sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

os descendentes de Hermenegildo

O que somos não nos ama

Quer apenas morrer ferozmente

Ferreira Gullar


Obrigação se cumpre.

E o ponto final ecoou como ecoa o escuro das noites nubladas.

A Pina desapareceu.

Justamente a mais caseira, a mais carinhosa, a menos arredia.

Essa estrada que se abre dentro dos olhos e que leva ao epicentro do Mundo.

Obrigação se cumpre.

Há quem pense tolices e barbaridades sobre o amor e o inferno.

São os mesmos que temem o Nada e a morte.

Não há vento que não tenha nome.

E não há nome que não guarde um segredo dentro.

Obrigação se cumpre.

E a voz do Velho soou mais velha que as raízes mais velhas da floresta.

Uma flecha riscou o entardecer e iluminou a coroação.

Hermenegildo sorriu olhando de soslaio sua prole.

E a prole da sua prole.

E o passado que se descortinou ante a miséria em que nos encontrávamos.

Obrigação se cumpre.

Talvez tenha sido a voz do rio.

Talvez tenha sido a voz de Tempo.

A única certeza é que a Serpente seguiu seu caminho.

E deixou para trás tudo que não era capaz de germinar.

As mãos do Ferreiro incendeiam o Mundo quando necessário.

Atrás do Arco existe um Sol Esquecido.

Obrigação se cumpre.

Não estava escrito em nenhum lugar.

Era apenas uma suave pulsação se propagando no ar.

A Pina desapareceu como Judite.

E o céu ganhou mais uma estrela para colorir o que os antigos chamavam Destino.

Amanhã talvez volte a chover sobre nossos sonhos.

Herança é algo que nos consome lentamente.

Como as brasas de um fogo que insiste em arder apesar de tudo.


nuno g.

Toróró, 27 de fevereiro de 2026.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

árvore genealógica

Chegou a quaresma.

As moscas e os sussurros que escorrem dentro.

Como leite, mel ou aqueles silêncios que marcam o ritmo das histórias.

O inferno é mesmo um lugar encantador e adorável.

A delicadeza da trajetória da bala que abateu o corpo de meu pai segue.

E nem por um átimo de segundo esqueço o sinuoso movimento de minha mãe em direção ao chão.

Não esquecer é também uma dádiva preciosa.

Pesadelos dizem mais sobre o que somos que as máscaras pré-fabricadas dos brincantes de carnaval.

A vida no inferno não tem data de vencimento.

E os acarajés de realidade que mastigamos cotidianamente não têm prazo de validade.

Chegou mais uma quaresma.

Melhor época do ano para reler os cantos de Lúcifer e fúria.

Poemas ainda mais necessários numa época em que tudo é psicologia barata e misticismo vulgar.

Fante está aqui ao meu lado e conversa com minha sombra.

Falamos sobre um casal de veganos que trepavam loucamente na casa vizinha.

Os gatos vão e vêm.

As algas marinhas vão e vêm.

O passado vai e vem.

Como a corda de um ioiô ou uma peteca girando no subsolo.

O inferno é mais interessante que qualquer livraria contemporânea.

Abarrotada de livros de autoajuda.

O amolador de punhais também é um bom livro para se ler na quaresma.

Fante sorri. Ele sabe que não há mais nada para nós nesse mundo.

Amar as náuseas sobre todas as coisas.

E trepar como se o mundo fosse explodir amanhã.

No mercado de Breña uma muçulmana segue fazendo suas compras tranquilamente.

Assucena cismou com o livro que tem um pato na capa.  

Esquecer é também uma dádiva preciosa.

Principalmente quando já se honrou o que deve ser honrado.

Quando se abandonou o que deve ser abandonado.

E quando o medo da morte já perdeu todo e qualquer sentido.

Gastamos as horas e todos os produtos de limpeza na casa.

As moscas não desapareceram, afinal, estamos na quaresma.

Mas sua presença nos incomodou muito menos que antes.

E no cemitério de Bom Jesus dos Aflitos alguém acendeu uma vela num túmulo de azulejos azuis.

Suas mãos trêmulas e seu olhar esguio denunciavam que sua intenção era impossível.

Talvez estivesse apenas agradecendo a desaparição de certa atmosfera.

E de toda a possível bondade que lhe impediu de atingir por um instante a felicidade.

Um raio cruzou os céus. Você viu amor?

Não, eu estava com os olhos fixos na estrada que leva ao inferno.

Meu tataravô enfeitiçava os céus com fogos de artíficio.

Meu bisavô espalhava ideias maçônicas e liberais na radiadora do sertão.

Minha mãe voava como pássaros.

Eu escrevo versos contra esse tempo e a morte que o habita.

Respiramos juntos.

E a ave-maria de Luiz Gonzaga soou no rádio.

Mais uma noite de leite, mel e silêncio.

O inferno tem suas delícias.

Na biblioteca dos poemas perdidos não existe distinção entre lembrança e esquecimento.

Tudo são moscas e sussurros.

A quaresma chegou.

Não há máscara que se encaixe no rosto da eternidade.


nuno g.

Toróró, 26 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

a sede insaciável do rio

Chove sobre essa cidade e sobre os corações dos mortos e dos vivos que nela habitam.

Chove sobre essa cidade e sobre os sonhos que antecedem sua existência.

Chove sobre essa cidade e sobre suas esquinas encantadas.

Chove sobre essa cidade e sobre suas ruínas.

Chove sobre essa cidade e sobre seus feitiços, suas mentiras e suas esperanças.

Chove sobre o mercado, sobre o brega, sobre os terreiros e sobre as igrejas.

Chove sobre os sonhos que tive com essa cidade antes que ela existira.

Chove sobre a Serpente e sobre o veneno da Serpente.

Chove sobre as pequenas ilhas e as garças que nelas dormem.

Chove sobre as flores que semeei, sobre os frutos em germinação

        sobre o azeite que ferve no tacho da desolação.

Chove sobre o sono dos impávidos transeuntes que descansam a cabeça sobre a relva.

Chove sobre o que restou e sobre o que ainda não é.

Chove e nas águas que caem dos céus se percebe que há lágrimas, sangue e mel.

Chove sobre as orações dos cães, sobre as galinhas e sobre o pequeno cervo que vive às margens do lago da represa

Chove e o silêncio do sol se espalha como a noite imensa que nos salva de nós mesmos.

Chove e no meio das nuvens se pode ver uma tímida lua amarelada sorrindo.

Chove sobre a Faceira, o Toróró e o Engenho da Vitória.

Chove sobre a carne que é a face mais feroz do espírito.

Chove sobre as culpas, os pecados e o escárnio de todos os viventes.

Chove sobre a estupidez, a ignorância e a soberba humana.

Chove sobre os sentimentos de exaustão e repugnância.

Chove sobre o amor e a delicadeza.

Chove sobre os úteros em fúria e sobre os rios que compõem a paisagem.

Chove sobre os ombros de Tempo e sobre as ferramentas do Ferreiro.

Chove sobre a solidão, a angústia e o ódio que move astros e montanhas.

Chove sobre cada pensamento fascista e sobre a sombra que oculta cada gesto.

Chove sobre o Nada e sobre tudo que é inexistente.

Chove sobre os medos imaginários e sobre o ruído dos motores.

Chove sobre o sexo das meninas do brega.

Chove sobre a droga enterrada nos quintais.

Chove sobre a lápide do túmulo do meu filho.

Chove sobre o futuro corrompido e as pessoas anestesiadas e sonâmbulas.

Chove sobre os rostos envelhecidos e as saudações estéreis.

Chove e a alegria reina em cada gota de chuva.

Chove sobre a flor em febre e sua agônica maneira de estar no mundo.

Chove sobre os breviários onde estão catalogadas a traição e a falsidade da espécie.

Chove sobre os escorpiões e sobre o esperma derramado sobre a tristeza do lajedo.

Chove sobre as crianças, sobre os velhos, sobre os aleijados e sobre as formas indefinidas.

Chove sobre as palavras que ainda não nasceram.

Chove sobre tudo que até ontem parecia morto.

Chove sobre a crença bestial que move cada ser vivo.

Chove sobre as urtigas, sobre a covardia e sobre o gozo antecipado.

Chove sobre os insanos acarajés de realidade e sobre a poesia de Ronny Bonn.

Chove sobre o café e sobre a sonolência dos bêbados que amanhecem na rua da Feira. 

Chove sobre nossos ancestrais e nossos descendentes.

Chove sobre a igreja matriz e sobre a estátua de Nossa Senhora do Rosário.

Chove sobre cada passo de Chuín em direção ao amanhã que se dissolve.

Chove sobre as mentiras e sobre os ensinamentos que só a mentira é capaz.

Chove e a água escorre nas ladeiras do Quebra-bunda e do Manoel Vitório.

Chove sobre o rio pitanga e sobre a ladeira da cadeia.

Chove sobre a violência do passado.

Sobre a estupidez do presente.

E sobre a memória de todos os raios que anunciam o florescer da lúcuma, o desabrochar das                           espadas e a súbita aparição das roxas flores do Senhor São Miguel...

nuno g.
Toróró, 20 de fevereiro de 2026.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O céu dos suicidas

Amanhã haverá eclipse.

E anéis de fogo incendiarão o céu da Antártida.

Seguirei aqui. Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação.

Com minhas mãos trêmulas acendendo velas aos suicidas.

E a chama da esperança que ainda deverá seguir queimando após a festa da carne.

Amanhã haverá eclipse.

Apesar de tudo ainda não será a hora do céu cair sobre nossas cabeças.

E o cheiro das últimas trepadas de carnaval estará disperso na atmosfera.

E os uivos e os gemidos e os berros das últimas trepadas de carnaval estarão dispersos no ar.

Serpenteando entre todos os versos que foram escritos pela Voz no ar.

Nas mais estranhas línguas jamais imaginadas.

Amanhã haverá lagrimas.

Uma flor arde em febre e a terra apoderada pela mais brilhante convulsão.

Seguirá girando entre as covas rasas e profundas dos suicidas.

Com suas estrelas e astros imprevisíveis.

Apesar da flor que arde em febre e seus banhos de paracetamol e codeína.

Apesar da flor que vomita a herança de todos seus antepassados.

E chora. E chora. E chora.

Neste não-lugar de vinho em perpétua fermentação e sonambulismo.

Amanhã haverá mais um eclipse.

E os cães. E os gatos. E os veterinários e os pediatras que cuidam das flores e

    as protegem da fúria assassina dos jardineiros

       estarão mergulhados na insana festa da carne e do sangue.

Amanhã haverá eclipse.

E dessa vez nenhuma profecia estremecerá o sereno transcurso do tempo.


nuno g.

16 de fevereiro de 2026.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O livro de Hermenegildo

Existe um saber que é do Mundo e um saber que é da terra.

Assim como existe um Sonho que sonha todos os sonhos que recordamos ao amanhecer.

O arco-íris segue matando a sede nas águas do rio.

E quem nos protege nos pediu outra vez dois cigarros.

Acesos. Como a boca da Serpente que nos guia.

A morte, apesar de já sabermos ser uma ilusão, é quem nos guia.

Para além de nós mesmos e da miséria que assola a imaginação.

Tempo balança as folhas e as asas dos beija-flores.

Quando todos se dizem poetas sabemos que a poesia entrou em estado terminal.

E todas as coisas importantes e necessárias estão mesmo em extinção.

A luz do amor é escura.

Quem conhece o fogo sabe que somos menos e que nisso reside o que importa.

Os gatos vem e vão como as algas marinhas.

A chuva tarda, mas chega.

Existe a sabedoria e o conhecimento.

Ao primeiro todas as nossas dívidas.

Ao segundo todo nosso reconhecimento.

Na sombra qualquer espelho reinventa sua serventia.

A lágrima de uma criança é da mesma natureza das nuvens.

Linguagem que não deciframos antes de ser devorados inteiramente.

O temor ao caos é insano, estúpido e egoísta.

Só à dor nosso respeito em sua máxima intensidade.

Na lua o seio que goteja o leite por todo o sempre.

Até que os cegos cheguem à fronteira e vejam que não há abismo.

Que nunca houve abismo.

E que deus é a palavra mais bonita para nomear o inominável.

Não há solidão sincera onde não habite o que a linguagem vulgar chama Além.


nuno g.
Toróró, 13 de fevereiro de 2026.