sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

a sede insaciável do rio

Chove sobre essa cidade e sobre os corações dos mortos e dos vivos que nela habitam.

Chove sobre essa cidade e sobre os sonhos que antecedem sua existência.

Chove sobre essa cidade e sobre suas esquinas encantadas.

Chove sobre essa cidade e sobre suas ruínas.

Chove sobre essa cidade e sobre seus feitiços, suas mentiras e suas esperanças.

Chove sobre o mercado, sobre o brega, sobre os terreiros e sobre as igrejas.

Chove sobre os sonhos que tive com essa cidade antes que ela existira.

Chove sobre a Serpente e sobre o veneno da Serpente.

Chove sobre as pequenas ilhas e as garças que nelas dormem.

Chove sobre as flores que semeei, sobre os frutos em germinação

        sobre o azeite que ferve no tacho da desolação.

Chove sobre o sono dos impávidos transeuntes que descansam a cabeça sobre a relva.

Chove sobre o que restou e sobre o que ainda não é.

Chove e nas águas que caem dos céus se percebe que há lágrimas, sangue e mel.

Chove sobre as orações dos cães, sobre as galinhas e sobre o pequeno cervo que vive às margens do lago da represa

Chove e o silêncio do sol se espalha como a noite imensa que nos salva de nós mesmos.

Chove e no meio das nuvens se pode ver uma tímida lua amarelada sorrindo.

Chove sobre a Faceira, o Toróró e o Engenho da Vitória.

Chove sobre a carne que é a face mais feroz do espírito.

Chove sobre as culpas, os pecados e o escárnio de todos os viventes.

Chove sobre a estupidez, a ignorância e a soberba humana.

Chove sobre os sentimentos de exaustão e repugnância.

Chove sobre o amor e a delicadeza.

Chove sobre os úteros em fúria e sobre os rios que compõem a paisagem.

Chove sobre os ombros de Tempo e sobre as ferramentas do Ferreiro.

Chove sobre a solidão, a angústia e o ódio que move astros e montanhas.

Chove sobre cada pensamento fascista e sobre a sombra que oculta cada gesto.

Chove sobre o Nada e sobre tudo que é inexistente.

Chove sobre os medos imaginários e sobre o ruído dos motores.

Chove sobre o sexo das meninas do brega.

Chove sobre a droga enterrada nos quintais.

Chove sobre a lápide do túmulo do meu filho.

Chove sobre o futuro corrompido e as pessoas anestesiadas e sonâmbulas.

Chove sobre os rostos envelhecidos e as saudações estéreis.

Chove e a alegria reina em cada gota de chuva.

Chove sobre a flor em febre e sua agônica maneira de estar no mundo.

Chove sobre os breviários onde estão catalogadas a traição e a falsidade da espécie.

Chove sobre os escorpiões e sobre o esperma derramado sobre a tristeza do lajedo.

Chove sobre as crianças, sobre os velhos, sobre os aleijados e sobre as formas indefinidas.

Chove sobre as palavras que ainda não nasceram.

Chove sobre tudo que até ontem parecia morto.

Chove sobre a crença bestial que move cada ser vivo.

Chove sobre as urtigas, sobre a covardia e sobre o gozo antecipado.

Chove sobre os insanos acarajés de realidade e sobre a poesia de Ronny Bonn.

Chove sobre o café e sobre a sonolência dos bêbados que amanhecem na rua da Feira. 

Chove sobre nossos ancestrais e nossos descendentes.

Chove sobre a igreja matriz e sobre a estátua de Nossa Senhora do Rosário.

Chove sobre cada passo de Chuín em direção ao amanhã que se dissolve.

Chove sobre as mentiras e sobre os ensinamentos que só a mentira é capaz.

Chove e a água escorre nas ladeiras do Quebra-bunda e do Manoel Vitório.

Chove sobre o rio pitanga e sobre a ladeira da cadeia.

Chove sobre a violência do passado.

Sobre a estupidez do presente.

E sobre a memória de todos os raios que anunciam o florescer da lúcuma, o desabrochar das                           espadas e a súbita aparição das roxas flores do Senhor São Miguel...

nuno g.
Toróró, 20 de fevereiro de 2026.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O céu dos suicidas

Amanhã haverá eclipse.

E anéis de fogo incendiarão o céu da Antártida.

Seguirei aqui. Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação.

Com minhas mãos trêmulas acendendo velas aos suicidas.

E a chama da esperança que ainda deverá seguir queimando após a festa da carne.

Amanhã haverá eclipse.

Apesar de tudo ainda não será a hora do céu cair sobre nossas cabeças.

E o cheiro das últimas trepadas de carnaval estará disperso na atmosfera.

E os uivos e os gemidos e os berros das últimas trepadas de carnaval estarão dispersos no ar.

Serpenteando entre todos os versos que foram escritos pela Voz no ar.

Nas mais estranhas línguas jamais imaginadas.

Amanhã haverá lagrimas.

Uma flor arde em febre e a terra apoderada pela mais brilhante convulsão.

Seguirá girando entre as covas rasas e profundas dos suicidas.

Com suas estrelas e astros imprevisíveis.

Apesar da flor que arde em febre e seus banhos de paracetamol e codeína.

Apesar da flor que vomita a herança de todos seus antepassados.

E chora. E chora. E chora.

Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação e sonambulismo.

Amanhã haverá mais um eclipse.

E os cães. E os gatos. E os veterinários e os pediatras que cuidam das flores e

    as protegem da fúria assassina dos jardineiros

       estarão mergulhados na insana festa da carne e do sangue.

Amanhã haverá eclipse.

E dessa vez nenhuma profecia estremecerá o sereno transcurso do tempo.


nuno g.

16 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O livro de Hermenegildo

Existe um saber que é do Mundo e um saber que é da terra.

Assim como existe um Sonho que sonha todos os sonhos que recordamos ao amanhecer.

O arco-íris segue matando a sede nas águas do rio.

E quem nos protege nos pediu outra vez dois cigarros.

Acesos. Como a boca da Serpente que nos guia.

A morte, apesar de já sabermos ser uma ilusão, é quem nos guia.

Para além de nós mesmos e da miséria que assola a imaginação.

Tempo balança as folhas e as asas dos beija-flores.

Quando todos se dizem poetas sabemos que a poesia entrou em estado terminal.

E todas as coisas importantes e necessárias estão mesmo em extinção.

A luz do amor é escura.

Quem conhece o fogo sabe que somos menos e que nisso reside o que importa.

Os gatos vem e vão como as algas marinhas.

A chuva tarda, mas chega.

Existe a sabedoria e o conhecimento.

Ao primeiro todas as nossas dívidas.

Ao segundo todo nosso reconhecimento.

Na sombra qualquer espelho reinventa sua serventia.

A lágrima de uma criança é da mesma natureza das nuvens.

Linguagem que não deciframos antes de ser devorados inteiramente.

O temor ao caos é insano, estúpido e egoísta.

Só à dor nosso respeito em sua máxima intensidade.

Na lua o seio que goteja o leite por todo o sempre.

Até que os cegos cheguem à fronteira e vejam que não há abismo.

Que nunca houve abismo.

E que deus é a palavra mais bonita para nomear o inominável.

Não há solidão sincera onde não habite o que a linguagem vulgar chama Além.


nuno g.
Toróró, 13 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Recém-parido

Nem tão frágeis são os ossos.

(...)

Muito cuidado com o recém-nascido.

Adélia Prado.


Era dia de caça.

Nem todas as rotas levam ao coração.

O sol escorregou sangrando por essa fenda entre tuas pernas.

E minhas mãos tocaram outra vez as areias do deserto.

Era dia do caçador.

Apenas uma rota leva ao coração.

Onde a lua ferve depois do desfecho inevitável.

E minhas mãos rogaram para que o Nada tornasse ao seu trono.

Era dia da caça e do caçador.

Que o coração invente sua rota.

E se liberte do cárcere da promessa do paraíso.

Não há flagelo maior que aquele que está por vir.

Era dia de louvar a mulher que pariu o sol.

Era tempo de saudar a batalha dos condenados a esculpir estátuas de sal.

O sangue que banhava o recém-nascido.

E a vontade de esquecimento que saltava do inferno de seus olhos.

Até os ossos mais resistentes viram cinzas.

Com clemência e piedade oramos ao cetro onde se apoia o rio curvo.

Os mortos clamam: abandonemos o temor às tentações.

Na floresta toda resistência é inútil.

Qualquer dia amanheceremos irreconhecíveis.

A moça do cartório registrou dezembro em sua ata de nascimento. 

E com pluma leve e sorrateira escreveu nas águas radiantes:

Muito cuidado com o recém-nascido.

Os céus o protejam da angústia que caminha com a esperança.



nuno g.

Jesús María, 01/01/2026.