segunda-feira, 18 de setembro de 2017

a casinha verde



Benício e Maria comeram olho de peixe.
Benício adorou: como a bisavó dele.
Encheram um balde de pedras cósmicas.
Escalaram duas falésias: uma branca e uma vermelha.
Comeram baião-de-dois até dizer chega: galinha caipira e pirão.
E travaram encarniçadas batalhas contra o mar.

Benício e Maria nasceram quase no mesmo dia.
Apesar de trazerem signos distintos: um é de escorpião, o outro de sagitário.
Papai, sagitário é fogo né?  
É sim filha.
Papai, você é o quê mesmo?
Sou gêmeos filha e gêmeos é ar:
o fogo se alimenta de ar, como a fogueira que fizemos ontem nas dunas...

Benício sofreu um ataque de marimbondos da praia
– na praia até os ataques de marimbondos são mais suaves,
os pesadelos também.
Choveram estrelas cadentes.
São meus avós papai!
São sim filha:
são nossos mortos singrando a via láctea em suas jangadas...

terça-feira, 5 de setembro de 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

4 Haicais a 4 mãos na BR 101.

Papai lembra que lá no ceará eu fiz uma poesia?
Lembro.
É que lá a luz nasce das pedras

Papai quem é que fala pelos cotovelos?
Emília.
Não, é a pedra.

Filha onde é que mora a água?
No mar.
Não, nas nuvens.

Filha quem é que mora embaixo da terra?
As minhocas.
Não, são os sonhos.

maria y nuno g.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

um corpo despenca na madrugada

não há distância que eu não possa percorrer com o olhar
não há milagre que não possa se realizar
não há escuro que não se desdobre em luz além do mármore
não há febre que não recorde algum futuro desbotado às margens
não há parquinho onde maria não esteja
não tem bosque que não conheça o coelho saltitante e mágico 
não tem mar que não se saiba à alegria dos peixes
não tem crustáceo que resista ao fio amolado da faca
não tem sangue que não se reconheça no vermelho
não tem saudade que não escape pela fresta
não tem lembrança que o ácido do tempo não dissolva
mas,
só as pedras ensinam a amanhecer em paz
com todos os mortos e com todos os sonhos que sonharam os mortos

na garagem, uma mala completamente abandonada,
é tudo o que resta dos passos em frangalhos com que um dia me retirei
do casarão da ilha.


Cachoeira, 01 de setembro de 2017.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

manicômio a céu aberto

Para Stella Díaz Varín y Leopoldo María Panero

carrego em mim dez mil livros
e tenho uma só vida para escrevê-los

a morte me morde os calcanhares
– isso não é nenhuma novidade –
tem sido assim desde que completei dezenove meses de existência

escrevo como minha vó se despedia
como quem se vê por última vez
como quem sente as mordidas da morte nos calcanhares
como quem escuta o ranger de dentes da senhora Caetana
como quem já amou e já aprendeu que o melhor sinônimo do amor é a crueldade

escrevo como quem escreve um testamento
tenho uma filha linda
e sonho que tudo que escrevo fará parte de sua deseducação sentimental
cada dia escrevo mais
cada dia escrevo melhor
e sonho que tudo que escrevo chegue aos olhos dela um dia

como stella, a víbora eterna
não poderia deixar meus mortos em paz
muito menos os vivos
nem pretendo que me deixem descansar em vida
muito menos depois de morto

como leopoldo, o sempre louco
escrevo como quem se droga
não suporto as intensas crises de abstinência quando tento parar
e há muito tempo descobri que o melhor da vida
são os vícios

tenho uma filha linda
uma ex escrota que me enche o saco
e uma linda esperança verde que mora na minha cozinha
mas nada disso é suficiente

nada é suficiente
quando se tem em si todos os sonhos do mundo
quando se tem dez mil livros dentro de si
e só uma vida para escrevê-los...


nuno g.
cachoeira, 30 de agosto de 2017 do ano da graça de nosso senhor jesus cristo.

    

terça-feira, 22 de agosto de 2017

desacordo ortográfico

tem quem estude à noite
tem quem estude a noite
e não existe acordo ortográfico
capaz de aproximar a ambos

nuno g.

os demônios.

levei meus demônios para ver o eclipse
um pediu cerveja, o outro pediu café
ambos fumavam um cigarro atrás do outro
decidimos aguardar ali mesmo o pôr-do-sol
isso demandou uma larga espera
meu corpo ficou anestesiado por todo aquele tempo
e a boca que me chupava parecia mais interessada em saber o que me levou até ali
meus demônios sorriam e olhavam a cena de soslaio
um segredou à moça: ele precisa
ela continuou a me chupar como se chupasse a pica da morte
não havia nuvens no céu
e a cidade era consumida por um lento e torturante incêndio

levei meus demônios pra passear
eles precisavam abraçar uma última vez o mar...

nuno g.

...

compreender o desespero das formas:
sentir sede e não saber o nome da água.

lucas rolim

domingo, 6 de agosto de 2017

no chance - regret, Lou Reed.

It must be nice to be steady, it must be nice to be firm

It must be nice never to move off the mark

It must be nice to be dependable and never let anyone down

It must be great to be all the things you're not

It must be great to be all the things that I'm not


I see you in the hospital your humor is intact

I'm embarrassed by the strength I seem to lack

If I was in your shoes

so strange that I'm not

I'd fold up in a minute and a half

and I didn't get a chance to say goodbye


It must be nice to be normal it must be nice to be cold

It must be nice not to have to go oh up or down

But me I'm all emotional no matter how I try

you're gone and I'm still here alive

and I didn't get a chance to say goodbye

No - I didn't get a chance to say goodbye


There are things we say we wish we knew and in fact we never do

But I'd wish I'd known that you were going to die

Then I wouldn't feel so stupid, such a fool that I didn't call

And I didn't get a chance to say goodbye

I didn't get a chance to say goodbye


No there's no logic to this - who's picked to stay or go

If you think too hard it only makes you mad

But your optimism made me think you really had it beat

So I didn't get a chance to say goodbye

I didn't get a chance to say goodbye



Lou Reed.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

REVISITANDO O VALE DOS ABUTRES: DEOLINDO TAVARES NA ILHA DOS PATRUPACHAS.

Extenuados, os patrupachas caem e morrem. No dia seguinte, sem saber de onde, surgem novos patrupachas à espera do cachorro d’água, que está sempre a fazer exercícios.
Ilha dos patrupachas, josé alcides pinto.

Uma vez, quando Judith saía do banho, willy tentou abraçá-la com seu sexo de ouro, mas no momento exato em que ia violentá-la, apareceram dois esqueletos que conseguiram afastar a fúria do poeta, usando espelhos importunos que cintilavam ante seus olhos brancos. Quando os desapareceram, willy adormeceu profundamente, pois sentia os olhos feridos. Ao despertar, notou que a irmã estava morta.
O vale dos abutres, josé alcides pinto.

Ainda ontem estive na ilha dos patrupachas, o poeta josé alcides pinto estava sentado no seu trono de especiarias – espichado como um lagarto cintilante. Em suas mãos magras e ósseas, se remexia inquieta e buliçosa, a poesia de deolindo tavares – o poeta devorava os lírios e a loucuras das aventuras de seu esquecido amigo, aprendendo com willy mompou brincadeiras e danças, seguindo os fios eróticos da teia das palavras e dos desejos em seus cânticos. O poeta parou por um instante e olhou para a imagem do cristo presa à parede, tirou do bolso uma caneta e precipitou-se a rabiscar seu acalanto para deolindo tavares, ou melhor, os versos finais do poema:

                   Tu foste, Deolindo, o poeta que mais tarde eu haveria de ser
de mãos nervosas e gestos de pássaro perseguido
em sua rota do azul – ou nas diversas cores dos teus poemas.

Imediatamente recordei do Vale dos Abutres, poema em prosa, onde a atmosfera da realidade poética, nos arranca do território da realidade ordinária e nos faz vislumbrar a surrealidade, o real maravilhoso, o fantástico. Esses três conceitos, cada um com uma história e com definições próprias acerca da estética e da política, formam justamente a pedra-de-toque das principais abordagens sobre a obra do poeta. Seu nome aparece sempre vinculado aos movimentos a qual correspondem estes conceitos: o surrealismo francês, o realismo mágico latino-americano, o existencialismo. Completando as interpretações críticas, encontramos a santíssima trindade dos temas: o sexo, a loucura e a morte. Sobre tudo isso, muita coisa já foi dita e explorada, embora, creio, muitas outras ainda serão. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção quando eu estudava sua obra, foi justamente esta leitura de deolindo que o poeta realizou em sua vivência na capital pernambucana. Foi lá que alcides entrou em contato mais direto com a experiência dos conflitos de classe, o mundo das greves e dos sindicatos, foi lá que o poeta escreveu os catadores de siris e incorporou a seu universo literário as condições miseráveis impostas pelas contradições econômicas de uma sociedade norteada pelos valores do capitalismo. Mas foi também na cidade do Recife que o poeta descobriu o lirismo onírico e o repertório de imagens que atravessam a saga de willy mompou. Os versos de deolindo impactaram profundamente sua escrita, era esse impacto que me interessava à época. Sobre ele, desejei escrever um poema em prosa, tendo como personagens os dois poetas, willy mompou, judith e os patrupachas.
Alguns anos se passaram e nunca consegui concluir este texto. Meu HD queimou e perdi os rascunhos dele. Vim morar no recôncavo e num dia comum, recebi por i1/2 a notícia de sua morte, ou melhor, de sua transfiguração. Não estava mais entre nós o mais versátil e criativo dos escritores cearenses do século XX. Não estava mais entre nós o mais aberto ao diálogo e à conversa dos poetas da província de Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção. Foi um dia triste. Nas margens do rio paraguassú, em frente ao point das morenas, fiquei sentindo a tristeza e a fúria daquele instante. Entregue às incertezas certeiras das perdas. Pensei na primeira vez que nos encontramos, meu nervosismo e seu jeito sério de brincar com as palavras e os palavrões. Pensei nas inúmeras conversas que tivemos e nas tantas outras que nunca chegamos a ter. Em seguida, fui à ilha dos patrupachas, onde presenciei a cena com que início este texto, e após o assalto das idéias relatadas, não resisti a revisitar o vale dos abutres, parei precisamente naquele ponto em que mary duncan veio até à janela para avisar mompou que os nazistas ameaçavam destruir o mundo. Acontece, porém, que os olhos do poeta descortinaram as paisagens mais negras que se possa imaginar. Então, pulando no topo de um girassol, o poeta abriu o vôo vermelho para um mundo tão distante do nosso, onde nenhum avião poderá alcançá-lo, e onde, por certo, jamais chegará um átomo destruidor. Fiquei em silêncio perante a beleza desta imagem, uma das tantas portas de entrada para este mundo de histórias não-ditas, tecidas com sonhos e delírios de homens que se recusaram a viver nos territórios estreitos da realidade e da morte – homens que se fizeram poetas e nos ajudam todo dia a superar o tédio das aparências e os sorrisos frios estampados nos outdoors de nossas desumanas cidades  neste esdrúxulo meio-dia industrial, onde qualquer um de nós, pode ser fatalmente engolido por uma motocicleta extraviada numa manhã de um sábado de sol.

nuno g.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

conheço meu lugar, belchior.

O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
Com a minha juventude
Quando a máxima saúde hoje
É pretender usar a voz?

O que é que eu posso fazer
Um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
Que sob a luz da lua
Os tratam como gente - é claro! - aos pontapés

Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)
Pois sou uma pessoa.
Esta é minha canoa: Eu nela embarco.
Eu sou pessoa!
A palavra "pessoa" hoje não soa bem
Pouco me importa!

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!

Belchior

segunda-feira, 31 de julho de 2017

winter song.

a chuva é um dos meus vícios
atirar contra o sol é o gesto mais inútil que se pode cometer
cada dia que passa mais me delicio em não fazer nada
em ficar em casa contando os sonhos perdidos
e tentando transformar em lagarto os utensílios domésticos
a melancolia é outro de meus vícios
não tão adorável quanto a chuva
mas tem lá sua serventia
atirar contra a memória é o segundo gesto mais inútil que se pode cometer
largar os vícios é uma bobagem
a vida não seria nada sem eles
assim como não seria nada sem a chuva ou sem a melancolia

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Metade pássaro, Murilo Mendes.

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.

Murilo Mendes.

semblanza de mi abuelo

hoje, ainda mais que sempre, sua voz em minha voz sussurra
sua alegria, em minha garganta, como um gigante azul desperta
suas mãos trêmulas já nas minhas reverberam
seu canto rouco em meus gestos loucos reencarna

hoje, ainda mais que sempre, sei que fui seu último sonho e pesadelo
sua última tempestade e criação
tão bem recordo suas sentenças sobre a morte
seu hálito de amor e cachaça coagulada
sua saudade exposta às vésperas sobre a mesa:
a cidade desaparecendo
as pessoas desaparecendo
os sentidos aturdidos
e o tempo apodrecendo à luz das lamparinas mortas

hoje, ainda mais que sempre, pressinto teu olhar pousando sobre minha filha
teus rancores corroendo a vastidão oferecida
e a desmedida do remorso incauto
abarcando com suas asas torpes
as fronteiras acesas de nossa imensidão

hoje, mais que nunca, o vento me traz tua imagem bíblica
faróis insanos, turbulentos mares
em meu peito segue a arder tua velha insígnia
e como as bestas do zodíaco alquímico
transfiguro-me e me dissolvo
em teu apocalipse: meu gênesis,
meu infeccionado chão.

nuno g.
Valle de bravo, 26 de novembro de 2014.

domingo, 25 de junho de 2017

..., por barbara uila.

1.

No fogo o Silêncio das garças
que invadem a cozinha
caminham pra casa no final da tarde e
dormem tumultuadas umas em cima das outras
vão em bando buscando seus lugares ao sol da noite
movimento do
rio de minha cadeira
de balanço, minha caneta na onda
das paginas
uma cadela que se levanta
e late em voz alta: estou de volta!
um trato com os ancestrais
forças divinas luminosas
atravessam o paraguaçu
enquanto um craqueiro
morre de overdose na santa Cecilia
santa que só salva os demônios
de vozes agudas…
as crianças brincam nos tatames
e video games não cabem na infância
que implora vida

2.

o sono leve de um colibri
e o canto do pássaro de fogo
confessa diante do pé da
bananeira silêncios
ancestrais
um traço da verdade
esta nos olhos
de águas prateadas:
movimento que
os barcos da faceira
tem
seria preciso um milhão
de pontos pra tua dança
caminhar nos grandes
salões solares do axé
teu branco alinhado
a tua alma: vibra um
rio embaraçado por
uma maré alta constante
perdi a hora em tecidos
que na verdade nos tecia
diante de uma víbora que
se enrola na própria calda
e mata a sede com o próprio veneno
os escorpiões de cuba também curam e:
temos cada um de presente da vida
calos na alma que mais parecem tijolos na mão
temos esse cheiro cheio de fogo
e faíscas que alcançam o teto da casa
teus passos na ponta da escada
cogitam sentidos de todos os lados
trava a porta
pra amarrar
o galo
tange os pintos
no quintal do
terreiro
o ifá flerta com os
búzios sobre a cama
e o cão que acompanha
Ogum late quando se aproxima
muito

3.

fiascos de chuva
umedecendo um
cais que vaga pela
manhã repleta de
garças
a linha do tiro fica
perto da minha praia
forte imponente
faz da linha uma
semente de sangue
ler um poema
do auto da ladeira
da minha rua
atravessar essa
rua e de uma ponta
a outra o sol e a lua
dividindo o dia
o poema bate de frente
com a realidade e encontra espelho
o punho afiado, afiando um
corpo presente que sente
fio condutor de uma sensibilidade
aguda infinitas são as coisas do dia-dia
(pia que parece instalação da bienal de artes do fim do mundo)
gardenal não aparece nas
letras sugeridas do teclado
do celular, o beijo de asas
fica pra próxima parada deste
carro que acelera diante de nos
eu sou um poema que esqueci
e a todo tempo tempo tento
entre raízes desabrochando
chão a fora chão a dentro
sumo do bagaço de todas
as memorias desterradas
eu sumo de mim, de meu povo

4.

coração anda em estado
de água ,
desaguando la onde os olhos puxados
chupam a espiritualidade da criação
coração em estado de água,
de asa, voando mesmo que claudicante
rumo aquele frio na barriga que se faz sentir
vivo
coração em estado de água,
buscando um furo no escuro
um tiro no sol:
sai uma luz a queima roupa
meu coração anda em estado de água
quando:
um indio velho de cócoras fazendo
cocô na esquina são joão – ipiranga:
desterritorializado
em frangalhos a cidade come vivo
a quem não dança a dança macabra
do capitalismo:
uma fumaça louca alucinante
lancinante, vida que se vai
vida que se esvai….
o forno da cidade aponta 300 graus célsius
e motos e carros acelaram feito liquidações
de natal
eu passei uma tarde linda
de plantações imensas de arroz
ao norte do vietnam
e suas velhas com seus
chapéus cônicos evitando
o bronzeado
tao sombrio quanto os apelidos
que se coloca no que se tem
vergonha
da fogueira que nos cabe nos
olhos,
da flor que nos escapa aos
dentes, sedentos de vida
o amor transbordando
feito um filme numa noite
fria e congelante no pico das agulhas negras
o poeta do instante cantou essa bola
décadas atrás
unhas felinas aderem uma
carne quente e suave
patas de elefante como sinais
de uma terra esquecida la atrás
onde memórias insistem
em planejar uma velha luz

barbara uila.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

...

É terrivelmente desgastante transformar entulho em desprezo.

isadora krieger.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

estética.

a beleza sem a verdade é a miséria do espírito e a miséria do espírito é pior que a morte.


nuno g.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

domingo.

antes do cinema
cerveja, feijão, poesia
    & o espinho da vida toda
atravessado na garganta
alice acordou, bernardo também
    & juntos foram salvar umas borboletas
que afundavam na areia movediça:
elas se salvaram sozinhas
a eles restaram as pipocas
– batatas de vencedores que resistem
a entregar suas infâncias...


nuno g.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

LOS HERALDOS NEGROS, por César Vallejo

Hay golpes en la vida tan fuertes... Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... Yo no sé!

Son pocos, pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre... Pobre... pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos Ilama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.

Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!

César Vallejo

quinta-feira, 8 de junho de 2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

desapontamento antibiográfico V: sangue, sêmen & mágoas.

caio, tens toda razão,
o coração não passa de um morango mofado
trancafiado num armário escuro
à prova de balas...


nuno g.

terça-feira, 23 de maio de 2017

desapontamento antibiográfico IV: a queda do céu, gente com buraco no peito & escadas para o nada.

Quando abri os olhos
  já era tarde:
o céu já havia caído
  e o buraco já estava lá
– cinzas, ossos, perfume & seda –
  era tudo que restava
um rio calado, uma cidade enfadada
  – cílios de arame farpado –
na boca até o mel sabendo a amargo...

quando abri os olhos
os mortos já estavam mortos
o fogo já em estado fátuo
– alma tem tempo próprio
se demora pra assentar coisas de dentro
limpar os trastes, arrumar a casa
se desfazer das tranqueiras
jogar fora o lixo acumulado nas entranhas
– alma vive longe
é a víscera que quando inflama canta
é o jardim que floresce quando machucado...

quando abri os olhos
esses cílios de arame farpado já estavam aqui
– cinzas, ossos, perfume & seda –
  era tudo que restava
onça ainda cantava
pedra ainda ensinava
e distante daqui,
  bem distante
corria um rio que ainda marulhava
respirava uma cidade que ainda dançava
&
embora fosse tarde
o céu já tivesse caído
e o buraco no peito fosse irremediável
havia um menino que paria borboletas
                                   tinha na pele todas as idades
e insistia em brincar de
  – com escaravelhos & estrelas –
    construir escadas
      que
        invariavelmente
          levariam outra vez
           ao nada de sempre...



nuno g.

sábado, 20 de maio de 2017

desapontamento antibiográfico I: cantares mexicanos.

tenho que te dizer
e sinto – muito –
só deus saberá quanto
você nunca esteve aqui – mesmo –
por isso talvez tenha doído mais    
por isso agora não mais
e saiba: sinto
por meus cantares mexicanos abandonados na calçada – nada –
todos os anos de león-portilla
– filologia, história, crítica & memória –  
esquecidos naquela federação de olhos ávidos
sugando seiva de árvore seca
– quase-morta –
nada muito mesmo sinto – agor
e isso tudo tão assintomático
explicitando a obviedade do fato
você nunca esteve aqui
, perdão, por ter de te comunicar,
os cantares mexicanos – nada –
desde o início estava claro
mas a paixão cega:
tua língua jamais seria capaz de soletrar o amor em náhuatl...


nuno g.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

RELÓGIO DE PONTO, por ALBERTO DA CUNHA MELO

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

ALBERTO DA CUNHA MELO

segunda-feira, 15 de maio de 2017

...

o sadismo e a imprudência andam de mãos dadas
¡aguas!
até uma flor pode chegar a ser descartável

nuno g.

domingo, 14 de maio de 2017

...

não sou nenhum erudito
embora tenha lido algo
não sou nenhum pervertido
embora alguma pornografia tenha consumido de fato
nunca fui proletário
embora tenha uma filha e algumas horas de vida com trabalho tenha gastado
não sou muito jovem nem velho
embora goste de vestir preto e saiba bem caminhar com cajado
de alcoólatra ou junkie passo longe
embora dificilmente dispense as alucinações induzidas
meu tempo é como meus olhos
esticado pros lados horizontais
raso na vertical
e tem por centro um sol esquecido
que em tudo se assemelha
à pupila dilatada...

nuno g.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

...

Olho e o que vejo me assusta. Bem menos que o assombro que me acompanhava antes. Que me fez ser o que fui por anos e anos. Tímido, recluso e ensimesmado. A poesia foi a mão que me disse venha, o mundo não é assim de todo mal e se sim é algo perigoso esse risco vale a pena, pois no fim das contas é tudo que se tem, é tudo que se pode aqui onde estamos, agarrei essa mão de com força, como quem não tem nada mais, como quem se encontra ante o último abraço. Tempo passou, rio correu, gente veio gente se foi. Primeiro pensei que quando muito algo havia já atingido por poder cantar um blues pra esfarinhar os ossos da saudade – não era nada ainda, ou melhor: era só um bom começo; favorável a persistência, diriam os caules de milefólio. Pé quente cabeça fria, em frente sempre. Coisa melhor haveria de vir. Caldeirão que muito se mexe apura o chá que se cozinha. Ainda que se demais se mexa se estraga o feitiço. Arquitetura difícil, magia braba e delicada – obrigação de ofício, imposição do destino, sina carregada & benção de poder aniquilar algazarra toda e escutar onças cantando: de poder no meio da estúpida sucessão de imagens e futilidades olhar e ver a arcaica carroça de fogo passeando pelo vale sagrado. Ainda olho e o que vejo me assusta, mesmo sabendo tudo o que sei – mesmo tendo sobrevivido a tudo que sobrevivi. Exu me chamou e me mandou escolher. Exu me soprou um segredo que é nosso: os que sobrevivem ou os que transcendem, mas isso depende da força que tu conserva nas tuas pernas, da natureza das asas que florescem em teu espírito, das capoeiras que abrem a foice da tua imaginação. Ninguém nessa vida é maior do que pode ser. Façanha nenhuma se pode empreender para além daquele repertório que nos antecede. Só o amor abre brecha. Perdão não é pra todo mundo, compaixão muito menos. É que não são só palavras. São larvas são musgos são esperas que nos antecedem e que aguardam oxigênio de gestos nossos. São sentimentos, silêncios, abrigos antigos que espreitam nossos passos desengonçados e sussurram enquanto estamos perdidos. A tristeza ou a alegria independem do intento que move nossa fábula. A história é antiga e não nos é dado conhecer sua origem e sua trajetória, mas por um desejo estranho e tortas veredas nos chegam os instrumentos as ferramentas os mecanismos para seguir caminhando e reconectando as linhas de força que escapam à nossa vã e obcecada razão. O mundo nos antecede como o punhal antecede à mão do que o amola. Como a presa antecede à fome do abutre que a persegue. Como a ilha ao náufrago que encontra areia para seu sono e descanso à sua ânsia de entregar-se à pureza de seus delírios. Ainda sabendo disso tudo olho e o que vejo me assusta. Escrevo. Enlouqueço. Entorpeço meus sentidos e abro minha pele ao que me trouxer o amanhã. Semeei um jardim e água não havia. Semeei em terra infértil. Hoje exu venceu. No susto dos meus olhos uma delicada borboleta acena de longe dissolvendo todas as promessas que não sobreviveram à véspera...

nuno g.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Um Cartão de Visita, por Alberto da Cunha Melo

Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.

Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.

Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.

É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.

Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.


Alberto da Cunha Melo

segunda-feira, 8 de maio de 2017

alívio, paralelepípedo de muitos lados.

nem todo mundo está pronto / pra receber as lições azuis do parto / tem gente que se afoga no próprio leite / tem gente que arma arapucas / tem gente que mata passarinhos / tem quem não mereça a cusparada que recebe / tem quem pense encontrar na morte a liberdade / tem quem ache que esquecimento se vende em farmácia / tem gente que é larva / gente que é vírus / gente que é lixo / nem todo mundo está pronto / pra receber as lições azuis do parto / tem quem ache que a vida é farra / tem quem sabe que o mundo é fera / tem quem pense ser possível ignorar o musgo da ressaca / tem gente que é vento / tem gente que é pedra / tem gente que é água / nem todo mundo está pronto / nem todo mundo é gente / pra uns o arco-íris é belo / pra outros é fardo / esporro / escarro / tem gente que é fogo / tem gente que é poeira / tem gente que é nada / tem gente que vive / tem gente que atrapalha / tem canto que é carne / tem quem não vale a maconha que fuma / tem canto que é faca / tem gente que é fardo / tem canto que é alma / tem gente que é só disfarce: que não vale sequer a pica que chupa / tem quem faz do próprio ego – régua medida compasso – imperativo ético da própria desgraça / nem todo mundo está pronto pra ter coração de palha / pra se deixar acolher no ninho e ser dádiva / tem gente que é nuvem: uva que apodrece antes de virar passa / tem poema que se faz com espinho & promessa de umidade / tem poema que é verde e dá flor / tem poema que é belo & áspero / tem poema que é resistente & delicado / tem poema que é cactos: oração de 116 bodes & 116 cabras.

nuno g.

Cachoeira, 18 de abril de 2017

a terceira dança do tempo

Algumas cicatrizes servem para nos lembrar do que não repetir. 
Outras nos dão vontade de sangrar novamente.

ayla andrade

pela terceira vez arranhei meu joelho na superfície da pedra
pela terceira vez sangrei em reverência e adoração
pela terceira vez engoli o silêncio e mastiguei o horizonte

nuno g.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

gracias craterdãm, gracias cachoeira, gracias fortaleza

ainda & sempre sob a má influência dos signos do zodíaco.


20 anos do cacos de cristo: 40 de planeta terra: solidão amor desesperança: o inferno no coração: fiapos de nuvens distorcidas escorrendo entre os dedos: camisa negra, calça jeans, ao som de lou reed: mantra de rutilância & escuridão: pupilas dilatadas & uma procissão de fantasmas: à sombra do sol esquecido, protegido por um daimon arcaico: pedra, rio, onça, imensidão: borboleta pousada no ombro esquerdo: sobrevoando os vales dos suicidas dos traidores dos mutilados: cultivando oceanos áridos: caminhando nos labirintos do calabouço de reticências: cruzando a floresta do esquecimento num alucinado automóvel verde: com os joelhos sangrando de tanto chão: anjo vermelho, alga marinha, mãos de passarinho: hálito de cachaça estrangulando a garganta aberta do inimigo: aprendiz do aprendiz de feiticeiro: magia & perda: costurando uma lua nova com os restos dos restos de sonhos apedrejados: fígado carcomido destilando o veneno das serpentes: regendo a frágil sinfonia do mito cósmico: venerando o amolador de punhais, o gavião e a estrela venérea que gravita entre os imperturbáveis anéis de saturno: girando a delicada roda de samsara e esperando a terceira dança do tempo: gratidão gratidão gratidão: janaína, marialice & a tarântula do paraguassú: carroças de fogo, cantos de onças, paredões de pedra: insano caleidoscópio girando entre ressentidas estrelas: nau insensata, jangada de náufragos: alguma música para ouvidos nada delicados: nenhuma paz, todos os rios, qualquer alegria: perfect day & que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês.


nuno g.

domingo, 2 de abril de 2017