender a terra, tirar o ouro. Nossa riqueza é viver bem na nossa terra, a floresta, ter os rios limpos, a saúde do povo. Somos contra legalizar o garimpo no nosso território. O ouro para nós deve ficar embaixo da terra. Queremos renda que vem dos nossos próprios projetos que respeitam nossa floresta, como estamos fazendo em nossas comunidades. Nós somos os legítimos brasileiros, originários da terra, onde nascemos e onde vamos morrer. Não queremos ser igual aos não indígenas. Falando português, podemos virar dentista, advogado, mas o nosso sangue continua Yanomami e Ye’kwana.

Hutukara Associação Yanomami- HAY

Associação Wanasseduume Ye'kwana - SEDUUME

Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes- AYRCA

Associação das Mulheres Yanomami Kumirãyõma- AMYK

Associação Kurikama Yanomami- KURIKAMA

Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima- TANER

quinta-feira, 11 de abril de 2019

...

reagir é transformar o mundo em passarinho

marialice

ao Asno-Mor

¿
assim
que
transformar
nossa
terra
em
terra
prometida
é
converter
a
cuna
de
Bolívar
em
franja de gaza
e
o
alto peru
em
margem ocidental
?

nuno g.

domingo, 7 de abril de 2019

Horas Malditas, por Fagundes Varela

Há umas horas na noite,
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia
Como as horas de Maria
Debruçada aos pés da cruz.

Tredos abortos do tempo,
Cadeias de maldição,
Vertem gelo nas artérias,
E sufocam, deletérias,
Do poeta a inspiração.

Nessas horas tumulares
Tudo é frio e desolado;
O pensador vacilante
Julga ver a cada instante
Lívido espectro a seu lado.

Quer falar, porém seus lábios
Recusam-lhe obedecer,
Medrosos de ouvir nos ares
Uma voz de outros lugares
Que venha os interromper.

Se abre a janela, as planícies
Vê de aspecto aterrador;
As plantas frias, torcidas,
Parece que esmorecidas
Pedem socorro ao Senhor.

As charnecas lamacentas
Exalam podres miasmas;
E os fogos fosforescentes
Passam rápidos, frementes
Como um bando de fantasmas.

E a razão vacila e treme,
Coalha-se o sangue nas veias,
Mas as horas sonolentas
Vão-se arrastando cruentas
Ao som das brônzeas cadeias.

Oh! essas tremendas
Tenho-as sentido demais!
E os males que me causaram,
Os traços que me deixaram
Não se apagarão jamais!


Fagundes Varela

sábado, 6 de abril de 2019

sonho com rimbaud, por patti smith

sou uma viúva. pode ser em chalerville pode ser
em qualquer lugar. ele caminha atrás da charrua. as
campinas. o jovem arthur se esconde pela fazenda
(roche?). o gerador o poço artesiano. atira cacos de vidro
verde aliás lascas de cristal. acerta meu olho.

estou no andar de cima. no quarto fazendo um curativo.
ele entra. se aproxima da cama. suas faces coradas.
arrogante & mãos enormes. sexy como o inferno. que
aconteceu ele pergunta se fazendo de inocente. inocente
demais. tiro a bandagem. mostro meu olho uma nojeira
sangrenta: um sonho de edgar allan poe. ele se assusta.

atiro à queima-roupa. alguém fez isto. você. ele cai a
meus pés. chora em meu colo. toco seu cabelo, mas
queimo os dedos. densa raposa de fogo. cabelo dourado
macio. aquela inconfundível tonalidade ruiva. rubedo.
espanto vermelho. cabelo do Único.

cristo eu o quero. imundo filho da puta. ele lambe minha
mão. mantenho a calma. vai depressa tua mãe te espera.
ele levanta. está indo embora. mas não sem antes me
olhar com aqueles seus frios olhos azuis de assassino. ele
hesita é meu. estamos na cama. levo uma faca suave à sua
garganta. deixo cair. nos agarramos. devoro seu escalpo.
piolhos do tamanho de dedos de criança.
o caviar do seu crânio.

arthur arthur. estamos em aden, abissínia. fodendo &
fumando. nos beijamos. mas é mais que isso. blues.
charco azulado. mancha à tona da lagoa. percepções
ampliadas, alma vital. baía cristalina. explosão de bolas
de vidro coloridas. rasgadura de tecidos de tenda árabe.
se abrindo, aberta como uma caverna, aberta ao máximo.
rendição total.

patti smith

sexta-feira, 5 de abril de 2019

1977 – fragmento


o nome dEle é ogum
e foi escrito nas areias da beira-mar
dEle é o céu
dEle é a noite
nEle a verdade do sangue

o nome dEle é ogum
e foi escrito por um frade nas areias da beira-mar

nuno g.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

o diamante selvagem (tentativa de lapidação de um delírio)


à memória de josé alcides pinto



o Indecifrável roçou sua pele de algas
e sussurrou-lhe um breve salmo
ele, em êxtase, apenas pôde recordar
rosário, hóstia e língua
e uma suave ardência de
clamor & veneração

meus seios sussurram preces em tuas mãos
sílaba a sílaba, blasfêmia e furor
os meus feitiços roçam os céus de tua fome
sete vezes, Sinal da Cruz, na carne incandescente

trazia nos bicos dos seios duas gotas de lágrimas
e sabia que o sal repousado em seus mamilos
era o único capaz de aplacar o mistério da sua sede

coração curandeiro carniceiro carcará
fareja róseos anjinhos,
lambendo suas rezas, rosários e ladainhas
sete vezes, preparo unguentos, para o amante acometido
sete vezes, tempero a febre, com beberagens e artemísias
os sinais de nascença espalhados pelo meu corpo, as cicatrizes
estremecem os altares, as catedrais góticas do teu sossego
e os teus lábios, em obscena devoção, repetem:
abyssus abyssum invocat

o corpo fendido e fraturado buscando
o corpo eterno e sem mácula do absoluto
chagas em chamas, produzindo um canto
que conserve o rangido de todas as couraças
e todo o inferno das contradições dessa teologia da carne
                 sua consciência é um pântano
seus nervos foram tocados pela ira das Fúrias.

o meu espírito é devastado pelo Implacável.
a pele, um piano incendiado,
troando uma infernal partitura
o corpo em demolição ainda pulsa
caçando o sangue celestial, a cura.


nuno g & anna apolinário

sexta-feira, 22 de março de 2019

The dead father, por Carl Rakosi

Let me be an old dog in a corner
or a pair of favorite slippers
by your bed
and hear again about your early life
and have you care for me forever.

Carl Rakosi

terça-feira, 19 de março de 2019

as pupilas do marinheiro de Acatitlán

não paro de suar
derreto como um sorvete exposto ao sol
cozinho como um brócolis submetido ao vapor
procuro uma loja de aluguel de fantasias para devolver o disfarce de carnaval mas não encontro
pressinto que ausências prolongadas estão secretamente interligadas a isso
e que vastos túneis iluminados podem me levar a algum lugar
mas não ouço resposta
só o abafado sem-fim do silêncio
germinando como se fosse uma semente proscrita do meu dicionário
se eu não fosse tímido te ofertaria algum desejo perverso
mas existem coisas que só podem ser ditas em táxis com barreiras acústicas
a caminho de aeroportos aos quais nunca mais se regressará
não paro de suar
e meus cabelos ensopados não encontram um gramado para descansar
derreto e reformo meus projetos de anoitecer
a lua tá crescendo
e com ela a memória de uma reclusão casual que parece se estender ao infinito
a minha carne hoje imploraria pela violência de outra carne
se não estivesse tão ocupada em afastar de si
todas as obrigações
não paro de suar
e de pensar em como seria abrir as janelas da casa e permitir a entrada do vento
a minha carne explode como a pupila de uma flor selvagem
abandonada num canteiro periférico da província.

nuno g.

segunda-feira, 18 de março de 2019

ablução

o som da missa invade a casa.
maria dorme.
fumo um cigarro atrás do outro e cozinho um jerimum para fazer um caldo.

a noite tem reggae na praça.
faz tempo que não vou a uma festa de largo.
queria que as minhas palavras roçassem a língua dos anjos.
ressuscitassem o viço que os sucessivos naufrágios afogaram.
e povoassem o meu esôfago de lactobacilos.

a vizinha lava roupas,
ouço a água escorrendo e sinto o cheiro de sabão.
a vizinha cultiva passarinhos em gaiola,
maria bola planos infalíveis para libertá-los.

faz tempo que nenhuma mulher me devora.
as vezes sinto saudade do despertencimento que habita o corpo depois do coito.
a missa termina e o silêncio me convida a dormir um pouco mais.

separo resquícios do que fui e junto à couve para a sopa.
maria virou vegana, misturo seu sonho às ervilhas que separei para o pequeno-almoço.
quando acordarmos ainda haverá uma infinidade de máscaras a se desfazer.

fazia tempo que o Indecifrável não soprava com tanta força,
os ventos que descem das colinas provocam marulhos & mirações.

nuno g.

domingo, 17 de março de 2019

DOMUS DESIDERIO, por Anna Apolinário

Minhas mãos tateiam os pulmões acesos do quarto
Em deja vu aveludado e voluptuoso
Os sussurros alucinantes do fogo
Estão tatuados secretamente
Nas paredes e no entorno
A voz pétrea de Ariano me convida a espiar
Por dentro das letras e labaredas de seu livro fabuloso
O poema é um pequeno animal mágico
Verde viscoso, saltando das páginas
A linguagem ilícita dos corpos, arderá por toda a noite
Com o sexo em brasa, desenhei um meridiano obsceno neste leito
Nua e clandestina, plantei uma tempestade em lençóis alheios.

Anna Apolinário

quinta-feira, 14 de março de 2019

BREVE HISTORIA DE MI VIDA, por Stella Díaz Varín

Comando soldados.
Y les he dicho acerca del peligro
de esconder las armas
bajo las ojeras.
Ellos no están de acuerdo.
Y como están todo el tiempo discutiendo
siempre traen perdida la batalla.

Uno ya no puede valerse de nadie.
Yo no puedo estar en todo;
para eso pago cada gota de sangre
que se derrama en el infierno.

En el invierno, debo dedicarme
a oxidar uno que otro sepulcro.
Y en primavera, construyo diques
destinados a los naufragios.

Así es, en fin...
Las cuatro estaciones del año
no me contemplan, sino trabajando.

Enhebro agujas
para que las viudas jóvenes
cierren los ojos de sus maridos,
y desperdicio minutos, atisbando
a la entrada de una flor de espliego
de una simple abeja,
para separarla en dos,
y verla desplazarse:
la cabeza hacia el sur
y el abdomen hacia la cordillera.

Así es
como el día de Pascua de Resurrección
me encuentra fatigada,
y sin la sombra habitual
que nos hace tan humanos
al decir de la gente.

Stella Díaz Varín

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

XII, por Karine Kelly

Caminho pelas ruas pedindo licença por ser mulher
Caminho pela casa da mãe pedindo licença por ser triste
Caminho entre os amigos pedindo licença por ser criança
Caminho entre os amores pedindo desculpa por ser simples
E no arrebol, quando o coração em claroescuro desdobra e acelera em trottoir
Coloco meu casaco ocre, busco
na noite
pés pra caminhar.

Karine Kelly

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

o veneno dos sobrenomes, por Demetrios Galvão

a opulência açucarada
do trópico
e a herança cordial-reacionária
de cada dia.


impossível não falar
das capitanias
e dos rosários,
da inocência natural
corrompida,
do suor negro
e seu sal
distante.


o reluzir mineral e as
bandeiras genocidas.
as entranhas abertas
com o sonho-muscular
de cada braçada
aventureira,
contaminando a seiva
vital.


a língua estrangeira
penetrando o sotaque
da floresta
um desejo sem gentileza
se alastrando
pelos veios molhados,
nomeando o silêncio
adormecido.


ficou o veneno
dos sobrenomes
e as marcas
de uma estranha
herança.


Demetrios Galvão, maio, 2017

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Signo, por Anna Apolinário

Coração: amuleto de constelar abismos
Miríade implodida no tambor de ilusões
Palidez sangrada no papel
Ruído oceânico da Saudade

Anna Apolinário

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

a saudade é um mar

a saudade é um mar,
verde
& cheio de algas cor de esmeralda...

sim, ela voltou pra casa
aterrizou quando o sol estava a pino
e me trouxe um abraço que durou quarenta e cinco dias
na terra dos peixes-árvores descansamos
comendo carambolas e goiabas e
umas quantas colheradas de paçoca
(secada no mesmo varal, pilada no mesmo pilão)
em Belém buscamos a filha de Felícia
e quando chegamos em casa
ela encarnou Eva no princípio do mundo
e foi nomeando seus novos amigos
a filha de Felícia ganhou o nome de Alice
e o jabuti recebeu a alcunha de Jabuticaba
fomos pro jardim grande andar de bicicleta
e ao regressar, faminta, ela me pediu com aquele olhar cúmplice que é só nosso:

papai, faz pirão pra mim jantar,
desde que eu tava no avião que eu desejava comer o seu pirão

claro que eu faço filha,
e vamos comer pirão com quê?

tem inhame papai?


jantamos: pirão de galinha com inhame
começamos a ler as reinações de narizinho

papai, esse livro é muito engraçado!
mais divertido do que os episódios do filme!

Jabuticaba dormiu
Alice dormiu
Maria dormiu

serenamente ajuntei ao nosso álbum de família
essa fotografia
salgada e verde como o mar
e cheia de algas cor de esmeralda...

nuno g.
cachoeira, 03 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Hibernación, por Jimena Arnolfi

En tiempos de autopromoción constante
lo mejor es esconderse
hibernar como un animal
de sangre caliente
entrar en un sueño profundo
que el latido sea más lento
que la temperatura descienda
ahorrar energías
usar las reservas almacenadas
de los meses más cálidos
mutar en una refugiada,
invencible.

Jimena Arnolfi

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

paçoca

para maria,

a carne secando à sombra
joãozito não gostava de melancia
magnólia falando sobre recife
ontem choveu
benedito joga video game
moscas e brinquedos no chão
chá de boldo, ayahuasca e alcachofra
a chuva chega
viro as carnes no varal
a saudade nocauteia a tarde
espinheira santa e leite de janaguba
uma carta para débora e seus irmãos
sobre mateus e catirinas
a chuva engrossa
a saudade também
a carne secando à sombra
matusalém mofado flutuando na tela da TV apagada
(...)

nuno g.

sábado, 8 de dezembro de 2018

rito pagão


meu avô não comia galinha em restaurantes
pudor de, em público, tocar ossos com as mãos
maria abriu a torneira
e a voz de oxum escorreu pelo chão da garagem
aos vinte e dois anos
o sexo é o caminho da salvação

nuno g.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A casa dos mil fantasmas

Eles vieram e eram muitos.
Eram sete para ser exato.
Eles chegaram e se serviram.
Beberam conhaque, fumaram cigarros, comeram carne.
Se lambuzaram de bolo e sorvete.
Rodopiaram sobre a mesa.
Atiçaram a todos.
Destruíram algo dentro de mim.
Depositaram sobre meus ombros o peso do mundo.
E partiram outra vez.

nuno g.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O caminho das águas


para Maria,

Ainda era cedo e chovia. Não me alcançou tempo para um café. Olhei pela janela e fui descendo a vista desde as nuvens carregadas e seguindo as águas caindo entre os arranha-céus da cidade até o chão de asfalto. Recordo ter pensado como sempre me pareceu bonita essa cidade quando açoitada pela chuva. Recordo também nunca ter conseguido ocultar sequer de mim mesmo o inconformismo e a insatisfação que há muito tempo me afligiam ante aquela verticalização desenfreada que não passava de mero sintoma da obsessiva ânsia modernizadora tão típica do sonho colonizado e avassalador que regia e segue regendo a mentalidade estreita das classes médias e altas de nossa província. Tudo isso passou em minha cabeça num breve par de minutos. O carro me esperava na portaria. Com a ajuda das muletas segurei a porta do elevador e parti.
Deveriam ter outras pessoas no carro, mas eu estava só. Absorto na estrada e na chuva sequer chegava a ouvir a conversa e os ruídos dos outros passageiros. Suas presenças não provocavam em mim nenhuma ressonância. Absorto na estrada e na chuva nenhum eco me atravessava e nada desviava o foco de minha atenção. Nos próximos cento e sessenta e quatro quilômetros nenhuma distração alteraria minha completa imersão no movimento do carro cruzando aquela paisagem, nada alteraria o rumo incerto dos meus pensamentos, nem minha solitária meditação.
Até a vila do Boqueirão do Cesário a vegetação encontrava-se verde e chovia. De aí em diante as águas estancaram e a paisagem não mais escondia os anos e anos de estiagem prolongada. Segui atento à estrada. Apenas o pulsar do meu coração me fazia companhia. E quando menos esperava avistei surgir na linha do horizonte o enorme e retilíneo paredão de pedra calcária que tão profundamente se gravara em meu imaginário tomando a forma de uma imensa cicatriz onde se inscreveram todos os acontecimentos importantes ao largo desses vertiginosos últimos quarenta anos. Apesar de tudo e de todos: a chapada do Apodi seguia no mesmo lugar e sua imponente e exuberante presença me trazia uma sensação quase mística de alívio, conforto, aconchego e acalanto.
Iniciamos a descida para o interior do vale pelas areias do tabuleiro por onde nos últimos séculos desceram as águas depois de iluminarem os cajueiros do planalto com seus maturis desabrochando e suas sombras sempre aprazíveis e convidativas para receber o cansaço dos negros que escapando à tirania insaciável dos tentáculos escravagistas do monstruoso e predatório sistema colonial povoaram e procriaram naquela zona de terras férteis que como uma serpente enfeitiçada margeava o vale sagrado de onças pardas e índios tapuias onde me tocara viver toda a infância.
Avistei o cemitério e a lagoa da caiçara. Os mortos e os aguapés eram um sinal de que a viagem findava. Cruzamos os semáforos da Avenida Dom Lino; a igreja São Sebastião e a Matriz ergueram-se ante meu olhar que nesse instante em tudo se assemelhava ao olhar matreiro e desconfiado de um gato. Sem dar qualquer sinal o carro dobrou à direita na travessa professor Aprígio e estacionou exatamente em frente à casa de número sessenta. Meus olhos realizaram idêntico movimento. Olhei a coluna da hora – que como sempre marcava a hora errada – e com a ajuda das muletas saltitei até a porta da casa.
Seguiu-se um breve instante de hesitação até que virei o rosto em direção contrária ao beco da Helena e avistei meu avô caminhando em minha direção com seu habitual cigarro carlton aceso aferrado entre os dedos envelhecidos. Chegando à casa dos Cordeiros seus passos fizeram uma breve trégua enquanto ele trocava algumas palavras com seu Joaquim debruçado sobre o parapeito da janela. Deviam falar sobre as águas, as plantas e os bichos da fazenda do Pedro Ribeiro – ou simplesmente falavam de festas, funerais, mulheres e bebedeiras para sempre perdidas num passado mítico que nunca mais se tornaria possível: ou ao menos eram coisas dessa ordem as que eu imaginava. Despediram-se e meu avô seguiu seus passos em minha direção. À medida que se aproximava pude perceber que os contornos de sua face tornavam-se mais e mais indefinidos e as feições de seu rosto perdiam todos os detalhes, sua imagem esmaecia na mesma proporção em que se aproximava de mim, até que, finalmente, desapareceu por completo.
Olhei para o céu. Havia tempo bonito, ou seja, nuvens carregadas de águas. Pensei em Maria e fiz um esforço para não chorar. Como quem recita os versos esquecidos de uma oração arcaica sussurrei a seguinte sentença: essa semana vai ser comprida demais, não choverá e o clima será insuportavelmente abafado. Tomado por um estado de torpor e alheamento excessivamente difícil de ser traduzido em palavras, algo assim como um completo abandono de si, ainda tive forças para concentrar minha atenção e serenidade nos versos que minha boca prosseguia a sussurrar: estou em casa. Esta terra um dia tratará de devorar minhas carnes e meus ossos. Mas antes ela vai ter que esperar: ainda me resta algo a fazer e isso não poderá ocorrer até que tudo esteja concluído. Entrei na casa, fechei a porta e aguardei o soar da campainha.
Eles chegaram e eram três. Jovens, alegres e despreocupados. O rapaz parecia estar sob o efeito de alguma droga tranquilizante. Não trazia barba, tinha cabelos curtos e bem penteados. As duas moças eram bonitas, exibiam a vertiginosa exuberância que torna tão atraente os corpos juvenis e não demonstravam nenhum interesse por esconder a excitação que lhes possuía. Abri a porta, servi um café, acendi um cigarro e olhando fixamente o lugar da parede no centro da sala onde durante mais de duas décadas estivera pendurada a pintura mais perfeita que minha mãe executara eu soletrei: sim, podem começar.
A mais fogosa e faceira das meninas, exibindo um sorriso que revelava algo de sua ansiedade e nervosismo e que, por essa razão, multiplicava em progressão geométrica seu poder de encantamento e sedução, simplesmente falou: comecemos então pela morte.
É um ótimo começo – contestei sem pestanejar. A morte é o princípio de tudo. Sem ela não haveria nada. Não existiria pensamento, religião, filosofia, poesia ou paisagem. A morte é o parto de tudo que respira no imaginário da humanidade. E sem imaginário a humanidade não seria nada. Sem ela não haveria risco, não haveria aventura, não haveria travessia, não haveria forma, não haveria passagem. Sem ela só haveria o nada. Tudo à nossa volta e tudo dentro de nós está impregnado de morte e, consequentemente, de sentido. Nas casas, nos bichos, nas ruas, nas praças, nos rios, nas lembranças e em tudo o mais que existe lateja, pulsa, habita e respira essa encantadora senhora que na falta de nome mais apropriado terminamos por batizar de morte. Sua omnipresença é a fonte de todos os simbolismos que dotam de significação o existente. Na minha infância eu era possuído por um autêntico e hipertrofiado pânico ante essa consciência da omnipresença e inevitabilidade da morte. Isso tardou anos em se modificar e deu origem a pesadelos ininterruptos e repetitivos que me roubaram incontáveis noites de sono e transtornaram de maneira irreversível um longo período que deveria ter sido marcado pela inocência e pela candura – o idílico em mim foi abortado de maneira prematura e premeditada. Passado esse período inicial e consolidada, em meu espírito, essa mescla indomável de lucidez e loucura que tem me servido de oráculo e guia ao largo destes quarenta anos nos tornamos bons amigos. Compartilhamos ideias, cafés e não sei quantos tragos de cachaças por esta vida afora. Em dias mais inspirados e amenos chegamos mesmo a nos entregar a licenciosas práticas amorosas que um relato pormenorizado chegaria a corar as bochechas de qualquer um dos moradores dessa outrora pacata e provinciana cidade. Convivi muitos anos com pessoas que encontravam-se empenhadas, com quase a totalidade de suas forças, em empreender uma guerra estranha e insensata contra a morte. Tudo o que não desejavam era morrer e dedicavam todas suas energias e todo o seu tempo nessa luta inglória e absurda. Por não aceitarem a fatalidade inexorável da morte perdiam a vida e enfraqueciam a chama do sacrossanto candelabro. Quando abandonei esse claustro sombrio onde o niilismo nefando reinava como um imperador que esbraveja impropérios e escárnios soterrando tudo o que era vida, sentido, símbolo, desejo, gozo e significação – pude recompor os acordes, a sintonia e o ritmo em que vibrava a lira da catedral em chamas em que se convertera o palácio mnemônico adormecido no fundo aquático da minha pessoal e intransferível caixa de pandora. Perdi minha mãe antes de completar dois anos de existência. Em seguida, perdi meu pai. Logo depois perdi meu primo mais velho e antes que pudesse assimilar e elaborar a voracidade dessas ocorrências tive que com minhas próprias mãos enterrar o meu avô sob essa terra que aqui pisamos agora. Não havia como fugir a isso. Não havia como recusar o que junto com isso brotava e florescia nos prados da minha consciência e da minha imaginação. Isso era inexorável. Isso era trágico. Eu estava ainda tão cedo já no cume do absurdo e de lá tudo o que eu podia ver estava banhado pelas águas da fatalidade. Percebi então que toda fatalidade deveria ser abençoada e que esse gesto duro e áspero restituía certa nobreza aos sentimentos que deveriam servir de base a uma arte capaz de ser simultaneamente épica e trágica. A comédia era para os tolos, para os desavisados – e eu deveria fugir dela como o diabo da cruz ou como os vampiros dos rosários de alho. Hoje não vai chover, teremos uma tarde longa e terrivelmente abafada. A noite será aprazível e delicada. Crescer nessa geografia semidesértica nos faz diferentes de nossos conterrâneos das serras e das praias. O sertão e a morte são irmãos gêmeos e os dois se levam dentro: como o mito e as fábulas. Sim, a noite será aprazível e delicada. O vento Aracati correrá por essas ruas arrastando a poeira do dia e o calor aprisionado no asfalto e levará consigo todas essas nuvens carregadas de águas para as cabeceiras do vale. Eu poderia seguir e lhes contar estórias de botijas, queijos coalhos e pistolagens. Poderia também lhes narrar como em tão pouco tempo nossa estéril e incipiente burguesia foi capaz de quase destruir a beleza de nossa capital e converter aquele santuário de jangadas num amontoado completamente sem sentido de shoppings centers, arranha-céus e condomínios de mau gosto. Eu poderia lhes narrar os primeiros massacres, as pelejas intermináveis, as emboscadas sangrentas e toda a trajetória das energias empregadas na consolidação do que viria a ser este vale e esta província cravada neste continente fundado por antigos e perversos ibéricos em sua luta insensata contra a morte e o nada. Poderia lhes contar a estória dessas casas, falar de espingardas antigas e de morcegos dependurados nos galhos da noite se alimentando de frutas afrodisíacas e se embriagando com aromas exóticos. Poderia discorrer sobre homens vestidos de couro tangendo bois e desgraças, sobre holandeses conduzindo navios piratas por estas águas obscuras e sazonais ou ainda sobre súbitas fortunas de cera extraídas dos carnaubais destas várzeas que entre farras homéricas e orgias episcopais derreteram sem deixar vestígios... Mas prefiro simplesmente concluir reafirmando que a morte é o começo da vida e que não existe nada mais mórbido do que essa nefanda, perversa e insistente negação da morte que se expressa de maneira tão predatória na ânsia modernizadora de nossas classes médias e altas. O horror à morte tem impedido a celebração da vida e instaurado esse mundo asqueroso de cosméticos e projetos de aquários. Quando terceirizamos a morte e nos recusamos a velar os nossos nas salas de nossas casas perdemos uma experiência essencial ou, o que é ainda pior, a substituímos pelo vácuo dessas assépticas reuniões em salas climatizadas decoradas com flores de plástico e garrafas de café frio e açucarado. A poesia deve ser celebração da vida, do jogo indecifrável entre o acaso e o necessário, das cicatrizes e dos ferimentos, da dor e do gozo, de tudo que pulsa, de tudo que respira, de tudo que vive. E uma poesia assim só pode existir quando se diz sim à morte. Mas não um sim qualquer. Não o sim limitado e condicionado da racionalidade. Um sim nascido do corpo. Um sim que seja beijo, que seja abraço, que seja afeto, fúria, recordação e transubstanciação das toxinas do nada. Que seja como esse rio seco, como esse clima abafado, como esse paredão de pedra calcária, como o canto agourento desses pássaros angustiados. Senti que com isso já era o suficiente e encerrei meu monólogo.
A jovem que sugerira o tema da conversação ergueu-se da cadeira de balanço, me beijou suavemente a boca e se retirou em silêncio. Os outros dois a seguiram sem nada dizer. Voltei a olhar o centro da parede da sala onde por mais de duas décadas estivera pendurado o quadro mais bem executado pelas mãos de minha mãe, pensei em Maria, engoli a saudade a seco e me apoiando nas muletas regressei à cozinha onde me esperavam os poemas que estava selecionando para meu novo livro: álbum de família.
Quando o sol baixou botei a cadeira de balanço na calçada e deixei que o vento Aracati me acariciasse o corpo ainda preenchido pela quentura abafada desse dia comprido e, completamente absorto, fiquei observando a ação eficaz daquele vento arrastando os sonhos e as nuvens carregadas de águas para as cabeceiras perdidas deste vale de índios tapuias e onças pardas que um dia eu deixara para trás. O sol mergulhou definitivamente no horizonte dissolvendo mais uma vez a imagem desta vasta e impossível terra prometida.

nuno g.
São Bernardo das Éguas Russas, 07 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

terça-feira, 30 de outubro de 2018

13 de outubro


três dias de loucura
te tocaram o destino
três mil lágrimas
te encheram as crateras
,essas ausências de barro,

três parágrafos da mais louca lucidez
três acordes da harpa do som do terror

o terror em suas três faces:
exibindo suas três caveiras
e suas três luas dependuradas no armário inexistente

três dias
se dissolvendo na ebulição cotidiana de ruas
que celebram qualquer carnaval como se fosse o último

nuno g.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A última tarde de brincadeiras

Pularam da janela no colchão.
Fizeram do sofá pula-pula.
Deram forma à massinha.
Coloriram um domingo de 0 a 0.
Jantaram macarrão com cenoura inhame e moelas.
Correram e se esconderam e se abraçaram.
Sem saber que era a última tarde em que se encontravam.
Iara partiria em breve para o Chile.
Quem parte nunca sabe se regressa.
E ainda que regressasse.
Já não seria mesmo aquela pequena Iara.
Tão quietinha tão na dela.
Muito menos Maria seria aquela.
Sem pensar em nada nisso.
Iara e Maria coloriram como puderam aquela que era sua última tarde.

nuno g.
cachoeira, 13 de setembro de 2018.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Caminho de Antara

Aquim abraçou Maria e ela entrou no avião.
Era São João e seguimos pro Capão.
Na casa de André.
Uma das últimas do vale.
Não havia nada.
Só árvores árvores e mais árvores.
Não havia nada.
Só montanhas montanhas e mais montanhas.
Não havia nada.
Só silêncio silêncio e mais silêncio.
André conectou a internet.
Alguém fez as pipocas.
As crianças chegaram.
E nós ficamos assistindo a Argentina jogar o mundial.
Antara sentou no meu colo.
Antara dependurou-se no meu pescoço.
Antara me seguiu quando fui fumar no terreiro.
Qual é teu nome?
Antara.
Quantos anos você tem?
Cinco.
Tu é argentina?
!No! Soy mexicana.

Meu coração foi na ilha do desterro e voltou.
A noite chegou.
Fizemos fogueira.
Comemos milho assado
&
amendoins cozidos.
Tomamos cerveja.
Dançamos forró no coreto.
No outro dia.
Depois de devorar uma galinha caipira à cabidela.
Decidi balançar na rede.
Aquim me abraçou e disse:
Seria bom se Maria estivesse aqui.
Meu coração foi na ilha do desterro e voltou.
Lembrei de Antara.
Das árvores, das montanhas, dos silêncios.
E respondi:
Ela sim está aqui.
Aquim me abraçou e aterrissei.

nuno g.
Cruz das Almas, 12 de setembro de 2018.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O jaguar encantado


Pai, mas essas histórias do jaguar encantado aconteceram mesmo?
Aconteceram sim filha.
Pai, mas isso não é poesia?
São poesias sim filha.
Pai, mas poesia não é a realidade né?
Não filha, poesia é só a verdade e a beleza que moram dentro da realidade.

nuno g.
Cachoeira, 13 de setembro de 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O filho do vaqueiro


Entrou no carro e agradeceu. Respondi, não há de quê. Sorriu para Maria sentada na cadeirinha atrás e foi me narrando sua história. Estudo psicologia, termino ano que vem, meu pai mata um boi a cada seis meses para me bancar aqui. O sotaque não negava, era pernambucano. Os modos educados não escondiam, era do sertão. Já vai fazer um ano que não o vejo, tem dias que a saudade me rói por dentro os ossos, me aferventa o sangue, termino esse curso e volto, antes não que o esforço dele foi muito. Ia falando e a cada tanto olhava e sorria para Maria. Preciso terminar logo esse curso e começar a trabalhar, antes que meu pai dê fim no pouco que tem, esse diploma é importante demais da conta pra ele, já eu, penso mais é em voltar, conseguir um emprego por lá e poder ganhar algum trocado pra garantir a velhice dele, ficar perto do velho, pedir sua benção todos os dias. Não conseguia mais segurar as lágrimas. Eu disse chore, tá tudo de boa, você é de que lugar do Pernambuco? A resposta veio bonita: Sou das margens de lá do rio grande, da cidade de Belém do São Francisco. Segui: Passo sempre por lá, cruzo pelo Ibó. Ele olhou Maria e sorriu: O senhor também não é daqui não né? Maria abandonou o silêncio e disse: Meu pai é do Ceará, quando a gente cruza o São Francisco já tá pertinho do Crato, da casa do tio Cláudio, lá tem o caminho das águas, lá tem o Caldas, quando passa do são Francisco a gente só precisa subir a chapada e atravessar a floresta e já chegou. Dessa vez quem sorriu foi eu. Olhando para Maria ele respondeu: Não sei por causa de quê desconfiei que vocês eram do Ceará, meu pai tem muitos amigos de lá, do cariri e do inhamuns, quando ele era mais jovem todo ano ia pra missa dos vaqueiros e lá fez essas amizades. Agora ele tá mais velho, anda adoentado, eu vivo aqui preocupado, se tivesse dinheiro ia visitá-lo mais a miúdo, mas tenho que terminar o curso, o sonho é dele, os custos aqui tão cada dia mais altos. Desacelerei o carro e fui serpenteando a subida de capoeiruçu devagarzinho, querendo encompridar a conversa: Que curso mesmo você disse que faz? Psicologia. Você é adventista? Não. Olha, vou te dizer uma coisa, no fim do ano nós vamos pra lá e se você quiser pode ir com a gente de carona. Agradeço demais e quero sim! Parei o carro no acostamento, anotei meu número de telefone e entreguei a ele. Olha que eu vou ligar mesmo. Maria sorriu e disse: Pode ligar, a gente te leva, deixa só chegar as férias. Encabulado perguntei: Teu pai é fazendeiro? Não senhor, antes fosse, meu pai é vaqueiro mesmo. Agora que tá adoentado a coisa ficou difícil. E ele tá vendendo as poucas cabeças de gado que tem pra me manter aqui. Vivo com ele desde que me entendo por gente, ela vive só com o senhor também né? Mergulhei nas nuvens de meus pensamentos. Pensei no romance que começara a escrever essa semana. E, principalmente, pensava que esse menino de prosa tão ajuizada que terminara por pegar carona com a gente nascera na mesma cidade em que nascera a Sussuarana que eu tanto admirava. Aquela que foi a única mulher do cangaço que realmente atirava e lutava. Fiquei lembrando de um conto que escrevi a muito tempo chamado as exéquias de Iararana onde eu tentava reproduzir um rito funerário indígena descrito por Darcy Ribeiro. Quando Helena da Catingueira – cadela que me acompanhou quando vim morar aqui – morreu, tentei reproduzir algo daquele rito. E, passado tantos anos, por ocasião dos oitenta anos do apagamento de Lampião em Angicos, voltei a pesquisar sobre a vida da Sussuarana – essa minha antiga paixão – e me deparei com a foto dela lavando com álcool os ossos do diabo loiro. Agora era eu que não segurava as lágrimas. A carona estava chegando ao fim. Ele me agradeceu com a sinceridade dos que sabem o que é conversar com pedra e com pássaro, dos que sabem a alegria que é banhar de rio e fazer festa pra chegança das chuvas. Só consegui dizer: Me liga mesmo viu e no fim do ano vamos. Ele sorriu para Maria e disse: Segue cuidando dela, deus abençoe vocês, ainda essa semana vou pedir pro meu pai botar vocês nas orações dele, as orações dele abrem caminhos. Nos despedimos. Trinta minutos depois chegamos à escola de Maria. Em Cruz das Almas. E não pude deixar de pensar que toda Cruz das Almas foi um dia entroncamento de aboiadores, encruzilhada onde os vaqueiros descansavam, se divertiam e rezavam. Quando cheguei em casa, ao cair da noite, continuei a chafurdar no google histórias da Sussuarana e me deparei com uma matéria antiga, da folha de são Paulo, sobre a pesquisa de Élise Jasmin, sensacionalisticamente intitulada: Maria Bonita era “poser”, Dadá não. Pensei: nem todo sensacionalismo é falso, nem toda verdade é flutuante. Abandonei a pesquisa e fui montar um quebra-cabeças com Maria. Depois brincamos de dominó e jogo da memória. Cansados, deitamos na rede e adormecemos cantando juntos terral.

nuno g.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A pedra de Bendegó.



Para marialice, contra o desencantamento do mundo, sempre.

O museu nacional virou cinzas: metáfora mais-que-perfeita do tempo que vivemos.
Só restou lá dentro, a pedra de Bendegó.
Aquela que exigiu do império impensáveis esforços de engenharia.
Aquela que os cientistas batizaram de meteorito.
Aquela que sempre foi sagrada para os sertanejos.
Aquela que foi roubada e nunca devolvida.
O museu nacional virou cinzas: cultura e barbárie em chamas.
Em tempos de falsos profetas e mitos despossuídos de qualquer autenticidade, resta a pedra.
Que seja devolvida agora ao sertão com um pedido de desculpas.
Que se junte à fé dos seguidores do Conselheiro.
Que se reúna às cabeças de Lampião e seus homens sobre a escadaria de Piranhas.
Nela pulsa um reino inteiro.
Nela toda a viagem imaginária de Dom Sebastião.
Nela a delicadeza e aspereza do amor de Corisco, o diabo loiro, e Dadá, a sussuarana.
Que a injustiça seja desmanchada.
Que a pedra seja finalmente devolvida.
E que seja ela a deseducadora sentimental que necessitamos.
E que seja ela o amálgama mineral dos nossos rios de sangue.
E que seja ela o grito de repulsa a toda violência reunida no nosso projeto imperial.
Nela pulsa um reino inteiro.
A distopia de uma anti-nação.
Nela as veredas todas que cortam o sertão.
Os gerais sem-fins.
Contra o rumo tóxico da civilização.
Contra os tentáculos de um colonialismo que não perece.
Contra o esquecimento e o presentismo.
O reino da pedra.
Com seus encantados.
Último mito vivo.
A pedra de Bendegó é feita de carne e de osso.
As pedras sempre foram as vísceras do sertão.
Recordo do poeta ñuu savi me dizendo:
Foram os invasores que nos nomearam mixtecos.
Foram os invasores que nomearam nossos centros cerimoniais de sítios arqueológicos.
Aqui também foram os invasores que nomearam meteorito
à pedra sagrada de Bendegó que caiu dos céus em meio ao sertão.                         
Foram eles os que nomearam meteorito a esse talismã mágico.
O museu nacional virou cinzas:
Todo monumento de cultura é um monumento de barbárie,
nos ensinou Walter Benjamin.
A cultura da memória e a memória da cultura
perderam um de seus mais opulentos monumentos:
As labaredas de fogo escreveram
em um par de horas
alguns volumes de esquecimento,
mas nem tudo foi reduzido a pó:
sobrou a pedra de Bendegó –
Esperamos que a devolvam com brevidade ao sertão de onde nunca deveria ter saído.
Esperamos que nos devolvam o Sono e o Sonho.
O interior dessa pedra mágica é um caleidoscópio.
Nela vivem a sede dos mapuches e todas as línguas dos índios da terra do pau-brasil.
Nela, o emparedado Cruz & Souza.
Nela arde o arcaico Sol Esquecido.
Que ela seja regressada o quanto antes
e que na próxima vez que cruzemos a 116
eu possa finalmente dizer:
eis aí marialice a pedra que caiu dos céus
a que foi roubada pelos Senhores do Império
a que resistiu ao incêndio do museu nacional
aquela que tantas vezes te contei a história
enquanto tomávamos um suco descansando para seguir viagem
que soem os pífanos de Bendegó!
que a pedra, a poesia e o Sonho sejam ilhas de imaginação nesse mar de barbárie.
Além.

nuno g.
cachoeira, 04 de setembro de 2018.