sexta-feira, 13 de outubro de 2017

...

Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia,
cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos
noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue.
Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha.
As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se
dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a
tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é
você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe
resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e
ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la
passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não
haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O
que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando
vertiginosamente no espaço.

Haruki Murakami

aqui está minha vida, Cecília Meireles

Aqui está minha vida — esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz — esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor — este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança — este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

vagabundo, por Álvares de Azevedo

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão adoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas carvernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz...Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismando
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo à nossa senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo, à missa.

Álvares de Azevedo

domingo, 8 de outubro de 2017

O ÚTERO E O ESPELHO, por clarice lis marcon.

I.

úteros pequenos definhando
em frente ao espelho:
nunca houve um poema
alegre em corpo de mulher
risos que empenham vaidades
suspiram alento no escuro
de onde nascem as irmandades

seco
cai o útero em frente a esquina
mulher que se preze
não se confunde às gôndolas do porto
não sai com nenhum marujo
não bebe pinga nem rum

desço meu último gole
como se fosse esterco
mulheres sós são
sonhos sem telhas

mulher que se preze
adora teto ao invés de festejos
são tempos em que não há
espelhos
(somente poucos)



II.

Porcos e crianças com fome
fazem parte do cenário
e o rio não leva tanto
o quanto se pensa
nenhum poema jamais
leva a água que invade
os poros que não fogem à sua responsabilidade
o rio esteve:
molha a mulher retoma os laços
mulher é um estado do pensamento
é um meio
para Deus fingir para todos que a água é macho

úteros caídos no chão
me vejo no espelho: temo
as vozes que vociferam contra as águas
e que repetem como as fábricas em sinfonia:
não és bela
são seus dedos ensejos pelos seios
todo o leite não basta
nesse mundo vencem apenas
os surdos e aqueles que por paixão
se tornam cegos
como uma cigana
a ver seu destino em três pedidos mal feitos
- não me rendo –



III.

Mulher que preze
anda armada até os dentes
escuto todas as vozes
que falam em meu nome

IV.

úteros caídos no chão e
mãos erguidas para o céu
a palavra retoma seu curso
sua performance nunca será alegre

corre mulher de três tetas!
corre e impeça esse poema de sangrar
diga as amigas
que agora tudo o que molha
secou

sangrando como fêmeas da linguagem
estéreis
putas
rés

úteros que rastejam até o mar
e morrem na praia
quando deixam de sangrar
mulher é fome do que ainda virá
até Deus e os demônios temem se afogar
já não há mais com o que se preocupar
sustentamos insanas
potes de barro maiores que nossos desejos
sonhos que não se
erguem mais
nem tijolo por tijolo
nem pedra sobre pedra
a mulher se contenta;

contorno meus lábios com lápis de olho
e seu sorriso eu o escondo
(era um menino)
Seu reflexo é mais do que peso
o útero e
o espelho
degladeiam-se até a morte
suam até o desespero
me abandonam
como o último homem também o fará
menos as forças que regem o universo

isso nós temos que carregar


clarice lis marcon.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

maturi

Escreveu o próprio testamento e foi viajar.
Deixou o verde do mar entranhar mais dentro do que todas as vezes.
Tão dentro que parecia fora.
Reencontrou uma amiga depois de anos.
Não disse que ela estava igual.
Não disse que ela estava linda.
Não disse nada além de um hola.
Ela estava de passagem.
Ele era demasiado tímido.
Rasgaram com as mãos uma folha seca de cajueiro:
em mil pedaços.
Armaram sem pressa o quebra-cabeças:
enquanto o chá cozinhava
enquanto se acendiam as velas.
Apesar de não ter dito pensou:
¡hermosa!
Estamos todos de passagem.
Nos desfazendo do que não nos pertence.
Não foi a única amiga que reencontrou.
Houve outra.
Que dividiu tantinho da água do seu mar com o rio dele.
E que com a ponta do dedo untou com sal sua língua.
Houve outra.
Que o ensinou sobre como abraçar quando o abraço pode ser o último.
Sobre como abraçar quem há demasiado tempo não se abraçava.
Houve outra que o chamou à calçada
e lhe segredou umas faísquinhas de estrelas provavelmente já mortas.
O tempo não alcançou a chegança das faísquinhas das por nascer.
Houve outra que lhe chamou amigo e lhe disse:
Estamos jovens lindos e felizes.
Houve outra que também estava apressada e se dizia cansada.
Deixou em suas mãos seu filho e foi estirar o espinhaço.
O testamento adquiriu a forma de romance.
Toda forma expressa diretamente contradições insolúveis do cotidiano.
Todo testamento é uma maneira arbitrária de dar cabo das muriçocas infernais.
Se existir outra coisa depois 
já se tratará de outra coisa.
Quem assim o disse trazia olhos e aura de gente renascida.
Uma viagem é só uma viagem e nada mais.
Uma maneira de ser verde.
Uma maneira de ser sal.
Uma maneira de – sem deixar de ser rude – deixar-se afagar.
Uma maneira de – sem deixar de ser dor – tear com precisão e delicadeza a teia da beleza.
Uma maneira de esquecer todas as vezes que a morte lhe alcançou o calcanhar.
Uma maneira de ensinar Maria
a não esquecer de regar as flores
nascidas no mausoléu
(outrora revestido de azulejos azuis)
onde repousam nossos ancestrais.


Os fantasmas devoram maturis em seus aniversários.
Eles sim sabem que todo reencontro é só uma forma da despedida.
E que é necessário celebrar toda e qualquer despedida.

nuno g.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

fotografia perdida

O seu nome era Heitor: tinha apenas um ano de idade.
Ela se chamava Maria: tinha dois.
A mãe dele se chamava Laís: regressava de um naufrágio.
Yo – el papá de Maria – também.
O ano era 2015: primeiro semestre – mas isso não tinha a menor importância.
As universidades estavam em greve – mas isso também não tinha nenhuma importância.
Almoçamos em Bendegó: pirão com buchada de bode.
Trocamos o óleo do carro em Salgueiro e quando passamos da entrada do Cedro já era noite.
Heitor ia pro Brejo Santo.
Maria pra Russas.
Laís trazia um machucado por dentro.
Eu também.
Claudio nos aguardava no Crato:
com um abraço
redes da Jaguaruana
e uma cerveja gelada.
Um vaga-lume tocando pífano
– seu nome, Aniceto –  
iluminou a placa que sinalizava a fronteira.
Parei o carro
tiramos uma foto
os quatro.
Heitor dormia.
Maria perguntou:
Papá, isso aqui é que é o Ceará?
Respondi:
Não filha, o Ceará é tudo que tem dessa placa pra lá.
Subimos a chapada.
Cruzamos a floresta.
Recebemos o abraço do Claudio.
Tomamos a cerveja gelada.
E recolhemos nossas canseiras às redes.
Ao amanhecer Heitor seguiu viagem: abocanhado à teta de Laís.
Maria acordou.
Comeu uma fruta.
Fez um carinho no Basquiat e disse:
Ah papá, agora que eu entendi, aqui sim é o Ceará né, aqui é onde o mundo começou!
Nunca mais soubemos de Heitor.
Nunca mais soubemos de Laís.
E aquela fotografia que nunca chegamos a ver
foi a única oração que as mãos de Claudio não puderam salvar do esquecimento...

nuno g.
Br 116 Km 80

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

a casinha verde



Benício e Maria comeram olho de peixe.
Benício adorou: como a bisavó dele.
Encheram um balde de pedras cósmicas.
Escalaram duas falésias: uma branca e uma vermelha.
Comeram baião-de-dois até dizer chega: galinha caipira e pirão.
E travaram encarniçadas batalhas contra o mar.

Benício e Maria nasceram quase no mesmo dia.
Apesar de trazerem signos distintos: um é de escorpião, o outro de sagitário.
Papai, sagitário é fogo né?  
É sim filha.
Papai, você é o quê mesmo?
Sou gêmeos filha e gêmeos é ar:
o fogo se alimenta de ar, como a fogueira que fizemos ontem nas dunas...

Benício sofreu um ataque de marimbondos da praia
– na praia até os ataques de marimbondos são mais suaves,
os pesadelos também.
Choveram estrelas cadentes.
São meus avós papai!
São sim filha:
são nossos mortos singrando a via láctea em suas jangadas...

terça-feira, 5 de setembro de 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

4 Haicais a 4 mãos na BR 101.

Papai lembra que lá no ceará eu fiz uma poesia?
Lembro.
É que lá a luz nasce das pedras

Papai quem é que fala pelos cotovelos?
Emília.
Não, é a pedra.

Filha onde é que mora a água?
No mar.
Não, nas nuvens.

Filha quem é que mora embaixo da terra?
As minhocas.
Não, são os sonhos.

maria y nuno g.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

um corpo despenca na madrugada

não há distância que eu não possa percorrer com o olhar
não há milagre que não possa se realizar
não há escuro que não se desdobre em luz além do mármore
não há febre que não recorde algum futuro desbotado às margens
não há parquinho onde maria não esteja
não tem bosque que não conheça o coelho saltitante e mágico 
não tem mar que não se saiba à alegria dos peixes
não tem crustáceo que resista ao fio amolado da faca
não tem sangue que não se reconheça no vermelho
não tem saudade que não escape pela fresta
não tem lembrança que o ácido do tempo não dissolva
mas,
só as pedras ensinam a amanhecer em paz
com todos os mortos e com todos os sonhos que sonharam os mortos

na garagem, uma mala completamente abandonada,
é tudo o que resta dos passos em frangalhos com que um dia me retirei
do casarão da ilha.


Cachoeira, 01 de setembro de 2017.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

manicômio a céu aberto

Para Stella Díaz Varín y Leopoldo María Panero

carrego em mim dez mil livros
e tenho uma só vida para escrevê-los

a morte me morde os calcanhares
– isso não é nenhuma novidade –
tem sido assim desde que completei dezenove meses de existência

escrevo como minha vó se despedia
como quem se vê por última vez
como quem sente as mordidas da morte nos calcanhares
como quem escuta o ranger de dentes da senhora Caetana
como quem já amou e já aprendeu que o melhor sinônimo do amor é a crueldade

escrevo como quem escreve um testamento
tenho uma filha linda
e sonho que tudo que escrevo fará parte de sua deseducação sentimental
cada dia escrevo mais
cada dia escrevo melhor
e sonho que tudo que escrevo chegue aos olhos dela um dia

como stella, a víbora eterna
não poderia deixar meus mortos em paz
muito menos os vivos
nem pretendo que me deixem descansar em vida
muito menos depois de morto

como leopoldo, o sempre louco
escrevo como quem se droga
não suporto as intensas crises de abstinência quando tento parar
e há muito tempo descobri que o melhor da vida
são os vícios

tenho uma filha linda
uma ex escrota que me enche o saco
e uma linda esperança verde que mora na minha cozinha
mas nada disso é suficiente

nada é suficiente
quando se tem em si todos os sonhos do mundo
quando se tem dez mil livros dentro de si
e só uma vida para escrevê-los...


nuno g.
cachoeira, 30 de agosto de 2017 do ano da graça de nosso senhor jesus cristo.

    

terça-feira, 22 de agosto de 2017

desacordo ortográfico

tem quem estude à noite
tem quem estude a noite
e não existe acordo ortográfico
capaz de aproximar a ambos

nuno g.

os demônios.

levei meus demônios para ver o eclipse
um pediu cerveja, o outro pediu café
ambos fumavam um cigarro atrás do outro
decidimos aguardar ali mesmo o pôr-do-sol
isso demandou uma larga espera
meu corpo ficou anestesiado por todo aquele tempo
e a boca que me chupava parecia mais interessada em saber o que me levou até ali
meus demônios sorriam e olhavam a cena de soslaio
um segredou à moça: ele precisa
ela continuou a me chupar como se chupasse a pica da morte
não havia nuvens no céu
e a cidade era consumida por um lento e torturante incêndio

levei meus demônios pra passear
eles precisavam abraçar uma última vez o mar...

nuno g.

...

compreender o desespero das formas:
sentir sede e não saber o nome da água.

lucas rolim

domingo, 6 de agosto de 2017

no chance - regret, Lou Reed.

It must be nice to be steady, it must be nice to be firm

It must be nice never to move off the mark

It must be nice to be dependable and never let anyone down

It must be great to be all the things you're not

It must be great to be all the things that I'm not


I see you in the hospital your humor is intact

I'm embarrassed by the strength I seem to lack

If I was in your shoes

so strange that I'm not

I'd fold up in a minute and a half

and I didn't get a chance to say goodbye


It must be nice to be normal it must be nice to be cold

It must be nice not to have to go oh up or down

But me I'm all emotional no matter how I try

you're gone and I'm still here alive

and I didn't get a chance to say goodbye

No - I didn't get a chance to say goodbye


There are things we say we wish we knew and in fact we never do

But I'd wish I'd known that you were going to die

Then I wouldn't feel so stupid, such a fool that I didn't call

And I didn't get a chance to say goodbye

I didn't get a chance to say goodbye


No there's no logic to this - who's picked to stay or go

If you think too hard it only makes you mad

But your optimism made me think you really had it beat

So I didn't get a chance to say goodbye

I didn't get a chance to say goodbye



Lou Reed.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

REVISITANDO O VALE DOS ABUTRES: DEOLINDO TAVARES NA ILHA DOS PATRUPACHAS.

Extenuados, os patrupachas caem e morrem. No dia seguinte, sem saber de onde, surgem novos patrupachas à espera do cachorro d’água, que está sempre a fazer exercícios.
Ilha dos patrupachas, josé alcides pinto.

Uma vez, quando Judith saía do banho, willy tentou abraçá-la com seu sexo de ouro, mas no momento exato em que ia violentá-la, apareceram dois esqueletos que conseguiram afastar a fúria do poeta, usando espelhos importunos que cintilavam ante seus olhos brancos. Quando os desapareceram, willy adormeceu profundamente, pois sentia os olhos feridos. Ao despertar, notou que a irmã estava morta.
O vale dos abutres, josé alcides pinto.

Ainda ontem estive na ilha dos patrupachas, o poeta josé alcides pinto estava sentado no seu trono de especiarias – espichado como um lagarto cintilante. Em suas mãos magras e ósseas, se remexia inquieta e buliçosa, a poesia de deolindo tavares – o poeta devorava os lírios e a loucuras das aventuras de seu esquecido amigo, aprendendo com willy mompou brincadeiras e danças, seguindo os fios eróticos da teia das palavras e dos desejos em seus cânticos. O poeta parou por um instante e olhou para a imagem do cristo presa à parede, tirou do bolso uma caneta e precipitou-se a rabiscar seu acalanto para deolindo tavares, ou melhor, os versos finais do poema:

                   Tu foste, Deolindo, o poeta que mais tarde eu haveria de ser
de mãos nervosas e gestos de pássaro perseguido
em sua rota do azul – ou nas diversas cores dos teus poemas.

Imediatamente recordei do Vale dos Abutres, poema em prosa, onde a atmosfera da realidade poética, nos arranca do território da realidade ordinária e nos faz vislumbrar a surrealidade, o real maravilhoso, o fantástico. Esses três conceitos, cada um com uma história e com definições próprias acerca da estética e da política, formam justamente a pedra-de-toque das principais abordagens sobre a obra do poeta. Seu nome aparece sempre vinculado aos movimentos a qual correspondem estes conceitos: o surrealismo francês, o realismo mágico latino-americano, o existencialismo. Completando as interpretações críticas, encontramos a santíssima trindade dos temas: o sexo, a loucura e a morte. Sobre tudo isso, muita coisa já foi dita e explorada, embora, creio, muitas outras ainda serão. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção quando eu estudava sua obra, foi justamente esta leitura de deolindo que o poeta realizou em sua vivência na capital pernambucana. Foi lá que alcides entrou em contato mais direto com a experiência dos conflitos de classe, o mundo das greves e dos sindicatos, foi lá que o poeta escreveu os catadores de siris e incorporou a seu universo literário as condições miseráveis impostas pelas contradições econômicas de uma sociedade norteada pelos valores do capitalismo. Mas foi também na cidade do Recife que o poeta descobriu o lirismo onírico e o repertório de imagens que atravessam a saga de willy mompou. Os versos de deolindo impactaram profundamente sua escrita, era esse impacto que me interessava à época. Sobre ele, desejei escrever um poema em prosa, tendo como personagens os dois poetas, willy mompou, judith e os patrupachas.
Alguns anos se passaram e nunca consegui concluir este texto. Meu HD queimou e perdi os rascunhos dele. Vim morar no recôncavo e num dia comum, recebi por i1/2 a notícia de sua morte, ou melhor, de sua transfiguração. Não estava mais entre nós o mais versátil e criativo dos escritores cearenses do século XX. Não estava mais entre nós o mais aberto ao diálogo e à conversa dos poetas da província de Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção. Foi um dia triste. Nas margens do rio paraguassú, em frente ao point das morenas, fiquei sentindo a tristeza e a fúria daquele instante. Entregue às incertezas certeiras das perdas. Pensei na primeira vez que nos encontramos, meu nervosismo e seu jeito sério de brincar com as palavras e os palavrões. Pensei nas inúmeras conversas que tivemos e nas tantas outras que nunca chegamos a ter. Em seguida, fui à ilha dos patrupachas, onde presenciei a cena com que início este texto, e após o assalto das idéias relatadas, não resisti a revisitar o vale dos abutres, parei precisamente naquele ponto em que mary duncan veio até à janela para avisar mompou que os nazistas ameaçavam destruir o mundo. Acontece, porém, que os olhos do poeta descortinaram as paisagens mais negras que se possa imaginar. Então, pulando no topo de um girassol, o poeta abriu o vôo vermelho para um mundo tão distante do nosso, onde nenhum avião poderá alcançá-lo, e onde, por certo, jamais chegará um átomo destruidor. Fiquei em silêncio perante a beleza desta imagem, uma das tantas portas de entrada para este mundo de histórias não-ditas, tecidas com sonhos e delírios de homens que se recusaram a viver nos territórios estreitos da realidade e da morte – homens que se fizeram poetas e nos ajudam todo dia a superar o tédio das aparências e os sorrisos frios estampados nos outdoors de nossas desumanas cidades  neste esdrúxulo meio-dia industrial, onde qualquer um de nós, pode ser fatalmente engolido por uma motocicleta extraviada numa manhã de um sábado de sol.

nuno g.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

conheço meu lugar, belchior.

O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
Com a minha juventude
Quando a máxima saúde hoje
É pretender usar a voz?

O que é que eu posso fazer
Um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
Que sob a luz da lua
Os tratam como gente - é claro! - aos pontapés

Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)
Pois sou uma pessoa.
Esta é minha canoa: Eu nela embarco.
Eu sou pessoa!
A palavra "pessoa" hoje não soa bem
Pouco me importa!

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!

Belchior

segunda-feira, 31 de julho de 2017

winter song.

a chuva é um dos meus vícios
atirar contra o sol é o gesto mais inútil que se pode cometer
cada dia que passa mais me delicio em não fazer nada
em ficar em casa contando os sonhos perdidos
e tentando transformar em lagarto os utensílios domésticos
a melancolia é outro de meus vícios
não tão adorável quanto a chuva
mas tem lá sua serventia
atirar contra a memória é o segundo gesto mais inútil que se pode cometer
largar os vícios é uma bobagem
a vida não seria nada sem eles
assim como não seria nada sem a chuva ou sem a melancolia

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Metade pássaro, Murilo Mendes.

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.

Murilo Mendes.

semblanza de mi abuelo

hoje, ainda mais que sempre, sua voz em minha voz sussurra
sua alegria, em minha garganta, como um gigante azul desperta
suas mãos trêmulas já nas minhas reverberam
seu canto rouco em meus gestos loucos reencarna

hoje, ainda mais que sempre, sei que fui seu último sonho e pesadelo
sua última tempestade e criação
tão bem recordo suas sentenças sobre a morte
seu hálito de amor e cachaça coagulada
sua saudade exposta às vésperas sobre a mesa:
a cidade desaparecendo
as pessoas desaparecendo
os sentidos aturdidos
e o tempo apodrecendo à luz das lamparinas mortas

hoje, ainda mais que sempre, pressinto teu olhar pousando sobre minha filha
teus rancores corroendo a vastidão oferecida
e a desmedida do remorso incauto
abarcando com suas asas torpes
as fronteiras acesas de nossa imensidão

hoje, mais que nunca, o vento me traz tua imagem bíblica
faróis insanos, turbulentos mares
em meu peito segue a arder tua velha insígnia
e como as bestas do zodíaco alquímico
transfiguro-me e me dissolvo
em teu apocalipse: meu gênesis,
meu infeccionado chão.

nuno g.
Valle de bravo, 26 de novembro de 2014.

domingo, 25 de junho de 2017

..., por barbara uila.

1.

No fogo o Silêncio das garças
que invadem a cozinha
caminham pra casa no final da tarde e
dormem tumultuadas umas em cima das outras
vão em bando buscando seus lugares ao sol da noite
movimento do
rio de minha cadeira
de balanço, minha caneta na onda
das paginas
uma cadela que se levanta
e late em voz alta: estou de volta!
um trato com os ancestrais
forças divinas luminosas
atravessam o paraguaçu
enquanto um craqueiro
morre de overdose na santa Cecilia
santa que só salva os demônios
de vozes agudas…
as crianças brincam nos tatames
e video games não cabem na infância
que implora vida

2.

o sono leve de um colibri
e o canto do pássaro de fogo
confessa diante do pé da
bananeira silêncios
ancestrais
um traço da verdade
esta nos olhos
de águas prateadas:
movimento que
os barcos da faceira
tem
seria preciso um milhão
de pontos pra tua dança
caminhar nos grandes
salões solares do axé
teu branco alinhado
a tua alma: vibra um
rio embaraçado por
uma maré alta constante
perdi a hora em tecidos
que na verdade nos tecia
diante de uma víbora que
se enrola na própria calda
e mata a sede com o próprio veneno
os escorpiões de cuba também curam e:
temos cada um de presente da vida
calos na alma que mais parecem tijolos na mão
temos esse cheiro cheio de fogo
e faíscas que alcançam o teto da casa
teus passos na ponta da escada
cogitam sentidos de todos os lados
trava a porta
pra amarrar
o galo
tange os pintos
no quintal do
terreiro
o ifá flerta com os
búzios sobre a cama
e o cão que acompanha
Ogum late quando se aproxima
muito

3.

fiascos de chuva
umedecendo um
cais que vaga pela
manhã repleta de
garças
a linha do tiro fica
perto da minha praia
forte imponente
faz da linha uma
semente de sangue
ler um poema
do auto da ladeira
da minha rua
atravessar essa
rua e de uma ponta
a outra o sol e a lua
dividindo o dia
o poema bate de frente
com a realidade e encontra espelho
o punho afiado, afiando um
corpo presente que sente
fio condutor de uma sensibilidade
aguda infinitas são as coisas do dia-dia
(pia que parece instalação da bienal de artes do fim do mundo)
gardenal não aparece nas
letras sugeridas do teclado
do celular, o beijo de asas
fica pra próxima parada deste
carro que acelera diante de nos
eu sou um poema que esqueci
e a todo tempo tempo tento
entre raízes desabrochando
chão a fora chão a dentro
sumo do bagaço de todas
as memorias desterradas
eu sumo de mim, de meu povo

4.

coração anda em estado
de água ,
desaguando la onde os olhos puxados
chupam a espiritualidade da criação
coração em estado de água,
de asa, voando mesmo que claudicante
rumo aquele frio na barriga que se faz sentir
vivo
coração em estado de água,
buscando um furo no escuro
um tiro no sol:
sai uma luz a queima roupa
meu coração anda em estado de água
quando:
um indio velho de cócoras fazendo
cocô na esquina são joão – ipiranga:
desterritorializado
em frangalhos a cidade come vivo
a quem não dança a dança macabra
do capitalismo:
uma fumaça louca alucinante
lancinante, vida que se vai
vida que se esvai….
o forno da cidade aponta 300 graus célsius
e motos e carros acelaram feito liquidações
de natal
eu passei uma tarde linda
de plantações imensas de arroz
ao norte do vietnam
e suas velhas com seus
chapéus cônicos evitando
o bronzeado
tao sombrio quanto os apelidos
que se coloca no que se tem
vergonha
da fogueira que nos cabe nos
olhos,
da flor que nos escapa aos
dentes, sedentos de vida
o amor transbordando
feito um filme numa noite
fria e congelante no pico das agulhas negras
o poeta do instante cantou essa bola
décadas atrás
unhas felinas aderem uma
carne quente e suave
patas de elefante como sinais
de uma terra esquecida la atrás
onde memórias insistem
em planejar uma velha luz

barbara uila.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

...

É terrivelmente desgastante transformar entulho em desprezo.

isadora krieger.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

estética.

a beleza sem a verdade é a miséria do espírito e a miséria do espírito é pior que a morte.


nuno g.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

domingo.

antes do cinema
cerveja, feijão, poesia
    & o espinho da vida toda
atravessado na garganta
alice acordou, bernardo também
    & juntos foram salvar umas borboletas
que afundavam na areia movediça:
elas se salvaram sozinhas
a eles restaram as pipocas
– batatas de vencedores que resistem
a entregar suas infâncias...


nuno g.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

LOS HERALDOS NEGROS, por César Vallejo

Hay golpes en la vida tan fuertes... Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... Yo no sé!

Son pocos, pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre... Pobre... pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos Ilama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.

Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!

César Vallejo

quinta-feira, 8 de junho de 2017