sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
a sede insaciável do rio
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
O céu dos suicidas
Amanhã haverá eclipse.
E anéis de fogo incendiarão o céu da Antártida.
Seguirei aqui. Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação.
Com minhas mãos trêmulas acendendo velas aos suicidas.
E a chama da esperança que ainda deverá seguir queimando após a festa da carne.
Amanhã haverá eclipse.
Apesar de tudo ainda não será a hora do céu cair sobre nossas cabeças.
E o cheiro das últimas trepadas de carnaval estará disperso na atmosfera.
E os uivos e os gemidos e os berros das últimas trepadas de carnaval estarão dispersos no ar.
Serpenteando entre todos os versos que foram escritos pela Voz no ar.
Nas mais estranhas línguas jamais imaginadas.
Amanhã haverá lagrimas.
Uma flor arde em febre e a terra apoderada pela mais brilhante convulsão.
Seguirá girando entre as covas rasas e profundas dos suicidas.
Com suas estrelas e astros imprevisíveis.
Apesar da flor que arde em febre e seus banhos de paracetamol e codeína.
Apesar da flor que vomita a herança de todos seus antepassados.
E chora. E chora. E chora.
Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação e sonambulismo.
Amanhã haverá mais um eclipse.
E os cães. E os gatos. E os veterinários e os pediatras que cuidam das flores e
as protegem da fúria assassina dos jardineiros
estarão mergulhados na insana festa da carne e do sangue.
Amanhã haverá eclipse.
E dessa vez nenhuma profecia estremecerá o sereno transcurso do tempo.
nuno g.
16 de fevereiro de 2026.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
O livro de Hermenegildo
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Recém-parido
Nem tão frágeis são os ossos.
(...)
Muito cuidado com o recém-nascido.
Adélia Prado.
Era dia de caça.
Nem todas as rotas levam ao coração.
O sol escorregou sangrando por essa fenda entre tuas pernas.
E minhas mãos tocaram outra vez as areias do deserto.
Era dia do caçador.
Apenas uma rota leva ao coração.
Onde a lua ferve depois do desfecho inevitável.
E minhas mãos rogaram para que o Nada tornasse ao seu trono.
Era dia da caça e do caçador.
Que o coração invente sua rota.
E se liberte do cárcere da promessa do paraíso.
Não há flagelo maior que aquele que está por vir.
Era dia de louvar a mulher que pariu o sol.
Era tempo de saudar a batalha dos condenados a esculpir estátuas de sal.
O sangue que banhava o recém-nascido.
E a vontade de esquecimento que saltava do inferno de seus olhos.
Até os ossos mais resistentes viram cinzas.
Com clemência e piedade oramos ao cetro onde se apoia o rio curvo.
Os mortos clamam: abandonemos o temor às tentações.
Na floresta toda resistência é inútil.
Qualquer dia amanheceremos irreconhecíveis.
A moça do cartório registrou dezembro em sua ata de nascimento.
E com pluma leve e sorrateira escreveu nas águas radiantes:
Muito cuidado com o recém-nascido.
Os céus o protejam da angústia que caminha com a esperança.
nuno g.
Jesús María, 01/01/2026.