sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O livro de Hermenegildo

Existe um saber que é do Mundo e um saber que é da terra.

Assim como existe um Sonho que sonha todos os sonhos que recordamos ao amanhecer.

O arco-íris segue matando a sede nas águas do rio.

E quem nos protege nos pediu outra vez dois cigarros.

Acesos. Como a boca da Serpente que nos guia.

A morte, apesar de já sabermos ser uma ilusão, é quem nos guia.

Para além de nós mesmos e da miséria que assola a imaginação.

Tempo balança as folhas e as asas dos beija-flores.

Quando todos se dizem poetas sabemos que a poesia entrou em estado terminal.

E todas as coisas importantes e necessárias estão mesmo em extinção.

A luz do amor é escura.

Quem conhece o fogo sabe que somos menos e que nisso reside o que importa.

Os gatos vem e vão como as algas marinhas.

A chuva tarda, mas chega.

Existe a sabedoria e o conhecimento.

Ao primeiro todas as nossas dívidas.

Ao segundo todo nosso reconhecimento.

Na sombra qualquer espelho reinventa sua serventia.

A lágrima de uma criança é da mesma natureza das nuvens.

Linguagem que não deciframos antes de ser devorados inteiramente.

O temor ao caos é insano, estúpido e egoísta.

Só à dor nosso respeito em sua máxima intensidade.

Na lua o seio que goteja o leite por todo o sempre.

Até que os cegos cheguem à fronteira e vejam que não há abismo.

Que nunca houve abismo.

E que deus é a palavra mais bonita para nomear o inominável.

Não há solidão sincera onde não habite o que a linguagem vulgar chama Além.


nuno g.
Toróró, 13 de fevereiro de 2026.